Notas iniciais
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O cheiro da mata em volta de mim me chamava. A floresta gritava para eu me juntar a ela. Meu corpo, alma e loba estavam impacientes, tentando me puxar para a transformação.

Eu realmente precisava disso, desligar minha mente humana por um tempo. Todo o estresse dos dias passados e do conhecimento de minha futura conversa, naquele mesmo dia, com o Alpha da alcateia, estava acabando comigo. Estava me corroendo e me enlouquecendo aos poucos. O único jeito de postergar isso até mais tarde, quando eu iria finalmente visitar o Alpha, era me concentrar em algo melhor, algo que me fizesse bem, um desejo mais animal do que humano.

O desejo de me unir, de corpo e alma, com a fauna e flora do que eu julgava ser meu território.

Sim, eu sabia que, na verdade, o dono do território era Aidan Rucker e que eu estava vivendo escondida no local. Mas eu já viera tantas vezes nessa floresta que eu já me sentia em casa nela. Eu a havia escolhido justamente por ser alguns quilômetros fora de Columbus, o que tecnicamente seria fora do domínio de Aidan. Existiam várias outras florestas dentro da capital, sendo uma cidade que valorizava muito a preservação do meio ambiente e da vida selvagem, e sendo uma cidade enorme, mas muito bem espalhada. Aidan com certeza teria várias outras florestas para se aventurar com seus lobos. De qualquer forma, eu nunca havia encontrado nenhum sinal de outros lobisomens nessa minha floresta, então, como eu era a única que a utilizava, ela era sim minha. E, portanto, esse era meu território.

Estranhamente, eu gostava muito dessa sensação de ser dona de um território. Eu me sentia importante. Talvez fosse só uma coisa de lobos dominantes, mas eu me peguei pensando, por um momento, que eu até não me incomodaria em ser a líder de um bando de lobos, uma Alpha. Minha alcateia com certeza seria mais justa do que as outras.

'Eu adoraria. '

Falou minha loba, em minha mente, referindo-se à posição de Alpha.

Realmente, nós duas adoraríamos, sendo mandonas, teimosas e, bem, dominantes do jeito que éramos. Infelizmente, porém, nós duas sabíamos que criarmos uma nova alcateia e lidera-la era impossível. Primeiro teríamos que ter a permissão do Letum para fundar um novo grupo de lobos, e pra isso eu também precisaria "roubar" lobos de outras alcateias. E, é claro, o mais importante: Quem é que iria querer fazer parte de uma alcateia em que todos devem seguir as ordens de uma fêmea? Infelizmente, eu sabia que essa era o maior problema. Machos dominantes seguindo ordens de uma loba? Há, essa eu pagaria para ver. Ninguém viria. Apenas, talvez, algumas fêmeas e alguns machos submissos, como Drake.

Com um suspiro, tirei isso tudo da cabeça. Isso já era sonhar alto demais. Era um sonho impossível de se realizar e, na verdade, eu nem poderia chamá-lo de sonho. Eu estava muito contente na minha situação atual de loba solitária e eu nunca tive a ambição de liderar. Eu apenas não queria seguir ordens de lobos mais submissos que eu. Mas, mesmo não sendo um sonho, se eu pudesse escolher, talvez escolhesse esse caminho. O triste é que agora, com a alcateia de Columbus, eu sabia que eu realmente nunca teria essa escolha.

'Não estou mais aguentando. Por favor, vamos. Vamos parar de pensar em tudo isso só por um tempinho, Rebecca, e vamos nos entregar ao nosso lar. '

Minha loba suplicava e eu sabia que ela tinha toda razão. Ficar perdendo tempo pensando em tudo que eu sabia como fato que era impossível não ia me servir de ajuda em nada. Pelo contrário, minha ajuda estava toda em volta de mim, naquele estacionamento, apenas esperando eu aceitá-la.

Olhei meu reflexo uma última vez no espelho do meu carro. Completamente nua, em pé no meio do estacionamento, eu encarava meu reflexo. Os olhos cor de gelo da minha loba impacientes. Sorri para meu reflexo, para minha loba.

'Por favor...'

— Está bem. Estou pronta. – Sussurrei para ela.

I hear the wind across the plain

(Eu ouço o vento pela planície)

A sound so strong that calls my name

(Um som tão poderoso que chama meu nome)

It's wild like the river, it's warm like the sun

(É selvagem como o rio, é quente como o sol)

Yeah, it's here. This is where I belong

(Sim, é aqui. É nesse lugar que eu pertenço)

Senti os raios do sol do meio dia sobre minha pele descoberta, passando-me uma ótima sensação de conforto. Sim, eu preferia a luz do luar me banhando, mas a sensação calorosa do sol também me satisfazia muito.

