Sanji observou o outro no volante dirigindo em direção a provavelmente sua casa, notando o inchaço no queixo e lembrando-se do chutão que dera na cara do homem. Sentiu-se um tanto culpado, havia exagerado na reação, aquele chute fora desnecessário. Ele suspirou e deu de ombros, por mais culpado que estivesse, seu orgulho era muito grande para se desculpar. Foda-se aquele velhote pervertido, quem mandou beijá-lo? Era um chute mais que merecido. Sanji não era gay, na verdade nunca nem mesmo havia sequer cogitado a possibilidade de ser ou de se relacionar com outro homem, era algo insano e absurdo que definitivamente não fazia parte de sua pessoa. Achava bizarra a ideia de gostar de um homem, se atrair por um macho, sendo que mulheres eram perfeitas, maravilhosas, incríveis e deusas. Qual o ponto em chupar um pau quando bucetinhas eram deliciosas e suculentas?

Deixando os pensamentos pervertidos de lado antes que uma ereção se formasse em sua calça, ele olhou para o lado de fora da janela, admirando a paisagem com um leve sorriso no rosto. Apoiou o queixo em sua mão, ficando a admirar toda e qualquer mulher que aparecesse do lado de fora. Era um fato que era o amante das mulheres e nunca deixaria de achá-las a melhor criação de Deus.

Sanji mascava contente o chiclete e deixava a cabeça pender para o lado de fora enquanto claramente secava cada uma das mulheres que avistava na calçada. Na visão de Zoro, parecia um filhote de cachorro que tinha entrado pela primeira vez no cio e estava passeando no carro pendurado na janela. Provavelmente o imbecil não ficaria tão histérico se uma delas tivesse o socorrido mais cedo. Ele pigarreou de leve para chamar a atenção do garoto.

— Você ainda cheira um pouco… A cigarros. — Ele falou a última palavra um pouco mais baixo.

Era algo que havia notado quando estiveram muito próximos mais cedo e agora notava de novo no carro fechado, o cheiro de hortelã se misturando a um aroma leve dos cilindros venenosos. Deduzia que devia fazer apenas alguns dias desde que o garoto havia fumado o último.

Sanji estava muito interessado nos rabos de saia que passavam a todo tempo pela calçada para dar atenção ao homem que dirigia, mas o que ele falou chamou sua atenção e teve que se virar para encará-lo dirigindo.

— Faz só três dias... — Ele disse sincero, tentando sentir o próprio cheiro. Era algo que estava tão acostumado, como se sua respiração só conseguisse sentir o aroma dos cigarros. — Se estou ficando sem conseguir respirar no terceiro dia, imagino o que vai acontecer em uma semana...

Havia certa melancolia em sua voz como se realmente estivesse preocupado com isso. Não podia morrer também, quem cuidaria de sua mãe? Tudo bem que Zeff fazia bem seu papel, mas aquele velhote estava quase batendo as botas. Olhou para suas mãos, vendo a ponta dos dedos mais amarelados e sorriu de leve, sentindo-se patético por aquilo. No começo era só uma forma de provar que já era um homem, que era adulto, e acabou se tornando em um vício que poderia matá-lo.

Sanji suspirou e voltou a olhar para o lado de fora do carro, dessa vez não realmente prestando atenção no que se passava ali. Estava abatido e cogitando seriamente se tratar com um psiquiatra para tentar recuperar o ânimo da vida. Nunca imaginou que era tão dependente de cigarros.

Zoro achava realmente muita graça. Ele não se conteve e soltou uma pequena risada gostosa, se divertindo com o drama do garoto enquanto estacionava o carro. Claro, ele próprio sabia que adicção era algo sério… Mas o loiro era tão dramático que Zoro não conseguiu segurar o riso.

— Relaxa, pivete. — Zoro disse depois de receber um olhar fulminante do loirinho e se recompor, voltando à sua expressão normal de indiferença. — Você vai conseguir respirar muito melhor depois de ficar sem eles, acredite. E ainda vai se livrar dessa sua tosse horrível de fumante com o tempo.

