Domesticado

6 Prazeres Culpados


Notas iniciais
Eu sei que demorei para atualizar, mas dessa vez voltei para ficar. A fic está prontinha e completa e vou atualizar semanalmente!

Caroline caminhou até a sala, correndo os dedos pelo cabelo louro e ondulado. Viu os cobertores ainda no sofá e franziu as sobrancelhas. Niklaus dormia neste há uma semana e ela estava começando a se sentir culpada.
– Klaus? — entrou na cozinha, onde ele devorava o café da manhã com um apetite monstruoso. Tanto ele quanto Kol pareciam estar sempre com fome. Era isso que mil anos de vampirismo faziam a uma pessoa. — Estou indo para o trabalho. — avisou.

Ele concordou com um aceno, ainda mastigando e estendendo a mão livre para a leiteira. Caroline revirou os olhos, já estava se costumando com essa rotina. Mal se falavam se estivessem sozinhos. "Vou para o trabalho." "Voltei" "O chuveiro é seu" "Acabou a comida". Mas não estava incomodada com isso, na verdade, era melhor do que o Klaus temperamental e barulhento que gritava muito ou usava apelidos bobos. Contudo, sentia-se solitária. Tentava ficar o máximo possível no trabalho, mas aquilo era impossível. A pior parte era ter que voltar para casa e encontrar Niklaus sentado em sua cama/sofá, rabiscando em um caderno, sem dirigir-lhe uma palavra. Ou pior, não encontrá-lo. Chegar em uma casa vazia e dizer olá para o silêncio mórbido era o melhor gatilho para seus pensamentos frenéticos, suas dúvidas recorrentes.

Se sentaria no sofá dele e encararia a televisão desligada. Se perguntaria se devia ou não ligá-la. Ligaria por fim, para abafar o silêncio e então o som do aparelho sumiria entre suas perguntas: Seria uma boa mãe? O que fariam? E se voltassem para Mistic Falls com ela ainda grávida? A criança morreria? E se ficassem presos ali? E se, no final das contas, voltasse a ser a antiga Caroline? Aguentaria continuar a mentir para seus amigos? Até quando a desculpa "amnésia temporária" funcionaria? Quem ela era naquele mundo? Uma organizadora de casamentos? E o que mais? Será que era supérflua demais para sermais?

Não perceberia que ele voltara para casa até que se sentasse ao seu lado, alguma comida qualquer entre seus dedos e uma expressão exausta e tensa. "Oi" "Olá" "Tem mais na cozinha?" "Tem, mas deixe um pedaço para mim."

E assim eram todos seus dias.

Elena estava ocupada sendo mãe e esposa, talvez até trabalhando. Damon era pai, marido e médico. Stefan... Stefan estava enfiado na loucura de Rebekah e essa, por sua vez, sempre tinha compromissos demais. Bonnie e Matt moravam na cidade vizinha, não muito longe, mas, mesmo assim, não perto o suficiente para que Caroline esbarrasse com eles na rua. Tyler... Não havia notícias de Tyler. Para todas as instâncias, ele estava desaparecido. Kol estava lutando para entender sua própria vida, que dirá lidar com os dilemas da Barbie. Jeremy trabalhava, era um adulto, e nunca foram muito próximos, de qualquer forma.

Assim, só sobrava Niklaus. Que não falava com ela.

– Klaus... — as palavras ficaram em sua boca. Nik ergueu os olhos sobre a leiteira, surpreso por ela falar com ele. Ergueu uma sobrancelha. — Eu... Klaus... Nós deveríamos desfazer as caixas do quarto extra. — gaguejou, por fim. O homem deu de ombros e terminou de mastigar.

– Claro... Rebekah ligou.

– E? — o coração dela disparou. Uma conversa! Talvez a primeira da semana!

– Ela nos chamou para um piquenique amanhã. Todo mundo vai estar lá. — começou a cortar um pão francês. — Eu concordei... — não perguntou se ela estava de acordo, mas a dúvida estava em suas palavras.

– Ah, claro, tudo bem... — queria continuar o assunto, só não sabia como. — Eu... Vou chegar atrasada.

– É, seu trabalho. Pode ir, termino de arrumar a cozinha, amor. — ele gesticulou para seu prato, cheio de farelos de pão e lançou-lhe um meio sorriso. Caroline suspirou e deu-lhe as costas. Ligou o som do carro no máximo quando dirigia; estava farta de qualquer silêncio.

~*~

Klaus encarou a tela, franzindo as sobrancelhas e respirando fundo. Rangeu os dentes. Jeremy fora claro, dizendo que o cliente pedira uma tela de uma jovem bonita e sensual, mas que fosse inocente o suficiente para ser exposta na sala de jantar.
E a jovem em sua tela era tudo, menos inocente e bonita... Ou sensual. Triste, raivosa, machucada talvez. Porém não uma jovem para ser exposta como musa de um cômodo tão banal.

Analisou os cabelos claros dela, manchados na sombra absoluta da pintura. Os olhos cor de água estavam úmidos, cheios de pavor... E o pouco do vestido que aparecia entre as sombras estava sujo e rasgado. Com um suspiro colocou a tela no chão e outra no cavalete. Pegou o pincel fino e molhou-o na tinta ocre, diluída ao máximo. Começou a traçar os contornos do corpo da jovem mais uma vez, só que tentando deixar a pintura menos soturna.

Suspirou. Agora parecia que desenhara uma fada, pulando em um jardim. Nem sabia desenhar fadas! Apagou as árvores com um pano molhado no óleo de linhaça e colocou os pés dela no chão. Agora parecia uma estátua, naquela posição que era uma paródia. Inclinou sua cabeça para a esquerda, como se estivesse confusa. Melhor. Desenhou mãos delicadas segurando um punhado de um vestido. Muito melhor. O fundo... Desenhou um lustre de cristal, a luzes relampejando pela sala. Uma escadaria bem no fundo. Talvez algumas pessoas conversando... E a luz batendo nos cabelos dela, criando um brilho dourado ao redor de seu rosto, que ainda não fora desenhado.

