Dormindo Com Fantasmas - Naruto

6 If I am Edward Rochester, you are Jane Eyre


Notas iniciais
Muita coisa acontece aqui! Boa leitura ^-^

Tudo o que elas não fizeram foi fazer compras. Hitomi levou Sakura diretamente a um café amplo e confortável. Não disse uma palavra até que as duas se sentassem à mesa.

– Tive que te trazer até aqui porque as paredes daquela casa velha provavelmente têm ouvidos.

– Ah, eu acho que você perdeu tempo. Já sei o que você quer, não vou ser desagradável com o seu marido e esse blá blá blá todo que você quer.

– Querida, já deveria saber que eu não perco tempo. Não é só isso que eu quero esclarecer. Eu precisava de você lá comigo porque você vai me ajudar. Fique atenta a tudo o que eles dizem, estabeleça uma boa relação com eles e nunca fale muito sobre você mesma.

– Ok, ok — Sakura dizia com tédio — Eu já sabia que ia ter que te ajudar a passar a perna no Uchiha.

– Sakura — Hitomi adquiriu um tom sério — Não pense que estou dando um golpe num cara apaixonado por mim. Fugaku está nessa por praticamente a mesma coisa que eu. Eles são espertos, não os subestime.

– Tudo bem, mãe, eu não sei se você percebeu, mas eu e aqueles dois não temos exatamente a mesma sintonia, não é como se eu fosse me tornar amiga deles.

Hitomi olhou a postura relaxada e confiante da filha. Deu um gole no seu café com licor e fechou os olhos mais pausadamente em sinal de calma.

– Ah... E mais uma coisa, Sakura. Não se apaixone pelo Sasuke.

Sakura não conseguiu conter a risada alta — Ow, a mamãe dedicada está com medo de que os dois irmãozinhos cometam incesto, é isso? — ela fazia uma voz infantil de deboche.

– Hm, não é nada disso. Na verdade, seria até bom se você tivesse esse tipo de relação com aquele garoto, para mantê-lo, digamos, sob controle. Porém — Hitomi fechou os olhos e soltou um sopro de reprovação — Eu sei que você não seria capaz de se aproximar dele sem se apaixonar.

Sakura franziu as sobrancelhas, irritada — Nem se eu fizesse um esforço desumano eu conseguiria me apaixonar por aquele Uchiha, entendeu? Isso é impossível. Além disso, eu não sei se você esqueceu, mas eu namoro o Naruto. Eu amo o Naruto.

Os olhos cor de caramelo se estreitaram, analisando profundamente olhos verdes na sua frente.

– Você ainda vai aprender que... O amor não é algo definitivo. Não diga que ama alguém como se nada pudesse mudar isso.

Sakura mal ouviu o que Hitomi disse. Mantinha o olhar focado em outra direção, ainda irritada.

– Sakura... — ela continuou — Você sabe que, atualmente, meu testamento deixa o máximo para você e o mínimo para o Seiji. Mas eu estou sempre revendo isso. Só uma palavra minha e meu advogado muda tudo.

– Você poderia ser mais clara, por favor?

– Tudo bem. Se você se aproximar, se você se apegar ao Sasuke, vai colocar tudo a perder. Ele não é burro, ele vai te usar, e vai passar a perna em nós duas. Isso seria o nosso fim. Portanto, se você começar a se apaixonar pelo Sasuke, Sakura, eu vou tirar de vez qualquer chance sua de chegar perto da Teruya, da empresa que você diz querer tanto. Eu risco você do meu testamento. Você vai ficar com uma parte irrisória da minha herança, como a que o Seiji tem hoje. E ao contrário do pai dele, o seu não viria te socorrer.


....


Sakura caminhava pela calçada do Konoha High School ainda sonolenta. Finalmente aquele dia de cão chamado terça-feira havia acabado. Mas, para a infelicidade dela, hoje era quarta-feira, e sua mãe fazia questão que ela estivesse bem presente na cerimônia do casamento. Agradeceu a todas as entidades sagradas que conhecia porque seria uma coisa discreta e íntima, apenas no cartório, com a família e amigos mais próximos.

Tinha se acordado cedo demais naquela manhã, praticamente não conseguira pregar o olho durante a noite inteira. Quando acordou, a casa estava diferente, mais iluminada e arejada, sua mãe já havia deixado sua marca por lá. Porém, ainda tinha o mesmo quê de esquecimento e solidão. Nem sua mãe nem Fugaku estavam ali, e também não havia qualquer vestígio da presença de Sasuke, o que fez com que ela vibrasse por estar sozinha. A única coisa que ela gostava naquela casa era justamente seu tamanho. Com toda aquela imensidão, poderia passar a vida inteira lá sem cruzar com nenhuma das três pessoas, se quisesse.

Resolvera tomar o café da manhã fora, aliás, decidira que faria isso todos os dias. Segurava um copo de café com chocolate com o logo da lanchonete, já quase vazio. Deixo-o cair quando foi surpreendida por Tenten e Ino, logo na entrada. A loira tinha uma expressão divertida, e a morena tinha um pequeno brilho de irritação no olhar.

