Dolce & Desastre
19 Dolce & Selvagem
O hotel apareceu à distância com aquela presença silenciosa que só lugares caros têm:luzes quentes por trás do vidro, porteiros impecáveis, uma fachada que parecia não admitir fraqueza, mas que exalava um luxo quase palpável. O tipo de luxo que não servia para ser exibido mas sim comtemplado.
Mas eu estava ocupado demais a sorrir para sequer me preocupar com plantas e adornos de betão.
Porque a verdade era esta: eu estava a andar com o corpo ainda a arder do beijo, com a boca a lembrar-se dele como se fosse uma frase repetida em silêncio. E Mathew caminhava ao meu lado como quem não tem pressa nenhuma… mas tinha fome.
A camisa já não estava impecável. A lapela que ele “arranjou” duas vezes antes parecia agora um sítio marcado, como se o tecido guardasse a memória dos dedos dele. E eu tentei odiar isso, juro que tentei… mas só conseguia querer mais.
Passámos por uma rua mais estreita, com menos luz e sem ruído. Um vazio discreto da cidade inteira.
Mathew não disse nada. Só mudou ligeiramente o trajecto, como se o mundo estivesse a colaborar. Eu continuei a falar, por teimosia. Por nervos. Como se tentasse achar uma necessidade de manter alguma coisa no lugar.
— Isto é ridículo — eu murmurei, como se estivesse a comentar o horário.
— O quê? — ele perguntou, com uma calma que já era provocação.
— Eu fingir que não se passa nada.
Mathew soltou um riso baixo, só para mim. Aquele riso que não pede permissão ao meu corpo.
— Consegues. — E a voz dele baixou um ou dois tons mas um sorriso ainda se formava ali. — Só não queres.
Eu abri a boca para responder, para usar uma ironia qualquer, para recuperar a minha dignidade… e foi nesse segundo que ele me agarrou num gesto rápido. O seu corpo encostou-me à parede de pedra fria, numa esquina que parecia feita para desaparecer pessoas. A sombra cobriu-nos como uma cortina e enquanto a sua boca colava-se na minha.
Sem anunciar. Sem algum tipo de cerimónia. Como se a rua tivesse sido apenas um intervalo entre dois momentos inevitáveis. O impacto foi imediato e o o frio da parede nas minhas costas contrastou com a respiração que lhe sentia sair pela boca sempre que descolava um milímetro da minha . A mão dele subiu-me pela nuca e agarrou-a numa ação rápida, possessiva no sentido mais perigoso da palavra… e eu senti o arrepio subir como um “sim” involuntário.
Queria travá-lo e relembrar-lhe que ali não era um sítio apropriado. Em vez disso, agarrei-o pelo casaco, puxando-o para mais perto, como se o meu corpo fosse uma coisa simples e honesta que agora não aceitava nada senão o calor dele.
Mathew separou a boca da minha por um segundo, só o suficiente para me dizer ao ouvido, num tom que parecia feito de pura malícia contida:
— Estás mesmo a tentar fazer de conta que isto acabou?
Eu sorri sem nenhum som, sem coragem, e respondi do único jeito que me saiu:
— Cala-te.
Ele voltou a beijar-me como se “cala-te” fosse algum tipo de autorização.
Alguns minutos depois de sentir a língua dele a roçar na minha, entre respirações demasiado comprometedoras para parecerem puras, Mathew largou-me. Ajeitou a lapela do seu casaco e puxou-me de volta para a luz, obrigando-me a encontrar novamente a compostura.
Voltei a falar. Voltei a sorrir. Voltei a tentar ser um homem funcional.
Durou cinco minutos, talvez menos. A próxima rua tinha pouca luz. Um recanto entre duas portas fechadas. Um pedaço de sombra que parecia chamar o nosso nome.
Mathew tocou-me na mão,um toque breve, e eu senti esse toque como uma promessa demasiado intensa para recusar. Ele inclinou-se como se fosse dizer qualquer coisa normal, algo sobre a cidade, o frio ou então sobre o Duomo.
Mas a boca dele veio para o meu ouvido e a frase foi indecente na medida exacta em que não era explícita, apenas intencional:
— Se continuares a olhar para mim assim, eu não chego ao hotel com a paciência que trouxe.
O meu estômago apertou num sítio que não era medo.
— Então… olha para a frente — eu tentei brincar, mas a minha voz saiu fraca.
Mathew sorriu como quem adora quando eu finjo que mando e puxou-me outra vez.
Desta vez, não se encostou: prendeu-me com o corpo e com a calma brutal de quem sabe exactamente quando tirar o ar e quando devolvê-lo. As mãos dele encontraram o limite do meu colarinho, e roçaram na pele onde o tecido deixara de estar no sítio certo. Senti a respiração dele ali, quente, a marcar-me, e a minha cabeça ficou leve… como se eu tivesse bebido um whisky demasiado forte depressa demais.
Ele murmurou qualquer coisa no meu ouvido, uma ameaça bonita, uma promessa suja de elegância. E eu tive de fechar os olhos por um segundo, porque a rua inteira parecia pequena demais para o que estava a acontecer ali.
Eu não estava a ser “responsável”. Não estava a ser “profissional”. Não estava a ser nada que eu costumava ser. E o pior: eu estava a gostar.
Quando finalmente voltámos a andar, eu não sabia se o hora tinha passado ou se era só o meu corpo a perder a noção do tempo.
O caminho até ao hotel podia ter sido curto. Trinta minutos, talvez.
Demorou uma hora.
Porque Milão, àquele horário, estava cheia de pequenas oportunidades. E Mathew tinha um radar para cada uma delas. Um vão de porta. Uma parede mais escura. Um corredor quase invisível no meio de prédios.
E eu… eu não dizia “não”.
Eu dizia “pára” sem convicção. Dizia “isto é uma loucura” como quem pede mais. Dizia o nome dele num tom que não era o meu tom habitual e isso parecia deixar Mathew quase satisfeito, quase orgulhoso, como se ele estivesse a ver algo em mim que até eu escondia de mim mesmo.
Quando a fachada do hotel apareceu finalmente, impecável e indiferente, eu senti um alívio estranho… e uma frustração imediata, como se o mundo fosse interromper-nos agora… justo agora.