Uma batida na porta. Deixou o pincel cair, enquanto desenhava o rosto dela. Sem sorriso, apenas lábios rosados fechados e sérios. Os olhos escuros...

– Pode entrar. — falou, ainda olhando a tela, com os braços cruzados e mastigando a parte interna de sua bochecha.

– Jeremy e Kol já foram almoçar. — a voz de Jules. — Eu queria saber se não quer me acompanhar.
Niklaus sorriu, virando-se para olhá-la. Ela realmente era de tirar o fôlego, embora não tão linda quanto ele achara da primeira vez.

– Claro, só me deixe lavar as mãos.
Jules concordou com um sorriso, enquanto Nik sumia no banheiro de sua sala/ateliê.

– É muito linda. — comentou, olhando a pintura e ouvindo a torneira ser aberta.

– Não sei se estou satisfeito com ela. Jeremy disse que vai ser colocada em uma sala de jantar, ela... Acho que não.

– Bom... Eu nem sei quem coloca uma jovem desconhecida na sala de jantar. — Jules revirou os olhos. — Mas, se alguém faz isso, ela parece apropriada. Não é muito chamativa, mas também não vai desaparecer com o fundo. É bonita.

– Aonde vamos? — ele voltou para a sala, sorrindo. Jules ainda examinava o quadro.
– O que?

– Aonde vamos almoçar?
– Ah, certo... — ela corou. — Um restaurante italiano, na outra quadra. — pegou a bolsa. Niklaus segurou a porta para ela e fechou-a atrás de si. Talvez ter uma conversa amigável fosse tudo que ele precisasse, no final das contas.

Jules estava falando. E falando um pouco mais, um pouco demais. Os lábios cheios estavam sorrindo para ele, a cabeça balançando enquanto ela concordava com algum comentário bobo e as mãos finas segurando os talheres. O ravióli sendo levado a boca e um "Você não se importa, não é chefe?" para a taça de vinho branco e seco.

Ela estava contando sobre a outra empresa em que trabalhara. Seus dedos roçaram os dele quando pediu o queijo. Um sorriso. Dentes brancos. "E então eu pedi demissão..." Jules franziu as sobrancelhas, uma lembrança. "Estamos falando muito de mim. E você, chefe?" Ele tinha que responder. Alguma coisa. Algo... Fazia tanto tempo que não interagia com pessoas comuns... Certo, conversara com o pessoal de Mistic Falls, mas eles estavam longe de serem ordinários.

"Não tem muito para falar da minha vida..." Mentira. "A sua parece muito mais interessante." Mentira! Mentira!
Jules sorriu, corou, mas revirou os olhos.
"Por favor, eu não sou surda... Londres, Itália? França até? Você já comentou ter ido a todos esses lugares. Muito mais interessante do que eu, nascida em Nova York e moradora de Mistic Falls."

"Londres é cinza, Itália é escandalosa e França é supérflua. Você não perdeu muito." sorriu. Ela bufou. "E você usou todos os clichês que eu conheço, em uma só resposta." comentou sarcástica. Seus olhos verdes se suavizaram.
"Não tem problema se não quer falar do passado... Podemos falar do agora." As bochechas dela estavam vermelhas, seus dedos finos correram com delicadeza pela palma da mão dele.

Klaus engoliu em seco e ficou sem resposta. Ela estava descaradamente flertando com ele. Não se lembrava da última vez que uma garota estivera tão próxima e quisesse algo com ele. Caroline não queria nada, ela só fazia o papel da distração loura. Ele compelira algumas garotas, uma vez ou outra ao longo dos séculos. Algumas até tinham se apaixonado, o que era ridículo, levando em conta que eram humanas e ele um monstro. Nunca sobreviviam, de qualquer forma. Não sabia mais quem fora a última que realmente gostara dele, que o deixara completamente desarmado perante um sorriso bonito.

Tatia, o nome dela era Tatia. E ela está morta. Você bebeu seu sangue.

Tirou sua mão da dela, endireitando-se na cadeira. — Jules...
– Não. — ela apontou o vinho. — Você é noivo e meu chefe. E eu... Bebi muito vinho. Vou te culpar por não ter me acompanhado na bebida e podemos voltar para o escritório.

– Eu realmente sinto muito, Jules. Você é muito bonita, mas eu não posso fazer isso. — Não posso fazer isso de novo, não de novo. Tatia está morta, Niklaus, e a culpa é de quem? Quem foi que atraiu a atenção de sua mãe para Tatia? Quem foi que brincou com a filha dela? E ignorou os protestos de Rebekah sobre quão vulgar ela era? Quem? Você. Você foi a ruína da única mulher que já te amou, a única que você amou.

– Eu entendo. — ela sorriu. — Caroline é linda e sortuda de te ter como noivo. Ela não merece uma traição e eu... Deus, eu nunca vou ser a outra. Não é meu clichê, eu sou só a secretária bonitona. Podemos culpar o vinho por minha postura?

Niklaus não queria sorrir, mas sorriu mesmo assim e pediu a conta.
A volta para o prédio da Original Art foi silenciosa. Ela ainda muito constrangida e ele mergulhado em seus pensamentos. Não era em Caroline que pensava quando negou o afeto de Jules, pensara em Tatia. A loira nem mesmo passara por sua mente. Teria feito tal coisa com ela? Pois, querendo ou não, Forbes estava sendo uma boa companhia. Ele não queria trair sua confiança, o pouco que havia conquistado desde que aquilo começara, por fazer algo estúpido.
Caroline podia não sentir nada por ele, mas ela estava confiando nele.

Sorriu, abrindo a porta de seu ateliê e pegando o pincel. Agora, com o estômago cheio e a cabeça tumultuada, sabia exatamente como pintaria aquela jovem. Os olhos azuis e escuros, a boca de feiticeira, o nariz arrebitado.
O vestido azul.

~*~

A noite de sexta chegou e foi em um piscar de olhos. Caroline e Klaus ainda estavam em silêncio, embora naquele dia a atmosfera da casa fosse muito mais leve. Klaus havia reconhecido um pouco de confiança genuína nela, durante seu almoço constrangedor do dia anterior. Caroline, por sua vez, estava feliz por simplesmente sair e conversar com alguém.

