Dolce & Desastre
11 Dolce & Análise
Acordei novamente antes do despertador. A luz da manhã entrava em ângulo, mais fria do que no dia anterior, desenhando linhas precisas no tecto. O som do chuveiro não estava lá. Allan já tinha acordado. Ou talvez nem tivesse dormido. Levantei-me devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar algo invisível. O apartamento tinha aquele silêncio específico das manhãs depois de uma noite inacabada, não tinha nada de hostil, mas uma atenção quase redobrada. Como se tudo estivesse à espera de uma decisão.
Na cozinha, a máquina de café ainda estava morna. Uma chávena usada na bancada. Allan tinha passado por ali, mas não deixara rasto suficiente para parecer um gesto de rotina. Estava mais para um comunicado.
Ele estava junto à janela, camisa já vestida, mangas arregaçadas, o telemóvel pousado ao lado do prato intacto. Olhava a rua como se estivesse a calcular o tempo sem, de facto, observá-la. Eu já conhecia esse seu lado meio escapista quando ele estava tenso.
— Bom dia — disse eu.
— Hey — respondeu, sem virar o rosto.
Sentei-me. O som da cadeira pareceu alto demais. O café tinha gosto de café esquecido, no entanto não era amargo. Estava mais doce que o costume.
Durante alguns segundos, nenhum de nós falou, mantivemos apenas um silêncio defensivo até Allan o cortar sem grandes rodeios. — Tenho uma reunião cedo — disse ele por fim. — Vou sair daqui a pouco.
Assenti.
— Eu também.
Ele virou-se então. O olhar estava calmo, mas havia ali uma vigilância nova. Não desconfiança explícita. Mas uma atenção amistosa sobre mim. Os olhos dele percorreram o meu rosto, desde o fio de cabelo mais rebelde até ao último fio de barba que conseguia observar.
— Sobre ontem — começou, ainda meio incerto do que falar — eu não queria transformar aquilo numa… coisa maior.
— Eu sei.
— Só… — ele fez um gesto vago com a mão — preciso de perceber onde estou.
A frase ficou suspensa, mas estava completamente despida de qualquer acusação.
— Eu também — respondi, com honestidade suficiente para não soar ensaiada.
Ele assentiu, satisfeito o bastante para não continuar. Foi até à mesa, pegou nas chaves. A gravata azul estava dobrada ao lado da carteira. Olhou para ela por um segundo. Não disse nada, apenas guardou-a no bolso do casaco.
— Quinta-feira — a voz estava mais clara, como se agora conseguisse respirar por momentos — O jantar.
— Continua de pé. — garanti.
— Boa.
A palavra soou mais protocolar do que afectiva, mas não indiferente. Allan aproximou-se, beijou-me no rosto. Um beijo curto e ainda assim, cuidadoso.
Quando a porta se fechou, o clique não soou definitivo, apenas… parecia temporário.
Fiquei sozinho no apartamento, agora demasiado grande para duas versões de nós. O silêncio parecia organizado e quase limpo. Demorei alguns segundos para conseguir arrumar o caos da minha cabeça em silêncios desconfortáveis.
Peguei no telemóvel. Nenhuma nova mensagem de Mathew. O “Entendo” da noite anterior permanecia ali, simples, educado mas encerrado. Era isso que mais me incomodava: não havia insistência ou pressão. Apenas espaço. E eu não sabia porque isso me incomodava tanto.
Vesti-me com mais atenção do que o habitual, mas não era por vaidade. Queria apenas sentir que ainda tinha controlo sobre algo na minha vida. Escolhi a camisa sabendo porquê. Ajustei o casaco não para impressionar e calcei os sapatos por conveniência.
Ao sair, reparei no reflexo no espelho do corredor. Pensei, sem ironia, nas palavras do Leslie.
Talvez eu já não fosse o mesmo.
E talvez isso não fosse perda.
Talvez, só talvez, fosse apenas… deslocamento.
A Velvet estava desperta, mas não viva, mas de certa forma, funcionava. E havia uma diferença subtil entre as duas coisas. O som dos saltos no chão polido não era apressado, era sistemático, a ditar cada minuto gasto em tarefas diárias. Cada pessoa movia-se como se soubesse exactamente onde devia estar e quanto tempo lhe era permitido ocupar em cada metro quadrado. O ar estava pesado de vapor e perfume caro, um cheiro que não convidava, apenas impunha, algo a que eu já me tinha habituado.
Valentina estava de pé junto ao moodboard central. Não se mexia muito. Não precisava. A autoridade dela não vinha do movimento, mas sim da habitual certeza imóvel com que ocupava o lugar. Os óculos escuros ainda postos dentro de portas não eram distracção, eram uma armadura precisa que nos protegia de si mesma.
— Adrian. — O meu nome saiu curto, sem qualquer inflexão despida de emoção. Não era rude, muito menos funcional. Parecia mais um chamamento que não admitia resposta tardia.
Aproximei-me. Leslie estava encostado à mesa, braços cruzados, expressão controlada demais para ser neutra. Observava tudo com aquele ar de quem já conhece o desfecho, mas ainda assim faz questão de assistir. Valentina não perdeu tempo.
— O terceiro look da sequência final não funciona.
Falou sem levantar a voz, mas a frase caiu com peso suficiente para fazer o ambiente ajustar-se. Vindo dela, nada ali era uma opinião, era um erro crasso à espera de ser corrigido.
Aproximei-me do conjunto. Inclinei ligeiramente a cabeça, não só para observar melhor, mas para alinhar o pensamento ao que Valentina reparara. O problema era evidente e isso era quase pior, pois significava que não tinha sido visto a tempo.
— Em fotografia funciona — acrescentei, com cuidado. — Mas em movimento… não se sustenta.
Ela retirou os óculos lentamente. O gesto não era teatral, mas tinha a intenção de sempre. Quando Valentina mostrava os olhos, era porque esperava algo em troca.
— Claramente — disse. — Soluções.
Não “o que acha”. Não “alguma ideia”. Apenas exigiu aquilo. Soluções.
Senti aquele segundo preciso em que o corpo inteiro entra em alerta. Ombros direitos. Respiração controlada. A mente a filtrar opções como quem escolhe palavras num idioma que não admite erros. Não me permiti demorar mais de alguns segundos.
— O tecido absorve luz — disse, mantendo a voz baixa, estável. — No estúdio vive. Na passarela, apaga. Ou alteramos o acabamento… ou mudamos o ritmo. Se ele não pode gritar, então precisa de respirar.
Valentina não reagiu de imediato. Observou-me com aquele olhar clínico, a avaliar não só o que eu dizia, mas a forma como o fazia.
— Leslie. — O nome dele veio acompanhado por uma dualidade clara: era um convite e um teste.
Leslie descruzou os braços, deu um passo à frente. A voz saiu suave, quase negligente, mas ainda manteve o mesmo tom firme de sempre.
— Ele está certo. Não é falha de design. — ele gesticulou para tudo à volta do manequim — É de encenação.
Valentina inclinou ligeiramente a cabeça. Um gesto mínimo para quem não a conhecia. Mas para todos, e agora até para mim, era a confirmação de tudo.
— Faça os ajustes — disse com a voz sem elevar uma oitava sequer — Quero ver a nova proposta em duas horas.
E afastou-se completamente alheia ao “bom trabalho” ou até mesmo a um mero sorriso. Mas pelo menos tinha possibilitado espaço e, ali, espaço era reconhecimento vindo dela.
Fiquei parado por um instante, a sentir o impacto atrasado da situação. Leslie aproximou-se, voz baixa, quase cúmplice.
— Viu? — murmurou, com um meio sorriso irónico. — Camisas mal escolhidas não teriam sobrevivido a isto.
Expirei um ar que nem sabia que estava a segurar.
— Ainda tenho algumas no armário.
— Queimar é uma opção, meu doce — respondeu com um olhar elegante, um sorriso carregado da sua própria ironia — Fecha ciclos, sabia?