Ser chamado de pivete o irritava. Sanji poderia ser jovem, mas estava longe de ser um moleque remelento como o homem insinuava. Se arrependia por ter se sentido culpado por chutá-lo, porque estava com vontade de dar mais vários chutes na cara daquele imbecil. Quem ele achava que era para chamá-lo assim? Estava tentando rebaixá-lo só por ter muitos séculos a mais de vida? Isso não significava merda nenhuma. Quando ia retrucar, começou a tossir e se amaldiçoou. Nunca havia notado que tossia tanto assim enquanto fumava, talvez fosse apenas porque gostava demais dos cigarros para admitir que lhe faziam mal.

O garoto continuava olhando feio para ele e ainda parecia estranhamente melancólico. Zoro suspirou.

— Escuta... — Tentou começar, se esforçando para não fazer muitos rodeios. — Se eu consegui parar de beber, tenho certeza que você vai conseguir parar de fumar.

Decidiu falar da maneira mais simples e honesta com o rapaz. E era mesmo verdade. Primeiramente Sanji realmente queria parar, ao contrário dele próprio quando tinha aquela idade, e isso fazia muita diferença.

Sanji o encarou por mais um tempo e depois desviou o olhar e Zoro deu de ombros. Apanhou suas coisas e saiu do carro, esperando que o garoto o seguisse, mas Sanji apenas continuou parado exatamente onde estava como uma batata.

— Então… Você vai ficar aí curtindo o carro ou vai subir? — Ele chamou enquanto se dirigia às escadas do prédio.

Se distrair por causa da tosse não mudava o fato de que estava muito irritado com o velho. Ainda desejava chutá-lo, então o fuzilava com o olhar azul. Naquele momento o loiro se perguntou o que estava fazendo ali, afinal. Estava levando aquela brincadeira muito longe. Não tinha planos de ir para a casa de um desconhecido, nem sabia seu nome. Acabou hesitando em sair do carro, talvez fugir era uma opção melhor, não podia se esquecer que fora beijado antes! Mas a provocação do infeliz o fez sair do carro e segui-lo. Curioso, ele olhou para o lugar, não tendo muito no que focar, era bem vazio e velho, igual a criatura monstruosa.

Chegaram ao apartamento pequeno e pouco mobiliado de Zoro e ele pôs suas coisas em cima da mesa e fez menção para Sanji se sentar onde preferisse, não que houvesse exatamente muitas opções. Ainda não entendia porque diabos ele havia se enfiado no seu carro e vindo até aqui, mas não perderia tempo tentando entender a mente daquele moleque idiota.

— Quer uma cerveja? — Zoro perguntou enquanto abria a geladeira.

Ele se sentou no sofá de dois lugares, deixando a poltrona para o outro, eram os únicos lugares em que era possível se sentar, além do chão. Não parecia ser um homem muito bem de vida, ou talvez fosse e só não ligava para coisas materiais, que seja. Dando de ombros, ele ouviu a oferta e franziu o cenho.

— Para quem estava dando sermão, parece que você não segue seus próprios conselhos, velhote. — Aproveitou-se da situação para retribuir a ofensa, sem conseguir deixar a oportunidade passar. Não que soubesse o nome dele para se referir de qualquer forma.

— Primeiro, eu não estava te dando sermão. Segundo, a cerveja é sem álcool. — Zoro falou calmamente, como se estivesse explicando para um retardado e ignorando completamente o insulto daquele abusado.

— Além do mais… Crianças não podem beber... — Ele disse desviando de um chute daquelas pernas surpreendentemente flexíveis enquanto entregava a garrafa a Sanji.

Cerveja sem álcool, claro! Era uma ideia genial. Sanji se perguntou se existia cigarro sem nicotina... Talvez aqueles de chocolate? Antes que pudesse concluir o raciocínio, o desgraçado o rebaixava outra vez e sem pensar Sanji chutou com toda sua força, mirando bem na cara feia. Bufou quando ele desviou e deu de ombros, pegou a garrafa e continuou com a expressão irritada. Não era uma criança, mas com aquela atitude emburradinha não parecia estar convencendo muito isso.

Zoro se sentou ao lado do loiro irritadinho, que levantou aquele caracol que ele chamava de sobrancelha em espanto. Talvez não estivesse esperando que se sentasse a seu lado, mas Zoro não podia fazer nada se o sofá era seu lugar preferido.

