Dominante
6 VI
Notas iniciais
A luz da manhã, que entrava pelas frestas da persiana, em meu rosto me despertou. Abri meus olhos devagar e olhei para meu relógio. Onze horas. Arregalei meus olhos. Eu estava surpresa em como eu havia conseguido dormir tanto!
Ontem à noite, quando cheguei em casa, eu estava desesperada. Meus dias estavam contados e eu não conseguia aceitar isso de jeito nenhum. Minha vontade de ser livre não era apenas por causa de minha dominância, mas pela minha própria espécie. Eu era uma loba, uma loba que queria correr livre pela floresta enquanto o luar banhava meus pelos prateados para sempre. Sem ter que correr ao lado de ninguém, muito menos de Aidan Rucker, o Alpha que com certeza destruiria minha felicidade. Um lobo sem sua liberdade, bem, é um lobo enjaulado. E é melhor matar um lobo enjaulado de uma vez do que vê-lo sofrer.
Mesmo assim, mesmo sentindo esse medo e esse ódio pelo famoso Alpha de Columbus, eu havia deitado. Eu estava exausta, fora um dia muito desgastante afinal, mas eu duvidava que fosse conseguir dormir.
Parece que eu estava mais cansada do que eu pensava, pois eu nunca dormia até tão tarde. Provavelmente os últimos dias difíceis que eu tive e a falta de sono nas noites passada, também por causa desses dias difíceis, haviam influenciado muito nesse meu horário de acordar.
Espreguicei-me e levantei finalmente da cama, criando coragem para tirar o cobertor macio e quentinho de cima de mim. Estávamos no final do outono, as árvores lá fora já perdendo suas lindas folhas amareladas e alaranjadas, ficando nuas. Eu gostava muito do outono, pois eu gostava de frio, mas não tão frio quanto o inverno impiedoso de Ohio com certeza traria. Sem contar que o outono é a estação mais bonita, em minha opinião. Estava chegando ao fim, porém, e o vento gelado e cortante do início do inverno já estava incomodando. Logo eu teria que adicionar mais uma coberta para me aquecer e ligar a calefação, que faria com que minhas contas de luz subissem absurdamente, e isso doeria muito no meu salariozinho de professora de música.
Suspirei, deixando isso de lado. Eu tinha coisas mais urgentes para resolver do que as contas de luz do inverno. Como a "conversa" que eu teria com os lobos da alcateia essa tarde. E graças à minha sonolência, eu já não tinha mais tanto tempo.
Decidi tomar um banho para acordar melhor. Sempre que eu dormia demais eu ficava parecendo um zumbi, perambulando para lá e para cá, ainda sem ter acordado direito. O banho resolveria isso. Sem contar que é embaixo do chuveiro que se tem as melhores ideias.
Despi-me das roupas de ontem — eu havia novamente dormido sem colocar o pijama – e entrei embaixo da água morna do chuveiro. A água com certeza estava fazendo bem ao meu corpo, relaxando os músculos tensos e me acalmando um pouco mais. Entretanto, eu sabia que eu não podia mais fugir do problema, então tentei pensar em como iria contar tudo para Aidan Rucker. Como disse antes, é embaixo do chuveiro que as melhores ideias surgem, e eu esperava ter uma boa ideia de como me confessar para ele.
— Então, ahn, Senhor Lobo Alpha. Meu nome é Rebecca Young e eu sou uma loba dominante e estive morando, em segredo, em seu território por mais de dois meses. Eu saí de minha alcateia porque detesto seguir ordens, principalmente de lobos machistas que acham que podem pisar nas fêmeas porque elas estão mais abaixo na hierarquia, o que é muito injusto, tendo em vista que elas podem ser mais dominantes do que vários dos machos idiotas. Ah, e você me parece ser um tremendo de um babaca maníaco por controle e eu detestaria fazer parte da sua alcateia miserável. Portanto, espero que continue a me deixar morar em seu território, igual àquele sabe-tudo nariz-empinado do filho do Letum, como loba solitária e nunca mais me incomode. Tenha um bom dia. – Pratiquei.