Trabalhámos os dois num silêncio concentrado. Alfinetes entre os dentes, tecidos reposicionados com precisão quase matemática. O tipo de trabalho que exige presença total e, ainda assim, deixava frestas por onde os pensamentos escapam.
Entre um ajuste e outro, imagens surgiam sem pedir licença na minha cabeça.
Allan junto à janela. A gravata dobrada e intacta.
E, ao mesmo tempo, aquele “Entendo” do Mathew, limpo demais para ser neutro.
Não me distraí. Mas também não afastei nada.
Valentina regressou no meio da tarde. Caminhou em torno do manequim, tocou no tecido com dois dedos apenas, como quem testa a temperatura da água antes de entrar.
— Melhor — disse. A palavra não subiu nem desceu. — Não perfeito, mas serve.
Depois olhou para mim directamente.
— Está a aprender. — Não fora um elogio. Era uma constatação óbvia da sua análise. E, na língua de Valentina Moreau, isso valia mais.
Quando se afastou, Leslie ficou ao meu lado, mas olhou para mim assim que o pôde fazer.
— É isto — disse, por fim, com um suspiro que aliviou a tensão dos seus ombros. — O momento em que você percebe que já sabe decidir aqui dentro.
Assenti, mas não me permiti sorrir. Porque, no meio do ritmo exacto da Velvet, compreendi algo com uma clareza desconfortável: eu já sabia quem era ali; o problema era levar essa mesma firmeza para fora.
E isso… isso não se resolvia com ajustes de luz ou tecido.
O fim da tarde aproximava-se com aquela luz inclinada que entrava pelas laterais da Velvet, alongando sombras e suavizando contornos. O ritmo do Departamento não diminuía de verdade, apenas mudava de textura. A diminuição da correria permitiu uma maior concentração, dando-me hipótese de me inclinar sobre a mesa, os dedos ainda marcados pela pressão dos alfinetes, quando o telemóvel vibrou. Não foi um som alto. Foi discreto. Íntimo demais para ser ignorado.
Olhei para o ecrã mais por reflexo do que por escolha.
Mathew.
O nome apareceu sozinho, limpo, sem qualquer outro contexto. Só isso já foi suficiente para causar um aperto breve no estômago.
Ainda estás por aí?
Se tiveres alguns minutos, estou na cafetaria da rua de trás da Velvet.
A mensagem era directa e educada. Estava totalmente ausente de cobrança ou pressão, o que, ainda assim, conseguiu deslocar tudo dentro de mim.
Pousei o telemóvel de volta na mesa, como se isso pudesse neutralizar o efeito. À minha volta, nada tinha mudado. Os tecidos mantinham-se dobrados com precisão quase obrigatória. A luz branca mantinha-se minimalista e as vozes baixas ao fundo continuavam sem qualquer emoção que beirasse o profissionalismo.
Eu não queria ir, mas também não queria simplesmente ignorar.
Senti, com um desconforto claro, que lhe devia algo. Não grandes explicações. Não justificações dramáticas. Apenas uma explicação que tentasse minimizar aquele encontro desconfortável. Aquele tipo de explicação que se oferece quando alguém é puxado para uma situação que não pediu para ocupar.
Olhei em volta. Leslie estava alguns metros adiante, a rever anotações com atenção tranquila. Valentina já tinha ido embora, o que fez com que o espaço parecesse momentaneamente neutro. Peguei no telemóvel de novo. O cursor piscava no campo de resposta, insistente.
Não respondi.
Porque aceitar significava atravessar uma linha, ainda que invisível. E recusar significava deixar algo mal resolvido ganhar corpo.
Guardei o telemóvel no bolso do casaco, sentindo o peso físico do gesto. Não era uma decisão, estava mais para um adiamento consciente que sabia ser errado. Então, não avisei ninguém. Peguei no casaco, organizei a mesa com um cuidado quase excessivo, como se alinhar objectos pudesse alinhar pensamentos, e saí da Velvet sem olhar para trás. O corredor parecia mais longo do que antes. O som dos meus passos ecoava de um jeito diferente, como se eu estivesse a marchar para uma zona de guerra.
A rua estava mais calma. O trânsito já tinha abrandado, e o ar trazia aquele cheiro misturado de café, asfalto e fim de expediente. A cafetaria ficava a menos de um quarteirão, discreta demais para chamar atenção. O vidro embaciado, mesas pequenas, a luz quente demais, tornava tudo impossivelmente discreto demais para ser casual. Mathew estava lá dentro, não precisei de procurar muito. Ele estava sentado perto da janela, casaco pousado na cadeira ao lado, as mãos em volta da chávena como se precisasse daquele calor para se manter acordado. Quando me viu, não sorriu imediatamente; primeiro endireitou a postura e só depois deixou o rosto suavizar.
— Obrigado por teres vindo — disse, levantando-se ligeiramente, mais por educação do que por necessidade.
— Eu… achei melhor — respondi, sem saber exactamente o que aquilo significava.
Sentei-me em frente a ele. A mesa era pequena demais para conforto, mas grande demais para intimidade. Parecia algo que eu e ele tínhamos, um território indefinido. Mathew ficou alguns segundos em silêncio antes de falar, mas não desviou o olhar. Havia algo desconcertante na maneira como ele me observava, não como quem analisava algo, mas como quem reparava nos detalhes. Como se cada milímetro meu estivesse autorizado a existir ali, sem qualquer correcção.
— Estás bem? — perguntou. A voz dele era baixa, envolvente, colocada com cuidado, como se não quisesse assustar nada do que estivesse frágil em mim.
— Estou — respondi. Senti imediatamente que a resposta não me pertencia. Era automática, quase profissional. O tipo de palavra que se diz para encerrar um assunto.
Mathew inclinou levemente a cabeça, os lábios a curvarem-se num sorriso quase imperceptível. Desta vez, não havia ironia mas sim um interesse. Um interesse calmo, confiante, que não precisava de pressa, era apenas puramente genuíno por si só.
— Estás — repetiu. — Mas não do jeito que alguém responde quando está mesmo bem.
A forma como ele disse aquilo atingiu-me mais fundo do que eu esperava. Não foi acusação, mas sim um palpite certeiro. Como se ele estivesse a tocar numa superfície que eu vinha a fingir que não existia.
Soltei um suspiro curto, sentindo o corpo relaxar contra a minha vontade.
— Tu falas como se me conhecesses.
Ele apoiou-se melhor na cadeira, descruzando os braços com um gesto lento, quase deliberado. Os movimentos dele tinham sempre uma cadência tranquila, como se nada precisasse ser apressado naquele espaço. Era, de facto, quase hipnótico de ver.
— Sou observador — respondeu. — E tu não escondes tão bem quanto pensas quando estás cansado.
Houve um silêncio. Um silêncio confortável, cheio de coisas não ditas.
— Posso perguntar-te uma coisa sem que te metas em fuga? — disse por fim.
Ergui uma sobrancelha, defensivo por instinto.
— Depende da pergunta.
Ele sorriu, breve.
— Tens andado a fingir que isto — fez um gesto vago entre nós — é só circunstância?
Senti o estômago contrair-se. Cruzei os braços, mais para ganhar tempo do que por postura.
— “Isto” é uma palavra grande demais para uma cafetaria pequena.
— Exactamente — respondeu, sem perder o tom calmo. — É isso que me preocupa.
Houve um silêncio curto. Denso.
— E tu? — devolvi. — Andas a fingir que não reparas?
Mathew inclinou ligeiramente a cabeça, como se aceitasse o golpe com elegância.
— Reparo. — disse simplesmente. — Mas não acho justo ser eu a nomear coisas que ainda não decidiste sentir.
Aquilo acertou-me em cheio.
— Tu és sempre assim? — perguntei, meio irónico, meio cansado. — Correcto demais?
— Só com quem eu respeito. — respondeu, sem hesitar. — Com o resto, sou bem menos cuidadoso.
