Dolce & Desastre
22 Dolce & Minutos
O banho ajudou. Não resolveu.
Tirou-me o peso do dia dos ombros, o spray, o pó, o calor dos corredores, aquela sensação de estar sempre a dois passos de cair para a frente. Mas a cabeça não desligou. Continuou no mesmo sítio irritante, a repetir coisas como se eu tivesse tempo para isso.
Mathew. A mensagem. Os quarenta minutos. A porta.
Quando saí, de toalha na cintura e cabelo molhado, a Adison estava exactamente como a deixei, agora deitada de lado na cama dela, telemóvel na mão, cara de quem está a ver qualquer coisa sem ver nada.
Levantou os olhos. Olhou para mim um segundo, como quem arruma uma ideia. Depois olhou para a mala aberta.
— Vai de azul.
Eu parei.
— Eu não te pedi opinião.
— Eu sei — respondeu ela, tranquila. — É por isso que estou a dar.
Fui buscar roupa, a fingir que aquilo não me afectava.
— E porquê azul?
Ela fez um gesto vago com o telemóvel, como se fosse óbvio.
— Branco parece que te esforçaste. Preto parece que queres fazer de conta que isto não te interessa. Azul parece que te vestiste sem pensar e, por acaso, acertaste.
Fiquei a olhar para ela.
— Tu és assustadora.
— Obrigada — disse ela, sem levantar a cabeça. — Tento.
Tirei uma camisa azul da mala. Não comentei. Ela reparou na mesma.
— Estás a sorrir.
— Não estou.
— Estás — insistiu, com prazer. — Estás a ceder.
— Estou a escolher uma camisa.
— A ceder com uma camisa — corrigiu ela.
Vesti-me em silêncio. Camisa simples, calças escuras, relógio. Nada que parecesse “encontro”. Nada que ela pudesse usar como prova de crime. Mesmo assim eu sentia o corpo num estado estranho, como se estivesse a tentar parecer normal e a falhar.
Quando acabei os botões, ouvi-a outra vez.
— Então?
Olhei para ela pelo espelho.
— Então o quê?
Ela pousou finalmente o telemóvel e sentou-se.
— Se me dizes “então o quê?” mais uma vez, eu mando mensagem ao Mathew e digo-lhe para subir.
Virei-me logo.
— Tu não tens o número dele.
O sorriso dela foi lento, insuportável.
— Gosto que isso seja a tua primeira preocupação.
Fiquei calado. Ela cruzou os braços, agora com menos brincadeira.
— Vais?
Olhei para o telemóvel em cima da mesa. A conversa aberta. A última mensagem dele ali, leve, como se isto fosse simples.
— Tenho quarenta minutos — disse eu, mais para me convencer do que para a informar.
A voz dela abrandou. Ficou quase séria.
— Não é sobre os quarenta minutos.
Sustive-lhe o olhar.
— É sobre ires porque queres, e não passares o jantar inteiro a fingir que foste empurrado.
Aquilo acertou. Outra vez.
Desviei os olhos primeiro. Peguei no telemóvel e escrevi antes de me dar tempo para recuar.
Tenho quarenta minutos. E não estou a prometer simpatia.
Enviei.
A resposta chegou quase logo.
Perfeito. Gosto de desafios cansados. Quarto 1108. Quinze minutos?
A Adison inclinou-se um pouco, a tentar ler-me a cara.
— Pela tua expressão, ele respondeu como um idiota confiante.
— Acertaste — murmurei.
— E tu vais na mesma.
— Ainda não decidi.
Ela não disse nada. Só apontou para as minhas botas.
— Então porque é que já as estás a calçar?
Baixei os olhos. Já estava mesmo.
— Eu odeio partilhar quarto contigo — disse, sem força.
Ela riu, finalmente sem filtro.
Atirei-lhe uma almofada. Ela desviou-se com uma elegância irritante e devolveu-a para a minha cama.
— Diverte-te — disse, mais suave. Depois hesitou um segundo, como se escolhesse melhor as palavras. — E não faças disto um teste. Às vezes é só jantar.
