Domesticado
5 Nuances da Loucura
Bill olhou-a com decepção, com nojo, e se afastou. — Só mais uma vez, amor, então podemos tomar sorvete. — brincou. Era uma piada interna, o que ele lhe prometera durante sua primeira infância, em inúmeras ocasiões.
A vampira sentiu o pânico lavar-lhe. Vendo suas próprias memórias serem usadas contra ela. — Não, pai, não! — e então o sol estava queimando novamente, enfiando suas garras flamejantes em suas costas. Seus gritos não eram altos o suficiente para expressar o ódio que encheu sua boca.
~*~
Caroline acordou com a campainha tocando. Sua respiração estava arfante, o travesseiro amassado entre suas pernas e suas mãos agarradas a cabeceira da cama. Sentou-se lentamente, tendo o cuidado de manter as lembranças da noite anterior na baia. Não queria pensar nisso.
Levantou-se, indo para o banheiro lavar o rosto. Olhou-se no espelho e a vampira a fitou de volta, zombando de sua humanidade. Caroline Forbes não era Elena Gilbert. Ela não chorara por ter perdido a capacidade de ser mãe, quando fora transformada, não chorara por que deixara de envelhecer; afinal, quem não queria ser linda eternamente? Sabia que aquilo a tornava uma pessoa horrível.
A campainha tocou novamente, ressoando pela casa vazia. Desceu as escadas e até esperou encontrar Niklaus dormindo no sofá, mas, certamente, ele não viera para casa. Talvez, se tivesse sorte, nunca mais viesse. Vai ver, ele sumiu.
Abriu a porta.
– Stefan?
– Care. — ele abraçou-a, seus braços fortes a espremendo. Caroline sentiu um sorriso tímido pintar seus lábios e retribuiu o abraço, embora estivesse confusa.
– Stefan...
– Eu sinto muito, Care. Quero dizer, é incrível... Parabéns. Porém, eu sinto muito por Nik. — explicou-se, colocando as mãos nos bolsos, constrangido. Pelo visto Damon Salvatore era tão fofoqueiro quanto Katherine. Caroline não sabia por que imaginara o contrário. Aqueles dois sempre foram muito parecidos, sempre se colocando em primeiro lugar.
– Ah, bom...
– Eu vou trazê-lo, Caroline. — garantiu o mais novo Salvatore. Ele piscou aqueles olhos avelã dele, esverdeados no sol. — Vou trazer aquele idiota para casa, ele... Você sabe que Nik só está assustado, não é? Ele não queria dizer nada do que disse. — Damon devia mesmo ser um fofoqueiro muito bom, Stefan já sabia até o que Klaus gritara.
Niklaus Mikaelson não estava assustado. Ele estava certo. Caroline sabia disso, sabia que a sugestão dele fazia muito mais sentido do que a dela. Como voltaria para casa? Ela estava assustada, Klaus só estava certo.
– Sei. — sua voz saiu rouca, trêmula. Stefan lançou-lhe um olhar cheio de pena. Nesse mundo ele era amigo de Nik, e um amigo próximo. Sentia-se constrangido pelas atitudes dele.
– Eu... Vou trazê-lo para casa. — o rapaz voltou para a soleira. Virou-se para o carro. – E, Caroline?
– Sim? — estava quase fechando a porta, louca para se livrar de Stefan. Adorava-o, mas o Salvatore acreditava em um amor que não existia e Caroline tinha que mentir para ele, repetidamente. Aquilo a matava.
– Nik te ama.
Ela fechou a porta com força.
Suspirou, apoiando a cabeça na superfície de madeira e respirando fundo. Apertou uma mão contra a barriga. Não sentia nada, afeto ou felicidade. Nada. Talvez devesse fazer o que Klaus sugerira, afinal, não queria um bebê. Não queria ser mãe, pois tinha certeza que falharia, assim como falhara em todos os setores de sua vida.
– Eu devia abortar você. — resmungou para si mesma. Fechou os olhos e tentou se imaginar com uma criança nos braços. Aquilo chegava a ser ridículo. Crianças nunca gostaram dela e agora... Se ao menos ela fosse como Elena, meiga e compreensível: completamente maternal. Ou talvez até mesmo Bonnie, sábia e amável: uma educadora nata.
O que ensinaria a um filho? Como ser líder de torcida? Como ser estuprada por um vampiro? Morta por outro? Como ser vampira?
Afinal, ser um monstro era a única coisa em que realmente era boa. E não existiam vampiros naquele mundo.
~*~
Niklaus sentou-se na grama úmida, fitando a vida animal flutuar ao seu redor. Sempre gostara de assistir a competitividade nata dos filhotes, a crueldade explícita da Mãe-Natureza, a luta diária pela sobrevivência. Era lindo.
A fragilidade de viver...
Ele empurrou esse pensamento para o lado, pois o levava de volta à noite anterior. E trazia junto um leque de possibilidades: O que poderia ensinar a uma criança?
Posso ensinar-lhe como não amar, como não sofrer. Ensinar-lhe como fugir de seu pai abusivo durante anos... Posso ensinar-lhe que irmãos abandonam... Ensinar-lhe que mães nem sempre perdoam, que às vezes elas matam... Posso mostrar-lhe o mundo: Tóquio, Roma, Paris... Beleza genuína.
E podia não pensar sobre isso.
Podia simplesmente ignorar essas possibilidades, porque nenhuma delas era real. Nesse mundo ele não desligara sua humanidade. Ele sofrera, sabia disso; como podia não sofrer, se era humano? Nesse mundo duvidava que seu pai vampiro houvesse perseguido-lhe por ser um bastardo lobisomem. Nesse mundo, sua mãe não era a bruxa que ressurgira dos mortos...
Sua vida na Antiga Mistic Falls — naquele mundo todo — parecia um conto de terror psicodélico.
Não podia ensinar nada a criança alguma, porque não vivera nada. Era só... Um humano ordinário, casando-se com uma loira bonitinha e infantil, que tinham concebido uma criança no auge de sua irresponsabilidade.
Pensou em Caroline. Ela era idiota.
Ela é um enigma.
Era idiota porque estava sacrificando tudo que tinha, seu verdadeiro eu, apenas para não ter que quebrar princípios erguidos por uma sociedade ignorante. Ela é uma vampira. Se abortasse poderia voltar para Mistic Falls, ele sabia que sim... Mas ela não queria ser um monstro para aquela sociedade. Não queria ser um monstro para pessoas ignorantes o suficiente a ponto de desacreditarem a existência deles. Folclore. Nesse mundo ela nunca seria mais do que um mito, uma lenda folclórica de uma criatura poderosa. Como Caroline podia ser tão burra a ponto de desistir de tudo por um bebê?
Como ela pode ser tão altruísta?