Ri pelo nariz, apesar de mim.
— Isso devia tranquilizar-me?
— Não. — sorriu. — Mas devia dizer-te que eu não estou aqui por acaso
— Vamos andar um pouco? — sugeriu. — Tu pareces precisar de espaço. E eu prefiro conversar a caminhar. As pessoas mentem menos quando estão em movimento.
Hesitei. Sentia o peso da decisão mais no corpo do que na cabeça.
— Eu não sei se é uma boa ideia.
Mathew sorriu de lado, mas o olhar pareceu aquecer.
— Lembras-te do acordo? — questionou.
Percebi que a mão dele estava quase a encostar na minha, mas ele rapidamente se deu conta e voltou-a à posição original.
— Amigos lembras-te? — a sua voz soou calma e um sorriso honestou varreu-lhe a boca — Nada além disso. Só andar e… respirar um pouco, talvez.
Revirei os olhos, rendido, acompanhado por um suspiro que me saiu abrupto dos pulmões.
— Tu fazes isso parecer simples demais.
— Porque às vezes é.
O sorriso dele manteve-se preso à boca e os olhos verdes pareciam encontrar os meus numa dança quase palpável.
Na rua, o ar parecia mais leve. Caminhávamos lado a lado, próximos o suficiente para eu sentir o calor dele, mas sem contacto. Mathew ajustava o passo ao meu sem que isso parecesse calculado. Era natural, quase fácil. E isso, estranhamente, já me deixava menos tenso.
Eu observava os gestos dele: a forma como mantinha as mãos soltas, como virava ligeiramente o rosto para me ouvir, como sustentava o silêncio sem demonstrar desconforto. Estar com ele não exigia atenção constante, muito menos exigia desempenho. Apenas resultava numa presença confortável.
Quando entrámos no Central Park, senti algo em mim desacelerar. O barulho da cidade ficou distante, filtrado pelas árvores e a luz que atravessava as folhas criava manchas móveis no chão. Ali, por um instante, o tempo pareceu menos agressivo.
Sentámo-nos num banco. Mathew escolheu sentar-se mais perto desta vez. Não encostado, mas perto o suficiente para que eu sentisse a proximidade como uma escolha consciente.
— Melhor? — perguntou.
Assenti. — Mais suportável.
Ele virou-se um pouco na minha direcção, apoiando um braço no encosto do banco, criando um espaço íntimo sem me cercar. A postura era aberta, convidativa, porém bastante segura.
— Eu queria dar-te uma coisa — anunciou. Havia ali um divertimento claro. Resolvi entrar na mesma vibração dele.
— Isso soa perigosamente como um começo.
— Talvez seja — respondeu, sem negar. Os olhos verdes encontraram novamente os meus, algo que eu, muito inutilmente, tentava que não me afectasse — Mas é um começo honesto.
Respirou fundo antes de continuar.
— Tempo. É isso que eu te quero dar. — explicou, encarando a vista à nossa frente — Tempo para tu não teres de decidir nada agora… para falares o que estás a sentir sem precisares de organizar em palavras bonitas.
As palavras dele entraram em mim devagar, como se encontrassem um lugar que já estava cansado de resistir. Seguiu-se um longo silêncio, mas por fim, a minha voz acabou por se anunciar numa frequência baixa, quase rouca.
A frase não disse tudo.
Mas disse o suficiente.
— Eu estou exausto — confessei. — De tentar ser coerente o tempo todo, de caber em versões diferentes de mim, sinto-me… cansado.
Mathew manteve-se quieto. O silêncio dele não pedia mais, apenas sustentava.
Passei a mão pelo joelho, um gesto pequeno, quase automático.
— Há relações que não acabam — comecei, sem olhar para ele. — Só mudam de temperatura. E ninguém nos ensina o que fazer quando isso acontece.
Respirei fundo.
— Eu ainda estou lá. — acrescentei. — Presente. Envolvido. A tentar não falhar.
Levantei o olhar por um instante.
— Mas às vezes sinto que estou a proteger algo que já não reage ao toque da mesma maneira.
As palavras ficaram suspensas entre nós. Engoli em seco antes de continuar.
— Não tenho medo de perder. — disse, com honestidade cansada. — Tenho medo de ficar preso a uma versão antiga… só porque um dia foi segura.
O vento atravessou o parque, leve. Mathew não desviou os olhos de mim.
— E estar aqui contigo… — hesitei, escolhendo cada sílaba — não me pede que eu finja que isso não existe. Só me deixa… respirar.
A frase não disse tudo.
Mas disse o suficiente.
Mathew não desviou o olhar. O rosto dele estava atento, quase suave.
— Eu percebo.
— Eu amo o Allan — continuei, sentindo a garganta apertar. — Mas tenho medo de estar preso a algo que já não é igual e isso assusta-me mais do que a ideia de o perder.
O vento passou entre as árvores, leve, parecia um gesto cúmplice.
Mathew aproximou-se um pouco mais. Não me tocou. Mas a distância diminuiu o suficiente para que eu sentisse a respiração dele mudar, mais lenta e mais consciente.
— Facilidade não diminui a intensidade — disse, baixo. — Às vezes só a torna mais perigosa.
Eu não respondi.
— Isso que estás a dizer — começou novamente, com a voz baixa, estável — não me soa a falta de sentimento.
Virou-se um pouco mais na minha direcção, sem invadir o espaço.
— Soa a alguém que ainda está inteiro dentro de algo… mas já não sabe se cabe lá da mesma forma.
Fez uma pausa curta.
— E eu não quero ser a pessoa que interpreta isso como um convite.
Ele fez uma pausa, pude ver a ajustar-se no banco como quem procura palavras.
— O problema, Adrian… — começou, com a voz baixa — é que já há algum tempo que uma parte de mim quer interpretar isso dessa forma.
Não houve sorriso. Só franqueza.
Virou ligeiramente o rosto para a frente, como se precisasse de não me encarar enquanto dizia aquilo.
— E eu passo mais tempo do que gostaria a lembrar-me de não o fazer.
Respirou fundo, lento.
— Não porque eu ache que estejas a prometer-me alguma coisa… mas porque eu sei exactamente onde isso me colocaria.
Olhou-me então, os olhos verdes firmes, sem expectativa.
— Por isso é que eu preciso de ser cuidadoso contigo. E comigo.
Fez uma pausa curta, quase um sorriso sem humor.
— Se eu me permitir confundir o que estás a dizer com um convite, deixo de estar a ouvir-te. E eu não quero isso.
O silêncio assentou entre nós, carregado mas limpo.
— Eu prefiro ficar aqui — acrescentou, mais baixo — enquanto ainda somos capazes de parar.
Os olhos verdes mantiveram-se firmes nos meus, sem cobrança.
— Eu não preciso que tu decidas nada hoje — continuou. — Nem amanhã. Nem comigo.
O canto da boca dele curvou-se num sorriso quase imperceptível.
— Só preciso de saber que, quando estiveres aqui… não estás a ensaiar uma saída de outro sítio.
O silêncio caiu, denso mas limpo.
Mathew recostou-se ligeiramente no banco, devolvendo-me espaço.
— Se isto for só um lugar para pousar a cabeça por uns minutos — concluiu — eu aceito. — Mas não quero ser o sítio onde tu foges para não sentires o resto.
O silêncio que se seguiu foi denso. Eu sentia o corpo reagir antes da cabeça. O calor a subir, o coração a bater mais lento e mais forte ao mesmo tempo. Os olhos dele desceram por um instante, até à minha boca, antes de voltarem aos meus.
Ele inclinou-se. Devagar. Sem pressa, dando-me todo o tempo do mundo para decidir.
A minha boca aproximou-se da dele, separada por alguns milímetros. Foi uma aproximação consciente, carregada de desejo contido. Eu sentia o ar entre nós aquecer. Sentia a vontade clara, presente, quase palpável. E por um segundo, eu quis.
Quis ceder. Quis esquecer. Quis não pensar em consequências.
