Dormindo Com Fantasmas - Naruto
38 I never asked for your crutch, don't ask for mine
Notas iniciais
O táxi parou em frente àquele jardim ainda bem cuidado. Mesmo com a pouca luz, Sakura podia ver através do vidro da janela do carro. Ele continuava lindo, como sempre. E a casa depois dele parecia intacta. Nada havia mudado.
– Você vem comigo? — perguntou ao irmão, ao seu lado, que tinha o garotinho já adormecido repousando em seu peito.
Seiji sorriu, deixando um som bem humorado escapar entre seus dentes.
– Eu adoraria poder ver a reação dela quando soubesse que voltei, mas... — sinalizou Louis — Tenho assuntos mais importantes pra resolver agora.
Sakura sorriu de leve, assentindo. Despediu-se do moreno e saiu, caminhando pela passarela que a levaria até a entrada da mansão Uchiha. Aliás, era engraçado que aquele lugar continuasse sendo chamado assim, já que não havia mais nenhum Uchiha ali, pensou.
A porta não demorou a ser aberta, o que indicava que a mãe estava a esperá-la. Pôde ter sua confirmação ao encontrar a mulher mais velha ali, o meio na enorme sala, sentada em sua cadeira de rodas, da qual não conseguira se livrar. Sorria, como sempre, segurando um copo transparente, com uma bebida qualquer que Sakura sabia estar misturada ao usual licor.
– Bem vinda de volta, Sakura.
A mais nova continuava séria, apenas fazendo um leve aceno em resposta.
– Somente vim comunicar minha chegada. E também perguntar se é necessário, para nossos interesses, que eu continue a morar aqui.
Hitomi meneou a cabeça, deixando os lábios singelamente tortos.
– Ajudaria em nossa comunicação, claro, mas não é realmente uma necessidade.
– Certo. Então estou voltando para o antigo apartamento.
Hamasaki arqueou uma sobrancelha. Há dois anos, Sakura havia ganhado o apartamento em que costumavam morar antes de se mudarem para a casa dos Uchiha, em uma aposta que fizera com ela. Hitomi afirmou que Sakura não conseguiria fechar a compra de umas promissoras terras alemãs, onde começariam mais um de seus projetos imobiliários, dentro de dois meses. Mas a mais nova conseguira, em quarenta dias. Hitomi passou as chaves para a filha.
– Parabéns — disse. Mas Sakura sabia que aquele parabéns não significava que a mulher estava orgulhosa. Estava apenas dizendo que, mesmo tardiamente, a filha havia começado a corresponder suas expectativas — Cuidei da limpeza para que você mudesse dormir lá assim que chegasse. Você fez sua parte Sakura. E por aqui, eu também cuidei para que o Uchiha fic-
– Não me interessa — a Haruno respondeu, interrompendo-a.
– O que você quis dizer com isso?
– Eu não vou ficar me concentrando nas falhas alheias. Pouco me importa.
Sakura virou-se, iria embora o quanto antes. Mas faltava um detalhe.
– Ah — ela disse com aparente desinteresse — Seiji veio comigo. Sebastien morreu.
Sebastien era o pai de Seiji, quem Hitomi havia preferido no lugar de Fugaku. Sakura desconfiava que aquele era o único que por quem ela realmente havia tido sentimentos consideráveis. O sorriso desapareceu quase instantaneamente daqueles lábios. Seus olhos desfocaram rapidamente, mas ela logo se recompôs. Seu momento de desestrutura teria passado por despercebido aos olhos de alguém menos pespicaz, de tão breve que fora.
– O que ele pretende aqui?
A Haruno deu de ombros — Apenas o convenci a vir. Além do que, Paris não está tão próspera quanto costumava ser. Nova Iorque dará mais oportunidades ao trabalho dele. Penso ser isso.
Aguardou alguma resposta, mas não teve nenhuma. Voltou-se novamente para a saída, desejando um boa noite seco. Por mais irônico que fosse, justo nos últimos seis anos que passara longe, havia adquirido mais intimidade com a mãe. Mas não era uma relação propriamente entre mãe e filha. Não sobrara nenhum fio da admiração que a Haruno tivera pela Hamasaki algum dia. Agora só havia um preciso respeito mútuo. E ela, talvez, preferisse assim.
.....