'Becca. Você só pode estar brincando, não é Becca? Ou você quer mesmo matar a gente?'
Falou minha loba e eu tive que rir. Eu nunca fui uma pessoa que escolhia bem as palavras. Nunca fui muito sutil, mas sempre fui muito sincera. Às vezes até achava que eu era sincera demais.
Bem que minha mãe falava, nos raros momentos em que ela estava em casa, sóbria, e nós conversávamos um pouco, que esse meu jeito de ser só ia me pôr em confusões. Pois é, parece que eu era dominante muito antes de sequer saber que lobisomens existiam. Agora eu sei que não tem como mudar. Essa sou eu, e eu terei que viver com as consequências.
'Sério, Becca. Nós conseguimos fazer melhor que isso. ' Insistiu minha loba.
Ela tinha razão, eu tinha que praticar. Essa conversa iria definir se eu continuaria uma loba livre, ou viveria como uma loba enjaulada. Se eu realmente me juntasse à alcateia, eu duvidava muito que o Aidan me deixaria ir embora depois de alguns anos, como o Joe havia deixado. A menos que esse Aidan Rucker tivesse uma companheira submissa com quem eu desenvolvesse uma amizade, como com a Nora. Daí talvez eu tivesse uma chance, mas eu não contava muito com isso. Não que ele não tivesse uma companheira, aposto que tinha, mas ele era muito mais dominante que o Joe. Onde o orgulho dele ficaria se me deixasse ir embora? Pfft. Vai sonhando, Becca.
Tentei voltar a me concentrar em como falar para ele, sem ofendê-lo ou fazê-lo pensar que eu era fraca demais. Fraca ao ponto de ele querer me "proteger". Porém, o desespero começou a ganhar força dentro de mim novamente, mesmo com a água morna fazendo seu caminho sobre meu corpo. Realmente, as chances de eu sair dessa livre eram praticamente inexistentes. Ou eu saía da casa de Aidan como membro de sua alcateia, ou eu saía livre, dentro de um caixão.
Involuntariamente, a memória mais marcante de minha antiga alcateia voltou para mim, só para aumentar meu desespero.
Flashback On
— Então você é a nova loba? – Perguntou uma voz masculina atrás de mim. Eu estava sentada no banquinho de madeira do parque, onde a reunião sobre minha entrada na alcateia de Seattle havia sido.
Eu estava sozinha, pois Corrie e Christian tinham ido conversar sobre mim com o Joseph Beitman, meu novo Alpha, e Nora Beitman, sua companheira. Eu estava pensando em tudo que Corrie havia me dito sobre a alcateia. Ela me avisara que, normalmente, não era difícil para as fêmeas, pois a maioria era submissa. Para mim, porém, ela falara que ia ser um desafio, mas seria bom para eu treinar meu autocontrole.
Eu estava, na verdade, muito entusiasmada com essa história toda de fazer parte de uma alcateia. Eu tinha dezessete anos e o mais perto de uma família que eu já tivera era Corrie, que eu via como uma irmã mais velha, e Bernard, que eu achava, até algumas semanas atrás, que era o amor da minha vida. A alcateia, Corrie me prometera, seria a família que eu nunca tivera. Eles me dariam todo o apoio, proteção e instrução que uma família normal daria, só que eles me ensinariam não como viver como humano, mas sim como viver como lobo. E eu tinha que admitir que eu achava isso extremamente maneiro. Corrie já me contara várias histórias sobre como era ser um lobisomem, tendo os sentidos aguçados, habilidades inumanas e, o que mais me maravilhava, as aventuras que ela tivera em seu corpo de lobo. Eu nunca havia pensado em realmente me tornar uma, mas agora que eu já havia experimentado tudo isso, eu sabia que nunca iria querer voltar atrás.
— Você tem cheiro de novata, mesmo. – Falou o homem de novo, vindo até o banco e sentando-se ao meu lado. Virei-me para olhá-lo.