– Testuda!!! Já sabemos de todas as novidades!! — falou Ino, praticamente pulando de animação

– Cara, eu não acredito que você não teve a consideração de nos contar. Tem noção de que todo mundo na escola já estava sabendo de tudo, menos nós duas, que supostamente somos suas amigas? — Tenten falou gesticulando, fazendo sinal de aspas com os dedos quando dizia "supostamente"

– Ah, me desculpem, meninas, foi mal mesmo. É que minha cabeça ficou tão cheia que... Esses dois dias foram como dois anos pra mim, sabem? Mas eu ia contar pra vocês.

– Ok, Sakura, tudo bem — Ino começou a andar para mais perto do prédio, sendo seguida pelas outras duas — Você faltou ontem, testuda, perdeu um trabalho enorme de matemática, se ferrou.

– Ah, não — ela bateu na testa com a mão — droga, e eu ainda não acredito que vou ter que fazer matemática avançada de novo!

– Pensei que já tivesse se acostumado

– Cara, por favor, quem se acostuma com matemática?

– Você deveria sair, já que detesta tanto — Tenten interveio

– Não posso. Vou fazer administração, tenho que ter ótimas notas nessa matéria. Você tem sorte, vai fazer Fotografia. Eu e a Ino temos que nos virar com a matemática.

Tenten riu. Ino percebeu que Sakura tirava o celular do bolso pela terceira vez, dando uma olhadela discreta no visor.

– Ai, a senhorita já está de melação com o Naruto a essa hora?

– Não... A gente brigou ontem. E agora ele não me responde mais.

– Ah, o que foi que você fez dessa vez, hein?

– Eu nada! A culpa é dele, como sempre! Sabe, eu não vou mais ligar, vou ficar quieta no meu canto e esperar ele vir até mim me pedir desculpas.

O sinal soou. Elas se despediram de Tenten, que entrou na aula de Filosofia. Ino ficou na de História logo adiante, e Sakura se preparou para mais uma entediante aula de Inglês.


....


Naruto corria com tudo o que podia. Seu sagrado leite matinal havia acabado, e ele teve que sair para comprar. Se chegasse atrasado mais uma vez na aula daquela bruxa velha da professora de Literatura... Nem queria pensar no que iria acontecer. Puxou o celular do bolso para ver a hora, mas outra coisa chamou sua atenção. Havia cinco ligações não atendidas de Sakura e várias mensagens. Colocou o aparelho de volta no bolso. Não era a primeira nem a segunda vez que a garota era injusta com ele, tentando tratá-lo como um escravo. Mas dessa vez ele não iria ceder, de jeito nenhum. Sakura teria que reconhecer o erro e se desculpar com ele.

Chegou ofegante e parou bem em frente à porta da sala, tentando recuperar o fôlego para que pudesse entrar sem ser notado pela professora. "Aquela bruxa velha não vai me pegar dessa vez".

A porta se abriu, pegando-o de surpresa. Naruto deu de cara com a professora, uma mulher em seus cinquenta anos, esguia e carrancuda, usava um batom vermelho vibrante que definitivamente não combinava com seu rosto e um óculos antiquado.

– Atrasado dez minutos, senhor Uzumaki — ela disse com sua voz arranhada, olhando para o garoto por cima dos óculos — Essa é a última vez que sou complacente com o senhor, entendido?

Naruto fez que sim e passou por ela, entrando na sala, enquanto xingava a mulher de todas as formas que podia, mentalmente.

Olhou para a sala lotada. Por que todo mundo tinha resolvido assisitir a aula de literatura? Só havia um lugar vazio, do lado de alguém que estava encoberto por outros alunos.

– E ai, Hinata!

– O-oi... Naruto — Hinata fez um esforço para falar, sua voz saiu baixa e falha. Naruto não ouviu. Bem, talvez ela não gostasse dele, ou talvez não estivesse num bom dia, vai saber.

A professora falava qualquer coisa sobre as características da obra de Edgar Allan Poe, e Naruto fazia esforço para, no mínimo, ficar acordado. A única coisa de Poe que ele havia lido era o poema mais famoso, O Corvo. Não entendera coisíssima alguma. Examinou a mesa, tentando achar algo para se distrair, e viu um livro daquele autor por baixo de outros livros da colega ao lado.

– Você gosta? — ele perguntou, fazendo uma expressão engraçada

– Eu... Hm, sim, eu adoro. Ele é um gênio, tanto nos contos, quanto nos poemas e ensaios. Tenho praticamente todos os livros dele — Hinata sorriu sem graça

– Que bom pra você, porque eu não entendo nada que esse cara escreve! E muito menos o que essa bruxa velha fala!!

Ela soltou uma risada, que foi motivo de reclamação da professora.

– Não falei? — O loiro cochichava, com uma mão perto da boca.

