Notas iniciais
Capa: Capa da dj Your Voice por Tsukudan&Naruto



Diferente do outro dia, antes de sair Sanji se deu ao trabalho de ser minimamente gentil e se despedir de forma educada, mas sem exageros, apenas um até semana que vem era o suficiente. Após sair, chamou um táxi pelo aplicativo e aguardou do lado de fora durante poucos minutos até o carro chegar. Logo estava em casa, os dois lugares não eram tão distantes. Cumprimentou sua mãe com um sorriso enorme, enchendo-a de beijos e abraços, como sempre fazia, de forma exageradamente carinhosa.

Quando entrou em seu quarto e ia deixar o celular jogado lá para ir cozinhar e depois tomar um merecido banho, lembrou-se da cobrança do velhote e revirou os olhos. Olhou que ele havia mandado um oi... Por... SMS? Franziu o cenho estranhando aquilo, quem hoje em dia usava SMS? Tantos aplicativos de mensagens e Zoro escolhia o mais antiquado, era um velho caindo aos pedaços mesmo.

Cheguei, daddy.

Sanji enviou com um sorriso perverso nos lábios, lembrando-se de quão irritadinho o moreno havia ficado ao ser chamado dessa forma, talvez não fosse um mau apelido... Quando ia deixar seu celular de lado, pensou que não seria ruim provocá-lo um pouco mais, então digitou outra mensagem e enviou, deixando o celular na cama e indo para a cozinha com um enorme sorriso no rosto.

Como Zoro acordava cedo, ele costumava dormir bastante cedo também e já passava da hora em que geralmente deveria estar em sua cama roncando. Ele foi para cama sim, mas não estava dormindo. Ao invés disso se mantinha apoiado no cotovelo, observando o celular que estava ao seu lado como se estivesse esperando a confirmação de que outro havia chegado em casa.

O celular vibrou quando Zoro estava quase pegando no sono mesmo naquela posição pouco confortável. E de novo lá vinha o pirralho com essa história de daddy. Mas Zoro não morderia isca nenhuma, não a essa hora quando deveria estar dormindo tranquilamente em sua cama. Não se irritaria com essa bobagem.

Ok.

Foi o que se limitou a responder. Ele era tão monossilábico virtualmente quanto pessoalmente.

Deitou para dormir finalmente, fechando os olhos sem pensar muito no que aconteceu durante o dia nem no que viria no dia seguinte. Uma de suas maiores qualidades era sua capacidade de adormecer incrivelmente rápido, bastava alguns minutos e já estaria roncando tranquilo. Isto é, se a vibração de seu celular não tivesse o impedido de dormir justo quando estava prestes a cair no sono. De novo.

Pegou o celular irritado para ver o que era que tinha o atrapalhado na sua atividade favorita e abriu uma segunda mensagem de Sanji.

Quem em pleno ano de 2020 ainda manda SMS? Nem meu avô deve usar isso ainda, velhote de merda.

Inacreditável. Com uma minúscula mensagem esse pivete remelento conseguia tirá-lo do sério. Conseguiu chamá-lo de velho duplamente e ser completamente malcriado em uma frase só. Ele bloqueou o celular e fechou os olhos novamente, nem se daria ao trabalho de responder. E assim, Zoro foi obrigado a dormir com a testa franzida e com o pensamento em um certo moleque irritante que gostava de insultá-lo a cada minuto.

Fazia horas que Sanji estava rolando de um lado para o outro na cama sem conseguir dormir. A necessidade de fumar estava imensa e ele realmente estava cogitando a possibilidade de sair no meio da madrugada atrás de seu vício. Precisava fumar, já não estava mais nem em condições de raciocinar, sua mente apenas pensava em nicotina e mais nicotina. Era um fraco mesmo, totalmente patético. Não devia fazer nem quarenta e oito horas desde que parou e lá estava ele, quase entrando em transe por um mísero palito de veneno.

Frustrado, se levantou da cama, desistindo daquela noite de sono, tentando ignorar que não era a primeira. Insônia era uma merda, se ao menos conseguisse esvaziar a mente tudo seria mais fácil. Pegou o celular no criado-mudo ao lado da cama, desbloqueando e começando a entrar em suas redes sociais com milhares de seguidores, talvez aquilo o fizesse esquecer do que necessitava. Ao abrir a última foto que havia postado, naquele mesmo dia, viu milhares de curtidas e comentários, começando a ler alguns. Era bom ver o quanto as pessoas gostavam de seu trabalho e o admiravam, sempre elogiando e puxando seu saco. Sanji sabia que aquela vida perfeita que mostrava nas redes era a maior farsa de todas, nenhuma daquelas pessoas tinha conhecimento da doença de sua mãe ou de seu vício nojento, elas apenas enxergavam um modelo perfeito que ele fingia ser, sem nenhum defeito. Se perguntava se algum dia falasse a verdade a todos ainda teria aquele número de seguidores.

