Don't Call Me Daddy
4 Aftermath
Notas iniciais

Já havia se passado uma semana desde a fuga do loiro de seu apartamento e o dia da reunião havia chegado e Zoro poderia finalmente perguntar o que porra ele tinha na cabeça.
No outro dia, foi pego de surpresa quando o loiro tocou seu queixo delicadamente, pressionando sem querer onde estava machucado do seu próprio chute, e Zoro não teve tempo nem de se recusar nem de aceitar o toque de tão rápido que tudo acontecera. Ficou parado enquanto o outro percorria os dedos por toda extensão de sua barba por fazer, como se as pontas dos dedos estivessem memorizando seu rosto, concentrado no que fazia e nem olhando para ele. Depois de todo o escândalo que havia feito por uma mera respiração boca a boca, lá estava o loiro encostando seus lábios nos dele novamente num beijo tão desajeitado que Zoro nem conseguia compreender o que estava tentando fazer direito.
Depois o idiota só fugiu no meio da noite naquele bairro perigoso, deixando um copo para Zoro lavar e zero explicações. Zoro havia apenas ficado embasbacado e pensando no que merda havia acabado de acontecer. Ele nem sabia porque se surpreendia, na verdade. Era só um pirralho confuso agindo como tal.
Se perguntou durante o caminho à reunião se aquele moleque sem juízo sequer daria as caras de novo. Não que estivesse preocupado de qualquer forma. Chegou no prédio e, diferentemente da primeira semana, o loiro já estava lá na recepção, conversando aparentemente alegremente com as mulheres que ocupavam as cadeiras ao seu lado.
O sorriso afetado do loiro pareceu murchar ao encará-lo, mas Zoro só ignorou.
— Bom saber que está vivo. — Ele falou rabugento ao passar enquanto se dirigia à porta da sala, observando com a visão periférica o rapaz se despedir de maneira exagerada das mulheres e segui-lo sala adentro.
Zoro começou a tirar as cadeiras da pilha e passar em direção a Sanji, que parecia não muito contente em ser obrigado a ajudá-lo, mas, na nada humilde opinião de Zoro, era problema dele já que ele entrou na sala porque quis.
Por estar sem conseguir tirar aquele beijo da cabeça, Sanji teve uma recaída logo depois de sair da casa daquele velho. Sentiu-se tão sujo por ceder aos desejos que ligou para sua mãe e avisou que dormiria na casa de um amigo. Era uma mentira, não tinha realmente um amigo que o deixaria dormir em casa, apenas foi para um hotel e ficou se torturando pelo resto do dia por ser tão fraco. Ele não conseguiu esquecer do beijo, ou do motivo para aquilo ter acontecido. Seu corpo pareceu se mover sozinho, como se estivesse em transe. Não era ele, não se reconhecia. Sanji gostava apenas de mulheres, homens eram porcos sujos, ele não tinha nenhum interesse em um brutamontes. O problema, é que por mais que não tivesse sentido nada demais ao beijá-lo, ele não odiou e aquele sentimento estranho o perseguiria pelo resto da vida.
Diferente da última vez, agora Sanji estava aguentando mais e conseguindo controlar os impulsos. Desde sua última recaída, se passaram cinco dias, quase o dobro da última vez. Por mais que as crises de ansiedade ainda fossem frequentes, nunca mais perdeu a capacidade de respirar e estava aceitando bem a falta de nicotina. Ele realmente achou que conseguiria ficar uma semana. Um dia antes da reunião, o loiro falhou outra vez e isso fodeu totalmente com seu psicológico. Ele estava bem abatido. Da última vez culpou o beijo, mas dessa, era apenas sua culpa, culpa de ser patético e fraco.
Quando chegou em casa, ver sua mãe tossindo acabou totalmente com ele. Não estava nada bem no dia daquela reunião, mesmo que estivesse fingindo o bom humor como sempre. Na realidade estava totalmente quebrado por dentro. Por mais que estivesse flertando sem parar com todas as mulheres, encantando-as com seu charme, no fundo ele só queria ir embora e se trancar no próprio quarto longe de todo mundo.
Sua expressão mudou ao ver aquele homem e se lembrar do beijo, mostrando algo que chegava a parecer arrependimento. Era uma droga que ainda pensava naquilo, sentia que toda sua masculinidade fora embora assim que os lábios se tocaram. Era uma vergonha como homem. Mesmo assim, Sanji o seguiu, com a certeza de que aquilo nunca mais aconteceria. Estava só esperando alguém com a chave da sala chegar e algo o dizia que o moreno era quem mandava ali.
Ele ajudou em silêncio a arrumar a sala, tentando não demonstrar que estava cabisbaixo. Seus sentimentos não diziam respeito a ninguém, muito menos a uma planta idosa com pernas. Achou que conseguiria terminar aquilo sem conversarem, mas óbvio que um velho tinha que abrir a boca a todo instante.
