Dolce & Desastre
10 Dolce & Surpresa
O OLyn’s estava no seu esplendor habitual: néon cansado, vapor nas janelas e o perfume insistente de fritura que se agarra à roupa como uma memória pegajosa. Entrei com duas sacolas elegantes que pareciam ter errado de endereço. O sino tilintou acima da porta, anunciando escândalo.
Na cabine do fundo, todos já estavam instalados.
Oliver gesticulava como se estivesse a defender uma tese sobre batatas fritas. Megan ria com a cabeça atirada para trás. Tracy observava o ambiente com aquele ar de quem sempre vê mais do que comenta.
E Allan estava lá.
Camisa clara, mangas dobradas com precisão distraída tudo numa postura relaxada. Quando me viu, sorriu. Aquele sorriso que já conhecia os meus silêncios.
— Ele veio patrocinado — disse Oliver, apontando para as sacos — Isto promete.
Allan levantou-se para me cumprimentar. O beijo foi breve, íntimo. Mas o olhar dele desceu imediatamente para as embalagens.
— O que fizeste? — perguntou, leve.
— Nada ilegal — respondi, sentando-me ao seu lado. — Ainda.
Coloquei as sacolas sobre a mesa. O couro apareceu primeiro para Megan e Tracy.
— Tu perdeste a cabeça — Megan declarou, já abraçada à própria bolsa.
Oliver segurava a sua gravata como se estivesse prestes a agradecer publicamente à academia.
— Espera — acrescentei, sorrindo para Allan ao meu lado, A minha mão puxou o último saco preso com pequenos agrafos da minha secretária. Coloquei-o nas suas mãos permitindo que abrisse. A gravata estava cuidadosamente enrolada em papel de seda. Azul profundo, quase nocturno, com uma textura subtil que só revelava o desenho sob luz mais atenta. Era o tipo de peça que não gritava riqueza mas, pelo menos, sussurrava bom gosto.
Allan ficou em silêncio por um segundo a mais do que o necessário.
— Adrian… — a palavra saiu baixa.
— Pensei em quinta-feira — expliquei. — Para o jantar com os teus pais.
Ele segurou a gravata com ambas as mãos. Não como quem recebe algo caro. Como quem recebe algo simbólico.
Oliver interrompeu, claro.
— Se isso for o novo padrão de presentes, eu quero renovar amizade oficialmente.
Risos explodiram outra vez.
Allan sorriu também. Mas agora o sorriso era mais contido. Ele pousou a gravata sobre a mesa, alinhada demais ao lado do copo.
— Tu não precisavas — disse.
— Eu quis — repeti.
A noite continuou. Cervejas chegaram. Megan falava alto demais. Tracy analisava costuras. Oliver já planeava um “antes e depois” da nossa ascensão social.
Allan participava. Ria e comentava. Mas cada vez que alguém mencionava “bónus”, “Velvet”, ou “luxo”, eu via algo endurecer nele. Sutil, mas ainda assim, bastante notório aos meus olhos. Em determinado momento, Oliver apontou para mim.
— Nosso magnata aqui vai esquecer-se de nós quando comprar um apartamento com elevador privativo.
— Ele já tem elevador privativo na Velvet — Megan completou.
Allan bebeu um gole longo.
— Só espero que ele ainda saiba escolher gravatas sem ajuda de consultoria — comentou leve demais, porém voltei a notar uma leve crítica no seu tom de voz. Parecia desagrado.
Olhei para ele.
— Eu sempre soube.
Ele sustentou o meu olhar por um instante.
— Eu sei — respondeu.
Havia algo ali. Uma sombra pequena e persistente. Não era ingratidão e também não era raiva. Era desconforto claramente visível.
A gravata permaneceu dobrada na mesa a noite inteira. Ele não a colocou no bolso. Não a experimentou no pescoço. Apenas a mantinha perto, como se ainda estivesse a decidir o que ela significava. Quando saímos, o néon piscava atrás de nós.
Os outros seguiram à frente, a debater combinações e selfies futuras.
Ficámos um pouco atrás.
— Foi demais? — perguntei.
Allan demorou.
— Não é sobre ser demais — disse por fim. — É só… eu gosto quando as coisas entre nós são simples.
Olhei para ele.
— A gravata é simples.
Ele sorriu de lado.
— Não é a gravata.
O silêncio que se seguiu não era agressivo, mas sim denso. Ele segurou a minha mão ao atravessarmos a rua. Mas, naquela noite, a gravata azul parecia pesar mais do que o próprio tecido permitia.