Desistindo daquela rede, o loiro a fechou e entrou em outra, vendo que horas atrás havia postado que estava indo dormir e desejando boa noite a todos. Dormir, claro. Nem se lembrava quando foi a última boa noite de sono que teve, provavelmente há muitos anos. Mesmo mal sendo adulto ainda, já tinha muitas responsabilidades e um peso gigantesco para carregar nas costas. Estudava, trabalhava em dois lugares, vivia viajando para lugares desconhecidos por causa de sua carreira como modelo, precisava sempre estar ao lado e cuidar de sua mãe e ainda tinha que lidar com o vício e a insônia. Para muitos aquilo poderia parecer apenas drama e lamentação, afinal, era um modelo bem-sucedido que tinha dinheiro acima do normal para um garoto de 19 anos, podendo ter tudo que queria e ir aonde quisesse, além de sua saúde ser perfeita, se ignorasse seu pulmão que deveria estar um trapo. Mas, para Sanji, nada daquilo tinha valor, se pudesse trocar todos os seguidores, todo o dinheiro que tinha, por sua mãe superando aquela doença, ele trocaria sem pensar duas vezes.

Com um suspiro, ele fechou aquela outra rede e entrou na de mensagens, procurando o contato de Zoro. Precisava de ajuda ou acabaria cedendo. Não encontrou o moreno lá, franzindo o cenho em confusão. Como ia fazer uma chamada de vídeo se o imbecil não estava naquele aplicativo? Pensou em desistir, especialmente ao notar que já era mais de uma da manhã, porém, mais uma tentativa não faria mal. Abriu a lista de contatos, indo direto para a letra Z, logo encontrando o número gravado do outro. Deveria mandar uma mensagem perguntando se ele estava acordado? Óbvio, só que não ia, não queria receber outro “ok” idiota. Sem pensar muito ele clicou no botão e iniciou a ligação, aguardando ser atendido.

Parecia que a cama inteira de Zoro estava vibrando. Ele ainda estava muito sonolento, mas pôde identificar a fonte das vibrações irritantes, provavelmente era seu celular. Abriu os olhos e ainda se encontrava no completo escuro. Seu relógio biológico o dizia que já faziam muitas horas desde que fora dormir, mas ainda faltavam mais algumas até a hora de acordar. Apesar disso, seu celular continuava a vibrar incessantemente, mesmo estando no meio da madrugada, hora em que pessoas normais deveriam estar descansando como ele estava tentando fazer.

Já fazia muitos anos que não recebia uma ligação de madrugada, mas por causa daquela vez seu cérebro não conseguia simplesmente ignorar a vibração e voltar a dormir como faria com qualquer outro barulho. Extremamente irritado ele se deu por vencido e tateou a pequena cama em busca do celular.

— Haa? — Ele disse com a voz arrastada, ainda quase dormindo.

— Oi, marimo. — Sanji respondeu assim que o outro atendeu, com um sorriso enorme no rosto. Quando conheceu Zoro, o cabelo do homem imediatamente o trouxe lembranças de uma aula que tivera na faculdade de ingredientes exóticos para se cozinhar e marimo era um deles. Nem um segundo depois a ligação caiu, fazendo-o franzir o cenho em confusão. Que diabos?

Ao ouvir a voz do garoto responder, Zoro fechou o celular sem pensar, mas sua real vontade era atirá-lo na parede. Será que isso era algum tipo de castigo por ter pedido o número daquele moleque? A irritação momentânea o fez levantar e ficar sentado na cama, apertando o celular na mão, ainda puto por ser acordado por aquela dor de cabeça ambulante. Desejava que cada adolescente no mundo sofresse uma morte lenta e dolorosa. Não respeitavam nem mesmo a preciosa noite de sono de alguém. Já havia ido dormir irritado graças às asneiras do outro, e agora isso. Era só o que faltava.

Entretanto, realmente podia ser algo sério, ele pensou, e sua mão hesitou em direção à cintura procurando espadas que não estavam lá. Se acalmando um pouco, ele abriu o celular outra vez e procurou o número do loiro nas últimas chamadas. Era difícil e a luz da tela perfurava seus olhos ainda sonolentos, mas logo ele clicou no contato que dizia "Pivete" e esperou o mais novo atender.