Ele abriu a garrafa e deu o primeiro gole. Alguns alcoólatras não gostavam de cervejas sem álcool, achavam que era pior ainda para esquecer o vício. Zoro não pensava assim e aquele hábito nunca prejudicou sua sobriedade. Ele logo entornou a própria garrafa e acabou com a mesma em um segundo, agindo como o perfeito ogro que ele sempre foi. Não era difícil entender o motivo de ter tido problemas com álcool no passado.

Com o homem sentando-se a seu lado, sendo que tinha outro lugar para sentar, por impulso Sanji se afastou para o lado oposto, como se sua masculinidade fosse ferida ao dividir um sofá com outro homem. Observou incrédulo como o outro bebia, sem modos ou respeito, só colocava tudo para dentro sem nem sentir o sabor. Era grotesco. Era exatamente por isso que Sanji não gostava de homens, eram todos sujos e sem modos, enquanto mulheres eram belas flores delicadas e sensíveis.

Diferente do monstro, Sanji bebia lentamente, degustando do sabor, mesmo que nunca tivesse realmente apreciado o gosto de cerveja. Parecia que ficava ainda pior por estar tomando em uma garrafa, aquele homem deveria conhecer algo super tecnológico chamado copos.

Zoro olhou para o loiro e ele bebericava educadamente sua garrafa de cerveja. Com certeza deveria preferir tomar em um copo como o engomadinho que é, pensou Zoro com deboche.

— Bom… Eu vou jantar. — Ele se dirigiu a Sanji um tanto sem jeito, se odiando por coçar a parte de trás da cabeça como fazia quando estava constrangido. — Não tem exatamente muita comida por aqui, mas eu posso dividir a porção que comprei com você… Se você quiser ou estiver com fome...

Zoro não sabia exatamente porque tinha ficado tão sem graça. Talvez porque gostaria de oferecer algo melhor que metade de uma refeição congelada, já que era um homem de quarenta anos e não um adolescente que não sabe se virar sozinho em casa. Mas não podia ter adivinhado que o garoto iria segui-lo até sua casa, oras.

Sanji sorriu, de comida ele entendia bem. Se levantou e acompanhou o outro até a cozinha e quando viu aquela comida horrenda congelada ele até recuou como se temesse aquela coisa.

— Um velho como você não deveria comer essas coisas artificiais, acaba com a saúde. — Disse demonstrando verdadeira preocupação e começou a abrir os armários e geladeira em busca de ingredientes para cozinhar. Nada. Só tinha cerveja em todos os lugares. Franziu o cenho pensando como alguém conseguia sobreviver assim. — Você é um desastre como adulto. Próxima vez eu irei trazer ingredientes e te preparar uma refeição de verdade.

Sanji falou com certa gentileza que terminava quando sua arrogância e superioridade começava. Aproveitou-se que estava abrindo os armários e pegou um copo, despejando a cerveja nele e começando a beber dali.

Mas será que Zoro realmente já estava tão velho que ficara surdo ou ele tinha falado próxima vez? Agora o pirralho estava se convidando outra vez pra sua casa. Muito folgado. Por falar nisso, ele parecia que achava que estava em casa, se intrometendo nos armários e pegando um copo, exatamente como Zoro previra.

— E o que você tem a ver com a minha saúde, moleque? — Disse Zoro um pouco irritado com ele, embora fosse mais consigo mesmo, principalmente por não ter jogado esse imbecil para fora do seu carro quando teve a chance. Oferecia sua comida a ele e era chamado de velho em troca. Maldito. — Você não tem nem idade pra saber o que é ser adulto. Aposto que ainda mora com a mamãezinha.

Sanji revirava os olhos a cada merda que saia da boca daquele velho. Como ele ousava ficar chamando-o de criança a todo instante? E qual o problema de morar com sua mãe? Claro que ele morava e planejava morar pelo resto de sua vida. Amava sua mãe e iria protegê-la, isso não significava que era criança, muito pelo contrário, queria dizer que era um homem adulto e responsável. Bom, ele teve que ser adulto desde muito pequeno, antes de Zeff e sua mãe se casarem, ele era o homem da casa e toda a responsabilidade de cuidar de Sora era sua, afinal, por causa dele ela se divorciou de Judge.