– A gente vai precisar dele para a prova semana que vem, se você quiser, eu te empresto alguns livros — ela não olhava para ele, remexendo freneticamente em qualquer papel sobre a mesa.

– Hm, legal, mas hoje não vai dar. Vou trabalhar o dia inteiro e à noite vou pro clube da escola.

– Você vai hoje? O-o que você faz lá?

– Eu faço judô. Por quê?

– N-nada, é só que eu também vou lá hoje...

Naruto fez uma cara surpresa — Você também faz judô??

– Não — ela riu — na verdade, eu danço.

– Que legal, Hinata! Bem, pelo menos a gente não precisa mais voltar sozinho pra casa, não é? É muito chato andar o caminho todo sem falar com ninguém, não acha?

Hinata corou. Soltou mais um leve riso e murmurou qualquer coisa que concordasse com Naruto.


....


Sakura jogou seus livros na espaçosa mesa de madeira, cansada. A única coisa boa na aula de Inglês era admirar o professor, Genma Shiranui. O jovem de cabelos clareados já tinha um fã clube inteiro montado, e Sakura, embora não pertencesse a ele, gostava de Shinanui como professor.

A aula já tinha começado, Genma andava de um lado para outro da sala, sendo acompanhado pelos olhares fascinados e devotos da maioria das alunas. Sua fala foi interrompida pelo barulho da porta, que se abriu, e um rapaz de cabelos pretos pediu licença para entrar, sua mochila pendurada desajeitadamente em um dos ombros. Sakura fez um careta de irritação. Além de tudo, tinha que começar o dia convivendo no mesmo lugar que aquela criatura mesquinha.

Genma autorizou a entrada do moreno, que se fez um sinal positivo com a cabeça e começou a se dirigir sem pestanejar para o lugar vazio ao lado de Sakura.

"Ah, não, não! Existem milhões de lugares vazios na sala, por que ele está vindo logo pra cá? Não, não, ele não vem, ele vai desviar, vai desviar" Sakura cantava seu mantra em sua cabeça, sem nem mesmo perceber que já tinha os olhos fechados, sobrancelhas frazindas e mãos apertadamente fechadas, como se a força de sua torcida pudesse mesmo mudar o rumo do garoto.

Os passos ficavam cada fez mais audíveis, ela sentiu o peso sobre a mesa aumentar, mas ainda conservava a mesma posição, fechando cada vez mais os olhos. Sentiu uma respiração quente em seu pescoço.

– Bu. — ele falou, perto do ouvido dela, fazendo com que despertasse do transe. Sakura apenas fez uma expressão torta de raiva e virou suas atenções novamente para Genma.

– Bem, pessoal, como você já devem ter percebido, nossa semana de arte já está se aproximando, e a escolha para o elenco da peça principal já vai começar — Genma observou algumas caras de tédio e desanimação — Não adianta vocês fazerem essa cara, todo mundo vai participar, e vão dar o melhor de si, entendido? Muito bem, vocês que já estão sentados em casal, permaneçam assim, sem troca troca.

Sakura olhou para seu lado e gelou. Não, aquilo era pesadelo, seu companheiro não era Sasuke e ela não teria de contracenar coisa alguma com ele.

– Professor — ela pigarreou — Será que eu não poderia ficar junto de outra pessoa, por favor?

Genma olhou para os olhos suplicantes da aluna — Já disse, Sakura, sem troca troca. Se você trocar, todos vão querer também.

Ela baixou os ombros, numa postura de derrota. Era o fim. Belo dia para Sasuke resolver implicar. Teve de se controlar para permanecer sentada naquele lugar.

Genma continuou, com a maior empolgação que seu deleixo permitia — Continuando... Cada um de vocês, em pares, vai encenar uma parte da obra escolhida por mim. O melhor casal será selecionado para fazer os protagonistas na peça principal. Eu vou entregar o texto com a cena que vocês terão de fazer — ele bateu numa pilha de papéis em cima da mesa, começando a distribuir entre os alunos — A apresentação de seleção é na próxima semana. A obra que eu escolhi é Jane Eyre, de Charlotte Bronte.

"Pelo menos não é Emily Bronte", pensou Sakura. Só a ideia de ter que fazer de Sasuke seu Heathcliff* já lhe dava angústia. Lembrou-se do ano anterior à sua ida para a Suíça, quando tinha se apresentado em Orgulho e Preconceito, fazendo par com Naruto. "Perfeito". É claro que só tinham sido escolhidos por causa da atuação dela, porque o Uzumaki não era bem um bom ator. Ao contrário de grande parte de seus colegas, Sakura não fazia as peças do colégio por obrigação, ela realmente gostava. E era apenas por isso que não desistiria de ser selecionada mais uma vez, mesmo que seu par agora fosse Sasuke.

Notas finais
*Heathcliff é o personagem principal da obra O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Bronte.
No próximo capítulo: "Você olha pra mim com medo", diz Sasuke.
Até mais! Beijos!