Altruísta? Quis morder seu subconsciente. Altruísmo era uma desculpa generosa para quem gostava de bancar a vítima, de ser o mártir... Caroline nunca fora uma mártir a seus olhos, nem mesmo uma vítima. Podia ser delicada como porcelana, linda como uma estátua de Donatello, mas não era vítima... Ela era cheia de luz, um vampiro forte... Um bebê vampiro fortalecido pelo o que era a fraqueza nos outros: Humanidade.
E agora iria desistir de tudo o que se tornara, por uma criança que nem mesmo amava. Que habitava seu corpo, mas não era sua. Niklaus achava aquilo loucura, mas uma parte de si batia palmas para ela, uma parte bem pequena que ele tentava suprimir. Ovacionava à sua coragem cega, seu altruísmo estúpido... Sua falta de respeito próprio ou o excesso de fé em seus princípios. Tinha que aplaudi-la.
– Nik. — virou-se. Percebendo, só então, que não estava sozinho. — Nik, você não pode se esconder nas árvores para sempre. — Stefan Salvatore tinha as mãos nos bolso, um olhar complacente e um sorriso torto, cheio de pena. Klaus rangeu os dentes. Estava tão farto de ser objeto de pena.
– Stefan...
– Não pode fugir do que aconteceu, Nik. — era óbvio que Damon já lhe contara. E claro que Stefan, outro mártir estúpido, sentira-se na obrigação de fazer seu melhor amigo voltar para casa. Klaus não entendia aquela dinâmica. Agora era a hora em que ele se rendia diante do olhar ferido do colega ou quando tinha um ataque de raiva? Era sua deixa para chorar sobre quanto estava assustado? Sobre quão péssimo pai seria? Era sua deixa para matar Stefan e se tornar novamente um monstro ou para render-se e perder sua personalidade para sempre?
– Vá para casa, Stefan. Deixe-me sozinho. Não preciso de sua ajuda.
Salvatore fez uma careta e tirou as mãos dos bolsos, dando um passo tímido para perto do melhor amigo. Queria que Niklaus entendesse o quanto era querido, como estava fugindo da mulher que amava e como seria um ótimo pai. Queria ver Nik feliz, pelo menos por mais um pouco. Será que era pedir demais? Seu amigo já passara por muita coisa, não podia fugir justamente agora que alcançara sua felicidade.
– Nik, eu sei que está assustado. Eu também estaria... Mas vai perdê-la para sempre se fugir agora. Você não quer perder Caroline, quer? — deu mais um passo para perto dele. — Eu sei que não quer, sei que a ama... Então, por favor, volte para casa. Vocês vão ficar bem... Vai ser um ótimo pai, Nik.
Aquilo foi a gota d'água. Klaus olhou-o com descrença. Talvez Stefan finalmente houvesse perdido qualquer juízo que tinha.
– Um ótimo pai?! — sua voz desafinou. — Você é louco, Stefan? Só porque... Você nem sabe o que é um ótimo pai! Seu pai foi um louco! Meu pai foi um lunático, um monstrinho violento que fez questão de nos puxar para baixo com ele... Em que mundo um cara criado por um monstro como Mikael seria um bom pai?! Estou fazendo-lhe um favor! Caroline deveria abortar aquele ser que cresce dentro dela, antes que isso a mate também!
O rapaz estava pálido, olhando para seu melhor amigo com descrença pura. Esperou pacientemente que o homem a sua frente retomasse o controle de suas emoções.
– Nik, eu sinto muito...
Viu seu amigo abrir a boca para responder que não queria sua pena, era sempre assim. Não deixou que falasse, seu punho se chocou com força contra queixo de Niklaus e ele cambaleou, quase caindo. Cuspiu sangue no chão e ódio brilhou em seus olhos.
– Não vou deixar você estragar sua própria felicidade, Nik. Não importa quanto você tente. — completou Stefan, agarrando-o pelo colarinho e o nocauteando com outro soco.
~*~
Ela esperou ele acordar. Stefan trouxera-o meio inconsciente para casa, mas trouxera-lhe. Caroline sentiu uma pontinha de alívio quando viu Mikaelson passar pela porta. Não teria mais que lidar com aquilo sozinha... Disse a si mesma que o alívio era apenas porque ele estava atordoado o suficiente para não gritar com ela. Ajudou Stefan a colocá-lo deitado no sofá e andou com o rapaz até a porta.
– Obrigada, Stefan... Por trazê-lo para casa. — suas palavras soavam falsas. Ele sorriu.
– Nik é meu melhor amigo, Caroline. — ela se encolheu quando o ouviu chamar Klaus de "Nik". Seu Stefan nunca faria isso. — Eu não posso deixar que ele destrua a própria felicidade... Não de novo. — deu de ombros, as mãos afundando nos bolsos. — Você foi a salvação dele e eu não vou deixar que ele te abandone... Justamente quando mais precisa de você.
Caroline apoiou a cabeça no portal e cruzou os braços, suas sobrancelhas se franzindo. — Salvação? De novo? Stefan...
– Care, não precisamos falar disso precisamos? Você tem que pensar em você... E Nik precisa arrumar suas prioridades. Tenho certeza que vocês vão se entender. — abriu um sorriso. Os sorrisos de Stefan Salvatore contavam histórias, aqueles dentes brancos faziam com que qualquer um acreditasse nele.
Forbes desejou acreditar nas palavras dele. Nik era tão diferente de Klaus... Ela queria poder se entender com sua versão humana.
Mas estava presa com Klaus: original; híbrido; assassino em massa; fugitivo; mentiroso. Ele era um homem sem salvação. Algumas pessoas não podem ser concertadas. Pessoas que fazem coisas horríveis são somente pessoas horríveis.
– Teremos outras oportunidades para relembrar o passado, Care. — completou o jovem. Caroline concordou com um aceno, muda. — Vocês... Vocês podiam vir jantar conosco, sabe?
Ela se encolheu. A ideia de estar sentada à mesa com Rebekah, decidindo nomes de bebê e pensando na decoração do quarto... Era mais do que assustadora, era apavorante. Não estava pronta para esse nível de realidade. — Talvez não hoje, Stefan... Eu te ligo, ok?
Ele balançou a cabeça, concordando. Reconhecia quando alguém só queria privacidade. Deu-lhe um beijo na testa antes de ir.
A loira voltou para dentro da casa. Klaus estava deitado no sofá, os olhos abertos, encarando o vazio. Ela se sentou na mesinha de café, ao lado dele e esperou que lhe dissesse algo. Longos minutos se passaram antes que qualquer um dos dois falasse. Caroline estava considerando que talvez o mais novo Salvatore houvesse batido com força demais no amigo, quando o homem disse:
– Foi você que mandou Stefan atrás de mim?
– Não. — ela cruzou as mãos, descansando-as no colo. Silêncio.
