Dormindo Com Fantasmas - Naruto
29 Goals
Notas iniciais
Os corredores eram brancos com detalhes verdes, e pareciam nunca acabar. Shizune parou de repente, o que quase fez com que Sakura se chocasse contra ela. Abriu uma das últimas portas, disse algo baixinho para a pessoa lá dentro e depois cochichou um "vou deixá-las a sós". Saiu.
Sakura respirou fundo mais uma vez. Fechou brevemente os olhos e empurrou a porta mais um pouco. Suas mãos tremiam levemente. Era esse o efeito que sua mãe causava, e suspeitava que não era só nela.
O quarto era grande e iluminado, com cortinas brancas e grandes janelas, como ela gostava. Havia dois sofás confortáveis e uma televisão num bom tamanho em frente à cama.
Hitomi tinha inúmeras aparelhagens à sua volta, a testa estava enfaixada, e também havia bandagens em boa parte do lado esquerdo do rosto. Mas, mesmo assim, ela sorria. E seu sorriso estava intacto.
- Olá, querida — disse, num tom animado — Vejo que está de namorado novo — ela apontou para a revista que trazia uma foto de Sakura e Gaara na capa, zombeteira.
- Hmphf — revirou os olhos — Temos coisas mais importantes pra falar.
- Oh, tem razão — Hitomi lançou um de seus olhares sugestivos.
- Por que impediu minha entrada esses dias todos?
Ela suspirou fininho — Precisava analisar a nova situação sozinha. Agora temos um panorama pra definir, por isso te chamei aqui.
- Hã? — Sakura não entendeu nada.
- Sente-se, sente-se — fez um gesto singelo que lhe era permitido por causa das aparelhagens, com a mão.
Sakura se sentou em um dos sofás, cruzando os braços num "pode me explicar agora?"
- Veja bem nossa realidade agora. Eu vou ficar confinada numa cadeira de rodas e-
- É só uma possibilidade — Sakura interrompeu.
- A possibilidade é que eu possa voltar a andar com tratamento, mas prefiro não confiar no que não é certo — ela repreendeu — Continuando, eu tive essa lesão no rim, na base do rim, e isso vai restringir minhas ações — ela mordeu o lábio inferior — vou ter que ficar com essas aparelhagens de tempos em tempos, o que não é oportuno para a presidente de um conglomerado. Por isso, minha sucessora, no caso, você, já que seu irmão decidiu que quadros e guitarras dão sustento a alguém, terá que se preparar pra me suceder mais rápido do que estava previsto. Ou seja, assim que você tiver o mínimo de preparação profissional.
Sakura balançou a cabeça — Eu não entendo isso. Digo, ficar numa cadeira de rodas nunca foi impecílio pra ninguém, e você é dona daquilo, não vejo por que...
Parou, ao ver que Hitomi olhava para o teto, ignorando-a.
- A sua ingenuidade é comovente — a mulher retomou — exemplos de superação são hipocrisias divulgadas na televisão, mas ninguém realmente precisa de um. E não seria a cadeira que me impediria. Você ouviu o que a Shizune disse sobre meu rim e as complicações?
Sakura entortou a boca para o lado. Arrependeu-se de não ter dado a devida atenção à Shizune. Fez que sim.
- No mundo dos negócios, as coisas não são tão simples. Num projeto como a Teruya, existem várias pessoas envolvidas, acionistas, investidores, parceiros. São várias peças que constroem uma torre enorme, e cada uma dessas pecinhas têm que estar satisfeitas, se não, elas saem de fininho, e a torre cai. O mundo é cheio de julgamentos por aparências, e com certeza, alguém como eu agora não teria a mesma eficiência nem credibilidade de alguém como eu era antes. E as pecinhas não vão ficar satisfeitas com isso. Eles não podem me tirar a Teruya, mas eles podem fazer com que não valha a pena possuí-la.
Sakura franziu o cenho, com a cabeça um pouco baixa.
- Entendeu esse ponto?
Ela encarou a mãe e fez que sim.
- Então vamos ao próximo ponto, Fugaku. Creio que está ciente da situação dele, certo?
- Uhum.