Mas recuei.
Um movimento mínimo, mas que desenhou um limite delicado.
Mathew parou imediatamente. Não houve frustração no rosto dele. Apenas respeito, ainda que houvesse ali algo, uma expectativa de que pudesse reconsiderar o gesto.
— Tudo bem — disse, com um sorriso baixo mas íntimo. — Saber parar também faz parte do charme.
Respirei fundo.
— Obrigado.
Ele afastou-se apenas o suficiente para devolver espaço, mas não distância.
— Quando tu estiveres pronto para não fugir — acrescentou com suavidade — vais saber.
Ficámos ali mais um tempo, sentados, a partilhar o silêncio que agora tinha outra textura. Nada foi resolvido. Nada foi quebrado. Mas algo tinha sido despertado.
E eu sabia que, depois daquele quase-beijo, nada dentro de mim voltaria exactamente ao lugar de antes e por isso, quando voltei para casa, fi-lo com uma frase a repetir-se na minha cabeça como um ensaio mal feito: preciso ser sincero com o Allan.
Não era uma decisão impulsiva. Era uma sensação de urgência silenciosa, quase ética. Eu caminhava com os ombros tensos, a mandíbula ligeiramente contraída, como se o corpo estivesse a preparar-se para um impacto inevitável.
Quando destranquei a porta, porém, algo no ambiente já estava errado. Ou, sendo mais específico, certo demais.
A luz da cozinha estava acesa, mais forte do que o habitual. Havia música a tocar, não alta, mas presente, a preencher o espaço com um ritmo leve demais para uma noite comum. Antes mesmo de largar as chaves, ouvi passos rápidos e um assobio fora de tom.
Allan apareceu na entrada da cozinha com um sorriso aberto, quase juvenil. O corpo dele parecia mais solto, a postura menos contida do que nos últimos dias. A camisa estava arregaçada até aos cotovelos, e havia uma mancha pequena de molho perto do punho, como se ele tivesse esquecido completamente de se vigiar.
— Tu não vais acreditar — disse, a voz levemente mais aguda do que o normal, carregada de expectativa.
Ele aproximou-se sem hesitar, inclinando-se para me dar um beijo rápido junto aos meus lábios. O gesto foi espontâneo e caloroso, a roçar quase o ansioso. As mãos dele estavam quentes, cheiravam a alho e azeite, e demoraram um segundo a mais nos meus ombros.
— O meu pai… — continuou, antes mesmo de eu poder responder — ele promoveu-me. Gerente executivo.
A palavra executivo saiu com cuidado, como se ele ainda estivesse a testar o peso dela no ar.
Senti o estômago afundar num reflexo imediato. Claro que isto tinha de vir no timing.
Forcei um sorriso, consciente de cada músculo do rosto.
— Allan… isso é incrível.
E era. Via-se nos olhos dele, mais brilhantes do que o habitual, no jeito como ele não conseguia ficar parado, deslocando-se pela cozinha enquanto falava, como se a energia não coubesse inteira no corpo.
— Ele disse que eu merecia — acrescentou, agora mais baixo, quase como um segredo — Que estava na hora de reconhecer o meu esforço.
Ao dizer reconhecer, os ombros dele endireitaram-se instintivamente, como alguém que finalmente recebe permissão para ocupar o espaço que sempre achou que precisava justificar. Allan voltou-se para o fogão, mexendo a panela com atenção exagerada, mas o sorriso não lhe saía do rosto. Cada gesto era mais largo e mais confiante. Ele falava enquanto cozinhava, virando-se para mim a cada frase, como se quisesse confirmar que eu ainda estava ali, a assistir a tudo.
— Isso muda muita coisa, Adrian — disse, apoiando a colher na borda da panela e encostando-se ao balcão. — A gente pode pensar agora em grande. Talvez outro apartamento… ou aquelas férias na Europa.
Ele inclinou ligeiramente a cabeça ao dizer isso, o tom a suavizar.
— Lembras-te do que a gente planeou na formatura? — continuou. — Tu querias ir aos museus de Paris, e eu queria ir a Itália.
Lembrava. A memória veio inteira demais, com um peso quase cruel.
— Lembro — respondi.
A minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia. Allan percebeu.
Ele parou o que estava a fazer. O corpo inclinou-se levemente na minha direcção, os olhos a avaliarem-me com atenção nova. A alegria não desapareceu, mas ganhou cautela.
— Tu estás… estranho — disse, mas sem acusação. — Meio distante.
Passei a mão pela nuca, um gesto automaticamente coreografado.
— Estou só cansado.
Ele franziu o cenho de leve, como quem não aceita totalmente a resposta, mas não quer pressionar. Aproximou-se e tocou no meu braço com cuidado, os dedos firmes, quentes.
— É por causa de ontem, não é?
Assenti, mais por falta de alternativa do que por concordância real.
Allan suspirou, um suspiro longo e organizado. Passou a mão pelo cabelo, desmanchando-o ligeiramente, um gesto que ele sempre fazia quando precisava assumir algo.
— Eu pensei muito nisso hoje — disse, o tom agora mais baixo, mais íntimo. — Fui injusto contigo. Aquela coisa com o Mathew… eu exagerei.
O nome caiu pesado demais no meio da cozinha.
— Eu confio em ti — acrescentou, com firmeza. — A sério. Fiquei inseguro, mas isso é um problema meu. Não teu.
Ele aproximou-se mais um passo, diminuindo a distância entre nós. O olhar era aberto, sincero, quase vulnerável.
— Desculpa por ter trazido isso para cima de ti.
A palavra confio ecoou dentro de mim como um peso adicional, quase físico. Senti o peito apertar e a respiração encurtar no mesmo segundo.
— Não precisavas… — murmurei.
— Precisava, sim — respondeu ele, sem elevar a voz, mas com convicção. — Tu sempre estiveste comigo. Nunca me deste motivo para duvidar.
O sorriso que surgiu então não era o sorriso eufórico de antes. Era menor, mais contido, mais nosso. Aquele que sempre me desmontava.
A ansiedade subiu em ondas. O corpo quente demais. Porém as mãos permaneciam frias.
Eu quase tinha beijado outra pessoa naquele mesmo dia.
Allan virou-se de novo para o fogão, retomando o jantar com um cuidado quase cerimonial.
— O jantar está quase pronto — disse. — Hoje é dia de comemorar. Nós merecemos.
Nós.
Encostei-me ao balcão, a observá-lo mover-se pela cozinha com uma felicidade que parecia merecida, cuidadosamente construída ao longo de anos. Cada gesto dele falava de futuro, de estabilidade, de planos que se encaixavam.
E eu sentia, com uma clareza desconfortável, que a sinceridade que eu tinha decidido oferecer agora não seria apenas difícil.
Seria devastadora.
E naquela cozinha iluminada demais, cheia de música e promessas, percebi que às vezes a verdade não chega tarde... às vezes ela chega cedo demais.
No dia seguinte Valentina não pediu, apenas anunciou.
— Às dezasseis horas — disse, passando por mim com o tablet encostado ao peito, sem diminuir o passo. — Fundação Armand Rêve. Apresentação privada do novo recorte do acervo. Curadores, directores criativos, financiadores silenciosos. Gente que observa antes de falar. — Parou no meio do corredor. Apenas um segundo. O suficiente para que o espaço inteiro prendesse a respiração. — Quero você comigo — virou-se ligeiramente, os óculos escuros a esconderem qualquer reacção que eu pudesse interpretar. — Leslie também.
E seguiu.
Fiquei parado alguns segundos depois de ela desaparecer no fundo do atelier. Não por dúvida, mas pelo peso exacto do convite. Aquilo não era exposição casual, mas sim uma validação selectiva da minha pessoa perante ela.
Leslie aproximou-se com a tranquilidade de quem já reconhecia aquele ritual.
— Não é um evento — murmurou. — É um teste social.
— Para mim? — perguntei, mas ele apenas deu um sorriso de canto.
