Dolce & Desastre

20 Dolce & Consequências


"Nós vamos ter de falar?"

A pergunta ficou suspensa entre nós, pequena demais para o que carregava.

Mathew piscou devagar. O sorriso dele desapareceu um pouco, menos por frieza, mais por seriedade. Como se ele tivesse entendido tudo ao mesmo tempo: o “falar” não era sobre chá, nem sobre línguas, nem sobre Milão. Era sobre o que vinha depois. Sobre o que isto faz a uma pessoa.

Ele aproximou-se meio passo, só presença, sem invadir.

— Se tu não quiseres falar… nós não falamos — disse ele, baixo, com uma calma que me desarmou. — Eu não preciso de palavras para te prender aqui.

Eu engoli em seco. Porque a frase era bonita… e assustadora.

— Eu sei — murmurei, e a minha voz saiu mais frágil do que eu queria. — Mas eu não estou a perguntar por… agora.

Mathew inclinou ligeiramente a cabeça, como se dissesse eu percebi à primeira.

— Eu sei.

O silêncio voltou, mas era um silêncio diferente. Soava a espaço.

Eu respirei fundo, obrigando-me a ser honesto sem me afogar na honestidade.

— E tu? — perguntei. — Tu queres falar alguma coisa?

Mathew olhou para a cidade por um instante, como se estivesse a escolher uma resposta que não me empurrasse para fora da varanda.

Depois voltou a olhar para mim. O olhar dele ficou suave, mas não menos firme.

— Eu acho que devíamos — disse ele, com aquela subtileza dele, como quem não dá ordens, mas também não foge. — Nem que seja pouco. Nem que seja só o suficiente para não fingirmos que isto foi… só uma noite em Milão.

A frase caiu devagar.

Eu senti um aperto no peito. Porque ele tinha dito exactamente o que eu estava a tentar evitar nomear.

— E se eu não souber por onde começar? — eu perguntei, num fio de voz.

Mathew deu um sorriso pequeno, quase terno, e estendeu a mão até ao meu pulso, tocando-me com calma, como se estivesse a marcar presença e nada mais.

— Então começamos pelo mais simples — disse ele. — Não tens de me dar um discurso, Adrian. Só tens de me dizer o que tu já sabes… e o que tu ainda não consegues admitir em voz alta.

E o vento passou outra vez.

Milão continuava lá em baixo, indiferente e bonita.

Eu respirei fundo e disse, de uma vez, a parte que estava a travar-me desde o início.

— Eu terminei com o Allan há dois meses.

Mathew não reagiu como eu temia. Só um olhar mais atento, como se ele estivesse a encaixar uma peça que faltava.

— Adisson disse-me que estavas solteiro— murmurou ele, baixo.

Eu assenti.

— E eu não sei se estou preparado para… o que quer que isto seja. — engoli em seco, porque dizer “isto” era mais fácil do que dizer “nós”. — Porque isto exige coisas. Tempo. Promessas.

Eu ri, curto, sem humor.

— E eu não quero prometer nada. Não agora.

Mathew ficou em silêncio por um instante. A mão dele descansava no parapeito, os dedos relaxados, mas o olhar estava fixo em mim com uma seriedade calma.

— Ok — disse ele, devagar. — Então não prometas.

A resposta simples desarmou-me.

— Não é só isso… — eu comecei, mas parei. Recomecei, mais honesto. — Eu tenho medo de prometer e falhar. Ou de prometer por impulso e depois acordar e perceber que eu me meti numa coisa que eu não sei sustentar.

Mathew inclinou a cabeça.

— Tu não és impulsivo, Adrian.

Eu soltei um riso breve.

— Hoje fui.

Mathew deixou escapar um sorriso pequeno, mas não pegou nele para brincar. Ficou sério outra vez.

— Hoje tu escolheste — corrigiu. — Há diferença.

O silêncio voltou por um segundo. O vento cortou o espaço entre nós e levou o cheiro da cidade consigo.

Mathew foi o primeiro a falar de novo, como se estivesse a ir ao ponto com a mesma calma com que pediu chá.

— E em Nova Iorque? — perguntou. — Como é que isto fica em Nova Iorque?

Eu olhei para as luzes e senti a pergunta apertar-me no peito, porque era aí que as coisas deixavam de ser nocturnas e bonitas e começavam a ter calendário.

— Eu não sei — admiti. — Eu não sei como vai ser, Mathew.

E, antes que a minha cabeça me sabotasse, eu devolvi-lhe a pergunta.

— E tu? Tu sabes?

Mathew olhou para mim com uma certeza tão tranquila que quase me irritou.

— Sei.

A palavra caiu simples. Sem adorno. Sem dúvida.

Eu franzi a testa, automaticamente defensivo, como se a certeza dele fosse uma afronta à minha confusão.

— Tu… sabes? — repeti, meio incrédulo. — Como é que podes saber?

Mathew deu de ombros, mas foi um gesto controlado, como se ele não estivesse a evitar a pergunta, só não precisava de se justificar.

— Porque eu sei o que quero.

Eu deixei sair um ar curto.

— E o que é que tu vais fazer, então?

Mathew virou-se um pouco mais para mim. Não invadiu. Não encurtou a distância com o corpo. Só me deu o olhar inteiro, como se a resposta merecesse ser dita de frente.

— Vou conquistar-te.

Eu fiquei a olhar para ele, sem piscar, porque aquela frase era perigosa por ser simples. Não era um “vamos ver”. Não era um “talvez”. Não era uma promessa vazia. Era uma intenção decretada.

— Conquistar-me… — repeti, como se estivesse a testar a palavra na boca. — Isso parece… tão seguro na tua cabeça.