— Novatos têm cheiro? – Perguntei intrigada e um pouco cautelosa. Eu não sabia se ele estava me insultando ou não. E, se estivesse, qual motive teria para fazê-lo?
— Bem, não é que você cheire a novato. É uma mistura de cheiros que a maioria dos lobos novos exala quando conhecem a alcateia pela primeira vez. – Explicou. – No seu caso, sinto cheiro de entusiasmo, confusão e um pouco de insegurança.
Corei de leve. Eu tinha que me acostumar logo com o fato de que os lobos podiam sentir o cheiro de nossas emoções e sentimentos, a menos que aprendêssemos a escondê-los. Eu, obviamente, não havia aprendido nada ainda.
— Entendo o entusiasmo. – Continuou a falar. – A ideia de fazer parte de um grupo tão grande de lobos é realmente muito excitante. A confusão também, pois você ainda não sabe nossas regras direito e como o corpo de um lobo funciona. – Sorriu para mim e, vendo esse sorriso amigável, decidi na hora que eu havia gostado dele. – Agora, esse cheiro de insegurança... Completamente desnecessário, se bem que a maioria dos novatos também se sente assim. Não se preocupe, nós já lhe aceitamos na família, não há mais com o que se preocupar. – Com sua voz suave e suas palavras gentis, senti-me melhor e menos perdida. Senti que havia feito meu primeiro amigo dentro da alcateia.
— Ei, Drake, tá conversando com a assassina é? – Falou outra voz masculina por trás, seus passos chegando cada vez mais perto de nós. Sua voz não era nem um pouco amigável como a do homem que ele acabara de chamar de Drake.
— Assassina? Não chame a novata assim. – Falou irritado, ao meu lado.
O outro homem andou até entrar em meu campo de visão, dando a volta no banco e parando em pé à minha frente.
— Isso foi uma ordem, Drake? – O outro disse, com uma sobrancelha levantada. – Você sabe que você não pode me dar ordens.
— Não foi uma ordem, foi apenas uma constatação do óbvio. Do bom senso que você deveria ter. Você sabe que não deveria chamá-la assim, mas parece que se esqueceu. Estou lhe lembrando.
O lobo em pé revirou seus olhos e se ajoelhou, olhando diretamente em meus olhos.
— O fato de ela ser uma assassina é incontestável. – Falou. – Então não vejo mal chamá-la dessa maneira. Não é nada para se envergonhar, afinal. Ela matou um vampiro. Um vampiro bem antigo. E com apenas algumas semanas como uma de nossa espécie. – Lançou-me um sorriso torto. – Não é pra qualquer um não.
— Ah Max, vamos, não comece a atormentar a novata...
— Não estou a atormentando. Pelo contrário, — Virou-se para encarar Drake, o sorriso ainda em seu rosto. – estou a elogiando pelo ótimo trabalho que fez com o assassinato de Bernard Holland. Ela deixou tudo limpinho, sabia Drake? Limpou tudinho! Queimou o corpo, livrou-se das pistas-
— Dá pra parar? – Falei, com a voz um pouco mais alta do que o meu normal.
Os dois se viraram para mim, com muito interesse. Drake me olhava muito surpreso, mas também parecia estar divertido. Max também tinha um pouco de surpresa em seu olhar, mas também pude perceber uma chama de interesse neles.
— Como é? – Perguntou Max, intrigado.
— Eu disse: Dá pra parar? – Repeti, minha voz normal novamente. – Eu gostaria que trocássemos de assunto.
Eles se entreolharam e Drake deu uma risadinha.
— Tudo bem, assassina. Não menciono mais Bernard Holland perto de você, então.
— E pare de me chamar de assassina. – Demandei. – Eu tenho um nome, afinal.
Max veio um pouco mais para perto de mim, ainda ajoelhado no chão do parque. Colocou sua mão direita no banco, ao lado da minha coxa, entre eu e Drake. Isso me deixou muito desconfortável.
— E qual seria então? – Perguntou.