Fiquei a olhar para ela mais um instante do que precisava.
— Vou tentar.
O sorriso dela voltou, de canto.
— Mentiroso. Mas vai na mesma.
Saí antes que ela me deixasse mais irritado do que eu queria.
Saí do quarto e fechei a porta com cuidado a mais, como se o som pudesse denunciar-me. O corredor estava demasiado silencioso e demasiado iluminado, aquele tipo de silêncio que te faz ouvir os teus próprios passos e, pior, os teus próprios pensamentos.
O telemóvel pesava no bolso. Não vibrou, mas eu senti-o como se fosse vibrar a qualquer momento. A minha cabeça estava a repetir as frases dele como se eu tivesse pedido replay. Quarto 1108. Quinze minutos?
Cheguei ao elevador e carreguei no botão. Esperei a olhar para a porta como se ela estivesse a demorar de propósito. Quando abriu, entrei e vi-me no espelho. Camisa azul. Cabelo ainda húmido. Olheiras que eu estava a fingir que não existiam. Um ar de quem está a tentar parecer casual com o corpo a pedir cama.
Respirei fundo, uma vez, e não foi para me acalmar. Foi para não voltar para trás.
O telemóvel vibrou a meio do caminho. Claro.
Adison: “Se voltares com essa cara, eu vou cobrar bilhete.”
Fechei o ecrã sem responder. Se eu respondesse, ela ganhava embalo e eu perdia tempo. E eu não tinha tempo para perder, era essa a mentira que eu estava a contar a mim mesmo.
Quando cheguei ao corredor do piso dele, não havia nada de diferente. Mesmo tapete, mesmas portas, mesma luz. E ainda assim o meu corpo mudou. Fiquei mais acordado, mais atento, como se a fadiga tivesse sido empurrada para o fundo só porque sim.
Parei à frente do 1108. Fiquei um segundo com a mão suspensa. Pensei em voltar. Pensei em mandar uma mensagem a dizer “já não dá”. Pensei na cara da Adison se eu voltasse. Pensei na calma dele, do outro lado daquela porta, como se ele estivesse à espera sem pressa.
Bati duas vezes.
A fechadura abriu quase de imediato.
Mathew apareceu e eu senti logo a irritação boa. Camisa escura, mangas dobradas, cabelo ainda húmido, postura relaxada mas exacta. Os olhos verdes fizeram o trajecto de sempre, primeiro a minha roupa, depois a minha cara, e ficaram ali tempo a mais, como se ele estivesse a confirmar uma coisa.
O sorriso dele apareceu devagar, quente, sem exagero.
— Só quarenta minutos? — perguntou. — Estou ofendido.
Eu entrei logo, quase rude, porque se eu ficasse no corredor a olhar para ele eu ia perder.
— Considera isso uma brecha premium.
Ele fechou a porta atrás de mim com calma. Sem pressa. Como se a pressa fosse um hábito que ele só usava quando lhe apetecia.
— Então vou ter de ser eficiente.
Virei-me com a sobrancelha já pronta.
— Se disseres “logística”, eu vou-me embora.
Ele riu baixo, um som curto que me apanhou no sítio errado, porque não foi gozo. Foi gosto.
— Hoje não.
Ele disse “hoje” como se fosse uma escolha deliberada. E isso mexeu comigo mais do que devia.
Aproximou-se só o suficiente para eu sentir a atenção dele, sem me encostar a nada, sem me invadir.
— Hoje és tu a voltares.
Engoli em seco. Senti o meu corpo reagir antes da cabeça, como sempre acontece quando estou cansado e deixo de ter energia para fingir bem.
— Não exageres.
Mathew inclinou ligeiramente a cabeça, como se tivesse ouvido essa defesa mil vezes e já soubesse o que vem por trás.
— Não estou a exagerar — disse, simples. — Estou a reparar.
Eu desviei o olhar, porque era isso que eu fazia quando ele acertava.
Foi aí que vi a mesa junto à janela. Dois lugares. Pratos tapados. Talheres alinhados. Água. Vinho. Tudo demasiado pensado para “quinze minutos”.
