Dollhouse

5 O Baile - Parte I


Notas iniciais
"Lembrai-vos que em toda festa, tendes dois convivas a entreter -- o corpo e a alma; e o que dais ao corpo, na realidade o perdeis. Mas o que dá à alma, permanece para sempre." Epicteto

Rin olhou para o espelho sem acreditar direito no que via. Ela levou uma mão trêmula até a superfície do vidro, como se estivesse testando se a pessoa ali refletida era realmente ela.

O dia, ou melhor, a noite do baile tinha finalmente chegado. Depois de semanas de preparação, a família Kagamine já estava pronta para receber seus convidados no seu luxuoso salão de festas. Luka tinha praticamente arrastado Rin umas cinco horas antes da festa começar, e um longo processo de se arrumar para o baile teve início.

E agora, lá estava Rin, olhando no espelho para a garota que ela tinha se transformado com a ajuda de Luka. O seu vestido escolhido especialmente para a ocasião era composto de um degradê de azul, do mais escuro até um mais claro, da cor dos olhos de Rin. Ele tinha detalhes em dourado que brilhavam quando andava, e Rin tinha um enfeite de flores também douradas na cabeça.

Ela tinha os lábios e bochechas levemente rosadas, graças a alguns produtos que Luka tinha passado nela para realçar sua face. No geral, Rin parecia com uma princesa de contos de fada, com uma beleza inocente e encantadora. Mesmo que Rin estivesse se acostumando aos belos vestidos que começou a usar no dia a dia, ela nunca tinha se visto tão bonita antes.

Ela sentiu os olhos lacrimejarem, mas antes que uma lágrima sequer pudesse cair, um jato de ar atingiu seu olho.

“Não ouse borrar a maquiagem que fiquei tanto tempo fazendo!” Luka rugiu, enquanto assoprava o olho de Rin.

Rin começou a rir das ações da mais velha, mas Luka simplesmente bufou e a empurrou para fora do quarto no corredor.

“Vamos,” Luka disse com uma voz mais suave desta vez. “Já é hora de descermos. Você está pronta?”

Não, Rin pensou, Nada poderia me preparar para esse momento. Apesar de a festa ser supostamente para Lily, Rin entendia perfeitamente que aquele também era o evento em que ela seria apresentada para a sociedade. Rin sabia que Lily não era exatamente a estrela da noite, e mais uma tentativa de abafar o escândalo que o aparecimento de Rin certamente causaria (algo que a aniversariante certamente nem suspeitava). Os Kagamine já tinham divulgado vagamente que a família agora tinha um novo membro, mas seria nessa festa que a aristocracia colocaria os olhos em Rin pela primeira vez.

Ela queria segurar seu colar de clave de sol para lhe dar forças, mas ele estava escondido dentro do seu vestido, algo que Luka não poderia nem sonhar – já que a própria tutora tinha obrigado Rin a tirar o colar antes para a festa (Rin colocou o colar de novo depois, obviamente).

“... Não me sinto preparada.” Rin respondeu sinceramente, mas continuou antes que Luka pudesse falar qualquer coisa. “Mas tenho que tentar... Desistir nunca foi uma opção.”

Luka, surpreendentemente, abriu um sorriso, uma ocasião extremamente rara para a normalmente seca e estrita tutora. Sem mais palavras entre elas, as duas seguiram para as escadas de onde a família desceria junta na hora em que o baile começasse.

Somente Oliver e Len estavam já estavam prontos e esperando. Oliver estava tentando se equilibrar sentado no corrimão, e Len estava olhando para o espaço com uma expressão entediada.

“Oliver!” Luka gritou. “Saia daí antes que se machuque!” O menino deu a língua para ela e começou a escorregar corrimão abaixo.

Luka rugiu e saiu correndo atrás dele, e Rin observou a cena sem nem tentar abafar seus risinhos. Ela escutou o som de alguém limpando a garganta e virou assustada para o lado, dando de cara com Len a pouco menos de um centímetro de sua face.

Ela deu um gritinho assustado e tropeçou para trás. Len começou a rir ao mesmo tempo em que a agarrou pelo braço, impedindo-a de cair.