Mathew sorriu de canto, finalmente deixando entrar um pouco do flerte — mas sem perder a seriedade.

— Eu não disse que ia ser rápido. — disse ele. — Eu disse que ia fazê-lo.

Eu engoli em seco.

— E se eu não quiser ser conquistado?

Mathew inclinou a cabeça, como se eu lhe tivesse feito uma pergunta justa.

— Então eu paro. — respondeu, simples. — Mas eu não acho que esse é o problema.

Eu ri, nervoso, porque ele acertou.

— Qual é o problema então?

Mathew aproximou-se meio passo, só o suficiente para eu sentir a presença dele como uma coisa quente no frio da varanda.

— O problema é que tu achas que, se deixares alguém aproximar-se, tens de assinar um contrato. — disse ele, baixo. — E eu não estou a pedir-te um contrato. Estou a pedir-te espaço.

Eu sustive o olhar dele, e a minha voz saiu num murmúrio.

— Espaço para quê?

Mathew respondeu sem pressa, como se a palavra seguinte fosse a única que importava.

— Para eu te mostrar, com tempo, que eu não vim aqui para ser uma noite bonita. — fez uma pausa curta. — Eu vim para ficar.

A frase devia ter-me assustado mais.

Eu desvio o olhar para a cidade, porque encará-lo era ceder.

— Tu falas como se isso fosse fácil — murmurei.

Mathew soltou uma risada baixa, quase terna.

— Não é fácil. — disse ele. — Mas eu sou bom em coisas difíceis.

Eu sorri sem querer, cansado, rendido.

— Convencido.

Ele encostou o ombro ao meu, leve, um toque mínimo.

— Persistente. — corrigiu. — E tu vais odiar-me por isso… e adorar ao mesmo tempo.

Eu não respondi.

Porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não tinha a certeza de que queria fugir.

Deixei o ar sair devagar, como se isso me desse tempo para não estragar o momento com a minha cabeça. O vento mexeu no meu robe, e eu tentei agarrar-me ao tom leve, ao Adrian que sabe brincar quando sente demasiado.

Olhei para ele de lado, com um meio sorriso que era mais defesa do que graça.

— Então… posso receber um spoiler da tua missão? — perguntei tentando soar o mais neutro possível.

Mathew inclinou a cabeça, divertido. O olhar dele ficou com aquele brilho de quem gosta quando eu tento.

— Estás curioso?

Eu soltei um riso curto.

— Curioso é uma palavra elegante. — respondi. — Estou a tentar perceber em que ponto é que eu vou perder o juízo outra vez.

Mathew riu baixo, e o som foi quente no frio da varanda.

Eu ia deixar aquilo ficar por aí. Devia. Mas a verdade estava ali, presa no peito, e a noite parecia insistir que eu não fugisse.

— Eu… neste momento da minha vida, não tenho espaço para nada. — disse, de repente, mais sério. A frase saiu sem dramatismo, só constatação. — Falta-me tempo. E eu sei que isso… foi um fator. No meio de vários. Que destruiu o meu relacionamento.

A palavra “destruiu”, ficou feia no ar. Demasiado pesada para uma varanda bonita. Mas era honesta.

Mathew não fez cara de pena. Não tentou “salvar” a frase. Só me ouviu.

— Eu não me importo — disse ele, calmamente.

Eu olhei para ele, desconfiado.

— Não te importas?

Mathew assentiu, simples. Como se a resposta já estivesse decidida há dias.

— Eu sei como é a tua vida. — disse ele. — Sei o tempo que tu tens… e sei a falta dele também.

Houve uma pausa curta, e eu senti a forma como ele escolheu as palavras seguintes. Não foi teatral. Foi cuidado.

— Mas, ao contrário do que aconteceu com o Allan… eu não vim exigir espaço na tua vida. — Mathew disse isto com uma calma que me apanhou desprevenido. — Eu vim aproveitar as brechas que sobram.

Eu engoli em seco.

— E isso chega-te? — perguntei, mais baixo. — Isso vai ser suficiente para ti?

Mathew olhou para mim como se eu tivesse feito uma pergunta importante. Como se ele não fosse gozar com ela. E isso, por si só, já me desarmou.

Ele pousou a chávena na mesa devagar, sem pressa nenhuma. Depois virou-se ligeiramente para mim, encostando-se ao parapeito, o corpo relaxado, mas o olhar firme.

— Deixa-me devolver-te a pergunta, Adrian. — disse ele, num tom suave. — Para ti… isso vai ser suficiente?

Eu fiquei quieto por um segundo, porque a pergunta dele não era sobre tempo. Era sobre coragem.

Olhei para ele de lado e dei-lhe a resposta mais honesta… e mais irritante.

— Depende.

Mathew arqueou ligeiramente a sobrancelha, como se tivesse apanhado uma palavra que ele podia virar do avesso com dois dedos.

— Depende do quê?

Eu soltei um riso curto, meio defensivo.

— Depende de… que brechas são essas.

A frase saiu com um cuidado estudado, mas eu sabia exatamente o que estava a fazer: eu estava a pedir detalhes sem admitir que estava a pedir detalhes.

Mathew riu. Um riso leve, satisfeito, e eu vi o brilho de provocação a voltar aos olhos dele.

— Ah. — disse ele, com calma. — Afinal tu estás curioso.

— Não estou— comecei, por reflexo.

Mathew inclinou a cabeça, como quem não compra a mentira.

Eu suspirei e deixei cair o teatro.

— Talvez.

A palavra “talvez” devia ser pequena, mas na nossa conversa era sempre uma chave. Mathew olhou-me como se eu lhe tivesse entregue uma.

— Está bem. — disse ele, e apoiou os cotovelos no parapeito, o corpo relaxado, a voz baixa. — Vou dar-te exemplos. Só para te ajudar a… imaginar.