Mathew olhou para a entrada principal e fez uma careta.
— Não.
— Não o quê? — eu perguntei, ainda meio sem ar.
Ele inclinou a cabeça na direcção de uma lateral discreta e segurou a mão, sussurrando baixinho:
— Vem comigo.
Guiou-me pela entrada de funcionários. Era menos glamorosa, mais silenciosa, quase invisível. Um corredor limpo onde repousava a luz fria e um segurança sonolento que mal levantou os olhos que apenas assentiu num gesto de permissão. Mathew caminhou ali com a mesma confiança de quem sempre sabia onde estavam as portas certas.
Eu segui-o. E a cada passo eu sentia a minha camisa amarrotada, o meu corpo ainda a vibrar, a minha boca ainda a pedir.
No elevador, a porta fechou com um som suave e esse som pareceu uma sentença-
Por um segundo, ficámos a olhar um para o outro como duas pessoas a tentar lembrar-se de como se comportam os adulto.
Mathew soltou um suspiro curto, como se tivesse desistido da tentativa.
— Adrian…
Ele nem terminou.
A mão dele veio à minha cintura e puxou-me para si com uma precisão que me desarmou. O beijo aconteceu como se o elevador fosse o único lugar honesto do mundo: apertado, silencioso, sem qualquer índice de saída.
Eu respondi no mesmo instante, encostando-o à parede metálica, o frio atrás dele a contrastar com a forma quente como ele me segurava. A minha respiração ficou alta demais para um espaço tão pequeno e eu senti o peso da noite inteira naquele beijo: a provocação, o jogo, o Duomo, as esquinas, as frases ao ouvido…tudo concentrado num ponto só.
Mathew separou-se o suficiente para me olhar, fazendo-me notar aquela escuridão limpa de quem não está confuso mas de quem já havia decidido tudo.
— Quando esta porta abrir… — voz dele era baixa, controlada… quase perigosa.
Eu engoli em seco.
— Quando esta porta abrir o quê? — eu provoquei, porque ainda havia uma parte de mim que precisava de brincar para não admitir o quanto queria aquilo.
Eu vi um sorriso se formar enquanto os seus olhos tentavam não se perder nos meus.
— Tu vais tentar voltar a ser racional. — ele aproximou-se outra vez, encostou a testa à minha por um segundo, como se me marcasse com calma, e murmurou:
— E eu vou impedir-te.
O elevador subiu com uma lentidão cruel e a luz lá de cima era limpa demais, a pior luz possível para alguém que estava a perder o controlo por dentro, porque mostrava tudo, a minha respiração, o meu olhar preso na boca dele, a minha incapacidade de fingir normalidade. Dei por mim a reparar em cada detalhe que captava nele: desde a linha do maxilar, ao gesto quase distraído com que ele humedeceu os lábios, até ao modo como os olhos dele voltavam sempre para mim, insistentes, como se eu fosse o único ponto fixo naquele espaço fechado.
Mathew encostou-se ligeiramente à parede do elevador e ficou calmo, irritantemente calmo, com aquela serenidade de quem não precisa de ganhar nada porque já se sente no controlo, como se eu fosse só mais um detalhe inevitável. E eu… eu senti uma vontade absurda de o fazer perder essa calma.
— Estás muito quieto — a minha soou baixa quase inaudível.
Mathew ergueu a sobrancelha, agora divertido. A expressão dele era de quem está a saborear a situação com paciência.
— Eu? – ele deu uma gargalhada leve — tu és o que está a tentar parecer normal.
Ele disse “normal” como se fosse uma palavra bonita e ridícula ao mesmo tempo. E eu senti-me exposto, porque não havia como negar.
— Eu estou normal.
Menti com alguma classe, quase acreditando nas palavras que me saíram da boca.
Ele riu-se de leve. Não foi bem uma gargalhada, foi só aquele sorriso curto que me irritava porque parecia sempre que ele sabe mais do que devia.
— Ah, estás? —ergueu uma sobrancelha, e o olhar desceu devagar, sem pressa, até ao ponto da minha excitação — Nota-se.
Não era um olhar exibido. Era pior: certeiro. Como se ele estivesse a ver exatamente aquilo que eu estava a tentar esconder com a camisa.
— Isso é um elogio?
Eu tentei que soasse a piada, mas saiu demasiado honesto.
— Não. — a voz dele ficou mais baixa, simples, como se não precisasse de esforço. — É uma provocação.
Eu devia ter desviado o olhar, mas em vez disso, dei um passo mais perto, só o suficiente para a distância entre nós deixar de ser “educada”. E eu reparei no detalhe mais traiçoeiro de todos: Mathew não se mexeu. Ele ficou à espera. Como se eu me aproximar fosse exactamente o que ele queria ver.
— Então provoca como deve ser.
Mathew ficou imóvel por um segundo.
E eu vi, vi no canto do sorriso, na respiração dele que falhou quase imperceptivelmente, que eu tinha acertado no ponto exato. A presença dele mudou sem ele mexer o corpo: os olhos ficaram mais atentos e a boca formou uma linha dura.
— Tu estás a testar-me.
A frase não veio zangada. Veio divertida, mas com um fundo de seriedade, como se ele gostasse do meu atrevimento, mas estivesse a medir o quanto eu aguentava.
— Estou. — Eu deixei a minha voz descer. Mais suave. Mais minha — Porque passas-te a noite inteira a agir como se tivesses no controlo… e eu estou cansado de te dar esse prazer.
O silêncio no elevador ficou ainda mais denso. O painel acendeu um número acima. O som mecânico da subida parecia demasiado alto, como se o elevador também estivesse a ouvir. Mathew aproximou-se só um pouco, devagar, como se me desse tempo para recuar Eu não recuei.
Ele levantou a mão e tocou-me na lapela… o mesmo gesto “inofensivo” de antes. Só que ali, no elevador, o gesto parecia uma confissão. Um pretexto perfeito que denunciava um toque pequeno com consequências grandes.
Os dedos dele ficaram um segundo a mais.
E esse segundo fez o meu corpo inteiro reagir como se ele tivesse tocado directamente num nervo. Eu fechei a mandíbula, porque odiava a facilidade com que ele me desorganizava.
Mathew viu. Claro que viu.
