Acordei com a sensação errada de que tinha adormecido há cinco minutos.

A luz foi a primeira coisa a tocar-me, filtrada pelas cortinas pesadas.

Depois veio o peso quente na minha cintura.

O braço do Mathew estava por cima de mim, firme e relaxado ao mesmo tempo, como se ele já tivesse decidido, mesmo a dormir, que eu ficava ali. A respiração dele batia-me na nuca, lenta, regular, irritantemente calma. Era o tipo de calma que me deixava sempre dividido entre a raiva e a vontade.

Fiquei quieto um instante.

Só um.

Porque havia uma parte de mim, sonolenta e perigosamente honesta, que queria ficar ali mais um minuto. Um minuto idiota em que não existe Leslie, não existe Velvet, não existe agenda, não existe a obrigação de ser competente às nove e meia em ponto. Um minuto de só calor. Só silêncio. Só um braço à volta da cintura que não me estava a pedir nada.

Então vi as horas no relógio.

08:52.

O pânico chegou antes da lógica.

O meu corpo entrou em guerra com o próprio conforto.

— Merda.

A palavra saiu num sopro rouco, ainda presa ao sono. Tentei levantar-me depressa demais. O lençol enrolou-se nas minhas pernas, a cama puxou-me de volta com o seu peso, e o braço do Mathew apertou por reflexo, como se o corpo dele fosse uma fechadura que não aceita abrir-se.

Senti-me ridículo. Senti-me preso. Senti-me vivo, o que foi a parte mais irritante de todas.

Atrás de mim, a voz dele apareceu num murmúrio quente.

— Bom dia.

Virei-me.

Mathew estava meio enterrado na almofada, cabelo desalinhado, olhos semicerrados, e aquela expressão que só pessoas seguras têm quando acordam: a certeza de que o mundo pode esperar por elas. O sorriso dele foi lento, discreto, quase como se não quisesse assustar-me.

Como se eu fosse um animal nervoso.

— São oito e cinquenta e dois — disse eu, num tom que era informação só por obrigação. — Eu tenho de estar pronto às nove e meia.

Mathew piscou devagar, como se eu lhe tivesse contado um detalhe pouco urgente.

— Ainda tens tempo.

Fiquei a olhar para ele, incrédulo.

— Ainda tenho tempo para quê, exactamente? Eu tenho de ir ao meu quarto, tomar banho, vestir-me, descer, e parecer uma pessoa que não tomou decisões idiotas.

Ele mexeu-se devagar, apoiando o cotovelo na cama, a cabeça na mão. O lençol deslizou-lhe um pouco e eu desviei o olhar tarde demais, o que me deixou com raiva de mim próprio por motivos completamente previsíveis.

— Tens casa de banho aqui — disse ele, com a calma de quem está a resolver uma equação simples. — Tens toalhas. Tens tudo o que precisas.

— Eu não tenho tudo o que preciso — atirei, já a procurar a minha roupa com os olhos como se ela pudesse materializar-se do chão.

Mathew inclinou ligeiramente a cabeça, divertido de forma quase imperceptível.

— Tens. Só não está no sítio onde querias que estivesse.

A frase era simples, mas tinha aquele duplo sentido elegante, tão leve que quase parecia inocente. Quase.

Passei a mão pela cara, a tentar limpar o sono e a tendência absurda do meu cérebro para reparar nele quando devia estar a calcular minutos.

— Isto não tem graça, Mathew. O Leslie mata-me se eu me atraso no primeiro dia.

Mathew levantou-se.

Fê-lo sem pressa, como se a manhã fosse um ambiente que ele conhecia bem e eu fosse apenas um visitante ansioso. Aproximou-se o suficiente para eu sentir a presença dele, mas sem me cercar. Sem qualquer drama. Apenas a sua maneira atenta de existir.

Quando falou, a voz veio mais baixa. Sem índice de brincadeira, num tom ligeiramente mais firme.

— Adrian, respira.

Eu soltei um ar curto, Meio riso, meio ofensa.

— Não me digas para respirar.

Ele não insistiu. Não precisou. Olhou para o relógio por cima do meu ombro, como se estivesse a confirmar o meu pânico com factos.

— Tens trinta e oito minutos. Se fores ao teu quarto agora, perdes tempo no corredor, no elevador, e a decidir o que vestir enquanto reclamas sozinho. Se ficares aqui, entras no banho em dois minutos e sais vestido em mais dez.

Fiquei em silêncio um segundo.

O problema é que ele tinha razão, e a razão dita por ele parecia sempre um pouco mais íntima do que devia.

— Eu não vou descer com roupa tua — disse eu, por defesa, mais do que por convicção.

Mathew sorriu de canto, pequeno, quase profissional.

— Então desces com a roupa de ontem? Parece-me um risco maior.

Revirei os olhos, mas a minha boca quase cedeu ao sorriso. A irritação estava a tentar ser séria, mas o corpo já tinha acordado o suficiente para se lembrar de onde tinha estado.

— Eu não tenho escova de dentes aqui.

Mathew apontou com a cabeça para a cómoda, sem sequer olhar.

— Gaveta da esquerda.

Abri-a. Lá estava uma escova, ainda embalada.

Fechei os olhos por um instante, derrotado por antecipação.

— Tu és uma pessoa impossível.

— Eu sou uma pessoa preparada — corrigiu ele, com aquela delicadeza irritante. — Anda. Banho.

Fui para a casa de banho sem discutir mais, e odiei-me um bocado por isso, porque obedecer era fácil demais quando ele fazia parecer que era uma escolha minha.

O banho foi rápido demais para acalmar a cabeça e lento demais para o relógio.

A água ajudou a acordar o corpo, mas a mente continuou presa em sítios estúpidos. Sete pensamentos úteis e quinze inúteis e o mais insistente era simples e perigoso.

Porque ficar me pareceu tão natural.

Saí do duche e parei a meio do quarto ainda a secar o cabelo com a toalha.

