Don't Call Me Daddy
10 Questions
Notas iniciais

O mais velho tentava não olhar para Sanji, nem mesmo em sua visão periférica. Ele realmente não poderia se importar menos de contar sua preferência a alguém, não tinha o menor problema com isso e jamais teve, ainda mais para um pirralho remelento daqueles, mas sentia um pequeno receio do que veria estampado no rosto daquele garoto. Não que tivesse se afeiçoado ao fedelho ou algo do tipo, só não queria ver nenhuma repulsa, nada que estragasse o mínimo de amistosidade que havia entre eles.
— Eu não acredito que você… — Sanji engoliu a seco e inconscientemente levou uma das mãos aos lábios melados pelo doce, passando seus dedos levemente na pele rosada enquanto lembrava do beijo que havia dado como forma de brincadeira e provocação, sem cogitar a possibilidade de que Zoro gostava daquilo.
Ainda era como se pudesse sentir os lábios rudes do maior sendo pressionados ali, a barba por fazer pinicando seu rosto, o toque áspero em suas mãos… As lembranças eram vívidas. Começava a sentir o clima pesar com o silêncio e rezou para que chegassem logo na reunião para se afastar daquele homem. Estava o tempo todo com a guarda baixa perto de um cara que poderia atacá-lo a qualquer momento. Sua mente estava montando cenários horríveis e absurdos que nem sentido faziam e durou longos minutos até Sanji perceber o quão errado estava. Não foi Zoro quem o atacou, ele mesmo havia atacado, mesmo sendo só brincadeira. Era sua culpa e ele devia se desculpar.
— Marimo… — Ele começou a falar com a voz baixa, mas não esperava que sua boca falasse algo que por mais que estivesse em sua mente, não deveria escapar jamais. — Você é o homem ou a mulher da relação?
Ao se dar conta da besteira que tinha falado, ele socou o pirulito de volta em sua boca e calou-se, voltando a se afundar no celular o colocando na frente de um rosto corado de vergonha.
Zoro ouviu a pergunta revirando os olhos, realmente não poderia ter esperado nada diferente. Era óbvio que Sanji reagiria assim, não era nada surpreendente se Zoro considerasse seu histórico. Pelo menos o menor não parecia tão intolerante quanto Zoro havia temido. Era só um pirralho que não entendia muito bem das coisas, não havia realmente nenhum mal naquilo. Era só extremamente irritante. Não sabia se apenas dava um fora nele ou tentava ensinar algum bom senso para o garoto, mesmo que ele fosse literalmente a pior pessoa para fazer algo assim.
— Quando você tiver perguntas menos idiotas a fazer, talvez eu responda. — Ele disse num tom extremamente exasperado enquanto estacionava o carro. — Agora vamos, estamos atrasados. Anda, garoto.
Sanji ficou meio emburrado com a resposta e reação de Zoro, mas compreendia perfeitamente. Que tipo de pergunta estúpida era aquela? Era óbvio que não existia mulher, se fosse para alguém ser mulher, Zoro dormiria com mulheres! Sentia-se patético por ser tão idiota.
Zoro foi na frente em direção à reunião enquanto Sanji parecia estar fixado em seu celular, o que, para felicidade de Zoro, ele passou o resto da reunião fazendo. Assim, o moreno conseguiu cochilar tranquilamente sem escutar os comentários do rapaz que geralmente enchiam seus ouvidos.
Ao entrar na sala, Sanji tinha feito questão de se sentar longe do moreno, como se estivesse evitando-o por medo de ser agarrado, mas a verdade é que estava com medo dele mesmo falar alguma merda se estivesse próximo. Estava envergonhado pelas idiotices que havia dito, sem coragem de encarar o marimo imbecil. Se sentar longe acabou sendo uma péssima ideia, já que havia ficado basicamente de frente para o outro, se olhasse para frente iria dar de cara com o idiota e mesmo com Zoro dormindo, sentia-se sendo julgado e condenado por suas baboseiras.
Como havia pouca gente naquele dia, Zoro, que geralmente passava despercebido em toda sua antissociabilidade, foi subitamente chamado para falar. Embora ele tivesse tentado recusar, o fato de estar dormindo há poucos segundos não ajudou seu cérebro a se livrar da enrascada e, quando se deu conta, já estava parado na frente de todo mundo. Provavelmente foi o único momento que Sanji olhou para ele e tirou os olhos do smartphone.
— Meu nome é Zoro, todo mundo sabe disso. — Ele disse no meio de um grande bocejo. — Estou há 10 anos sem beber, na verdade daqui a alguns meses serão 11 anos.
Zoro viu os olhinhos azuis de Sanji em sua direção, o encarando fixamente como se assim pudesse até enxergar sua alma. Era só um pirralho remelento, afinal.
— O único motivo pelo qual me lembro dessa data é porque tem uma pessoa muito irritante, terrível mesmo, tão chata que me faz realmente lembrar dessa data. Uh... — Zoro sempre soube que era muito péssimo naquilo, mesmo quando tentava. — Mas meu ponto… É só que às vezes a gente precisa de um puxão de orelha. Alguém que se importe.
Era irritante que a todo momento tenha olhado para aquele loiro problemático, como se estivesse dizendo aquelas palavras só para ele, tentando mostrar que se importava. Zoro só coçou a cabeça depois disso e voltou desajeitadamente ao seu lugar, cruzando os braços e se afundando na cadeira. Mesmo depois de tantos anos ali, ainda odiava ter que falar na frente de todo mundo. Teoricamente conhecia algumas daquelas pessoas há muitos anos, mas não se sentia assim. Mal lembrava o nome de algumas e muito menos era realmente próximo delas.
