Após degustar lentamente o prato de entrada, que Zoro comeu em incríveis segundos como o sem modos que era, Sanji se levantou, retirando os pratos e servindo os outros da refeição principal. Era bem mais farta que a anterior. No prato de Zoro havia uma quantidade bem maior do que no dele, porque era óbvio que aquele músculo com pernas comia bem mais do que ele. Esse era outro ponto que não fazia sentido. Como aquele velho conseguia manter um corpo assim sendo que só se alimentava de comida congelada sem nutrientes? Ele deveria agradecer diariamente a maravilhosa genética que Deus havia dado.

Quando Sanji finalmente serviu os dois um prato decente, Zoro já estava salivando. A comida era macarrão, o que provavelmente Sanji chamaria de algum nome afrescurado em francês ou algo assim, e estava simplesmente delicioso. Não que Zoro fosse muito exigente com o que colocava no estômago, mas aquela era certamente a melhor refeição que comia em muito tempo. Via os ingredientes coloridos no prato e lembrava da destreza e cuidado com o qual os viu sendo cortados, apostando que cada pequeno passo no preparo daquele prato foi feito com muita atenção. Talvez até mais cuidado do que alguém tão simples e bruto como ele merecia.

Enquanto comiam, Sanji várias vezes olhava para o maior com os olhos azuis brilhando na expectativa de qualquer elogio, já que a reação dele deixava bem claro que estava adorando e aquilo era totalmente de seu agrado, não que em algum momento duvidou de suas capacidades na cozinha, era óbvio que agradaria qualquer paladar, até mesmo de um brutamontes que não deveria saber diferenciar sal de açúcar.

Zoro enfiou rapidamente os últimos macarrões na boca, ficando de boca cheia, e tentando raspar todo o molho no fundo do prato com o talher, alheio aos olhos de Sanji o encarando.

— Muito... — Disse Zoro em meio às garfadas finais, perdendo completamente a educação, não que algum dia tivesse tido alguma para começar. — ...gostoso.

Quase limpou a boca nas costas da mão, mas o guardanapo cuidadosamente dobrado à sua frente, talvez já prevendo esse comportamento, o chamou atenção antes. Ele sorria satisfeito e Sanji continuava encarando, o prato pela metade.

Sanji ficou radiante com o elogio, por mais ogrístico que fosse. Seu sorriso era gigante e completamente satisfeito, sentia um calor muito agradável no coração, não existia nada melhor do que alguém elogiando sua comida. Estava tudo perfeito. Zoro havia amado a refeição e parecia bem satisfeito, o loiro apostava que era a melhor comida que aquele velho já colocou na boca. Claro, quando ele abria a boca tinha que estragar o clima agradável, aquele idiota conseguia se superar mais a cada dia e era só a segunda vez que se encontravam.

— Você coloca tão pouco e ainda não come? — Zoro falou levantando uma sobrancelha e virando a taça de suco que havia ficado esquecida enquanto comia.

— Estou comendo, idiota. Só não vou comer que nem um brutamontes sem modos como você, obviamente. — Sanji disse enquanto revirava os olhos entediado e voltava a degustar de seu prato, comendo com modos que deveriam ser irritantemente exagerados aos olhos de Zoro, não que Sanji se importasse. Na realidade, saber que algo incomodava o moreno apenas o fazia desejar repetir ainda mais.

Depois de um tempo, ele terminou de comer, retirou os pratos e serviu mais uma taça com o suco de uva apenas para o mais velho, notando o quanto ele bebia. Enquanto Zoro se divertia com a bebida, Sanji ligou o forno e ficou pacientemente esperando até que estivesse no momento exato de desligar, para então retirar a sobremesa e servir na mesa ainda quente.

— Como eu não queria gastar muito tempo cozinhando aqui e você nem tem tudo necessário para se cozinhar direito, apenas fiz um humilde, mas maravilhoso, suflê. — Ele falou de forma pomposa e galante, do mesmo jeito que fazia quando era obrigado a agir como garçom no restaurante. Mostrou um sorriso encantador e empurrou o talher certo para o moreno. — Espero que aprecie meu trabalho duro.

Zoro sentiu o aroma assim que Sanji abriu o forno e acariciava suas narinas com suavidade. Fazia quase seu estômago roncar novamente, apesar de já estar devidamente satisfeito.

Sanji estava orgulhoso de seu trabalho impecável e sem dúvidas aquele prato também seria aprovado pelo paladar alheio, não que precisasse muito para agradar o outro ou que a opinião dele valesse de alguma coisa. Ele só não esperava ver aquela cara feia sendo franzida assim que colocou o primeiro pedaço na boca e o que veio em seguida apenas o irritou mais.