A cama tinha sido transformada num cenário. Em cima do edredão estava um fato marfim impecável. Não era uma cor que se usa para passar despercebido. Era uma cor que entra numa sala antes da pessoa. Ao lado, camisa branca, gravata bege, e um relógio de pulso pousado com a precisão de quem organiza o mundo para não perder tempo.

Senti uma pontada curta no peito.

O marfim parecia um gesto. Um gesto elegante, mas um gesto.

Mathew estava junto ao espelho, já vestido, a abotoar a camisa com aquela calma ofensiva de quem não conhece pânico matinal. Olhou para mim pelo reflexo.

— Estás vivo.

— Estou a considerar desistir da sociedade — murmurei, a olhar para o fato como se ele me estivesse a desafiar.

Mathew aproximou-se da cama, sem pressa, e endireitou a gravata que lá estava como se fosse um hábito antigo.

— O marfim vai ajudar.

— Vai ajudar em quê?

Ele olhou para mim, e o sorriso dele foi subtil o suficiente para me irritar. Quase não estava lá, mas eu vi.

— A pareceres acordado.

Peguei na camisa, passando os dedos no tecido.

— Isto é demasiado.

— É só claro — disse ele, com um tom leve. — E tu ficas bem em claro.

— Nunca me viste em roupa clara.

— Não.

Ele olhou-me de alto a baixo, rápido, como quem avalia uma capa antes de mandar imprimir.

— Adrian, eu sou director gráfico de uma revista. Eu vivo de decidir o que funciona à primeira vista.

— Isso foi a tua maneira de te exibires?

O canto da boca dele levantou-se.

— Foi a minha maneira de te dizer que estás a complicar uma coisa simples.

— E se eu não confiar?

— Então veste preto — respondeu, tranquilo. — E depois aguentas-me a dizer “eu avisei” o resto da noite.

A frase foi dita como observação, não como elogio. Foi aí que a senti com mais força.

Vesti-me depressa, mais por necessidade do que por orgulho. A camisa assentou-me melhor do que eu queria admitir. O casaco marfim foi pior.

Porque me fez parecer mais composto do que eu estava.

Porque me fez parecer mais visto do que eu gosto.

Porque me fez parecer, de algum modo, ligado a ele.

Peguei na gravata e ouvi-o aproximar-se antes de o ver.

— Deixa.

Olhei para cima.

— Eu sei dar nó a uma gravata.

Mathew não sorriu desta vez. Ficou só com aquela expressão calma, como se estivesse a oferecer ajuda e eu fosse livre de recusar.

— Eu sei. Só não quero que percas tempo com isso.

A suavidade da frase foi o golpe. Não soou como domínio. Era cuidado. E cuidado é sempre mais difícil de combater quando se está cansado.

Entreguei-lha.

Os dedos dele tocaram na minha gola, depois no meu pescoço, roçando com precisão enquanto ele fazia o nó. Era um toque prático, mas o meu corpo registou-o como se não fosse só isso, e eu odiei a rapidez com que a pele respondeu.

Mathew manteve os olhos na gravata.

— Estás muito tenso.

— Estou com pressa.

Ele apertou o nó e alisou-o com um gesto breve.

— Também.

Olhei para ele, e ele levantou o rosto no exacto momento em que terminava.

Mathew fixou os olhos nos meus. Verdes. Aquele verde que me apanhava sempre desprevenido, como se fosse uma cor que não devia existir tão perto. Eu senti o corpo reagir antes de eu decidir, um arrepio a subir-me pelo peito e a trair-me na garganta.

Fiquei ali, quieto, a tentar manter a cara certa, a postura certa. A minha mão quase tremia, estúpida, só porque ele estava a olhar. E ele sabia. Via-se pelo jeito como os olhos dele se demoraram, como se estivesse a confirmar uma coisa que já tinha a certeza.

Mathew ajeitou-me a lapela do casaco marfim, os dedos a roçarem de leve, e recuou meio passo, avaliando.

— Pronto — disse ele, num tom calmo demais.

Eu engoli em seco. Ele não desviou o olhar.

— Odeio isto — murmurei.

Mathew aproximou-se só o suficiente para eu o ver no reflexo atrás de mim, tranquilo demais. Os olhos verdes prenderam-se nos meus, com aquela atenção que me tirava o ar.

O sorriso dele apareceu, pequeno.

— Ficas ridiculamente bem assim.

Engoli em seco, a tentar não lhe dar a satisfação.

— Não exageres.

— Não estou a exagerar — disse ele, baixinho, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Estou a constatar.

O meu peito apertou por um segundo, como se ele tivesse acertado num ponto que eu não tinha tempo para defender.

Antes que eu respondesse, ouviu-se um toque no telemóvel.

O meu.

A vibração em cima da mesa foi quase um susto.

Peguei nele e vi o nome do Leslie no ecrã, seguido de uma mensagem curta, objectiva, impossível de discutir.

“Estou no corredor. Tens 3 minutos.”

O sangue subiu-me à cara.

Mathew olhou para o ecrã sem se aproximar, sem invadir o espaço.

— Vai.

— Ele está literalmente à porta.

— Então não o faças esperar — disse ele, com a serenidade de quem não está prestes a ser dissecado pela própria equipa.

Agarrei no cartão, no telemóvel, e respirei fundo uma vez, como se isso fosse suficiente para vestir normalidade por cima do marfim.

Fui até à porta.

Parecia um gesto enorme para algo tão simples.

Antes de abrir, olhei para trás.

Mathew estava encostado ao móvel, impecável, calmo, a observar-me como se eu fosse a única coisa ali que valia a pena ver.

— O que foi?

O sorriso dele apareceu, elegante, quase preguiçoso. Os braços dele cruzaram-se em frente ao peito.

— Se não sais agora… eu puxo-te de volta para o quarto.

Fiquei com a mão na maçaneta, imóvel por um segundo.

— Mathew.