Rin estava feliz porque Len parecia mais a vontade com ela ultimamente, provavelmente graças ao tempo em que vinham passando juntos nas lições de dança dos últimos dias, mas ainda era estranho pra ela esse lado brincalhão dele. Uma hora ele era frio e calculista, ignorando tudo e todos ao seu redor (incluindo a própria Rin), mas na outra ele estava rodando Rin no ar brincando de ser bailarino, bagunçando o cabelo dela em direções inimagináveis e incentivando Oliver a colocar insetos nas roupas íntimas de SeeU.

Rin olhou para Len irritada. “Não me assuste assim!”

Ele sorriu para ela e segurou seu queixo, inspecionando a face de Rin com um olhar de julgamento. “Hmmm...” Ele murmurou.

“O-o que foi?”Ela desviou o olhar, subitamente nervosa, sentindo o sangue subir para a cabeça e as bochechas aquecendo.

Len sorriu. “Você está bonita.”

Rin guinchou e se afastou dele, virando de costas.

“Hahahaha... Seu pescoço fica vermelho quando você cora, sabia?” Rin se virou e tampou a nuca, numa mistura de frustração e embaraço.

Luka subiu as escadas com Oliver debaixo do braço. Ela estava toda descabelada e bufando em cansaço, enquanto Oliver fazia cara feia.

“Cuida do seu irmão, Len. Por causa dele vou ter que me arrumar de novo.” Ela lançou um olhar severo na direção dos dois direção dos dois antes de sair.

Rin olhou para sua tutora com pena. Por mais que Luka reajustasse seu penteado, ela ainda não estaria expressando toda sua verdadeira beleza.

Quando ela tinha acabado de se arrumar pela primeira vez horas atrás, e viu Rin olhando-a com confusão, Luka simplesmente sorriu e disse resignada:

“Sou só uma preceptora, Rin. Seria falta de educação se me vestisse luxuosamente como uma aristocrata. A maioria das famílias nem traria gente como eu para festas assim, então pare de me olhar com essa cara.”

E Rin se revoltou, pois em sua concepção Luka era uma das mulheres mais belas que conhecia, e deveria ser permitida a mostrar seu verdadeiro potencial.

Mas já que o mundo infelizmente nunca girou em torno das concepções de Rin, Luka se vestiu para o baile com uma de suas roupas de dia a dia – que sim, eram bem elegantes – mas na opinião de Rin não o suficiente para um baile daquele porte.

A voz de Len tirou Rin de seu devaneio. “Oliver,” Ele disse, se abaixando até a altura do irmão. “Você realmente tem que se comportar nessa festa, tá bom?”.

“Porque?” O menino disse com petulância, cruzando os braços.

“Porque senão a mamãe vai finalmente descobrir o que aconteceu com a camisola de seda importada dela.”

Oliver engoliu em seco. “E-eu precisava de um tapete pra minha cabana! Não foi nada de mais!”

“Sim,” Len sorriu malevolamente, “a cabana que a nossa querida mãe irá destruir com as próprias mãos quando descobrir onde a roupa dela foi parar”.

Oliver olhou para Len com ódio mortal e gritou, “Eu vou me vingar!”

“O que o pestinha andou aprontando agora?” Rin se virou para ver SeeU se aproximando.

Ela estava muito bonita, os cabelos loiros e selvagens presos numa espécie de trança lateral cheia de adornos prateados e brilhantes e brilhantes. Mas seu vestido...

“Azul!” SeeU guinchou em horror, apontando um dedo trêmulo para Rin. “Não acredito, você também está usando azul! Agh, nossas roupas são praticamente iguais!”

Rin olhou para si mesma e para a irmã. Sim, os vestidos tinham tom parecido, mas de modelo eram completamente diferentes. O de Rin era reto e com mangas longas, o de SeeU bufante e provavelmente com mais tecidos do que Rin, Len e Oliver estavam usando juntos naquele exato momento.

“Você não tem outro vestido?!” SeeU perguntou em desespero. “Vamos, ainda dá tempo de você se trocar!”

