Don't Call Me Daddy
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Notas iniciais

Fazia algumas semanas desde a ligação e aquele moleque não o havia deixado em paz nem por um dia, o infernizando e buscando novos jeitos de irritá-lo a todo momento. Eles haviam se falado bastante por SMS, embora Sanji reclamasse infindavelmente por não poder conversar por aplicativos mais modernos e insistisse o tempo inteiro para Zoro comprar um celular novo, o que o mais velho se recusava veementemente a fazer. Como se fosse gastar dinheiro que nem tinha com coisas inúteis, ele respeitava muito o pouco salário que ganhava na oficina para isso.
Por falar em oficina, Franky estava enchendo o saco desde que chegou atrasado no trabalho naquele dia e explicou por cima o motivo. Toda vez que era hora do almoço o homem de cabelos azulados fazia questão de soltar alguma gracinha sobre Zoro estar comendo a comida da sua esposinha. Zoro já havia tentado explicar milhões de vezes que não tinha nada a ver com isso, mas ultimamente havia percebido que suas explicações emburradas só divertiam mais ainda o chefe. Era muita dor de cabeça que tinha que aguentar apenas por causa daquelas drogas de marmitas. Mas pelo menos estava tendo os melhores almoços de sua vida. Às vezes passava a manhã salivando pensando na marmita e quase corria em direção ao seu armário quando estava na hora da pausa.
Infelizmente isso havia durado pouco tempo, exatamente como Sanji previra Zoro acabou comendo as porções em poucos dias e agora havia voltado a viver novamente de comida congelada. O que havia deixado o homem de cabelos verdes um pouco chateado. Ele nunca se importou com isso durante anos nessa mesma rotina, mas talvez tivesse ficado mal acostumado enquanto tinha seu estoque de marmitas preparadas pelo loiro.
Estava comendo qualquer coisa que tinha em casa antes de ir para a reunião da semana, um pouco amargurado em pensar nas refeições maravilhosas que não existiam mais. O loiro havia perguntado a ele incontáveis vezes na reunião da semana anterior o que ele estava achando da comida, mas ele não dava o braço a torcer e apenas dizia que estava aceitável, mesmo que isso fosse subestimar ao extremo. Com certeza mais tarde ele iria fazer o mesmo e reclamar com ele por ter comido tudo tão rápido. Pelo menos o garoto parecia bem melhor ultimamente e não tinha uma recaída há um tempo. Sanji estava com um semblante mais saudável e menos olheiras no rosto, o que deixava Zoro mais aliviado.
Com esse último pensamento ele tentou achar as chaves do carro, se perdendo no minúsculo apartamento algumas vezes no processo, e abriu a porta para sair de casa, se deparando com um loiro irritantemente familiar com o braço erguido para tocar sua campainha. O moleque parecia mais fresco do que nunca, vestindo uma roupa que parecia exageradamente pomposa até para ele e seu perfume forte irritava o nariz de Zoro. Sanji não falou nada, apenas mostrou um sorriso de orelha a orelha no rosto fino, o que fez Zoro ficar ainda mais confuso.
— Estava com tanta saudade assim que não poderia esperar dez minutos para me ver na reunião? — Ele disse para ser uma brincadeira, mas ainda em seu tom estóico e indiferente de sempre, afastando o loiro da soleira da porta para trancar o apartamento.
Era só para ser uma brincadeira, mas a forma tão natural com que Sanji respondeu sorrindo fez Zoro se atrapalhar um pouco no que estava fazendo, o suficiente para aquele loiro ardiloso conseguisse se infiltrar em seu apartamento.
— Como adivinhou? — Sanji mostrou seu lindo, contagiante e enorme sorriso. Estava mais feliz do que nunca. Seu coração estava acelerado e palpitava em excitação, seu dia não poderia ser melhor, nem mesmo o mau humor daquele velho iria tirá-lo do sério. Percebeu que Zoro tentava afastá-lo, mas estava com as mãos cheias de sacolas e não podia levar essas coisas para a reunião, então se esgueirou do corpo grande e invadiu o apartamento, entrando como se fosse sua própria casa e foi até a cozinha, ignorando totalmente as reclamações e protestos do moreno. — Trouxe sobras do restaurante, não reclame, seu velhote mal agradecido.
Sanji mostrou as marmitas enquanto abria as sacolas grandes e revelava seu conteúdo. Sorriu minimamente para o moreno e então abriu a geladeira para guardá-las, franzindo o cenho ao não encontrar as marmitas de poucas semanas atrás.
— Não acredito que você já comeu tudo algo que deveria durar no mínimo vinte dias. — Zoro escutou a reclamação com o dedo no ouvido, Sanji era barulhento demais. Embora estivesse bastante satisfeito com o fato do loiro ter trazido mais comida ainda, seu estômago até roncou um pouco, mesmo que tivesse acabado de comer.