Ele encolheu ligeiramente um ombro, a expressão tranquila demais para alguém que estava a ameaçar-me com tanta calma. O olhar dele ficou preso no meu, verde e firme, como se já estivesse a medir a distância até mim e a decidir se valia a pena.

— E depois já sabes como é que isto acaba.

Revirei os olhos, mas o sorriso saiu-me na mesma.

— És impossível.

— Vai, Adrian — disse ele, ainda com aquele sorriso. — Antes que eu me arrependa de ser bem comportado.

Não consegui não soltar um sorriso. Abri a porta e saí.

O corredor estava demasiado iluminado. O ar parecia mais frio ali fora. A realidade tinha aquela clareza cruel de hotel de manhã, sem sombras para esconder a cara.

Leslie estava a dois metros, impecável, tablet na mão, postura de quem já está a gerir três coisas ao mesmo tempo. Levantou os olhos e o olhar dele pousou em mim com precisão imediata.

Depois desceu, inevitavelmente, para o fato marfim.

Não fez cara. Não fez pausa dramática. Mas eu vi a micro-reacção. Um segundo de registo. Um segundo de arquivo interno.

— Bom dia — Ele disse aquilo com um sorriso fácil, genuinamente divertido, como quem te pica só porque gosta de te ver reagir. Os olhos dele ficaram quentes por um segundo, quase cúmplices, antes de voltarem ao tablet como se nada fosse.

Eu revirei os olhos, inevitável. E acabei a sorrir também.

. — Excelente. Sobreviveste à noite e ainda vieste bem embrulhado.

Eu endireitei os ombros e fiz o que faço sempre. Controle por fora. Tempestade por dentro.

— Estou. Só preciso de apanhar as minhas coisas no meu quarto.

Leslie assentiu uma vez, e o olhar dele voltou ao meu, limpo, mas perspicaz. O canto da boca dele levantou-se só o suficiente para eu perceber que ele tinha notado tudo.

— A Adison já está no lobby. E vamos fazer de conta que a tua manhã começou a horas.

A frase veio leve, educada, com aquela ironia bem colocada que ele usa quando está a ser útil e, ao mesmo tempo, ligeiramente insuportável.

Eu engoli em seco.

— Combinado.

— Óptimo — disse ele, e já estava a andar. — Mantém esse ar… composto.

Ele virou-se e começou a andar, e eu acompanhei-o.

Os meus passos soavam mais altos do que deviam. Talvez fosse o casaco claro. Talvez fosse a culpa. Talvez fosse o facto de eu sentir ainda, na pele, a pressão de uma mão que já não estava lá.

Ao virar a esquina, olhei involuntariamente para a porta do quarto do Mathew, como se o corredor pudesse devolver-me alguma coisa.

A porta permaneceu fechada.

Mas eu sabia que ele estava ali dentro.

E o pior foi perceber que, mesmo sem ele ao meu lado, eu levava-o comigo. No marfim. No corte certo. Na maneira como aquilo me assentava bem demais.

Como se ele ainda estivesse ali, atrás de mim, a endireitar a lapela com aquela atenção quieta que não parece atenção até ser tarde demais. Como se a escolha não tivesse sido uma peça de roupa, mas uma ideia dele sobre mim, pousada no meu corpo e a andar comigo pelo corredor.

O lobby cheirava a croissant quente e um ligeiro toque de lavanda, aquela mistura limpa que parece sempre mais fria do que devia. A luz vinha de todos os lados, reflectida no mármore, nas mesas polidas, nas portas de vidro. A luz era tão forte que apanhava até as pequenas evidências, um cansaço mal disfarçado, um brilho a mais no olhar, um gesto que denunciava pressa.

E depois havia o fato. Que meu caso, era uma evidência grande demais da noite que eu tinha tentado deixar no quarto.

O Leslie saiu do elevador primeiro, como sempre, com o tablet já na mão e a expressão controlada de quem está a gerir uma manhã inteira dentro da cabeça. Eu saí a seguir, a ajustar o casaco uma última vez, mais por reflexo do que por necessidade.

A Adison estava perto da área dos sofás, pernas cruzadas, o telemóvel pousado ao lado do café. Parecia estar ali há dez minutos e há uma vida ao mesmo tempo. Ela olhou para nós com um sorriso pequeno, quase simpático.

Os olhos dela foram directos ao casaco.

E ficaram lá um segundo a mais do que seria educado.

Eu soube logo que ia doer.

Leslie parou ao lado dela e, com a naturalidade de quem não se mete em dramas, fez só um aceno.

— Bom dia.

Adison levantou o copo, como se brindasse.

— Bom dia Adrian.

Eu respondi, tentando que a minha voz não denunciasse a falta de sono.

— Bom dia.

Ela inclinou ligeiramente a cabeça, ainda a olhar para o marfim como se estivesse a comparar com a minha cara.

— UAAAU.

Arrastou a palavra de propósito, dramática, como se tivesse acabado de apanhar um segredo em plena luz do dia.

Eu respirei fundo, curto.

— Não comeces.

Leslie olhou para mim de lado, aquele olhar de quem acha graça mas não vai pôr gasolina no fogo, só vai confirmar se o extintor está por perto.

— Eu também ia dizer bom dia, mas isto aqui é mais chamativo do que um briefing da Valentina.

Adison sorriu com intenção, olhos presos no marfim.

— Marfim de manhã? – ela levou os lábios à chávena e manteve os olhos em mim — É uma escolha.

Eu ajeitei a gravata, só para ocupar as mãos.

— É só um fato.

Leslie levantou os olhos do tablet com a calma de quem já tinha percebido tudo há cinco minutos. O sorriso dele apareceu, curto, divertido.

— É, e eu sei perfeitamente quem o escolheu.

Revirei os olhos, mas o canto da minha boca traiu-me.

— Leslie…

— Tranquilo — disse ele, educado, satisfeito. — Não vou dizer nomes. Vou só apreciar a evidência.

Houve um segundo em que eu quis responder com uma frase bonita e defensivamente inteligente. Só que eu estava cansado. E cansado, eu sou mais transparente.

