Dominante
4 IV
Notas iniciais
Mais um dia depois da aula. Estava sentada em uma das mesas na sala dos professores, tomando um copinho de café da máquina e lendo umas músicas que eu estava achando interessante para dar pras crianças aprenderem em uma das aulas nos próximos dias.
Passei o Domingo inteiro tentando falar com a Scarlet. Ela não me atendia de jeito nenhum então criei vergonha, engoli o orgulho e fui até sua casa.
Foi o Luke quem atendeu a porta, e ele não estava querendo me deixar entrar. Depois de falar umas poucas e boas na cara dele, ele finalmente me deixou entrar. Depois de dar um de seus famoso suspiros “ela é novinha e tem muito o que aprender”, claro. Isso normalmente me deixa furiosa, mas eu tinha coisas mais importantes para resolver naquele momento.
Ela estava em seu quarto, lendo algum romance da Nora Roberts, seu celular esquecido no canto do quarto, onde estava carregando. Seu cabelo estava preso em um coque mal feito, com mechas caindo aleatoriamente pelo seu rosto e pescoço. Incrível como a Scar conseguia ficar linda mesmo desleixada.
— Scarlet... — Chamei-a. Ela com certeza tinha me visto entrar, mas não fez nenhum movimento sequer. Nem quando eu a chamei ela se moveu. — Scar... — Tentei de novo, mas sem sucesso. — Nem um levantar de seus olhos eu ganho? — Perguntei, e ela, surpreendendo-me, olhou-me rapidamente e em seguida voltou às páginas.
Sorri e sentei ao seu lado na cama.
— Sabe de uma coisa, você não precisa me olhar nos olhos ou sequer escutar o que eu tenho para falar. Pode ficar aí, fingindo que está lendo, eu não me importo. O que importa é que eu sei o que eu preciso fazer, o que eu preciso concertar, e vou fazer isso mesmo com você desse jeito ridículo. Eu vou falar o que eu tiver que falar e sair daqui com a consciência limpa.
Novamente, ela nem sequer levantou o olhar, mas eu sabia que ela estava prestando a atenção.
— Olha, Scar. — Comecei. — Você sabe melhor que ninguém o quanto isso é difícil pra mim. Eu sou dominante, idiota, orgulhosa, grossa, teimosa... Ah, chame-me do que quiser! Você sabe o quanto custa um pedido de desculpas pra mim. Reconhecer meus erros... — Ela se ajeitou na cama, fazendo-me pensar por um momento que ela fosse se sentar e falar alguma coisa. — Eu fui completamente estúpida ontem à noite com você. Você jamais merecia ouvir aquelas coisas. Você é minha melhor amiga, sua ruivinha trouxa. — Falei com uma pequena risada. — Você é a raposinha fofinha e linda em contraste com a minha loba intimidadora. Eu preciso de você, somos como Batman e Robin!
Percebi que ela deu uma pequena risada, tentando esconder depois. Isso me motivou para continuar.
— Você sabe que eu sempre dou uma mancada dessas de vez em quando. Sei que eu não deveria agir dessa maneira, principalmente com as pessoas mais importantes para mim, meus amigos, mas-
— Mas... — Ela me cortou de repente, e continuou minha frase. — Mas não é culpa sua. Você tem razão, você é uma Lobisomem e eu uma Selvagem. Somos até parecidas, mas, no fundo, somos criaturas completamente distintas. E você não é uma lobisomem qualquer... — Ela riu. — Não é culpa sua. É mais forte que você. E eu já deveria saber disso.
— Desculpa, Scar... — Falei com um sorriso sincero.
— Tudo bem. — Ela se sentou na cama e deixou seu livro de lado. — Eu lhe desculpo, Becca. — Disse e nos abraçamos. — Agora, desculpe-me por ter feito esse drama todo. Não era pra tanto, eu sei quem e o que você é.
— Ah Scar... Está tudo bem entre a gente?
— Eu sei o quanto custa para a Srta. Young um pedido de desculpas. Estamos ótimas.
Sabe, ainda bem que eu tenho uma amiga assim. Ela é tão... perfeita. Em todos os sentidos. Eu fui uma vaca com ela no Bar do Johnny e ela consegue me perdoar assim tão facilmente. Realmente, a culpa não é inteiramente minha, eu não quero ser uma bomba prestes a explodir. Mas, mesmo assim, ela continua ao meu lado.
