Don't You Forget About Me
4 24 de Fevereiro de 2005
"24 de Fevereiro de 2005
Caro Stan Lee,
hoje eu fiz questão de sair mais cedo de casa só pra não me atrasar pra aula de desenho. Eu não me importava de chegar meia hora antes do horário. Era melhor estar muito adiantada do que chegar atrasada e perder a oportunidade de ver Harriet chegar. Eu sei que isso parece coisa de gente louca que fica perseguindo as pessoas, mas eu não estou a perseguindo, estou? Nós estudamos juntas, eu apenas quis chegar mais cedo por puro interesse educacional.
Carmen me xingou de todos os nomes feios que conhecia enquanto eu a puxava pelo braço, dizendo que deveríamos sair logo. "Mas ainda não está no horário. Nós temos tempo, Lou." Tive que ralhar com ela e beliscar seu braço pra que ela parasse de me dar desculpas. "Não quero me atrasar!" E assim saímos de casa, com Carmen me xingando mentalmente, era bem provável.
As ruas estavam bem tranquilas e com o movimento normal pra um horário como aquele. Talvez o Presidente estivesse quietinho em casa, sentindo que alguma pessoa precisava muito que as ruas estivessem livres pra que ela não se atrasasse. Eu te amo, Presidente. Nunca mais saía de casa. Pelo menos não nos dias em que tenho aula com a Sra. Flowers.
Subi as escadas até o apartamento da Sra. Flowers, onde ela mantem seu estúdio e nossa sala de aula. É um lugar enorme, diga-se de passagem. Papai disse que o aluguel num bairro como aquele é muito caro, mas que a Sra. Flowers não deve ter problemas pra quitar suas contas já que cobra caríssimo por suas aulas de arte. Mas ela é uma ótima professora, mesmo com suas manias e esquisitices. Eu estava feliz por papai ter resolvido pagar as aulas pra mim.
Antes disso eu tinha a péssima mania de passar o tempo todo desenhando. Quer dizer, meus pais diziam que a mania era péssima, que isso tirava toda a minha atenção nos estudos e que eles não tolerariam mais minhas notas baixas. "Pintar não dá futuro pra ninguém", é o que eles diziam. E quando eu citava o nome de todos os pintores famosos que existiam, eles simplesmente me respondia com "Todos eles só ficaram famosos depois de morrer", e então eu não tinha argumentos pra rebater isso e a discussão se acabava.
Eu passava o tempo todo desenhando. Eu criava personagens na minha cabeça, eu os desenhava e logo depois começava e criar pequenas histórias em quadrinhos sobre essas histórias que eu criava. É claro que eu fazia isso durante as aulas e às vezes até durantes as provas. Quando minhas notas começaram a cair e os professores chamaram meus pais pra uma reunião, foi que meus pais começaram a implicar com meus desenhos. Então papai reservou horários pra que eu pudesse desenhar. Além das aulas com a Sra. Flowers, eu podia desenhar à noite, sempre depois de fazer minhas tarefas, jantar e "socializar com a família". Não me sobrava muito tempo depois disso, já que eu precisava dormir cedo durante a semana, mas acho que era essa a intenção de papai. Acho que ele pensava que se me proibisse de desenhar, aos poucos eu perderia o interesse e acabaria deixando isso de lado. Mas foi completamente ao contrário.
Quando entrei na sala de aula, que tinha um cheiro dos incensos que a Sra. Flowers acendia, fui recebida com o arquear de sobrancelhas da velha e o som de uma música que me parecia familiar. Só depois de me sentar que eu percebi que o que estava tocando era Nirvana, mas as músicas tinham um arranjo diferente. Eram acústicas. E eu percebi que Nirvana era bem melhor assim do que quando era aquela barulheira que normalmente se ouvia por aí.
— Chegou cedo hoje. O que aconteceu? — A Sra. Flowers não desgrudou seus olhos do livro grosso que tinha em mãos.
— Hm... — Eu não sabia como responder. Ponderei e depois de um suspiro pesado, soltei a primeira desculpa que surgiu em minha cabeça. — Acho que meu relógio está adiantado. — Dei de ombros e como não recebi nenhuma resposta, acho que ela acreditou em minhas desculpas.
Tirei meu caderno de rascunhos da mochila, só pra ter o que fazer enquanto esperava o tempo passar. Comecei a rabiscar diversas gravatas borboletas com padrões diferentes, e estava tão entretida no que fazia que só percebi que Harriet já estava sentada ao meu lado quando ouvi sua voz.
— Está pensando em criar uma linha de gravatas? — Ouvi sua risada baixa que me fez corar da raiz dos cabelos até os dedos dos pés.