— Posso saber o que foi aquilo semana passada? — Zoro perguntou, sem olhar para Sanji, enquanto organizava o círculo de cadeiras, errando algumas vezes o número correto de lugares dos participantes.
O loiro suspirou e deu de ombros, fingindo que aquilo não o afetou de forma alguma.
— Nada... — Para sua infelicidade, sua resposta saiu em um tom mais baixo e melancólico do que o planejado. Estava tão claro que não estava bem. Deveria estar xingando o maior, chutando-o, respondendo-o de forma atrevida e provocativa, era assim que Sanji se comportava, e tudo que conseguia falar era uma única palavra em meio a um suspiro patético.
Se condenou por se demonstrar tão perdedor e agradeceu que começou a tossir, assim quem sabe não teriam que conversar mais. Além disso, mesmo que fosse algo importante, foi só um beijo, não tinha sentido tirar satisfações. Quantas mulheres Sanji já não beijou uma única vez e depois agiram como se nada tivesse acontecido? Não só beijos como sexo também. Um beijo não significava nada e não deveria ser motivo para uma recaída, não deveria continuar em sua mente depois de uma semana.
Mas continuava.
Zoro não poderia achar a resposta mais esquisita. Esperava uma resposta idiota mas sincera, um xingamento, alguma justificativa maluca de adolescente, mas o que menos esperava era aquele muxoxo triste. Zoro suspirou e sentou em uma das cadeiras cruzando os braços, enquanto Sanji havia se esforçado para escolher a cadeira mais distante possível dele, do lado oposto do círculo. Passaram alguns minutos em silêncio, enquanto Sanji parecia estar muito entretido encarando o chão cabisbaixo.
— Essa melancolia não combina com você. — Ele sabia bem o que significava aquele humor, e mesmo que tenham ficado próximos apenas por um breve momento, tinha conseguido sentir o cheiro dos cigarros ainda impregnado no loiro. — Eu sei que é frustrante. Mas se precisar dar uns chutes para extravasar…
Ele foi interrompido antes que completasse o raciocínio por alguns membros do grupo que entraram pela porta conversando. As pessoas se acomodaram nas cadeiras e Sanji começou a cumprimentá-las com a costumeira simpatia, impedindo que Zoro continuasse o que estava dizendo. Não é como se ele fosse continuar falando no meio de tanta gente quando estavam de lados opostos, de qualquer forma. Zoro apenas resolveu fechar seu único olho, para descansá-lo, enquanto esperava a hora da reunião começar. Acordou pouco depois com a pessoa que sentava ao seu lado o cutucando já que por ser o mais antigo geralmente era o primeiro, logo após o organizador do grupo. Zoro abriu o olho relutante, observando que todos o encaravam.
— Então… Todo mundo aqui já me conhece. Bom, quase todo mundo — Seu olhar parou em Sanji por um segundo. — Então vou me apresentar. Meu nome é Zoro e eu nunca falo muito nas reuniões. Fim da apresentação.
Zoro encerrou sua fala imaginando se esse era um novo recorde do quão pouco havia falado no grupo, pois algumas pessoas, mesmo as que já estavam acostumadas há anos com seu dialeto monossilábico, pareciam suspirar e revirar os olhos para a sua falta de palavras. Não poderia se importar menos, não mandou ninguém acordá-lo.
Sanji precisava de espaço, então preferiu manter distância do moreno. Não estava com medo dele ou daquilo acontecer de novo, só precisava ficar se torturando psicologicamente até todos estarem na sala sentados em seus lugares. Sanji não notava, mas passou o tempo todo observando o moreno, isso é, até sentir o olhar dele em si enquanto se apresentava e no mesmo instante virou o rosto para outro lado. Aliás, que diabos de apresentação era aquela? Ele só falou o nome. Ao menos agora sabia que se chamava Zoro. Ria internamente de si mesmo por ter beijado um cara que nem sabia o nome e nem tinha notado isso. Não que fosse incomum beijar ou até mesmo dormir com mulheres que ele acabava de conhecer e esquecia completamente de perguntar o nome, já que o tempo todo as chamava de deusas ou algo do gênero, mas era um cara, era diferente.
Quando chegou sua vez, o loiro suspirou e se levantou. Tentou passar algum tipo de confiança na voz e de jeito algum olhar em direção ao homem mais velho do grupo. Em vão. Seu olhar parou diretamente nele e Zoro pareceu sentir aquilo, pois diferente de todas as outras apresentações que o moreno parecia dormir, seu único olho verde parecia bem interessado em seu discurso quando começou a falar, fazendo-o engolir a seco nervoso e enfiar as mãos trêmulas no bolso da calça.