– Você queria que eu voltasse?
– Não. — pensou por um momento. Era verdade, estava sendo honesta, mas as palavras tinham gosto de mentiras. — Não posso fazer isso sozinha. Não quando tenho tantas dúvidas.
Ele bufou para si mesmo e sentou-se, passando o indicador gentilmente pelo roxo que se espalhava por seu queixo. — Eu duvido que minha ajuda seja bem-vinda, amor. Só vou trazer mais dúvidas, já que não aprovo sua decisão.
Niklaus olhou-a. Caroline estava quieta, constrangida... Temerosa. — Não aprovo minha decisão também, Klaus... Mas não sei tomar nenhuma outra que não seja essa. Não posso abortar, não posso... E... — ela ergueu os olhos azuis, úmidos, mas não cheios de lágrimas, como sua voz sugerira. — Não quero ficar aqui, quero ir para casa. Mas não vou, já entendi isso.
Ele sentiu pena. Não via mais aquela luz dentro dela... Não sabia se já a vira desde que tinham chegado naquele mundo utópico. — Você não sabe. Talvez... Talvez ter o bebê seja a maneira de voltarmos. Talvez... Eu não sei, Caroline. Pode ser qualquer coisa. Pode ser ter ou não essa criança. Pode ser viver ou não aqui. Talvez se tentássemos a morte...
– Sou covarde demais para me matar.
– Eu sei. — Também sou. — Não estou sugerindo isso. Só estou dizendo que não deve perder todas suas esperanças, amor. Talvez você esteja certa em querer ter essa criança. — Eu quero que esteja certa, por favor, esteja certa...
Ela concordou, o começo de um sorriso em seus lábios. — Nós temos que contar para o Kol. — decidiu-se. Havia força nas palavras dela, como se houvesse tomado uma decisão muito protelada. Klaus balançou a cabeça negando. Não via porque contar para seu irmão caçula.
– Não, nós não temos.
– Sim, nós temos. Ele está tão preso aqui quanto nós e... Se essa gravidez sair de controle, se nós não pudermos voltar por causa disso... Ele precisa saber. — ela balançou a cabeça, fazendo uma careta. Não queria imaginar essa possibilidade: Morrer. Não queria imaginar que estava presa ali, tampouco que sua decisão de manter o bebê talvez resultasse em sua morte.
– Ele não precisa saber de nada! Certo, ele veio conosco, e...? Ele é adulto, não precisamos nos preocupar com ele. Precisamos nos preocupar com isso. — Niklaus fez um gesto confuso para o corpo dela. Caroline revirou os olhos.
– Essa é a história dele tanto quanto é a nossa... Ele é seu irmão, Klaus. Nós temos que contar para ele!
Havia rendição nos olhos dele, ela tinha certeza. Assim como cansaço. — Certo, certo... Você conta.
– Não. Você conta, ele é seu irmão. — Forbes não tinha que lidar com ninguém além de Klaus; um psicopata era mais do que o suficiente por dia.
– Mas é você quem está grávida! — Klaus fez uma careta, um biquinho infantilóide. Caroline sentiu-se irritada. Queria um adulto ao seu lado naquele momento, não um Original bancando uma criança! Queria o Klaus de mil anos, não o que tinha vinte e oito.
– Não! Eu não engravidei sozinha! O que você acha, que eu concebi essa criança com meu dedo? — Ficou vermelha com a grosseria do comentário e imediatamente quis retirá-lo. Afinal, estava falando com Klaus, uma pessoa muito (Muito não! Mais ou menos, por favor...) culta. — Nós contamos!
Ele ergueu as mãos, exasperado. — Certo, certo! Nós contamos! — exclamou, bufando.
~*~
Era um sobrado azul escuro, muito frio para o gosto de Caroline e muito moderno para o gosto de Klaus. Eles tinham dirigido até lá com o carro dela, pois seu GPS era o único que tinha armazenado o endereço de todos seus amigos. Forbes agradeceu a si mesma por ter pensado nisso, por ela ter pensado nisso.
Ainda era quinta feira, sendo que a terça fora feriado. Ambos haviam faltado ao trabalho e só então ocorrera-lhes que talvez Kol (Por favor Caroline, meu irmão não trabalha!) ou Jeremy estivessem trabalhando.
Estavam ali, de qualquer forma, e não custava nada apertar a campainha. Esperaram por um longo momento antes que a porta fosse destrancada e Kol aparecesse. Ele realmente era lindo, pensou a loira. Talvez até mais bonito do que Klaus ou Stefan. (Menos do que Damon, mesmo assim!) Estava descalço, com os cabelos castanhos bagunçados e uma expressão confusa que destoava perfeitamente de seus olhos azuis e seu sorriso malicioso.
– Nik? Caroline?
– Olá irmão, que adorável casa essa. Será que se importaria de nos deixar entrar? Está frio e é deselegante deixar uma jovem no frio. — Klaus respondeu, um sorriso falso nos lábios, a voz pingando sarcasmo e irritação, gesticulando mais do que o normal. Estava nervoso e cansado. Principalmente cansado.
– Claro, entrem. — Kol se afastou para que entrassem, parecendo mais confuso a cada minuto que passava. Ele guiou-os para a sala (simples, cheia de couro e móveis de metal... Ah, uma casa completamente masculina... Aquilo é um Xbox?) e indicou o sofá. Sentaram-se. Um momento de silêncio, a dupla reunindo coragem e inspiração, Kol fitando-lhes com as sobrancelhas franzidas e os lábios crispados.
– Então, o que vocês estão fazendo aqui? — questionou o jovem, quando finalmente desistiu de adivinhar. A loira torceu as mãos, olhando para qualquer lugar, menos para os olhos dele.
– Essa casa é linda, Kol. — elogiou. O canto esquerdo da boca dele se ergueu, um sorriso. Ele era um farejador, sabia localizar medo como ninguém.
– É, eu acho... Então, o que estão fazendo aqui? — desta vez os olhos azuis vagaram para Nik. Sentado muito reto no sofá, retribuindo o olhar com tédio e cansaço. Niklaus não deixava nada escapar, nenhuma ruga de preocupação, nenhum gesto que indicasse medo ou desconforto. Seu irmão era irritante.
– Jeremy está em casa? — a voz da Barbie, muito alta e desconfortável fez com que ele tornasse a olhá-la. Caroline era um livro aberto, Kol gostava disso.
– Não, ele está na Original Art, trabalhando... Ou sei lá. — fez um gesto displicente. Jeremy dissera algo sobre ter que ir para o trabalho e depois algo sobre comida... Mas Kol não conseguia prestar muita atenção em duas coisas ao mesmo tempo. Estava tomando café da manhã quando Gilbert dissera aquelas coisas e estava faminto, então simplesmente ignorara-o.
