Notas iniciais
Capa: @ prapon0904

Ao chegarem no apartamento, Zoro observou que Sanji parecia extremamente à vontade na cozinha e, assim como da última vez, abria os armários de sua casa como se fossem seus sem a menor cerimônia.

Estranhamente, Sanji estava se sentindo em casa naquele lugar. Parecia uma cozinha que nunca fora realmente usada, com certeza aquele imbecil viveu a vida toda apenas comendo fora ou comida congelada, era impressionante como conseguia manter aquele corpo, provavelmente seu interior estava totalmente quebrado e com vários problemas de tanto sódio e outras comidas não saudáveis que ingeria todo dia. Como aquela cozinha não possuía um comandante, o loiro acabava de tomá-la para si. Já havia mudado vários utensílios de lugar e arrumado da forma que ele gostava, facilitando o alcance para quando estivesse com a mão na massa. Pensava que da próxima vez precisava levar mais alguns utensílios e panelas para lá, porque com aquelas panelas horrivelmente riscadas e queimadas não conseguiria fazer muita coisa.

— Aprendeu a cozinhar há muito tempo? — Perguntou Zoro ao ver a óbvia habilidade com a qual Sanji cortava os ingredientes.

— Algo assim. — Sanji respondeu sem prestar muita atenção, enquanto mexia nas sacolas que levara retirando o resto dos ingredientes que usaria. Pegou uma garrafa de vinho tinto e serviu duas taças, entregando-a para o moreno e ficando com a que sobrara. Bebericou da bebida, sorrindo com o gosto agradavelmente complexo. Obviamente que era um delicioso suco de uva, mas que não perdia em nada para um bom vinho e dava para enganar muito bem. Zoro arqueou uma sobrancelha ao receber a taça, e chegou a cheirar o conteúdo para ter certeza que Sanji não havia ficado maluco e esquecido que ele não bebia. Ao se certificar de que não era alcoólico, relaxou e consumiu o líquido escuro de uma só vez.

— Eu gostava de ficar na cozinha desde criança, mas ficava um completo desastre o que eu tentava cozinhar. Só comecei mesmo depois que minha mãe se casou com um Chef e ele me fez de discípulo, me ensinando tudo que sei. Hoje sou mil vezes melhor que aquele velhote inútil. — Sanji disse orgulhoso, se gabando e se achando o melhor de todos, chegando a beirar a arrogância.

— Ah... — Zoro deu sua resposta padrão, mas realmente não sabia o que dizer. Não esperava nada mais que um sim, mas aquela resposta realmente dizia muito sobre a vida do outro em poucas palavras. Sanji não pareceu se importar com a falta de uma reação elaborada, pois logo voltou ao que fazia, aparentemente não prestando muita atenção em outra coisa que não fosse o preparo.

O garoto voltou a cortar os ingredientes em cima da mesa, porque não existia tábua naquela casa, cantarolando algo bem baixinho. Zoro reconheceu o que cantarolava como alguma das músicas que haviam escutado no carro durante a vinda. A melodia parecia estranhamente agradável agora que não era acompanhada de sintetizadores e era cantarolada suavemente e não berrada aos seus ouvidos. Zoro repousou a taça no balcão e ficou observando Sanji, que parecia bastante absorto no que fazia e jurou que seu olho descoberto estava brilhando anormalmente enquanto terminava de picar tudo e começava a refogar algumas coisas.

Zoro pensou por um momento na resposta do loiro e achava bastante difícil imaginar alguma época em que Sanji não soubesse o que estava fazendo na cozinha, tal era a leveza com que se movia e a quantidade de processos que executava ao mesmo tempo. Bom, se pensasse direito era fácil compará-lo a si mesmo quando era minúsculo e fraco e segurava uma katana de madeira desajeitadamente enquanto tentava golpear uma árvore. E agora ele era o melhor. Ele conseguia apreciar alguém que sabia o que era trabalho duro, o que era ser ruim em algo e se forçar a melhorar, não importando o quão árduo fosse. Até ser tirado de seus devaneios por uma voz insuportavelmente mandona. E pensar que quase chegou a achá-la minimamente agradável enquanto cantarolava.

Sanji manteve-se assim, picando e cantarolando, até terminar a primeira remessa de legumes, então olhou para o outro homem o encarando com cara de tacho.

— Está esperando o quê? Acha que vai ficar só olhando? Pode pegar a maior panela, encher de água e colocar no fogão para ferver. Depois disso me ajude a cortar as cenouras em cubos perfeitos e iguais.

Zoro obviamente achou o moleque completamente folgado e demasiado autoritário para estar mandando no dono da casa, principalmente por ser um pirralho recém saído das fraldas. Mas, por algum motivo, talvez fosse loucura de sua mente, a voz do pivete naquele momento possuía tanta firmeza, que não ousou questionar o pedido dele. E, sim, ele iria fingir que era um pedido educado e não uma ordem para evitar ferir demais seu orgulho.