O loiro quis debater, xingar e esfregar na cara do outro que já era bem grandinho, mas não quis se rebaixar e qualquer coisa que falasse para provar implicaria em contar toda sua vida para o homem e honestamente, ele não tinha nada o que saber sobre quem Sanji era.

— Estava pensando... Considerando sua idade avançada, você deve ser algum tipo de sugar daddy, não? Com carro e casa, mesmo que seja uma casa meio questionável e a dispensa vazia, deve gastar tudo com suas babies... — Ele soltou do nada em tom de provocação.

Zoro ergueu a sobrancelha para a piada do loiro.

— Claro, meu sonho gastar meu salário mínimo com mulheres interesseiras. — Zoro falou aborrecido, enquanto colocava a comida para esquentar no microondas. — E eu não sou tão velho assim, seu pirralho.

Zoro olhou para Sanji que ria enquanto tomava a cerveja. Parecia que estava apreciando muito sua vingancinha o chamando de velho o tempo todo. Pelo menos Zoro não estava mais sendo chutado. Se bem que talvez ele preferisse os chutes àquele sorriso debochado e às piadas de mau gosto.

Sentou-se no sofá enquanto esperava sua comida ficar pronta e se deixou afundar nele, ainda muito ranzinza por ter que aguentar as baboseiras do mais novo. Para sua surpresa, o loiro o acompanhou e sentou um pouco mais perto, ao invés de fugir dele como se fosse um germe particularmente grande. Na verdade, estava até um pouco perto demais, espaço pessoal era algo que Zoro não apreciava muito que invadissem.

— Sugar babies não são interesseiras, elas... Ah, dane-se, não vou gastar minha maravilhosa voz com um velho gagá como você. — Se era para ser tratado como criança, então o trataria da forma que ele merecia também, aquele velho decrépito. Os milhões de apelidos relacionados a idade surgiam com facilidade em sua mente, poderia até mesmo reutilizar os apelidos que usava para não necessariamente ofender seu pai adotivo. Isso porque nem mesmo estava levando em consideração aquele cabelo horrendamente mal tingido de verde como se fosse um punk idiota.

Após terminar seu copo de cerveja, Sanji ficou ficou observando-o estranhamente próximo. Os cabelos grisalhos e o porte físico realmente o deixavam parecendo um daddy, do tipo mais estereotipado que existia, chegava a ser engraçado. O rosto dele tinha traços bem masculinos e marcados, a barba por fazer combinava bastante, deixando o modelo com inveja. Era algo que ele almejava há anos, mas até então só tinha três fios minúsculos em seu queixo que nem pareciam com uma barba.

Quis tocar, sentir a textura para poder se imaginar com mais realismo e assim o fez sem pensar. Sua mão delicada tocou o queixo do moreno, passando os dedos finos e sentindo a barba pinicando sua pele. Era agradável. Sem perceber Sanji estava ajoelhado no sofá, com as duas mãos no rosto do homem mais velho e o rosto perigosamente próximo. Seus dedos moviam-se lentamente, chegando a parecer uma cena indecente para qualquer um que assistia, mas ele não notava. Era inocente e sem segundas intenções.

Ou era o que deveria ser, até o loiro acabar com o que restava de espaço entre os dois e juntar seus lábios. Estava de olhos fechados e pressionava com certa força os lábios finos contra os do maior. Para sua surpresa, não se sentiu enojado... Ele abriu os olhos, piscando várias vezes e se afastou de supetão. Passou a mão na boca como se tentasse limpar o sabor do homem e se levantou do sofá, indo para o mais longe possível dele.

— Realmente, homem não é minha coisa. — Ele comentou baixo, mas ainda o suficiente para o outro ouvir e no outro instante batia a porta pela qual havia entrado há pouco tempo, quase como se estivesse fugindo daquele lugar. Encostou-se na parede de fora do apartamento e olhou para suas mãos, para sua surpresa não estavam trêmulas e sim formigando, como se ainda sentissem a textura da barba do outro ali.

Levou a mão até os lábios e diferente de segundos antes, o que fez era muito diferente de limpá-los, parecia passear os dedos para sentir o resto dos vestígios daquele homem. Era loucura. Que merda estava fazendo? O que sua abstinência estava causando em seu corpo e obrigando-o a fazer?

Droga. Precisava fumar.