Ainda me observando pelo espelho, senti minha loba ganhar vida dentro de mim. Entreguei-me. Meus olhos azuis agora tinham um brilho intenso e meu rosto uma expressão mais feroz. Os cantos de meus lábios se levantaram em um pequeno sorriso devasso.

Senti um formigamento pelo meu corpo inteiro, que logo foi se intensificando. Parecia que mil correntes elétricas estavam se passando de uma extremidade de meu corpo à outra. Fechei meus olhos, apreciando a sensação que, incrivelmente, não era nem um pouco dolorosa ou ruim. Pelo contrário, eu sabia o que tudo isso significava, e isso só me fez sorrir ainda mais.

A existência de minha loba e a minha já era uma só e, na verdade, nós duas éramos a mesma pessoa, o mesmo animal, mesmo nós conversando uma com a outra como se fossemos duas mentes distintas. Em realidade, eram conversas comigo mesma, mas ao mesmo tempo não era. É algo inexplicável, que somente outros lobisomens sabem como é, pois todos têm essa ligação íntima com um ser que, na verdade, é outro você. Mas agora, na transformação, a loba, minha outra eu, tomou o controle e senti como se nossos lugares se trocaram dentro do meu próprio corpo. Passei a enxergar e pensar não mais como Rebecca, mas sim como Loba.

Agora a união, a parte boa da transformação, já acabara e sobrara apenas a parte física e incrivelmente dolorosa. Senti minha pele se desfazendo e se expandindo, meus músculos se rasgando, meus ossos sendo quebrados em pedacinhos, meus nervos arrebentando. Por alguns segundos, fiquei completamente vulnerável. Até a leve brisa de final de outono me machucava, o vento parecia cortar o que agora era meu corpo em mutação como uma navalha. Essa era a pior parte de toda transformação, a adaptação ao novo corpo. Corrie me dissera uma vez que essa dor varia de acordo com o estado do lobo. Segundo ela, por exemplo: um lobo que não consegue se controlar sente uma dor completamente insuportável, o que provavelmente acentua sua falta de controle; um lobo solitário sente uma dor grande, mas superável; um lobo em uma alcateia sente apenas um pouco de dor, mas é aliviada por causa dos laços que tem com o resto de sua família; e um lobo acasalado não sente dor alguma, apenas sente as primeiras ótimas sensações e também um sentimento de estar completo, em todos os sentidos. Ela, obviamente, já havia experimentado três dessas etapas e deveria saber muito bem do que estava falando.

Finalmente, quando a dor começou a passar, tive coragem de abrir meus olhos. Olhei para o chão onde vi duas patas cinza escuras em pé no asfalto do estacionamento. Os pelos ainda estavam terminando de se ajeitar em meu corpo e logo a dor sumiu e eu finalmente pude sentir a floresta como uma membra legítima dela.

Under the starry skies

(Embaixo do céu estrelado)

Where eagles have flown

(Onde as águias voam)

This place is paradise

(Esse lugar é o paraíso)

It's the place I call home

(É o lugar que chamo de lar)

Inspirei fundo o ar da mata, algo que eu já estava louca para fazer. Os vários cheiros das árvores, das flores que ainda sobreviviam ao clima de outono, da terra úmida e fértil, das últimas frutinhas das árvores, de esquilos, coelhos, pássaros, cervos, alces, ursos, outras espécies de roedores, raposas, gatos selvagens, guaxinins e de lobos invadiram meus sentidos, fazendo me sentir realmente em casa. Em meu lar. Minha floresta.

Soltei do fundo do meu ser um bom e alto uivo. A sensação era como se eu tivesse, com esse uivo, acabado de jogar fora todos os meus problemas e preocupações. Eu era uma loba, eu era livre, minha única preocupação era correr pela floresta e uivar para a lua, minha guardiã. Um peso enorme foi tirado de minhas costas, mesmo que apenas temporariamente, e eu me senti bem como eu não havia me sentido em muito, muito tempo. O uivo ecoou pela floresta e, com certeza, chegou à estrada, mas isso só me fez sentir cheia de poder.

Bufei brincalhonamente e iniciei minha corrida pela mata, sem rumo algum, apenas me unindo ao meu real habitat. Entrei finalmente dentro dela e as sombras das enormes árvores me cobriam e me escondiam.

