Doors
2 Estalos na Madeira
Notas iniciais
– Ela... Não existe?! – Neguei a cabeça incontáveis vezes, não querendo acreditar – Não... Eu tenho certeza que...
– Querida... Você perdeu seus pais tem poucos dias, foi enviada para um local totalmente diferente do que você morava antes... Não a culpo por seu consciente ter criado isso – Senhora Ritchie segurava meu ombro enquanto eu tentava entender as coisas.
– É... Talvez... Seja isso... – Disse pausadamente, me rendendo. Já havia perguntado a todos. Todos me disseram que eu estava sozinha.
– Vou deixar que você fique no seu quarto pelo resto do dia, ok? – Ela disse com uma voz doce – Peço para alguém levar seu almoço e seu jantar.
Assenti lentamente. Ela fez sinal de que eu já poderia ir e me levantei da cadeira, ainda em choque. Parecia tão real...
– Ah, sim. Mais uma coisa – Ela chamou, mas não fiz questão de me virar – Não recomendo que fale com ninguém, tudo bem querida?
– Claro... – Falei sem emoção e sai da sala.
Segui pelos corredores sem rumo. A última coisa que eu queria era ficar no meu quarto. Decidi então passear pela casa. Já tinha ido ao jardim, já tinha circundado todo o segundo andar e o térreo eram as salas de convivências, das quais já havia ido. Mas nunca havia subido.
As escadas estavam completamente desertas. Não era comum as pessoas ficarem em seus quartos aqui. Sempre ficavam no jardim, na sala de leitura ou na sala de lanches. Era um pouco obvio. O quarto não era nada convidativo.
Fui subindo as escadas e parei no terceiro andar. Olhei para os lados e percebi que era apenas mais um corredor circular cheio de quartos. Subi mais um andar, a mesma coisa. Porém, quando cheguei no quinto – Essa casa não parecia tão alta assim por fora – Vi que não havia mais andares.
O andar era igual ao de qualquer outra casa quando se chega no topo. O teto triangular devido ao telhado, índices de que quase ninguém vai lá, como poeira, janelas fechadas ou quebradas, e um porão.
Na verdade, não era exatamente um porão, e sim O Porão, não é? Pois deveria pelo menos ter algum diferencial para ser um local proibido.
Me sentei em frente a escadinha de madeira que levava ao porão e comecei a imaginar o que poderia ter lá dentro. Talvez corpos? Não. Clichê demais. Uma seita secreta que bebe sangue de crianças? Bizarro demais. Alguém teria percebido. Talvez alguma criatura maligna que está selada pelo bem da humanidade? Ok. Estou começando a sair da minha realidade.
Eu com certeza teria ficado horas só deixando minha mente rechear aquele estranho porão, se não tivesse ouvido um rosnado baixo atrás de mim. Me virei lentamente e encontrei o mesmo cachorro de ontem, olhando para mim atentamente, como se esperasse que eu fizesse algo?
– Ah... Então eles deixam alguém de guarda, não é? – Me levantei do chão, tirando a poeira de minhas roupas com as mãos – E você fica parado ai, só vendo se vou tentar?
Obviamente, o cachorro não respondeu. Muito menos aconteceu um lance tipo Ratatouille, fazendo com que assentisse com a cabeça. Não, ele apenas continuou parado, e encarando. Decidi ignora-lo então.
– Bem, se eu não tentar entrar, você não pode fazer nada – Comentei, e ouvi outro rosnado baixo, como se ele não tivesse gostado de ter sido ignorado, olhei pelo canto do olho e vi que ele havia sentado.
Continuei observando a porta do sótão. Era apenas uma simples porta de madeira, mas possuía vários arranhões. Passei a mão para sentir e eram um pouco fundos e recentes, porém havia alguns mais antigos. Como se todo dia aquilo acontecesse.
– Você vem aqui toda noite, não é? – Perguntei, voltando meu olhar para o cão novamente. Como reação, ele virou a cabeça para o lado – Você... Sabe o que tem aqui dentro?
–x-
Talvez ter ido para a sala do sótão não tenha sido uma boa ideia. Por algum motivo, estava com um peso enorme na consciência, como se aquela tivesse sido a coisa mais errada que eu fiz na minha vida.
Era de noite já. Eu estava na sala de leitura, fingindo ler um livro, mas a única coisa que estava esperando era dar o toque de recolher. Não consegui voltar para o quarto. Aquele lugar era sufocante.
