Dolce & Desastre

12 Dolce & Camomila


O estacionamento subterrâneo da Fundação Armand Rêve parecia uma extensão da própria instituição: betão polido, luz branca e fria, e o silêncio de um lugar onde tudo é vigilância. Até os passos soavam diferentes ali em baixo: mais altos, quase culpados. O ar tinha aquele cheiro de motores e pedra húmida, e eu sentia a roupa do evento ainda colada ao meu corpo como um lembrete.

O carro de Valentina aguardava com o motor ligado, vidros escuros, e o motorista era menos uma pessoa e mais um componente do sistema: presença silenciosa, funcional. A porta abriu-se sem ruído, e eu entrei como quem entra num elevador. Em silêncio. Na ordem certa. Com a postura exigida, mesmo quando a cabeça era um caos.

Valentina já estava sentada, impecável, o tablet apoiado nas pernas como se fosse parte do corpo. Nem sequer pareceu ajustar o casaco. Ela nunca ajustava nada, tudo já vinha impecável de origem. Os óculos escuros permaneciam no rosto, apesar de o subsolo não exigir protecção nenhuma contra a luz. Leslie sentou-se à frente, ao lado do motorista, e eu fiquei atrás, sozinho naquele banco, com a sensação absurda de que o espaço inteiro me avaliava… e com a dúvida de onde, exactamente, Valentina tinha posto os olhos: no meu cabelo, no meu rosto, na minha roupa.

O couro estava frio contra as minhas costas. Apoiei as mãos nas coxas, dedos esticados, como quem tenta não trair o próprio nervosismo com um tremor pequeno demais para ser desculpável.

As portas fecharam-se.

O som foi seco e controlado. E, por um instante, foi como se o mundo lá fora tivesse deixado de existir.

Leslie falou primeiro, sem se virar, no tom de quem comenta o trânsito.

— Ele foi à casa de banho. — Uma pausa breve, calibrada. — Demorou mais do que o esperado.

A mentira entrou no carro como uma nota musical perfeitamente afinada. Não soou agressiva, nem teatral. Apenas… útil.

Valentina não levantou os olhos do tablet.

— Claro — respondeu.

Uma única palavra. Mas eu conhecia o suficiente para sentir as camadas.

Não era um “claro” de acreditar. Era um “claro” de não me obrigues a pensar nisso agora. Era o “claro” de quem decide, por pura autoridade, que a verdade pode esperar. E isso, de um jeito estranho, foi pior do que qualquer reprimenda.

Significava duas coisas: ela percebeu a falha. E arquivou-a.

O carro começou a mover-se, lento, acompanhando as curvas do subsolo. O som do motor era suave e, ainda assim, eu sentia cada mudança de inclinação, cada vibração a subir pelas minhas pernas. As lâmpadas passavam pelo vidro como flashes lentos e eu senti-me preso dentro de um filme demasiado bem iluminado para esconder qualquer coisa.

Durante alguns segundos, ninguém disse nada.

Pensei no que tinha acontecido lá fora. No ar mais fresco. Na banalidade daquela parede de serviço. E em como, ali, eu tinha sentido uma liberdade perigosa. Não porque tivesse feito algo, mas porque me tinha permitido querer. E querer, para mim, já parecia um desvio.

Os meus pensamentos foram interrompidos quando Valentina falou sem aviso — voz baixa e plana, como se continuasse uma conversa que só existia na cabeça dela.

— Foi notado.

O meu corpo reagiu antes da mente. Um aperto curto no peito, como se a frase tivesse sido colocada exactamente onde dói. E ao mesmo tempo, um calor desconfortável a subir pelo pescoço — aquele lado agridoce: a parte de mim que se orgulha por ter sido visto por quem sabe ver… e a parte que entende que isso reduz espaço, margem, perdão.

Endireitei as costas num reflexo quase automático. Meio submissão, meio instinto de sobrevivência. Como se o meu corpo quisesse provar que merecia aquele lugar.

— Entendido — respondi, e a minha voz saiu mais controlada do que eu me sentia.

Valentina pousou o tablet devagar ao lado, finalmente a conceder ao momento a dignidade de um gesto. Cruzou as mãos, dedos longos, postura perfeitamente centrada.