— Para todos.
O resto da tarde passou com uma estranha sensação de contenção. O atelier fervilhava, mas eu estava noutra cadência. Às quinze e quarenta, troquei o casaco, verifiquei o relógio e segui com Leslie até ao carro. O céu estava claro demais para um evento que prometia densidade.
A Fundação Armand Rêve ocupava um antigo palacete adaptado: pedra clara, janelas altas, portas que se abriam sem ruído. Demorámos mais de uma hora a chegar. Àquela hora, a luz entrava oblíqua pelos vitrais, a desenhar recortes dourados no chão de madeira encerada. Nada ali parecia casual, nem mesmo o próprio tempo.
Valentina entrou primeiro. Eu e Leslie seguimos a um passo de distância. O protocolo invisível que ela ensinava sem nunca verbalizar, eu já o tinha decorado de forma quase matemática.
O ambiente era contido. Conversas em tom baixo, copos pequenos, gestos mínimos. As pessoas observavam mais do que falavam. Obras de arquivo surgiam em vitrinas abertas, acompanhadas por textos curtos, quase austeros. O luxo ali era a edição.
— Observe antes de existir — murmurou Leslie, sem me olhar. — Depois, deixe que notem.
Assenti.
Valentina já conversava com um conselho de curadores. Não me apresentou de imediato. Deixou-me ali, a circular, a medir o espaço. Eu sentia o corpo responder bem: postura aberta, movimentos precisos, voz guardada. Aquele lugar não pedia brilho. Pedia leitura.
Em determinado momento, um curador aproximou-se. Depois, uma directora de comunicação. Mais adiante, um investidor italiano, olhar clínico, sorriso económico.
— Adrian — disse Valentina, num gesto mínimo. — Curadoria visual e desenvolvimento.
Nada mais, mas era o suficiente.
Eu sentia, com estranheza calma, que sabia exactamente como estar ali. Onde posicionar o corpo, como sustentar o olhar, quando falar e quando apenas escutar. Não havia esforço, apenas um aprendizado que nem eu reconhecera de onde vinha.
E, para meu azar, foi quando o vi.
Mathew estava alguns metros à frente, a conversar com um homem mais velho, ambos a observar uma das peças com atenção quase reverente. O corte do blazer caía com naturalidade sobre os ombros, estruturado o suficiente para impor presença, leve o bastante para parecer despretensioso. A camisa clara reflectia a luz da tarde com suavidade, e havia algo naquele contraste — o rigor da roupa com a maneira relaxada como ele ocupava o corpo.
Leslie percebeu antes de mim.
— Claro — murmurou, com um meio sorriso quase imperceptível. — Ele pertence a este circuito.
Havia provocação na frase. Olhei na direcção dele, mas ele apenas levantou as sobrancelhas como se não tivesse dito nada demais. Mathew virou-se então, como se sentisse o olhar. Quando me viu, não reagiu de imediato. Apenas sustentou o contacto visual por um segundo a mais, o suficiente para reconhecer e respeitar o contexto.
Depois, aproximou-se.
— Adrian — disse, num tom perfeitamente adequado ao espaço. — Não sabia que vinhas.
— Também não sabia que estarias aqui — respondi.
O sorriso dele foi contido, recheado de um profissionalismo nato, mas os olhos diziam outra coisa, quase a pedir atenção plena, sem qualquer invasão.
— Trabalho — disse ele. — Sempre ele.
— Sempre — concordei com um sorriso que não consegui conter.
Ele sorriu de volta e afastou-se, indo conversar agora com uma mulher alta, de porte elegante.
Eu sentia o olhar de Mathew mesmo quando não estava a olhar directamente para ele.
Era uma presença constante, discreta, quase educada demais para ser ignorada. A cada vez que os nossos olhares se cruzavam de novo, havia um reconhecimento silencioso, um acordo implícito de que nada precisava acontecer para que tudo estivesse a acontecer.
Foi então que percebi que não era o único a notar.
Leslie aproximou-se do meu lado sem anunciar a chegada, como sempre fazia quando queria observar sem interferir. A postura dele era relaxada, mas o olhar percorria o espaço com precisão quase tão analítica quanto a de Valentina. Ele não olhou imediatamente para Mathew. Primeiro, olhou para mim.
— Interessante — murmurou, baixo, quase como um comentário para si mesmo.
Mantive o olhar à frente, fingindo observar uma das peças do arquivo.
— O quê? — perguntei, num tom neutro demais para ser inocente.
Leslie inclinou levemente a cabeça na direcção oposta, apenas o suficiente para indicar sem apontar.
— A maneira como perde o foco por exactamente três segundos — disse. — Sempre que ele entra no seu campo de visão.
O comentário foi feito com elegância cruel. Não havia julgamento, mas a típica leitura do ambiente; algo em que Leslie era quase um especialista.
Senti o rosto aquecer levemente.
— Você está a exagerar.
— Estou a ser gentil — corrigiu ele. — Se eu estivesse a exagerar, teria mencionado a mudança na sua postura. — concluiu — Ombros mais direitos. Respiração diferente.
Soltei um suspiro curto, quase irritado.
— Leslie…
Ele ergueu uma mão, interrompendo-me antes que eu pudesse formular uma defesa.
— Não estou a acusar — disse. — Estou a observar, é o meu trabalho, lembra? — a boca formou um falso sorriso inocente — E, francamente, é raro ver o menino assim. Normalmente é o mundo a impressioná-lo. Hoje, é o contrário.
Antes que eu pudesse responder, senti uma mudança no ar. Uma pressão súbita, quase física.
Valentina aproximava-se.
Não era preciso olhar para saber. O espaço reorganizava-se à volta dela, como sempre. Conversas baixavam de volume e os corpos ajustavam-se. Presenças recuavam meio passo, tudo para que a sua figura magnânima pudesse existir sem obstáculos.
— Adrian.
O meu nome foi dito com precisão absoluta.
Virei-me imediatamente.
Valentina estava a poucos passos de distância, postura impecável, expressão indecifrável por trás dos óculos escuros. O olhar passou rápido por Leslie, depois voltou-se para mim.
— Quero apresentá-lo a alguém — informou, fazendo-me sinal com um gesto gracioso de dois dedos para que a seguisse — Agora.
— Claro — respondi, endireitando-me de imediato.
Leslie deu um passo atrás, quase invisível, reassumindo o papel de observador.
Enquanto eu acompanhava Valentina, senti, mesmo sem olhar, o peso do olhar de Mathew sobre mim por um último instante. Não como despedida, mas uma continuidade quase perigosa. Valentina caminhava com segurança, sem pressa. Aproximou-se de um pequeno grupo e virou-se para mim.
— Concentre-se — disse, baixo, apenas o suficiente para eu ouvir. — O resto pode esperar.
Assenti.
Mas enquanto eu estendia a mão para cumprimentar alguém cujo nome eu precisava memorizar, uma certeza instalava-se com clareza desconfortável:
Leslie tinha visto, Valentina tinha interrompido, mas nada ali tinha sido desfeito.
Nada de vitrinas didácticas ou textos explicativos. O espaço tinha sido transformado num percurso contínuo, quase teatral, onde as peças surgiam em modelos vivos, a caminhar lentamente entre os convidados. Não havia passarela elevada; aliás, a intenção era outra. Aproximação. Um confronto directo entre roupa, corpo e olhar.
O desfile avançava sem necessidade de clímax.
Modelos surgiam e desapareciam como ideias bem formuladas: sem excesso, sem pedido de atenção. A luz da tarde entrava oblíqua pelas janelas altas, a desenhar sombras que valorizavam o movimento dos tecidos, não os corpos. Ali, o protagonismo era sempre da roupa — quem olhasse para outra coisa estava simplesmente mal treinado.
Valentina observava em silêncio.