Sanji havia julgado que deveria ser o sinal que estava ruim e logo já começava a procurar o número do outro para ligar outra vez. No momento que ia clicar, viu o nome de Zoro aparecendo em sua tela e atendeu imediatamente.

— Ei.

— Desliguei sem querer. — Ele disse de forma pouco convincente, bocejando enquanto isso. — Aconteceu alguma coisa?

— Você é burro? Que tipo de idiota desliga uma ligação importante sem querer? Estúpido. — Sanji xingou sem pensar, um péssimo costume que havia adquirido desde que sua mãe e Zeff se casaram. Seu novo pai era um completo boca suja e cada vez mais o loirinho se tornou mais mal-educado e de longe essa era a única característica que havia puxado do mais velho. — Que seja.

Ligação importante? Pelo que Zoro estava vendo a única coisa de importante que havia nesse telefonema era o fato do loiro se achar mais do que era. Aguentou aquela gritaria em seu ouvido de cara amarrada, pensando que fora um idiota por ter retornado a ligação.

Sanji revirou os olhos, sentindo-se imbecil por se exaltar justamente com a pessoa que estava recorrendo para pedir ajuda. Se ele fosse Zoro, desligaria a ligação em sua cara naquele mesmo momento. Ficou em silêncio por um tempo, tentando reunir alguma coragem para falar, sentindo-se envergonhado em deixar aquelas palavras patéticas saírem de sua boca.

— Eu preciso fumar... — Ele falou baixo, mordendo seus lábios em desespero e sentindo os olhos se encherem de lágrimas que secou imediatamente. Não agiria com manha, não seria tão patético assim, precisava ser forte, se não conseguia por ele, que fosse por sua mãe. Suas mãos tremiam enquanto apertavam inconscientemente com força o celular, podendo se machucar caso exagerasse apenas mais um pouco e usasse mais de sua força, a ponto de quebrar o aparelho sensível.

— Não consegue dormir, né? — Zoro suspirou, mas seu estado já não era de impaciência. A pequena nota de vulnerabilidade que ouviu naquelas palavras pronunciadas tão baixinho fez seu semblante suavizar. Por mais que o loiro fosse um pé no saco e completamente folgado, ele sabia exatamente pelo que estava passando. Talvez aquela fosse uma ligação importante, afinal. — Não fume.

Zoro sabia que dizer isso era tão eficiente quanto dizer a alguém que estava triste para se alegrar, mas não havia muito mais que poderia ser feito. Nessas horas silenciosas e solitárias da madrugada geralmente a mente costuma criar desculpas e racionalizações, então é bom ter alguém para dizer o óbvio. Escutar da boca de outra pessoa o que se deve fazer nesses momentos em que sua própria força de vontade falha poderia ser crucial. Até porque, conhecendo aquele moleque arrogante, achava muito improvável que ele deixasse transparecer qualquer fraqueza se realmente não estivesse precisando de ajuda.

— Eu quero... — Sanji disse pateticamente com a voz baixa e um tom de manha que parecia tentar disfarçar o tom choroso, estava necessitado, não sabia mais o que podia fazer para esquecer aquela vontade de fumar. Ele apertou o braço fino, enfiando os dedos esguios na pele macia e branca, marcando-a sem notar. Era insana aquela vontade, nunca que sentiu tanta vontade de fumar assim. — Estou desesperado...

— Não faça. — Zoro disse firme, mas não rude. Pensou em perguntar se ele não tinha ninguém para ajudá-lo, mas por ter ligado para alguém que havia acabado de conhecer, era claro que não havia mais ninguém. — Continue falando comigo.

— Tá... — Como um cão, Sanji basicamente abaixou as orelhas e colocou o rabo entre as pernas, obedecendo a ordem do amigo, se é que já poderia chamar o homem assim. Ficou um tempo sem falar nada, se sentindo fraco e envergonhado por se submeter a uma ligação com um quase desconhecido, mas se não fosse Zoro, quem seria? Mais ninguém sabia de sua situação e muito menos o entenderia. Não conhecia nenhum viciado lutando contra o vício além dele. Enquanto estava em silêncio, pegou o fone, conectando-o no aparelho e levou aos ouvidos, guardando o celular no bolso. Honestamente não esperava que aquele homem fosse dar bola para seu drama e isso o fazia se sentir meio culpado por estar atrapalhando seu descanso.