The moon on the mountains

(A lua nas montanhas)

The whisper through the trees

(O sussurro entre as árvores)

The waves on the water

(As ondas na água)

Era um mundo completamente novo, um mundo onde eu era absoluta, eu era a dona daquelas terras e eu fazia parte delas. Eu era, ao mesmo tempo, algo tão minúsculo dentro de algo tão imensamente maior, e algo tão grande, tão poderoso, dentro de meu próprio território. Uma peça no imenso quebra-cabeça que era a mãe natureza. Uma predadora.

Os cheiros que meu novo nariz cheirava, os sons que minhas novas orelhas escutavam, as imagens que meus novos olhos enxergavam, tudo fazia eu me esquecer da minha vida humana. Por que eu estava estressada? Por que me sentia enjaulada e sem saída? Quem era Aidan Rucker? Nada mais me importava, somente a batida acelerada de meu coração por causa de minha excitação.

Eu pisava na grama, no solo úmido, nas raízes das árvores e assustava os animais menores que estavam em meu caminho. Corria o mais rápido que conseguia, adorando a sensação do vento em meu rosto lupino. Abri minha boca e soltei minha língua para fora enquanto corria. Essas sensações eram tudo que eu queria no mundo inteiro. Só o que eu queria.

Let nothing come between this and me

(Não deixe nada me separar disso)

Cause everything I want

(Porque tudo que eu quero)

Is everything that's here

(É tudo que está aqui)

And when we're all together

(E quando estamos todos juntos)

There's nothing to fear

(Não há nada a temer)

Cheguei até a beira de um pequeno riacho que atravessava a floresta. Pisei nas pedrinhas molhadas e escorregadias até chegar numa profundeza do rio aonde a água chegava até metade das minhas patas. A água estava gelada e me deu um leve arrepio, mas a sensação era ótima.

Olhei meu reflexo na água. Eu não era nem de longe uma das maiores lobas, mas também não era pequena. Tinha ombros fortes, patas poderosas, um maxilar perigoso e dentes muito bem afiados. Minha pelagem era cinza clara em quase todo meu corpo e, nas noites de lua cheia, quando a luz da lua era mais forte, eu parecia uma loba prateada. Apenas as pontas de minhas patas eram de um cinza mais escuro do que o resto do meu corpo, e eu tinha uma mancha branca em forma de losango no rosto, pegando parte de meus olhos e um pouco de meu focinho. Modéstia a parte, eu tinha que admitir, eu era uma loba muito bonita. No meu rosto lupino, que tinha uma expressão serena, meus olhos de lobo me encaravam de volta, satisfeitos.

Entrei completamente dentro da água, sentindo um leve desconforto no começo, sujeito a calafrios, mas logo me acostumando. Eu era uma loba que gostava de nadar, mas gostava mais ainda da ótima sensação das águas puras da floresta me banhando. Sentia-me novinha em folha depois de um mergulho no riacho. Consegui abocanhar um peixinho que nadava a favor da correnteza e o trouxe para fora da água. Era pouco, mas era um caça, e eu o comi com prazer enquanto a água gelada escorria de meus pelos.

And wherever I wander

(E onde quer que eu vá)

The one thing I've learned

(A única coisa certa que aprendi)

Is to here, I will always

(É que para cá, eu vou sempre)

Always... Return

(Sempre... Retornar)

Logo terminei de comê-lo, mas ainda estava faminta. Não necessariamente por carne, mas sim pela caça.

Deixei os restos do peixe de lado e farejei o chão. Não havia nenhum cheiro de cervo ou alce por perto. Eu teria que me aventurar mais para dentro da mata o que, logicamente, eu ficaria muito feliz em fazer.

Voltei novamente a correr dentro da floresta, deixando meus instintos de loba me guiar e me tomarem por completo. Eu era a predadora e eu estava caçando. Sentia-me completamente invencível. Parei por um breve momento, ouvindo, ao longe, um barulho de um animal muito grande. Parecia um urso, de tão pesadas que eram suas patas no chão. Não me cheirava a urso, mas eu provavelmente estava muito longe para sentir o cheiro do animal direito. Bem, um urso tão no início da floresta assim explicaria a falta de cervos por perto. Normalmente os ursos ficavam bem mais escondidos, perto das cavernas, na parte realmente grossa da floresta.

Subi em uma pedra e joguei minha cabeça para trás, adorando o vento acariciando meus pelos. Uivei, o som poderoso e alertando os outros animais que eu, a predadora, estava pronta para caçar. Um urso seria muito mais difícil, mas muito mais divertido que um cervo. E eu sempre adorei um desafio.

Pulei da pedra, extremamente excitada e pronta para a luta. Corri na direção do som do urso, preparada para cravar meus dentes em carne fresca.

Notas finais
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