- Bom. Vamos ver as possibilidades. Se Fugaku morrer, tudo será mais fácil. Nós temos o primogênito dele, mas está preso, e também não sabemos se teria interesse em administrar. Então seu concorrente certo seria o Sasuke — olhou a filha dos pés à cabeça — Certamente, ele tem mais competência que você, mas nós poderíamos dar um jeito nisso, até porque a reputação que o pai dele construiu não o ajudaria em nada. Mas, se ele viver, tudo complica. Apesar de tudo, o nome de Fugaku ainda pesa. Eu já estava quase tirando-o daquela cadeira, mas aí vem esse acidente — Hitomi suspirou — enfim. Seria difícil pra alguém nova e sem experiência nenhuma no mercado sobrepujar a tradição dos Uchiha.
Sakura tirou Hitomi de seus pensamentos — Então podemos considerar que você está torcendo para que ele morra?
Hitomi fez um bico de reprovação — Você encara as coisas de um modo muito direto, querida.
A Haruno soltou um riso exasperado — Impossível. Eu não acredito que vim aqui pra ouvir isso. Escuta, eu não quero alcançar meu sonho com base na morte de alguém, entendeu?
A expressão de Hitomi se tornou séria, como era muito raro de se ver.
- Escuta aqui você, Sakura. Isso não é sobre o sonhozinho de uma adolescente idiota. É egoismo e tolice demais pensar dessa forma. É muito maior que isso, está me ouvindo? Isso é o projeto de uma vida inteira, da minha vida inteira, entendeu? Fugaku pode morrer, isso é um fato. Não é minha culpa, eu não pedi por isso, mas é um fato. E nós temos que tirar proveito dele. Não há espaço pra sentimentalismos e empatias na pasta de um executivo, entendeu? Se você for guardar peninhas de todos e escrúpulos, acho melhor procurar outra coisa pra fazer na vida. Vá engolir tintas, assim como seu irmão, e pare de me importunar.
Sakura segurou mais forte o apoio do sofá — Tudo bem — ela disse, com uma voz gelada.
- Sinceramente, se não fosse esse cabelo rosa, eu duvidaria que você fosse minha filha. Era isso que eu tinha para te dizer. Agora está ciente da situação. Espero que isso te mantenha consciente sobre o Sasuke e tudo o que eu disse sobre não se aproximar desnecessariamente dele.
Ela engoliu em seco.
- Em outra ocasião, lhe falarei mais. Agora estou cansada — fechou os olhos.
Era estranho ver os lábios de Hitomi se moverem sem o batom vermelho. Era estranho como ela conseguia falar de sua própria condição limitadora com tanta facilidade. Aquilo frustrara todos os seus planos e metas, mas mesmo assim, ela falava como se já houvesse superado aquilo em apenas alguns míseros dias.
Sakura se levantou, mas antes de alcançar a porta, teve um estalo. Virou-se para Hitomi mais uma vez.
- Me disseram que a médica responsável, uma tal de Tsunade Senju, é sua amiga de longa data. É verdade? — o passado da mãe era algo que sempre lhe despertara curiosidade.
- Uhum. Eu, Tsunade, Fugaku, e mais uns outros que não vale a pena citar.
- Fugaku? Quer dizer que você o conhecia há muito tempo?
Hitomi soltou uma risada discreta, abrindo os olhos — Fugaku e eu éramos noivos, querida.
Sakura mudou o peso do corpo para o outro pé, em choque — Noivos? E então, o-o que aconteceu?
- Coisas sem importância, Sakura. O passado não merece ser lembrado.
- O que aconteceu? — ela repetiu a pergunta, firme.
Hitomi levantou uma sobrancelha minimamente, encarando-a.
- Aconteceu que eu conheci o pai do Seiji, e preferi ficar com ele. E então, Fugaku fez a única coisa inteligente de sua vida, casou-se com Mikoto. Fim.
- Mas-
Sakura faria outras perguntas, mas a porta foi aberta por Shizune.
- Desculpe-me, mas o tempo de visitas acabou. Sua mãe precisa descansar.
Ela soltou um suspiro profundo.
- Amanhã eu venho de novo — avisou.
- Estarei esperando. Sua presença é a única coisa que me conforta nesse período difícil, meu anjo — Hitomi sorriu.
Sakura soltou um "humphf" baixo e rolou os olhos, acompanhando Shizune de volta ao corredor.
...