A última conversa que tivera com seus amigos fora por telefone, contando sobre a gravidez. Rebekah soltara um grito e desatara a falar, Katherine dera um sermão sobre preservativos e ela ser muito "fogosa", mas fora interrompida por um constrangido Elijah, que os cumprimentou rapidamente, antes de desligar as pressas. Elena dissera que já imaginava (Damon já te contou, mesmo...) e Bonnie somente os parabenizara, junto com Matt.
Depois disso: Silêncio.

Katherine ligara de manhã, dizendo que o piquenique seria perto do lago, em um campo. Elena iria levar a cesta de doces, então eles só tinham que levar os pratos e os talheres. Niklaus tentou não sorrir quando viu sua noiva procurar freneticamente por uma cesta de piquenique. Suas bochechas coradas e os dedos frenéticos, enquanto amarrava um laço ao redor da alça, deixando-a mais ou menos apresentável.

Essa faceta ele conhecia. Controladora, Obsessiva Compulsiva e feliz. Klaus conhecia a Caroline que gostava arrumar eventos, que queria ter certeza que tudo estava perfeito e que fazia tudo com graça e um sorriso maníaco. Ele conhecia essa versão e gostava dela.

Dirigiram em silêncio. Niklaus havia ensaiado para contar-lhe sobre a situação divertida do dia anterior, mas desistiu antes de abrir a boca. Ela estava sorridente, não queria apagar aquilo. Quando chegaram lá, a loira foi puxada por Elena (ou Katherine, ele não estava prestando atenção) para ajudar na organização e Klaus se encontrou sentado, sozinho, na mesa de piquenique, assistindo sua irmã caçula.

Sorriu ao ver Rebekah rir alto. Stefan tinha os braços ao redor de sua cintura e a girava, ameaçando jogá-la no lago. As bochechas dela estavam coradas, seu cabelo mais bagunçado do que ele já vira... E ela estava feliz.
Fazia tanto tempo que não via sua irmã feliz... Mistic Falls era uma cidade amaldiçoada, tanto quanto sua família. Parecia que a felicidade era impossível de se encontrar.

Stefan a colocou no chão, ele também ria, e beijou-lhe. Os braços apertados ao redor do corpo magro da namorada, puxando-a para mais perto do que necessário. Niklaus era grato que ela houvesse ao menos escolhido um homem que fosse gentil... Algo que ele nunca fora. Amava sua irmã, ela fora a única que estivera ao seu lado sob qualquer circunstância. Era verdade que o péssimo gosto dela para homens, sua constante dependência deles, o irritava. Porém nunca se arrependeria tanto de algo, quanto das coisas que fizera Rebekah passar. Ela merecia um irmão melhor do que ele, merecia Elijah... Até Kol. Não ele.

– Nossa irmã está feliz. — Kol resmungou, sentando-se ao seu lado. — Não consigo acreditar que estou vendo ela rir. Nem lembrava mais qual era o som de sua risada.
Klaus tentou não se encolher ao perceber que ele também não. Tentou não se encolher ao sentir o gosto de culpa em sua boca.

– Escolheu um Salvatore... — o jovem revirou os olhos. Kol sempre teria algum ressentimento com os Salvatore...
– Ao menos escolheu o melhor dos dois. — Nik resmungou para si mesmo. Gostava de ver que Stefan estava tratando-a direito. Como merecia.

– Sim, ainda bem! Quebraria Damon se encostasse nela, sabe? Damon, o grande babaca do ano. — Mikaelson rangeu os dentes. — Tenho que comprar um taco novo, para quando esse desapontá-la.

Klaus riu, imaginando Kol correndo atrás de Stefan com seu taco de baseball de alumínio. — Você é um sádico, irmãozinho...

– Estou apenas dizendo o óbvio, Nik. Estou tão acostumado em ver os homens quebrando o coração de Bekah, que já estou me preparando para o Salvatore. Claro que ela podia ser um pouco menos... Apaixonada.

– Se ele quebrar o coração dela, mais uma vez, eu mesmo o matarei, Kol.

– Que bom que você voltou a se importar com sua família, Nik. Sabe, após ter apunhalado-a tantas e tantas vezes... — ele deixou as palavras no ar, feliz por ver seu irmão mais velho se encolher com a culpa. A melhor coisa de serem humanos era que Niklaus não podia simplesmente não se importar, a culpa sempre estaria espreitando. Era bom que ele deixasse Rebekah, Elijah, até Finn, serem felizes.

Klaus não respondeu, mas também não se levantou. Uma parte dele queria sentir raiva de Kol por abrir essa ferida sempre que podia. Contudo, a culpa estava sufocando-o. Queria aproveitar esses minutos gloriosos para ver a felicidade de Rebekah. Assistir Kol vendo-a. Aquele olhar que era um misto de diversão e preocupação, tudo misturado com uma incredulidade básica, que estava estampado no rosto de seu irmão mais novo.

Ela soltou Stefan, rindo de alguma piada interna e caminharam de mãos dadas até os dois ex-originais.

– O quê? — questionou Rebekah, vendo os olhos de ambos seus irmãos pregados nela. Sentou-se na mesa de piquenique, tirando a garrafa térmica de dentro da cesta e servindo-se de suco.
– Nada. — responderam em uníssono. Ela revirou os olhos azuis, bufando para a estranheza e colocou seu copo nas mãos de Stefan, descansando a cabeça em seu ombro e entrelaçando os dedos na mão livre dele, sorrindo tranquilamente.

– Aqui, Kol. — Elena empurrou Miranda, que tinha dois anos e meio, nos braços do Mikaelson. — Segure-a enquanto vou ajudar Damon e Jeremy. — pediu.
Caroline sentou-se silenciosamente ao lado de Klaus e lançou um olhar divertido para Kol, que ainda olhava atônito para a criança em seus braços.

– Alguém pode pegá-la? — coaxou, desafinado, olhando ao redor. Rebekah soltou uma risadinha e Klaus sorriu, assistindo alegremente enquanto seu irmão — vampiro homicida – segurava o bebê em pânico. Sabia que não seria diferente se a menina houvesse sido colocada em seus braços, mas riu mesmo assim.