— Não confunda visibilidade com liberdade — acrescentou. — Quanto mais se é visto, menos espaço existe para improviso.

Disse “improviso” como quem diz “desleixo”.

Engoli em seco. Observei o reflexo dela no vidro: a linha firme do maxilar, a boca imóvel, a expressão que não oferece migalhas. E pensei — com uma clareza quase gélida — que Valentina não estava a falar do evento. Estava a falar de mim. Do meu lugar. E do preço silencioso de estar a subir.

O carro subia a rampa final. Senti a mudança de inclinação como se fosse dentro do estômago.

— Amanhã — continuou — quero o relatório do evento. Sem adjectivos. Quero factos… e, obviamente… ausências.

A palavra “ausências” ficou a martelar dentro de mim como uma dor insistente. Porque não era sobre desaparecer. Era sobre o que eu não podia deixar à mostra. Algo que eu precisava de aprender a esconder com elegância.

Quando o carro chegou à superfície, a luz da noite pareceu mais suave do que a do subsolo, como se o mundo lá fora estivesse a tentar ser gentil. Valentina saiu primeiro, na primeira paragem, na rua dela. Não se despediu. Não agradeceu. O motorista abriu a porta, e ela deslizou para fora com um movimento limpo, sem hesitação. Os óculos permaneceram no rosto enquanto se afastava até aos portões que se abriram automaticamente perante a sua presença.

Ficámos eu e Leslie por mais um segundo no interior.

Ele virou-se finalmente, e só então reparei no brilho discreto nos olhos dele. Aquele tipo de satisfação que não é alegria, é competência.

— Ela sabe — murmurei.

Leslie inclinou a cabeça, como se escolhesse a melhor forma de concordar sem parecer que estava a concordar.

— Claro que sabe — respondeu, naquele tom de quem ouviu o óbvio. — A Valentina Moreau não é enganada. — A mão dele fez um gesto performático. — Ela apenas decide quando uma verdade merece palco.

Deixei o ar sair devagar.

— Então… o que é que eu faço?

Leslie sorriu de canto. Desta vez, o tom era leve, mas o olhar seguiu-me afiado.

— Aprendes.

A frase veio com humor, mas trazia um aviso real. Ele tinha mentido por mim, sim, mas aquilo tinha custo. A confiança estratégica. O acordo implícito que ele demorara anos a construir à volta dela.

Seguimos para a Velvet no carro dele. A cidade parecia menos glamourosa agora, mais real: montras fechadas, carros a passar, pessoas comuns a atravessar a rua. Ele conduzia com uma atenção excessiva, como se manter o volante firme fosse uma forma de recuperar controlo.

Leslie falava com aquela calma estudada, sempre meio irónica, sem abandonar o didactismo. Cada palavra dele soava como um documentário sobre predadores sociais.

— O evento foi bom — disse. — Tu sustentaste-te.

— Isso foi um elogio? — perguntei, tentando não soar frágil demais.

— Não. — Olhou pela janela, como se a cidade lhe oferecesse respostas. — Foi um inventário. E inventários, meu doce… — os olhos desviaram-se para mim — servem para quando alguém decide tirar coisas da prateleira.

Fiquei em silêncio, deixando a frase assentar com a precisão com que verdades costumam assentar.

Quando chegámos à Velvet, já de noite, o edifício parecia mais solene do que durante o dia. Entrámos, e o corredor devolveu o eco dos nossos passos — alto demais para um espaço tão vazio. As luzes acenderam-se aos poucos, automáticas, dando a impressão de que o prédio acordava devagar só para nos receber. Subimos. O andar do departamento parecia parado no tempo. Tudo no lugar, tudo arrumado, porque já passavam pouco mais de vinte minutos do fim do expediente.

Foi então que Adison surgiu no corredor, vindo do lado oposto com passos apressados. Trazia aquele ar de quem sabe algo e está excitada por saber… mas finge que não.

— Divertiram-se? — perguntou, curiosa.

Leslie revirou os olhos e soltou um suspiro que denunciava uma coisa rara: até ele tinha bateria social limitada numa quarta-feira.

— Adrian — chamou Adison quando não obteve resposta. O meu nome saiu um tom abaixo, como se fosse um segredo que exigisse respeito. — Tens alguém à tua espera no departamento.