— Olha para ti… — ele murmurou. — Ficas louco com um toque que nem chega a ser nada.
O tom dele era meigo, mas a escolha das palavras era cruel. Como se ele estivesse a apontar para a minha fraqueza com carinho.
Eu sorri, mas foi um sorriso perigoso… o tipo de sorriso que só uso quando já aceitei que perdi.
— Não é o toque. — Eu inclinei a cabeça, aproximando a boca do ouvido dele sem encostar. — É o facto de tocares como se já soubesses que vou ceder.
Eu senti o ar dele na minha pele. Senti a minha própria respiração trair-me, quente demais para um espaço tão limpo. Mathew soltou um “hum” baixo, e esse som foi como um dedo a desamar o meu autocontrolo.
— E vais?
Ele perguntou devagar, não porque estivesse à procura de resposta, mas porque queria ouvir-me dizê-la. Eu encarei-o, sentindo aquela coragem nova, aquela versão de mim que eu fingia não ter, subir como uma decisão. Um fio a estalar.
— Tu gostas de me fazer perguntas.
— Porque eu gosto de te ouvir responder.
Dei outro passo, mínimo, controlado, até ficar perto demais para continuar a chamar aquilo de conversa. Reparei nos olhos dele: atentos, escuros, cheios de paciência. Como se me deixasse conduzir só para ver até onde eu ia.
— Então ouve.
A minha mão subiu até à gola do casaco dele. Não para o puxar com força. Só para mostrar que eu também podia tocar. Que não era só eu quem sofria com a reação. Senti o tecido caro, a estrutura do casaco, e por baixo a tensão contida dele, aquela volume rígido que não era do fato, mas sim dele.
— Eu não estou a ceder — disse, baixinho, com a boca a um sopro da dele. — Estou a escolher.
O olhar do Mathew escureceu. E eu senti, quase como se fosse físico, o efeito que a minha frase teve nele: a respiração ficou mais curta, o corpo mais hirto.
— Adrian…
Ele disse o meu nome como se fosse um aviso.
— Shh.
Cortei-lhe a palavra com um sorriso e um toque breve, a ponta dos dedos na nuca, só para o experimentar. Aproximei a boca da dele sem beijar, só o suficiente para ele sentir que eu podia… e que desta vez era eu a decidir.
— Tu fazes isto comigo o tempo todo — murmurei, sentindo a pele dos lábios roçar levemente nos meus — Ficas perto, paras e deixas-me a pensar.
Mathew inspirou devagar, como se estivesse a segurar um impulso, e quando falou a voz veio mais baixa.
— E funciona.
— Funciona. — Admiti, e a honestidade queimou. — Mas agora é a minha vez.
Ele sorriu, lento, como se estivesse a gostar de me ver finalmente assumir, como se eu devolver o jogo fosse exactamente o tipo de caos que ele queria.
— Mostra.
E foi aí que eu o beijei.
Não como antes, na rua, quando foi impulso e fome. Agora foi luxo, calmo, demorado, com intenção. E ele respondeu de imediato, sem hesitação, sem fingir, sem teatro, como se já soubesse exactamente onde isto ia dar e eu só estivesse, finalmente, a chegar lá. A sua boca abriu no tempo certo, como se me desse espaço e me tirasse a saída ao mesmo tempo. A mão veio à minha cintura, firme, e eu senti o corpo inteiro reagir como se tivesse sido feito para aquela pressão.
Afastei os lábios a por um segundo só para o provocar de volta, ofegante, mas com aquele brilho de quem agora sabia jogar.
— Tu ainda achas que sou comportado?
Mathew encostou a testa à minha, a respiração dele manteve-se quente e curta. O olhar não tinha pressa. Tinha vontade.
— Eu acho que tu és uma mentira muito bonita.
A frase atravessou-me com uma elegância indecente. Quase ri, sem acreditar no quanto eu queria ouvir mais.
— E tu? — perguntei, a voz baixa, provocadora. — És sempre assim… ou eu tenho um talento especial para te estragar?
Mathew soltou um riso baixo, quase sem controlo. E foi aí que eu vi: aquela calma ofensiva já estava a rachar.
— Tu tens um talento especial para me dar vontade de apressar coisas que eu planeava fazer com calma.
A frase acertou-me como um arrepio. Senti a pele toda acordar.
Passei a mão pelo peito dele, devagar, sentindo o tecido e a tensão por baixo, e murmurei:
— Então perde a calma.
O Mathew apertou a minha cintura um pouco mais, como se essa ordem fosse exactamente o que ele queria ouvir. O tom dele veio mais escuro, mais perto.
— Cuidado, Adrian… — disse, e a voz dele era um aviso elegante. — Eu obedeço depressa quando gosto de quem manda.
Sorri, meio incrédulo com a audácia que me saiu tão natural.
Senti-me diferente, menos na defensiva e mais dentro do momento, como se estivesse a dar espaço a uma versão de mim que sempre esteve lá, só que nunca teve autorização para sair.
— Ótimo.
Beijei-o outra vez, e desta vez, ele respondeu com mais urgência, como se eu tivesse puxado uma parte dele que estava a ser contida por educação. Senti o corpo dele mais próximo, a respiração dele mais alta, e o elevador a subir como se estivesse a demorar de propósito.
Os números mudavam. O mundo continuava. Mas eu só sentia a mão dele na minha cintura, a língua a envolver-se na minha, o modo como ele me encostava o suficiente para eu lembrar que não havia nada de “seguro” ali. E eu estava aceitar isso.
A campainha tocou, as portas abriram. Mathew saiu primeiro, normal demais. Eu fui atrás, a ajeitar o casaco como se isso me desse dignidade. A boca ainda quente, a respiração errada, e aquele absurdo: dois homens compostos no corredor… e eu a desmoronar por dentro. Demos três passos. Quatro.
E, quando chegámos a um recanto mais discreto do corredor, onde uma curva, uma parede que cortava a vista, ele virou-se com a mão na minha cintura, e inconstando-me ali com uma pressa controlada que me roubou o ar.
— Mathew…
O meu tom saiu numa mistura estúpida de aviso e pedido.
— Não. — Ele cortou, com um sorriso curto. — Sem discursos.
Tentei rir, mas a minha voz falhou-me. Eu estava demasiado perto.
— Tu és ridículo.