Leslie tocou no ecrã do tablet, como se estivesse a fechar o assunto.

— Carro à porta em três minutos. Adrian, tens as tuas coisas?

Assenti.

— Tenho.

Adison levantou-se com a calma de quem não tem pressa nenhuma, porque sabe que a pressa é sempre dos outros. Passou por mim e parou um instante ao meu lado, o suficiente para eu sentir o perfume dela e a ameaça amigável de um comentário.

Ela falou baixo, só para eu ouvir.

— Se alguém comentar o casaco, eu digo que é “fresh direction”.

Eu fechei os olhos um segundo.

— Por favor, não.

Ela sorriu, quase terna, mas com veneno controlado.

— Então não me dês material.

O Leslie, que ouviu metade, decidiu ser útil de uma forma que me salvava e me humilhava ao mesmo tempo.

— Adison, hoje não. Ele está em modo sobrevivência.

— Eu estou sempre em modo sobrevivência — murmurei.

Leslie respondeu sem olhar para mim.

— Tu estás em modo “não me façam pensar”.

O ar saiu-me numa espécie de riso. Pequeno. Involuntário.

Adison pegou na mala e olhou-me de cima a baixo uma última vez, mais rápida, mais suave.

— Está-te bem.

Eu levantei o olhar, desconfiado.

Ela não explicou. Não transformou em poesia. Não fez discurso.

Só acrescentou, simples, como se estivesse a falar de algo prático.

— Só tenta não parecer culpado.

Senti o estômago apertar, porque ela tinha acertado no ponto exacto. Eu não estava culpado pelo fato. Eu estava culpado pelo motivo de ele existir ali, naquele momento.

Leslie começou a andar para a saída.

— Vamos. A Adisson já teve a sua dose diária de entretenimento.

Adison seguiu-o com um sorriso satisfeito.

Eu fui atrás, com a postura no sítio certo e a cabeça a tentar não cair para dentro.

E no meio do lobby, com a luz a denunciar tudo e o marfim a recusar-se a ser discreto, a única coisa que eu consegui pensar com honestidade foi esta.

Eu não estava preparado para o modo como as pessoas à minha volta reparavam quando eu deixava de me esconder.

E hoje, por algum motivo, eu tinha deixado.

O carro parou junto à zona de acesso com credenciais, onde o caos da semana da moda deixava de parecer caos e passava a parecer hierarquia em movimento.

À entrada havia seguranças, staff com auriculares, PRs com tablets, fotógrafos em posição e uma fila segmentada de convidados, imprensa e equipas. O pátio de pedra do complexo respirava aquela energia específica de Milão: luxo, pressa e gente a fingir que não está a olhar para ninguém enquanto olha para toda a gente.

Leslie saiu primeiro, credencial já visível, e nós seguimos atrás.

— Press premium entra pela lateral da área A. — disse ele, sem olhar para trás, já em modo trajectória. — Temos acesso ao corredor de imprensa e à zona de espera antes da entrada principal. Fiquem comigo e não parem se vos chamarem.

Adisson ajustou os óculos e murmurou, seco:

— Tradução: não se distraiam com pessoas bonitas.

Ela olhou para mim quando disse “pessoas bonitas”.

— Não tenho energia para ti tão cedo. — respondi.

— Tens. Estás só a gastar toda a tua energia a fingir que esse fato marfim aconteceu por acidente.

— Adisson. — avisou Leslie, sem abrandar.

— Estou a aquecer. — disse ela, com toda a calma.

Passámos o primeiro controlo, depois o segundo, e entrámos num corredor amplo de acesso interno, onde o ruído mudava de textura: menos público, mais operação. O chão ecoava com passos rápidos, vozes baixas em italiano, francês e inglês, alguém a falar de timings, alguém a confirmar seating, alguém a repetir nomes como se estivesse a recitar uma oração cara.

Pessoas de preto. Tablets. Pastas. Headsets.

E no meio disso tudo, eu de marfim.

Não precisei que ninguém dissesse nada. Sentia os olhares curtos. Dois segundos no máximo. O suficiente para registar “quem é este?” antes de voltarem ao trabalho.

Adisson reparou, claro.

— Se continuares assim, ainda te sentam na fila da frente por engano. — murmurou.

— Cala-te.

— Estou só a dizer que pareces caro e emocionalmente indisponível.

Antes que eu respondesse, Leslie abrandou de repente.

À frente, junto a uma zona de transição entre corredor e acesso de imprensa, o movimento tinha afinado. Gente a abrir espaço sem parecer que abriu. PRs a endireitar postura. Uma assistente a recuar meio passo. Um fotógrafo a levantar a câmara e a baixar logo, à espera do momento certo.

Não precisei de procurar muito.

Valentina estava ali.

Já vestida e como sempre, impecável

Nada nela sugeria pressa, embora toda a gente à volta estivesse a funcionar em função do tempo. O look estava fechado com precisão, o eu não me espantou de todo. O corte limpo, acessórios chamativos mas não exagerados, tudo no sítio certo como se a roupa tivesse sido feita para a postura dela e não o contrário.

Ela estava a ouvir uma mulher da PR dizer qualquer coisa sobre ordem de entrada e posicionamento para imprensa. Não interrompia. Não reagia. Apenas ouvia com aquela quietude que, nela, valia mais do que impaciência.

Quando terminou, Valentina virou o rosto.

Viu Leslie e Adisson.

Depois viu-me.

Os olhos dela passaram por mim uma única vez . Correram-me o rosto, a postura e por fim a roupa. Demorando exactamente o tempo necessário para processar tudo.

A expressão não mudou.

— Leslie. — disse ela, em tom baixo, polido, como quem aceita que o mundo ainda funciona. — Finalmente alguém que chega sem me oferecer uma opinião.

Leslie inclinou ligeiramente a cabeça.

— Estamos dentro do timing.

Ela ignorou a parte “estamos” e olhou para mim.

— Adrian. — A pausa foi mínima. — Vejo que Milão já te corrompeu antes das dez.