— Quem? — perguntei, já desconfiado.

Adison mordeu o lábio, olhos a brilhar com prazer nervoso.

— O teu namorado.

Leslie parou ao meu lado com um “hm” quase imperceptível, como um turista a apreciar uma peça rara num museu estrangeiro.

— Interessante — murmurou, mais para si do que para mim.

— Não é interessante — respondi, e a minha voz traiu-me com uma aspereza que eu não queria. Respirei fundo, tentando corrigir. — É… estranho.

Caminhei até ao departamento com o corpo a fazer o máximo para parecer normal. Ombros direitos, passos medidos, expressão quase neutra, aquela falsa tranquilidade de quem sente que algo está a acontecer, mesmo sem saber exactamente o quê.

Allan estava junto às mesas, de pé, o casaco dobrado sobre o braço. A postura era firme, mas não relaxada. Parecia alguém que entrou num território estranho e decidiu que a única forma de não parecer deslocado era ser impecável. O rosto suavizou quando me viu, e por um instante senti um aperto ridículo.

— Olá — disse ele, num tom cuidadoso.

Não evitou sorrir, mas os olhos dele estranharam-me por um segundo e eu demorei a perceber porquê: eu estava com outra roupa da que tinha usado ao sair de casa. Tinha trocado para o smoking do evento — Tom Ford, corte impecável, preto profundo. Escolha essa que eu nem precisei de questionar com Leslie, o que já começava a ser… frequente.

— O que é que estás a fazer aqui? — perguntei.

Allan ergueu a carteira como se fosse uma bandeira branca.

— Deixaste isto em casa. — Sorriu de leve, como se quisesse manter o momento simples. — Cheguei mais cedo e reparei… achei melhor trazer antes que entrasses em pânico.

Peguei na carteira. O toque dos dedos foi curto, mas senti como se tivesse durado tempo demais. Como se o meu corpo quisesse ficar ali — naquele gesto simples — e esquecer o resto.

— Obrigado — murmurei.

Allan olhou em volta, absorvendo a Velvet com um misto de fascínio e estranheza. Como quem observa um mundo onde não sabe se está autorizado a existir.

— Isto é… impressionante — disse, depois olhou para mim. — E tu… pareces diferente aqui.

A frase veio com carinho, mas eu ouvi nela aquilo que já conhecia: não sei se reconheço este Adrian.

Antes que eu pudesse responder, Leslie aproximou-se com a elegância habitual, como se estivesse a entrar numa reunião.

— Allan, certo? — disse, cordial, estendendo a mão.

Allan virou-se e abriu um sorriso social perfeito.

— Leslie. Claro. Já ouvi falar muito de si. — Apertou a mão com firmeza, demasiado à vontade. — Das reuniões, da mentoria… obrigado por ser um apoio para o Adrian.

Leslie ficou visivelmente lisonjeado. A boca curvou-se num sorriso real, raro.

— É um prazer — respondeu. — O Adrian tem talento. Só precisava de… afinar.

Allan assentiu com entusiasmo contido, talvez sem esperar simpatia de alguém ali dentro.

— Podíamos marcar um jantar os três — sugeriu ele. — Já que da última vez foram só vocês os dois.

O ar mudou naquele segundo exacto em que o silêncio fica denso, quase audível. Senti o sangue subir ao pescoço, tudo de uma vez. Senti Adison algures no corredor, quieta demais. Senti a Velvet inteira a prender a respiração.

Leslie piscou uma vez — confuso de verdade.

— Peço desculpa… — disse ele, ainda com educação impecável. — Acho que estás enganado. Eu nunca jantei com o Adrian, mas seria um prazer jantar consigo.

Allan virou-se lentamente para mim. O sorriso ficou preso no rosto meio segundo… e depois morreu.

— Adrian? — perguntou.

Já não havia leveza. A voz saiu mais clara. Mais furiosa.

Abri a boca, mas nenhuma palavra saiu rápida o suficiente. E eu não queria,não ali, que aquilo virasse uma cena.

— Allan, por favor — comecei, tentando manter o tom baixo, sentindo olhares das pessoas que tinham ficado até mais tarde. — Aqui não é—

— Então com quem é que tu jantaste? — interrompeu.