Eu revirei os olhos, mas o canto da minha boca denunciou-me.

— Tu adoras ouvir-te falar.

— Eu adoro ver-te tentar fingir que não gostas. — corrigiu ele, sem pressa.

Eu bufei um riso e deixei-o continuar, porque a verdade é que eu queria mesmo ouvir.

Mathew enumerou como se estivesse a planear algo com uma elegância quase absurda.

— Uma brecha pode ser um café rápido antes do teu primeiro meeting. Quinze minutos. Sem conversa profunda. Só… eu ali. — fez uma pausa, como se estivesse a medir o efeito. — Uma brecha pode ser eu ir ter contigo à saída do trabalho e caminhar contigo duas ruas. Só duas. O suficiente para te tirar da cabeça.

Eu senti o peito apertar num sítio perigoso, porque ele estava a tornar aquilo… possível. Pequeno. Realista. Sem exigir uma vida nova.

Mathew continuou, tranquilo, como se estivesse a falar de coisas óbvias.

— Uma brecha pode ser uma mensagem tua no meio do dia. Uma só. “Ainda estás vivo?” — ele sorriu de canto. — E eu respondo “infelizmente”, só para te irritar.

Eu soltei um riso, rendido.

— Isso é uma dinâmica horrível.

— É perfeita. — Mathew respondeu, como se fosse um facto.

Ele virou o rosto para mim e, com aquele ar de quem está a brincar mas não está a brincar, acrescentou:

— Uma brecha pode ser um jantar tarde. Quando tu finalmente largas tudo. Mesmo que seja macarrão com queijo no meu apartamento, e tu a queixares-te da Valentina. Eu vou estar lá a querer ouvir.

Eu engoli em seco.

— E quando não houver brecha nenhuma? — perguntei, mais baixo, porque aquela era a parte que me doía sempre: a ideia de falhar.

Mathew não hesitou.

— Então eu espero pela próxima. — disse ele, simples. — Eu não preciso de ganhar todos os dias. Eu só preciso que tu não feches a porta para sempre.

Fiquei quieto um segundo. O vento passou. Milão continuou a brilhar como se não tivesse noção de nada.

Mathew bebeu um gole de chá, como se fosse apenas conversa. Depois pousou a chávena e voltou a olhar para mim com um sorriso mais provocador, mais lento.

Uma brecha pode ser uma noite em que tu não queiras dormir sozinho.

A frase caiu leve. Mas o meu corpo ouviu como se fosse peso.

Eu mantive a cara neutra por um segundo heroico.

— Isso não é uma brecha. Isso é uma armadilha.

Mathew inclinou a cabeça, inocente demais.

— Pode ser uma brecha.

— Mathew…

Ele aproximou-se o suficiente para falar junto ao meu ouvido, mas sem tocar, a crueldade elegante dele era sempre essa: fazer-me sentir sem me dar o álibi do toque.

— Ou uma noite em que tu não queiras… dormir de todo.

Eu fechei os olhos por um instante, mais por raiva de mim do que por outra coisa. Porque ele tinha dito aquilo com calma, sem grafismos, e mesmo assim o meu corpo reagiu como se tivesse sido empurrado.

Quando abri os olhos, tentei salvar-me com ironia.

— Tu és mesmo impossível.

Mathew sorriu, satisfeito, e desta vez o sorriso tinha aquele calor controlado que me tirava o chão.

— Eu avisei-te. — disse ele. — Tu é que perguntaste pelas brechas.

Eu olhei para ele, a tentar recuperar o equilíbrio.

— E tu achas que isso… chega-te? — eu devolvi, mais baixo, porque agora eu já não estava a brincar tanto.

Mathew não respondeu logo. Só me olhou, com uma seriedade quieta por trás do flerte.

— Adrian… — disse ele, devagar. — Eu não estou a pedir-te uma vida inteira. Estou a pedir-te permissão para te ir conquistando nos intervalos.

Fez uma pausa curta, e o olhar dele prendeu-se no meu.

— A questão é: tu consegues deixar-me ficar nas brechas… sem depois te culpares por eu estar lá?

Eu virei-me um pouco mais para ele, a chávena ainda na mão, e franzi a testa.

— O que é que queres dizer com isso?

Mathew não desviou o olhar. A expressão dele suavizou, mas ficou séria. Como se ele estivesse a medir cada palavra para não me fazer recuar.

— Quero dizer que… eu vi-te comprometido. — disse, baixo. — Eu vi-te com alguém. Eu não sei os detalhes. Não sei o que aconteceu entre tu e o Allan. Só sei que… — ele fez uma pausa curta, e eu vi a hesitação rara nele — …que eu fui uma das coisas que te fizeram questionar essa relação.

Eu fiquei a olhar para ele, e por um segundo senti-me lento. Como se a frase estivesse a chegar com atraso.

— Não estou a acompanhar — admiti, genuinamente.

Mathew soltou um ar curto, quase um suspiro, pousou a caneca e encostou-se ao parapeito com as duas mãos, como se precisasse daquele apoio para dizer o resto.

— Eu também estou às escuras em muita coisa, Adrian. — disse ele. — E eu preciso de saber… onde é que eu estou a pisar contigo.

O vento passou, e ele ficou um segundo a olhar para Milão antes de voltar a olhar para mim.

— A minha ideia nunca foi invadir um relacionamento e estragá-lo. — a voz dele manteve-se controlada, mas havia uma honestidade crua ali. — Eu envolvi-me… porque o teu relacionamento já estava estragado. Ou, pelo menos, estava a começar a ficar.

Eu abri a boca para responder, mas ele continuou, como se precisasse de terminar a frase antes que eu a interrompesse com defesa.