— Meu nome é Rebecca Elise Young. – Respondi, de cabeça erguida. Minha opinião sobre esse tal de Max era o completo oposto à minha opinião sobre Drake.
— Nome bonito. – Falou Drake, esboçando um sorriso sincero.
— Realmente. – Concordou Max. Ele era tão alto que, ajoelhado, seu rosto estava da mesma altura que o meu. – Um nome bonito para combinar com uma assassina bonita.
Revirei meus olhos mais uma vez. Que cantada mais... Tosca.
— Eu já falei. – Disse, entredentes. – Não me chame de assassina. — Ouvi um leve grunhido escapar de minha garganta, e eu sabia que quem tinha falado essa última frase foi minha loba.
— Olha só, — Riu Max, olhando com a boca aberta em um sorriso para meus olhos. – que olhos lindos! Azuis como gelo, Drake. Está vendo?
Drake olhou para meus olhos e seu queixo caiu um pouco.
— Mas você tem olhos castanhos claros como mel... – Murmurou Drake e Max deu um tapa entusiasmado na perna dele.
— Exatamente! Drake, ela é...
— Sou o quê?! – Perguntei, irritada com os dois, principalmente Max, me observando como se eu fosse um animal de zoológico. – Uma assassina? Chega de me chamar de assassina!
— Shh, calma amor. – Sussurrou Max, e ele me chamando desse jeito me irritou ainda mais. – Você é a primeira fêmea, aqui na alcateia, que eu já vi que muda a cor dos olhos assim tão facilmente.
— Do que você tá falando? – Eu estava achando esse Max um completo idiota. – A Corrie troca a cor dos olhos também. Eu já vi os olhos azuis dela se transformarem em um dourado forte mais de uma vez.
— Pode até ser, mas demora muito pra ela chegar a esse ponto. Muitas fêmeas nem trocam a cor dos olhos quando ainda estão humanas... Só quando se transformam. Lobos submissos são assim.
— E daí? O que tem isso? Eu troco a cor dos olhos, grande coisa.
Ele tirou sua mão do banco e a colocou em meu rosto, minha orelha entre seu polegar e seu indicador. A sensação de sua mão em minha pele me fez formigar, não de um jeito bom.
— Você é dominante. – Falou como se a palavra fosse a maior das qualidades. – Fêmeas dominantes são tão raras e tão... Deliciosamente excitantes...
— Max! – Falou Drake, desencostando-se do banco e perdendo sua postura relaxada. – Max, não comece...
— Vai negar, Drake? Vai negar esse fato tão óbvio? Ou será que você está irritado por ela ser mais dominante até que você? – Provocou o outro, ainda olhando para mim e em seguida colocou sua mão esquerda em minha coxa, fazendo uma espécie de carinho nela. – Nunca vi você trocar a cor dos olhos enquanto humano, submisso.
— Tire as mãos de mim. – Falei, contando até dez, testando, como Corrie havia falado, meu autocontrole.
— Está me dando ordens? – Perguntou Max, mas não parecia bravo. Pelo contrário, parecia satisfeito. – Surpreendentemente, eu gostei muito disso...
Seu rosto foi vindo cada vez mais perto do meu, e percebi que a cor de seus olhos também havia mudado. Seu lobo estava acordado e, pelo visto, muito interessado em minha própria loba.
— Max... – Advertiu Drake, mas o lobo em minha frente nem ouviu.
— Rebecca Elise Young, — Odiei como meu nome soava por sua língua. – a loba dominante da alcateia de Seattle. Soa bem, não acha? – Perguntou para mim, mas eu não respondi. Estava concentrada demais em não machucá-lo para fazer qualquer outra coisa. – Rebecca Elise Young e Maxwell Thomas Kentner, lobos dominantes da alcateia de Seattle... Nossos nomes soam muito melhores juntos, não é, Drake? – Seu rosto estava agora tão perto do meu que, se eu falasse, nossos lábios roçariam.
Percebi, de canto de olho, o movimento de Drake levantando e pondo a mão na gola da blusa de Max. Puxou-o para trás, livrando-me das mãos e da respiração do lobo.