Eu sustive-lhe o olhar, neutro.

— Bom dia, Valentina.

O canto da boca dela mexeu-se milímetros. Não era um sorriso. Era pior: diversão controlada.

— Isso depende. — disse ela, e o olhar desceu de novo ao fato marfim. — Está vestido por gosto… ou por circunstância?

A Adisson, ao meu lado, fez um esforço visível para não reagir.

Eu respondi sem hesitar:

— Circunstância bem executada.

Valentina ficou um segundo em silêncio. Depois assentiu, quase imperceptível.

— Hm. — disse. — Então elogie a circunstância. Tem olho.

E voltou-se para a PR antes que eu pudesse responder, como se já tivesse tirado de mim tudo o que lhe interessava naquela janela de dez segundos.

— Não quero “um momento rápido” com fotógrafos antes da entrada. — disse ela, para a equipa, no mesmo tom baixo e cortante. — Ou é útil, ou não acontece.

A PR anuiu imediatamente.

— Claro, Valentina. Apenas os dois pontos definidos.

— Um. — corrigiu ela, sem elevar a voz. — Se me querem memorável, não me façam disponível.

Silêncio curtíssimo. Tablets a mexer. Anotações revistas. Tudo reconfigurado em segundos.

Eu senti a Adisson inclinar-se ligeiramente para mim sem desviar os olhos da cena.

— Isto, sim. — murmurou, baixinho. — Isto é um predador de topo.

Leslie fingiu não ouvir. O que, vindo dele, significava que ouviu tudo.

Valentina voltou a mover-se. Não depressa, mas com decisão suficiente para o corredor se reorganizar à passagem dela. Antes de seguir, olhou uma última vez para nós, já em trânsito.

— Leslie, cinco minutos depois da entrada. — disse. — Adrian, não deixes a imprensa fazer perguntas estúpidas perto de mim. Estou sem vocação pedagógica hoje.

— Leslie, cinco minutos depois da entrada. — disse. — Adrian, não deixes a imprensa fazer perguntas estúpidas perto de mim. Estou sem vocação pedagógica hoje.

Eu assenti de imediato.

— Trato disso.

Ela sustentou o meu olhar por um segundo, como se estivesse a confirmar se eu tinha mesmo ouvido a instrução e não só a frase.

— Eu sei. — respondeu, simples.

E seguiu, deixando perfume, silêncio e uma fila de gente a reaprender a respirar.

Durante meio segundo, ninguém disse nada. E então Adisson virou-se ligeiramente para mim, com aquele brilho de quem estava à beira de comentar tudo e escolheu sobreviver.

— Ela gostou do fato. — murmurou, baixo.

— Ela gostou de eficiência. — corrigi, já a ajustar a credencial.

Leslie retomou o passo sem olhar para trás.

— Ótimo, então mantenham as duas até ao fim da manhã.

Começámos a andar outra vez, engolidos pelo corredor, pelos tablets, pelos timings, pelos nomes repetidos em três línguas, enquanto eu recompunha a expressão e tentava entrar de vez em modo trabalho. Porém, senti outra vez o peso leve do tecido marfim nos ombros.

Valentina tinha topado.

Adisson tinha topado.

Leslie também.

A diferença é que nenhum deles ia dizer a palavra certa em voz alta, e ainda assim, eu continuei a ouvi-la por dentro como se estivesse escrita na lapela:

Mathew.

O resto do dia passou no ritmo exacto que eu precisava: depressa demais para pensar com profundidade, e lento o suficiente para eu sentir tudo na mesma. Não necessariamente por essa ordem.

O que, no meu caso, é sempre uma combinação péssima.

A partir do momento em que a Valentina entrou no circuito de imprensa, deixou de existir “manhã” e passou a existir gestão de danos com glamour. Foi isso que eu fiz durante horas: gestão de danos, com credencial ao pescoço e cara de quem dormiu melhor do que dormiu.

O meu trabalho, na prática, era simples de explicar e infernal de executar:

manter o percurso dela limpo, garantir timings, filtrar gente, antecipar perguntas idiotas, confirmar quem tinha realmente acesso e quem só tinha confiança.

Leslie tinha razão, a semana da moda, metade do trabalho é logística.

A outra metade é impedir que a logística pareça trabalho.

A entrada da Valentina correu com uma precisão quase irritante.

Quando ela avançou para a zona marcada de imprensa, os fotógrafos acordaram todos ao mesmo tempo. Ouvi o som das câmaras a disparar em sequência, flashes a rebentar, o seu nome chamado repetidas vezes. E, mesmo assim, ela não acelerou nem abrandou. Manteve exactamente o mesmo passo. Como se o tempo dela não pudesse ser alterado por vozes, luzes ou urgências.

Eu fiquei ligeiramente ao lado, fora do enquadramento, mas perto o suficiente para cortar aproximações erradas.

E apareceram logo.

Uma jornalista francesa tentou sair do ponto combinado para lhe fazer uma pergunta “rápida” sobre uma alegada tensão com uma modelo de anos atrás. Um editor italiano quis puxá-la dois metros para uma luz “melhor”. Um fotógrafo americano insistiu num “just one more, Valentina” como se a repetição fosse estratégia.

Não era.

— Não agora. — disse eu, uma vez.

— Essa pergunta não está aprovada. — disse noutra.

— O ponto é aqui. Obrigado. — repeti tantas vezes que, a certa altura, a frase deixou de soar normal.

Valentina, claro, ouviu tudo.

Ela nem olhou para trás. Com ela, isso podia ser confiança. Podia ser um teste. Eu nunca sabia qual era pior.

Quando saímos dali para a zona de passagem seguinte, ela só disse, sem virar o rosto:

— Melhor do que o esperado.

Foi a coisa mais próxima de um elogio que eu recebi até perto do almoço.

Adisson, que ia do outro lado a monitorizar reacções e nomes com o telemóvel numa mão e o café noutra, ouviu e murmurou para mim, sem me olhar:

— Parabéns. Foste promovido de “útil” para “menos irritante”.