— E agora eu preciso de te perguntar uma coisa de frente. — Mathew olhou-me como se aquilo lhe custasse mais do que parecia. — Tu olhas para mim dessa maneira? Como razão de tudo ter dado errado?

A pergunta caiu entre nós como uma coisa pesada.

Eu senti o peito apertar, não por medo — por perceber o que aquilo custava a ele dizer. Mathew, que parecia sempre tão seguro, a perguntar-me se eu o via como uma falha.

— Não. — respondi de imediato, sem pensar. — Não, Mathew.

Ele manteve o olhar fixo, como se precisasse de mais do que a primeira resposta.

Eu respirei fundo e fui mais claro, porque ele merecia isso.

— Tu foste um factor, sim. — disse eu. — Mas não foste a razão.

Mathew engoliu em seco, quase impercetível. Depois assentiu devagar, como se estivesse a aceitar a nuance… mas ainda sem largar a preocupação.

— Então diz-me isto — ele insistiu, com cuidado. — Se eu tentar algo contigo… se eu for atrás de ti de verdade… tu vais ver-me como uma coisa nova?

Fez uma pausa curta. A voz dele baixou um pouco mais.

— Ou eu vou ser sempre uma lembrança de algo que já estragou as coisas antes?

Eu senti o impulso de ironia a subir. O meu instinto de fugir quando a conversa fica séria demais. Mas desta vez eu não quis.

Eu olhei para ele e disse com firmeza, como se precisasse que ele acreditasse.

— Tu não estragaste nada. — repeti. — Tu não fizeste isso. Não foi por tua causa. E eu não… eu não te vejo como “o problema”.

Mathew susteve o meu olhar. Por um segundo pareceu que ele ia deixar aquilo ficar. Mas não deixou.

Ele respirou fundo, e quando falou outra vez, a voz veio mais baixa. Mais humana.

— Eu sei que não “fiz” de propósito. — disse ele. — Mas também sei que não fui completamente inocente.

O meu estômago apertou. A palavra tinha peso.

Mathew desviou o olhar um instante, não por vergonha, por escolher como dizer sem soar heroico. Depois voltou a olhar para mim, e eu vi ali uma franqueza desconfortável.

— Errado não era só… ter interesse. — ele confessou, devagar. — Era deixar-me ficar perto quando eu já sabia o que isso te causava.

Ele fez uma pausa curta, como se a parte seguinte lhe custasse mais.

— E era também… explorar. — a palavra saiu baixa, quase seca, como se ele não quisesse embelezá-la. — Explorar a possibilidade.

O silêncio que se seguiu foi cheio, não vazio. Cheio da honestidade dele a cair no chão entre nós.

— …e mesmo assim eu não me afastei. — ele terminou, simples, sem dramatizar.

Eu fiquei quieto um instante, porque ali havia uma confissão que não era bonita — era real. E eu respeitei o silêncio que ela precisava.

— O que é que isso significa? — perguntei, por fim.

Mathew olhou para a cidade por meio segundo, como se fosse buscar ar. Depois voltou a olhar para mim, e eu vi algo raro nele: uma honestidade quase desconfortável.

— Significa que o interesse que eu tenho por ti é maior do que os valores que eu digo que tenho. — disse ele, devagar. — E isso…

Ele soltou uma risada mínima, sem humor.

— Isso é tão perigoso quanto é intrigante.

Eu senti um arrepio subir, não de frio. De reconhecimento. Porque ele estava a dizer a parte que eu também sentia e não queria admitir: que aquilo mexia connosco numa zona que não era conveniente, nem segura, nem fácil de justificar.

— Isso devia assustar-te — eu murmurei.

Mathew inclinou ligeiramente a cabeça.

— Assusta. — admitiu. — Mas não me afasta.

O vento voltou a passar, e por um segundo o mundo pareceu muito grande e nós muito pequenos ali, a falar de coisas que não cabiam numa madrugada bonita.

Eu olhei para ele, a tentar ler o que vinha a seguir. E senti o meu próprio corpo fazer aquele gesto silencioso de rendição — não ao desejo agora, mas à verdade.

— E a mim… — eu disse, a voz mais baixa, quase num tom de confissão — assusta-me que isso… não me esteja a afastar também.

Mathew não sorriu. Não provocou. Apenas ficou ali, a olhar para mim como se eu tivesse acabado de lhe dar a única brecha que importava.

— Então talvez — disse ele, suavemente — o perigo não seja eu.

E deixou a frase no ar, sem apertar. Sem exigir. Como se, pela primeira vez, ele estivesse só a pedir que eu olhasse para a coisa inteira… sem fugir para o lado mais fácil.

E eu senti a necessidade de pôr uma coisa no lugar.

— Quando dizes que não foste assim tão inocente… queres me dar uma explicação disso? — Murmurei.

O Mathew olhou para mim de lado, e o sorriso que apareceu foi pequeno. Quase culpado. Quase divertido.

— Não.

A simplicidade da resposta irritou-me mais do que uma explicação longa.

— Na primeira noite — continuei, mantendo o tom baixo para não soar acusatório, mas sem perder firmeza — eu disse-te que estava comprometido. Eu pus um limite.

Ele assentiu, sem discutir.

— Puseste.

— E mesmo assim conseguiste maneira de ter o meu número.

O Mathew ficou uns segundos em silêncio, como se estivesse a escolher entre brincar ou admitir. Acabou por fazer os dois.

— Um mágico nunca revela os seus segredos lembras-te?

Eu encarei-o.

— Mathew.

Ele soltou uma risada leve, como se aquilo lhe desse prazer.

— Diz Adrian.

— Eu estou a falar a sério. — eu disse, mais calmo do que me sentia. — Como é que conseguiste?