Parei a meio passo.
— Tu montaste isto tudo para quarenta minutos?
Mathew não fez cara de triunfo. Puxou a cadeira para mim, só isso, como se fosse normal tratar-me com cuidado sem o anunciar.
— Montei porque tu ias implicar se eu te recebesse com qualquer coisa apressada.
Sentei-me e senti-me ridículo por sentir alívio com um gesto tão simples.
— Eu implicava na mesma.
Ele sentou-se em frente, calmo.
— Eu sei.
E havia qualquer coisa nessa frase que me irritava. Não era arrogância. Era familiaridade. Como se ele já soubesse os meus reflexos e achasse isso… aceitável.
Eu olhei para o relógio por reflexo, como se os números me pudessem salvar.
— Trinta e sete.
Mathew nem olhou para o dele.
— Estás a contar minutos ou coragem?
Eu abri a boca para o mandar calar. Não saiu.
Ele destapou um dos pratos e serviu com naturalidade, como se eu não tivesse entrado ali a fingir que isto era um favor com limite.
E eu percebi, com uma irritação quase terna, que era isto que nós fazíamos juntos.
Eu aparecia cheio de regras e saídas de emergência. Ele não me tirava as regras à força. Só ficava ali, calmo, a tornar as minhas regras pouco práticas. A deixar-me escolher ficar, em vez de me sentir preso.
Eu peguei no garfo.
— Eu estou mesmo cansado, Mathew.
Ele olhou-me, olhos verdes quietos, sem piada pronta.
— Eu sei. Come primeiro. Depois discutimos o resto.
E foi isso. Não a mesa. Não o quarto. Não o plano. Foi o tom dele, como se fosse óbvio que eu podia existir ali sem dar espectáculo.
Eu comecei a comer e, nos primeiros minutos, não disse nada que valesse a pena. Era só mastigar, engolir, respirar. O meu corpo a aceitar comida como se fosse uma coisa nova. O Mathew não tentou preencher o silêncio. Não puxou conversa só para provar que sabia. Ficou ali a acompanhar o ritmo, a dar-me espaço sem me largar.
Eu reparei em pormenores sem querer. O jeito como ele pousava o copo sempre no mesmo sítio. O cuidado com que não fazia barulho com os talheres. A forma como olhava para mim sem fixar, como se soubesse que eu me fechava se me sentisse observado demais. Ele tinha aquela atenção que parece leve, mas nunca é distraída.
— Estás a avaliar-me? — saiu-me, de repente, porque eu odeio sentir que alguém percebe coisas.
Mathew levantou os olhos devagar, com um sorriso pequeno.
— Estou a confirmar se vais sobreviver a isto sem desmaiar em cima do prato.
Revirei os olhos por reflexo.
— Dramático.
— Prático — corrigiu, calmo. — Se desmaias, eu tenho de chamar alguém. E depois perco a tua cara quando finges que não estás feliz por eu estar preocupado.
Eu engasguei-me com um riso pelo nariz. Pequeno. Sem querer.
Ele viu. Claro que viu. Não fez festa. Só deixou o sorriso ficar mais quente um segundo.
— Não te estiques — avisei, a apontar o garfo para ele como se aquilo fosse uma arma.
— Eu nunca me estico — disse ele, com inocência estudada. — Eu só faço observações extremamente razoáveis.
Eu continuei a comer, mas agora já estava acordado o suficiente para o sentir ali. A presença dele não me dava descanso. Dava foco. Era pior.
Mathew inclinou-se um pouco para chegar ao prato e eu vi os antebraços, as mangas dobradas, a pele ainda com sinais de água. E a minha cabeça tentou fazer aquilo que faz sempre quando fica insegura: transformar tudo em piada, em distância, em ataque.
— Estás a fazer isto para quê? — perguntei, como quem pergunta sobre logística para não perguntar sobre nós.
Ele não fingiu que não percebeu.
— Para te sevir— respondeu, simples.
— Mathew.