As mãos pousadas à frente do corpo, postura impecável, o rosto imóvel. Não reagia às peças boas. Não reagia às menos boas. O olhar dela funcionava como um scanner constante, absorvendo tudo, sem devolver nada. Eu mantinha-me meio passo atrás. A distância exacta. Uma modelo passou usando um vestido estruturado, com recortes quase imperceptíveis na lateral. O tecido respondia à luz de forma inteligente, criando profundidade sem brilho. Valentina inclinou a cabeça, apenas um milímetro.
— Anote — disse, sem olhar para mim.
Não explicou o quê, mas também não precisava.
Assenti de imediato, registando mentalmente a peça, o corte, o ritmo do caminhar. Aquilo era o mais próximo que ela chegava de um comentário.
Seguimos alguns passos.
— Repare — acrescentou, num tom neutro — como o silêncio está a funcionar melhor do que a faixa sonora.
Era uma observação exacta, totalmente desprovida de aprovação. Mas o facto de ela verbalizar aquilo dizia mais do que qualquer elogio possível.
Leslie aproximou-se discretamente do meu lado.
— Isso — murmurou — foi um convite.
Eu não respondi.
Foi nesse momento que senti, de novo, a alteração no ar.
Mathew estava agora mais próximo do percurso, a observar uma das últimas entradas com atenção absoluta. A luz natural favorecia-lhe o rosto de um jeito quase injusto. O corte simples da roupa, a camisa aberta no primeiro botão, o blazer sem rigidez — tudo nele parecia pensado para não parecer pensado. Endireitei os ombros. Mudei ligeiramente o apoio do peso. A respiração ficou mais consciente. Não por vaidade, mas por reconhecimento. Como se o corpo soubesse que estava a ser visto — não observado, visto.
Os nossos olhares cruzaram-se outra vez.
Não houve sorriso imediato. Primeiro veio a leitura. Depois, um pequeno aceno quase imperceptível. Profissional, mas ainda assim, correcto. Mas havia algo ali por baixo, contido, denso.
Leslie notou antes de eu tentar disfarçar.
— Não se mexa — murmurou, sem me olhar. — Está bem visível quando tenta esconder.
— Não estou a esconder — respondi, baixo.
— Ainda não — corrigiu.
Antes que eu pudesse reagir, Valentina falou de novo.
— Adrian. — O meu nome foi dito num tom perfeitamente neutro. Ainda assim, o espaço em volta pareceu encolher.
Virei-me de imediato.
Ela não me olhou nos olhos. Olhou para além de mim, para um pequeno grupo que se aproximava do final do percurso.
— Venha — disse. — Este é o momento em que as pessoas decidem se lembram ou não.
Não disse de você.
Disse das coisas.
Caminhei ao lado dela. A postura direita, o rosto calmo, onde cada passo parecia pesado de significado. Valentina parou diante de duas mulheres e um homem. Todos discretamente importantes. Nenhum deles parecia precisar provar isso.
— Estamos a observar — disse Valentina, dirigindo-se ao grupo. — Não a validar.
Ela virou ligeiramente o rosto para mim.
— O que vê — perguntou — sem entusiasmo?
A pergunta era uma armadilha elegante.
Observei o desfile a encerrar. A última peça surgia sem dramatização, quase em silêncio.
— Vejo uma colecção que não pede adesão imediata — respondi apenas — Confia que será entendida depois.
Valentina não reagiu, mas também não concordou ou discordou. Apenas ficou em silêncio por um segundo a mais do que o normal.
Depois, virou-se para o grupo.
— Exatamente — disse.
Não para mim.
Para eles.
Senti o impacto tardio da frase.
Seguimos adiante. O desfile terminava. As pessoas começavam a mover-se de novo, como se o feitiço tivesse sido levantado.
Valentina caminhava à frente. Leslie ao meu lado.
— Percebe agora? — disse ele, baixo. — Ela não te valida. Ela usa-te como argumento.
Olhei uma última vez para o espaço do desfile.
Mathew estava ali, a conversar com alguém, mas o olhar voltou-se para mim por um instante curto. O suficiente para dizer: eu vi.
E eu percebi, com uma clareza desconfortável, que naquele evento não estava apenas a ser observado como profissional.
Estava a ser lido.
Por Valentina, por Leslie, e por alguém que, perigosamente, sabia exactamente como aquilo me afectava. Houve apenas aquele breve intervalo de silêncio respeitoso, seguido pelo som contido de conversas que retomavam lentamente, como se ninguém quisesse ser o primeiro a quebrar o encanto. Os modelos desapareceram por onde tinham surgido. A luz manteve-se estável, sem dramatizações finais. Era um encerramento pensado para quem entende que impacto não precisa de barulho.
Valentina não se moveu de imediato.
Permaneceu imóvel por alguns segundos, os olhos fixos no espaço agora vazio, como se estivesse a observar algo que já não estava ali. Só então virou-se, com a mesma elegância de sempre, e ajustou levemente o casaco.
Um dos organizadores aproximou-se quase em reverência contida.
— Valentina — disse, num tom cuidadosamente neutro. — A sala vermelha está pronta.
Ela assentiu com um movimento mínimo da cabeça. Não perguntou o que era. Não precisava.
— Adrian — disse, já a dar o primeiro passo. — Fique.
Não foi uma ordem ríspida, apenas uma decisão encerrada.
Ela afastou-se acompanhando o organizador por um corredor lateral, desaparecendo por uma porta discreta, guardada mais pela linguagem corporal de quem a rodeava do que por qualquer segurança visível.
Fiquei parado por um instante, sentindo o vazio que a presença dela deixava quando se retirava de um espaço.
— Sala vermelha? — perguntei, ainda a observar o corredor.
Leslie surgiu ao meu lado como se sempre tivesse estado ali. Ajustava os botões do casaco com calma, o rosto carregando aquele meio sorriso que nunca era gratuito.
— Poucos entram — respondeu. — Menos ainda saem iguais.
Virei-me para ele.
— O que acontece lá dentro?
Ele inclinou levemente a cabeça, como quem considera a melhor forma de dizer algo que não vai explicar de verdade.
— Negócios — disse simplesmente, num encolher de ombros, como se constatasse o óbvio.
Depois acrescentou, com sarcasmo elegante:
— Do tipo que não aparece em revistas, mas decide o que vai aparecer nelas nos próximos cinco anos.
Cruzou os braços, observando o movimento à nossa volta. Pessoas importantes dispersavam-se em pequenos grupos, copos nas mãos, sorrisos calculados, trocas de cartões discretas demais para parecerem inocentes.
— Pessoas influentes discutem o destino das marcas — continuou ele — Quem cresce. Quem é comprado. Quem desaparece com dignidade suficiente para parecer escolha própria.
Engoli em seco.
— E nós? — perguntei. — O que fazemos agora?
Leslie olhou para mim, arqueando uma sobrancelha com diversão genuína.
— Nós? — repetiu Leslie com leveza e um brilho satisfeito a carregar-lhe os olhos — Vamos apreciar o champanhe.
Fez um gesto amplo em direcção a uma mesa lateral onde flutes perfeitamente alinhadas aguardavam mãos que soubessem segurá-las sem ansiedade.
— Porque, ao contrário do que muitos pensam — acrescentou, já a caminhar — observar também é uma forma de poder.
Pegou em duas taças e entregou-me uma.
— Além disso — disse, erguendo a dele com um sorriso divertido — é importante aprender a reconhecer o sabor da vitória antes que ela venha com obrigações.
A primeira abordagem não foi óbvia. Foi um deslocamento quase imperceptível no espaço à minha volta. Conversas que se aproximavam um pouco demais. Olhares que demoravam mais do que o socialmente confortável antes de se desviarem. Pessoas que avaliavam não só o que eu dizia, mas como eu segurava a taça.
Leslie afastou-se meio passo, o suficiente para me deixar exposto. Ao início pareceu um gesto de abandono, mas rapidamente percebi que, vindo dele, era mais uma opção estratégica.
— Não intervenha — murmurou, passando por mim. — Eles vêm quando acham que já não precisas de mediação.