A rua estava luminosa demais para a hora. As poças no asfalto reflectiam os candeeiros como pequenos espelhos partidos, e o grupo avançava ainda embalado pela euforia das gargalhadas, das bolsas recém-entregues, da cerveja morna e das memórias de faculdade que nunca envelhecem direito.
Allan caminhava ao meu lado. A gravata que eu lhe dera estava dobrada com cuidado dentro do bolso interno do casaco. Ele não a tinha colocado. Disse que preferia estrear “numa ocasião certa”. Havíamos caminhado algumas quando ouço o meu nome.
— Adrian.
A voz veio atrás de mim. Clara e segura mas sempre inconfundível.
Senti o nome pousar nas minhas costas como um toque.
Virei-me. Mathew estava ali, alguns passos atrás, mãos nos bolsos, expressão composta demais para ser acaso. A luz desenhava o contorno do rosto dele, acentuando aquele olhar que nunca parecia totalmente desarmado.
O meu sorriso surgiu rápido, quase automático.
— Mathew. Que coincidência.
Ele aproximou-se com tranquilidade calculada. — A cidade anda pequena ultimamente.
Tracy inclinou o corpo ligeiramente para a frente, curiosidade pura.
— E nós somos…?
Eu inspirei fundo.
— Pessoal, este é o Mathew. Ele trabalha na Lorain. – virei-me para ele. Os meus olhos analisaram-no por um segundo. Ele estava bonito.
– Mathew, estes são os meus amigos da faculdade. Tracy, Oliver e Megan
Oliver soltou um assobio baixo.
— A Lorain? Concorrência directa?
— Prefiro pensar em perspectivas diferentes sobre o mesmo mundo — respondeu Mathew, com um meio sorriso. Allan deu um passo discreto à frente.
— Allan.
Estendeu a mão.
Mathew segurou-a. O aperto foi firme, mas sem excesso. O tipo de aperto que comunica equilíbrio, não força.
— Prazer — disse Mathew, mantendo o olhar. — Já ouvi o seu nome.
Allan ergueu ligeiramente o queixo com um sorriso que não escondia a sua antipatia difusa. — Engraçado. Eu não ouvi o seu.
Um silêncio breve formou-se, quase cortante, ao qual Tracy quebrou com uma naturalidade estratégica:
— Vocês conhecem-se de onde?
Eu abri a boca, mas Mathew respondeu primeiro.
— Numa festa de um estilista francês. – o vento agitou algumas mechas do seu cabelo perfeitamente alinhado — Pequena, mas… barulhenta.
O meu coração falhou um compasso.
— Foi naquela noite em que o Leslie te ligou quase às onze, pedindo que te apressasses? — O ar pareceu rarear quando Allan virou o rosto lentamente para mim. — Às onze? — repetiu.
A voz dele era calma. Demasiado calma.
Eu senti a memória voltar inteira: o telefone a vibrar às 23h, Leslie a exigir presença imediata e eu a vestir o casaco à pressa, com Allan na sala a formar a discussão curta mas tensa, acabando com a porta a fechar-se com força contida.
— Foi depois disso — completou Mathew, como se estivesse apenas a organizar a cronologia. — O evento já estava a acontecer quando ele chegou.
Allan não desviava os olhos de mim. — Tu disseste que era uma emergência da Velvet.
— Era — respondi rápido demais. — E foi. Leslie estava lá. Foi tudo trabalho.
Mathew inclinou levemente a cabeça. — Digamos que a noite prolongou-se.
A palavra “prolongou-se” caiu como uma pedra pequena, mas suficiente para fazer ricochete nas ondas. Oliver olhava entre nós como quem acompanha uma partida de xadrez. Megan cruzou os braços. Tracy mantinha o silêncio atento de quem arquiva detalhes para depois. Allan finalmente voltou os olhos para Mathew.
— E tu e o Adrian… tornaram-se próximos nessa festa?
A pergunta não tinha agressividade, mas vinha acompanhada de uma insatisfação quase palpável. Mathew sustentou o olhar com serenidade estudada.
— Conversámos. Descobrimos que trabalhamos em revistas que se observam mutuamente com… interesse. — Um leve sorriso. — Ele parecia precisar de uma pausa nessa noite.
Allan absorveu a frase sem mover um músculo.
— Curioso — disse, baixo, quase ríspido — Porque quando ele saiu de casa, parecia precisar de espaço.
A tensão não era explosiva, pelo contrário, era compacta, quase densa em textura.
Eu senti a garganta apertar. — Allan, foi só uma festa, nós conhecemo-nos lá.
— Exacto — respondeu Allan, olhando directamente para mim agora. — Eu nunca ouvi falar dele.