O sorriso dele abrandou. Ficou menos “jogo” e mais verdade.

— Depois daquela noite… — começou ele, devagar — quando nós estávamos na varanda e o Leslie apareceu…

Eu franzi a testa, a tentar ligar o momento.

— Aquele instante em que ele chegou e interrompeu?

— Esse. — confirmou o Mathew. — Eu fiquei a olhar para ti.

A forma como ele disse aquilo não foi dramática. Foi factual. Como se estivesse a falar de uma coisa que o marcou.

— Estavas a tentar ser correto. A tentar manter tudo no lugar. — ele fez uma pausa, e olhou para a cidade um segundo. — E eu tive uma vontade parva de ser imprudente.

Eu soltei um riso curto.

— Tu não pareces ser exatamente uma pessoa prudente.

Mathew olhou para mim com calma.

— Mas sou. — disse ele. — E é precisamente por isso que tu conheces o meu lado imprudente. Porque ele só aparece quando eu já estou… demasiado interessado.

Eu engoli em seco, mas não lhe dei a satisfação. Voltei ao ponto.

— Tu ainda não me disseste como é que conseguiste o meu número.

O Mathew suspirou, como se eu estivesse a estragar o charme da história.

— Está bem. — disse ele, rendido. — Eu desci.

— Desceste para onde?

— Para a garagem— explicou. — Onde estava o carro com o motorista que vos tinha levado.

Eu fiquei a olhar para ele, já a antecipar o absurdo.

— E?

O Mathew levantou ligeiramente as mãos, numa espécie de confissão limpa.

— Eu subornei o motorista.

Eu pisquei os olhos.

— Tu fizeste o quê?

— Subornei. — repetiu ele, sem vergonha suficiente para disfarçar, mas com vergonha suficiente para não fingir que é bonito. — Pedi-lhe o teu contacto.

A minha boca abriu-se num choque que virou riso de incredulidade.

— Mathew… isso é doentio.

— É eficaz. — ele respondeu, com um meio sorriso.

— E ele deu-te o meu número assim? Do nada?

Mathew abanou a cabeça.

— Não foi “do nada”. — disse ele. — O teu número já estava guardado.

Eu franzi a testa.

— Guardado onde?

— No sistema de contactos do carro. — explicou. — Os motoristas têm acesso à agenda da Velvet para logística. E o teu número estava lá, guardado com o teu nome.

Eu encostei-me ao parapeito, como se precisasse de apoio para processar.

— Então tu… pagaste a um motorista… para ele te dar um número… que já estava guardado na agenda de trabalho?

Mathew inclinou a cabeça, a admitir o ridículo sem o negar.

— Sim.

Eu passei a mão pela cara e soltei uma risada curta, nervosa.

— Tu és mesmo… uma personagem.

Mathew não brincou dessa vez. O olhar dele ficou mais sério.

— Eu sei que tu puseste um limite nessa noite. — disse ele, baixo. — E eu não fui inocente. Não fui “só curioso”. Eu quis. E eu fiz coisas para conseguir.

Fez uma pausa curta, e a voz dele saiu ainda mais limpa.

— E eu estou a dizer-te isto porque não quero que tu descubras depois e penses que eu fui… um acidente.

O vento passou outra vez. Milão ficou lá em baixo, bonita e indiferente, e eu senti aquela mistura desconfortável: irritação e… um tipo de respeito pela honestidade dele.

Eu olhei para ele.

— Eu devia estar furioso.

Mathew assentiu sem discutir.

— Devias.

O vento passou outra vez e eu continuei a olhar para ele, à espera que o Mathew ficasse só com o papel de “culpado assumido”.

Mas ele não era assim tão simples. Nem tão cómodo.

Mathew manteve o meu olhar por um segundo, depois desviou para Milão como se precisasse da cidade para pôr a história no lugar certo.

— Mas antes que tu me pintes como um vilão… — disse ele, baixo, com um meio sorriso que não era brincadeira — eu também tenho uma defesa.

Eu arqueei a sobrancelha.

— Ah, claro. O discurso do “mágico”.

— Não. — ele abanou a cabeça, sério. — A verdade.

Houve um silêncio curto. Eu esperei.

Mathew apoiou os cotovelos no parapeito e falou com calma, como se estivesse a recuar a fita.

— Sim, eu fui imprudente a arranjar o teu número. Não vou fingir que isso foi bonito. — fez uma pausa. — Mas depois disso… eu não te persegui.

Eu franzi a testa, automaticamente desconfiado.

— Não?

— Não. — repetiu ele. — A primeira mensagem que te mandei… — o canto da boca dele subiu, mas sem humor. — Foi apenas um impulso. Um impulso que me arrependi no dia seguinte.

Eu fiquei quieto, a tentar lembrar-me do tom daquela mensagem, da forma como tinha sido directa mas não insistente.

Mathew continuou.

— E depois disso eu calei-me. Não disse mais nada. — ele olhou para mim de lado. — Aliás, eu achei mesmo que tu nem ias guardar o número.

Eu deixei sair um riso curto.

— Que conveniente.

Mathew deu de ombros.

— Eu não sabia onde eu encaixava para ti. — respondeu, simples. — Eu só sabia onde tu já encaixavas para mim.

A frase bateu, mas eu não lhe dei o palco. Voltei ao que importava.

— Então porquê insistes-te depois?

Mathew respirou fundo. O olhar dele ficou mais sério.

— Porque tu é que voltaste a aparecer.

Eu franzi a testa.

— Eu?

— Sim. — confirmou ele. — O telefonema.

E eu lembrei-me imediatamente: o computador que se desligou, eu sem paciência, a noite longa, o pânico irritante de não conseguir resolver uma coisa simples quando a cabeça já estava cheia.

