Doom!
2 Matsui Yuki
Notas iniciais
Capitulo 2 – Matsui Yuki
1º de agosto de 2017:
Ainda era de madrugada quando comecei a sentir aquela angustia.
Duas e meia da manhã e eu acordada, olhando para o nada pela janela. A maioria dos adolescentes de 16 anos deve estar em alguma festa, comemorando o inicio das férias de verão, bebendo até não lembrar o próprio nome, transando com o namorado, ou com o primeiro desconhecido que viu. Graças a Deus eu não faço parte dessa maioria. Festa, álcool, pra mim isso é tudo diversão fútil, mas parece que é o “normal” de qualquer adolescente hoje em dia. Bom, eu não sou qualquer adolescente e também não sou nem um pouquinho normal.
Respirei fundo e olhei as outras meninas dormindo, que inveja, queria poder me deitar na cama fechar os olhos e dormir, mas não conseguia, toda vez que eu tento os pesadelos começam.
Abracei minhas pernas e me virei pra janela de novo, fiquei olhando pra rua, nenhum carro passava (claro tamanha duas e meia da manhã) eu não escutava nenhum ruído. Abri um pouco a janela e senti o vento frio da noite bater no meu rosto (já falei que eu to no segundo andar?). Abri um pouco mais a janela e me aproximei, colocando a minha cabeça pra fora.
— Você não ta pensando em se jogar, está? – perguntou uma voz atrás de mim.
Ajeitei-me e virei para ver quem era, suspirei aliviada assim que vi que era ela.
— Você me deu um susto Satoki.
Satoki é a minha melhor amiga, a única pessoa que me conhece de verdade, conhece minha historia, conhece as razões para eu ser como eu sou e não me julga por isso, é a pessoa em que eu confiaria uma decisão que pudesse mudar minha vida para sempre, por que eu sei que ela estaria escolhendo o melhor.
Satoki é um pouco mais baixa do que eu, é branquinha, tem cabelos pretos que vão até metade da costa, repicados nas pontas, ela usa uma franjinha, faz bem o estilo dela. Ela é a pessoa mais paciente de mundo, se preocupa muito com o bem estar das outras pessoas, é uma boa ouvinte, uma boa conselheira, uma boa amiga... Se eu ficar listando as qualidades dela, não vou terminar nunca.
— Desculpa Yuki-San.
Mas Satoki tem um defeito, que é ser educada demais. Sim eu falei isso mesmo, ser educada demais.
— Não precisa de tanta formalidade comigo Satoki – disse seria
— Desculpa Yu-Chan, é que eu achei que você tivesse ficado chateada.
— Tudo bem – disse voltando minha atenção para a janela.
— Então você ainda não respondeu – falou ela, sentando na minha frente.
— O que? – Perguntei olhando pra ela
— Você não esta pensando em se jogar daí, esta?
— Eu não sou tão louca – respondi dando uma risada
— Bom, era só pra saber. Então o que faz acordada uma hora dessas?
— Nada – respondi num suspiro
— E no que você esta pensando?
— Na vida
— Nas férias?
Assenti.
— E de como elas vão ser chatas.
— Achei que gostasse das férias, todo mundo gosta.
— Eu não sou todo mundo, pra maioria das pessoas, férias significam diversão, viagens, passar tempo com os amigos, mas pra mim significam que eu vou passar mais tempo dentro dessa prisão.
— Não seja tão dramática, é obvio que vamos poder sair para passear durante essas férias, se nos deixarem muito tempo presos aqui, vamos acabar quebrando a casa.
— Eu sei, é que... Sei lá, eu sinto uma espécie de angustia, como se algo ruim fosse acontecer hoje, não sei isso ta me deixando mal e você sabe quando eu fico assim, começo a reclamar de tudo.
— Não vai acontecer nada de mal hoje, vai ser só outro dia monótono como qualquer um. – disse ela me olhando – você quer que eu esquente um pouco de leite para essa sua insônia?
— Não, tudo bem – suspirei e fechei a janela – vamos dormir se não vamos acabar acordando as outras.
— Ok – ela foi até a cama dela – boa noite.
Suspirei e me deitei na cama – Boa noite. – disse me entregando ao sono e aos pesadelos.
§§§§§§§
Acordei com o sol na minha cara. Droga. Me esqueci de fechar a janela de noite. Me sentei na cama e olhei em volta, a maioria das camas estavam vazias, ou seja, a maioria das meninas já tinham acordado, olhei pra cama da Satoki e vi que estava vazia.
Levantei, peguei minha roupa que estava do lado da cama e fui pro banheiro, algumas meninas estavam saindo dele, Satoki era uma delas, ela parou do meu lado e disse:
— Vou guardar uma panqueca pra você.
Sorrir como resposta.