“Não tenho outro vestido de festa, SeeU...” Rin respondeu, cansada.

“Mas não podemos ir assim! Nossos vestidos são iguais!”

“Deixe de ser dramática, SeeU.” Len interveio, revirando os olhos. “Pelo que vejo, os vestidos são bem diferentes...”.

“M-Mesmo?” SeeU perguntou esperançosa.

“Sim,” Len sorriu. “O de Rin é mais bonito”.

Rin corou, e Oliver começou a rir. SeeU ficou vermelha de raiva e já ia avançar pra cima de Len, mas o som de passos a interrompeu.

Era Leon e Ann, ambos extremamente arrumados e exalando uma verdadeira aura de “o casal mais rico e poderoso do país”. Um do lado do outro, ambos altos, loiros e trajando uma mistura de negro e dourado, nem pareciam humanos de verdade. Rin não os via muito no dia a dia na mansão, ambos muito ocupados com outros negócios. Ela tinha esquecido quão intimidantes era a presença deles.

SeeU curvou a cabeça para baixo num gesto de submissão, e Len voltou a parecer distante e entediado como sempre. Eles cumprimentaram Leon e Ann com o devido respeito, e Rin com um pouco de hesitação, se sentindo extremamente desconfortável com o jeito que Ann a estava olhando de cima a baixo.

“Você e SeeU vão ser as damas de companhia de Lily?” Ann sorriu como se estivesse se divertindo. “Do jeito que estão vestidas, iguais, só vão fazê-la se destacar.”.

SeeU pareceu que ia chorar de frustração, e Rin olhou para os sapatos, embaraçada.

“Pare de causar discórdia, mulher.” Leon disse olhando para Ann com desprezo. “E onde, pelo amor de Deus, está Lily? Já é hora de descermos”.

“Eu estou aqui.” Todos se viraram para ver Lily se aproximando com Luka a seu lado.

Lily estava muito bonita, o cabelo loiro e longo preso num coque caído com algumas madeixas soltas na frente. Mas o que realmente chamava a atenção era o vestido roxo escuro com dourado, com um decote que Rin nunca tinha visto Lily usar antes (não indecente, claro, apenas o suficiente para bem acentuar a curva do busto). Era como se a roupa tivesse transformado a Lily mimada e infantil em uma mulher madura e admirável.

Rin não ficaria surpresa se Lily já saísse dessa festa com o casamento marcado, pois pretendentes nesse baile babando por ela certamente não iriam faltar.

Todos sorriram e cumprimentaram Lily, Rin respirando fundo porque sabia que a hora tinha chegado.

A família desceu as escadas, e dessa vez com Rin no meio deles. Como uma verdadeira Kagamine.

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As pessoas começaram a chegar aos poucos. Todos bem vestidos e elegantes, pessoas que Rin nunca sonhou que chegaria a conhecer um dia.

Os aristocratas prestavam as honras aos anfitriões do baile e felicitavam Lily, mas sobretudo ficavam encarando Rin como se a garota fosse um animal de zoológico. Rin sabia que seria complicado, mas de alguma forma ela pensou que não seria tão difícil assim – Afinal, ela não era a primeira e nem seria a última bastarda a ser acolhida pela família do pai, mas parece que o fato dos Kagamine terem demorado tanto tempo para reconhecer sua existência e, bem, o fato deles serem simplesmente os Kagamine era o suficiente para as proporções que o aparecimento de Rin estava tomando.

Luka estava do seu lado o tempo todo, sorrindo educadamente para quem se aproximava de Rin e conseguindo de uma maneira ou de outra desviar a atenção sobre a menina, ou pelo menos a ajudando a lidar com as perguntas insistentes e irritantes sobre sua origem.

O fato de que Rin era uma bastarda era claro, mas ninguém sabia sobre sua mãe, e Rin e os Kagamine preferiram assim. Ninguém parecia julgar Leon pelo fato dele ter produzido uma filha bastarda, e a maioria dos homens parecia ter até pena dele, pelo fato de uma “simples traição" ter acabado com uma consequência tão grande.