– Ah, certo... Nós temos que te contar algo... Eu estou meio... Tipo... Grávida. — Kol esperou que ela completasse aquilo. Que sorrisse e gritasse "Pegamos você!" ou que começasse a chorar e dizer que tinha algum distúrbio de personalidade... Como...
– Vocês podiam melhorar esse humor, hein? Foi a pior piada que já ouvi... — Niklaus estava sério. Caroline piscou aqueles olhos azuis e úmidos dela, balançou a cabeça. — Grávida?! Sério, grávida?! Vocês estão me gozando?! Você é uma vampira, Barbie, não pode simplesmente engravidar! Grávida! — ele tinha se levantando, suas mãos estavam erguidas e sua voz mais desafinada do que nunca. Seu irmão tinha erguido uma sobrancelha, fitando-o com interesse.
– Então, esse é o problema. Eu não sou uma vampira, assim como você também não é um. Nesse mundo nós somos todos humanos e, claramente, Caroline e Klaus desse mundo têm... Se divertido um pouco demais. — Kol tentou, tentou mesmo não entender o que ela estava falando. Não queria imaginar seu irmão com qualquer pessoa que fosse... Foi inútil.
– Ai! Eu não preciso saber disso! Eu não preciso imaginar isso! Então você está tipo grávida, agora?
– Eu não estou "tipo grávida", estou esperando um bebê. — Aquilo era ridículo! Ela estava agindo como se fosse ser mãe ou algo assim... Oh, por favor! Por favor! Aquilo... Forbes era completamente desequilibrada. Não era à toa que Niklaus se interessara por ela, era tão louca quanto seu irmão...
– Ah! Então agora isso é um bebê?! Vocês nem sabem se é humano!
Caroline arregalou os olhos e virou-se para Klaus, esperando que ele interviesse e dissesse para seu irmão caçula calar a boca.
– Claro que é humano! É o filho de dois humanos, o que mais seria?!
– Eu não sei! Híbrido? Lobisomem? Vampiro? Eu não sei, porra!
– Eu acho que você está assistindo muito Crepúsculo. Sério, o que você está fazendo? Passando todo seu tempo livre com Rebekah?
– Eu não sou o assunto!
– Nós só te contamos por que não sabemos se, com essa gravidez, eu estou presa aqui. Nem mesmo sabemos se isso faz com que vocês fiquem presos aqui! — exclamou ela, irritada. Talvez contar para Kol não houvesse sido uma ideia tão boa assim. Estava ainda mais irritada por Klaus estar certo, de novo... Ele estava sempre certo?!
Kol abriu a boca para dizer algo, mais foi interrompido quando a porta se abriu. Cruzou os braços, rangendo os dentes e fuzilou Caroline. Ouviu Jeremy andando até a sala e tentou não sorrir ao perceber que já se acostumara com ele andando pela casa.
– Cheguei! — avisou Jeremy, tirando o casaco. Ele sorriu para seu namorado e andou até ele, somente então percebendo o casal sentado no sofá, ambos parecendo desconfortáveis e nervosos. — Umm... Oi gente, o que vocês estão fazendo aqui?
Caroline olhou para Klaus, esperando que ele dissesse algo. Quando se tornou óbvio que o Mikaelson ainda estava processando a conversa, ela sorriu constrangida para Jeremy e disse:
– Nós só... Passamos para contar as novidades para Kol... — corou, sentindo como se estivesse mentindo. Jeremy ergueu as sobrancelhas, olhou Kol, pálido e boquiaberto, e cruzou os braços.
– Novidades? Que novidades?
Forbes abriu a boca para responder, mas foi interrompida. — Ela está grávida! — exclamou o jovem Mikaelson, apontando freneticamente para a loira. Caroline encolheu-se. — Obrigada pela gentileza, Kol... — resmungou para si mesma. Jeremy ficou pálido e pareceu claramente perdido.
– Grávida?! Poxa, gente, isso é... Isso é incrível, eu... Parabéns! — ele gaguejou as palavras, adiantando-se para dar um abraço desajeitado na jovem. Virou-se para Klaus, mas recuou diante da expressão paralisada dele.
– Obrigada, Jer... — ela estava corada, um pouco feliz por alguém estar reagindo normalmente a esse tipo de notícia. Alguém estava feliz.
Houve um silêncio constrangido. Ninguém mais sabia o que dizer. Niklaus estava parado, mal respirando, perdido em seus pensamentos. Kol parecia ter muito entalado em sua garganta, mas não podia dizer nada diante de Jeremy. E Caroline só estava apreciando um pouco do silêncio.
– Então, vocês vão ficar para o jantar? Eu vou cozinhar. — Jer ofereceu, obviamente desconfortável. Caroline ergueu as sobrancelhas. Jeremy Gilbert não cozinhava, nunca. Ela ainda se lembrava de quando tinha seis ou sete anos e ele insistira em ajudar o pai no churrasco... E terminara com todo mundo comendo macarrão, pois Jer tinha conseguido fazer o grill pegar fogo.
– Você vai cozinhar?!
– É, eu vou cozinhar, Caroline... Porque está tão surpresa? Eu sempre cozinho. — ele lançou-lhe um olhar estranho.
– Não, você nunca cozinha! É sempre a Elena!
– Não, eu... Essa amnésia de vocês está durando, hein? Eu sou um adulto Caroline, vivendo na minha própria casa. Eu cozinho. — ele declarou ligeiramente irritado por ela continuar tratando-o como uma criança. Caroline corou até a raiz dos cabelos. Esquecera-se que estava falando com Jeremy adulto e não com o adolescente emo que ele fora aos quinze.
– Ahn, esqueci, desculpe... Então você é quem cozinha no relacionamento?
– Claro, Kol não consegue cozinhar nem para salvar a própria pele. — brincou. Ela riu, precisava que alguém aliviasse o clima pesado que pairava na sala.
– Claramente, olhe só para o rosto dele! – Caroline apontou para o jovem Mikaelson que pareceu indignado.
– Vocês estão me insultando ou o quê? — cruzou os braços, bufando. Jeremy revirou os olhos, lançando um olhar divertido para a reação de Kol. — Então, vocês vão ficar?
– Sim. — respondeu a loira, sorrindo. Seria ótimo finalmente jantar com alguém que desejava sua companhia.
– Não. — Klaus falou pela primeira vez.
– Sim, nós vamos.
– Não, nós não vamos.
– Sim, nós vamos. Eu estou faminta, ele está se oferecendo para cozinhar e... Eu quero ver Jeremy Gilbert cozinhando. Sim, nós vamos ficar. — ela bateu o pé. Não queria voltar para casa, não quando Jeremy estava sendo tão agradável.