— E tu adoras.
Ele inclinou-se para o meu ouvido e eu senti logo o corpo reagir, como se aquela distância fosse um botão.
— Diz.
Baixo. Tranquilo. Como se tivesse a mão no controlo.
— Digo o quê?
A mão dele apertou um pouco e eu prendi a respiração sem querer.
— Diz que tu também queres.
Eu olhei para ele e a verdade bateu-me primeiro do que qualquer defesa. O sorriso subiu devagar.
— Eu quero.
Mathew fechou os olhos um segundo, como se estivesse a segurar-se. Depois abriu-os e sorriu, curto.
— Então anda.
E puxou-me com ele, sem me dar tempo para voltar a pensar.
No quarto, o resto do mundo perdeu contorno. A porta fechou-se e depois foi tudo rápido demais.
Mathew encostou-me à parede como se não aguentasse mais a distância. O peito dele contra o meu. A respiração quente arfar contra a minha barba.
— Diz-me que não vais voltar atrás — murmurou, depositando-me beijos e mordidas no pescoço.
Eu nem tive tempo de pensar.
— Cala-te. – rosnei. As minhas mãos seguraram-lhe o cabelo e os meus olhos encontraram os dele — Vem cá.
A boca dele entrelaçou-se na minha e o resto perdeu o rumo. As minhas mãos desapertaram-lhe a camisa, enquanto os seus dedos desprendiam-me o cinto. Chocávamos contra os móveis, contra o sofá. Os beijos eram molhados e insistentes e o toque aflito. Sem pausa. Sem delicadeza. Como se parar fosse perigoso.
— Anda — ele disse, baixo, e eu senti o nome preso na garganta dele antes de sair.
Caímos já nus na cama enquanto a minha boca trilhava beijos pelo seu abdómem descendo até ao fundo.
- Adrian – ele gemeu baixinho.
E foi aí que eu percebi: eu também sabia ser isto. Eu só não me deixava.
Alguns minutos passaram. O quarto já farto de gemidos e frases sem nexo. Quando já não aguentou mais, segurou-me pelo pescoço, fazendo-me embater contra o colchão e colocou-se contra mim.
O calor subiu-me pela nuca. O corpo dele colado ao meu, a pressionar como se pedisse espaço e ao mesmo tempo não quisesse dar nenhum. Eu foi aí que sentio inteiro, e isso tirava-me o pouco controlo que eu ainda tinha.
— Olha para mim — ele pediu, rouco.
Eu tentei responder. Não saiu frase. Só ar. Os meus braços em volta do pescoço, a sua boca presa na minha clavícula e as respirações ofegantes contra o meu ouvido.
Não sei como nem quando, mas em algum ponto da noite, deixámos de estar na cama. Tropeçámos. Rimo-nos sem graça, só porque o corpo estava mais rápido do que a cabeça. A minha mão foi à parede e encontrou um espelho alto de corpo inteiro. A imagem apanhou-nos de lado, próximos demais, desfeitos, a pele quente, o cabelo dele fora do sítio, a minha boca ainda à procura. Eu vi o rosto dele no reflexo: a boca entreaberta, os olhos escuros vivos, como se ele estivesse a tentar não perder o controlo… e não conseguisse.
O corpo dele encaixou no meu como se a distância tivesse sido uma perda de tempo. A respiração dele bateu-me na boca, quente, irregular.
Eu aproximei-me mais. De propósito. Só para o fazer aguentar aquele segundo a mais. Só para ver se ele ainda tinha graça para provocar.
Mathew fechou os olhos e encostou a testa ao espelho. Um gesto curto. Como se precisasse de qualquer coisa sólida. A mão dele procurou a minha e prendeu-se, dedos a apertarem com força suficiente para eu perceber que ele também estava a tentar não se desfazer.
— Adrian… — disse o meu nome baixo, como se fosse pedido e aviso ao mesmo tempo.
Encostei a boca perto dele, quase no ouvido. A minha voz saiu como uma respiração pesada enquanto beijava-lhe a nuca.
— Shh. – a minha boca trilhou pequenas mordidas no seu pescoço — Agora és tu.
Lembro-me do som do colchão quando voltámos à cama. Do lençol a enrolar-se nas pernas. Do quarto quente demais. Da minha respiração a voltar aos poucos, aos solavancos, como se o meu corpo ainda estivesse a aprender a ser normal outra vez.
Mathew permanecia encostado a mim. O braço em torno da minha cintura como se ainda estivesse a confirmar que eu estava ali. Segurava as mechas do meu cabelo suado enquanto deixava beijos lentos no meu pescoço, sem pressa, como se tivesse tempo infinito e eu fosse o único lugar onde ele queria estar.
Eu virei o rosto para o ver melhor.
A luz do quarto vinha filtrada pelas cortinas grossas, dourada e baixa, e fazia dele uma coisa quase irreal: o cabelo molhado a cair desarrumado, a boca entreaberta, a pele ainda brilhante do suor. A respiração dele subia e descia com uma honestidade que me desconcertava. E os olhos… os olhos estavam presos nos meus sem arrependimento, como se ele estivesse a guardar a prova de que eu não tinha voltado atrás.
— Não comeces a pensar — murmurou, quase como ordem.
Eu não respondi logo. Só fiquei a olhar para ele. A fixar detalhes, como quem tenta memorizar antes que o mundo volte a existir com regras.
Mathew apertou ligeiramente a minha cintura, um gesto pequeno, como se me trouxesse de volta ao corpo sempre que eu tentava fugir.
— Estás a fazer isso outra vez.
— A fazer o quê? — perguntei, fazendo-me de inocente, mas a minha voz saiu mais baixa do que o habitual.
Mathew soltou um riso breve, quase sem som.
— A ires embora para dentro da tua cabeça. Ainda agora voltaste.
Eu respirei fundo. O lençol roçou na minha perna, e esse toque banal foi suficiente para me lembrar do estado em que eu estava: meio exausto, meio desperto, com o corpo a não querer largar a sensação.
— Eu não estou a ir embora — murmurei. — Estou só… a olhar.
Ele arqueou a sobrancelha, como quem já conhece essa desculpa.
— Olhar, em ti, é pensar.
A frase devia irritar-me. Irritou. Só que também me fez sorrir, porque ele tinha razão.