Fui tomar meu banho, lavei bem meus cabelos e o resto do meu corpo, terminei meu banho, me enxuguei e fiquei de roupão na frente do espelho do banheiro. Comecei a secar o meu cabelo com o secador, não demora muito, já que ele é curto, mas se eu não secar no secador ele fica todo embaraçado, pois meu cabelo é ondulado, não muito, mas é.
Quando terminei de arrumar meu cabelo, vesti minha roupa, uma blusa branca com detalhes azuis, uma legging preta e um all star branco. Uma coisa boa nas férias é que eu não tenho que usar o uniforme do orfanato, sim eu moro num orfanato.
Moro em orfanatos e em casas de acolhimento desde os meus cinco anos, nunca fico muito tempo em um, geralmente seis messes, um ano, mas nesse que eu moro agora, já estou há três anos, desde os meus treze anos, agora eu tenho dezesseis.
Desci pra cozinha e logo que entrei vi a Satoki, ela guardava o meu lugar e a minha panqueca, fui até ela, me sentei na cadeira e comecei a comer. Depois de um tempo a cuidadora do orfanato entra na cozinha e pergunta pelos outros, uma das meninas responde que eles ainda devem estar dormindo, quando ela sai para acordá-los um menino que eu não sei o nome (não que ele seja novo no orfanato, mas eu não sou muito boa em lembrar o nome das pessoas) senta na minha frente.
— Oi olhos verdes. – diz ele
“Olhos verdes” é o meu apelido, justamente por que eu tenho olhos esverdeados, eu não gosto muito desse apelido, mas é melhor do que o meu apelido no ultimo orfanato: “Loira”, me chamavam assim, justamente por que eu sou loira.
Um metro e sessenta, cabelos curtos, loiros e ondulados, olhos verdes, órfã e irritada com o mundo. Essa frase me representa.
— Oi – respondi voltando minha atenção para a minha panqueca.
Ele se virou e começou a conversar com a Satoki, que, muito diferente de mim, é amiga de todo mundo no orfanato.
Terminei meu café da manhã e fui pra sala, não tinha ninguém lá, perfeito. Me sentei no sofá e liguei a TV. Um tempinho depois, um menino de mais ou menos doze anos desse as escadas, vestindo uma bermuda preta e uma camisa vermelha, ele não me vê e eu assobio. Ele se vira e solta uma risada sem graça quando vê que sou eu.
—Yuki/
—Hiroshi.
Hiroshi é o meu irmão mais novo. Ele é muito, muito diferente de mim. Enquanto eu sou estressada e perco a paciência muito fácil, ele é doce, fofo e muito paciente. Hiroshi é tudo pra mim, eu faria qualquer coisa por ele.
Ele é um dos motivos pra eu estar durando tanto tempo nesse orfanato. Ele gosta desse lugar, das pessoas, tem vários amigos, então achei que o melhor era ficar aqui, num lugar que ele se sinta à-vontade.
Hiroshi veio ate mim e me deu um abraço.
— Bom dia. – ele disse.
— Bom dia. É melhor você ir logo tomar café, se der sorte ainda tem uma panqueca.
Ele riu e foi pra cozinha, eu fiquei observando ele, um menino forte, saudável e feliz, gosto de ver ele assim, realmente ele é tudo pra mim. Enquanto olho o Hiroshi ir pra cozinha, sinto novamente a angustia que eu estava sentindo de madrugada. Ponho a minha mão em cima do peito e respiro fundo, esperando que a angustia passe. Penso no que a Satoki me disse de noite, que hoje vai ser outro dia monótono como qualquer um, que não vai acontecer nada de ruim hoje, eu quero me convencer de que o que ela é verdade, mas não consigo.
Satoki entra na sala e vai até mim.
— O que ta acontecendo?
— Nada, só não to me sentindo muito bem.
— É aquela angustia de novo? – eu assenti – já te disse que não vai acontecer nada hoje.
— Eu to tentando me convencer disso.
Quando a Satoki ia falar uma menina entra na sala.
— Meninas vocês tem que ver isso.
— O que? – perguntou a Satoki
— Vocês têm que ver o que ta acontecendo lá no pátio.
— O que? – eu perguntei.
— Vão ver – disse ela correndo para o pátio.
Eu e a Satoki fomos até o pátio e antes mesmo de chegar até lá eu já estava começando a sentir frio. Quando chegamos ao pátio vimos uma coisa inacreditável...
— Neve? – perguntei confusa.
— Mas nós estamos no verão – respondeu a Satoki
Realmente não era possível que nevasse no verão, mas não era a primeira vez que eu via uma coisa dessas acontecendo.