– Certo, vamos para a cozinha então... — o jovem Gilbert estava desconfortável com a discussão de casal. Caroline levantou-se de um pulo e o seguiu para a cozinha.
– Quando foi que você se tornou minha esposa...? — Klaus resmungou para si mesmo. Os dois Mikaelson ficaram para trás, encarando-se. Kol foi o primeiro a falar, ainda surpreso e pálido.
– Ela está grávida?! Sério? Vocês não tem nada melhor para fazer invés de foder com a minha vida...
– Não é como se eu tivesse engravidado ela, Kol. — revirou os olhos para seu irmão caçula — Você me conhece, eu não faria isso nem em um milhão de anos!
– Bom, não é o que parece! — o jovem ergueu as mãos no ar.
– O que você quer dizer com "Não é o que parece"? — fez uma imitação desafinada do rapaz, bufando. Estava ficando mais e mais irritado.
– Parece que vocês vêm se divertindo mais do que deveriam... — Kol sabia que não fora aquilo que ocorrera. Sabia que Nik não faria isso (dormir com a Barbie sim, não engravidá-la). Mesmo assim, ainda estava chocado. Queria irritar Nik por ter colocado-lhe em tal situação.
– Ah, não se atreva! E você e Jeremy Gilbert? Que tal me falar sobre isso? Quero dizer, você não reclamou desde que chegamos aqui... Será que não está se apaixonando por ele ou algo assim?
– Eu não estou me apaixonando por ele! — reclamou, sua voz baixando para um sussurro ofendido, quase revoltado. — Ele... Ele foi meu amigo! Foi meu amigo no outro mundo e eu não acho tão horrível estar preso aqui com ele. É melhor do que estar preso a uma Barbie adolescente!
– Você parece esquecer de que Jeremy é mais novo do que ela!
– E muito mais maduro!
– Você está defendendo ele? Invés de mim?
– Eu não estou defendendo ele! Você está acusando-o de ser uma coisa que não é!
– Oh, por favor! Você tem uma paixonite por ele! — Klaus olhou o mais novo com descrença, as sobrancelhas erguidas e a boca escancarada.
– Eu não tenho... Sério, nós vamos mesmo ignorar o problema aqui? Sua noiva bebê-vampiro está grávida!
– Eu sei, mas... O que vamos fazer?
– Porque não matar o bebê?
– Eu já tentei essa! Falei para abortar, mas ela ficou toda "Eu não sou uma assassina, não vou matar um bebê inocente" — ele fez uma imitação de Caroline, afinando a voz e fazendo com que o caçula explodisse em gargalhada. — E você sabe, é o corpo dela... Não é como se eu pudesse simplesmente esfaqueá-la ou algo assim...
– Bom, poder você pode...
– Não! — aquilo não era nem mesmo possível, se quisessem voltar. E, por favor, esfaquear Caroline?! – Nós nem sabemos se podemos voltar com isso morto!
– Isso é tão complicado... — reclamou Kol, caindo exausto na poltrona.
– Se é tão complicado, por que você simplesmente não fica aqui?!
– Porque eu não quero! Mas estou começando a duvidar de você, Niklaus... Você quer ficar? Porque eu certamente não quero!
– Não é o que parece! Parece que você está gostando um pouco demais de ser o namorado de Jeremy Gilbert... — Klaus ainda não tinha desistido de tentar entender o relacionamento de seu irmão. Aquilo era completamente absurdo. Não Kol ser gay (não mesmo se pensasse no assunto), mas ser gay por Jeremy Gilbert.
– Você é tão ridículo!
– E você é imaturo!
– Babaca!
– Mimado!
Enquanto isso, na cozinha, Caroline pegava os ingredientes que o jovem Gilbert pedira. Ela se sentia confortável fazendo algo ordinário ao invés de estar discutindo sua possível gravidez letal. Aquele assunto estava deixando-a exausta. Quis chorar quando as primeiras palavras que saíram da boca de Jer foram:
– Então, grávida...
– É, isso mesmo... Eu ainda não consigo acreditar. — ela deixou o espremedor de alho cair na pia e respirou fundo.
– Quem mais sabe?
– Eu não tenho certeza. Foi Damon quem fez o exame, então ele sabe... Stefan sabe, mas não fomos nós que contamos. Elena deve saber também... E contamos para você e Kol. — ela fez um gesto de descaso. Contar qualquer segredo no círculo de amigos deles era o mesmo que anunciar em praça pública.
– Então, basicamente, Damon é um fofoqueiro. — deduziu.
– É, basicamente, é isso aí. — Ela riu. Era fácil conversar com ele, Jeremy ainda era exatamente o mesmo do outro mundo.
– Bom, Damon contou para Stefan e Elena. Stefan provavelmente contou para Rebekah, que contou para... Todo mundo. Você deveria falar com a Lena, antes que ela fique furiosa por você não contar que ela vai ser tia ou algo assim...
– Ah, eu sei... Eu só, não estou pronta... Estou...
– Assustada? — ele sugeriu, sorrindo compreensivo, e cortando o peixe em tirinhas.
– Você nem sabe como. Eu estou morrendo de medo! Ainda estamos presos na parte da negação e do choque... Não estamos prontos para a parte de festejar e afins... Será que tem uma parte feliz?
– Claro que tem. Toda gravidez tem. — ele sorriu, referindo-se a gestação de Miranda. Caroline quis sorrir, ela realmente queria ter acompanhado isso, ter essas lembranças.
– Bom, nós não estamos prontos para ela... Klaus ainda está em negação.
– Sério?
– É, Stefan meio que... Nocauteou ele... — Jeremy riu e lançou-lhe um olhar confuso, esperando que ela explicasse-lhe. Enquanto isso, na sala, os garotos discutiam aos sussurros.
– Stefan nocauteou você? — a voz de Kol era incrédula. Seu irmão mais velho era um Original! Ele era forte! Invencível! Híbrido!
– É... Quando descobrimos sobre isso... Eu meio que... Fugi. Eu estava assustado... Não queria ser pai, não quero ser pai. — ele não sabia porque continuava a usar os verbos no passado. “Não queria ser pai!” “Estava assustado!” — E... Bom, eu corri. E então eu me viro e Stefan está lá. Todo "Você não pode fugir dela para sempre, Nik" sei lá, como se nós fossemos melhores amigos.
– Certo. — Estava entretido pela história de Nik. Querendo ou não, fazia séculos que não tinham uma conversa divertida, dividiam algum segredo ou só eram irmãos comuns.
– E eu disse para ele me deixar em paz. Daí ele ficou todo "Eu não vou deixar você destruir sua própria felicidade, Nik" e tudo ficou escuro. Ele me socou na cara!... Duas vezes!
– E você não matou ele? — o rapaz parecia surpreso, até um pouco desapontado.