E então ele pousou a boca no meu ombro.
Um beijo lento, quente, quase preguiçoso. Não foi romântico. Foi íntimo de uma forma que me tirou o ar. Como se ele estivesse a marcar território num sítio onde eu não conseguia manter o controlo. A pele arrepiou-se inteira, e eu senti o impulso idiota de o puxar mais para mim só para quebrar aquele ritmo calmo.
Mathew beijou de novo. Mais uma vez. Como se eu fosse um sítio onde ele podia descansar… e ao mesmo tempo provocar.
— Não vais dormir? — perguntou ele, a voz já mais leve.
Eu deixei a cabeça afundar na almofada e olhei para o tecto por um segundo.
— Não estou cansado.
O canto da boca dele subiu, e eu vi o flerte a acender sem esforço.
— Não?
— Ainda tenho energia.
A frase saiu com um desafio pequeno. Quase involuntário. E eu soube logo que ele ia agarrar nela.
Mathew repetiu a palavra como se estivesse a prová-la.
— Energia…
Depois inclinou-se e beijou-me o ombro outra vez. Desta vez o beijo veio com intenção, como uma pontuação que dizia agora presta atenção.
— Tem cuidado com o que me dizes, Adrian.
Eu ri, porque ele conseguiu dizer aquilo como se fosse educação e ao mesmo tempo fez com que o meu corpo reagisse como se fosse promessa.
— Tu és ridículo.
Mathew não discutiu. Ficou encostado a mim e murmurou com aquela calma indecente:
— Se tu me dás ideias, eu não sou responsável pelo meu próprio bom senso.
Eu revirei os olhos, mas o sorriso apareceu apesar de mim.
— “Bom senso”? Depois desta noite?
Mathew deu um meio sorriso, sincero, e a mão dele subiu ligeiramente na minha cintura.
— Exato. Eu ainda o tenho.
Eu fiquei a observá-lo de perto: a forma como os olhos dele não desviavam, como o peito dele ainda subia rápido demais quando eu mexia um milímetro, como ele parecia divertir-se com a minha tentativa de recuperar compostura. E a parte mais irritante foi perceber que eu adorava isso.
— Pára de falar como se fosses uma tentação bíblica — murmurei.
Mathew aproximou a boca do meu ouvido sem tocar.
— Eu não falo. Tu é que me olhas como se eu fosse.
Eu fechei os olhos um segundo.
— Tu és impossível.
— Eu sou prático. — ele disse, e esticou o braço para o telefone do quarto.
Eu franzi a testa.
— O que é que vais fazer?
Mathew olhou para mim como se a resposta fosse óbvia.
— Evitar que tu fiques a pensar demais. O chá ajuda.
— Chá?
Ele levantou um dedo a pedir silêncio e marcou. O contraste foi quase ofensivo: a mesma pessoa que, minutos antes, me tinha desfeito com um olhar agora falava ao telefone com uma voz impecável, como se o mundo tivesse voltado ao lugar.
E, para piorar, ele falou numa língua que eu não esperava. Fluente. Natural. Sem hesitação nenhuma.
— Buonasera… sì. Potrei avere del tè in camera, per favore? — fez uma pausa curta, ouvindo, e eu vi o sorriso de canto a surgir como se aquilo fosse… divertido. — Sì, grazie. Un vassoio per due. E qualcosa di dolce, se possibile.
Eu fiquei a olhar para ele como se ele tivesse mudado de pessoa no meio da frase.
Quando desligou, ele pousou o telefone com calma, como se nada.
Eu pisquei os olhos, meio atordoado.
— Espera… — a minha voz saiu rouca, incrédula. — Tu… tu falas italiano?
Mathew virou o rosto para mim, e o sorriso dele apareceu devagar, como se ele estivesse a apreciar o meu choque.
— Falo.
Eu empurrei-o de leve com o ombro, num gesto que era mais “que raio?” do que agressivo.
— Desde quando?
— Desde sempre. — respondeu ele, com uma serenidade irritante. — Não era relevante até agora.
— Não era relevante? — eu repeti, com um riso nervoso. — Tu acabaste de pedir chá às quatro da manhã em italiano… como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Mathew inclinou a cabeça.
— Foi normal.
Eu passei a mão pela cara, ainda a tentar processar a informação.
— Eu não sabia.
— Eu sei. — ele disse, simples. E depois, como se isso fosse o ponto todo: — Eu gosto quando tu descobres coisas minhas.
A frase bateu-me com um calor estranho, porque não era só vaidade. Era intimidade. Era um “ainda há mais de mim” dito com calma.
A vergonha voltou a cair em cima, agora por outro motivo.
— Eles vão perceber — eu murmurei, voltando ao assunto que eu conseguia controlar.
Mathew encolheu os ombros.
— Adrian… os funcionários não são burros. Claro que vão perceber.
— Isso incomoda-me.
Mathew deitou-se de lado e tocou-me no queixo com dois dedos, levantando o meu rosto com uma calma que não pedia licença.
— Eu não pedi para fingirem que não sabem — disse ele, baixo. — Eu pedi chá.
Eu fiquei sem resposta, preso entre a vergonha e o facto de ele ter razão.
Mathew beijou-me o ombro outra vez, como se fosse um hábito antigo, e eu senti o arrepio subir apesar do cansaço.
— Insuportável — resmunguei, mas a palavra saiu sem veneno.
Mathew levantou-se com aquela calma de quem manda no próprio ritmo. Foi até ao armário, abriu-o, e o som da madeira e do metal foi estranho de tão normal depois da noite que tínhamos vivido. Tirou um robe e voltou, estendendo-mo como se estivesse a vestir-me de novo no mundo.
— Toma.
Eu peguei no robe, ainda meio desnorteado.
— Para quê?
Mathew já estava a abrir a porta de vidro. O ar frio entrou de novo, trazendo Milão com ele. As luzes agora pareciam mais distantes, o silêncio mais elegante, como se trouxesse aquela sensação de que a cidade respirava devagar naquele horário.
— Para a varanda — disse ele, simples. — Preciso de te ver a respirar.
— Tu tens uma fixação com “respirar”.
Mathew olhou por cima do ombro e sorriu.
— Eu tenho uma fixação contigo a não te quebrares em mil pensamentos.