O comentário não foi dito como acusação, mas como constatação a pedir satisfações.
Mathew soltou a mão de Allan com elegância e deu meio passo atrás.
— Não quis criar desconforto — disse, polido, sempre educado. — Apenas achei curioso reencontrá-lo assim. — Os olhos dele pousaram em mim por um segundo mais longo. — A moda adora coincidências.
Allan respirou fundo pelo nariz. Um gesto quase imperceptível, mas eu conhecia aquele movimento. Era quando ele organizava algo por dentro.
— Pois — disse ele. — Algumas surgem tarde da noite.
— Bem — Mathew fez um aceno leve com a cabeça para o grupo. — Foi um prazer. Vemo-nos, Adrian.
Ele afastou-se com passos tranquilos, desaparecendo na esquina como se tivesse sido apenas um detalhe urbano. Mas o detalhe permanecia. O grupo ficou imóvel por alguns segundos. Tracy foi a primeira a falar, cuidadosamente neutra— Então… estilista francês.
Eu não respondi. Allan voltou a segurar a minha mão, num gesto que foi firme, quase possessivo.
— Vamos — disse ele.
Continuámos a andar ignorando o elefante na sala. Depois de alguns metros, ele falou sem olhar para mim — Engraçado tu nunca teres mencionado o Mathew.
A voz era estável, mas menos quente.
Eu senti a gravata que lhe tinha dado mais cedo pesar dentro do bolso dele como um objecto que ainda não sabia se merecia ser usado.
— Eu não achei relevante — respondi, tentando manter o tom leve.
Allan soltou um pequeno sorriso que não chegou aos olhos. — Relevância é uma coisa curiosa, Adrian — Ele apertou levemente a minha mão. — Às vezes só percebemos depois.
Quando nos despedimos, apanhámos um táxi de volta para casa. O elevador subiu devagar, rangendo como se também ele hesitasse em chegar ao destino. Nenhum de nós falou. Allan mantinha os olhos fixos nos números que acendiam acima da porta, as mãos nos bolsos do casaco, os ombros rígidos demais para parecerem casuais.
Quando a porta se abriu, o corredor parecia mais estreito do que o habitual. A luz amarela lançava sombras longas sobre o piso polido. Cada passo ecoava de forma quase hipnótica, marcando o ritmo da tensão silenciosa ente nós.
Entrei primeiro. Allan veio atrás.
A porta fechou-se. O aroma do corredor misturava o habitual cheiro de limpeza com um toque familiar de lençóis ainda aquecidos. O espaço parecia comprimir-se em torno de nós, tornando cada movimento mais intenso.
— Então — disse finalmente. A palavra ficou no ar, inacabada. As mãos de Allan tremiam levemente, gesto que ele tentou disfarçar ao prendê-las nos bolsos do casaco. O olhar dele buscava algo que eu não queria dar.
Eu tirei o casaco devagar, pendurando-o na cadeira.
— Então…?
Allan virou-se para mim. O rosto dele estava calmo, mas os olhos não. Havia uma luz nos cantos que denunciava suspeita e dor contida, uma mistura que eu já sentira antes, mas nunca tão direccionada a mim.
— Tu queres contar-me alguma coisa?
A pergunta não tinha volume, mas não era desprovida de peso. O som da própria respiração parecia preencher o nada entre nós.
— Já contei — respondi. — Foi uma festa. Leslie ligou-me, eu fui. O Mathew estava lá. Só isso.
Allan soltou uma pequena expiração pelo nariz. Não era riso. Muito menos um suspiro. Era falta de contenção. Os ombros dele tensionaram-se, e o olhar desviado buscava um ponto seguro no ambiente familiar que agora parecia estranho.
— Tu chegaste quase às três da manhã.
— Porque a festa se estendeu.
O relógio na cozinha marcava os segundos com um tique-taque metálico, cada batida a reforçar a distância entre as nossas versões da mesma noite.
— Tu disseste que foi uma emergência de trabalho.
— E foi. Leslie estava lá.
Allan passou a mão pelo cabelo, gesto rápido, nervoso. Parou por um instante, como se tentasse reorganizar pensamentos que se embaralhavam com cada palavra minha.
— Mas o Mathew também estava.
O nome ficou entre nós como um objecto recém-descoberto. O ar pareceu condensar, tornando cada respiração mais lenta, quase desconfortável.
— Allan, eu não sabia que ele estaria lá. Não foi planeado. – repeti – Eu conheci-o lá!
Ele começou a andar pela sala, dois passos, três, como se precisasse de movimento para organizar o pensamento. A manta no sofá balançou levemente como uma testemunha silenciosa da tensão que crescia.
