Notas iniciais
Obrigado a todo mundo que nos apoiou no primeiro capítulo e aguardou essa atualização! Vamos aumentar a frequência de postagem dela a partir desse mês ~ Capa: ルナ - @ nori31291404

Depois que todos se levantaram, Zoro continuou a não se mover do lugar, apenas observando o loiro aparentemente tentar acabar com todo o café do local. Mas que idiota. Como se beber aquilo fosse fazer sua necessidade ir embora. Zoro percebia que não, as mãos do garoto só pareciam tremer mais ainda a cada segundo, ele não parecia ter se acalmado nem um pouco.

Todos pareciam exageradamente animados ao conversarem com o pirralho. As mulheres, em particular a secretária que era extremamente mais velha que ele inclusive, pareciam coradas e desconcertadas enquanto tinham suas mãos beijadas numa despedida pomposa e hiperbólica. Zoro viu o garoto se esgueirando para fora do recinto, as mãos excessivamente trêmulas, embora ninguém tivesse notado aquilo. Provavelmente achavam que ele estava ótimo. Ainda assim, Zoro esperou que algum deles fosse atrás do pirralho, perguntar se estava tudo bem, o de praxe. Qualquer um. Mas deixaram o rapaz sair sozinho.

Sentiu-se levantar da cadeira e pensou no que porra estava fazendo. Achava que estava velho demais para isso, para ficar sendo babá de um moleque, mas aparentemente suas pernas pareciam discordar porque o levavam diretamente à saída. Não precisou procurar muito para encontrar o rapaz, Sanji, caído ao lado do bebedouro em um corredor próximo. Zoro percebeu que seu tórax não estava se levantando, levou os dedos às narinas dele e nenhum ar parecia estar saindo ou entrando.

Ótimo. O que porra ele deveria fazer quando o corpo daquele moleque simplesmente decidiu parar de respirar no meio do corredor? Nunca havia visto coisa igual na vida, esse loiro deveria ser a pessoa mais ansiosa do mundo e a falta dos cigarros estava potencializando isso. Ou talvez seus pulmões de fumante tivessem finalmente desistido de tanto tossir, vai saber. Bom, não era médico, nem nada do tipo, muito pelo contrário, havia abandonado o ensino médio antes mesmo de concluí-lo, então não tinha conhecimento para especular nada.

Mas, para Zoro, a solução era bem simples. Seu único neurônio de alga só conseguia raciocinar que o garoto precisava de ar então tudo que ele tinha que fazer era forçar ar pela garganta dele, óbvio. Sem cerimônias, apertou o nariz do pivete enquanto levava os lábios aos dele para empurrar o ar para dentro.

Obviamente a ideia funcionou, porque estava sendo empurrado e chutado na cara, então aparentemente o loiro já tinha ar o suficiente nos pulmões para agredi-lo. Estava distraído e o chute daquele magrelo acabou fazendo um estrago em seu queixo. Aborrecido, Zoro alisou a parte que foi atingida pela sola do sapato social, que belo agradecimento. O loiro tentou de novo, mas Zoro apenas o segurou no lugar, impedindo que se esperneasse.

— Você é um pirralho muito mal agradecido, sabia? — Zoro falou arqueando uma sobrancelha para o loiro que não parava quieto e o fuzilava com os olhos. Definitivamente estava muito velho para isso.

Sanji não poderia ficar mais irritado. Acabava de ser beijado por um macho e queria lavar sua boca com sabão para tirar aquele gosto, aquela sensação estranha que havia ficado. Ele chutou e continuou tentando chutar aquele infeliz pervertido, colocá-lo em seu lugar, mas depois do primeiro chute bem dado não conseguiu acertar mais nenhum. Não é como se o velho não parecesse forte, só achou que pela clara idade ele já estaria bem mais fraco do que aparentava, um completo engano.

— Toma. — Zoro disse, apanhando o celular trincado do chão, um pouco molhado pela água derramada. — Talvez ele não sobreviva. Mas pelo menos você sobreviveu. — Disse calmamente com o restante de paciência que ainda sobrava em si.

Sanji ainda o encarava com ódio nos olhos, sentindo-se sujo depois daquilo. Queria vomitar, mas isso talvez fosse um pouco de exagero. Pegou o celular, vendo que ele estava bem morto, provavelmente não funcionaria mais, não que se importasse, dinheiro não era o problema, poderia comprar outro e nem sentir a facada. A questão ali não era o celular.