Eu respondi-lhe sem mover os lábios:

— Vai andando.

Ela sorriu para a frente como quem não tinha dito nada.

O resto da manhã foi uma sequência de corredores, checkpoints, pequenas salas, esperas medidas ao segundo e mudanças de direcção decididas por auricular.

Aprendi, ou lembrei-me, de uma verdade simples de Milão: ninguém ali está parado, mesmo quando parece.

Uma PR a sorrir está a fazer contas por trás do sorriso, a trocar lugares, a antecipar quem vai tentar entrar onde não deve. Um fotógrafo encostado à parede está a escolher a próxima pessoa a quem vai apontar a lente, a decidir quem rende e quem não. Um assistente com ar perdido, muitas vezes, está a tapar um problema qualquer antes de ele aparecer para toda a gente.

E nós, eu, o Leslie e a Adison, andávamos ali no meio com esse mesmo modo ligado. Éramos uma linha paralela à da Valentina. Não era para a seguir de perto, era para manter espaço e, ao mesmo tempo, garantir que tudo o que tentasse chegar a ela passava primeiro por nós. Perguntas, pedidos, gente demasiado confiante, contactos improvisados, qualquer coisa que pudesse desviar o foco ou mexer com o humor dela.

Eu confirmava acessos.

Revista X, sim.

Portal Y, não.

Entrevista curta, sim.

Pergunta sobre vida pessoal, nem pensar.

Foto extra, depende de luz, tempo e humor dela.

Normalmente: não.

Leslie coordenava tudo com aquela voz de gelo polido dele, sem nunca parecer apressado. Eu vi-o recusar duas “oportunidades ótimas de visibilidade” em menos de dez minutos só porque iam roubar-lhe controlo do percurso. E ele tinha razão.

Adison, por outro lado, tinha um instinto irritante para perceber onde é que as coisas iam descambar antes de acontecerem. Lia a sala num instante. Lia as pessoas ainda mais depressa. E fazia isso sem parecer que estava a trabalhar, como se fosse só conversa, quando na verdade já tinha apanhado o que interessava e o que podia virar dor de cabeça.

Eu passei a manhã inteira entre os dois. Leslie a pôr ordem e a fechar pontas soltas. Adison a antecipar, a testar, a puxar informação sem chamar atenção.

E, juntos, funcionavam. Eu também, por arrasto.

O meu telemóvel vibrou pela primeira vez quando estávamos a mudar de área para uma zona reservada de entrevistas rápidas.

Não fui ver.

Vibrou uma segunda vez, já eu estava a confirmar uma lista de nomes com uma assistente da organização.

Também não fui ver.

Na terceira, a Adisson olhou para o bolso do meu casaco e depois para mim com uma expressão neutra demais.

— Se for urgente, vai. — disse ela, baixo. — Eu seguro isto dois minutos.

— Não é urgente.

— Então é pior. — respondeu, e voltou ao ecrã.

Eu ignorei-a com toda a dignidade possível e continuei a trabalhar.

Só fui ver quase uma hora depois, quando tivemos uma pausa curta numa zona lateral, entre um ponto de imprensa e uma passagem de convidados. Encostei-me a uma parede de pedra, finalmente sozinho durante talvez trinta segundos, e tirei o telemóvel.

Duas mensagens do Mathew.

Ainda vivo?

Vi uma fotografia tua ao fundo de um enquadramento. Estás indecentemente bem de marfim.

Fechei os olhos um segundo. Claro que ele tinha encontrado uma fotografia. E claro que me tinha escrito a meio da manhã, como se eu não estivesse a tentar existir com três horas de sono e a gravata ainda a apertar-me o pescoço.

Escrevi uma resposta. Apaguei. Escrevi outra. Apaguei também. No fim mandei só:

Ocupado. E a culpa do marfim é tua.

A resposta veio quase imediata, o que me irritou mais do que devia.

Finalmente reconheces autoria.

Guardei o telemóvel. Era suposto eu não lhe dar mais espaço na cabeça do que ele já tinha. Só que o espaço já estava ocupado há algum tempo.

Perto do meio dia, Milão mudou de tom. Ficou mais cheia e mais agressiva, como se a cidade tivesse decidido acelerar tudo ao mesmo tempo. Mais gente a empurrar, mais carros a buzinar, mais pressa, mais egos a baterem uns nos outros. As filas engrossaram, as zonas de imprensa ficaram mais tensas, e a margem de erro começou a parecer uma coisa teórica.

A Valentina, pelo contrário, parecia ficar melhor quanto piorava à volta. Ficava mais afiada, mais económica nas palavras, mais perigosa nas pausas.

A certa altura, uma jornalista tentou contornar as instruções e atirou-lhe uma pergunta sobre rumores de campanha e “rivalidade” com outra mulher. Foi rápido, sujo e calculado. Eu ia intervir, mas a Valentina não me deu espaço.

Virou o rosto para ela, sustentou o olhar com uma calma quase misericordiosa e disse:

— Se a sua pergunta precisa de conflito inventado para ser interessante, então não é uma pergunta. É preguiça.

Houve um silêncio imediato. A jornalista ainda tentou sorrir, como se aquilo pudesse virar piada.

A Valentina já estava a seguir caminho.

Eu mantive-me ao lado dela, profissional, neutro, a olhar em frente como se aquilo fosse só mais uma terça feira. Por dentro, porém, quase me saiu um aplauso.

Adisson encostou-se um pouco ao meu ombro quando retomámos o corredor.

— Eu quero ser ela quando crescer. — murmurou.

— Tu já és uma versão portátil. — respondi.

Ela olhou para mim, ofendida só por desporto.

— Eu sou mais simpática.

— Isso é debatível.

Almoçar é uma palavra generosa para o que aconteceu.