Fechei o livro com as músicas e apenas fiquei sentada lá. Alguns dos outros professores estavam conversando nas outras mesas, mas eu preferia ficar sozinha na maior parte do tempo. Hoje a Scar ia pegar uma carona pra casa com o Luke, então eu não tinha horário pra sair do trabalho.
Eu gostava muito até da escola de música. Tinham vários pôsteres de músicos e compositores famosos nas paredes, e eu achava que isso dava um ar bem maneiro ao lugar. Também parecia que a escola me acalmava. Volta e meia alguns dos professores praticavam seus instrumentos na sala onde eu estava, e minha loba gostava do som de música ao vivo.
Porém, como eu sempre digo, o universo conspira contra mim. Sempre tem que acontecer alguma coisa para romper minha paz. Quando estou no trabalho, só pode ser um alguém.
— Rebecca, querida, como está? — Perguntou David, já se sentando ao meu lado na mesa. A mesa era grande, haviam seis cadeiras e eu não a estava dividindo com ninguém. Porém, ele tinha que sentar bem na cadeira ao lado da minha, e ainda a puxou mais para perto de mim, encostando sua perna levemente na minha. Movi minha perna para o lado, longe dele.
— Oi David. Bem, e você? — Perguntei, com um pouco mais de paciência do que eu tinha com ele normalmente.
— Ótimo. — Falou, e me lançou um de seus sorrisos que ele usava para pegar garotas, mostrando todos seus dentes de ator de Hollywood.
— Que bom...
— Então, tem algum plano para hoje? — Estava demorando mesmo. — Porque eu ainda quero levar você no Noodles & Company. Aquele dia você escapou, mas hoje, se você não tiver nada, posso te levar.
Pensei a respeito. Eu realmente não tinha nada hoje, não que eu fosse muito ocupada. Eu não precisava buscar a Scarlet e, fora isso, eu nunca fazia mais nada. Eu normalmente apenas ia para casa, jantava alguma coisa, trabalhava nas coisas da escola e ia dormir. Às vezes saía com o Luke e a Scar, mas não era o caso hoje a noite. Eu sempre inventava algum compromisso para despistar o David, mas hoje... Talvez porque eu e a Scar tínhamos feito as pazes, ou porque eu sabia que a Corrie estava vindo, ou talvez até por nenhum motivo em específico, eu estava com um ótimo humor.
— Não, David. Eu não tenho nenhum plano para hoje.
Assim que falei isso, seus olhos pareciam ter saltado de seu rosto. Sua boca se abriu em um sinal de espanto.
— S-sério? Você tá livre hoje? É isso mesmo? — Ri alto com a reação dele.
— Sim, David. É isso mesmo.
— Então... — Ele abriu seu sorriso novamente, sua expressão voltou para aquela de garoto convencido. — Vamos jantar no Noodles & Company hoje! — Ele exclamou, extremamente contente.
— Erm, na verdade, não vamos em um restaurante. — Falei, autoritária como sempre.
— Como não? — Perguntou confuso.
— David, — Suspirei. — eu estou sim livre para sair com você hoje, mas não será um encontro de verdade. Só uma saída de amigos. Nesse caso, o chefe e uma de suas empregadas, que, por acaso, são amigos. Nada mais. Não há necessidade para um restaurante.
— Ah... Mas, então, onde você quer ir, se não num restaurante?
— Leve-me num bar. — Ordenei. — Um bar que você goste e que tenha música ao vivo. Eu gosto de música ao vivo. — Minha loba complementou.
— Há! Sei o lugar ideal então! — Ele falou, estalando os dedos. — Já foi no Basement? Fica bem no centro da cidade, mas é muito bom. E eles sempre tem música ao vivo.
— Já ouvi falar. — O Basement era um bar bem conhecido em Columbus. Ficava no centrão, perto da faculdade. Era conhecido por ser bem caro, mas a música boa e a comida compensavam, e os estudantes não pareciam ligar para o preço. Eu nunca fui lá. Uma porque era longe de casa e eu quase nunca ia pro centro. Duas porque era muito caro para mim e para Scarlet. O Luke podia muito bem pagar, mas nenhuma de nós gostávamos dele pagando nossas contas. — Dizem que é ótimo, mas nunca fui.