Sanji moveu os lábios para xingar o homem, mas quando viu ele não estava mais na sua frente. Antes que tivesse a oportunidade de ouvir bobagens descabidas do pirralho, Zoro se levantou em direção à loja que ficava na esquina do prédio. Ou onde ele achava que era a direção da loja, porque ainda precisou rodar o quarteirão para encontrá-la. Precisava comprar o jantar, que era uma coisa muito mais produtiva a fazer do que encher os ouvidos com reclamações inúteis.

O garoto franziu o cenho e o viu saindo pela porta, no momento em que virou e sumiu de sua visão. Foda-se. Ainda estava irritado, mas não iria correr atrás dele só para mandá-lo ir se foder. Sem chance. Dando de ombros, o loiro começou a andar na direção da saída também. No caminho passou a manga da camisa em sua boca, limpando-a como se não quisesse nunca mais sequer lembrar daquele beijo estúpido.

Saindo do prédio, Sanji se dirigiu até a loja de conveniência do outro lado da rua, quase como se algo tivesse induzindo-o a ir até lá. Zoro escolhia entre as opções de comida congelada um tanto distraído, nem percebeu quando Sanji entrou no estabelecimento também. Absorto em seus pensamentos, lembrava da cara do loiro contorcida em absoluto desprezo há pouco, como se Zoro fosse passar uma doença contagiosa apenas por ter encostado nele, e se perguntava por que diabos ainda tentava lidar com um pirralho problemático como aquele. Seu queixo ainda doía um pouco, ele deveria ter dado uma surra no garoto para ele aprender, isso sim.

Quando Sanji entrou, o percurso que fez o levou imediatamente até onde ficavam os cigarros e foi como se entrasse em transe. Suas mãos trêmulas iam várias vezes até os maços, e quando estava quase para tocar um, ele retornava suas mãos e as apertava. Aquilo se repetiu incontáveis vezes. Sua boca salivava só de olhar para aquelas pequenas caixinhas de veneno. Um minúsculo centímetro o separava de sua droga, faltava tão pouco. Lembrava-se de sua mãe todas as vezes em que estava para alcançar e recuava. Novamente se tornava ofegante. Dentro daquela loja parecia fazer todo o calor do mundo. Ele suava e não conseguia se conter. Ele precisava, só um...

Começou a tossir e colocou as mãos na boca para tentar parar, aquilo nunca dava certo e ele costumava tossir por um bom tempo. Suas mãos ainda estavam com cheiro do vício, toda vez que tossia era como se conseguisse encostar sua língua no cigarro da sua mão. Queria chorar. Ele precisava, só um não teria problema... Decidido... Talvez não com tanta certeza, Sanji pegou um maço em mãos e, quando ia colocá-lo de volta na prateleira hesitantemente, naquele mesmo instante o maço sumira. Algum infeliz havia roubado dele e provavelmente foi a melhor coisa que aconteceu. Ele respirou fundo, conseguindo se acalmar.

Sanji saiu da loja e olhou para o céu, inspirando aquele ar puro como se fosse rejuvenescer anos só com aquilo. Segundos depois, um maço de cigarro fora praticamente jogado em sua cara, fazendo-o arregalar os olhos em surpresa. Ele reconheceu as mãos, era do mesmo cara que havia roubado o maço há poucos minutos, e para seu desagrado, o cara era o velhote. Sanji suspirou enquanto segurava com as duas mãos trêmulas aquele maço tão desejado.

Quando estava na fila do caixa, segurando a embalagem congelada no maxilar para diminuir o inchaço, Zoro observara o loiro, incrédulo. Sanji parecia um disco arranhado, ou como se fosse robô com um defeito de fabricação. Olhava os cigarros como se fossem um oásis. Desviava o olhar pesaroso. Esticava a mão até eles e as encolhia de volta. Repetiu esse movimento vezes o suficiente para o atendente do caixa ficar zonzo e Zoro ficar irritado. Quando Zoro finalmente achou que ele iria tomar uma decisão, apanhando desejosamente a caixa em suas mãos, ele tornou a colocá-la de volta e foi a gota d'água. Zoro retirou o objeto das mãos do loiro, uma caixa de cigarros mentolados ou alguma merda assim, enquanto o rapaz, aparentemente ainda em choque, apenas saiu da loja sem o encarar. Zoro suspirou e pagou pelas compras e pelos cigarros, enquanto encarava a imagem horrível e deformada de um feto abortado no verso da embalagem.