Eu vesti o robe à pressa e segui-o.
Ele já estava lá fora, encostado ao parapeito, com a cidade a brilhar em baixo como um mapa de luzes. O vento mexeu-lhe o cabelo ainda húmido e a postura dele, relaxada e segura, fez-me pensar que ele parecia confortável em qualquer cenário.
Quando me coloquei ao seu lado, Mathew puxou-me pela cintura com um gesto breve e discreto, só para me encostar um segundo ao corpo dele, como se confirmasse outra vez que eu estava ali.
Depois murmurou, baixo, quase divertido:
— Vá… gasta essa energia a olhar para Milão.
Eu ri, vencido, e deixei o frio limpar um bocado do calor do meu corpo. A varanda tinha um frio limpo, daqueles que acordam a pele sem magoar. O vidro da porta atrás de nós ainda guardava o calor do quarto, mas ali fora tudo parecia mais nítido, como se o ar obrigasse as coisas a terem contorno.
Eu encostei-me ao parapeito com o robe apertado à cintura, a tentar convencer-me de que olhar para a cidade era suficiente.
Eu observava-o sem querer. E ao mesmo tempo querendo.
Não era apenas o seu corpo, era os detalhes: a forma como ele respirava mais fundo quando o vento vinha, como passava a língua pelos lábios só porque estavam secos, como o olhar dele parecia pousar na cidade mas voltava sempre ao reflexo do vidro, como se estivesse a confirmar que eu ainda estava ali.
Eu apercebi-me tarde demais de que estava a encará-lo.
Mathew virou a cara só um pouco. Não foi um “olhar”. Foi um ângulo. Uma leitura rápida, quase preguiçosa, que me apanhou no exato segundo em que eu devia ter fingido que estava interessado num prédio qualquer.
Ele não disse nada logo.
Só ficou com aquele meio sorriso que não era bem um sorriso mas um aviso suave.
Eu desviei o olhar para a cidade como se isso resolvesse alguma coisa. Como se o meu corpo não tivesse denunciado tudo.
O silêncio estendeu-se entre nós. Não era desconfortável. Era carregado. Como se ambos estivéssemos a pisar uma linha fina e ninguém quisesse ser o primeiro a chamá-la pelo nome.
Mathew respirou fundo, apoiando melhor os antebraços no parapeito. O robe dele abriu-se ligeiramente no peito e ele nem se deu ao trabalho de corrigir. Eu, por outro lado, ajustei o meu robe por reflexo. O que foi ridículo, porque ele já me tinha visto de todas as maneiras possíveis.
Ele olhou para mim de lado outra vez, mais demorado desta vez.
E só então falou. Baixo. Quase como quem testa se a frase cabe ali.
— Vais continuar a olhar-me assim?
A pergunta não veio como acusação. Veio como curiosidade divertida. Como se ele estivesse a medir o meu limite mas sem tocar nele.
Eu mantive os olhos na cidade por um segundo a mais do que era necessário.
Depois olhei para ele.
— Assim como? — a minha voz saiu neutra, mas havia qualquer coisa por baixo. Uma confissão pequena que eu não quis dar.
Mathew soltou uma risada leve, quase um sopro, e abanou a cabeça como se eu fosse impossível.
— Como se eu fosse uma coisa nova.
Fiquei calado tempo suficiente para ele achar graça.
— Não gostas? — eu perguntei, tentando trazer o assunto para um sítio mais seguro: a provocação.
Mathew não respondeu logo. Olhou para a cidade, como se estivesse a escolher a melhor forma de não me assustar ou de não se expor.
Depois voltou a olhar para mim, de lado, com aquele brilho que ele guardava quando queria ser perigoso sem ser brusco.
— Gosto. — disse apenas.
E a simplicidade da palavra teve mais impacto do que qualquer discurso.
Eu deixei o ar sair devagar, como se isso me desse tempo. O silêncio voltou, mas já não era igual. Era um silêncio com uma frase dentro.
Mathew mexeu-se ligeiramente, só o suficiente para o braço dele roçar no meu robe. Não foi toque direto de pele. Um gesto simples que não significa nada. Mas o meu corpo registou como se fosse tudo.
Ele percebeu. Claro.
A boca dele curvou-se num sorriso mínimo, e ele voltou a olhar para a cidade como se estivesse muito interessado em Milão.
Eu também tentei.
Ficámos assim uns segundos, dois homens a fingir que estão só a ver uma vista, até eu sentir o olhar dele sobre mim outra vez, sem ele virar a cara.
— Vais dizer-me o que estás a pensar? — ele perguntou, com cuidado.
A pergunta era simples, mas não era pequena. E foi essa delicadeza que me deixou sem defesa por um instante.
Eu engoli seco.
— Ainda não sei. — admiti baixinho.
Mathew assentiu, como se aquela resposta fosse legítima. Como se ele não estivesse a exigir nada.
— Está bem.
O “está bem” dele era estranho. Calmo. Sem pressão. E isso, por alguma razão, era mais difícil de lidar do que uma provocação direta.
Eu virei o rosto para ele, procurando o flerte para me salvar.
— Tu és sempre assim… paciente?
Mathew olhou para mim, e a risada dele veio baixa, quente.
— Não.
— Então porquê comigo?
Ele demorou um segundo a mais do que devia. Só um segundo. E eu vi ali um travão, como se ele também não soubesse exatamente onde pôr os pés.
— Porque eu não quero estragar isto com pressa. — disse por fim, quase num murmúrio.
A frase ficou no ar, delicada e perigosa.
Eu mantive o olhar em Milão durante mais dois segundos do que era natural. Só para não olhar para ele outra vez como se estivesse a tentar decorá-lo.
Depois forcei um tom leve, quase casual, como quem escolhe uma conversa banal para não cair no sítio perigoso.
— Então… — disse, apoiando os antebraços no parapeito, robe apertado à cintura. — Há mais alguma língua escondida que eu ainda não sei? Ou posso parar de ser surpreendido a meio da madrugada?
Mathew olhou para mim de lado, com um sorriso preguiçoso.
— Estás a reclamar?
— Estou a tentar manter a minha dignidade. — respondi, fingindo que era só uma piada.
Ele soltou uma risada baixa e voltou a olhar para a cidade, como se a minha tentativa de “normalidade” lhe desse graça.