— Pare de atormentá-la, Max! Deixe-a em paz, ela acabou de chegar! – Gritou meu novo amigo, alterado, mas seus olhos não haviam mudado.
— Drake! – Berrou Max, levantando-se do chão onde havia sido jogado humilhantemente. – Você ousa me dar ordens?! Até que ponto vai sua idiotice?!
Após falar isso, o corpo de Max começou a se distorcer de uma forma grotesca, bem na frente de meus olhos. Eu já havia me transformado, mas nunca vira ninguém se transformar. E aqui estava um lobo dominante e irritado se transformando bem em minha frente. Drake, após ver o que estava acontecendo, também iniciou sua transformação.
Os dois corpos se distorciam, as partes do corpo se rearrumando. Logo suas roupas foram rasgadas em pedacinhos, sem nenhuma esperança de serem consertadas. A própria pele dos dois parecia rasgar-se e pude ver os músculos, os nervos, as veias, e todo o resto de seu interior, como se estivessem virando de dentro para fora. Segurei a vontade de vomitar. Depois dos órgãos se arrumarem em seus novos lugares, os membros em suas novas posições, e o pelo lupino se ajeitar sobre seus corpos, a transformação dos dois havia terminado. Tudo isso ocorreu em apenas alguns segundos, mas parecia muito mais tempo para mim.
Drake era um lobo cinza-escuro e Max era um lobo castanho claro. Max era consideravelmente maior do que Drake e pude ver, enquanto um rosnava para o outro, que ele também tinha dentes maiores e mais afiados.
Num piscar de olhos, um pulou sobre o outro, rosnando e grunhido e sem segurar sua força. Drake mirou em seu pescoço e, no choque dos dois corpos, conseguiu fazer um rasgo médio no lobo castanho. Circulavam-se, a boca e queixo de Drake manchados do sangue de Max, que rosnava enfurecido. Jogaram-se um contra o outro novamente e, dessa vez, Max conseguiu dar uma patada forte no rosto de Drake, deixando marcas de garras de sua orelha até seu queixo.
Drake soltou um gemido e parecia furioso consigo mesmo por deixar transparecer a dor que sentia. Estava de costas para Max e, quando virou, a coisa mais estranha que eu já vira aconteceu.
Max aproximou-se de cabeça erguida, pisando forte na grama úmida da chuva de verão que havia caído àquela manhã. A cabeça de Drake estava baixa, mas parecia que ele estava lutando para tentar erguê-la. Max deu mais um passo em sua direção, e as patas dianteiras de Drake cederam. Mais um passo de Max e as patas de trás caíram, fazendo Drake deitar-se na grama. Max deu o último passo até alcançar meu amigo, e esse se virou de barriga para cima, expondo seu pescoço para o lobo.
— Drake! – Eu chamei, mas ele apenas me olhou com os olhos tristes.
Max abocanhou seu pescoço, um pouco de sangue escorrendo no pelo cinza do outro lobo. Ficou assim até Drake gemer de dor, daí finalmente o soltou. Deu uma bufada na cara de Drake e iniciou sua transformação de volta a humano.
Enquanto ele se transformava, fui até Drake. Coloquei sua cabeça em meu colo e, de perto, vi que o ferimento no pescoço não havia sido tão fundo assim. Não era um ferimento para machucar, apenas para ditar quem é que manda. Mesmo assim que sabia que Max havia adorado machucar meu novo amigo no processo. Drake encostou seu focinho em minha mão, pedindo para eu deixá-lo. Assim o fiz.
— Idiota submisso. – Cuspiu Max, e me virei para olhá-lo. Estava completamente nu, mas eu não me impressionei. Seu pescoço ainda sangrava bastante, mas ele podia morrer ali mesmo que eu não ligaria. Eu estava preocupada com Drake, mesmo sabendo que ele se curaria rapidamente e que nem uma cicatriz sobraria.
— Você... O que você fez com ele? – Perguntei, incrédula. Ele riu e veio até onde eu estava em pé.