Jurou que aquela seria a última vez que precisaria de um táxi. O movimento de carros em Nova Iorque, justamente às sete da manhã, não era nada animador. Assim que saísse da Teruya, compraria um carro novo, estava decidido. Não esperaria que despachassem o seu da Europa.
Demorou cerca de quinze minutos para conseguir que um carro amarelo a notasse. Indicou para que o homem fosse até o endereço que constava na mensagem enviada por Ino. A loira não desistira de ter seu café da manhã como havia dito, e Sakura até achara boa ideia.
Assim que parou, percebeu que aquele era o café em que elas duas costumavam ir, junto com Hinata e Tenten. Sorriu.
Ino já estava lá, sentada em uma das mesas perto da janela. Batia o pé no chão e mexia no celular. Sakura soube que devia estar atrasada, então.
– Até que enfim! — a loira disse, sorrindo.
– Desculpa, achar um táxi é difícil a essa hora — Sakura sentou-se na cadeira, de frente à Yamanaka.
– É, eu sei. Te dou uma carona quando a gente for embora. Já fiz o seu pedido. Continua sendo café duplo com chantilly, nas manhãs de dias puxados?
Sakura assentiu, e um rapaz alto chegou com os pedidos.
– Então — a loira continuou — Você nunca me respondia, mas agora vai ter que falar. Arranjou algum francês interessante?
Sakura riu um pouco alto demais, pela animação divertida e desnecessária da amiga.
– Eu não estava mentindo quando dizia que não tinha tempo pra isso. A faculdade e o trabalho na filial da empresa imobiliária tomavam todo o meu tempo. Era difícil sobrar até as oito horas de sono, acredite.
Ino cerrou os olhos. "E você virou o que, assexuada?" sabia que era isso que a Yamanaka estava perguntando. Sakura a encarou, e baixou os ombros, com um sorriso leve.
– Ok, claro que tinha uns carinhas legais lá na empresa, e você sabe... — riu — Mas nada sério. Eu não tinha tempo pra nada! E além disso, eu tinha que ser bem seletiva e discreta, você sabe.
Ino suspirou — Ah, eu admiro sua coragem, viu. Não aguentava nem dois meses nisso aí.
A Haruno negou com a cabeça, balançando a mão.
– Mas e você então, o que tem feito?
– Hm — Ino apoiou o queixo numa das mãos — Sabe quem é minha chefinha agora?
Sakura negou, franzindo o cenho.
– A Karin! É. Nós fizemos faculdade juntas. E aí, ela está ajudando a mãe a dirgir a revista. Por um acaso, meu pai é amigo da mãe dela e arranjou um emprego pra mim lá. Pois é.
A rosada riu — E como é essa sua chefinha?
– Ah, legal, apesar de tudo. A gente até se dava bem na faculdade, sabe? O problema é quando ela acorda de mau humor, e sai empurrando trabalho e mais trabalho pra todo mundo. Ou quando briga com o namoradinho dela. Tsc. Ah! Olha só que mundo pequeno, ele trabalha na Teruya, e é amigo do Sasuke! Um tal de Suigetsu — deu de ombros e fechou os olhos, em descaso. Mas logo percebeu seu erro. Não sabia como Sakura se sentia em relação ao Uchiha depois daqueles anos, não devia ter falado nele tão de repente. Entretanto, quando levantou o olhar para encará-la, aliviou-se. Sakura tomava normalmente seu café, olhando de maneira breve para o copo, e em seguida, para a Yamanaka novamente.
– E os outros, como estão? — ela perguntou — Que problemas são esses da Hinata?
– Anh... — Ino fez uma careta — Você perguntou como os outros estão, então vamos começar pelas partes boas, certo?
Sakura estranhou, mas assentiu.
– Bem... Shikamaru e Temari estão bem. Bem do jeito deles, mas bem. Já falaram até em casar — balançou a cabeça, como se reprovasse a ideia — E eu também estou aguentando o Gaara até agora, obrigada por perguntar. Já a Tenten e o Neji terminaram.
– Por quê? — Sakura precisou piscar duas vezes para assimilar. Justo eles eram os que pareciam dar mais certo.
Em resposta, Ino apenas levantou o dedo indicador das duas mãos e pôs atrás da cabeça, imitando chifres.
– Sério? Qual dos dois?
– Neji. Mas a Tenten também estava se segurando que eu sei, viu. Essa coisa de distância fodeu tudo. Eles não conseguiram se manter por muito tempo.
– Mas... Eles pelo menos se dão bem?