Miranda piscou os olhos azuis e cristalinos, fazendo uma careta de desconforto. — Ela vai chorar?! Alguém pode pegá-la?! — o jovem Mikaelson balançou o bebê. O rosto bonito dele se franziu em uma careta assustada. Os olhos da garotinha se encheram de lágrimas e ela abriu a boca para começar a gritar. Kol soltou um choramingo e balançou o bebê novamente. A garota tinha dois anos, mas estava claramente assustada pelas reações dele, já que nem mesmo falava.

Era horrendo ter algo tão frágil em suas garras. Ele sabia que iria quebrá-la, que o bebê sairia machucado e Elena iria gritar como uma harpia.
– Arrume a mão. — instruiu Caroline, revirando os olhos. — Segure-a direito, não com as duas mãos em seus braços. — reclamou.

Kol ergueu os olhos, horrorizado, mas fez o que foi pedido. Miranda ainda ostentava um olhar choroso, mas não estava berrando por ajuda, o que já era um progresso.
– E balance ela direito. — completou Rebekah, bufando.
– É, a menos que queira que ela vomite em você. — concordou Stefan.

– Direito como?! E se vocês são tão competentes, porque não seguram ela?! — exclamou Kol, balançando a menina. Caroline bufou.
– Balance mais devagar, não mais rápido. — revirou os olhos ao ver o que ele fazia. — Você é completamente inútil. — decidiu-se, tomando a menina. — Vai quebrá-la.

Kol soltou um suspiro, aliviado, ao ver suas mãos livres. — Eu não sou completamente inútil! Não é minha culpa se nunca segurei... Isso.

– Isso? Isso é um bebê, cara. — a voz de Jeremy fez com que ele se virasse. O Gilbert parecia aborrecido. — E você tem sérios problemas com crianças. — completou, ajudando Damon a carregar a segunda mesa, juntando-a com a que já estava ali. Elena não ouvira o comentário de Kol — ainda bem — carregando duas toalhas quadriculadas e uma cesta.

Kol bufou. Ele tinha sérios problemas com humanos, não crianças. Durante seu milênio sobre a Terra, ele aprendera uma coisa: Humanos = Comida. Era uma equação muito simples e que seguira ao pé da letra.
Nunca mantivera uma conversa com um humano, por mais de dez minutos. Nem mesmo sabia como fazer isso! A última humana que passara mais de uma hora em sua companhia estava compelida a ignorar a dor e o medo, cortando os pulsos sobre duas taças de martini. Eva, ele ainda se lembrava do nome dela. Era muito falante, já que não tinha medo dele. E tinha um gosto melhor ainda.

Portanto, segurar uma coisinha tão frágil quanto uma criança era algo absolutamente fora do comum e assustador. Mesmo não sendo vampiro, ele conseguia sentir sua pulsação, quase podia sentir o cheiro de seu sangue... Aquilo revirava seu estômago.

Caroline devolveu Miranda para os braços da mãe, sorrindo para a menininha que a chamava de "Tia Care" baixinho, assustada.

A conversa se desenvolveu a partir daí. Rebekah e Caroline zombaram Kol, o que fez Damon questionar sobre o que estavam falando. Quando o Salvatore começou a zombar Kol também, sobre como sua filhinha tinha conseguido assustá-lo, Jeremy voltou o assunto para Matt, perguntando o que ele estava fazendo, se vinha jogando muito.

Do assunto carreiras, caíram no dilema de Elena, sobre voltar ou não a escrever crônicas para o jornal. Ela tirara licença, há mais de dois anos, mas nunca retornara. Desse, foram para um debate acalorado sobre o fato se Katherine ser advogada de casos sem salvação influenciava ou não no relacionamento com Elijah. E finalmente acabaram no assunto mais banal de todos, que era o aniversário de Care.

– Então?

– Então o que?

– O que vai fazer no seu aniversário? — questionou Katherine, revirando os olhos. Caroline mordeu o lábio inferior, pensativa. Aniversários eram mágicos, comemorativos... Mas não para ela. Esquecida por dois pais ausentes e duas melhores amigas atarefadas, que consideravam sua mania por festas "boba", ela só tivera três festas de aniversário ao longo da vida. A verdade era essa: Ninguém dava festas para Caroline Forbes, mas ela festejava por tudo e para todo mundo. Oh, ironia...
O único aniversário que seus amigos tinham insistido em comemorar fora seu aniversário de dezoito anos... E isso não deu nada certo. Passara a festa morta, fora mordida por Tyler e acabara tendo que ser salva por Klaus.

Honestamente, era melhor não festejar. — Umm... Nada. Eu vou ficar em casa.
Rebekah bufou. — Você vai ficar em casa? Mas tem que fazer uma festa melhor ainda do que do ano passado!

– Umm...

– Você se lembra, Katherine? — questionou a loira, olhando para sua cunhada. — Foi hilária, fazia muito tempo que eu não me divertia desse jeito.

– Sim, mas... Eu realmente quero ficar em casa. — Caroline lançou um olhar desesperado para Klaus. Ele sorriu, apertando sua mão de leve sob a mesa e falando alto:
– Acho que vocês não entenderam, garotas. Caroline prefere passar seu aniversário comigo, fazendo o que ela quiser, ao invés de beber em uma festinha. — sorriu. — Não é amor?

Care corou furiosamente, entendendo o que ele queria dizer, e concordou. — O que eu quiser? Qualquer coisa? — murmurou, embora seu coração estivesse disparado. Por mais engraçada que fosse a expressão enojada de Rebekah, Forbes nunca beijara Niklaus, que dirá dormir com ele. Inferno, ela nunca sequer o abraçara!

– Argh, eu não tenho que ouvir isso. — reclamou Bekah, bufando.

O assunto sumiu. Ninguém queria entrar em detalhes sobre a vida sexual do casal, exceto por Damon e Kol, que continuavam a fazer suas piadinhas sujas, embora as de Kol fossem marcadas por um sarcasmo cético. Dessa vez o alvo era Stefan, que estava falando sobre um paciente que atendera e tentando explicar o que o homem dissera para Katherine e Elena. Era difícil, já que tinha que manter o sigilo médico.