Mathew continuou, como se tivesse guardado aquilo com precisão.

— Tu ligaste-me quando o teu computador se desligou e tu precisavas de ajuda. — a voz dele suavizou um pouco. — E eu… eu podia ter feito o correto e manter aquilo profissional. Podia ter ajudado e pronto, fim.

Ele olhou para mim, e o canto da boca dele subiu com um traço de honestidade.

— Mas eu encarei aquilo como uma oportunidade.

Eu inclinei a cabeça.

— Oportunidade de quê?

Mathew não respondeu com drama. Respondeu com clareza.

— Oportunidade de voltar a entrar no teu radar… sem te empurrar. — disse ele. — Porque, naquele momento, foste tu que me abriste a porta. Nem que fosse por necessidade.

Eu engoli em seco, porque havia uma diferença enorme entre ele ter “invadido” e ele ter… esperado por uma abertura.

— Então… — eu murmurei, a tentar organizar as peças — tu conseguiste o número, mandaste uma mensagem… e depois ficaste calado.

Mathew assentiu.

— Fiquei. — disse ele. — Eu não mandei mais nenhuma. Não fui atrás.

— E quando eu liguei…

— Eu aproveitei. — Mathew terminou, sem se esconder. — Porque eu queria. E porque tu, mesmo sem saberes, deste-me um motivo legítimo para estar perto.

Eu fiquei em silêncio um segundo, a olhar para a cidade como se Milão pudesse decidir por mim.

— Isso é uma defesa muito… apropriada — eu disse, por fim.

Mathew soltou uma risada baixa.

— É uma defesa verdadeira. — corrigiu. — Eu posso ter sido imprudente no início… mas eu não te forcei depois. Eu não te persegui. Eu não te prendi.

Ele virou o rosto para mim, e o olhar dele ficou mais firme.

— Eu só aproveitei as brechas que tu me deste.

A frase ficou no ar. E eu senti a irritação a perder força, substituída por outra coisa mais desconfortável: a consciência de que, mesmo quando eu achava que estava a controlar, eu já tinha aberto portas.

Eu respirei fundo.

— E tu achas isso… melhor?

Mathew inclinou a cabeça.

— Eu acho isso mais honesto. — disse ele. — Porque eu não vou fingir que fui “inocente”. Mas também não vou aceitar ser tratado como se eu tivesse sido o único a mexer as peças.

E, sem agressividade, sem acusação directa, ele devolveu-me a verdade com cuidado:

— Tu também escolheste. Nem que tenha sido só uma vez. Quando pegaste no telefone.

E essa foi a parte que me deixou mais quieto. Porque eu sabia que ele tinha razão… e eu não sabia se estava pronto para o que essa razão significava.

Porém antes que pudesse protestar, um bocejo apanhou-me de surpresa, como se o corpo tivesse decidido trair-me no pior momento. Tapei a boca com a mão e, quando olhei para o relógio, senti a realidade a cair-me em cima.

05h30.

Fiquei a encarar aqueles números como se eles tivessem o desplante de estar errados.

— São cinco e meia… — murmurei.

Mathew virou o rosto para mim com um sorriso lento, quase preguiçoso, como se a madrugada fosse só mais um cenário.

— Então é melhor ires dormir. — disse ele, prático. — O Leslie pediu-te para estares “inteiro”.

Eu ri, curto, sem grande humor.

— Sim. “Inteiro”.

Mathew aproximou-se só o suficiente para a voz dele caber num sussurro, junto ao meu ouvido, sem me tocar.

— O que ambos sabemos que não ficaste.

Soltei um riso baixo. Não respondi. Porque responder era admitir demais.

Voltei para dentro do quarto com a intenção muito clara de organizar-me e ir embora. Como se eu pudesse fazer isso em piloto automático: pegar na roupa, vestir, sair, voltar a ser o Adrian funcional. Era esse o plano. Sempre foi.

Só que, quando vi a cama desfeita, o lençol enrolado, o quarto ainda com aquele calor de coisa vivida… o meu corpo fez uma pausa que a minha cabeça não autorizou.

Fiquei parado, a olhar para a cama como quem olha para um erro que também parece conforto.

Atrás de mim, ouvi o Mathew entrar. O som do robe, o clique suave da porta de vidro.

Eu continuei a olhar para a cama, tentando não olhar para ele.

— Eu vou… — comecei, e a frase morreu no meio.

Mathew respondeu como se eu já tivesse dito o resto.

— Vais dormir. — disse ele, com a certeza tranquila de quem já decidiu.

Aquilo irritou-me, porque a certeza dele encostou na minha intenção de ir embora.

Virei-me para ele, finalmente.

— Não, Mathew. Eu vou para o meu quarto.

Ele não fez cara de “coitado”. Não fez drama. Só me olhou, com um meio sorriso que parecia conhecer o meu mecanismo por dentro.

— Claro que vais. — concordou, como se estivesse a dar-me razão.

Eu pisquei os olhos, confuso com a facilidade.

— …vais só demorar cinco minutos a admitir que não te apetece levantar outra vez, vestir-te e atravessar o corredor. — completou ele, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Eu abri a boca para refutar, mas o cansaço não me deu energia suficiente para ser convincente.

— Eu tenho de estar “inteiro” amanhã — repeti, mais como defesa do que como argumento.

Mathew assentiu, calmo.

— Exacto. Por isso é que ficas. Nem que sejam duas horas.

Eu ri, sem grande vontade.

— Duas horas não é dormir. É um intervalo.

— Um intervalo já é melhor do que nada. — ele respondeu. — E é melhor do que tu ires para o teu quarto e ficares a olhar para o tecto a pensar.

Eu desviei o olhar, apanhado.