A pergunta veio como um golpe directo, sem cuidado. O volume subiu um pouco — não era um grito, mas foi o suficiente para que agora toda a gente olhasse.

Senti o rosto queimar.

E foi então que uma voz surgiu atrás de nós, suave e terrivelmente inoportuna.

— Desculpem interromper.

Mathew aproximava-se com um telemóvel na mão, expressão séria, profissional demais para disfarçar que conhecia aquele lugar de outros tempos.

— O teu telemóvel caiu — disse, estendendo-o. — Achei que o quisesses de volta.

Allan olhou para o telemóvel, depois para mim, e por fim para Mathew.

Foi ali que eu consegui ver, com uma nitidez dolorosa, o momento em que ele juntou as peças. Vi a confusão e a dúvida a organizarem-se na mente dele: eu ali, com Mathew, naquele cenário, naquela hora.

O peito dele subiu e desceu uma vez, como se o corpo tentasse impedir o que a cabeça já tinha decidido sentir.

— Ah. — A palavra saiu curta, fechada.

Ele deu um passo atrás e soltou uma gargalhada cínica que eu nunca pensei ouvir na voz dele. Os olhos dele cravaram-se em mim com raiva e ironia.

— Então… — começou. A voz tremeu num ponto que ele odiaria admitir. — Então é isso.

— Allan, calma — pedi, e desta vez a minha voz falhou a meio, mesmo que eu tentasse manter a firmeza pelo sítio onde estava. — Por favor. Vamos para o escritório. Falamos lá. Leslie… — olhei para ele, desesperado por uma solução prática. — Podemos—

Leslie deu um passo instintivo, pronto para ajudar, mas Allan levantou a mão, cortando-nos a ambos.

— Não. — Olhou para Leslie, depois para mim. — Não vou fazer uma visita guiada da minha vergonha.

E, sem dizer mais nada, virou-se e saiu pelo corredor como alguém que precisa de ir embora antes que o orgulho se parta em público. A porta do departamento fechou-se com força suficiente para fazer o som ecoar por todo o andar.

Ouvi murmúrios. Ouvi o meu nome.

Fiquei parado com o telemóvel na mão, a parecer mais pesado do que chumbo.

Mathew não disse nada. Leslie também não.

E no silêncio que restou, eu percebi uma coisa com uma clareza cruel: eu não tinha traído ninguém… mas tinha sido apanhado exactamente no momento em que a minha vida começava a sair do eixo. E isso, às vezes, é pior.

Ouvi alguém dizer o meu nome, mas demorei alguns segundos a perceber que era Mathew.

— Adrian… — a voz dele surgiu baixa e cuidadosa, como quem se aproxima de um animal ferido que pode reagir mal ao toque.

Ele deu um passo à frente, mas parou a meio, como se percebesse aquilo que eu ainda não tinha conseguido formular: eu não estava ali — estava num intervalo desconfortável entre o que tinha acabado de acontecer e o que ainda estava por vir.

— Eu não queria… — começou, depois mudou de estratégia. — Se preferires, eu vou-me embora.

A frase soou mais a oferta do que a defesa. Eu não respondi.

Não porque não quisesse. Mas porque… não conseguia.

Senti o corpo pesado, os ombros tensos, a respiração curta demais para parecer normal. A imagem de Allan a sair repetia-se na minha cabeça em fragmentos: o olhar, a passada agressiva, e pior ainda — o facto de ele não se ter virado uma única vez.

Mathew deu mais um passo, desta vez com cautela, e pousou o telemóvel em cima da mesa ao meu lado, devagar, como se qualquer ruído pudesse partir-me ao meio.

— Eu fico aqui um minuto — disse. — Só isso. Não precisas de falar. Só quero ter a certeza de que estás bem.

A palavra “bem” soou absurda naquele contexto.

Foi então que senti a presença de Leslie mais perto. Ele não se apressou — ele raramente se apressava quando algo era sério. Vi-o aproximar-se pelo reflexo no vidro de uma das vitrinas antes de o ouvir.

— Adrian — disse ele num tom diferente do habitual. Não era irónico, nem didáctico. Era… preocupado.