Niklaus estava entediado, olhando enquanto seus amigos comiam e se divertiam, trocando de assunto rapidamente e falando de coisas banais. Deixou seus olhos pousarem nos membros do piquenique. Katherine estava usando uma regata que deixava grande parte de seu colo exposta (como se ela algum dia se vestisse diferente...) e seus cabelos cacheados estavam presos. Ela usava a aliança (uma peça única e bonita. Elijah que escolheu) e uma pulseira de lápis-lazúli. Engraçado que todos ali ainda vestissem seus amuletos de andar de dia, mesmo que pudessem andar sem isso normalmente. Talvez os humanos tivessem algum vínculo afetivo com as joias.

Mudou de foco, passando para a gêmea boa.

– Elena, onde está seu colar? — questionou repentinamente, após uns bons cinco minutos olhando para o colo dela e tentando entender o que faltava.
– Eu perdi. Terça passada, quando estava arrumando a casa para a festa de Kol... — fez uma careta, chateada. — Eu realmente gostava dele.

– Você percebe que o colar era meu, não? — Rebekah não se segurou.

– Bekah... — Stefan suspirou, dando-lhe um apertão para que não começasse uma briga desnecessária. Elena e Rebekah não se davam bem, mas também não eram de sair aos gritos, brigando. Era um relacionamento civil, já que ambas estavam com Salvatores.

– Bom, foi dado para mim como um presente. Portanto é meu.

– Não. Minha mãe me deu, e quando Stefan me conheceu em Londres, eu dei o colar para ele. Mais tarde, depois de conhecer você, ele te deu como presente.

– Bom, você deu o colar para Stefan. Deixou de ser seu...

– CHEGA! — exclamou Stefan, irritado. — Bekah, você me deu o colar e eu dei para Elena. É dela e agora nem isso mais, já que perdeu. — rangeu os dentes. — Agora vamos mudar de assunto.

O piquenique acabou após algumas horas. Recolheram as coisas e despediram-se de Katherine e Elijah, que iriam voltar para Atlanta. Caroline e Klaus recolheram sua cesta e pratos e foram embora.

Caroline assistiu enquanto Niklaus recolhia o travesseiro e passava os dedos pelo cabelo recém-lavado, cansado. Abriu um sorriso quando ele olhou-a.
– O que foi, amor? — questionou Mikaelson, bocejando.

– Você pode dormir na cama, Klaus. Sabia? Eu sei que você não vai me atacar, ou algo assim. — sentiu suas bochechas queimarem. Klaus ergueu as sobrancelhas e ela desatou a falar. — Quero dizer, na primeira noite eu fui agressiva e sei que fui dormir na sala, mas eu ainda estava muito nervosa... Agora eu sei que não vai me machucar e eu meio que confio em você, não que tenha outra opção, então você podedormir na cama... Se quiser.

Ele riu. — Caroline, amor, você pode parar de falar. — instruiu. — Por mais que eu aprecie seu convite, eu acho que vou ficar com o sofá. Não que eu goste muito dele, mas... Dormir com alguém é algo íntimo demais para mim, Caroline. — respondeu, dando de ombros. Percebeu que ela pareceu um pouco decepcionada. Você está imaginando coisas, Niklaus. Vá dormir. No sofá!

Sem mais palavras, ele saiu do quarto, deixando-a sentada na beirada da cama, com um olhar compreensivo estampado na cara.

Niklaus deitou-se no sofá que ele já odiava. Suas costas estavam doendo e ele queria dormir na cama mais do que qualquer coisa. Mas não faria uma mulher grávida dormir no sofá e não estava pronto para dividir a cama com Caroline. Era mais do que íntimo... Era confiar nela para assistir seu sono. Agora humano, com a culpa a flor da pele, os pesadelos tinham surgido. Não queria que a loira assistisse-o choramingar e acordar suando frio durante as madrugadas. Não queria acordar de manhã e ver um olhar de pena. Assim como não podia acordar e ver o rosto adormecido dela junto ao seu.

Já se deitara com muitas mulheres ao longo de mil anos. Nunca dormira com nenhuma. Uma coisa era adormecer depois do sexo, sendo que, no dia seguinte, ou mataria sua parceira, ou a compeliria a esquecer ou ela simplesmente iria embora antes dele acordar. Outra coisa muito diferente era deitar-se, completamente vulnerável a seu corpo, junto a uma mulher e ter que acordar no dia seguinte, encarando-a. Não estava pronto para isso.

~*~

Acordou com a luz do sol batendo em seu rosto, pela primeira vez na semana. Nenhum pesadelo, nenhuma sensação estranha... Só estava feliz.
Caroline se espreguiçou, sorrindo para o dia ensolarado e levantou-se. Após escovar os dentes e lavar o rosto, caminhou silenciosamente para as escadas. Klaus ainda estava dormindo. Ela conseguia ouvir seu ronco baixo e constante e, se descesse mais dois degraus, conseguia ver o topo de seu cabelo surgindo entre as cobertas.

Suspirou e entrou no quarto extra. As caixas naquele cômodo vinham incomodando-lhe desde que ela surgira na Mistic Falls Normal. Sentou-se no chão de madeira, cruzando as pernas e abrindo uma caixa de papelão, marcada como "Coisa Caroline". Havia uma bonequinha de porcelana, da qual ela se lembrava, embrulhada em plástico bolha.

Sorriu e começou a vasculhar a caixa atrás de suas lembranças. Eram tão antigas e tão comuns que ela quase se esqueceu que não era uma humana qualquer. Nem era humana, em teoria. Tirou os porta-retratos e sorriu para seus cabelos louros e escorridos, um dente de leite que tinha caído e as bochechas coradas. Segurava sua bicicleta recém-ganhada, ainda com um laço cor-de-rosa pendurado nela.

Parou quando encontrou algo inesperado na segunda caixa que abriu.