Olhei para as outras crianças, alguns estavam confusos, outros assustados, os menores estavam felizes, maravilhados, alguns estavam se preparando pra brincar na neve quando a diretora do orfanato chegou e mandou todos entrarem e colocarem um casaco. Foi ai que eu notei que todos estavam com roupas de verão.
Entramos e subimos para o quarto. Fui pra minha cama procurar o meu casaco. Era um casaco grande, azul e com capuz. Vesti-o e fechei o zíper. Olhei para as outras meninas, algumas vestiam uma blusa de mangas cumpridas e depois o casaco, mas mesmo assim ainda estava muito frio.
Soprei as minhas mãos para elas ficarem aquecidas e fiquei olhando para a janela, tava caindo muita neve, então eu percebi...
— As janelas estão abertas.
Todas nós corremos para fechá-las. Estava ventando muito, então foi um pouco difícil fechar, mas finalmente conseguimos. Vi que tinha um pouco de neve no chão e continua muito frio. Olhei pela janela e vi que continuava a cair muita neve. Nesse momento a cuidadora do orfanato entrou no quarto e mandou todas descer para a sala, disse que estaríamos mais quentes perto da lareira. Ninguém se negou a descer, mas antes eu perguntei o que estava acontecendo, ela respondeu que não era uma simples nevasca, mas sim uma tempestade de neve.
Descemos e fomos para perto da lareira. A diretora explicou que as crianças menores ficariam mais perto do fogo, ninguém reclamou. Nós pegamos mantas e nos cobrimos. Olhei para as crianças que estavam mais perto do fogo e vi Hiroshi lá, que bom, pelo menos ele não vai ficar com frio.
Mesmo com as mantas e com o fogo perto da gente, ainda estava muito frio. Algumas pessoas se abraçavam para manter o calor, outras tomavam chocolate quente. A diretora tentava acalmar a gente, dizendo que logo a tempestade ia passar, mas parecia que a cada minuto a tempestade ficava mais forte.
Demorou bastante para a tempestade passar, a gente almoçou e um tempo depois o sol já brilhava lá fora. Ainda tinha neve no chão, mas como já não fazia mais frio, a diretora deixou que as crianças brincassem no pátio.
Eu, a Satoki e mais algumas meninas fomos para o quarto. Elas ficavam falando em como era estranho uma tempestade de neve no verão, mas eu não prestei muita atenção na conversa, fiquei olhando pra janela. A rua estava totalmente coberta por neve, não tinha ninguém nela, mas não era isso o que mais me impressionava, mas sim o estado da janela. O vidro dela estava congelado, acho que se eu tocasse nela o vidro quebrava.
Comentei como estava à janela e as meninas foram chamar a diretora, pois se a janela quebrasse no meio da noite podia machucar alguém. Ficamos só eu e a Satoki.
— Você esta bem? – ela perguntou.
Não eu não estava bem. Mesmo com toda a loucura da tempestade de neve, a minha angustia não passou, na verdade, ela só aumentou.
— Estou sim – eu não queria preocupá-la
— Eu vou à cozinha pegar um suco. Você quer?
— Não, valeu.
Ela saiu e eu fiquei sozinha no quarto. Me ajeitei na cama e respirei fundo esperando que aquela sensação ruim fosse embora. Olhei para os lados da minha cama e no lado esquerdo vi a minha mochila da escola. Estranho. Podia jurar que tinha guardado ela no guarda-roupa ontem quando cheguei do colégio.
Me levantei, peguei a mochila e fui guardá-la. Quando eu estava chegando ao guarda-roupa eu escutei uma voz.
“Você tem que ir”
—Quem está ai? – Perguntei olhando pros lados
“Você tem que salva-lo”
— De quem você ta falando? – coloquei a mão no peito e respirei fundo – cadê você?
“Tem que ir rápido”
Coloquei as duas mãos no peito e comecei a respirar pesadamente, a voz continuava repetindo as mesmas frases. Comecei a pensar sobre quem a voz estaria falando e só um nome me veio à cabeça.
— Hiroshi – disse antes de por a mochila nas costas e sair correndo do quarto.
Fui ate a sala e não tinha ninguém, fui até o pátio, esperando que ele estivesse brincando com os amigos, mas ele não estava.
— Onde ele esta? – perguntei pro nada
“vamos você esta chegando perto, tem que ser mais rápida”
— Perto? Perto de onde? Se ele não esta no pátio, onde esta? – parei e pensei um pouco, ainda respirava pesado – o jardim – e fui correndo para lá
Quando cheguei ao jardim e gritei um pouco o nome dele, mas não escutava nenhuma resposta.
— Hiroshi onde você ta? Aparece por favor. – disse apavorada e segurando as lagrimas que queriam sair.
— Onee-Chan – escutei a voz dele, meio baixa, mas era ele
“Rápido, vai atrás dele”
Corri até onde eu acreditava que a voz dele tinha vindo
— Hiroshi – eu falei um pouco alto, principalmente por que me assustei com o que eu vi.