— Vai agora. — Falou entusiasmado e levantou, pegando meu casaco e o dele. — Vamos. — Ajudou-me a vestir o casaco e me levou até seu carro.
—x-
Eu nunca havia andado de Mustang antes. Confesso que foi uma experiência e tanto. Segundo o David, ele havia acabado de comprar esse Ford Mustang GT 2014 e eu era a primeira mulher a andar nele. Que honra. O carro era prateado com listras pretas no capô, muito bonito. Por dentro, os bancos eram de couro claro e tinha alguns detalhes em madeira, como no câmbio, nas portas por dentro e no porta luvas. Os bancos eram mil vezes mais confortáveis do que os da minha lata velha e o carro tinha um cheiro delicioso. Era tudo muito moderno e esportivo. Se eu fosse uma mulher que gostasse de carro, eu babava.
Entramos no bar. Não estava lotado, como o David disse que normalmente estava, provavelmente porque era segunda a noite e o pessoal dos dormitórios deveria estar estudando ou indo dormir. Mesmo assim, estava bem cheio de gente. Escolhi uma mesa no canto, longe o suficiente do palco para minhas orelhas sensíveis não estourarem. Estava tocando uma banda pequena ali da cidade mesmo, fazendo cover de Whitesnake, que era uma banda de Hard Rock da década de 80 que eu gostava bastante. Ponto para o David, por me levar num bar que toca minhas bandas.
Quando o garçom veio, ele pediu dois do “de sempre”, sinal que ele realmente vinha muito aqui. Ficamos conversando sobre a escola até a comida e as bebidas chegarem. No fim, o “de sempre” do David era um prato de macarrão com legumes e camarão. Eu não gostava muito de camarão, mas eu tinha que admitir que esse prato estava ótimo. Minha loba normalmente preferia carnes cruas e não ligava muito para comidas humanas, mas até ela parecia estar apreciando.
— Wow, David. A comida daqui é mesmo ótima! — Falei, em seguida enfiando mais uma garfada na boca. A música ao fundo mantendo minha loba satisfeita.
— Eu gosto bastante daqui. Venho muito aqui.
— Acompanhado? — Perguntei, apenas por curiosidade.
Ele levantou o olhar de seu prato, curioso, levantando uma sobrancelha.
— Por que a pergunta?
— Por nada. Só curiosa. Mas tem razão, eu não tenho o direito de me meter na sua vida. Não precisa responder. — Falei, dando de ombros e continuando a comer meu prato delicioso.
— Não, tudo bem Becca, eu respondo. — Deu uma pausa. — Se você confessar que está enciumada.
Quase cuspi todo meu macarrão.
— O quê?! — Limpei minha boca no guardanapo.
— Por qual outro motivo você me faria uma pergunta dessas? Admita Becca! — Insistiu com seu sorriso convencido, que eu agora queria tirar com um tapa.
— Por curiosidade. Conhece essa palavra? Cu-ri-o-si-da-de. Seis sílabas, onze letras. Significa vontade de ver, conhecer, saber...
— Tá bem, tá bem, então. — Ele falou, levantando ambas as mãos ao alto, fazendo cara de inocente. — Então, por curiosidade, aqui está sua resposta: Sim, eu já vim aqui várias vezes com outras mulheres, mas também venho com amigos. Satisfeita?
— Não precisava responder.
— Sei.
— Nem ligo.
— Então por que perguntou?
— Curiosidade.
— Ciúme. — Sussurrou, mas eu ouvi.
— O quê?!
— Nada.
— Repita!
— Repetir o que, Becca? Eu não falei nada.
— Desafio você a repetir!
— Becca, eu nem falei-
Algo tirou minha atenção da discussão ridícula que estávamos tendo instantaneamente. Era mais forte que eu, eu não tive opção se não me desligar completamente do que David estava dizendo e prestar atenção nessa energia. Minha loba também havia percebido e estava, ao mesmo tempo, alerta e curiosa para saber o que era.
Estiquei a cabeça para enxergar além de David e tentar achar o que estava fazendo isso comigo. A energia era como um poder, um poder tão forte que eu e minha loba precisávamos descobrir da onde vinha. Como antes, o bar ainda estava razoavelmente cheio. O resto das pessoas não pareciam aflitas como eu.