— Olha para mim um segundo.

Eu olhei.

— Estás bem? — perguntou.

Eu assentiu devagar, como se a ausência da minha resposta fosse, por si só, uma resposta completa.

— Certo — continuou, com suavidade controlada. — Mathew. — acrescentou, olhando-o sem crítica nem dureza. — Obrigado por trazeres o telemóvel.

Mathew assentiu imediatamente, a ler o subtexto sem precisar de tradução. Leslie olhou para ele por um segundo, sem hostilidade. Depois fez um aceno mínimo.

— Por agora, dá-nos espaço.

Mathew hesitou só o suficiente para mostrar que se importava, e então recuou.

— Adrian — disse ainda baixo, tocando de leve na minha manga — tu não fizeste nada de errado.

As palavras chegaram até mim como se atravessassem água espessa. Eu ouvi-as, mas ainda não consegui segurá-las.

Mathew afastou-se pelo corredor e o departamento voltou a ser entregue à sua geometria de sempre. O silêncio regressou, mas agora tinha outro peso.

Leslie virou-se para mim e, antes de mandar as testemunhas arrumarem as coisas e irem para casa, falou:

— Isto… — comecei, mas a voz saiu áspera. — Isto não era para ter acontecido aqui.

Leslie inclinou a cabeça e deu um sorriso fraco.

— Nada do que importa escolhe o lugar certo, meu doce — respondeu, a limpar sujidade invisível da minha lapela. — Apenas o momento errado.

— Eu não o traí — disse, mais para mim do que para ele.

Leslie nem piscou. Inclinou a cabeça, como quem confirma um dado óbvio.

— Eu sei. — E, com a calma afiada de quem já chegou lá antes de mim: — E, francamente, se tivesses traído, isto estaria a ser muito mais simples.

Descruzou os braços e soltou um suspiro curto, quase irritado com a complexidade.

— O problema — continuou, elegante, sem suavizar — é que explicar intenções costuma ser bem mais cansativo do que explicar actos.

Leslie levantou-se num movimento estudado, típico, quase teatral. Endireitou o meu casaco com dois dedos, alisando uma dobra inexistente, e caminhou até à janela do escritório. Ficou de costas para mim, braço apoiado no vidro, cabeça levemente inclinada, como se escolhesse um ângulo antes de dizer algo que não podia ser dito de qualquer forma.

— Eu sei do Mathew há algum tempo, Adrian.

O ar saiu-me dos pulmões num impulso curto.

— Como assim… sabes?

Ele não respondeu de imediato. Pegou na própria chávena, deu um gole pequeno, mais por ritmo do que por necessidade.

— Sou observador — começou. — E tu não és tão opaco quanto achas quando alguma coisa te atravessa de verdade.

Encostou-se ligeiramente à cadeira, corpo aberto.

— Desconfiei pela primeira vez depois da festa do Alexander Duvall.

— Mas… não aconteceu nada.

— Poupa-me, Adrian. — fez uma careta, a agitar a mão como se me mandasse calar. — Aquilo tinha energia de Notting Hill. Tu como o Hugh Grant a achar que era só coincidência, e o Mathew a fazer de Julia Roberts, já emocionalmente comprometido.

— Eu achei que ninguém tinha notado…

— Eu notei — interrompeu, sem dureza. — E fiquei atento.

O silêncio durou o tempo exacto de uma lâmina a escolher onde corta.

— A segunda vez foi técnica.

Franzi o cenho.

— Técnica?

Leslie assentiu.

— O ficheiro. — disse a palavra como se fosse uma peça fora do lugar. — Aquele que apareceu no meu computador antes da apresentação da Reinvenção, no dia do curto-circuito.

Endireitei-me.

— Espera… como assim?

— O ficheiro não foi copiado localmente — explicou. — Foi colocado ali directamente do servidor.

Senti um arrepio frio.

— Ao início — continuou — achei que tivesse sido a Adison. Ela é curiosa, rápida, e às vezes esquece-se de pedir autorização.

— Mas não foi — murmurei, já a saber.

— Não. — pousou a chávena com cuidado. — Porque só três pessoas sabem a password do servidor.

Levantou três dedos, gesto simples, didáctico.

— Eu. A Valentina. E o Mathew.

