Doors

1 Casa de Órfãos da Senhora Ritche


Notas iniciais
Bem, as notas do primeiro cap sempre são muito vagas :cEspero que gostem!

Chovia. Era só isso que acontecia naquele lugar. Era só isso que tinha por lá. Chuva.

Estava a mais de cinco horas na estrada. Evitava olhar para sua tia, no banco ao lado, dirigindo.

– Sabe que não pode me ignorar a vida toda, não é May? – Sua tia quebrou o silencio que eu estava achando incrivelmente agradável.

– Você me deu essa opção ao me mandar para esse fim de mundo – Respondi friamente, dando um sorriso irônico.

– Você sabe que foi só para não te prejudicar. Eu já tenho três filhos, criar você seria difícil...

– Muito difícil não é? Com aquela enorme mansão que você tem. Com aquela enorme quantia de dinheiro – Cortei-a secamente, e ouvi ela rir.

– Reclame o quando quiser. O juiz concordou, e você não tem escolha.

Ignorei o comentário e voltei a olhar para a janela, pensando em como é que eu não havia tentado fugir para bem longe.

Semanas atrás, meus pais partiram de avião à trabalho. Mas o avião acabou caindo no atlântico. Sem tempo algum para poder ficar de luto, minha tia, única parente viva, já abriu uma causa, dizendo que não poderia cuidar de mim.

Agora, estou indo para essa tal Casa de Órfãos, que de acordo com o site, fica em um vilarejo isolado do sul dos EUA.

– Por que tão longe de casa? – Fiz uma pergunta retórica, mas minha tia respondeu.

– Achei aquele lugar adequado pra você. Ele é bem disciplinado.

– Agora eu sou a rebelde sem causa que precisa de uma escola de etiqueta... – Resmunguei, mas vi pelo canto do olho minha tia me olhando feio.

– Estamos chegando – Ela disse simplesmente.

Ao longe, entre as colinas, vi a pequena vila ia surgindo. Os “prédios” mais altos, tinham dois andares, não se via carros passando, ou pessoas com iphones, jogando seus PSPs. Não havia nenhum índice de que eu estava no século XXI, a não ser o carro de minha tia.

Enquanto adentrávamos na vila, vi um grande e velho casarão. Ficava um pouco isolado da vila, localizado no topo de uma pequena colina. Apesar de ser antigo, era bem cuidado. Havia um lindo jardim a sua frente, com algumas crianças correndo alegres por ele. Mas o jardim não conseguia tirar o ar sombrio do lugar.

– Sua parada é aqui. Sua mala está no porta malas – Minha tia destravou o carro.

Assim que saí, me direcionei ao porta malas e peguei minha única mala. Não havia muito que eu queria levar comigo, para o caso de algum dia eu querer fugir, vai saber.

Foi só fechar o porta-malas que minha tia deu partida. Sem despedidas. Sem último abraço. Apenas eu e o grande casarão de ar sombrio. Subi a rampa que levava até ele, passando pelas crianças, que me olharam estranho por alguns segundos, mas logo voltaram a brincar.

Entrar dentro daquele lugar foi a sensação mais estranha que senti na vida. Como se aquele lugar não quisesse minha presença e me rejeitasse, me empurrasse de volta para a porta. Com muito esforço, ignorei essa sensação e fui até o balcão que havia em frente as portas de entrada, onde uma mulher de aparência jovial, com os cabelos negros presos em coque e a pele branca colorida com leves tons de rosa estava arrumando uma prateleira de livros.

– Com licença... – Falei devagar – Eu sou...

– May Baker? Nos avisaram que chegaria hoje – Ela disse gentilmente, se voltando para mim – Siga-me. Irei lhe apresentar a Educadora.

– Educadora? – Repeti sem entender – Geralmente os orfanatos...

– Isso não é um orfanato senhorita Baker – Ela disse abrindo o seu sorriso enquanto olhava para mim – É uma casa de órfãos. A senhora Ritchie é muito rica, e doou sua casa para esse projeto.

– Ah... Claro – Respondi meio sem graça, por não ter entendido muito bem, mas antes de poder esclarecer qualquer dúvida, ela parou no meio do corredor, e só então fui me tocar de onde estávamos.

Era uma sala redonda de paredes altas. Havia um tapete liso e negro no centro, redondo como a sala. A iluminação feita a velas, combinada as janelas fechadas e com cortinas negras como o tapete, deixavam aquele local com cara de filme de terror. O pior nem era isso. Sentada em um sofá que se localizava abaixo da maior janela, estava uma mulher, ou melhor, uma senhora de cabelos extremamente grisalhos. Seus olhos eram tão negros que eu não conseguia distinguir a pupila, e ela era incrivelmente e horrorosamente magra.