Klaus soltou um sorriso amarelo. — Acredite ou não, eu não sou mais forte do que ele nesse mundo. Não sou nenhum híbrido com um milênio de existência... E Stefan é um humano forte.
– Mas... Você é tão frouxo! — Kol declarou, cruzando os braços e parecendo um menino desiludido com seu super-herói favorito.
– Como se você fosse muito melhor! Você nem sabe bater, Kol!
– É claro que eu sei! Eu tenho uma taco de baseball!
– Então porque você não usou esse seu taco para quebrar as pernas de Jeremy Gilbert?
Kol abriu e fechou a boca como um peixe fora d'água. — Porque eu não preciso quebrar as pernas de Jeremy... Ele não fez nada de errado comigo! — declarou, indignado e confuso.
– Nada de errado? Você claramente não é gay e ele vem... Beijando você! E outras coisas! — Klaus estava disposto a arrancar uma confissão de seu irmão caçula ou, pelo menos, irritá-lo o suficiente para esquecerem-se de seus próprios problemas.
– Bom, talvez eu goste de ser beijado por ele!
Um momento de silêncio. Ambos os irmãos encararam-se. Nik não acreditando no que ouvira e Kol não acreditando no que dissera.
– Então você é gay agora? — questionou Niklaus lentamente, lutando com um sorriso ao ver a raiva manchar as bochechas infantis do rapaz.
– Eu não disse isso!
– Bom você disse "talvez eu goste de ser beijado por um homem" acho que isso te torna gay!
– Bom, foda-se! Talvez eu não ligue de ser gay! Grande coisa! Você está ignorando o fato que Stefan Salvatore te nocauteou!
– E que vamos fazer a respeito?
– Nós vamos pegar o taco e quebrá-lo em vinte! — decidiu-se Kol. Klaus gargalhou, divertindo-se ao imaginar seu irmão caçula fazendo isso. Niklaus gostava de Stefan, mas ainda estava irritado por ter sido nocauteado.
– Não podemos, ele é amigo de Caroline... E aparentemente, meu também. — revirou os olhos. Kol mordeu o dedão, pensativo. — E se nós...
Enquanto eles discutiam suas técnicas de vingança, Caroline tentava explicar o que ocorrera naquela manhã.
–... Então, Stefan o nocauteou e o trouxe para casa. Eu nem sei o que fazer, quero dizer... Eu estou grata pelo Stefan ter trazido-o para casa — Mesmo que eu não esteja -... Mas o que eu deveria dizer? É bem óbvio que Klaus não quer ser pai! Mas... O que ele espera que eu diga? Eu não concebi essa criança sozinha, é tão culpa dele quanto minha!
– Vocês estão tratando esse bebê como se fosse um fardo, não algo bom. — Jeremy normalmente não se sentiria tão incomodado ao ver como Caroline estava surtando. Contudo, ele era um tio recente e apaixonado. Acompanhara a gestação de Miranda e adorava sua sobrinha. Não gostava de ver Care tendo uma reação tão violenta a algo bom.
– Algo bom, Jer? Eu tenho vinte e quatro anos de idade! Eu não quero ser mãe!
– Bom, você vai ser. Elena e Damon... Ela tinha vinte e um, Caroline! Então você só... Lida com isso. Não reclama... Eu acho que você só está assustada. Klaus não está ajudando muito e vocês não estão preparados... Mas vai dar tudo certo. Kol e eu vamos te ajudar em qualquer coisa que precise.
Caroline se encolheu. Mesmo que as coisas dessem certo no final (o certo de Jeremy, não o dela. O certo era voltar para Mistic Falls), ela duvidava muito que gostaria de ter Kol perto de um bebê. O rapaz era um sociopata! Felizmente, ele também não parecia muito interessado em ser o tio do ano.
– Kol também não parece muito animado, Jer. — Ela se sentiu mal por arrebentar a bolha de felicidade do jovem Gilbert. Porém, isso era realidade. Às vezes as coisas simplesmente não davam certo, às vezes seu namorado não quer ganhar o troféu de melhor titio. Acontece.
– Sério? Eu sempre achei que ele fosse... Um tio nato. Sabe, eu e Stefan vivemos disputando a atenção de Miranda... E Kol é sempre tão divertido, crianção. Ele ganha sem nem tentar... Sempre achei que ser tio fosse tudo que ele quisesse. Pai não, mas tio? Com certeza.
– Eu não sei, mas ele não parece estar gostando tanto assim...
– Ele vai gostar. Não se preocupe.
– Como você pode ter tanta certeza que tudo vai dar certo?
– Alguém tem que ter fé, né? — Caroline abriu a boca para discordar, mas então Klaus e Kol vieram para a cozinha, atraídos pelo cheiro de comida. Ela percebeu, com um sorriso, como Jeremy se endireitou naturalmente, uma mão correndo pelo cabelo cor de chocolate.
– O que vocês estão cozinhando? — questionou Kol, evitando olhá-la e farejando o ar.
– Seu prato favorito. — respondeu Jer, revirando os olhos e abrindo o armário. Ele tirou os pratos e largou-os sobre a pia. Ninguém pôs a mesa e, embora aquilo irritasse Caroline, ela não se mexeu. Era uma casa de homens, regras de homens.
– Que é...?
– Salmão. — Jeremy revirou os olhos. Kol abriu um sorriso maníaco.
– Peixe! Você ouviu, Nik? Meu prato favorito é peixe! Peixe! — Seu irmão mais velho simplesmente encarou-lhe, como se estivesse tendo um surto histérico. Kol respirou fundo, acalmando-se. Aquilo era demais, ordinário demais... Seu prato favorito era AB negativo, morena e alta.
Jeremy piscou, confuso com a reação exagerada de seu namorado. — Você tem algum problema com isso?
– Não, eu... Só estou surpreso...
– Surpreso que seu prato favorito é seu prato favorito?
– É, isso ai...
– Sério, você está mais esquisito do que eles. O que é bem difícil, por que ela acabou de descobrir que está grávida e ele está surtando. — bufou Gilbert, apontando respectivamente para Caroline e Klaus.
Kol baixou os olhos, constrangido e enfiou as mãos nos bolsos. — Me deixe em paz, Gilbert...
– Problemas no paraíso, caras? — questionou Klaus, sorrindo largamente. Ele estava se divertindo mais do que deveria vendo seu irmão em tal situação. Caroline olhou para ele em choque. Como podia ser tão insensível? Tão irritante? Ele parecia até estar gostando de ver Kol se adaptar a vida humana...
– Klaus!
– O quê? Não fique toda "Klaus!" Não é como se fosse minha culpa...
– Sério, eu não vou ficar aqui sentado assistindo vocês brigarem sobre quem queria um filho, quem não queria... E Klaus, você devia ser mais gentil com ela, está sendo um babaca. — Jeremy reclamou, revirando os olhos. Ele tirara uma conclusão precipitada, Caroline percebeu, embora não tenha dito nada. Klaus não ia falar do bebê.