— Eu falo três línguas. — disse ele, simples. — Inglês, italiano e francês.
Eu arqueei a sobrancelha.
— Francês também. Claro. — murmurei, com um sorriso que era meio gozo, meio admiração. — Tu és mesmo esse tipo de pessoa.
— Que tipo?
— O tipo que consegue pedir chá às quatro da manhã numa língua estrangeira e ainda parecer… irritantemente composto.
Mathew riu, com um ar de “culpado”.
— Eu faço esforço. Tu é que me apanhas em horas em que eu já não finjo.
A frase ameaçou puxar a conversa para um sítio mais sério, então eu agarrei o fio leve antes que ele caísse.
— Está bem. — eu disse. — Mas eu também não sou completamente um analfabeto linguístico, ok?
Mathew virou a cara um pouco mais, interessado.
— Ah, não?
— Não. — confirmei, com um orgulho pequeno. — Eu sei espanhol.
Houve um segundo de silêncio.
Depois Mathew soltou uma risada leve. Aquela risada que é mais expressão do que som e inclinou a cabeça como se estivesse a fazer um diagnóstico.
— Espanhol? — repetiu. — Deixa-me adivinhar… foi das novelas?
Eu encarei-o, ofendido.
— Tu és impossível.
— Estou só a imaginar. — Mathew disse, muito sério, mas com os olhos a rir. — Tu em casa, a apanhar frases dramáticas… “¡No puede ser!”… “¡Te lo juro!”
Eu ri, apesar de mim.
— Primeiro: eu não digo “¡No puede ser!”. — comecei a contar nos dedos, como se fosse uma acusação formal. — Segundo: as novelas eram da minha mãe. Eu apenas… estava no mesmo espaço.
Mathew ergueu uma sobrancelha.
— “No mesmo espaço”. Isso é a versão adulta de “eu vi sem querer”.
— Exatamente. — eu respondi, seco. — Eu fui vítima.
Mathew soltou um “hum” satisfeito e aproximou-se um pouco mais do parapeito, como se estivesse confortável naquele tipo de conversa que não exige nada além de estar ali.
— Então diz-me uma coisa em espanhol.
Eu olhei para ele de lado.
— Tipo o quê?
— Uma frase qualquer. — ele respondeu. — Quero confirmar se isso é espanhol real… ou espanhol de novela.
Eu estreitei os olhos.
— Estás a gozar comigo.
— Um pouco. — admitiu ele, com uma calma irritante. — Mas também quero ouvir-te falar.
A honestidade dele apanhou-me, mesmo embrulhada em provocação. Eu limpei a garganta, fingindo que era o frio.
— Ok. — eu disse, como se estivesse a conceder um favor. — “No soy turista. Estoy sólo… explorando.”
Mathew soltou uma risada, genuína.
— Isso foi… surpreendentemente bom.
— Eu disse. — respondi, com um sorriso de lado. — Não me subestimes.
Mathew olhou para mim de novo, de lado, com aquele brilho que aparecia sempre que ele queria apertar um bocadinho a tensão sem estragar a leveza.
— Então, Sr. “Explorando”… — disse ele, arrastando a palavra como se fosse uma provocação. — quantas novelas foram necessárias para chegares aí?
Eu dei-lhe um empurrão leve com o ombro, só para o calar.
— Cala-te.
Mathew riu e inclinou-se um pouco na minha direcção, a voz baixa, quase cúmplice.
— Estou a tentar perceber uma coisa.
— O quê?
Ele olhou para a cidade, como se estivesse a falar de algo banal.
— Se tu és do tipo que aprende línguas… ou do tipo que aprende frases para ocasiões específicas.
Eu percebi onde ele queria chegar e revirei os olhos, a tentar não sorrir.
— Tu és mesmo um idiota.
Mathew voltou a olhar para mim, com um sorriso lento.
— E tu estás a falar comigo como se não gostasses.
Eu abri a boca para responder, mas a verdade era que eu gostava. Gostava do jeito como ele me puxava para leveza quando eu começava a afundar no pensamento. Gostava do facto de ele provocar sem me empurrar para fora da linha.
Então eu fiz o que conseguia: devolvi a provocação.
—E será que o teu francês também é de novela?
Mathew riu baixo, e o olhar dele ficou mais quente por um segundo.
— Queres testar?
Eu segurei o olhar dele por um instante. Só um. O suficiente para sentir o risco.
Depois desviei para a cidade, fingindo neutralidade.
— Talvez — eu disse, e tentei que a palavra soasse casual.
Mas “talvez”, na minha boca, nunca era só uma palavra. Era uma janela aberta. E Mathew percebeu isso no mesmo instante, como se a sílaba tivesse acendido uma luz nele.
Ele aproximou-se sem pressa, a ocupar o meu espaço com uma naturalidade perigosa. A mão dele encontrou a minha cintura por baixo do robe, firme, segura. Não para me prender, mas para me lembrar que eu não estava sozinho ali na varanda, que eu não estava só a olhar para uma cidade bonita.
Eu senti o corpo reagir antes de eu decidir reagir.
— Mathew… — eu avisei, mais baixo, porque a própria noite parecia exigir silêncio.
Ele não respondeu. Só encostou o peito às minhas costas, ajustando-se a mim como se fosse óbvio. Como se o meu corpo fosse um lugar que ele já conhecia.
E depois… a boca dele.
Primeiro foi um roçar leve, quase nada, no lado do meu pescoço. Um toque de lábios que não era beijo inteiro , mas uma provocação. Um “estou aqui” dito na pele. O vento frio bateu-me no rosto e, por contraste, aquele calor pequeno no pescoço fez-me perder o equilíbrio interno por um segundo.
Ele subiu devagar, como se estivesse a desenhar um caminho. Não com pressa. Com intenção.
Eu fechei os olhos sem querer. E odiei-me por isso.
— Não faças isso — murmurei, mas a frase saiu vazia, sem força, traída pela minha própria respiração.
Mathew soltou uma risada baixa, quase muda, encostada à minha pele — um som que arrepiou mais do que os beijos.
— Foste tu que disseste “talvez”.