— Adrian — disse ele, e o meu nome na boca dele tinha sempre o mesmo efeito irritante, como se me trouxesse para mais perto sem tocar. — Para te dar de comer. E para te ver. E para perceberes que não tens de vir aqui como se fosse uma culpa.
Eu fiquei quieto um segundo. O garfo suspenso. A minha garganta apertou, não por emoção grande, mas por aquela coisa chata do corpo quando a verdade chega sem pedir licença.
— Eu não vim por culpa.
O sorriso dele foi curto.
— Claro que não.
O tom dizia “não me mintas”. Era aquele jeito dele de não comprar a minha versão mais conveniente.
Eu inspirei, devagar.
— Foi um dia inteiro com gente a querer coisas — disse eu, por fim. — A querer acesso, a querer uma frase, a querer uma reacção. E eu… só queria que acabasse.
Mathew não interrompeu. Só assentiu, como se aquilo fosse importante.
— E quando acabou?
Eu dei de ombros, como se fosse indiferente.
— Eu ainda estava a acordar dentro disso.
Ele inclinou a cabeça, atento de verdade.
— Estás a falar do cansaço… ou de mim?
Eu estreitei os olhos, irritado por ele ser tão directo com um tom tão calmo.
— Tu não tens subtileza nenhuma.
— Tenho — disse ele, e o sorriso de lado apareceu. — Só escolho não a usar contigo, porque tu usas subtileza como esconderijo.
Eu abri a boca para responder. Fechei. Continuei a comer para ganhar tempo. O silêncio voltou, mas agora era mais confortável, o que me irritava ainda mais.
Mathew bebeu água e olhou para mim de novo, com aquela calma que parece sempre saber mais.
— Conta-me uma coisa pequena — disse ele. — Não a versão oficial. Uma coisa pequena que te tenha dado vontade de revirar os olhos hoje.
Eu soltei um riso sem humor.
— A Adison.
Ele sorriu, obviamente.
— Isso não é pequeno.
— Ela olhou para mim como se eu fosse um anúncio ambulante — continuei. — E o Leslie… — parei, porque até dizer o nome do Leslie me fazia sentir observado.
— O Leslie fez o quê? — perguntou Mathew, com interesse real.
— Disse que sabia perfeitamente quem tinha escolhido o fato.
O sorriso do Mathew abrandou, satisfeito, mas ele não se gabou. Só ergueu a sobrancelha, como quem diz “claro”.
— Ele tem olho.
— Ele tem vício de caos — corrigi.
Mathew riu baixo.
— Eu gosto dele.
— Não te habitues a dizer isso — avisei, sem força.
— Também não me vou habituar a ver-te em marfim e fingir que não gostei — disse ele, num tom leve, como se estivesse a falar do tempo.
Eu parei com o garfo no ar. Senti o calor subir, irritante, e tratei logo de atacar.
— Isto foi escolha tua. Não te faças de inocente.
Mathew recostou-se um pouco na cadeira, como se estivesse confortável no tribunal.
— Eu não me fiz de inocente.
— Fizeste.
— Eu só estou a apreciar o resultado — disse ele, e os olhos verdes prenderam-se nos meus com aquela química que me faz querer sair e ficar ao mesmo tempo. — Ficas bem quando não tentas desaparecer.
A frase caiu limpa. Sem poesia. Sem espectáculo. E foi isso que me acertou.
Eu desviei o olhar para o prato, porque eu tinha fome e também porque eu precisava de uma desculpa para não o encarar.
— Não digas isso como se me conhecesses há anos.
— Eu não preciso de anos para saber quando alguém está a lutar consigo próprio — respondeu ele, calmo. — E tu lutas muito.
Eu ri pelo nariz, cansado.
— Hoje tu estás em modo terapeuta.
Mathew abanou a cabeça, quase divertido.
— Não. Em modo jantar. Terapeuta não te punha massa no prato.
— Ainda bem.
Ele inclinou-se ligeiramente, e a voz dele baixou meio tom.
— E eu não te estou a pedir nada hoje, Adrian. Eu só queria estes minutos contigo sem te veres a fugir de tudo.