– Um babaca? Oh, mais alguém acha que eu sou um babaca! Você ouviu isso Kol? Caroline? Damon Salvatore acha que eu sou um babaca, Katerina acha que sou um babaca... Stefan acha que sou um babaca! Caroline acha que eu sou um babaca, não que isso seja surpresa... E agora até o Gilbert filhote acha que sou um babaca! Alguém mais?
– Eu te acho um babaca. — Kol murmurou, abrindo a geladeira. Caroline riu baixinho do comentário de Kol, embora seus olhos estivessem em Klaus.
– Acabou com seu piti? Podemos comer?
– Eu não estou dando piti!
– Alguém bate nele? — ela bufou. Niklaus comportava-se como um adolescente quando ficava muito tempo exposto ao estresse. Ela já percebera isso e não estava morando na mesma casa que ele nem há uma semana.
Kol pareceu bastante feliz com a oportunidade de bater em Nik, mas Jeremy apenas revirou os olhos e murmurou:
– Vamos comer? Vocês brigam como um casal de velhos... — O que calou a boca de todos, fazendo com que se sentassem à mesa. Jeremy empurrou os pratos nas mãos de Kol e abaixou-se para pegar o salmão no forno.
Eles não tinham muito sobre o que conversar que não fosse a gravidez que acabara de explodir diante deles. O Gilbert fez a pergunta óbvia.
– Então Kol, pronto para ser um tio?
– Tio?
Jer revirou os olhos, frustrado por Kol estar com o raciocínio tão lerdo naquele dia — Seu irmão mais velho vai ter um filho. Isso te torna um tio, Kol.
– Tio?! — sua voz desafinou e ele ficou pálido. Aquela frase tornava a perspectiva de ficar ali por mais do que um mês, muito mais real.
– É, tio. Supere isso, cara. Tio.
– Tio?! Eu não estou pronto para ser tio!
– E eu não estou pronto para ser pai! — Klaus reclamou, brincando com a comida em seu prato.
– E eu não estou pronta para ser mãe! Viu, algo que todos nós concordamos!
– Vocês precisam de terapia. Crianças nascem, isso acontece. — Jeremy murmurou, franzindo as sobrancelhas. Aqueles três pareciam ficar pior e pior a cada minuto que passavam no mesmo cômodo.
– Em que mundo você vive, Gilbert?! Você não pode simplesmente olhar para tudo de errado que acontece e falar "Isso acontece". — exclamou Klaus, irritado.
– É melhor do que surtar sobre algo que não pode ser resolvido!
– Algo que não... Que não... Vamos conversar sobre algo que não seja isso!– Niklaus gesticulou exaltado para tudo que acontecia ao seu redor, usando o garfo. Caroline riu baixinho e decidiu ajudá-lo. — É... O que Katherine faz da vida? Quero dizer, ela trabalha com algo? — o fato que Katherine fosse a primeira coisa que ela pensara era engraçado. Katherine, sua assassina... Quem tornara-lhe um vampiro e, portanto, uma pessoa melhor. Oh, Katherine, talvez essa tenha sido sua única boa ação...
Jeremy pareceu um pouco surpreso com o rumo que a conversa tinha tomado.
– Katherine é advogada... Ela defende casos sem salvação.
– Então, ela liberta criminosos?
O jovem riu. Sim, era exatamente isso que Katherine fazia. Nada podia resumir mais a personalidade dela do que seu emprego. — Sim e isso é bem irônico, por que quando ela e Elijah começaram a namorar ele era promotor. Portanto, ela meio que libertava aqueles que ele condenava... Hilário. Eles trabalham em Atlanta.
– Atlanta? — Klaus questionou, curioso para saber mais sobre aquele mundo. Pelo o que estava percebendo as pessoas dali tinham passado por experiências parecidas com as que as pessoas da Mistic Falls Antiga tinham passado. Uma versão ordinária da vida deles.
– É, eles só estão aqui por causa da festa de boas vindas para o Kol. Estão ficando na casa de Rebekah e Stefan.
Caroline sentiu seus olhos se iluminarem. Isso explicava como tudo que ela dissera para Katherine caíra nas mãos de Rebekah tão rápido.
– Isso explica tudo...
– E o que Elijah faz para viver? Já que você disse que ele "era" promotor... — Kol sempre se agarrava aos menores detalhes.
– Elijah era promotor, mas então eles casaram e... Bom, nepotismo, vocês sabem. Ele virou diplomata.
– A cara de Elijah, sempre o pacificador. — Klaus revirou os olhos, talvez se algum dia voltassem para a Mistic Falls Antiga, ele sugerisse essa profissão para seu irmão. Pelo menos Elijah teria mais o que fazer da vida do que impor seus valores.
– O que eu faço para viver?!
– Kol! — Caroline repreendeu. Será que era pedir demais que ele fosse um pouco mais sutil. Não podia simplesmente gritar que não se lembrava de nada!
– Relaxa, Care. Ele esqueceu tanto quanto vocês, pelo visto... Ontem ficou me perguntando sobre tudo: Como nos conhecemos, como vocês se conheceram, o que eu fazia... — deu de ombros. — Você é fotógrafo, Kol. Trabalha na Original Arts com a gente. — indicou a si mesmo e Niklaus, que parecia indignado.
– Ele trabalha com a gente?! — Klaus gostava de se imaginar como um artista sério. Ele adorara seu escritório, seus desenhos pendurados na parede... Apaixonara-se por aquele lugar. E sabia bem que Kol não somente não gostava de trabalhar, como também atraía encrenca.
– É. Eu sou ilustrador, você é o artista da Original... E Kol faz as fotografias que pedem... Capas de livros, calendários... Um pouco de tudo. Embora você tenha se formado como um fotógrafo de nudismo.
– Então é por isso que todos ficam me perguntando se eu tirei muitas fotos... — Kol suspirou, percebendo que a conversa que Katherine (aquela maldita duplicata Petrova) puxara na terça-feira agora fazia muito mais sentido.
– Provavelmente, cara.
– Então... Kol é fotógrafo de garotas... E você é ilustrador e Klaus... Artista... E eu organizo casamentos e Katherine é advogada, Elijah é diplomata e... Isso é muita coisa. — Caroline respirou fundo, tentando organizar as notícias em sua cabeça. Repentinamente era muita coisa. O bebê, Klaus sendo nocauteado, a conversa com Kol e agora receber todas aquelas informações...
– Não é tão difícil de entender, amor.
– É sim... É sim... — seu rosto ficou pálido. — Eu não me lembro disso e... Todo mundo está casado e feliz... E eu não me lembro de nada disso — as lágrimas encheram seus olhos -... E todo mundo está feliz... — ela se levantou e deixou a cozinha.