– Boa dia senhorita Baker, eu sou a senhora Ritchie – A senhora se levantou e andou em minha direção – Irei lhe mostrar a casa.

A segui, mantendo o silencio enquanto subíamos a escada que subia em caracol em volta da sala circular. Paramos no segundo andar e seguimos por corredores cheios de portas.

– Pela casa ser grande e não recebermos tantas crianças assim, cada um pode ter o seu quarto – Ela parou em frente a porta de número 134 e tirou uma chave do bolso de seu blazer, abrindo o quarto – Esse é o seu. Hoje você estará livre de qualquer obrigação, o jantar é as 18 horas.

Ela esperou eu entrar no quarto, e então fechou a porta, deixando o ambiente extremamente silencioso.

O quarto era tão antigo e rústico quanto a casa. As cômodas e os armários pareciam ter vindo do século passado, sendo feitas de madeira, com sutis detalhes em metal. A cama era uma simples cama de madeira, mas felizmente o colchão era confortável. Havia uma escrivaninha com um abajur, mostrando que havia eletricidade no local, mas tinha uma caixa de velas ao lado.

O banheiro era pequeno. Apenas uma simples pia de concreto, um box e um vaso sanitário. Não havia janelas, o que me deixava um pouco sufocada. Pesando nisso, voltei para o quarto e observei a janela. Ela era pequena, ficava acima da cama e possuía grades.

Para onde minha tia me mandou?! Eu poderia morrer aqui, qualquer um da vila poderia morrer, que ninguém no mundo iria nem lembrar da existência de tal pessoa.

Balancei a cabeça, ignorando esses pensamentos macabros e arrumei minhas malas. Quando terminei de botar as minhas roupas no armário, sentei na escrivaninha, e só então percebi que havia um livrinho em cima dela.

Livro de Regras da Tia Ritchie

Ela só podia estar de brincadeira né? Tia?

Abri o livro e comecei a ler as regras, me assustando ao perceber que só havia duas páginas preenchidas, e as outras estavam em branco.

O descumprimento de qualquer uma das regras aqui citadas terá consequências drásticas.

Primeira Regra: É extremamente proibido abrir a porta e sair dos quartos após o toque de recolher.

Segunda Regra: O sótão é uma área extremamente proibida.

O resto eram apenas horários de refeições, aulas e pedidos para deixar o quarto o mais arrumado possível, pois não havia arrumadeiras no local.

– Por que tantas páginas brancas... – Sussurrei para mim mesma, enquanto folheava o livrinho.

No final, dei de ombros e larguei o livrinho em cima da mesa. Tomei um banho e troquei minhas roupas para algo mais quente e então sai do quarto para conhecer um pouco mais a casa.

Percebi que uma garota saiu do quarto ao mesmo tempo que eu, um pouco mais à frente no corredor. Decidi ir até ela para ver se conseguia perguntar alguma coisa.

– Com licença... Meu nome é May, eu queria sabe onde fica a sala de refeições – Disse aos poucos, enquanto me aproximava.

A garota pareceu se assustar por alguns instantes, parecendo perguntar-se se era mesmo com ela, mas logo ela sorriu.

– Eu também estou procurando. É meu primeiro dia aqui

– Somos duas estão – Dei um sorriso amigável.

– Eu sou Kate – Ela se apresentou – Quer me ajudar a procurar as coisas por aqui?

Assenti com a cabeça e seguimos pelo corredor. Ele era extenso e era uma curva infinita, com um tapete negro se estendendo por toda sua extensão.

– Você veio de onde? – Perguntei a ela enquanto andávamos.

– Vim de Denver, e você?

– Nova York.

– Ah, então você com certeza já deve ter sentido falta do seu celular, ou de qualquer aparelho – Ela riu – O sinal daqui simplesmente não pega.

– Verdade. E eu não vi nenhum telefone enquanto andava por aqui.

– Talvez eles queiram ter certeza de que não vamos fugir – Ela deu de ombros.

– As grades na janela já dão conta do trabalho...

Continuamos conversando e decidimos ir rumo ao jardim. E como visto do carro, ele era extremamente colorido e perfumado, com diferentes tipos de flores e plantas, e de vez em quando até pensei ver um coelho saltitando por ai.

Mas o que mais chamou atenção, foi uma pequena casa nos fundos do jardim. Havia uma grade baixa em volta da casa. Chegamos perto, e no momento de tocamos na grade, ouvimos um rosnado, fazendo Kate se afastar.

– Não é muito certo ter animais aqui – Ela disse com a voz trêmula.

Ignorei o que ela disse quando um husky siberiano negro de olhos azuis apareceu da porta da casa e olhou para mim.

– Vem cá – Chamei-o – Não vou gritar e correr de você.