Já as mulheres eram diferentes, e as aristocratas ficavam em torno de Ann como moscas na carne crua, muitas direcionando comentários maliciosos e olhares cheios de julgamento. Mas Ann lidava com elas com tamanha graça e fineza que era impressionante.

A imperatriz de ferro, como Ann era apelidada tanto devido a sua personalidade quanto aos negócios relacionados com os Kagamine, parecia lidar com as perguntas e comentários com tamanha naturalidade e frieza que era impressionante.

Mesmo nas poucas horas que o baile tinha começado, Rin já entendia a maneira com que os aristocratas se comportavam. Preocupados somente com dinheiro e julgar os outros, Rin já estava ficando doente daquele meio.

No momento ela estava presa numa conversa com um nobre gordo e barbudo, que parecia um pouco bêbado. Mas pelo menos Luka estava ao seu lado, o que fazia as coisas mais fáceis de alguma maneira.

Falando sobre Luka, era incrível que ela conseguisse receber atenção de alguns aristocratas. Apesar de ser a funcionária mais bem paga da casa, ela ainda era uma criada, então era surpreendente que os ricos e cheios de si aristocratas sequer olhassem para ela. Parece que o sobrenome de Luka ainda impunha algum respeito, apesar de sua casa nobre estar falida; isso juntando com a beleza, educação perfeita e boas maneiras acabava fazendo algumas pessoas gostarem dela, ou pelo menos tolerarem sua companhia.

O gordo finalmente parou de falar sobre sua coleção de cabeças de animais exóticos, quando algo mais pareceu ter tomado sua atenção. Ele apontou animadamente sobre o ombro de Luka. “Olha! Aquele não é o Duque Kamui?”

Rin olhou para onde ele estava apontando e viu um homem extremamente alto vestido de maneira bem extravagante, um casaco negro e longo pesando sobre seus ombros, e uma camisa púrpura. Rin não podia ver direito suas feições, mas mesmo estando relativamente longe ela percebeu como ele era bonito.

Várias mulheres viravam a cabeça quando ele passava, e outras o cercavam tentando engajá-lo em uma conversa.

“Quem é esse homem?” Rin cochichou para Luka. Mas Luka não parecia estar prestando atenção. Ela estava congelada no seu lugar, e toda a cor parecia ter esvaído de seu rosto.

Ela rangeu os dentes e finalmente respondeu, quando o aristocrata que estavam conversando saiu na direção do homem misterioso. “Ninguém que valha a pena você conhecer.”

Luka agarrou o braço de Rin e a guiou para o outro lado do salão. Rin, confusa, já ia perguntar porque Luka estava agindo daquele jeito, mas algo nos olhos dela a fez parar.

Rin nunca tinha visto sua tutora com um olhar tão grave no rosto, e isso a assustou.

As duas foram para a parte mais da frente do salão, perto da porta, uma área que estavam evitando antes devido a quantidade de pessoas que chegavam e certamente iriam querer ficar questionando Rin.

E parece que naquele exato instante mais pessoas tinham acabado de chegar.

“Ah,” Luka colocou a cabeça nas mãos, exasperada. “E quando eu achei que não tinha como ficar pior...”.

“Os Hatsune!” Alguém anunciou.

Rin olhou empolgada para o novo grupo de pessoas, lembrando-se do que Gumi tinha dito sobre eles. Mas o que ela viu não foi bem o que esperava.

A família Hatsune, ou pelo menos o casal Hatsune, não eram belos e imponentes como Leon e Ann. Eram risonhos e espalhafatosos, a mulher baixinha e com um vestido bufante, trajando um excesso de joias da cabeça aos pés – o que no lugar de fazê-la parecer rica e sofisticada, a fazia parecer mais com um bobo da corte.

O que salvava a família, pelo menos em termo de beleza e maneiras, foi a garota que os seguiu pelo salão. O vestido era moderno, sim, mas não de uma maneira ridiculamente extravagante como o da mãe. A cor do vestido da Hatsune mais jovem era elétrica e vibrante, ficando entre verde e azul, assim como seus olhos.