Os rapazes se entreolharam. Como aquilo ocorrera tão repentinamente?
– Você devia ir atrás dela.
– Por quê?
– Porque ela é sua noiva grávida e emocional e ela está chorando como um bebê. — Acusou Kol, cruzando os braços. Niklaus sentiu uma pontinha de ciúmes quando seu irmão apoiou Jeremy invés dele. Rendeu-se. Certo, era sua noiva emocional. Seu problema.
– Que seja... — levantou-se. Porque quisera, não porque Kol e Jeremy tinham mandando, e saiu a procura dela.
Caroline estava sentada no sofá da sala. O rosto escondido entre as mãos, os ombros tremendo delicadamente enquanto soluçava.
– Caroline, você pode parar de chorar, amor? Va... Vai dar tudo certo. — Era uma mentira. Ele sabia disso, ela sabia disso... Todo mundo sabia que era uma mentira.
– Não, nada vai ficar bem! Eu estou presa aqui! Estou grávida com uma criança que eu nem quero! Eu tenho dezoito anos de idade! E eu gostava de ser uma vampira, mas agora eu sou só uma humana superficial... E todo mundo que eu conheço está tão ridiculamente feliz... E Elena, de todas as pessoas na Terra, está casada com Damon e tem uma filha! Kol está feliz com Jeremy e eles são um casal, mesmo que Kol seja maluco... E Stefan... Stefan está namorando Rebekah, o que não faz o menor sentido porque ela é histérica e louca... E Elijah está casado com Katherine... E, Jesus, Katherine está feliz sem nem mesmo estar estragando a vida de alguém! Eu não posso lidar com isso!
– E nós estamos noivos, você esqueceu isso.
– E eu estou noiva de um psicótico homicida como você! Eu não posso lidar com isso! Eu. Não. Consigo! — Ergueu o rosto para ele, as lágrimas escorrendo por sua bochecha, seu rímel borrado. Klaus ainda a achava bonita... Louca, mas bonita.
– Sim, eu entendi essa parte... Você não precisa gritar. Eu entendi que você não quer estar presa aqui comigo, mas... Eu sinto muito, amor, mas você vai ter que lidar com isso. Nós precisamos ficar juntos se quisermos voltar. Você quer voltar para Mistic Falls, não quer?
Ela concordou, afundando o rosto entre as mãos novamente. — Eu quero ir pra casa... — choramingou. Klaus suspirou.
– Então se quer ir para casa, nós precisamos ficar juntos. Ok?
– Ok.
– Certo, então limpe as lágrimas, amor. — Ela limpou-as com as costas das mãos. — Agora sorria. E nós vamos voltar e dizer que isso foi um ataque... Hormônios de grávida...
– Mas foi o que aconteceu! — exclamou, indignada com voz descrente dele. Klaus não achava realmente que se a gravidez não estivesse acabando com ela, Caroline fosse chorar daquele jeito, achava? Caroline Forbes não era uma vítima.
– Isso... E nós vamos rir sobre isso e esperar que Jeremy não me olhe como se eu fosse mais babaca ainda...
– Certo.
– E Caroline, por favor, pare de chorar.
– Eu estou tentando.
Houve um momento de silêncio, ela tentando limpar as lágrimas.
– Eu sinto muito que eu te arrastei para essa situação, Klaus... Eu sei que não queria estar preso aqui comigo... — murmurou a loira com a voz pequena, um pouco comovida por ele estar sendo gentil.
– E nem você comigo. Mas estamos, agora temos que lidar com isso.
– Mesmo assim... Eu sinto muito que isso está acontecendo.
– Ei, você é tão vítima quanto eu. Não tente carregar toda a culpa sozinha, amor. Sim, eu estou furioso... Mas não foi sua culpa. Nem minha. Foi culpa dos irresponsáveis que Klaus e Caroline são nesse mundo.
– Vai ver eles não foram irresponsáveis... Talvez eles quisessem esse bebê. — conjecturou. Fora algo que lhe ocorrera no meio da noite, quando estava rolando pela cama e ruminando se Niklaus iria ou não voltar e o que faria a seguir.
– Como assim?
– Caroline ligou para Bonnie... Bonnie não atendeu, mas Caroline mandou mensagens dizendo que tinha ótimas notícias e... Vai ver, era a gravidez. E vai ver eles quisessem ser pais. Não é só por que nós não queremos, que eles não podem querer...
– Você acha que o Klaus desse mundo queria ser pai? — Klaus não estava sendo cético. Ele realmente estava curioso. Não achava que qualquer versão sua fosse querer ser pai.
– Eu acho que o Niklaus desse mundo é um cara bem legal.
– Mas eu não...
– É. Você não. — ela suspirou, honesta. Nik não pareceu ofendido, ele não se sentiu ofendido. Caroline não estava dizendo aquilo para ferí-lo, mas magoou um pouco... Doeu. Doeu porque ela não queria feri-lo, só estava falando a verdade.
– A Caroline desse mundo parece ser uma jovem muito bela. – Muito feliz, ele pensou.
– E eu não. — ela completou com um sorriso quebrado.
– Eu nunca disse isso, amor... — Sim, você é tão infeliz, Caroline...
– Obrigada, Klaus. Você está sendo tão gentil, eu sinto muito pelo jeito como eu te tratei... Eu sinto muito por estar sendo...
– Caroline. Eu não estou sendo gentil, eu estou sendo legal agora. Você tinha todo o direito de reagir daquele jeito, eu estava sendo um babaca. — eu sou um babaca.
Ela pensou por um momento. Um sorriso brincalhão surgiu em seus lábios.
– É, você estava sendo um babaca.
– É, eu estava sendo um babaca. Mas você não tinha que concordar! — ele sorriu, covinhas surgindo em sua bochecha.
Caroline riu, mas logo deixou o sorriso cair e fitou-o nos olhos. Os grandes olhos azuis dela estavam úmidos, o rímel ainda borrado... Ela parecia um pássaro preso em uma gaiola, decidiu-se Nik.
– Klaus, eu estou grata de estar presa aqui com você. Quero dizer, eu desejaria que fosse outra pessoa, mas... Pelo menos foi você. Alguém inteligente.
– Bom... Pelo menos foi alguém inteligente. Poderia ter sido pior, você poderia estar presa aqui com Katerina.
– E você com Rebekah. Eu nem sei qual das duas é pior...
– Katerina é pior... Eu estou grato por estar preso aqui com você, Caroline. Pelo menos foi alguém... Forte.
Os olhos azuis dela se arregalaram. Ela abriu a boca para protestar que não era forte, nunca fora. Contudo, fechou-a quando percebeu que queria ser forte. Mesmo que fosse só aos olhos de Niklaus Mikaelson.
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