Eu levantei os olhos. Queria dizer-lhe para parar. Não consegui.
O meu telemóvel vibrou no bolso como se tivesse ouvido a conversa e decidido meter-se.
Eu puxei-o, irritado.
Mathew olhou para o gesto e o sorriso dele apareceu, discreto.
— Isso parece Adison.
— Não digas o nome dela como se fosse uma entidade — resmunguei.
— Não disse nada — respondeu ele, com inocência estudada. — Só vi a tua cara.
Desbloqueei.
Adison: “Já começaste a fingir que não gostas dele ou ainda estás na fase educada?”
Fechei os olhos e saiu-me um riso curto, humilhado.
Mathew não se inclinou para ver. Não perguntou. Só ficou a olhar para mim com aquela expressão tranquila de quem sabe esperar.
— Ela é impossível — murmurei, a escrever rápido.
Mathew levantou o copo, como se brindasse ao facto.
— Ela é tua amiga.
— Ela é uma ameaça.
— As duas coisas podem ser verdade.
Eu respondi à Adison: “Jantar. Cala-te.”
A resposta veio quase instantânea.
“Beijinho já aconteceu ou ainda estão a medir talheres?”
Engasguei-me com a água. Tossir, rir, tentar não morrer, tudo ao mesmo tempo.
Mathew levantou-se um pouco, reflexo imediato.
— Estás bem?
Eu fiz um gesto com a mão, a recuperar o ar.
— Estou. Ela é que é doente.
Ele sentou-se outra vez, e o sorriso dele foi elegante, contido, como se estivesse a divertir-se sem me expor.
— Gosto dela.
Eu olhei para ele, ofendido.
— Não digas isso.
— Eu gosto — insistiu ele, leve. — Ela pica-te para veres se ainda reages. E tu ainda reages.
— Infelizmente.
Mathew inclinou a cabeça, e os olhos verdes ficaram ali, quietos.
— Felizmente.
Percebo. Está a soar “escrito” demais, muito polido. Vou pôr isto mais conversado, com interrupções pequenas, hesitação, e aquela química deles a atrapalhar um bocadinho o controlo do Adrian.
Mathew olhou para mim por cima do copo, ainda com aquele sorriso meio contido.
— Ela continua igual.
— A Adison? — eu resmunguei. — Sim. Infelizmente.
Ele fez um som baixo, quase um riso.
— Não mudou nada.
Eu parei um segundo, a olhar para ele.
— Tu dizes isso como quem sabe.
Ele encolheu um ombro, simples.
— Sei.
Eu voltei ao prato, mas a curiosidade ficou ali, a picar. Eu já sabia que ele tinha passado pela Velvet. Só que nós nunca tínhamos ido muito além disso. E eu tinha deixado ficar, porque é mais fácil fazer de conta que não me interessa.
— Eu sei que tu trabalhaste na Velvet — disse eu, sem olhar logo para ele. — Só… nunca te perguntei o que é que tu fazias mesmo.
Mathew não fez drama. Não fez aquela cara de “finalmente”.
— Está tudo bem.
— Não está tudo bem — corrigiu a minha boca antes de eu pensar. — É só… estranho eu saber isso e nunca ter perguntado.
Ele olhou-me com calma, como se me deixasse tropeçar sozinho.
— No contrato eu era sub director de design.
Eu levantei os olhos.
— Abaixo do Leslie.
— Sim.
— E na prática?
Mathew respirou como quem já contou isso antes, mas não muitas vezes.
— Na prática… eu era assistente da Valentina.
Eu fiquei a olhar para ele, com uma expressão que eu tentei disfarçar.
— A sério?
— A sério — disse ele, e o tom foi tão normal que me irritou. — Tudo o que era dela passava por mim. Mudanças de última hora, horários, reuniões, crises pequenas que viravam gigantes porque ela decidia. E eu fazia design, claro, mas… era sempre com a mão dela por cima.
Eu mastiguei devagar, a imaginar.
— Como é que tu aguentaste?
Ele deu um meio sorriso.