Estava quase fechando o livro, quando alguém rapidamente sentou do meu lado, me fazendo saltar da cadeira de susto. Só então vi que era apenas uma garotinha. Ela tinha volumosos cabelos loiros, olhos negros e parecia ter só dez anos.
– May, não é? – Sua voz era incrivelmente doce, o que só a deixava com um ar ainda mais infantil – Eu sou Lilian.
Voltei a me sentar, já recuperada do susto e cumprimentei a mão que ela estendeu para mim.
– Olá...
– Nós duas sabemos que ela não foi uma ilusão – Ela me cortou e me lançou um sorriso sarcástico, o que com certeza não combinava com a imagem fofa que ela tinha.
– Como? – Perguntei confusa. Não fazia a mínima ideia do que ela fala.
– Ótimo, você foi lá... – Ela revirou os olhos – Tente se lembrar o que você fez de manhã.
– De manhã? Eu desci para tomar café e... – E então eu parei de falar, percebendo que havia algo errado.
– Pelo menos lembrou rápido...
Ignorei o comentário sarcástico da garotinha. Eu tinha esquecido completamente. Esquecido de Kate, de que ninguém lembrava dela, dizendo que ela nunca havia existido. Eu tinha perguntado para todos...
– Você se lembra dela?! – Exclamei surpresa, fazendo todos da sala olharem para mim. Me encolhi sem graça – Lembra?
– Todos nós lembramos – Ela sorriu.
– Mas então...
– Se você durar essa noite, eu te conto – Ela saltou do banco e andou saltitando para fora da sala, voltando a ter aquele ar de garota dócil e fofa que eu achei que tinha.
– Se eu durar essa noite? – Repeti incrédula. Ela achava o que? Que eu ia me matar?
O toque de recolher tocou exatamente quando eu guardei o livro na estante. Dei um suspiro e segui as crianças e adolescentes que também subiam, e nenhum deles parecia feliz de estar voltando para o quarto.
Cheguei em meu quarto e fechei a porta, mas quando tirei a mão da maçaneta, algo caiu da minha manga. Um pequeno papelzinho. O peguei e vi que era uma mensagem, escrita com uma letra pequena e graciosa.
Fique sentada ao pé da porta esperando. Ele vem geralmente perto das duas da manhã.
Boa Sorte, Lilian.
Aquela garota era completamente maluca. O que diabos seria Ele?
Taquei o papelzinho na mesa e me arrumei para dormir. Botei meu pijama, desliguei todas as luzes e deitei em minha cama para ir dormir. Mas a maldição do papelzinho não deixava. Provavelmente devo ter ficado duas horas indecisa entre seguir o papelzinho ou ignorar e dormir. Seguir? Ignorar? Seguir...?
Olhei para o relógio de parede e vi que era uma e quarenta e cinco da manhã. Não resisti a curiosidade e levantei de minha cama.
Fiz exatamente o que o papel pediu. Sentei ao pé da porta e deixei o meu ouvido bem próximo, fazendo com que fosse possível eu ouvir os estalos que a madeira dava bem mais altos do que da minha cama.
Uma e cinquenta e eu só ouvia estalos, mas tinha a impressão de que eles só aumentavam. Talvez tenha sido uma pegadinha. Talvez ela estivesse brincando comigo, sabendo que eu estaria mal por estar alucinando.
Enfim deu duas horas da manhã. Os estalos estavam bem mais altos. Pareciam que estava bem próximos a minha porta. E eles aumentavam e aumentavam. Percebi que agora dava a impressão de que eles estavam exatamente em frente à minha porta. E foi nesse momento que eles pararam.
Eu gelei por alguns instantes. Esperei mais alguns minutos para vez se eles voltavam, mas tudo continuava silencioso. E então eu ouvi alguém arranhando lentamente a minha porta.
Levantei de um salto, me afastando um pouco. Olhava de olhos arregalados para a porta, esperando que alguém a arrombasse e aparecesse com uma faca, uma serra elétrica ou qualquer coisa ensopada de sangue. Mas só veio o silencio.
Me aproximei da porta devagar. A tentação de abri-la e ver o que havia lá fora era enorme. Eu não estaria saindo do quarto. Eu apenas iria abrir a porta, bem pouco. Olhar pela fresta, apenas isso. Mas meu subconsciente alertava que aquilo era pior do que eu ter ido para a sala do sótão. Minha mão rapidamente foi até a chave e girou o trinco, trancando o quarto. Tive a impressão de ouvir alguém bufar bem baixo do outro lado da porta, e os estalos voltaram, só que se afastando.
E eu não consegui dormir o resto da noite.
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