— Eu sei — respondeu ele, rápido demais. — Eu sei que tu não planeaste encontrar um editor da Lorain numa festa às onze da noite. — A ironia era leve. Demasiado leve. Os olhos dele brilharam sob a luz do candeeiro, acusando, mas sem elevar a voz. — O que me incomoda não é a festa — continuou. — Nem o facto de ele trabalhar numa revista concorrente. É eu estar a descobrir agora que existe um “Mathew” na tua vida.
Eu abri a boca, mas ele levantou a mão. Um gesto pequeno, quase imperceptível. As sombras dançavam agora em torno do seu perfil, tornando cada traço mais marcado. — E não é só isso. — O olhar dele finalmente encontrou o meu. — Ele falou daquela noite como se tivesse sido… importante.
O silêncio caiu outra vez. O peso da gravidade pairava no ar, misturado ao cheiro do casaco recém-pendurado e à madeira do piso.
— Não foi importante — disse firme. — Foi só uma conversa.
— Uma conversa que tu nunca mencionaste.
A voz dele era baixa, quase um sussurro, mas cortava a sala como uma lâmina invisível. Os olhos permaneceram fixos em mim, a medir cada gesto.
— Porque não significou nada!
A minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. O eco devolveu as palavras com um frio quase cruel, como se a sala julgasse o meu próprio desespero.
— Então por que mentiste?
A pergunta foi directa, sem quaisquer adornos. O tom dele era firme, mas carregava a vulnerabilidade de quem se sente traído pela surpresa. Eu congelei. O ar pareceu pesar mais de repente, e a luz do candeeiro reflectiu-se nos meus olhos, tornando o meu próprio reflexo quase agressivo.
— Tu disseste que estavas só com o Leslie. Não mencionaste festa. Não mencionaste pessoas. Não o mencionaste a ele. — O olhar dele não era acusatório. Era magoado. A tensão no ar tornou cada gesto meu mais pesado e cada palavra mais arriscada. — Nós discutimos naquela noite, Adrian. Eu fiquei acordado à tua espera. E tu chegaste diferente.
A palavra ecoou. O som do trânsito distante entrou pela janela aberta, mas parecia distante demais para aliviar a tensão.
— Diferente como? — perguntei, quase num desafio.
Allan hesitou por um segundo. O leve tremor das mãos nos bolsos denunciava que ele não era indiferente.
— Distante.
Aquilo atingiu mais fundo do que qualquer acusação. O peito apertou-se de repente, cada batida do coração parecia sincronizada com a gravidade da palavra.
Eu desviei o olhar. A luz do candeeiro lançava sombras longas na parede, a reflectir a confusão que se instalava ali.
— Eu estava cansado. – defendi-me – e tínhamos discutido.
— Não. — A voz dele falhou pela primeira vez. — Tu estavas… noutro lugar.
Silêncio. O som da própria respiração parecia ocupar cada canto da sala.
— Tu estás interessado nele? — Allan perguntou, por fim.
Não havia grito, mas havia vulnerabilidade. Um fio quase invisível de medo atravessava a pergunta, e eu senti o estômago apertar.
— Não — respondi rápido.
Rápido demais. Ele percebeu.
Os ombros dele caíram levemente, mas o olhar não desviou. A gravata azul que lhe dei parecia de repente menor na mesa, impotente diante da tensão.
— Eu preciso de acreditar nisso.
Ele pegou na gravata e colocou-a sobre a mesa com um gesto calmo, como se fosse uma prova silenciosa de que ainda confiava, mas precisava de reafirmação.
— Eu vou tomar um banho.
Virou-se e caminhou pelo corredor.
A água começou a correr na casa de banho ao fim de uns minutos. Eu permaneci ali, parado, sentindo que a pausa era apenas um intervalo. O meu telemóvel apitou baixo. Era Mathew.
“Desculpa se causei algum incómodo”
As minhas mãos tremiam levemente ao digitar a resposta, tentando controlar a impaciência e a culpa que se misturavam:
— Não causaste… foi apenas… inesperado.
O cursor piscava no ecrã, reflectindo o silêncio que sentia em casa. A água continuava a correr, abafando quase todos os outros sons, mas cada respiração que eu dava parecia mais alta do que deveria.
O coração acelerado e o calor no peito denunciavam que a tensão não era só sobre Allan, era sobre o espaço que agora existia entre o que eu sentia e o que podia dizer.
“Entendo”
Veio a mensagem dele, simples e directa, com aquele toque de formalidade que escondia algo não dito. Inclinei a cabeça, observando o ecrã como se as palavras pudessem materializar-se em conforto.
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