Don't You Forget About Me
3 22 de Fevereiro de 2005
Notas iniciais
"22 de Fevereiro de 2005.
Caro Stan Lee,
ela se chama Harriet. Sim, Harriet. Um nome tão comum que eu já ouvi um milhão de vezes por ai. Mas o engraçado é que o nome combina com ela. Harriet. E ela é tão linda que eu quero morrer. Não morrer literalmente. Mas ela é tão bonita que provoca isso em mim.
Eu cheguei atrasada hoje na aula de desenho. Tudo culpa da Carmen, a minha "cuidadora" (eu jamais vou chamá-la de babá ou empregada. Ela cuida da casa, apenas. E eu tenho quinze anos e não preciso de babá), ela resolveu pegar um atalho que ela jurou que era bem mais rápido e menos movimentado. Mas adivinha só? Era super movimentado! Acontece que o próprio Sr. Presidente da República estava passando por lá naquele momento. Ele em sua limousine presidencial, seguido por toda aquela comitiva de carros e motos. Foi horrível e nós ficamos paradas quase uma hora no trânsito.
Eu não sou uma pessoa que gosta de xingar, você bem sabe disso, mas naquele momento eu pensei em muitos palavrões que eu jurava ser capaz de falar. Mas acabei calada, como sempre. A pior coisa disso tudo foi não poder presenciar a chegada de Harriet, que parece ser uma de minhas coisas preferidas no momento. Mas pelo menos eu pude ficar ao seu lado e nós duas terminamos nossas pinturas em silêncio enquanto a Sra. Flowers ouvia Nirvana.
Confesso que a pintura de Harriet ficou muito legal. Ela tem talento e é criativa, diferente de mim. Eu passei a maior parte do tempo espiando o que ela estava fazendo, e numa dessas espiadinhas, ela acabou me flagrando e sorrindo pra mim. ELA SORRIU PRA MIM DE NOVO! E eu já comentei como ela fica fofa sorrindo? Ela é tão linda...
Depois disso eu mal podia controlar minhas mãos e tive que me esforçar verdadeiramente pra não ficar tremendo o tempo todo e estragar toda a pintura. Mas no final das contas deu tudo certo.
Antes de nos liberar, a Sra. Flowers pediu pra que todos nós ficássemos em silêncio e então tocou uma música do Nirvana pra gente ouvir. Depois disso, ela começou a nos explicar a importância de se aproveitar todas as coisas boas que a vida nos oferece. Ela disse que esses momentos são raros e que se não os aproveitarmos, provavelmente iremos nos arrepender no futuro. Depois ela disse que o maior arrependimento da vida dela era não ter ido no último show do Nirvana (ela tinha os ingressos mas no dia ficou com preguiça de ir) e logo depois o Kurt se matou e agora ela nunca mais teria a oportunidade de vê-lo cantar novamente. Acho que aquilo era pra nos motivar ou algo assim, mas eu estava com tanta vontade de rir. E quando eu olhei pro lado, Harriet também estava se segurando pra não rir. E graças a Deus a Sra. Flowers nos dispensou logo em seguida e então eu pude dar uma risadinha. E Harriet também.
Sempre que minha aula de desenho acaba, tem alguém me esperando no carro. Às vezes é o papai, outra vezes minha mãe, mas geralmente é a Carmen. Mas hoje não tinha ninguém. Nem um sinal de qualquer um dos três. Eu fiquei lá, parada em frente ao prédio, congelando naquele frio. Mas então Harriet parou ao meu lado e sorriu pra mim outra vez. Um desses sorrisos ainda vai me matar.
—- Você não tem carona pra casa? -- Ela tinha uma voz tão linda! É sério, Stan, me desculpa. Eu vou tentar não pirar sempre que falar dela.
—- Eu tenho, mas ninguém apareceu ainda.
—- O trânsito está horrível hoje. O Presidente, a neve... -- Ela esfregou as mãos antes de colocar as luvas, e eu senti vontade de sorrir ao ver como seus dedos ainda estavam sujos de tinta. -- Eu me chamo Harriet. Harriet Styles. E você?
Ela estendeu a mão, e eu apertei seus dedos enluvados com uma sensação estranha na boca do estômago. Eu gaguejei meu nome e ela deu aquele sorriso lindo outra vez e eu me derreti inteira e até esqueci de soltar os seus dedos. Ela deu uma risadinha e largou minha mão. Mas eu não me incomodaria se ela continuasse segurando-a pelo resto do dia. Logo em seguida um carro parou do outro lado da rua e Harriet me deu um abraço rápido e estranho antes de se despedir. Ela cheirava a bala de menta.
Eu continuei ali, parada no mesmo lugar, sentindo meu corpo queimando nos lugares onde ela havia encostado segundos antes. Stan, eu juro que até agora consigo sentir os braços dela ao meu redor. E também aquele cheirinho de bala de menta que eu acho que nunca mais vai sair da minha cabeça.
Oh, céus, já passou da hora de ir pra cama. Eu não posso continuar me atrasando de novo.
Até mais, Stan."
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