Mathew aproximou-se um passo. Não invadiu. Parou a uma distância segura, tão perto que eu o sentia, tão longe que eu ainda tinha escolha.

— Adrian… — a voz dele baixou. — Eu não estou a prender-te aqui. Tu sais se quiseres.

A frase devia libertar-me. Em vez disso, tirou-me a desculpa.

Eu engoli em seco.

— Eu… preciso de roupa para amanhã. — atirei, agarrando-me ao último pedaço de logística como se fosse um colete.

Mathew soltou uma risada curta.

— Tu és mesmo teimoso.

— Eu sou responsável.

— És. — ele concordou, sem gozar. — E amanhã, se não tiveres paciência para voltar ao teu quarto buscar roupa logo cedo, usas um dos meus fatos.

Eu franzi a testa.

— Nós não temos a mesma alt-

— Adrian tu deves ser no máximo cinco centímetros mais alto que eu.

Mathew olhou-me de alto a baixo com uma calma descarada, como se estivesse a confirmar uma coisa que já sabia.

— Não é por aí que me convences.

O sorriso dele cresceu um pouco, mais quente.

— Eu não preciso de te convencer, tu já estás convencido.

Eu revirei os olhos, mas a minha boca traiu-me com um sorriso mínimo.

— Mathew…

Ele aproximou-se só mais um bocadinho. Não me tocou. Só falou baixo, como se o quarto fosse cúmplice.

— Dorme. — disse. —Três horas. Depois decides o resto quando tiveres cérebro a funcionar.

Eu fiquei quieto.

A cama parecia um íman e a minha intenção de bazar parecia um discurso que eu já não tinha energia para repetir. Senti aquela hesitação irritante, o momento exacto em que eu estou entre “ser correcto” e “ser honesto”.

Mathew esperou. Não insistiu. Só ficou ali, com a calma de quem confia que eu vou escolher o que já estou a querer.

Eu soltei o ar devagar, rendido ao cansaço antes de render-me a ele.

— Duas horas. — concedi, finalmente. — Só duas.

Mathew sorriu, não como quem vence, mas como quem recebe permissão.

— Combinado.

A cama engoliu-me devagar, como se o colchão fosse a única coisa sensata naquela noite. Eu puxei o lençol até à cintura, ainda a fingir que estava só a fazer “duas horas” como quem marca um compromisso.

Mathew deitou-se ao meu lado com uma calma irritante, como se aquilo fosse o desfecho óbvio desde o início. Encostou a cabeça na almofada e ficou a olhar para o tecto, tranquilo demais.

Eu virei o rosto para ele.

Ele estava perto. Mesma altura, mesma linha, o mesmo ar de quem não precisa de se impor para ocupar espaço. Só existe, e isso era o que mais mexia comigo.

Eu respirei fundo e fiz a última coisa que eu tinha para me proteger: brincadeira.

— Só para ficar claro… — murmurei, sério demais para ser sério. — Isto não conta como “brecha”.

Mathew virou o rosto lentamente, com aquele meio sorriso que já me irritava antes de aparecer.

— Não conta?

— Não. — confirmei. — Isto é… assistência humanitária. Um acto de caridade com um homem exausto.

Mathew soltou uma risada baixa.

— Ah. Então eu sou a tua ONG agora?

Eu revirei os olhos.

— Tu és uma praga com boas intenções.

Ele aproximou-se um pouco, só o suficiente para o ombro dele roçar no meu. O toque foi leve, quase casual, mas a minha pele registou como se fosse sublinhado.

— Boas intenções? — repetiu ele. — Adrian, eu já admiti que não sou assim tão inocente.

— Eu sei. — respondi. — E mesmo assim estou aqui. Claramente tenho um problema.

Mathew sorriu, satisfeito, e puxou o lençol um bocadinho mais para cima de mim. O gesto foi cuidadoso demais para ser inocente — como se ele me estivesse a colocar exactamente onde queria.

— Tens. — disse ele, baixo.

Eu fiz logo uma careta.

— Não comeces.

Mathew inclinou-se, apoiando um cotovelo no colchão. A outra mão veio sem pressa, tocou-me no pulso por cima do lençol,um contacto breve, firme o suficiente para eu sentir que era opção dele, e depois subiu, devagar, até me apanhar o queixo entre dois dedos.

Não apertou. Alinhou-me. Um puxão mínimo, só na sua direcção.

— Olha para mim. — murmurou.

A minha primeira vontade foi contrariar. A segunda foi perceber que, naquele segundo, o meu corpo já tinha obedecido. Eu sustive-lhe o olhar com uma irritação que não convencia ninguém.

Mathew ficou ali, com os dedos no meu queixo, como se a distância entre nós fosse uma coisa que ele administrava. Os olhos dele desceram um instante ,só um, em direção à minha boca, e voltaram ao meu olhar com uma calma indecente.

— Agora diz uma coisa simples. — disse, como quem pede um favor pequeno. — “Não me afetas.”

Fez uma pausa curta, milimétrica.

— E eu só te largo quando conseguires dizer isso como deve ser.

Eu arregalei os olhos.

— Tu estás—

— Shh. — ele interrompeu, suave, sem tirar os dedos. — Diz.

Eu inspirei, irritado comigo próprio por estar a levar aquilo a sério.

— Não me afetas.

Mathew não se mexeu.

— Outra vez. — pediu, e o tom dele foi quase gentil. Quase.

— Não me afetas.

Os dedos continuaram lá. O olhar dele manteve-se preso ao meu com uma paciência ofensiva.

— Estás a dizer as palavras certas. — murmurou. — Não é a mesma coisa que acreditar nelas.

Eu soltei uma respiração curta, frustrada.