O nome caiu entre nós com um peso novo.

— Houve um episódio — prosseguiu — anos atrás, quando ele ainda trabalhava aqui. Um apagão no departamento. A Valentina pediu-lhe que acedesse ao servidor para recuperar material urgente. Eu estava presente e dei-lhe a password.

Encolheu os ombros, como se o erro fosse banal… e por isso mesmo, mais perigoso.

— Nunca a mudámos.

Fiquei em silêncio, a tentar reorganizar a linha do tempo dentro da cabeça. Tudo parecia demasiado lógico agora. Demasiado óbvio em retrospectiva.

— Então… — comecei, voz baixa — tu juntaste as peças.

— Exactamente. — O olhar dele manteve-se firme. — Não tive certezas imediatas, mas… digamos que tive suspeitas bem informadas.

— Eu não planeei nada disto — suspirei. — Não acordei um dia a pensar em complicar a minha vida.

Leslie soltou um suspiro curto, quase impaciente.

— Claro que não. — respondeu de imediato. — Ninguém interessante planeia os próprios abalos. — E lançou um sorriso quase divertido. — Se planeassem, o Shakespeare tinha escrito manuais de convivência, não Romeu e Julieta.

— O Allan tinha razão — murmurei, a segurar a chávena de camomila que Leslie mandara a Adison trazer. — Eu nunca lhe menti… eu nunca… fui assim.

— “O Allan tinha razão…” — repetiu, imitando-me com cadência exagerada, sarcástica, como se a frase lhe desse azia. — Claro que tinha, Adrian.

Virou-se devagar, sobrancelha arqueada, canto da boca a denunciar impaciência elegante.

— Meu doce, vamos aos factos: se alguém entra num lugar destes e não muda, então falhou redondamente.

Aproximou-se alguns passos, mas parou a meio. Leslie sabia que proximidade também pressiona.

— Sim — apontou para mim, o indicador a tocar no centro da minha testa — tu estás diferente. E graças a Deus por isso.

A mão dele caiu ao lado do corpo. Cruzou as pernas com elegância calculada, apoiando-se na lateral da mesa. Relaxado, mas com o olhar afiado, atento a cada reacção minha.

— Tu já não és aquele miúdo que chegou aqui no primeiro dia — continuou, como se folheasse um arquivo mental. — Aquele que pedia desculpa antes de falar. Que achava que opinião era algo que se conquistava por tempo de casa e… — soltou um riso seco — confundia gentileza com invisibilidade.

Fez uma pausa curta, só para deixar a imagem assentar.

— Esse miúdo… — inclinou a cabeça, teatralmente compassivo — não sobrevivia uma semana hoje.

Endireitei-me na cadeira, a sentir a frase como ataque e defesa ao mesmo tempo.

— Mas para o Allan…

Leslie soltou uma gargalhada seca, sem humor. Levantou a mão, interrompendo-me com licença elegante — como quem corrige um argumento fraco.

— Para o Allan? — repetiu, como se fosse a coisa mais absurda do mundo. — Para o Allan, meu caro, isto é uma tragédia grega. — Quase divertido. — O herói muda, o mundo continua igual, e alguém fica à espera que o enredo volte ao primeiro acto.

Começou a andar pelo escritório, passos lentos e ritmados.

— Claro que é horrível para ele — prosseguiu, encolhendo os ombros como se fosse uma barbaridade inevitável. — Ele apaixonou-se por uma versão tua que cabia confortavelmente na ideia de futuro que ele tinha. Estabilidade, previsibilidade… planos de longo prazo com margens bem definidas.

Parou atrás da minha cadeira, sem tocar.

— O problema — acrescentou, mais baixo — é que pessoas não são plantas de apartamento. Crescem. Deslocam. Precisam de outro vaso.

Deu a volta e voltou a posicionar-se à minha frente. Cruzou os braços, corpo ligeiramente inclinado, como se falasse comigo e me desafiasse ao mesmo tempo.

— Mas deixo isto muito claro: ninguém é horrível por estar a ser autêntico. Inconveniente? Talvez. Desconcertante? Com certeza. Mas horrível? — pousou as mãos nos meus ombros e olhou-me nos olhos — Não Adrian. Ninguém é horrível por ser fiel a si próprio.