Como se tivesse sido convocada por aquela frase, uma mulher aproximou-se. Cabelo preso de forma impecavelmente descuidada, blazer claro, postura de quem não pede licença para ocupar espaço.
— Adrian, certo? — disse, com um sorriso educado demais para ser casual.
Assenti, endireitando levemente os ombros.
— Sim.
— Clara Montalban. — Não estendeu a mão de imediato. Observou primeiro. — Comunicação estratégica. Trabalhei com três casas que já tentaram fazer o que a Bellière fez hoje.
A frase não era apresentação, era uma provocação descarada.
— Tentaram — respondi, mantendo o tom neutro.
O sorriso dela alargou-se um milímetro.
— Exacto. Tentaram.
Ela inclinou a cabeça na direcção do espaço do desfile, agora vazio.
— Vocês não pediram atenção. Isso é… raro.
Antes que eu pudesse responder, um homem juntou-se a nós. Mais velho, sotaque indefinido, porém um olhar treinado, como se a sua função fosse encontrar fragilidades.
— Não é raro — disse ele. — É caro.
Ele virou-se para mim.
— Você foi apresentado como alguém que entende contexto.
— Tento — respondi, tentando não soar prepotente.
— Não tente — corrigiu, com um meio sorriso. — Ou você entende, ou não estaria aqui.
Houve uma pausa breve. Aquela pausa em que se decide se alguém continua numa conversa ou é educadamente descartado.
— O que você achou do último bloco? — perguntou Clara, cruzando os braços.
A pergunta vinha carregada de armadilha. Opinião demais seria vaidade. Opinião de menos seria insegurança.
— Ele não encerrou — respondi. — Ele suspendeu. Isso exige confiança… e dinheiro.
O homem mais velho soltou um riso curto.
— Gosto de gente que não finge que moda não é economia.
— Moda é narrativa com orçamento — acrescentei. — Quem ignora isso costuma desaparecer cedo.
Clara observou-me por mais um segundo, depois apenas assentiu.
— Interessante — disse. — Valentina escolhe bem.
O elogio veio acompanhado de uma validação indirecta.
Mais pessoas começaram a aproximar-se. Um director criativo que falava pouco demais. Uma consultora de mercado que fazia perguntas simples demais para serem simples. Todos queriam algo diferente: medir-me, situar-me, perceber se eu era passageiro ou já parte da estrutura de Valentina Moreau.
E eu sentia, com uma clareza estranha, que não estava a representar, mas sim a responder como alguém que já fazia parte daquele círculo.
Em determinado momento, Leslie reapareceu ao meu lado, champanhe ainda intacto, o olhar divertido por trás da análise constante.
— Vejo que já começaram — disse, como quem comenta o tempo.
— Eles fazem perguntas como se não estivessem a fazer — respondi mais baixo, de maneira a que só ele ouvisse.
— Natural — replicou. — Aqui, curiosidade é uma forma educada de controlo.
Clara afastou-se com um aceno breve. O homem mais velho seguiu atrás, já a falar com outra pessoa. O espaço em redor reorganizou-se de novo. Foi quando o meu telemóvel vibrou.
Mathew.
Encontra-me lá fora, depois da entrada do staff.
Guardei o telemóvel sem responder.
Por um instante, limitei-me a observar o espaço à minha volta: as taças quase vazias, os rostos atentos demais, o modo como as pessoas importantes nunca parecem completamente relaxadas. Senti o peso do momento anterior ainda assentar, a sensação clara de ter sido visto, avaliado e finalmente considerado.
Leslie aproximou-se de novo, como se tivesse percebido a alteração mínima na minha postura. Ele não olhou para o telemóvel. Olhou para mim.
— Mensagem interessante? — perguntou, num tom leve demais para ser casual.
— Convite mal disfarçado — respondi, mantendo o olhar à frente.
Ele arqueou ligeiramente a sobrancelha, divertido.
— Os melhores são sempre assim.
— Não sei se—
— Não precisa saber agora — interrompeu, com aquela elegância que nunca era invasiva. — Só precisa decidir se vai fingir que não recebeu.
Expirei devagar. O corpo estava calmo, mas atento. Como antes de atravessar uma rua movimentada.
— Valentina ainda está na sala vermelha — acrescentei.
— Justamente — disse ele. — Este é o intervalo perfeito. Quando ninguém pergunta onde você foi, desde que esteja de volta no momento certo.
Olhei para ele.
— Você sempre sabe quando sair de cena.
— Sobrevivência, docinho — respondeu, num elegante abanar de ombros — E uma deliciosa noção de timing.
Hesitei por um segundo a mais do que o necessário. Não por medo. Era mais consciência do quão perigosa esta aventura se estava a tornar. Depois, peguei no telemóvel novamente e escrevi apenas:
Já vou.
— Vá — disse ele, dando um tapinha no meu braço — E lembre-se, fora daqui, você continua a ser o mesmo. Mas lá dentro… — fez um gesto vago com a mão — já não.
Assenti.
Caminhei em direcção à área reservada ao staff, passando por corredores menos iluminados, onde o glamour dava lugar à funcionalidade. Portas discretas. Vozes mais soltas. O som distante da cidade começava a infiltrar-se.
Ao empurrar a porta de serviço, a luz do fim de tarde atingiu-me de frente. O ar estava mais fresco, menos controlado. Ali fora, não havia passarela nem observadores questionáveis. E foi então que o vi. Mathew estava encostado a uma parede lateral, afastado da entrada principal, o casaco aberto, a postura relaxada demais para ser casual. Quando me viu, endireitou-se ligeiramente, não por nervosismo, mas por saber que era alvo da minha atenção.
— Obrigado por teres vindo — disse Mathew, a voz baixa, confortável naquele espaço longe do olhar treinado do evento. A área de serviço era crua, quase banal. Concreto, metal, o som distante da cidade a lembrar que o mundo continuava a existir fora daquele microcosmo de moda. Ali, tudo parecia menos encenado.
— Tu pediste como quem não queria pressionar — respondi. — Isso ajudou.
Ele inclinou levemente a cabeça, aceitando.
— Eu sei quando não é o momento de pedir mais.
Ficámos lado a lado por um instante, ambos encostados à parede, mantendo uma distância respeitosa. Ainda assim, a química estava ali, silenciosa e palpável como electricidade estática no ar.
— Estás bem? — perguntou ele, novamente.
A pergunta veio simples, sem segundas intenções aparentes.
Abri a boca para responder automaticamente, mas fechei de novo. Respirei fundo.
— Estou… a tentar estar — disse, por fim.
Mathew sorriu de leve, sem traços de ironia.
— Isso soa mais honesto.
Houve um silêncio confortável. Eu sentia o corpo mais solto ali, mas a mente perfeitamente alerta. A imagem de Allan surgiu sem esforço. Não como obstáculo, mas como uma constante lembrança da realidade. Como algo que fazia parte de mim.
— Eu tenho um namorado — voltei a insinuar o óbvio.
Mathew não se mexeu. Não mudou de expressão. Apenas assentiu lentamente, como alguém que já sabia.
— Eu sei — respondeu. — E isso importa.
Aquilo aliviou-me mais do que eu esperava.
— Não quero cruzar linhas — continuei, sentindo o peso das palavras. — Nem fingir que não sei onde estou.
Ele virou-se um pouco mais para mim, mas manteve a distância intacta.
— Flertar não é atravessar — disse, com um sorriso tranquilo. — É reconhecer e parar quando é preciso.
Soltei um suspiro curto, quase irritado comigo mesmo.
— Tu fazes parecer fácil.
— Não é fácil — respondeu. — É apenas uma escolha.
O olhar dele encontrou o meu com intensidade controlada. Havia desejo ali, sim. Mas havia, acima de tudo, respeito. Por um instante, o mundo pareceu suspenso. O corpo reconhecia a proximidade. A mente reconhecia o limite, mas a tensão? Essa vinha exactamente dessa coexistência. Quando dei por mim, estávamos frente a frente, mais próximos do que o contexto permitia.