– Você não deveria estar fazendo isso. — a voz de Klaus fez com que Caroline se virasse, soltando o que tinha nas mãos.

– O quê?

– Isso... Mexendo nessas coisas, olhando-as. — ele revirou os olhos, seu rosto ainda amassado de sono. — Vai criar um vínculo emocional e quando voltarmos... Vai sofrer.

Caroline bufou. — Não vamos voltar. Não sei se já percebeu isso, mas estamos presos aqui. Não sabemos como voltar, não sabemos se podemos voltar e mesmo que possamos, não sabemos se eu posso voltar. Portanto, se eu quiser mexer nas nossas coisas, eu posso. Agora venha aqui, quero te mostrar algo. — pediu, fazendo um gesto para que ele se aproximasse.

Niklaus sentou-se ao seu lado, desgostoso e olhou entediado para o que ela tinha nas mãos. Seus olhos verdes se arregalaram um pouco. — Então é verdade... Eles realmente sabiam do bebê... — murmurou incrédulo.
Ela sorriu, segurando os sapatinhos brancos e ainda olhando-os surpresa. Eram tão minúsculos que cabiam na palma de sua mão. Eram tão fofos..!

– Eu te disse. — resmungou, sorrindo. Continuou a mexer nas caixas, enquanto Klaus estudava os sapatos. — Agora o terceiro quarto faz mais sentido.

Ele se levantou. — Vou pegar algo para comer, você quer? — ofereceu. Só então ela percebeu que ele também estava de pijamas. Sorriu. — Só alguns biscoitos. Não demore, quero abrir todas essas caixas hoje.

Mikaelson concordou e deu-lhe as costas. A loira sorriu para as coisas na caixa. Havia mais três pares de sapatinhos e uma roupinha branca que era mais do que bonitinha. Abriu a terceira caixa e sorriu ao ver uma foto dela, a outra Caroline, e Nik, o outro Klaus, de mãos dadas. Eram tão felizes... Pareciam felizes por simplesmente estarem juntos.

Não era possível você ser feliz ignorando tudo ao seu redor. Ignorando todas as dores do passado ou como Mistic Falls era uma cidade amaldiçoada. Contudo, aqueles dois conseguiam fazer isso.
Pegou outro porta-retratos e sorriu. Bilhetes para jogos de baseball e bilhetes para shows no gelo. Fotos na Disneyland, que quebraram seu coração. Era seu sonho de menina... Assim como seu sonho de adolescente era Paris, seu sonho de menina era a Disney. E nunca fora para nenhum desses lugares. Sentiu uma pontinha de inveja ao ver sua versão humana rindo, usando um vestido de Cinderela, abraçada com um Nik sorridente, fantasiado de Fera. Desistiu de não sentir inveja quando encontrou uma foto borrada deles se beijando diante da torre Eiffel.

Aquela garota estava vivendo todos seus sonhos!

Empurrou o sentimento para o fundo de sua mente e largou os porta-retratos, enfiando o braço até o cotovelo para pegar o pacote jogado no fundo da caixa. Franziu as sobrancelhas. Não sabia o que era.

– Trouxe os biscoitos. — ele sentou-se ao seu lado, com uma xícara de café e uma de leite, que empurrou para ela sugestivamente. — O que é isso? — questionou para o pacote.

– Não sei. — rasgou o papel e o conteúdo caiu em seu colo. — São cartas... — murmurou surpresa, olhando-as com as sobrancelhas erguidas. Pegou uma e sorriu ao ver a letra de Klaus.

– E são suas... — procurou por endereço, mas não havia. Abriu a carta. — "Você estava sentada com Stefan, conversando com Elena e tentando não parecer triste ao ver como eles se amam..." – franziu o cenho. — Acho que são para mim.

– Leia o resto. — pediu Niklaus, pegando uma das trinta cartas caídas no colo dela e no chão.

– "E eu pensei que você era absolutamente linda. Não linda como uma modelo... mas de tirar o fôlego. Cheia de luz, cheia de bondade. Mantendo aquele sorriso gentil, mas tão falso, em seus lábios para não magoá-los. Linda, Caroline."– limpou a garganta. — "Espero que algum dia você olhe por sobre o ombro e não veja em mim um inimigo, amor. Espero que um dia cresça para se tornar a mulher incrível que promete ser e possa ver em mim mais do que uma ameaça a sua felicidade. Um parceiro."

Largou a carta e abriu outra. — Acho que essa é de depois que começaram a namorar. — comentou, lendo rapidamente o conteúdo. — "Desculpe-me. Perdoe-me por ser tão falho em nosso relacionamento, perdoe-me por não ser tudo que você quer e precisa. Contudo a verdade é que quero que me perdoe por não ser digno de você. Desejei-lhe tanto e durante muito tempo tentei te conquistar, mas, agora que é minha, não sei o que fazer. Perdoe-me por ser infantil e por decidir brigar às duas da madrugada. Perdoe-me por não dizer que é linda todos os dias. Perdoe-me por ter sido a ruína de um de seus melhores amigos, Stefan, há algum tempo. Perdoe-me por não ser digno de você. Mas a verdade é que sou egoísta e, mesmo sabendo que é boa demais para mim, não vou deixar de tentar. Você é a mulher dos meus sonhos, Caroline."

Piscou, confusa. Klaus estava com as sobrancelhas erguidas, a xícara esquecida em suas mãos. — Uau... Ele realmente era apaixonado por ela.