– Eles nem se veem muito mais. Mas quando acontece, fica aquela coisa meio desagradável ainda.
Sakura comprimiu os lábios, tomando mais um gole de café — Mas e a Hinata e o Naruto? Eles também não estão mais juntos, não é? Eu percebi o olhar dele quando você falou nela.
Ino encarou Sakura. Enrolou uma mexa de seu cabelo, tomou mais goles de seu café, até terminar.
– É... É... Sabe o que é? — olhou para o relógio em seu pulso — A chefinha vai me matar. Quem sabe como está humor dela hoje? Hm? E-eu tenho que ir, tchau!
– Ino! Ino! — Sakura chamou, atraindo olhares das mesas ao redor. Mas era inútil. A loira já andava apressada pelas calçadas. Soprou. Ino ainda tinha as mesmas manias.
....
A sala era grande. No andar mais alto do prédio, no mesmo corredor da sala de Kakashi. Havia uma janela enorme atrás da mesa, iluminando a sala. A poltrona era preta, e só de olhar, podia afirmar que era confortável. Tinha também outras duas, de frente à mesa e ainda um sodá penqueno, perto da porta, companhado por uma mesa pequena redonda. Sakura achou um porta-retrato vazio alí em cima, e tratou de colocar uma foto de Louis sorrindo. Uma das únicas fotos que aquele moleque ranzinza tirara sorrindo.
....
Sasuke estava irritado. Olhava pra aquele ser displincente de cabelos brancos sem entender como ele podia supostamente controlar todo aquele conglomerado, sendo tão estúpido. Não via a hora para que o prazo estabelecido pelas normas da empresa fosse cumprimido e ele pudesse finalmente ter o que era seu. Será que não entrava na cabeça de Kakashi que ele poderia perder o negócio do ano se resolvesse continuar a tardar a maldita fusão com a Petterson Industries? Não era de se estressar com qualquer coisa, mas se tinha algo que o tirava do sério era essa incompetência.
– Que tal considerarmos a opinião de outra pessoa? — Hatake lhe sugeria.
– Huh, quem, por acaso? Aquele idiota do Gai?
– Sasuke, não deveria falar assim com as pessoas do seu ambiente de trabalho.
Ele riu, cínico, sentando-se numa das cadeiras à frente de Kakashi — Ok. Onde está essa tal pessoa, então?
– Oh, ela já deve estar chegando — duas batidas na porta de madeira foram ouvidas. Kakashi olhou para Sasuke, esboçando um de seus sorrisos costumeiros — Entre.
– Com licença — a voz disse, antes que sua dona se tornasse completamente visível.
Sasuke conhecia aquela voz. Claro. Afinal, ela havia voltado ontem, e não perderia tempo em retornar à empresa. Obviamente, ela seria a pessoa chamada para opinar. O momento foi breve demais para que Sasuke tomasse qualquer reação, mas sentiu gelar. Não, Sakura Haruno não se deixava ser esquecida. Porque ela apenas mudara a qualidade das revistas, mas ainda era presente. Aparentemente, era a nova queridinha do mundo dos negócios. Sakura Haruno fez isso, Sakura Haruno fez aquilo, conseguiu aquilo outro. E ela ainda teimava em usar o Haruno. Ele, por outro lado, não havia tido tanto sucesso quanto desejara. Pelo menos, no começo. O ramo alimentício não era um dos fortes da companhia, além de ser um setor arriscado e não muito promissor, e também não tão lucrativo, se comparado a outros. Porém, aliado às novas formas de conservação e transporte, Sasuke soube participar bem do processo de crescimento. Hitomi havia tentado, mas não conseguira pará-lo por completo.
– Sente-se, por favor — a voz de Kakashi ecoou duas vezes por toda a sala, como se não pertencesse àquela cena.
Sasuke viu os olhos verdes vacilarem ao encará-lo, e conteve um sorriso. Depois de seis anos, ele ainda a conhecia, ainda podia antecipar cada reação deka. Talvez ela não tivesse mudado tanto assim, afinal. Mas o olhar daquela mulher não se demorou muito nele. Logo voltou-se para Kakashi, enquanto se sentava na cadeira ao lado do Uchiha.
– Por que me chamou?
– Ah, Sakura. Rin já te deixou consciente da situação com a Petterson Industries, como eu pedi?
– Sim.
Kakashi apoiou o cotovelo na mesa, encarando-a. Tinha um sorriso minúsculo em seus lábios.