— Não me afectas… — tentei de novo, e a frase saiu mais baixa do que eu queria.

Mathew inclinou-se um pouco mais, só o suficiente para eu sentir o peso daquela proximidade sem ele me tocar em mais lado nenhum. Só o queixo. Só o olhar. Só controle.

— Melhor. — disse ele, e a voz desceu ainda mais. — Agora… sem esse sorriso.

Eu abri a boca para protestar e, claro, foi aí que o sorriso apareceu: pequeno, automático, quase zangado por existir.

Mathew viu. Não riu. Apenas deixou um sorriso lento nascer, como quem finalmente confirma o que já sabia.

— Aí está.

E então, só então, ele largou-me o queixo. Devagar. Como se me devolvesse a liberdade. Como se eu não tivesse acabado de a perder.

Eu empurrei-o de leve no ombro, a fingir que era desprezo e não pânico.

— Tu és insuportável.

Mathew fez um som baixo, satisfeito, e afastou-se só o suficiente para me deixar respirar… mas não o suficiente para eu me sentir a salvo.

— Eu sei. — murmurou. — E tu és péssimo a mentir quando eu te obrigo a olhar.

Eu suspirei, fingindo uma exaustão dramática.

— Eu vou mesmo dormir.

— Vais? — ele perguntou, com ar inocente.

— Vou.

Mathew ficou a olhar para mim dois segundos a mais do que era normal. E eu senti aquele olhar a puxar-me para fora do “vou dormir” e para dentro do “vou ficar”.

— Então… — ele disse, baixinho — última pergunta.

Eu estreitei os olhos.

— Se for outra provocação, eu juro que—

— Não é. — ele interrompeu, sereno. — É logística. Prometo.

Eu gemi, teatral.

— Fala.

Mathew aproximou a boca do meu ouvido, mas desta vez não foi francês. Foi só ele: quente, suave, perto o suficiente para a minha cabeça ficar inútil.

— Preferes dormir virado para mim… ou fingir que és forte?

Eu fiquei em silêncio um instante. Porque era uma pergunta idiota. E porque eu sabia que qualquer resposta era uma escolha.

— Fingir que sou forte — murmurei, por teimosia.

Mathew soltou uma risada baixa.

— Claro.

Eu virei-me de lado, de costas para ele, com uma dignidade inventada. Puxei o lençol como se estivesse a construir uma fronteira.

Dois segundos depois, senti a mão dele na minha cintura por cima do tecido. Não me puxou com força. Apenas encaixou o braço ali e encostou-se, como se aquilo fosse o gesto mais natural do mundo.

— Mathew… — avisei, mas a minha voz não tinha autoridade nenhuma.

— Shh. — murmurou ele, e eu ouvi o sorriso escondido. — Não estou a fazer nada.

— Estás a fazer qualquer coisa.

— Estou a garantir que tu dormes. — disse, num tom demasiado sério. — Isto é… assistência humanitária.

Eu soltei um riso abafado contra a almofada, derrotado pela minha própria piada. E foi aí que me caiu a verdade: ele era irritante. Irritante naquela forma calma, cuidadosa, como se soubesse exactamente onde tocar sem nunca parecer que tocou.

E a parte pior, a parte que eu não disse em voz alta, era que eu gostava dessa irritação. Gostava porque me tirava do controlo. Porque me obrigava a existir ali, sem desculpas.

Fiquei “forte” três segundos, talvez quatro. Depois cedi o milímetro que ele queria: deixei-me encostar um pouco mais ao braço dele, como se fosse só para aquecer.

Mathew não comemorou. Não provocou. Apenas apertou a minha cintura com cuidado, como se me estivesse a pôr no lugar certo.

Eu respirei fundo… e virei-me.

Não foi rápido. Não foi um gesto dramático. Foi só o meu corpo a escolher, finalmente, ficar de frente para o problema.

Mathew piscou uma vez, apanhado fora de ritmo. A expressão dele, por um instante, não foi vitória. Foi confusão.

E, mesmo assim, ele tentou manter o charme.

— Então? — perguntou, baixo. — A tua fortaleza caiu?

Eu não respondi logo. Levantei a mão devagar e passei-lhe os dedos pelo cabelo, de trás para a frente, como quem testa uma ideia. Senti-o prender a respiração, muito ligeiramente, como se aquele contacto tivesse reescrito as regras da cama.

Inclinei-me para o ouvido dele, não para ser teatral, para ser cruel.

— Eu gostei da noite. — sussurrei.

O olhar dele prendeu-se ao meu, mais atento do que antes. A voz saiu calma, mas não tão blindada.

— Eu também. — admitiu ele, simples. Honesto.

Eu aproximei o rosto, devagar. Vi a forma como ele se preparou, o micro-movimento, a boca a entreabrir, o corpo a inclinar-se um milímetro para me encontrar.

E quando senti o calor dos seus lábios já demasiado perto... Afastei-me.

Não com brusquidão. Com precisão. O suficiente para ele sentir o vazio onde achou que ia haver calor.

Deixei o sorriso aparecer, pequeno, vitorioso, irritante de propósito.

— Afinal… — murmurei, num tom demasiado doce. — acho que o problema não é só meu.

Mathew ficou a olhar para mim um segundo, entre surpreendido e divertido, como se eu lhe tivesse devolvido a própria arma com laço.

Eu virei-me de volta, de costas para ele, puxando o lençol como se reconstruísse a fronteira, agora por prazer e não por defesa.

Atrás de mim, senti o movimento dele. Um riso baixo. Quase um suspiro.

E a mão dele voltou à minha cintura… mas desta vez hesitou, como se estivesse a decidir se ainda tinha permissão para ganhar.

Eu fechei os olhos, vitorioso.

E deixei-o tentar.