O discurso de Zoro deixou Sanji curioso. Era impressionante todo o tempo que ele estava sóbrio, mas o que chamou atenção era o carinho e ternura que o moreno falava da pessoa que se importava com ele e Sanji percebeu que parecia muito que aquele homem estava apaixonado, lembrando-se de suas conversas, sabia que o marimo era solteiro, então deduziu que não era correspondido.
Quando foi a vez do loirinho, ele apenas falou que estava há quase um mês sem fumar e por mais difícil que fosse, estava conseguindo aguentar com muito esforço. O desespero inicial havia passado e ele já não sentia tanta necessidade, ela surgia apenas quando sentia o cheiro ou via alguém na rua fumando, mas conseguia se segurar, normalmente ligando para Zoro e conversando com ele durante horas, até se esquecer daquela vontade. Sanji percebeu que Zoro estava sendo aquela pessoa que se importava e se sentiu estúpido por não notar o óbvio antes.
No final da reunião, o loiro apenas explicou que tinha um encontro com a incrível deusa mulher dos seus sonhos e Zoro agradeceu que pelo menos ele havia voltado razoavelmente a seu normal, porque estava irritantemente falante e contando mais detalhes sobre a mulher do que Zoro queria escutar.
Eles se despediram brevemente e Zoro seguiu seu caminho. Não queria admitir, mas quando o loiro apareceu em sua casa mais cedo meio que havia deduzido que eles fariam algo à noite, talvez jantar ou apenas beber uma cerveja sem álcool. Talvez só estivesse delirando por querer tal companhia, era até um pouco deprimente. Talvez só estivesse velho demais, sozinho demais. Melancolia era um sentimento que definitivamente não combinava com ele... Talvez ele realmente não devesse ter citado Kuina em sua fala mais cedo.
Sanji, por sua vez, buscou sua princesa assim que saiu da reunião e aproveitaram muito bem a noite, chegando em casa bem tarde. Tomou um demorado banho para recuperar as forças, pensando que teria que acordar cedo no dia seguinte, ainda tinha que ir para a universidade, ao menos estava acabando o curso e assim que terminasse poderia se focar no trabalho do restaurante especificamente.
Quando se deitou para dormir em sua confortável cama, tudo que aconteceu naquele dia começou a se passar em sua mente, em especial o acontecimento daquela tarde constrangedora. Ainda não sabia como lidar com o marimo depois da nova descoberta, então se forçou a pensar o máximo possível sobre relacionamentos normais e que não envolviam dois homens em uma cama... O pensamento o enojava um pouco, então preferia evitar. Mas, sabia que havia se comportado da pior forma possível ao descobrir e que seu pensamento que dois homens juntos não era normal estava errado.
Ele suspirou meio culpado e pegou o celular, procurando o contato de Zoro, e entrou na caixa de mensagens, sempre se indignando por ter que mandar sms por causa do celular antigo do outro. Começou a digitar, passando um tempo redigitando coisas que achava não terem ficado muito bem escritas, tomando um cuidado que nunca havia tomado ao digitar algo para o amigo.
Desculpe por ter feito aquela pergunta idiota, não foi minha intenção, apenas saiu sem querer. Eu não sabia como agir e falei uma coisa estúpida e sinto muito mesmo. Não quero que isso afete nossa relação, eu gosto muito de você e te considero um ótimo amigo, é bom passar meu tempo a seu lado e não quero que sua preferência sexual ou o modo de eu agir, ou não saber agir, estrague tudo.
Sanji leu em voz alta, sentindo o rosto corar. Eram palavras vergonhosas e não sabia se teria coragem de olhar na cara de Zoro outra vez depois daquilo. Ele respirou fundo para se acalmar, tentando evitar uma crise de ansiedade e, segurando o botão, excluiu toda a mensagem, enviando-a apenas quando só restava o Desculpe inicial.
Sentiu-se patético, então desligou o celular e afundou a cabeça no travesseiro para esquecer aquilo e tentar dormir.
Zoro estava pensando muito em Kuina. Ligou a tv apenas como barulho de fundo, mas sequer estava assistindo. Estava absorto em seus pensamentos, a garrafa de cerveja não-alcoólica ao seu lado. De repente, sentiu o celular vibrar no bolso do jeans e viu na tela "Pirralho". Quando leu a mensagem com o Desculpe, não pôde deixar de sorrir. Aquele moleque era muito idiota. Zoro sabia que ele não havia feito por mal.
Não precisa disso, idiota.
Zoro mandou e depois de alguns segundos enviou outra.
Dorme bem.
Não estava pensando muito quando escreveu a mensagem, só desejava genuinamente aquilo. Desde a ligação em que teve um vislumbre da insônia do garoto, Zoro pôde se identificar com isso. Não exatamente hoje em dia, já que ele dormia como uma pedra. Mas, antigamente quando estava tentando ficar sóbrio, dormir era algo realmente difícil.
Quando Sanji acordou e como sempre fazia pegou seu celular, viu várias notificações, mas as que mais chamaram sua atenção foram duas em específico, uma de um aplicativo de mensagens enviada por sua namorada e outra era um sms na caixa de entrada do sistema de mensagens antigo do celular que mais ninguém usava. Bom, com exceção de um ancião.
E sem perceber, a que o loirinho abriu primeiro foi a mensagem de Zoro. Era simples e curta, como já havia se acostumado, mas Sanji não notou quando um enorme sorriso apareceu em seu rosto e ele se sentiu bem ao ler aquilo, havia um estranho calor em seu coração. Zoro acabou se tornando importante em sua vida, não queria fazer nada que pudesse machucá-lo ou ofendê-lo, sentia-se bem quando estavam juntos.
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