Um monstro. Isso mesmo. Um mostro, grande e escuro estava carregando o meu irmão nos ombros.
— Hiroshi – eu gritei
O monstro olhou pra mim, mexeu as mãos e uma coisa grande e preta apareceu na frente dele, parecia um portal, mas aquilo não me assustava. O que me assustou mesmo foi o que o monstro fez em seguida. Ele pulou no portal negro com o meu irmão. Eu gritei e corri atrás dele, mas o portal se fechou antes de eu chegar perto. Ele fechou e o meu irmão se foi.
Eu cai de joelho no chão. Não podia acreditar no que tinha acabado de acontecer, o meu irmão não podia ter ido embora, o pior é que se eu contasse pra alguém, ela não ia acreditar. Puxei a manga do meu casaco, pois o frio estava voltando e deixei algumas lagrimas caírem.
“Você quer salva-lo?” disse a mesma voz que falou comigo ainda pouco.
Eu me levantei e perguntei:
— Onde você esta? Porque não aparece?
“você quer salva-lo?” ela repetiu
— Claro que sim – eu respondi respirando pesadamente.
“E o que você faria para salva-lo?”
— Qualquer coisa.
“Qualquer coisa? Tudo?”
— Sim
“Sem se importar com as conseqüências?”
— Não importa o que eu tenho que fazer, eu faço.
“Tem certeza?”
— Absoluta.
“Então achei”
Depois que ela disse isso um brilho surgiu do meu bolso. Eu coloquei a mão no bolso e tirei de lá um objeto que brilhava intensamente. Depois de um tempo o brilho parou e eu vi um objeto parecido com um celular (um iphone) azul e branco.
— O que é isso?
“Aponte isso para frente”
— O que?
“Aponte esse objeto para sua frente”
— Ok – e eu apontei. O objeto estranho começou a brilhar de novo e quando parou um portal, parecido com o que o monstro criou, apareceu na minha frente, mas diferente do outro, esse portal era branco, iluminado e emanava uma espécie de paz. – Como?
“Para encontrar o seu irmão você tem que passar por esse portal, mas deve ter em mente os perigos que você vai enfrentar.”
— Como assim perigos?
“Você vai enfrentar coisas perigosas, monstros, como o que levou o seu irmão.”
— O que?
“Você vai enfrentar muitas coisas piores do que aquele monstro. Muitos perigos, mas pior do que isso, você vai enfrentar a solidão, o medo, a dor, a perda e as próprias trevas, mas se for forte, nesse lugar você vai encontrar amigos, aliados, o amor, a luz e a paz, mas terá que reconhecer que não pode fazer tudo sozinha, terá que reconhecer a força, mesmo que ela esteja escondida.”
— Eu não me importo com o que eu tenho que enfrentar se for para salvar o meu irmão, eu faço qualquer coisa, eu já disse.
“Você enfrentaria até a própria morte?”
Congelei com essa ultima pergunta. A própria morte? Será que esse lugar é tão perigoso assim?
— Sim. – se esse lugar é assim, quer dizer que o meu irmão corre perigo e eu não vou deixar nada acontecer com ele.
“Ok. Então entre. Encontre o seu irmão, mas tenha cuidado e tenha sempre em mente o que vai fazer.”
— Espera, pra onde eu vou? O que eu tenho que fazer?
“Se eu contar não vai ter a menor graça”
— Pelo menos me da uma dica sobre como começar.
“Encontre seu primeiro aliado. Boa sorte Matsui Yuki.”
— Tudo bem. – e entrei no portal
§§§§§§§
Eu não entendi muito bem o que aconteceu depois que eu entrei no portal, mas sei que não estou mais no orfanato, pois num minuto eu estava no jardim e em outro eu estou numa floresta.
— Que lugar é esse? Onde eu estou?
— Você esta no digimundo. – disse uma voz, mas não a mesma que falava comigo antes.
— Estou aonde?
— No digimundo.
— O que é o digimundo?
— O digimundo é o digimundo.
— Ok, mas cadê você?
— Atrás de você.
Eu me virei e olhei para baixo. Vi uma criaturinha estranha, muito estranha, já que ela falava.
— O que é você?
— Eu sou um Digimon.
— Um Digimon?
— Isso mesmo.
— Ok. E o que você faz aqui?
— Eu acho que eu estava te esperando.
— Me esperando?
Eu não sabia o que era aquela criatura, não sabia o que era esse digimundo e muito pior não sabia como começar a procurar o meu irmão. Eu não estava com medo, eu estava confusa, eu tinha que ter respostas e tinha que ser rápido, mas alguma coisa me diz que isso ainda vai demorar...
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