Passei a mão pelo rosto, confuso e exausto.

— Eu não sei se isto é ser autêntico ou só… egoísmo.

Leslie suspirou de propósito, dramático. Levou a mão ao peito, como se a ideia o ferisse.

— Ah, o clássico argumento do egoísmo moral… — disse com um sorriso enviesado. — Quando alguém finalmente pára de viver em função do conforto dos outros e decide que isso é um defeito de carácter.

Descruzou os braços e apontou para o espaço ao redor.

— Olha para trás, Adrian.

Obedeci. O escritório, os projectos, as pastas, o reflexo no vidro — tudo aquilo que meses antes me intimidava agora existia como moldura.

Leslie acompanhou o meu olhar.

— Vês isto? Isto não apareceu por acaso. — deu dois toques leves na mesa. — Tu não tropeçaste nesta versão de ti. Tu construíste-a.

A voz dele suavizou um milímetro, mas manteve firmeza.

— Antes, tu eras um miúdo perdido. Talentoso, sim, mas perdido. À deriva, à espera que alguém te dissesse quando era seguro existir. — aproximou-se um passo. — Agora, tu sabes ler pessoas. Sabes ler espaços. Sabes jogar melhor do que quase todos os que entraram aqui antes de ti.

O silêncio ficou denso.

— E isso assusta as pessoas — concluiu. — Principalmente quem te conheceu quando tu ainda pedia licença para crescer.

Baixei o olhar.

— Então… não há como isto não magoar alguém.

Leslie inclinou a cabeça, como quem confirma o sabor da frase.

— Não. — respondeu. — Crescer raramente é indolor. — e depois, com um sorriso mordaz: — Mas continuar pequeno por conveniência alheia é uma violência bem mais silenciosa.

Afastou-se, pegou na chávena vazia e girou-a entre os dedos.

— A questão — disse, pousando-a com cuidado — não é se tu vais magoar alguém. É se estás disposto a magoar-te para evitar isso.

As palavras ficaram suspensas.

Fiquei alguns segundos a olhar para o nada, sentindo cada frase acomodar-se como peças que já não resistiam ao encaixe. A camomila estava fria. Larguei a chávena sobre a mesa com cuidado excessivo, como se aquele gesto pequeno marcasse o fim de algo.

— Eu vou falar com o Allan — disse, por fim.

A frase saiu sem tremor. Não era coragem repentina. Era exaustão honesta — aquela exaustão que já não permite adiamentos com nomes bonitos.

Levantei-me devagar. O corpo cansado, mas atravessado por uma linha clara de decisão. Senti isso nos ombros, na postura, até na forma como o ar agora entrava sem resistência.

— Está na hora de parar de adiar o inevitável — acrescentei, mais para mim do que para ele. — Não é justo para ele… nem para mim.

Leslie observou-me em silêncio, com aquele olhar longo que ele reservava para momentos raros. Sem sarcasmo. Sem crítica. Quase respeito.

Então sorriu. Pequeno, discreto, o suficiente para o contexto.

Encostou-se à mesa, cruzou os braços e assentiu uma vez.

— Finalmente — disse, baixo, quase satisfeito. — Uma decisão adulta.

Girou a chávena entre os dedos, como se brindasse sozinho a algo invisível.

— Vai doer — acrescentou, sem crueldade. — E provavelmente vai ser feio. Conversas importantes raramente são esteticamente agradáveis.

Assenti.

— Eu sei.

Leslie descruzou os braços e deu dois passos na minha direcção. Parou a uma distância respeitosa, mas com um olhar firme, quase protector.

— Mas sê honesto — disse. — Não assertivo, não analítico, nem estratégico… honesto, Adrian. — Um sorriso breve voltou aos lábios. — Para o resto, tu já tens a Velvet.

Soltei um ar que nem sabia que estava a segurar.

— Obrigado.

Ele fez um gesto de dispensa, mas carregado de efeito.

— Vai falar com o Allan… e poupa-me aos teus dramas amorosos.

Dei um riso afectado, peguei no casaco que Leslie tinha dobrado sob a cadeira e caminhei até à porta. Já com a mão na maçaneta, parei.