Sanji sempre se sentiu um fracassado. Por sua culpa sua mãe se divorciou, perdeu a casa e praticamente quatro filhos, sendo obrigada a ficar com o mais perdedor deles. Provavelmente a doença de sua mãe era sua culpa também. Normalmente ele não pensava nessas coisas, mas desde o dia anterior que cedeu aos desejos e fumou um cigarro, os pensamentos estavam mais frequentes. Parecia que seu cérebro não conseguia processar as coisas direito quando estava assim. Talvez parar de fumar fosse uma péssima ideia.
— Bom, para quem não lembra, eu me chamo Sanji e é só minha segunda semana aqui. Eu fui fraco, não consegui resistir a tentação e naquele mesmo dia após a primeira reunião eu cedi ao desejo e me entreguei. — Nesse momento seu olho azul encarou diretamente o verde, praticamente culpando o moreno pela sua recaída... Ou era isso que parecia. O beijo que supostamente não significou nada o deixou em crise sim, mas não foi por isso que ele cedeu, senão teria cedido todos os dias da semana que não deixou de parar de pensar naquele ato. Dali em diante, pareceu que todos sumiram e Sanji só contava o ocorrido para o moreno. — Mas... Depois daquele dia, eu consegui me conter por cinco dias, isso até ontem. Quando eu notei já estava com um cigarro na boca, tragando, me drogando... Espero que isso não aconteça mais.
Nada daquilo era surpresa para Zoro. Era muito difícil conseguir parar na primeira tentativa, especialmente se o loiro tinha uma compulsão tão grande pelos cigarros quanto aparentava ter. O cheiro também havia sido uma boa dica, apesar da quantidade de perfume exagerada que o idiota usava, talvez por causa de seu comentário na semana anterior e talvez por ser apenas um imbecil metrossexual, ainda dava para sentir as inconfundíveis notas de veneno por trás do cheiro amadeirado.
Sanji terminou o discurso com um suspiro e voltou a se sentar. Ouviu algumas palavras motivacionais que por mais que parecessem decoradas o fizeram sorrir de verdade, sentindo um calor agradável no peito. Era bom ter com quem falar sobre essas coisas.
Com o tempo, cada participante contou como foi sua semana e Sanji percebeu que não era o único. Pessoas que estavam limpas há meses, até anos, muitas vezes se deixavam levar por diversos motivos e tinham que reiniciar a purificação. Era triste, mas o deixava feliz saber que não estava sozinho e que todos ali o compreendiam.
Quando deu o horário, o loiro ficou conversando com as mulheres, claramente flertando com um sorriso encantador no rosto enquanto bebia café. Era a metade do que bebera na semana anterior, mas ainda era uma quantidade muito grande. Pensava se vício em café era algo não saudável. Ele pegou o número das garotas, como o bom galanteador que era e após elas irem embora, se aproximou de Zoro que ainda parecia estar dormindo naquela cadeira, abandonado no meio da sala.
— Ei. Eu comprei ingredientes como prometido. Vamos? — Chamou como se fossem velhos amigos e ir na casa do homem não fosse nada além do que uma rotina. Bom, qual o problema, afinal? Pagaria as horas que alugaria o mais velho com um delicioso banquete que era milhões de vezes melhor do que aquelas comidas congeladas horríveis e nada saudável. Além disso, naqueles dias de reunião não tinha absolutamente nada para fazer, o que era bem raro já que sua agenda era bastante lotada.
— Oh… Ok. — O mais velho respondeu arqueando uma sobrancelha para o garoto, tentando decifrar porque antes ele queria estar o mais longe possível e agora aparentemente iria ficar grudado nele como um carrapato a noite inteira.
Zoro definitivamente não estava esperando por isso. Ele achava que o loiro estava falando da boca pra fora na semana passada, nunca imaginou que ele realmente fosse cozinhar para ele. Muito menos que se convidaria para ir à sua casa de novo, como o moleque folgado que era, principalmente pelo jeito que fugiu da última vez. Não que ele estivesse realmente reclamando. Teve um dia bastante puxado no trabalho e realmente nada parecia melhor no momento do que um prato de comida.
Passaram na recepção para pegar as sacolas que Sanji havia deixado com a secretária, que ficou corada com os elogios pomposos que recebeu do loiro por este favor, e rumaram para a casa de Zoro. Desta vez não se falaram durante a viagem, Zoro apenas se limitou a perguntar se Sanji gostaria que ele ligasse o rádio e Sanji concordou, contanto que ele quem escolhesse a música. Talvez Zoro tivesse se arrependido um pouco, pois passar vinte minutos escutando divas pop irritantes não era sua ideia de uma viagem tranquila.
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