Senti o impulso e dei meio passo atrás, desenhando novamente um espaço entre nós.
— Não é um não, mas…
Mathew sorriu. Um sorriso bonito, adulto, sem qualquer indício de frustração adquirida.
— É um “ainda não” — respondeu, com naturalidade serena. — E eu sei esperar sem cobrar.
Assenti, sentindo o peso e o alívio coexistirem.
— Obrigado — murmurei. — Por não me fazeres sentir errado.
— Tu não estás errado — disse ele. — Estás consciente. Isso é raro.
Ele afastou-se um passo, devolvendo-me o espaço por completo.
— Eu queria perguntar uma coisa — eu olhei-o. Ele estava desconfortável agora, as mãos pareciam não encontrar posição nos bolsos, e a boca oscilava entre linhas de quem não sabia o que dizer.
— Podes perguntar...
Deixei que o meu tom lhe desse abertura. Mathew deu uma risada nervosa antes de esfregar a mão no pescoço.
— Tu sabes que não és indiferente para mim — murmurou. Aquilo era novidade. Nunca pensei ver Mathew acanhado, ou pelo menos… nervoso. Sorri, tentando não demonstrar que ele estava ainda mais atraente. Ele continuava perdido em pensamentos, quase como se procurasse que palavras devia usar — E possivelmente estou a colocar-te numa posição delicada, mas...
— Hey... está tudo bem.
Isso pareceu tranquilizá-lo, porque no rosto dele formou-se um sorriso antes de continuar:
— Eu sou indiferente para ti?
A pergunta pairou sobre os dois... Os meus olhos encontraram-se com os dele, a analisar cada detalhe do rosto perigosamente perfeito. Os olhos dele mantinham-se fixos nos meus e parte de mim queria beijá-lo agora, mas ambos sabíamos que era impossível, derivado ao quão complexas as coisas eram.
Mathew não se mexeu. Só respirou mais fundo, como se estivesse à espera que eu dissesse algo que ele já tinha adivinhado.
— Podes responder? — a voz dele veio baixa, firme quase frustrada. — Eu odeio quando tu ficas a meio caminho.
Eu soltei um riso curto, nervoso.
— Tu não odeias. Tu gostas.
— Eu gosto quando tu admites. — ele corrigiu, com um sorriso mínimo. — E tu ainda não admitiste quase nada.
A minha garganta apertou.
Eu dei meio passo mais perto, só o suficiente para sentir o calor dele, e foi como encostar o dedo num fio desencapado: tudo em mim acordou. Mathew percebeu. Claro que percebeu.
— Não faças isso. — eu murmurei, mais pedido do que ordem.
— Isso o quê? — ele perguntou, inocente demais para ser honesto.
Eu olhei para a boca dele por um segundo, um segundo inteiro demais, e depois voltei ao olhar dele, irritado comigo.
— Ficar aí… como se eu pudesse esquecer que existes.
Mathew sorriu de lado, preguiçoso.
— Eu não estou a pedir para esqueceres nada... pelo contrário.
O silêncio entre nós não era vazio. Era cheio. Cheio do que não se dizia e do que se evitava dizer.
Eu respirei fundo, e pela primeira vez decidi ser honesto comigo mesmo.
— Tu não me és indiferente — sussurrei.
A palavra “indiferente” parecia pequena demais para o que eu sentia, mas era a única que eu conseguia dizer sem perder o chão.
Senti a respiração dele aproximar-se da minha.
— Eu sei. — Mathew respondeu, sem vaidade, só uma certeza provocadora — Eu vejo isso no teu corpo antes de tu abrires a boca.
Eu fechei os olhos por um instante, como se aquilo me irritasse.
— Não digas coisas assim.
— Porquê? — ele perguntou, o tom suave, mas o olhar preso no meu. — Porque te assusta… ou porque é verdade?
Eu abri os olhos.
— Porque eu ainda tenho coisas para resolver.
Mathew assentiu, devagar, como se aquela frase fosse a única parte que lhe custava ouvir.
— Eu sei.
Fiquei a olhar para ele, e a minha voz saiu mais baixa do que eu queria:
— Se fosses indiferente, eu não estaria aqui agora… mas eu preciso resolver as coisas primeiro.
Mathew aproximou-se até o corpo dele encostar no meu. Não foi um abraço, foi um aviso silêncioso de proximidade. Ainda assim, ele manteve a distância entre os nossos rostos, como se estivesse a segurar-se por nós dois.
— E o que é que tu achas que eu quero? — ele perguntou, quase num sussurro. — Que tu saltes por cima de tudo e finjas que não existe nada lá fora?
Eu hesitei.
— Parte de mim acha que tu gostavas.
Mathew soltou um riso baixo, sem humor.
— Parte de mim gostava, sim. — ele admitiu. — A outra parte… a parte que presta atenção… sabe que tu ias arrepender-te.
A honestidade dele bateu-me num lugar estranho, porque não era uma provocação. Era um cuidado disfarçado.
— Tu estás a ser… razoável — eu disse, erguendo uma sobracelha desconfiada.
— Não te habitues. — ele respondeu, mas os olhos dele suavizaram. — Eu só não quero que tu uses isto como desculpa para fugires.
Eu engoli seco.
— Eu não estou a fugir.
Mathew inclinou a cabeça, como se me estivesse a medir.
— Ainda não. — ele disse. — Mas estás a um passo de começar a chamar “responsabilidade” ao que, no fundo, é medo.
Eu soltei um riso fraco.
— Tu és irritante.
— Eu sou paciente. — ele corrigiu. — Irritante é quando eu deixo de o ser.
O meu coração bateu mais forte, e eu odeiei o quanto isso me afectava.
— Não faças isso comigo agora.
— Eu não estou a fazer nada. — Mathew disse, baixo, e aproximou a boca do meu ouvido sem tocar. — Tu é que estás a fazer tudo contigo mesmo.
A frase arrepiou-me inteiro.
Eu puxei o ar e tentei recuperar o controlo com ironia, o meu último colete salva-vidas.
— Então o que é que tu queres que eu faça?
Mathew não respondeu logo. Ele olhou para a porta. Depois voltou a olhar para mim.
— Vai. — acenou de volta para a porta de onde eu tinha saído. — O teu lugar ainda é lá dentro. E eu não quero ser o motivo de saíres antes da hora.
Eu sorri. Não conseguia não o fazer.
— Isso é muito nobre da tua parte.
Mathew deu um sorriso que parecia quase terno, quase perigoso.
— Não é nobreza. — ele disse. — É estratégia.
— Estratégia?
— Sim. — ele aproximou-se um pouco mais, só um pouco, e os olhos dele ficaram fixos nos meus. — Porque eu prefiro que tu voltes lá para dentro com a cabeça no lugar… do que voltes para mim depois a odiar-me por eu ter sido fácil demais.
A minha garganta apertou.
— Tu achas que eu ia odiar-te?
Mathew abanou a cabeça.
— Não. — ele respondeu. — Eu acho que tu ias odiar-te a ti. E eu não vou ser esse gatilho.
O silêncio ficou um segundo inteiro entre nós.
Depois ele acrescentou, mais baixo:
— Mas não me testes demais, Adrian.
Eu senti a minha boca abrir num sorriso nervoso.
— Isso foi uma ameaça?
Mathew inclinou a cabeça.
— Foi um aviso. — e o sorriso dele subiu. — Eu já estou a ser bem comportado há tempo demais.
Eu ri baixo, e antes que eu entrasse pela porta, eu disse a verdade mais simples que eu conseguia:
— Vemo-nos depois.
Mathew sustentou o meu olhar.
— Eu sei.
Abri a porta de serviço e a luz controlada do evento voltou a envolver-me.
E mesmo de costas, eu ainda sentia o olhar dele preso em mim, como uma mão que não toca, mas que me segurava com força demais.
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