Zoro catou uma panela qualquer e fez o que foi mandado, quer dizer, o que foi gentilmente pedido. Felizmente o garoto havia dado a ele uma tarefa que envolvia cortar, coisa que Zoro era razoavelmente acostumado devido ao seu hobbie. Terminou razoavelmente rápido as cenouras, embora Sanji tivesse cortado uma pilha bem maior de outros ingredientes em bem menos tempo e agora estivesse mexendo nas panelas que borbulhavam concentrado.

— Cheiro bom. — Ele se aproximou e falou por cima do ombro de Sanji, que claramente estava distraído e não havia notado ele se aproximar, fazendo com que ele derrubasse a tampa que segurava em uma das mãos. Recebeu uma enxurrada de palavrões e tentativas de chutes em troca e rapidamente pôs as mãos nos ouvidos e se retirou para a sala longe daquele loiro histérico.

Sanji havia gelado ao sentir a presença de um homem bem maior que ele atrás de seu corpo, como se estivesse o cercando. Sentia-se intimidado com aquela aproximação, sem contar que ele não só estava invadindo seu espaço pessoal como também o seu local sagrado. Por sorte a tampa da panela que derrubou não era de vidro e quando ouviu o barulho do alumínio batendo no chão, outra coisa que bateu foram seus pés em direção ao velho pervertido. Ele xingou de todos os nomes aquele imbecil, insinuando que ele era coisas que provavelmente não era, mas que naquele momento era sim. Zoro estava claramente dando em cima dele e poderia até mesmo considerar aquela aproximação como abuso sexual. Dali em diante teria que ficar bem atento para não baixar a guarda perto de um velho sem vergonha como aquele, ainda que tudo fosse coisa de sua mente exagerada.

Mesmo assim estava corado. Por mais que tenha se exaltado, as meras palavras do moreno fizeram seu coração acelerar. Era seu fraco quando o elogiavam, especialmente porque quando criança nunca recebeu um elogio de seu progenitor e apenas críticas, então só de Zoro dizer que estava um cheiro bom, ele se derretia por completo. Bebeu um copo cheio de água para se acalmar, tentando parar de pensar que estava sendo abusado naquela casa. Provavelmente estava sim, mas em outro sentido da palavra. Sanji que era o abusado por invadir a privacidade de um quase desconhecido e se apossar de sua cozinha, mesmo que esta nunca fora usada e precisava mesmo de um comandante. Zoro era um idiota sim, mas precisava parar de pensar nele como um velhote safado, ele claramente não tinha essas intenções com o pobre jovem inocente e puro.

Ele deixou os pensamentos de lado e se concentrou em continuar a cozinhar, focando em finalizar os preparos e deixar tudo perfeito. Quando terminou a entrada, ele foi até a sala e chutou a perna do velho praticamente adormecido para chamar sua atenção, dizendo que estava pronto. Serviu outra vez as taças com o suco e sentou-se em uma cadeira para apreciar a refeição.

Zoro observou o prato que estava para todos os efeitos vazio exceto por uma minúscula coisinha amarela bem no centro, que era enfeitada delicadamente com uma pequena folhinha verde. Sinceramente ele não sabia por qual motivo havia esperado outra coisa, já que o loiro era tão magricela que realmente deveria viver de vento ou algo do tipo, mas ele não era assim. Precisava de bastantes calorias para se recuperar de um dia de trabalho, oras.

— Só isso? É tão pouco que não tampa nem o buraco da minha barriga. — Zoro resmungando mais para ele mesmo do que para o outro, mas Sanji ouviu o idiota ogro e revirou os olhos, irritando-se com a falta de modos.

— Se chama entrada por um motivo. — O loiro falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, tendo a certeza que o homem nunca entrou em um restaurante minimamente requintado. — O prato principal fica pronto em dez minutos e a sobremesa está no forno.

Sanji dizia com um sorriso lindo no rosto, como se falar de comida fosse o tópico que mais o agradasse. Uma vantagem de cozinhar é que ele sempre esquecia do vício, normalmente ficava apenas com o cigarro no canto da boca, por necessidade de ter algo ali, quase como uma fixação, mas jamais fumaria naqueles momentos, era um total desrespeito a sua arte.

Quando Sanji explicou Zoro o olhou como se ele estivesse com duas cabeças. Quem preparava uma refeição pomposa de três pratos apenas para uma janta num dia qualquer? E pior que ele falava como se fosse a coisa mais normal do mundo.

— Se você diz... — Ele respondeu tentando decidir se pegava a comida de aspecto estranho com uma colher, tentava espetar com um garfo ou simplesmente virava o prato direto na boca para não sujar talheres sem necessidade.

Zoro apenas agradeceu que não estava realmente num restaurante e sim em sua própria casa, pois se tivesse que aprender a usar vários talheres diferentes como um idiota ele desistiria. Focou no conteúdo do seu prato que desapareceu rapidamente em sua boca, derretendo em sua língua e deixando um agradável frescor no paladar. Embora, agora que havia comido a tal entrada seu estômago parecia ter despertado ainda mais e ele não sabia como poderia aguardar pacientemente dez minutos inteiros pelo resto da comida.