Foi mais um intervalo mal disfarçado: uma sandes fria, metade comida por teimosia, e um café demasiado forte numa área de apoio que cheirava a plástico aquecido, guardanapos e pressa. À volta, gente sentada com crachás ao pescoço e olhos no telemóvel, a falar baixo como se alguém pudesse roubar-lhes um minuto. Havia cadeiras a raspar no chão, sacos a abrir, garrafas de água a estalar, e aquele barulho constante de fundo que nunca chega a ser silêncio.

O Leslie ocupou a maior parte dos doze minutos a existir como sempre: tablet na mão, postura impecável, a mexer em horários como se estivesse a mudar peças num tabuleiro. Vi o polegar dele correr por mensagens, uma pausa curta, duas alterações na agenda, e mais três linhas enviadas com a tranquilidade de quem provavelmente tinha acabado de resolver, ou criar, o resto do dia de alguém.

A Adison sentou-se à minha frente e, sem qualquer vergonha, puxou o prato para si o suficiente para me roubar metade das batatas. Nem olhou para mim quando o fez. Só depois levantou o copo de café, bebeu um gole e ficou a encarar-me por cima da borda, como se eu fosse um assunto pendente.

— Então.

Eu mantive os olhos na sandes.

— Não.

Ela não pareceu ofendida. Pelo contrário, divertiu-se.

— Nem perguntei nada ainda.

— Mas ias perguntar.

O sorriso dela abriu-se, genuíno e irritante.

— Correcto.

Continuei a mastigar, mas já não era fome. Era mecânico. Era a minha cabeça a tentar fingir que estava onde o corpo estava. O telemóvel vibrou no bolso, e eu senti o reflexo antes de o controlar: a minha mão subiu, ajeitou a lapela, como se aquilo ajudasse a segurar-me.

Do outro lado da mesa, a Adison inclinou-se um pouco, satisfeita por ter apanhado.

— Só quero saber se vais passar o dia inteiro a tocar na lapela sempre que o teu telemóvel vibra.

Fiquei com os dedos presos no tecido. O gesto ficou suspenso no ar, incrivelmente óbvio. Devagar, levantei os olhos para ela.

— Eu não faço isso.

A expressão dela foi quase de pena. Como se eu fosse um caso perdido e ela tivesse aceitado isso com carinho.

— Fazes.

Ao meu lado, o Leslie nem se deu ao trabalho de levantar a cabeça. Só deixou cair a confirmação, calma, precisa.

— Faz.

Eu olhei para os dois, e senti aquela mistura de irritação e alívio que só pessoas familiares conseguem provocar. Porque eu podia odiar, mas também podia respirar ali. Não precisava de estar impecável com eles.

— Odeio-vos.

Leslie respondeu com aquele tom educado de sempre, como se estivesse a recitar uma nota de serviço.

— Isso mantém-te funcional.

Adison levantou o copo num brinde imaginário, os olhos a brilharem com malícia simpática.

— E entretém-nos.

Eu acabei o café de uma vez, mais por teimosia do que por gosto. Levantei-me antes que eles arrancassem mais alguma coisa de mim, ou antes que eu cedesse a rir como um idiota.

— A pausa acabou.

Adison levantou-se também, sem pressa, como se o mundo tivesse de se adaptar à forma como ela caminha.

— Nem chegou a começar.

O Leslie já estava a andar, tablet na mão, como se os doze minutos nunca tivessem existido. E eu fui atrás, com o estômago meio vazio e a cabeça cheia.

A tarde partiu-se em bocados.

Mais deslocações, mais esperas técnicas, mais “já vamos” que nunca significava já. Cinco minutos viravam quinze, quinze viravam meia hora, e toda a gente ali fingia que era normal porque, se ninguém fingisse, aquilo caía.

Houve um momento em que perdi a Valentina de vista durante quarenta segundos num corredor de transição e senti o coração a subir-me à garganta de uma forma ridícula.

Não porque ela precisasse de ser protegida. Porque com gente como ela o erro nunca é pequeno. Um segundo de falha vira fotografia errada, pergunta errada, ângulo errado, e de repente existe uma narrativa que ninguém pediu.

Encontrei-a do outro lado, exactamente onde devia estar, a falar com alguém da organização com a calma de quem faz a logística adaptar-se. Ela não parecia ter “voltado”. Parecia simplesmente ter decidido aquele lugar.

Olhou para mim uma vez. Uma só. O suficiente para perceber tudo.

— Adrian. Não se perca em pânico. Eu corrigi o percurso.

E voltou à conversa sem me dar mais espaço, como se a minha adrenalina fosse um assunto privado que eu devia resolver sozinho.

Eu assenti, seco, a olhar em frente como se não tivesse acabado de envelhecer cinco anos em menos de um minuto.

A Adison apanhou-me logo a seguir, com aquele timing perfeito para piorar.

— Tu tens mesmo uma relação esquisita com stress profissional.

— Sai da minha frente.

— Não consigo — disse ela, divertida. — Estás demasiado tenso para ver por onde vais.

No fim da tarde, quando a luz começou a mudar e o cansaço deixou de ser só mental, a minha capacidade de separar coisas começou a falhar por dentro.

O trabalho continuava a sair. Eu continuava a responder no tom certo, a andar no ritmo certo, a antecipar perguntas mal colocadas e a cortar o que havia para cortar. Mas apareceram pequenas fissuras.

Momentos em que eu ficava mais um segundo a olhar para um reflexo numa montra.

Momentos em que o cheiro do meu próprio casaco me puxava de volta para o quarto, sem aviso.

Momentos em que o telemóvel vibrava e eu sabia, antes de ver, que era ele.

O Mathew não exagerou, e isso tornou tudo pior. Não mandou uma enxurrada de mensagens. Mandou poucas, curtas, no momento certo, como quem sabe onde há brechas.

Uma delas chegou já perto do fim da tarde, quando eu estava encostado a uma parede à espera de uma última passagem da Valentina para uma zona restrita.

Sobreviveste?

Eu olhei para aquilo e saiu-me um riso pelo nariz, cansado.

Infelizmente.

A resposta veio quase logo.