— Muito doce. — Zoro disse simplesmente ao provar, porque era a verdade. Claro, comparado com todas as outras porcarias que já o fizeram provar na vida e que pareciam açúcar puro até que estava palatável. Ele deu de ombros e continuou comendo o conteúdo sem falar mais nada.

Ao levantar o olhar, percebeu que Sanji parecia furioso. Como se ele tivesse acabado de cuspir no ramequin e insultado sua mãe ao mesmo tempo.

— Calma, não precisa ficar irritadinho. — Disse Zoro percebendo que havia colocado o dedo em alguma ferida. — Eu só nunca gostei de doces, nem quando era moleque.

Sanji não conseguia aceitar aquilo. Muito doce? Como assim muito doce? Havia exagerado no açúcar? Ele provou de seu próprio suflê e a única conclusão que conseguia chegar é que não estava nada muito doce, a quantidade de açúcar era perfeita e não poderia ser melhor. Isso sem contar que o gosto era maravilhoso.

— Está na medida certa. — Sanji afirmou, confiante de que estava perfeito. Franziu as sobrancelhas encaracoladas e fez uma expressão feia, apesar que algo feio naquele rostinho lindo e perfeito só o deixava ainda mais fofo. Cogitando a possibilidade de que talvez não tivesse misturado direito a massa e que no de Zoro tenha caído mais açúcar, ele estendeu a colher até o dele e levou um pedaço até a boca, percebendo que estava exatamente igual ao seu. — Você é completamente sem paladar, seu brutamontes idiota sem cérebro. Aposto que a idade tirou a sensibilidade dessa sua língua comprida.

Sanji acusava irritado, xingando sem pensarbde todos os nomes que surgiam em sua mente. Quem Zoro pensava que era para criticar algo que havia passado tanto tempo cozinhando e com tanto amor e carinho? Quando chutasse aquela cara de idiota ele retiraria aquela crítica absurda e sem fundamento. De fato, nunca foi a melhor pessoa para aceitar uma crítica, especialmente depois de tantos anos sendo humilhado e criticado injustamente em sua infância.

Zoro continuou olhando para o garoto que não parecia nada menos furioso do que antes. Ainda estava vermelho e resmungava sozinho enquanto recolhia seus utensílios. Será que surtaria de novo e sairia puto no meio da noite como da outra vez? Zoro definitivamente estava muito velho para tantos chiliques. Não iria se desculpar, nem tinha dito que estava ruim! E comeu tudo também, aquele loiro era que era insuportavelmente chato e perfeccionista.

Sanji jurou que ia matar aquele velhote sem paladar. As críticas dele eram totalmente injustas e desagradáveis, além de serem sem sentido. Não estava muito doce e ele não estava irritadinho coisa nenhuma. Certo, talvez só um pouco. Que culpa o loiro tinha que o imbecil não tinha nenhum senso culinário? Ser criticado pelo gosto pessoal de alguém que não conseguia distinguir sabores o irritava. Talvez ele estivesse sim irritadinho. Muito.

Zoro lutou contra a preguiça de apenas continuar sentado na cadeira e ajudou Sanji a arrumar a mesa. Sem pensar e agindo de forma infantil, Sanji começou a juntar os utensílios mais profissionais que havia levado, por saber que pessoas que não cozinhavam obviamente não teriam em casa. Estava agindo como uma criança mimada que não sabia aceitar uma crítica e mesmo assim sentia-se perfeitamente correto. Foi na casa do velho, gastou dinheiro comprando ingredientes e passou horas cozinhando apenas para ele que ao invés de agradecer, dizia que estava muito doce. Bobagem. Zoro não merecia a cenoura que ele mesmo cortou. Não ia demonstrar, mas ficou levemente feliz ao recolher o ramequin e ver que estava vazio, parece que mesmo falando um monte de baboseira o homem tinha certo respeito pela comida e não simplesmente jogou fora ou largou. Havia um pequeno sorriso discreto nos lábios finos, que fora escondido com todas as forças, não daria o braço a torcer de jeito nenhum. Para evitar ser descoberto, estava com um bico enorme, como se aquilo fosse esconder seu sorriso e aparentemente fora efetivo.

Quando tudo já estava devidamente arrumado e a louça lavada, o loiro parecia estar ocupado em contar se havia pegado todas as suas coisas, que consistiam em apenas algumas facas e espátulas, além dos ramequins que usou para os suflês. Zoro notou que ele encarava os últimos objetos especificamente, com um biquinho nos lábios. Era fofo. Estranho pensar naquele moleque mal-educado e irritante assim, mas até que ele ficava fofo fazendo um bico tão emburrado.