— Apenas fiz o que todo lobo faz com os mais submissos. Coloquei-o em seu lugar. – Colocou seu braço em volta de minha cintura e eu estremeci.
— Mas você nem pode fazer isso. Você não é o Alpha!
— Ele é um lobo submisso e eu sou mais dominante que ele, é isso que importa. – Falou simplesmente, como se fazer isso com outro lobo fosse a coisa mais normal do mundo. Eu estava vendo que, numa alcateia, era mesmo a coisa mais normal do mundo. – E você pode ser dominante, mas ainda é uma fêmea e terá que me obedecer, amor. – Sussurrou em meu ouvido e beijou de leve o começo de meu pescoço.
'Foda-se nosso autocontrole. '
Falou minha loba e, como se isso fosse um sinal verde, dei uma forte cotovelada no estômago de Max, fazendo-o cambalear para trás e pôr as mãos na barriga, quase vomitando.
— Eu não vou lhe obedecer, e nunca mais me toque. – Cuspi em seus pés. – Você é o lobo mais nojento que eu já conheci. Nossos nomes nunca ficarão juntos. – Falei justamente para provocá-lo.
— Vadia ingrata! – Gritou se recompondo. Percebi que alguns lobos tinham percebido todo o estardalhaço e vieram até onde estávamos. – Você acha que vai sobreviver em uma alcateia assim? – Ele riu, seus olhos em chamas e cheios de raiva. – Você terá que obedecer a todos, sua assassina idiota!
Engoli em seco, dando um passo para trás. Drake ainda estava no chão, em sua forma lupina.
— O que está acontecendo aqui? – Perguntou Joseph, autoritário como sempre. Ele não parecia nada satisfeito comigo.
Corrie e Christian estavam bem atrás dele, ambos me olhando preocupados. Havia outros lobos com eles, mas eu não os conhecia ainda. Corrie balançou negativamente a cabeça para mim, seus olhos diziam claramente: Já se meteu em confusão, não é?
Suspirei, minha cabeça baixa.
— O que aconteceu com Drake? – Perguntou Joe, olhando de mim para Max. Eu estava prestes a abrir a boca, mas o outro foi mais rápido.
— Ele desafiou minha autoridade. – Disse, e apenas com isso todos os outros pareceram compreender e aceitar. Senti mais ódio borbulhar dentro de mim.
— Presumo que esse seu ferimento seja por causa dele.
— Sim, Alpha. – Passou sua mão nojenta no ferimento, vendo que ainda sangrava bastante.
— E como você explica o que acabamos de presenciar entre você e a nova loba? – Perguntou o Alpha, sua voz mais grossa e séria agora.
— Ela também desafiou minha dominância. – Respondeu Max, olhando fixamente para mim, refletindo o ódio que eu tinha por ele. – Ela me deu uma cotovelada no estômago, provando sua rebeldia, e tentou me dar várias ordens. Parece que ela não entende muito bem da hierarquia.
— Ela é dominante! – Falou Corrie, em minha defesa. – Ela é dominante e é nova!
— Você sabe muito bem que isso não justifica os atos dela, Corrie. – Joe olhou para mim, sua expressão não demonstrava nenhum sinal de compaixão. – Ela deve obedecer a quem está mais alto na hierarquia. Reconheço que ela ser dominante não facilitará nada para ela, mas ela não será exceção às regras da minha alcateia.
Corrie virou seu rosto, não querendo me olhar e muito menos querendo olhas para Max ou o Alpha. Christian passou um braço protetor envolta dela e me lançou um olhar de reprovação. Eu me sentia horrível. Sentia como se tivesse decepcionado todo mundo, principalmente Corrie, que era quem importava mais para mim.
— Rebecca. – Chamou o Alpha, e eu voltei meu olhar para ele, sentindo-me tão pequena e incômoda como uma pulga. – Você tem muito que aprender sobre nossas regras. E você irá obedecê-las e obedecer a todos os outros dessa alcateia, tendo em vista que, como é nova, é a última na hierarquia.