— Eu... Não. — Tentei sorrir, mas imagino que meu sorriso tenha sido mais uma careta que só fez com que ela risse mais ainda de mim.
Meu coração martelava sob meu peito. Céus, o que estava acontecendo comigo? Harriet se aproximou mais, puxando e arrastando o caderno pela mesa pra dar uma olhada nos desenhos. Ela riu outra vez, baixinho, e eu senti um cheirinho bom. Era parecido com o cheiro de bala de menta, e então eu percebi que ela mordia alguma coisa enquanto observava meus desenhos. Devia mesmo ser bala.
— Quer? — Ela estendeu a mão, uma bala de menta pousada sobre a palma. Deveria ter percebido que eu estava observando-a mastigar.
Eu corei outra vez, deixando que minha franja (que precisa urgentemente ser cortada) caísse sobre meu rosto só pra que pudesse desviar um pouco a atenção do tom vermelho que dominava as maçãs do meu rosto.
— Obrigada — eu disse, porque é a coisa certa a se dizer. E eu não saberia o que mais poderia lhe dizer já que a vergonha me dominava por completo.
— Não foi nada. — E ela sorriu de novo, e eu derreti por dentro, e tive vontade de me jogar em cima dela pra ver se o cheiro de menta que eu sentia vindo dela era real ou apenas imaginação minha.
Eu não chupei a bala. Disfarcei e guardei na bolsa, e estou encarando-a vez ou outra enquanto escrevo. Sei que isso é estranho, mas é bom ter qualquer coisa que me faça saber que ela é mesmo real.
Eu nunca estive apaixonada por ninguém, e nem tenho certeza se é isso o que estou sentindo. Mas Harriet definitivamente mexe comigo. Não é normal o modo como meu coração dispara quando eu a vejo.
Preciso ligar pra Lyanna. Ela entende tudo sobre paixões. Só ela pode me ajudar.
Até mais, Stan."
Guardou o diário sob o colchão outra vez, temendo que Carmen o encontrasse em uma de suas faxinas. Fuxiqueira do jeito que era, Carmen seria capaz de ler tudo de cabo à rabo e sair espalhando seus segredos por toda a casa. Maldita Carmen. Não que a odiasse, apenas detestava esse seu intrometimento extremo.
Depois de se certificar que a cama e o colchão não pareciam suspeitos ou desarrumados de um jeito estranho, Louise agarrou o telefone, discando o número da amiga enquanto se jogava na cama. Diferente dos filmes e das séries onde as pessoas mal discavam o número e já estava falando com a pessoa na outra linha, na vida real ela precisou esperar que o telefone tocasse sete vezes até que alguém atendesse.
— Oi, Boa noite, Sra. Martins. É a Louise. A Lyanna tá aí? — Depois de esperar quase dos minutos, uma Lyanna afobada atendeu o telefone, perguntando o que tinha acontecido. Louise nunca ligava pra sua casa naquele horário. — Calma, não é nada. Quer dizer... É sim. Eu preciso de sua ajuda com uma coisa.
— É importante? — A outra perguntou, resmungando.
— É bastante importante, Ly. Eu não te ligaria num horário desse se não fosse um caso de vida ou morte.
— Então me diga.
E Louise começou a lhe contar tudo sobre as aulas de desenho (que a amiga reclamou, dizendo que já sabia que seu pai estava lhe pagando aulas particulares pra ela "rabiscar), e então ela contou sobre Harriet e como seu coração parecia ficar louco sempre que a garota entrava na sala de aula.
— POR QUE VOCÊ NÃO ME CONTOU ISSO ANTES?! — Lyanna gritou, e Louise podia imaginá-la ficando vermelha de irritação do jeito que costumava ficar quando ela escondia alguma coisa.
— Eu... Não sei. Pensei que não fosse nada de mais. Não sabia se você se interessaria por isso.
— Garota, eu sempre me interesso com o que acontece com você. SOMOS AMIGAS! Você precisa me contar tudo.
E depois disso se seguiu uma troca de informações minuciosas sobre a forma como Harriet olhava pra Louise, ou como ela conversava com ela, e o tom de voz que usava. E sobre as reações de Louise, e o tom de voz que ela usava ao falar com Harriet. As duas se perderam naquilo até que a Sra. Martins gritou com Lyanna, mandando-a desligar o telefone, e as meninas se despediram com a promessa de que no dia seguinte avaliariam melhor a questão.
— Mas você está se apaixonando sim, garota. Tchau. — E ela desligou sem dar tempo pra Louise responder.
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