— Para de bico, vai. Próxima vez você faz algo menos doce. — Zoro disse sorrindo, ainda se divertindo com a expressão do outro e sem perceber que estava praticamente o convidando para voltar ali. As palavras de Zoro pareceram um desafio e como o bom pivete competitivo que era e que odiava perder, Sanji fisgou a isca no mesmo instante.

— Pois é isso mesmo que farei. — Ele disse apontando uma faca enorme e afiada bem na cara de Zoro, quase como se estivesse o ameaçando, mas era só o que estava em sua mão no momento. — Você vai ver como vou te fazer algo tão perfeito que vai ter que se ajoelhar aos meus pés, beijá-los e se desculpar pelas merdas que disse.

O loiro dizia ainda com a faca na cara do marimo, até se dar conta. Zoro levantou os braços automaticamente para a ameaça insana do outro e acenou com a cabeça, não querendo discordar de um maluco com uma faca. Novamente, Zoro teve a sensação de que Sanji emanava certa imponência quando estava na cozinha, mesmo quando estava apenas manuseando aquele objeto.

Sanji bufou irritado e guardou o utensílio em seu lugar, junto com todos os outros que havia reunido e levaria de volta para casa. Falando em casa, por mais que quisesse ficar ali irritando... Ou melhor, fazendo companhia para o idoso, era seu dia de fazer o jantar e Zeff o chutaria se não estivesse em casa na hora certa, já estava um tanto atrasado.

— Agora eu vou embora porque tenho que fazer a janta de casa. — Ele disse a contragosto, lembrando-se das palavras infelizes do idiota que o insultavam por ainda morar com sua mãe. Sem nenhuma explicação ele revirou os olhos entediado e começou a ir em direção a porta.

Sanji já havia guardado a faca mas Zoro ainda refletia sobre a firmeza com a qual segurava, como se fosse uma extensão de seu próprio corpo, sem hesitação. Exatamente como fizera ao cortar os alimentos anteriormente, mas naquela posição e dizendo coisas com uma postura tão arrogante era diferente. Não queria admitir, não falaria para ele obviamente, mas pensou naquele segundo que o moleque até que daria um bom espadachim. O que era provavelmente o melhor elogio que Zoro poderia pensar em fazer a alguém.

— Certo. — Zoro concordou distraído, até perceber que Sanji nem esperara ele abrir a porta e já estava se retirando sozinho do apartamento. Ele realmente agia como se fosse dono do lugar e não uma visita. — Ei!

— Que é? — Sanji respondeu parecendo um tanto irritado, deixando-se afetar pelos próprios pensamentos idiotas. Virou-se de volta para o moreno e tentou amenizar a irritação em seu rosto.

— Me dá seu número antes. — Zoro exigiu e Sanji ergueu uma sobrancelha muito esquisita e enrolada para tal requisição. — Vou te mandar um oi para você salvar o meu. E me avise quando chegar em casa.

Zoro não exatamente queria falar que ficou preocupado da última vez em que o loiro voltou sozinho para casa e ficou sem dar notícias até a reunião seguinte. Claro, tinha a impressão que aquele magrelo podia muito bem chutar o queixo de qualquer um que tentasse o importunar, mas mesmo assim não deixava de se preocupar um pouco. Ele basicamente quase morreu sem ar aquele dia e estava em processo de se livrar do vício, não era sensato que ficasse sozinho sem nenhuma supervisão. Não que Zoro estivesse disposto a ser sua babá ou algo do tipo. Ele mal o conhecia, não sabia por qual motivo estava se importando tanto quando deveria apenas dar de ombros

Sanji o observava incrédulo. Agora o velho idiota queria seu número é? Deveria interpretar aquilo como algum tipo de cantada? Não, com certeza não, aquele homem não era desse tipo. Por mais que sua expressão deixasse claro sua suspeita, ele ainda disse o número de seu celular para o outro gravar.

— Claro, daddy. — Respondeu de forma provocativa como se fosse uma pequena criança indefesa que corria perigo ao andar pelas ruas sozinho. Por que estava se envolvendo com um cara tão velho mesmo? Ah, sim, porque era legal irritá-lo.

— Daddy? — Zoro ergueu as sobrancelhas até o alto de sua não tão pequena testa antes de franzi-las em irritação. — Vai, cai fora logo, moleque idiota.

Zoro apenas ouviu de longe a despedida do menor, praticamente batendo a porta nas costas dele. Daddy. Como se fosse. Ele nem era tão velho assim, aquele pirralho que era um diabinho mal-educado, assim como toda essa geração jovem de hoje em dia. Inferno… Estava realmente pensando igual a um velho. Zoro passou as mãos pelos cabelos verdes um pouco grisalhos e, suspirando derrotado, pegou o telefone e mandou um SMS para Sanji.