A chegada da família parecia ter provocado um alvoroço entre os convidados, alguns correndo para cumprimentá-los, outros cochichando e rindo, os mais arrogantes observando com olhar de julgamento. Fato é que independente do sentimento, o nome Hatsune parecia sempre invocar uma reação nas pessoas.

“Deveríamos ir prestar saudações?” Mas Luka nunca respondeu Rin, porque naquele instante elas escutaram o som de alguém limpando a garganta, e se viraram só pra dar de cara com ninguém mais, ninguém menos, do que o homem que Luka tinha parecido tão desesperada para fugir minutos atrás.

“Duque Kamui...” Rin murmurou.

Ele acenou a cabeça em reconhecimento, mas seus olhos continuaram fixados em Luka.

Luka, que olhou para Kamui como se estivesse encarando uma assombração, no lugar do homem mais bonito e disputado do baile.

“...Luka,” Ele disse numa voz grave, enquanto dava mais um passo na direção dela.

“Gaku—Duque Kamui.” Luka se corrigiu, seu choque de antes se transformando em uma frieza que Rin não sabia que Luka era capaz.

Ela se virou para Rin e disse com firmeza: “Por favor, siga sem mim, Senhorita Kagamine. A Senhorita ainda tem muitas pessoas que desejam lhe cumprimentar, e acredito que Duque Kamui deseja ter algumas palavras comigo.”.

Rin obedeceu, assustada pela seriedade de Luka e pelo fato de que, bem, Luka tinha chamado Rin de Senhorita Kagamine. Luka, que nunca tratou Rin com formalidade desde o dia em que se conheceram.

Agora sozinha, Rin se sentiu desprotegida e vulnerável, sem querer ficar no meio daquele tanto de pessoas venenosas e que não conhecia. Mantendo a cabeça baixa e rezando para que ninguém tentasse falar com ela, saiu por uma das portas laterais do salão.

A porta dava para o jardim, e Rin suspirou quando sentiu a brisa fria da noite atingir sua face.

“Também já cansou da festa lá dentro?” Len perguntou, sentado confortavelmente na grama, e Rin se perguntou por que ainda se surpreendia com os aparecimentos dele, já que pareciam ser sempre repentinos.

“... Em parte, sim.” Rin respondeu incerta, já que a maior razão na verdade era que Rin não queria continuar sendo bombardeada de perguntas ou alvo de olhares.

Len apontou para o espaço vazio do lado dele. Sem se importar muito com o seu vestido, Rin obedeceu o comando silencioso e se sentou na grama também.

Os dois permaneceram em um silêncio confortável por um tempo, só escutando os sons abafados de dentro do salão e perdidos nos próprios pensamentos.

“Rin,” Disse Len depois de alguns minutos. “Você gosta das estrelas?”

Um pouco confusa pela pergunta aleatória, Rin deu de ombros. “Nunca pensei muito sobre esse assunto, mas creio que sim. Por quê?”.

“Li um livro sobre constelações uns dias atrás. Sabe, são desenhos que podemos fazer com as estrelas... Era parte da cultura e religião de alguns povos gregos antigos. Quer que eu te mostre algumas que consegui achar?”.

Rin acenou que sim. A maioria das pessoas não conversava muito sobre esses tipos de assunto na sociedade normal, e falar sobre religiões poligâmicas, ou coisas relacionadas soava mal ou causava desconforto. Mas por agora Rin, já sabia que Len não era uma pessoa muito apegada a religião, e ela também não via mal em discutir sobre tais assuntos.

Len então mostrou para ela as constelações de Orion e Scorpius, contando suas origens e lendas, e Rin se perdeu nas histórias de Len, viajando com ele no mundo novo que ele esboçava para ela no céu estrelado.

Ela gostava da forma com que Len sempre tinha uma coisa interessante para dizer, algo novo para compartilhar. Suas palavras tinham sempre um propósito e um fim, ele nunca falava simplesmente por falar, e Rin sempre se sentia em paz o escutando e vendo o mundo através dos olhos dele.