– Sim, eu acho que era. — percebeu que falava no pretérito. Como se o Nik humano e a Caroline humana houvessem morrido em alguma tragédia recente. Balançou a cabeça e abriu outra carta. — "Fiquei ensaiando para escrever essa carta por mais de uma semana. Não escrevi. Te pedi em casamento, mas não escrevi a carta. Estou envergonhado, era para ser parte do pedido. Escrevo agora. Caroline, ao seu lado, durante os últimos quatro anos, eu cresci. Passei de um homem ressentido e maldoso, para um homem feliz com o que tem e até o que não tem. Ensinou-me a apreciar as pequenas coisas na vida, pois só se vive uma vez. Agora vejo tudo sob uma nova luz, a sua luz. Então deixe-me apreciar as pequenas coisas: Sob essa luz eu vejo o jeito como seu nariz se franze quando você quer dizer algo, mas não pode. Como você tem um tique adorável e as vezes pisca só com um olho. Vejo como as vezes para e fica horas olhando para suas roupas e eu sei que não está tentando decidir o que vestir, mas só filosofando. Vejo como se vira para mim, usando um vestido novo e gira, sorridente, esperando um elogio. E é claro que eu elogio, porque você é linda. Beleza genuína. Ao seu lado aprendi a amar o jeito como você gagueja quando está frustrada, ou como fala demais quando está ansiosa. Aprendi a amar o sorriso de um milhão de dólares que abre de madrugada, quando me pega te admirando as escondidas..."– Caroline parou para respirar. Quem era aquele homem? — "Aprendi a amar o jeito como perdoou Damon por todas as coisas que ele fez e a amar também o jeito como fez isso por Elena, pela felicidade dela. Se isso não é amizade, Caroline, eu nem mesmo sei o que é. Aprendi a amar o fato que você me acorda no meio da noite só para dizer que lembrou, lembrou o nome daquele ator que apareceu no filme que assistimos de manhã. Ou o jeito como deita na cama e pede para que eu te desenhe 'como uma das garotas francesas'. Aprendi amar Titanic, e isso só um homem apaixonado faz."

A loira riu baixinho e soltou a carta, sentindo seus olhos úmidos. Klaus pegou uma das cartas e leu: — "Estou extasiado. Gritando de alegria. Não sei se essa é a décima ou a milésima carta que te escrevo, mas não me importa. Porque deu certo, após quase um ano te perseguindo e te cortejando... Sendo um pouco assustador, admito... Após um ano fazendo tudo isso, finalmente estamos juntos. Não achei que eu precisaria levar um tiro, mas você sempre tendeu ao drama. Posso ter levado um tiro, mas vai ser a cicatriz que mais vou adorar ao longo dos anos. Não acredito que me beijou... Porque quis. Eu ainda me lembro de seu rosto pálido, preocupado e tão ridiculamente apaixonado, olhando-me de sua cadeira. Amo o fato que passou a noite me assistindo. Não sei se é correto, mas amo ter sido o herói uma única vez. E que isso tenha feito com que você finalmente admitisse seus sentimentos. E o beijo. E o monitor tentando nos matar de susto, quando meu coração disparou e o aparelho começou a apitar. Sei que estou sendo ridículo, mas paixão é boba e idiota."– Niklaus mordeu a língua para não sorrir e comentou baixinho. — Ele definitivamente é um bobo apaixonado.

– Ele não é um bobo... É um homem feliz por ter a mulher que ama. — Caroline respondeu mal-humorada. — Nem todo mundo pode ter esse privilégio e ele sabe disso.

– Ele é bobo. Está cedendo a pior fraqueza de todas! Estar apaixonado nos torna fracos, vulneráveis...

– E humanos! Estar apaixonado te faz mais humano do que nunca poderá ser... Ser humano fez de você ser alguém bom, Klaus. Você humano é alguém bom.

– Caroline! — ele ergueu as mãos, irritadiço. — Sabe todos esses gigantescos defeitos que você achava em mim antes? Bom, eles ainda estão aqui! Podem ter sido amplificados quando me tornei vampiro, mas ainda estão aqui! O egoísmo, a raiva! Não sei porque acha que sou alguém bom só porque sou humano! Ainda sou a mesma pessoa, com os mesmos defeitos e a mesma falta de virtudes!

– Mas agora tem emoções! Agora pode sentir mais do que só isso, Klaus! Pode sentir felicidade, ternura... Amor. Agora tem emoções!

– Sempre tive! Ao contrário de vocês, vampirinhos de Mistic Falls, eu nunca desliguei minha humanidade! Eu só desisti dela! Sempre pude sentir! Só que após mil anos de traição, mil anos de dor e sofrimento, os pequenos momentos de felicidade deixam de importar!

Foi como levar um soco no estômago. Toda a raiva evaporou. Caroline olhou-o chocada, os olhos cheios de lágrimas. Estendeu uma mão trêmula para tocar o rosto dele e franziu o cenho quando Niklaus se encolheu sob seu toque. — O que o tempo fez a você, Nik...? — questionou para si mesma. Sabia que em algum lugar, algum lugar muito fundo, Nik ainda estava nele. Só tinha que achá-lo. Não era possível que Klaus houvesse matado Nik completamente, não um homem tão bom e gentil.

– Ele acabou comigo, Caroline. — Klaus respondeu, afastando suas mãos. A loira suspirou, não se afastando e deixou a cabeça cair.
– Você tem a chance de recomeçar, Klaus... Bem aqui, nas suas mãos. Ser humano de novo, ter uma vida nova... Dessa vez sem pai te perseguindo e mãe bruxa ressurgindo... Não estrague isso, Klaus. Por favor, não estrague mais uma chance de ser feliz.

Ela se levantou, deixando as cartas no chão e saiu do quarto. Niklaus respirou fundo, sentindo seu coração martelar no peito e o sangue fazer sua cabeça girar. O que ela queria dizer com isso? Nunca estragara suas chances de felicidade! Pessoas tinham feito isso com ele! Traidores!
Então pensou em Rebekah, em Kol... Pensou em Elijah, seu irmão mais velho. Pensou em Finn, que abominava tanto o que era, que ficara tão horrorizado ao perder Sage, que se tornara um suicida. Ah, Finn...

Pensou em seus irmãos e lembrou-se de todas as vezes que gritara com Bekah, lembrou-se do rosto bonito dela contorcido de mágoa. Lembrou-se da sensação de enfiar a adaga no peito de Kol... Seu irmão bebê, a quem ele deveria proteger, assim como Henrik... Talvez houvesse estragado sua felicidade, afinal.

Após alguns minutos tentando absorver o que Caroline jogara sobre sua cabeça, pegou uma das cartas e leu-a, em silêncio. Admirava esse Nik... Admirava a paixão cega que ele vivia e admirava sua coragem em dizê-la. Sua coragem em imortalizar suas palavras de bobo apaixonado. Nik era um homem corajoso.
Deixou a carta cair e guardou-as, colocando-as junto aos objetos que Forbes tirara das caixas.