Perfeito. Jantas comigo ou vais fingir que tens valores?

Fiquei a olhar para o ecrã mais tempo do que devia. A resposta certa, racional, segura, era fácil. A que me saiu foi outra.

Depende da hora.

Mal enviei, arrependi-me. Li a frase e tive vontade de me atirar para dentro de uma fonte decorativa.

A resposta dele demorou vinte segundos.

Adrian, isso é praticamente um convite.

Guardei o telemóvel antes de responder. Não porque não tivesse resposta. Porque tinha várias. E nenhuma me deixava em paz.

Quando o último compromisso finalmente terminou e a máquina começou a abrandar, não a parar, porque nunca pára, só muda de turno, eu senti o corpo inteiro a cobrar a noite anterior. As pernas pesadas. A cabeça quente. A concentração a trabalhar por teimosia.

A Valentina despediu-se da última pessoa com um aceno mínimo, virou-se para o Leslie e despejou o essencial em menos de trinta segundos. Horários de amanhã. Tolerância zero para uma entrevista específica. Confirmação de percurso. Nada de improvisos.

Depois olhou para mim. Aquele olhar limpo, clínico, que nota coisas demais.

— O fato sobreviveu ao dia.

Uma pausa curta, medida.

— O senhor também. Por pouco.

Eu sustive-lhe o olhar.

— Estamos ambos a superar expectativas hoje.

O canto da boca dela mexeu milímetros, quase um sinal de aprovação que ela não queria admitir.

— Não exagere.

E seguiu, rodeada de gente, ainda assim com aquela sensação de estar sozinha no melhor sentido possível. Suficiente.

Ficámos nós os três por um instante no corredor já meio vazio, eu, o Leslie e a Adison, com o eco do dia a baixar de volume.

Leslie fechou o tablet.

— Amanhã às oito e quinze.

— Isso é desumano — murmurou a Adison.

— É calendário — corrigiu ele, com a paciência de quem não perde tempo a discutir com a realidade.

Depois olhou para mim. Uma pausa mínima, precisa.

— E, Adrian, tenta dormir.

Eu quase me ri.

— Vou considerar.

A sobrancelha dele mexeu-se.

— Faz mais do que considerar.

E saiu, já a atender uma chamada.

Fiquei com a Adison no corredor, finalmente sem PRs, sem fotógrafos, sem urgências imediatas.

Ela olhou para mim de lado, como quem faz inventário aos estragos.

— Então — disse, mais suave do que o costume. — Vais jantar com ele.

Não era uma pergunta.

Eu encostei a cabeça à parede um segundo, fechei os olhos e deixei sair o ar.

— Ainda não sei.

No elevador, sozinho, vi-me no reflexo espelhado e tive um instante de honestidade simples.

Eu parecia funcional. Cansado, sim. Mas funcional. Composto. Inteiro o suficiente.

Só que eu estava a aguentar-me por partes. Havia a parte que trabalhava, que respondia certo, que não falhava. Havia a parte que só queria deitar-se no chão. E havia outra, mais funda, que tinha o Mathew lá enfiado e não queria falar sobre isso.

As portas abriram no meu piso e eu saí, ainda com a sensação de que a Adison me tinha apanhado o dia inteiro sem eu notar.

Quando entrei no quarto, ela já lá estava.

Claro.

Os sapatos dela estavam largados perto da poltrona. O blazer pendurado com um cuidado irritante na cadeira. Ela estava sentada na cama, robe vestido, cara lavada, telemóvel na mão. Relaxada, supostamente. Só que a Adison nunca está só relaxada. Está sempre a reparar.

Levantou os olhos para mim. Depois para o telemóvel na minha mão. Depois voltou à minha cara.

— Então?

Fechei a porta.

— Estou cansado demais para interrogatórios.

Ela pousou o telemóvel ao lado, sem pressa.

— Isso não foi resposta.

Eu tirei o cartão do bolso e deixei-o cair na mesa. Comecei a desapertar os punhos. Não porque precisasse. Porque precisava de mexer nas mãos.

— Não foi pergunta.

Ela sorriu de canto.

— Hoje estás muito… lírico.

— Estou normal.

— Não estás.

Ignorei. Tirei o casaco. Pousei-o na cama, com mais cuidado do que queria admitir. E, quando o tecido caiu, veio aquele cheiro leve que me lembrava exactamente de onde eu tinha saído.

Fiquei um segundo parado. Um segundo a mais.

A Adison viu.

— Ai, Adrian…

— Não comeces.

— Eu nem comecei — disse ela, com uma calma que era pior do que gozo. — Eu só vi.

Fui à mala buscar roupa, rápido demais.

— Vou tomar banho.

— Claro — respondeu ela. — E depois?

Parei, costas voltadas.

— Depois o quê?

A voz dela ficou macia de propósito.

— Depois vais jantar sozinho e fingir que és um adulto responsável… ou vais inventar uma desculpa qualquer e sair daqui para o veres?

Fechei a mala com força suficiente para fazer barulho.

— Tu podias facilitar.

Ela levantou-se devagar.

— Eu estou a facilitar. Estou a pôr a pergunta em voz alta para tu parares de a evitar.

Fiquei quieto.

— Ele mandou mensagem.

— Eu sei.

Virei-me para ela.

— Como?

Ela apontou para mim como se fosse óbvio.

— Porque tu ficas com uma cara específica. Não é “trabalho”. Não é “stress”. É “mexeram numa parte minha e eu não sei onde meter as mãos”.

Fechei os olhos um segundo.

— Odeio que tu repares em tudo.

— Eu também odiava — disse ela, pegando num creme. — Mas já aceitei que é um talento inútil.

Apesar de mim, ri.

Ela aproveitou logo.

— Pronto. Vai tomar banho. Decide depois. Só não decidas com esse ar de quem ainda está a sentir o dia todo no corpo.

— E eu? — perguntei, a ir para a casa de banho.

Adison olhou para o casaco e depois para mim, divertida.

— Tu és um caso perdido em marfim.