— Rebecca? — David perguntou, confuso. — O que foi? — Virou-se para tentar achar o que eu estava procurando.
E foi aí que eu vi. Eles estavam em pé, no bar, pedindo alguma coisa pro barman. Eram três, mas dava para perceber que a maior fonte desse misterioso “poder” era o do meio, o maior. Deveria ter, pelas minhas estimativas, um metro e oitenta e cinco. Tinha cabelos lisos e castanhos escuros, não eram curtos, mas também não eram compridos o suficiente para prender em um rabo de cavalo. Os outros dois tinham perto de um metro e oitenta. Um deles tinha cabelos negros e o outro cabelos castanho escuros como o do meio.
Não sei como eu sabia que o poder vinha deles, mas minha loba tinha certeza, de alguma forma. Enquanto eu os estudava de costas, o do meio, inesperadamente, virou-se, procurando algo, exatamente como eu estava poucos segundos atrás. Os outros dois perceberam e também começaram a procurar.
Instintivamente, eu me abaixei, tentando me esconder atrás de David.
— Erm... Becca? Aconteceu alguma coisa?
— N-não, David, nada. Só, erm, fique assim, por favor. — Pedi, referindo-me a posição de seu corpo, que me escondia perfeitamente da visão deles.
Eu não sabia por que exatamente que estava me escondendo. Eu nem sabia quem eram esses marmanjos! Mas algo me dizia que era a coisa esperta a se fazer.
‘Tomara que o cheiro de bebidas, comidas e pessoas camuflem o nosso.’ Falou minha loba, e eu comecei a torcer para isso realmente acontecer.
Consegui dar uma última olhada para o mais alto, olhando em seus olhos negros e ferozes, antes dele sair do bar. Assim que ele saiu o poder diminuiu imensamente. Parecia que haviam tirado um peso enorme das minhas costas. Ainda havia um pouco daquela energia desconfortável, mas agora ela já não me incomodava mais. Os outros dois continuaram vistoriando o lugar por uns minutos, até finalmente pegarem umas coisas com o barman e saírem também.
— Rebecca...?
A energia desconfortável havia se dissipado completamente agora e eu soltei um suspiro aliviado.
— David, eu tenho que ir. — Falei apressada. — Não estou me sentindo muito bem. Desculpe. — Levantei da mesa e vesti meu casaco, pegando minhas coisas.
— Peraí, onde você vai? — Perguntou aflito.
— Vou pegar um taxi até a escola para pegar meu carro.
— Pode deixar que eu te levo-
— Não! Não, tudo bem. Termine seu jantar em paz, eu me viro sozinha. Até mais, David.
Saí com um passo apressado do Basement, deixando, mais uma vez, um prato pela metade. Eu realmente precisava me alimentar melhor esses tempos. E parar de me meter em situações onde eu saio correndo dos lugares sem comer.
Chamei um taxi e, como havia falado, fui até a escola. Eu realmente não estava me sentindo bem, mas não tinha nada a ver com doenças ou nada desse tipo. Eu estava me sentido exposta e indefesa, algo que eu nunca havia sentido antes. Nunca na vida. Rebecca Young, indefesa? Essa era nova.
Corri até meu carro e entrei. Eu precisava falar com a Scarlet, urgente!
Enquanto eu dirigia, eu percebi que estava me sentindo mal por outras razões também. Eu havia finalmente aceitado sair com o David e, no fim, acabei deixando o cara lá, sentado, com cara de tacho. Eu pisei em seus sentimentos como se eles fossem uma formiga. Eu me sentia um lixo por isso. Ninguém, nem o David, merecia passar por isso. Eu ia ter que pedir desculpas pra ele depois.
Incrível como eu estava pedindo muitas desculpas ultimamente. Era bom isso não virar um hobby.
Quando finalmente enxerguei a casa dos dois e estacionei minha lixeira na garagem, saí correndo do carro até a porta da frente. Apertei a campainha umas quatro vezes, com certeza destruindo a paz dos vizinhos.
A Scarlet ou o Lucius estavam demorando demais para atender. O que diabos eles estavam fazendo? Comecei a bater na porta com os punhos, para ver se isso fazia os dois se apressarem. Estava desesperada.
— SCARLET! SCARLET ABRA ESSA PORTA AGORA!
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