Embora Sanji tenha acusado o outro de comer mais do que deveria, no fundo estava feliz por aquilo, muito feliz. Zoro comer muito só indicava que gostava de sua comida e o loiro amava quando gostavam do que cozinhava. Queria brigar com o idiota, mas estava realmente feliz aquele dia.
— Tenho uma ótima notícia. — Sanji anunciou estonteante.
Na semana anterior não conseguiu ir infernizar a vida do velho depois da reunião, tinha um ensaio fotográfico que não poderia perder e mesmo convidando Zoro para ir conhecer seu trabalho, o velho ranzinza negou veementemente, dizendo que aquilo era perda de tempo e ele não tinha paciência para as idiotices de Sanji. No fim, o loiro só agradecia por ele não ter ido, porque naquele dia conheceu o amor de sua vida. A fotógrafa pediu seu número e demonstrou interesse por ele, imediatamente Sanji a convidou para um jantar romântico e desde então, todos os dias, estavam indo em restaurantes absurdamente caros e muito bem conceituados. O jovem estava apaixonado e no dia anterior havia pedido a moça em namoro e ela aceitou. Era o dia mais feliz de sua vida.
— Estou namorando. — Ele disse colocando as duas mãos nas bochechas e fazendo uma expressão apaixonada. Em seu dedo anelar havia uma aliança de ouro que deveria valer mais do que o aluguel anual do apartamento de Zoro.
— Ah. E eu ainda pensei que poderia ser algo realmente importante. — Zoro respondeu com o tom menos surpreso possível. Sanji era muito previsível. Obviamente a notícia seria algo idiota. O loiro na verdade já estava enchendo seu saco há dias com essa história de ter algo muitíssimo importante para contar a ele e Zoro tinha certeza que bocejaria com a revelação.
Zoro percebeu que estava completamente ferrado quando nem seu comentário pareceu tirar o outro do sério. Ele tinha uma expressão absolutamente idiota no rosto, como se estivesse em outro mundo, pensando em coisas melosas e românticas que com certeza fariam Zoro vomitar. Zoro precisou praticamente arrastá-lo para fora de seu apartamento para fazê-lo parar de babar e sorrir como um idiota para conseguir fechar a porta e seguirem até seu carro.
— Então? Quem é a pobre coitada? — Zoro se arrependeu instantaneamente assim que as palavras saíram de sua boca, porque o moleque começou a falar dessa mulher e não parou mais, alugando os ouvidos do homem de cabelos verdes o percurso todo até a reunião.
Rapidamente Zoro percebeu que seu julgamento sobre a fulana não poderia estar mais enganado. Embora ainda tivesse pena de qualquer um que tivesse que aguentar aquele moleque insuportável, pela descrição de Sanji deu para perceber que de coitada ela não tinha nada. Mesmo que Sanji contasse tudo sob uma perspectiva completamente parcial e enviesada, o que era evidente pelo fato de se referir a ela como uma deusa na terra incapaz de errar, era evidente que ela deveria estar se aproveitando muito do garoto.
Sanji fez biquinho manhoso quando o idiota de Zoro deu tão pouca importância para seu novo relacionamento amoroso, qual era o problema dele? Era tão estúpido a ponto de não perceber o quanto aquela notícia era importante? Irritante. Marimo irritante. Mesmo assim, aquilo não afetou seu humor, estava muito feliz e bobamente apaixonado para ligar para as baboseiras do velhote, estavam conversando há tempo suficiente para saber que ele não ligava para nada realmente, um completo imbecil insuportável. Mas... Um imbecil ao qual o loirinho se apegou e virou seu amigo, por mais que odiasse isso.
A parte principal em namorar era ter sexo fácil, sexo que não precisava pagar, porque o jovem ainda não tinha chegado tão fundo no abismo do desespero para pagar por sexo. E o sexo com sua namorada era o melhor, ela era tão deliciosa e quente, em todos os sentidos, que ficava sem fôlego.
Sanji poderia falar de sua amada pelo resto do dia, ou melhor, de sua vida. Cada detalhe dela era perfeito. Seu corpo era lindo, o rosto magnífico, sua personalidade era a melhor, suas curvas, seu interior... Não duvidava que estivesse babando enquanto contava suas aventuras ao outro. Mais uma coisa importante e fundamental de seu novo relacionamento era que sua fixação oral estava sendo muito bem sanada e isso estava mantendo-o longe de seu maldito vício, o cigarro. Se pudesse, ficaria todos os dias, o dia inteiro, apenas chupando sua deusa perfeita, fazendo-a gozar com sua boquinha faminta e gulosa. Se soubesse que esqueceria do cigarro só por um par de peitos, teria arrumado uma namorada bem antes.