— Obedecer a todos...? – Quase me engasguei nas palavras.
— Sim. Você irá. – Senti sua ordem e eu sabia que eu teria que obedecê-lo.
Assenti cabisbaixa e pedi permissão para ir embora para casa. Joseph deixou e eu parti sem nem olhar na direção de Max, mesmo sabendo que ele estava me devorando com os olhos, triunfante. Eu sabia que agora todo o desejo que ele tinha por mim havia desaparecido, mas em seu lugar havia uma imensa raiva.
Meu primeiro dia na alcateia e eu já criara tanta confusão... Eu e minha loba sabíamos que não era exatamente nossa culpa. Talvez um pouco, mas não havia nada que pudéssemos fazer. Nós só sabíamos que teríamos que aturar tudo isso, pois queríamos muito ter uma família, aprender tudo que precisávamos sobre nossa espécie, e principalmente ficar com Corrie.
Flashback Off
Desliguei o chuveiro.
Eu sabia que nem todos os lobos dominantes eram assim tão repugnantes como Maxwell Kentner, mas a vergonha e a sensação de impotência que eu senti naquele dia ainda me assombravam. Eu tinha várias outras memórias ruins, onde eu havia causado alguma confusão por não querer obedecer ou fazer alguma coisa, mas a pior de todas foi essa. Todas elas acumuladas, bem, resultaram em minha saída da alcateia. Foi voluntária minha saída, não fui expulsa, mas mesmo assim acho que o Joe deu graças a Deus que eu fui embora.
Eu jamais queria passar por isso novamente, mas ontem a prova viva de que eu não tinha mais escolha havia se mostrado para mim. Eu teria que ser corajosa, engolir todo meu orgulho – que eu às vezes achava ser do tamanho dessa cidade inteira – e seguir em frente nessa nova etapa da minha vida lupina. Aqui em Columbus a alcateia era menor, talvez eu tivesse menos problemas.
Vesti-me e decidi que iria tomar café fora. Como já era quase a hora do almoço, eu passaria em qualquer restaurante de fast-food e ficaria satisfeita.
Peguei a chave do carro e saí de casa. Como havia dito, passei no Wendy's e pedi três sanduíches de frango. Lobisomens comem muito, lembram? Comi-os no carro mesmo e, quando eu havia terminado, decidi ir até a floresta.
A floresta ficava alguns quilômetros fora de Columbus e sempre que eu ia nela eu estacionava no pequeno estacionamento que havia em sua entrada. Nenhum policial iria estranhar, pois muitas pessoas faziam trilhas e acampamentos nessa floresta, mesmo sabendo que havia ursos, lobos e outros animais perigosos nela. Eles com certeza não sabiam que tinham lobisomens nela de vez em quando, mas eu era provavelmente a única que vinha aqui tão longe.
Eu precisava esfriar minha mente, esquecer-me das terríveis experiências que tive em Seattle e me acalmar. Eu iria falar com Aidan. Era um fato. Não havia como fugir. Então, para enfrentá-lo, eu teria que me acalmar.
Estacionei o carro e saí dele. Tirei meu tênis e minhas meias, pondo-os no porta-malas. Não havia perigo em eu ficar nua ali, em público. Não havia "público". As árvores não permitiam que ninguém me visse da estrada e meu carro era o único no estacionamento. Tirei minha calça, minha blusa e depois minhas peças íntimas. Eu odiava estragar roupas na transformação, então sempre que podia, eu as tirava. Alguns lobos gostavam da sensação de rasgar os tecidos, mas não eu. Sem contar que eu não tinha exatamente dinheiro para comprar um par novo de calças jeans sempre que me transformava.
Desfiz meu rabo de cavalo e, agora completamente sem roupa, fiquei de pé observando a natureza ao meu redor. Eu já sentia que estava me acalmando, mas minha loba estava louca para sair. Vi meu reflexo na janela do carro e sorri. Meus olhos estavam cor de gelo.
Inspirei fundo, apreciando o ar e o cheiro da mata, e sabia que minha loba aprovava.
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