A mão dele apertou a minha cintura um pouco mais, só o suficiente para me arrancar um suspiro curto. Não era agressivo. Era só firme. Como se ele estivesse a segurar o ponto exacto onde eu me desfaço.
Eu tentei recuperar a pose, a ironia, qualquer coisa.
— Eu estava a falar de… línguas.
Mathew roçou a boca no meu pescoço outra vez, mais perto do ouvido.
— Eu também.
E então ele encostou os lábios ao meu ouvido e sussurrou em francês, baixo demais para o mundo e alto demais para o meu coração:
— Tu dis “peut-être” comme si tu voulais que je te rappelle… exactement pourquoi tu n’as pas dormi cette nuit.
A frase não era gráfica. Não precisava. Tinha o peso inteiro da noite dentro dela. E o francês, dito assim, encostado à minha pele, parecia ainda mais indecente, como se a língua fosse um segredo feito para ser sussurrado.
Eu abri os olhos, mas não me mexi. Fiquei ali, preso entre o frio da madrugada e o calor dele colado às minhas costas.
— Tu és mesmo… — eu comecei, mas a minha voz falhou, porque ele deixou outro roçar de lábios no meu pescoço, lento, como quem interrompe de propósito.
— Diz — ele pediu, com aquela calma irritante. — Diz o quê eu sou.
Eu engoli seco e tentei rir.
— Uma praga.
Mathew riu baixinho, satisfeito, e a mão dele fez um gesto mínimo na minha cintura, como se me puxasse um milímetro mais para ele.
— E tu ainda assim disseste “talvez”.
Eu virei ligeiramente o rosto, só o suficiente para o ver de lado. O olhar dele estava quente, atento, como se estivesse a medir até onde eu aguentava sem pedir tréguas… e a respeitar o exacto momento em que eu pudesse partir.
Eu sustentei o olhar um segundo — e depois deixei-o ganhar, porque eu já sabia que ia deixar.
— Pára de falar francês ao meu ouvido — murmurei, tentando soar sério.
Mathew inclinou a cabeça, a boca quase a tocar na minha pele.
— Porquê?
Eu respirei fundo. O ar saiu tremido.
— Porque eu não percebo metade… e mesmo assim o meu corpo percebe tudo.
A risada dele veio baixa, satisfeita, quase terna. E ele finalmente beijou-me o pescoço como um selo. Breve, quente mas finito.
— Então é isso — disse, ainda junto a mim. — Eu só preciso de te dizer uma coisa bonita… e tu desistes.
Eu fechei os olhos outra vez, rendido, e apontei o que ainda me restava: a teimosia.
— Não é “desistir”. — corrigi, num fio de voz. — É… escolher perder.
Mathew ficou quieto por um segundo. Depois, com a boca encostada ao meu ouvido, respondeu como se fosse uma promessa simples:
— Boa escolha.
Para não deixar a conversa voltar ao perigoso, eu apressei-me a manter o tom leve.
— Então… deixa-me adivinhar. — eu disse, apontando para ele com a mão no bolso do robe. — Italiano aprendeste por causa de negócios. E francês… por causa da tua mania de ser elegante até para pedir água.
Mathew olhou para mim de lado, e o sorriso dele ficou mais discreto. Quase carinhoso.
— O italiano, sim. O francês… foi mais cedo.
— “Mais cedo” como? — eu perguntei, tentando parecer apenas curioso.
Mathew encolheu os ombros, como se não fosse nada.
— Escola. Viagens. Pessoas.
Eu deixei escapar um riso.
— “Pessoas”. Claro. — repeti, e depois fiz uma pausa breve, só para o picar sem o empurrar. — Aposto que já disseste coisas perigosas em francês.
Mathew soltou um “hum” baixo, como se estivesse a decidir se me dava corda ou se me cortava.
— Já.
— E em italiano?
Ele olhou-me, e o brilho nos olhos dele voltou por um segundo.
— Também.
Eu senti um arrepio subir, não porque ele tivesse dito algo explícito mas porque, com ele, até a sugestão vinha carregada.
Eu tossi, fingindo que era o frio.
— Certo. — eu disse, com um sorriso nervoso. — Bom saber que posso ser arruinado em três línguas.
Mathew riu outra vez, e desta vez a risada dele parecia aliviar a tensão no ar, como se ele apreciasse eu estar a tentar manter o chão.
— Em duas, na verdade. — ele corrigiu, tranquilo. — Porque tu só percebes uma.
Eu virei o rosto para ele, escandalizado.
— Isso foi cruel.
Mathew inclinou-se um pouco mais sobre o parapeito, a voz baixa, quase divertida.
— Não foi cruel. Foi informativo.
Ficámos assim mais uns segundos, com o vento a passar por nós como uma mão fria e a cidade lá em baixo a existir sem urgência. O Mathew ainda estava atrás de mim, a mão na minha cintura com aquela firmeza tranquila que me tirava as desculpas. E foi então que ouvimos uma batida na porta.
- Vais lá tu – Eu resmunguei sentindo-me corar enquanto apertava ainda mais o robe contra o corpo. Ele deu um sorriso divertido. E antes de entrar, a sua boca roubou um beijo do meu ombro. Ouvi o empregado, ouvi Mathew responder em Italiano e, em poucos minutos, ele regressou pela porta de vidro, agora com duas chávenas quentes na mão.
- Toma – eu segurei a porcelana quente com cuidado.
- Ele notou? – eu perguntei, desviando os olhos de novo para a vista à nossa frente, Ele colocou-se ao meu lado novamente, encixando de novo a mão na minha cintura como se nunca tivesse saído. Deu um gole lento, e respondeu:
- A cama não está propriamente arrumada Adrian.
E agora um silêncio estranho manteve-se ali. Entre os robes, entre a sua mão e a minha pele. Entre Milão e Nova York.
Eu virei-me devagar, só o suficiente para o ver de frente. A luz da varanda apanhou-lhe o rosto de lado: o cabelo ainda húmido, o olhar atento, a boca com aquele meio sorriso de quem sabe exactamente o que eu estou a tentar dizer sem conseguir dizer.
— Mathew… — comecei, e parei.
Ele não se mexeu. Só esperou, como sempre.
Eu ajeitei o robe um pouco mais na cintura, gesto automático, e deixei a frase sair com um cuidado quase irritante.
— Nós vamos ter de falar?
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