Não soava natural ser acordada pelo despertador antes das seis e lembrar que era segunda-feira. Que tinha uma aula para ir, e que dali a uma semana, enfrentaria as provas. Havia até se esquecido da escola, mas era bom demais para que fosse efetivamente real.
No dia anterior, quando chegara do hospital, Gaara descia as escadas acompanhado de Temari, que tinha vindo buscá-lo para morar com ela. O ruivo não gostara nada da ideia de morar com uma irmã, mas não queria ter incômodos problemas com os pais, e terminantemente não queria voltar para a Califórnia, não tinha escolha. Temari desculpou-se por todo o transtorno que seu irmão com certeza havia sido, enquando Gaara mantinha sua expressão séria, olhando para um ponto fixo qualquer, e Sasuke matinha um leve sorriso de canto, provavelmente se divertindo com o desconforto do ruivo.
Havia se tornado estranho não ter Gaara ali para o café da manhã, no fim das contas.
- Bom dia — disse, quando viu Sauke entrar na cozinha e pegar sua xícara. Ele se aproximou e colou seus lábios nos dela, abrindo a geladeira à procura de leite logo em seguida.
Assim que pusseram os pés na calçada da escola, Tenten veio ao encontro deles, apressada. Tomou seu lugar ao lado de Sakura, enquanto se dirigiam para o gramado.
- Então, a cirurgia do tio Fugaku é hoje, não é?
Sakura levantou o olhar para encarar Sasuke. Ele mantinha sua expressão neutra.
- Sim, é hoje. Eu... Eu vou ficar lá, pra saber o resultado, não é. Você também vai?
- Claro. Minha mãe tem que assinar uma papeladas, pra autorizar a operação e essas coisas. Nós vamos ficar por lá também.
- Como sua mãe está?
- Nervosa, né? É o único irmão dela, e numa cirurgia tão perigosa... Ela está realmente mal.
- Perigosa? — Sakura arqueou uma sobrancelha.
- É. Shizune não lhe disse?
Claro. Shizune. De novo.
- Setenta e cinco por cento de chances de que corra tudo bem — Tenten continuou — O que afinal, não é tão animador hoje em dia.
- Ah, entendi. São aproximadamente quatro horas e meia de cirurgia, não é? — pelo menos isso havia escutado.
- É. Mais ou menos isso — Tenten inclinou a cabeça para frente, de forma que pudesse visualizar o primo — Você vai, Sasuke?
- Claro — ele disse, com um sorriso zombeteiro — ele é meu pai.
Diminuiram a velocidade, vendo Hinata e Naruto conversando perto de uma árvore. Tenten passou pela frente de Sakura rapidamente e tirou o cigarro da boca do moreno, dizendo algo sobre ser proibido da escola, seria possível ele não saber? Jogou-o no chão, ao que Sasuke respondeu que com certeza era correto deixar cigarros acessos na grama.Sakura apenas assistia a Hinata colocar a mão na boca para rir de alguma coisa que o loiro dizia, tentando repudiar a ponta de ciúmes que aquilo lhe causava.
Kiba chegou perto deles, colocando a mão no ombro de Naruto. "Finalmente está saindo da seca, hein?" ele dizia. Naruto ficou nervoso e o xingou milhares de vezes, gaguejando aqui e acolá. Hinata apenas ficou tão vermelha quanto poderia ficar, remexendo as mãos freneticamente.
- Ei! — Naruto fez um aceno, ao ver os três que chegavam, passando os olhos animadamente por Sakura e Tenten, e não tão animadamente assim por Sasuke — Sakura, como está sua mãe? — ele perguntou chegando perto dela, preocupado.
- Bem... Na medida do possível. Falei com ela ontem.
- Sério? — Tenten se manifestou — Por que recusou visitas esse tempo todo?
Sakura olhou para Sasuke rapidamente — Ah, sabe como é, estava se conformando com a possibilidade de não poder mais andar. Vocês sabem como ela é orgulhosa.
- E ai, sobre o que falaram?
Sim, Mitsashi e sua incrível habilidade de se meter em assuntos que com certeza não eram de sua conta.
- Hm, essas coisas de mãe e filha, trivialidades, essas coisas, assim.
Tenten balançou a cabeça afirmativamente, e, antes que pudesse perguntar mais algo, o sinal tocou, fazendo Sakura respirar aliviada pela primeira vez na vida por uma aula de matemática.
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