Ela não sabe quanto tempo eles ficaram lá, só olhando e conversando sobre as estrelas, deitados na grama e longe do resto do mundo, das pessoas fúteis de dentro do salão. Mas eventualmente Len parou de falar e olhou sobre o ombro de Rin.

“Parece que a dança vai começar.”.

Rin olhou e viu pela porta entreaberta que os casais já estavam arrumando seus pares e indo para seus lugares na pista de dança. Len se levantou e limpou a grama da calça, dando o braço para Rin.

Os dois entraram no salão, Rin sentindo uma mistura de tristeza e empolgação. Tristeza porque gostaria de ter ficado lá fora com Len por mais tempo, empolgação porque finalmente eles colocariam em prática as lições de dança que tinham passado tanto tempo treinando.

Ela imaginou que Len a estava levando para a pista de dança, então ficou surpresa quando ele subitamente parou, olhando para o lado oposto de Rin. “Aquela não é a Miku Hatsune?”

Rin observou que a filha dos Hatsune, que tinha visto mais cedo, estava parada ao lado da mãe conversando com outras aristocratas. "Sim, é ela mesmo." Respondeu, sem entender porque isso importava alguma coisa.

Len se virou para Rin e soltou o braço em que ela estava se apoiando antes. Ele sorriu para ela e bagunçou seu cabelo.

“Vou lá então, tentar minha sorte.”

E Rin olhou numa mistura de confusão e terror quando Len saiu na direção de Miku e a deixou ali, sozinha, no meio do salão.

Inexplicavelmente, ela sentiu a garganta se apertando e lágrimas querendo sair. Rin correu de volta para a porta que ela e Len tinham saído segundos atrás e se sentou na grama de novo, abraçando os joelhos e enterrando sua face neles.

Ela se sentiu estúpida e humilhada. É claro, ela e Len tinham treinado juntos, mas em momento nenhum ficou definido que eles iriam dançar no baile um com o outro. Nem Luka tinha falado nada sobre isso, então é claro que a única que pensou que iria dançar com Len na festa foi Rin.

Não tinha motivo nenhum para Len dançar a dança principal com a própria irmã, ainda mais a bastarda, se ele tinha oportunidades de cortejar outras moças.

Num instinto masoquista, Rin se levantou e observou pela porta os casais na pista de dança. Ela observou Lily liderando a valsa, com o seu par que parecia ser Duque Kamui. Depois vieram Ann e Leon, e outros casais que Rin não reconheceu.

Entre a multidão de casais girando e se divertindo, Rin viu um flash de verde azulado, que não podia ser ninguém além da bela e intrigante Miku Hatsune. Rindo com ela e a conduzindo pelo salão estava Len.

Sem nem se dar conta do que estava fazendo, Rin começou a se lembrar de momentos que tinham acontecido nos últimos dias.

Len colocou o braço ao redor da cintura de Rin e eles se moveram em longos círculos, até que ele a girou para o lado e a trouxe graciosamente para perto de si novamente.

Luka sorriu e aplaudiu. “Que bom, estamos fazendo progresso! Pelo menos você não pisou no pé dela dessa vez, ou Rin tropeçou em você de novo.”

Len sorriu e girou Rin várias veze em alta velocidade, até que ela ficou tonta e começou a rir.

“Continue girando assim e você vai ser a estrela do baile, Rin!”

No presente, Len coloca as mãos na cintura de Miku e a roda no ar por alguns segundos, ela ri e se apoia nele de novo depois que o passo termina. Ele ri também, as mãos ainda firmes nas costas dela.

“Esse passo é ridículo.” Len argumentou com Luka. “É o ingrediente principal para uma tragédia na pista de dança! Só consigo pensar em todas as maneiras que pode dar errado.”

Luka revirou os olhos. “Não fui eu que inventei as regras da dança, Len Kagamine, então pare de agir como se fosse. Deixe de dar birra e coloque as mãos na cintura de Rin. Levante ela do chão alguns centímetros e gire.”

Len suspirou frustrado e obedeceu, Rin olhando para ele com uma cara que parecia pedir desesperadamente para que ele não a derrubasse.

Eles dançaram um pouco até que o momento do passo chegou, e ele colocou as mãos na cintura de Rin e a girou no ar.