– E qual sua posição? Fecho o negócio ou atraso a fusão?
Fecha, claro, pensou Sasuke.
– Atrasa.
– Como é que é? — Não conseguiu conter sua reação. Saiu antes que pudesse impedí-la. Já estava olhando para Sakura como se ela tivesse proferido a maior barbaridade da década.
De início, ela não o olhou. Focou naqueles olhos pretos de forma lenta. Desinteressada, foi o que pareceu.
– Não está sabendo qual a situação deles? Estão numa espécie de crise interna, podem entrar em colapso nas próximas semanas. É arriscado. Melhor esperar e ver como o caso irá se desenvolver.
– Mas nós não somos os únicos interessados nessa fusão, existem concorrentes, que com certeza não vão demorar tanto quanto nós para tomar uma decisão. E o estado dessa nossa empresa que vai se fundir também não é dos melhores. Se nós atrasarmos a operação, podemos falir — ele retrucou.
– Nesse caso, é bem mais fácil se reerguer sem um peso morto nas costas.
Sem nenhuma provocação. Nenhuma piadinha, nenhum sarcasmo, nenhuma alfinetada. Nada. Sakura defitiviamente faria alguma coisa do tipo, mas aquela à sua frente não fizera nada. Nem sequer o chamara pelo nome, ou sobrenome. Era como se fosse uma total desconhecida. Sem dúvidas, qualquer pesssoa de fora que presenciasse aquela discussão, jamais diria que eles tiveram uma história. O que diabos estava acontecendo?
– Bom, já que vocês aparentemente têm tanta facilidade em colocar na forca uma das nossas empresas mais lucrativas, eu é que não vou discutir mais. Vão em frente.
Levantou-se e bateu a porta, sem olhar para trás. Sakura apertou mais a mão contra o material da cadeira em que sentava. Seus olhos não acompanharam Sasuke, continuaram retidos em Kakashi.
– Ótima decisão — ele disse — Era justamente isso que eu pensava.
A Haruno assentiu, imparcial.
– Era só isso? — Hatake fez que sim — Então eu estou voltando para a minha sala.
...
Assim que saíra do elevador, Ino viu Sakura entrar em sua sala, com uma expressão... Diferente. Não conseguiu identificar com precisão. Estava decidido. Caminhou até a porta da Haruno, abrindo-a sem nenhum aviso, e encontrou-a com a cabeça enterrada na mesa, os cabelos desarrumados não deixavam nenhuma parte do rosto visível. Assim que ouviu o bater da porta, endireitou-se, assustada com a possibilidade de alguem vê-la daquele jeito. Mas era só Ino. Ino? O que ela estava fazendo ali?
– Pelo visto, já deu de cara com o Uchiha — ela mostrou um sorriso raso, sentando-se na cadeira em frente à mesa — Sobre o que falaram?
– Sobre fundir ou não uma de nossas empresas com a Petterson Industries.
A loira arqueou uma sobrancelha — Sério?
– Aham. Por que o espanto?
– Não sei... Afinal, você escolheu um ótimo assunto pra falar, justo com ele, assim, depois de seis anos sem nem olhar um pra cara do outro.
Sakura riu, encostando-se na poltrona — Ele com certeza viu a minha. Já eu, realmente, não tive esse desprazer. Mas quer dizer que você veio aqui só pra isso?
– Claro que não, né! Agora eu trabalho, duhh! Foi exatamente por isso que vim aqui. A Karin chegou possuída hoje. Se trancou na sala dela e nós só ouvimos o barulho de coisas se quebrando. Depois, ela me chamou lá. E eu achando que ela ia me despedir, mas só me entregou uma caixa cheia de coisas e mandou que eu viesse entregá-la ao Suigetsu. Daí, aproveitei e passei aqui na sua sala, pra saber como você estava se saindo.
– Ah, sim... Mas escuta, você não queria ter sua própria grife? — Sakura perguntou, levantando-se e passando por Ino.
– É. Mas como eu não tenho ninguém na família que seja estilista, ou alguém conhecido, preciso fazer meu nome primeiro, entendeu? — a loira respondeu, sem olhar pra trás para ver a Haruno.
– Certo, entendi — Sakura sentou-se em sua poltrona de novo, mostrando uma chave — E agora você vai me contar o que houve com a Hinata e com o Naruto. Sem fugir.
Notas finais
É isso. Até o próximo, beijos.
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