Depois de atirar o maço na cara idiota daquele pirralho e o observar de novo começar a tremer enquanto segurava o objeto, Zoro o segurou pelo braço e o levou para longe da porta da loja.

— Se é isso mesmo que você quer, vá em frente. — Disse em tom de desafio, mas sem alterar a voz. Embora toda a paciência que tinha já tivesse se esgotado àquela altura. — Agora, se dentro de você existe um mínimo de vontade de parar você vai pegar esse negócio e jogar no lixo. — Completou, gesticulando com a cabeça para uma caçamba de lixo próxima a eles. Dando as costas para o moleque, seguiu em direção ao seu carro levando as sacolas em um braço forte e procurando a chave no bolso com o outro.

O sermão daquele mato ambulante era irritante, mas de alguma forma o tocou. Por estar naquele grupo de apoio, certamente ele tinha algum vício também, então provavelmente já havia passado por aquilo, especialmente por ser tão velho. Sim, fumar era o que Sanji realmente queria, mas... Mais que o desejo de fumar, ele queria que sua mãe ficasse bem, que ela melhorasse e não morresse por sua causa. Sua mãe era a única a cuidar bem dele quando estava na casa de Judge, naquele inferno, ela sempre o protegia e defendia, impedindo que o progenitor fizesse qualquer coisa ruim com ele. Até o fatídico dia que fora espancado em um momento que ela não estava em casa e quando chegou vendo Sanji todo ensanguentado, decidiu deixar o marido e aquela casa. Os outros quatro irmãos decidiram permanecer lá com aquele homem, e apenas Sanji foi com ela. E desde então sua vida se tornou um milhão de vezes melhor. Ele era feliz com ela e queria protegê-la.

Mesmo com as mãos trêmulas e uma vontade absurda de fumar, Sanji decidiu que era melhor jogar fora como aconselhado. Era sua decisão e ele sentia que com isso poderia conseguir se livrar do vício. Ele jogou fora o maço sedutor e correu atrás do velho, alcançando-o no momento que ele fechava a porta do carro. Sem muita escolha, se infiltrou no automóvel e sorriu para o outro em forma de agradecimento. Estava feliz consigo mesmo por ter conseguido resistir a tentação.

Zoro havia imaginado que se ficasse lá encarando Sanji provavelmente ele não fumaria, seu cérebro achando que estava sendo julgado e vigiado. Por isso não se demorou muito e deixou o moleque sozinho, mas realmente se impressionou quando o garoto apareceu em seu carro, sem cigarros e com um sorriso.

O mais velho buscou na sacola da loja de conveniência chicletes que havia acabado de comprar, talvez o loiro merecesse uma recompensa por ser um bom menino. Sanji aceitou e colocou na boca. Não era a mesma coisa que um cigarro e não sanaria sua fixação oral, mas pelo menos ficaria distraído. Zoro automaticamente se arrependeu, é claro, de dar-lhe uma recompensa quando observou que não apenas o rapaz não saiu do carro como estava agindo como se fosse voltar com ele.

Quando perguntou porque estava sentado no banco do passageiro e ainda estava colocando o cinto, Sanji apenas sorriu e virou-se na direção dele.

— Você me beijou, agora arque com as consequências. — Ele disse em tom de brincadeira, não conseguindo se levar a sério. Parecia alguma história ruim em que a mocinha era beijada e queria que o mocinho casasse com ela. Tais pensamentos idiotas o fizeram rir, transmitindo uma impressão de que era louco para Zoro.

O garoto parecia ter dito que era um beijo como uma piada, mas talvez tivesse um fundo de verdade. Zoro tinha achado que a reação foi exagerada demais para um simples procedimento de ressuscitação, então fazia mais sentido se o pirralho estúpido tivesse interpretado aquilo como um beijo e ficado putinho. O nojo e a raiva que vira em seus olhos parecia significar isso.

— Não foi um beijo, idiota. — Zoro disse resmungando, mas o rapaz pareceu nem ouvir, estava distraído em seus próprios pensamentos.

Zoro apenas deu a partida do carro e rumou na direção que achava que se encontrava sua casa. Se ele não acabasse indo parar em outra cidade, estavam no lucro.