Abriu uma caixa grande e sorriu. Ele definitivamente era um homem corajoso.

~*~

– Não contei para minha mãe. — Caroline murmurou, enquanto almoçavam em silêncio. Niklaus deu de ombros.
– Porque não contou?

– Por que ela... Ela não vai ficar feliz. — a loira balançou a cabeça. — Não vai ficar nem um pouco feliz.

– Bom, Kol também não ficou, mas você contou para ele, amor. — Apontou Mikaelson, servindo-se de mais batatas e sorrindo torto. Caroline se encolheu, espetando uma batata com irritação. — É diferente. Kol é seu irmão. Ela é minha mãe. Muito diferente.

– Está com medo dela?

– Um pouco... — suspirou. -... Muito.

– Vamos lá hoje. — Klaus decidiu-se. — Contamos para ela rápido. Você não pode esperar pra sempre, Caroline.

– Não. — ela balançou a cabeça, os olhos cheios de medo. — Não... Ela não vai gostar. Vai ficar brava... Decepcionada.
– E? Quando é que nossos pais não ficam desapontados? Minha mãe conseguiu me odiar durante um milênio... Sendo que ela estava morta durante esse período. Acho que você consegue suportar um ou dois gritos da Xerife, amor.

Ela bufou, mas concordou. — Vai comigo, não vai? Não vou conseguir contar sozinha...

– Vou. Embora não vá ser nenhuma grande ajuda. — ele sorriu. — Vamos torcer para que ela goste de mim.

Liz Forbes tinha envelhecido. Embora o tempo não houvesse levado sua beleza, ele também realçara a dureza de seus traços. O rosto de alguém que podia e iria quebrar seu braço se fizesse algo errado. Klaus tentou não se encolher diante do rosto dela e lançou-lhe um sorriso gigantesco. Torceu para que sua futura sogra gostasse de Nik e entrou na casa.

– Então? O que aconteceu? — ela cruzou os braços, as sobrancelhas franzidas.

Caroline olhou para o chão, o tapete que conhecia desde pequena. — Eu... Promete não ficar brava? — sua voz estava aguda e infantil. Klaus sentiu pena, lembrando-se muito bem de como era ter um pai que o aterrorizava. Porém Caroline amava a mãe e Liz amava a filha.

– O que você fez dessa vez? Nada pode ser muito pior do que ouvir que vocês vão se casar... — a xerife lançou um olhar sujo para Klaus. Certo, portanto ela não gostava Nik.

– Eu... Eu... Estou grávida. — as palavras realmente caíram da boca dela. Caroline tapou a boca, surpresa e horrorizada. Liz piscou, chocada e pálida.

– Grávida? Caroline... Você tem vinte e quatro anos! — exclamou, colocando as mãos na cintura. — Vinte e quatro, Caroline! Não basta ter decidido se casar com ele, depois de tudo que aconteceu, depois de que ele levou Stefan a ruína... Não! Não basta, não é? Como você pode ser tão irresponsável!

Niklaus não estava surpreso. Era exatamente o que esperava. — Estou tão desapontada com você, Caroline! Exatamente como seu pai! Exatamente! O que esperava que eu dissesse? Que lhe desse os parabéns por ter finalmente explodido sua vida?! E sua carreira?! VOCÊ TEM VINTE E QUATRO ANOS, CAROLINE!

– Não... — os olhos de Caroline estavam cheios de lágrimas. — Eu não esperava nada diferente. — murmurou, levantando-se.

O rosto enfurecido de Liz caiu. — Caroline...

– Não! Não é diferente, é? Você está sempre desapontada comigo! Aposto como queria que Elena fosse sua filha! Bonnie! Qualquer uma menos Caroline! Irresponsável, criança, burra Caroline! Casando-se cedo demais, repetindo todos os seus erros! Agora grávida cedo demais, também! Não é nenhuma surpresa que você esteja desapontada comigo, mãe! Você só sabe fazer isso, mesmo!

Liz abriu e fechou a boca, chocada. — Care... Filha...

– Não é pedir muito, é? Eu estou com medo, mãe! — agora ela estava chorando, gesticulando e gritando. — Estou assustada! E tudo que eu estou pedindo é que você me apoie! Mas é claro que é pedir muito! É pedir muito querer que você seja minha mãe! Você só sabe ser ausente, mesmo! Talvez deva correr e se enfiar sob o trabalho, talvez, quando sair do escritório, eu já tenha sumido e esse bebê também! Vai ver!

– Caroline, não coloque palavras na minha boca...

– Mas é isso que você pensa! É isso! Nós duas sabemos disso! — ela caiu sentada no sofá, escondendo o rosto entre as mãos. — É pedir muito que seja só minha mãe...? — soluçou. Liz caiu de joelhos ao lado da filha, abraçando-a.

– Não meu amor, não é... Shhhhh... Está tudo bem filha... — sussurrou a xerife, a voz embargada, abraçando Caroline com força.

Klaus ficou parado, de pé... Absolutamente chocado. Fazia tanto tempo que não via amor materno. Aquilo virara quase um mito em sua cabeça. Uma coisa da qual ele já ouvira falar, mas nunca vira. Elizabeth agarrava Caroline como se a filha fosse sumir. Sentindo-se culpada, preocupada e querendo confortá-la de todas as maneiras possíveis. Niklaus nunca vira aquilo. A última demonstração de afeto de sua mãe fora dar um beijo na testa dos filhos antes de dormir, há mil anos, e claro que Esther fizera questão de pulá-lo.

– Eu estou com tanto medo, mãe... — Caroline choramingou.

– Você vai ficar bem... Está tudo bem. — Liz sussurrou, os olhos cheios de lágrimas, beijando o topo da cabeça de Care. Então brincou, chorosa. — Mas você sabe que vai ter que contar para seu pai, não sabe?

Notas finais
Espero que tenham gostado! Até o próximo capítulo!