Não foi drama. Foi o corpo a atrasar-se, como se faltasse uma frase para a decisão ficar inteira.

Virei-me devagar. Leslie estava encostado à mesa, a organizar absolutamente nada — um hábito quando precisava de ocupar as mãos para não se perder no silêncio.

— Leslie…

Ele levantou os olhos.

— Alguma vez… — hesitei — alguma vez tu já te sentiste na minha pele?

A pergunta ficou nua no ar. Leslie não respondeu logo. Endireitou-se lentamente, alisou o casaco com dois dedos — gesto automático — e caminhou até à janela. Ficou de costas para mim por alguns segundos, a observar o reflexo do escritório no vidro escuro.

Quando falou, a voz já não tinha ironia.

— Mais vezes do que eu gosto de admitir.

Virou-se apenas o suficiente para eu ver o perfil.

— Eu cresci a levar pancada — disse, simples, sem dramatismo. — Bullying clássico. Silencioso e persistente. Um cliché. — Um meio sorriso curto, sem humor, formou-se ali — Ser diferente é sempre um convite quando se é criança.

Afastou-se da janela e começou a andar pelo escritório, devagar, como se percorresse uma memória antiga.

— Os meus pais… — fez um gesto vago — estavam ocupados demais a tentar sobreviver para perceber que eu precisava deles. Abandono nem sempre é alguém ir embora… às vezes é alguém ficar, mas sem nunca de facto estar.

Engoli em seco.

— E depois havia a televisão — continuou, com um suspiro que parecia alívio. — Aquela TV pequena, imagem péssima, som horrível. — Os olhos suavizaram por um instante. — Mas, de vez em quando, davam desfiles. Paris. Milão. Pessoas a caminhar como se o mundo tivesse sido feito para ser atravessado com elegância… e eu amava.

Fez uma pausa.

— Eu ficava sentado no chão, hipnotizado. Não era só a roupa. Era a linguagem. A identidade. O glamour. A ideia absurda de que alguém podia dizer quem era sem abrir a boca.

Olhou para mim de frente.

— Decidi cedo que, se eu ia ser diferente, então pelo menos isso tinha de me levar a algum lado.

O silêncio instalou-se, mas era um silêncio cheio.

— E… — arrisquei — tu já amaste alguém?

Leslie soltou um suspiro lento. Não cansado — antigo.

— Sim.

A palavra veio limpa.

— Mais de uma vez — corrigiu, com um humor discreto. — Mas houve um que contou de verdade.

Aproximou-se da mesa e apoiou as mãos na superfície, inclinando-se, como se aquela postura o segurasse.

— Era alguém bom — disse. — Gentil. Estável. Daquelas pessoas que querem construir uma vida previsível porque isso lhes dá paz.

Levantou os olhos para mim.

— Mas essa pessoa não cabia na minha vida. — Um sorriso curto, triste. — Assim como o Allan talvez não caiba na tua agora.

Senti a comparação como um golpe limpo.

— Tiveste de escolher…

— Tive. — Endireitou-se. — Entre um romance e um sonho.

Houve um segundo de silêncio.

— Fiz a escolha errada? — perguntou, retórico. — Depende do dia.

Caminhou até à janela outra vez.

— Foram dois amores trágicos — concluiu. — Um humano e um profissional. — Virou-se, por fim. — Só um sobreviveu.

Não havia amargura. Só aceitação consolidada.

— E sabes o que eu aprendi com isso? — acrescentou, a ironia suave a regressar. — Sonhos não te pedem para seres menor. Pessoas, às vezes, pedem. Mesmo sem querer.

Fiquei parado, sentindo as palavras assentarem num lugar desconfortavelmente familiar.

— Isso não te deixou sozinho? — perguntei.

Leslie sorriu de canto.

— Deixou-me inteiro — respondeu. — E isso, Adrian… é muito mais raro.

Voltei à porta.

— Obrigado — disse, e a palavra tinha outro peso.

Leslie inclinou a cabeça num gesto mínimo.

— Vai falar com o Allan.

Abri a porta. Já ia sair quando ainda ouvi a voz dele, baixa e firme:

— E lembra-te… não é falha quando dois amores não conseguem coexistir. É só uma escolha impossível feita tarde demais.