Luka se levantou e sorriu impressionada.

“Isso foi muito bom, Len!”

Len sorriu vitorioso. “Realmente, não é tão difícil!” Um olhar malicioso foi todo o aviso que Rin teve antes de Len a levantar de novo, dessa vez bem mais alto.

Ela gritou surpresa, Luka olhou para os dois exasperada, e a risada de Len ecoou pelas paredes.

Nem o som maravilhoso da orquestra conseguiu consolar Rin. Ela imaginou que a oportunidade de escutar música assim de novo fosse ser a melhor coisa do baile, mas ela não conseguiu aproveitar muito. Quando estava dentro do salão, foi forçada a ficar conversando com pessoas que não conhecia, e que sinceramente nem queria conhecer, e o resto do tempo passou com Len fora do salão.

Ela deitou na grama, dessa vez sozinha, e fechou os olhos.

Minutos se passaram, talvez horas, quando uma voz estridente tirou Rin de seu breve estado de coma.

“Rin!” SeeU gritou abrindo a porta espalhafatosamente. “Não acredito que estava aqui o tempo todo, te procurei praticamente por horas!”

Rin se sentou, e SeeU olhou pra ela com desgosto. “Ugh, e ainda aí sozinha e sujando seu vestido, você não tem classe mesmo!”

“O que você quer?” Rin perguntou enquanto se levantava, com o mesmo senso de cansaço que parecia ter sempre que SeeU estava por perto.

“Vim avisar que nossa apresentação vai começar agorinha. Mas...” SeeU olhou para Rin maliciosa, como se tivesse acabado de ter uma ideia brilhante. Ela sorriu lentamente, e Rin nem teve tempo para se defender. Em um momento a taça de vinho estava segura nas mãos de SeeU, no outro estava sendo despejada em cima do vestido de Rin.

“O que você está fazendo?!!” Rin gritou, chocada.

SeeU olhou para ela arrogantemente, e jogou a taça aos pés de Rin. “Não vou me desculpar. É melhor assim, que você não suba naquele palco... Te vejo por aí, ou não, Rin.”

E antes que Rin pudesse fazer qualquer coisa, SeeU correu para dentro do salão de novo.

Rin sentiu vontade de vomitar. O pânico e a bile subiram na sua garganta e ela se desesperou.

A apresentação iria começar daqui a poucos minutos, e não tinha jeito dela pedir ajuda entrando no salão toda manchada de vinho.

As lágrimas voltaram e Rin sentiu que ia chorar de novo. Nada era justo. Porque essas coisas continuavam acontecendo com ela? Era como se o mundo estivesse dizendo que não importa o quanto ela tentasse, ela sempre seria uma bastarda, fadada a tragédia e a tristeza. Parece que sempre que ela começava a ter esperança de alguma coisa, algo acontecia para destruí-la de novo.

Rin olhou pela porta, mas não tinha ninguém por perto. Ela voltou a se encostar na parede e rezou para que alguém pudesse ajudá-la.

Notas finais
Caaaaaras, que confusão! Não só na história, mas aqui também. Então, eu postei esse capítulo ontem super tarde da noite, mas hoje de manhã quando fui checar percebi que tinha dado MAIS DE 5 MIL PALAVRAS! Tive dó de vocês terem que ler esse capítulo-bíblia, então acabei dando uma editada e dividindo ele em duas partes. Não que tenha mudado muita coisa. Continua gigante, não importa o que eu faça *desespero*. Olhando pelo lado bom, pelo menos isso quer dizer que o próximo capítulo já está pronto e vai sair mais rápido! Yay! Porque sério, eu tive uma realização pessoal nesses últimos meses que sou fisicamente INCAPAZ de atualizar igual uma pessoa normal. Tento compensar com capítulos maiores, mas temo dizer que meu ritmo de escrita seja esse estilo tartaruga mesmo :/ Já que essa é minha primeira história longa, estou descobrindo essas coisas por agora haha :'D Um beijo, um queijo, e até mais meus amores! Quero escutar tudo o que vocês acharam desse capítulo :**