Bom, como não podia mamá-la o dia todo, ainda estava apelando para os pirulitos, sempre levando alguns na bolsa como garantia e era esse o caso. O caminho até a reunião demorava e ele socou fundo o doce oval na boca, chupando-o com vontade, quase como se tragasse o cigarro. Os barulhos eram indecentes e obscenos, e claramente incomodava o marimo, mas quanto mais incomodasse ele, mais sentia vontade de fazer aquelas perversões com a língua. Porém, o tanto que Sanji o irritava, também era irritado.
— Ela é um pouco velha demais para você, não? — Zoro comentou depois de ouvir a enésima história de um jantar chique ao qual foram e a milésima jóia que Sanji comprou para a mulher a pedido dela.
— Velha? — Sanji se indignou com aquela afirmação absurda. Quem aquele velhote achava que era para chamar uma jovem dama de velha? Ela não devia ter nem 30 anos ainda, apenas dez a mais que o loirinho, nunca que uma mulher perfeita e maravilhosa como aquela era uma velha. — Se você diz, daddy. Só não sabia que damas maravilhosas, maduras e experientes na época das cavernas eram chamadas de velhas.
— Madura e experiente é só outro nome para velha e você sabe disso. — Zoro disse, ignorando a parte em que Sanji o chamava de velho também. E de daddy, sempre ignoraria aquele absurdo. Zoro olhou para o lado para encará-lo por um segundo enquanto estava parado no trânsito e se arrependeu completamente.
Sanji mostraria a língua, se não considerasse aquilo muito infantil, mas estava de braços cruzados e irritadinho e manteve-se assim durante todo o percurso até a reunião... Ou melhor, até receber uma mensagem de sua amada perguntando em qual restaurante e motel estrelados eles iriam naquela noite que ela estava muito ansiosa. Sem perceber ele estava sorrindo como um retardado para o celular e respondendo com uma mão, gravando áudios e enviando, recebendo áudios de volta. A outra mão segurava o pirulito fora da boca, mas sua língua estava para fora e rodeava aquela bolinha rosada em movimentos deliciosos e repetitivos, sem notar o que fazia. Zoro estava com uma expressão que o deixava ainda mais velho e feio a seu lado.
Se Zoro já achava exasperantes os ruídos que estavam preenchendo o carro, agora achava a visão do garoto chupando o pirulito completamente ultrajante. Zoro não conseguia acreditar que ele realmente não fizesse ideia do que estava fazendo. O loiro metia o pirulito na boca e tirava de novo, chupando obscenamente o doce a ponto de fazer os barulhos mais sujos possíveis. Com certeza estava fazendo conscientemente. Às vezes, Zoro achava que o propósito da vida daquele moleque era irritá-lo.
E não, Zoro geralmente não tinha a mente tão pervertida assim. Mas estava extremamente difícil de não associar os movimentos do garoto com outras coisas. Se ele não soubesse que aquilo era uma forma do loiro lidar com seu vício já teria arrancado o maldito pirulito das mãos dele e jogado pela janela do carro. Precisava fingir que não estava vendo nem escutando nada e se concentrar no trânsito, se não bateria seu carro. Felizmente, logo o loiro interrompeu o que fazia para soltar outra grande idiotice, que era tudo que saía de sua boca pervertida aparentemente.
— Você está é com inveja de que eu consegui uma bela dama e nenhuma mulher maravilhosa te dá bola. — Sanji disse de forma provocante, sorrindo vitorioso. Com aquela cara azeda, nenhuma mulher olharia para aquela planta mesmo.
— Ainda bem. — Zoro disse sem um pingo de ironia em sua voz e viu Sanji olhar perplexo em sua direção. — Não tenho o menor interesse em mulheres, moleque.
A única reação que Sanji conseguiu esboçar foi espanto. Zoro não tinha interesse em mulheres? Quer dizer então que ele… O loiro franziu o cenho se esforçando para entender direito aquelas palavras, nessas horas se odiava por ser tão perspicaz e compreender informações com facilidade. Zoro não gostava de mulheres, então ele… Não conseguia nem mesmo pensar, estava muito surpreso com a nova informação. O que normalmente seria nojo em sua expressão, apenas era a mais pura curiosidade. Conhecia o velho há tempo o suficiente para saber desses detalhes simples da vida dele e só então que o loirinho entendeu que na verdade não sabia nada sobre Zoro.
— Você é gay? — Ele perguntou sem nenhum limite, esquecendo-se completamente do celular e do pirulito, apenas estava embasbacado enquanto olhava no rosto do outro dirigindo concentrado.
Viu o moreno concordando com a cabeça sem tirar os olhos do trânsito e aquilo fez seu corpo gelar.
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