– Isso não tem graça! Olha o tamanho dele...É assustador! – Ela disse, chegando um pouco mais perto, me usando como escudo entre o cão e ela.

– Parece inofensivo. E eu achei ele fofo – Estendi a mão para fazer carinho nele, mas antes de toca-lo, um grito me impediu.

– Quem deixou vocês irem ai?! – Um homem vinha correndo em nossa direção. Era um homem corpulento, ruivo e com um bigode que fazia você não conseguir olhar para nenhuma outra parte do corpo de tão chamativo que era.

Quando ele chegou perto nos empurrou bruscamente para trás e bateu nas grades para mandar o cão de volta para a casa. Assim que ele entrou, se virou com um olhar ameaçador para nós. Eu quase pensei que ele tinha raiva e que eu iria ver espuma saindo de sua boca.

– Nunca. Chegar. Perto – Ele disse essas três palavras agressiva e pausadamente.

Assentimos e nos afastamos dali o mais rápido possível, sabendo que seu olhar fuzilava nossas costas, suspirando de alívio ao entrarmos de volta no casarão.

– Não tinha essa regra no livrinho – Brinquei quando vi que Kate estava mais calma.

– Livrinho? – Ela perguntou confusa.

– Um livrinho de regras que tem no quarto. Não sei pra que um livro pra apenas duas regras.

– Ah... Eu ainda não explorei o meu quarto completamente. Quais são elas?

– Nunca andar pela casa de madrugada e não ir no sótão –Repeti em um tom monótono – E agora vou anotar mentalmente “nunca chegar perto do cachorro e do homem do bigode gigante e ruivo.”

– Será que se eu quebrar uma das regras eu saio daqui? – Os olhos dela brilharam nessa possibilidade.

– Não acho que seria legal fazer isso – Por mais que estivesse morrendo de vontade de sair daquele lugar, sentia algo errado.

– Tá me dizendo que a garota de Nova York é uma garota certinha? Veio de um internato religioso por acaso? – Ela disse com um sorriso zombeteiro no rosto.

– Claro que não!

– Bem, que seja, só sei que hoje eu irei quebrar as regras.

–x-

Voltei do jantar tarde, faltando pouquíssimos minutos para o toque de recolher. O corredor estava completamente silencioso e de noite aquele lugar parecia estar cada vez mais me dizendo para sair dali.

Cheguei ao meu quarto e fechei a porta aliviada. Girei o trinco e fui me trocar para deitar. Deitei na cama e lembro de ter ficado horas e mais horas virando de um lado para o outro, pensando se Kate tinha mesmo se atrevido a andar por ai a essa hora e as vezes me assustando com os estalos da madeira que ecoavam pela casa.

Devo ter caído no sono muito tarde, e provavelmente devo ter sonhado com algo, pois acordei com uma voz sussurrando o mesmo número em minha mente repetidas e repetidas vezes.

126...126...126...

Quando desci para o café da manhã, não achei Kate. Achei que ela deveria ter dormido um pouco mais. Esperei até o horário do café terminar e ela não apareceu. Decidi então perguntar para uma das garotas antigas do local, das quais eu e Kate conversamos ontem.

– Oi Alicia – Chamei a garota loira de olhos azuis e pele branquíssima. Dava inveja. Eu tinha cabelos castanhos normais, uma bronzeado sem graça e olhos castanhos. E ela parecia uma boneca – Você viu a Kate?

– An? – Ela falou como se eu tivesse dito alguma piada – Não tem nenhuma Kate aqui querida.

Ela e as amigas dela que estavam em volta riram sem graça.

– Claro que tem. Não lembra dela? Conversamos com você ontem. Morena, olhos azuis, alta... – Conforme fui falando, tive a impressão de que ela estava ficando mais pálida, mas sua pele era tão clara que deve ter sido por causa da iluminação.

– Você deve estar se confundindo. Eu só conversei com você ontem – Ela riu nervosa e se afastou antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa.

Olhei incrédula para ela, pensando em como ela tinha sido tão doce e gentil ontem. Irritada, subi as escadas e decidi ir direto para o quarto dela. Eu deveria ter pensado nisso antes.

Parei em frente a porta e bati. Esperei alguns minutos e ninguém atendeu. Quando ia bater de novo a porta se abriu.

– Kate! Eu estava preocupada, onde você... – Parei ao ver que não era Kate que estava a minha frente – Quem é você?

– Quem é você! – O garoto exclamou irritado – Como você sai batendo na porta dos outros a essa hora da manhã? Te ensinaram educação em casa não cara?

E então ele fechou a porta na minha cara.

A porta do quarto 126.

Notas finais
Gostaram?! Comentem! Isso me ajuda a ter forças para continuar :3Que depre ._.