— Eu gostava do ambiente. Da velocidade. Da exigência. Era… viciante. E eu era bom.
Fez uma pausa curta, depois continuou, mais honesto.
— Mas eu sentia-me preso. Não era só “muito trabalho”. Era a sensação de que a tua cabeça já não é tua.
Eu mexi no garfo, sem comer.
— E tu odeias isso.
— Eu odeio — confirmou ele. — Eu gosto de criar. Gosto de ter espaço. Na Velvet eu estava sempre a responder, sempre a correr atrás, sempre a apagar incêndios com estética.
Eu soltei um riso pequeno.
— Isso é uma frase muito Leslie.
Mathew sorriu.
— Eu aprendi com o melhor.
— Então porque é que saíste? — perguntei, e a pergunta saiu mais seca do que eu queria, como se eu estivesse a pedir um relatório.
Ele não levou a mal.
— Porque apareceu uma oportunidade melhor. E porque eu estava a ficar… fechado ali dentro. Eu percebi que, se ficasse, ia começar a odiar aquilo que eu gosto de fazer.
— E foste.
— Fui.
Eu fiquei calado um segundo. Depois, inevitável:
— E a Adison?
Mathew soltou um som curto, divertido.
— Nós nunca nos suportámos muito.
— Eu sabia.
— Ela achava que eu fingia calma — disse ele, a olhar para o prato como se estivesse a escolher a memória certa. — E eu achava que ela fazia tudo virar palco.
Eu arqueei uma sobrancelha.
— E agora?
Ele levantou os olhos para mim.
— Agora eu acho que ela é boa. Muito boa. E que te conhece demasiado bem.
Eu revirei os olhos.
— Ela acha que me conhece.
— Adrian — disse ele, com aquele tom calmo que me irrita. — Ela apanha-te em três segundos. Tu é que finges que não.
Eu ia responder, mas ele já tinha voltado ao copo, tranquilo, como se não tivesse acabado de me acertar.
Eu mexi na comida.
— É estranho — admiti, sem querer. — Eu saber isto tudo por alto e nunca ter perguntado.
Mathew olhou para mim, e o sorriso dele foi pequeno, quente.
— Também é muito a tua cara.
— Como assim?
— Tu ficas curioso. Mas só perguntas quando já não consegues fingir que não estás.
Eu estreitei os olhos.
— Não te estiques.
Ele sorriu, satisfeito.
— Eu nem me mexi.
Eu fiquei a mexer na comida mais do que a comer. A conversa tinha aberto uma porta e eu já não tinha muita energia para fingir que não.
— E na Lorraine? — perguntei, como quem tenta soar casual e falha. — Como é que é… para ti, agora.
Mathew levantou os olhos devagar.
— Melhor.
— “Melhor” não me diz nada — atirei, e o meu tom saiu mais picado do que eu queria. — O que é que tu fazes, mesmo. Como director criativo.
Ele sorriu de leve, como se gostasse do meu irritadiço.
— Eu decido.
— Isso também não me diz nada.
— Adrian… — ele disse o meu nome como aviso e como carinho ao mesmo tempo. Depois cedeu. — Eu decido a direcção visual. Campanhas, capas, editoriais. A forma como a revista se apresenta. O que é que parece Lorraine antes de alguém ler uma palavra.
Eu assenti, mas ainda estava a tentar apanhar o peso real.
— E o teu dia a dia?
Mathew apoiou o cotovelo na mesa, relaxado.
— Reuniões, claro. Uma quantidade estúpida de reuniões. Discussões sobre orçamento, prazos, egos. E depois a parte boa. Eu pego numa ideia crua e transformo aquilo num mundo. Escolho equipa, fotografo, styling, narrativa visual. Às vezes faço storyboard, às vezes faço só direcção e deixo as pessoas boas fazerem o resto. Mas a responsabilidade final é minha.
Eu olhei para ele.
— E tu gostas disso?
— Gosto — disse ele, simples. — Porque agora é meu. Se corre bem, é meu. Se corre mal, também é meu. Mas eu não estou a executar a vontade de alguém o tempo todo.
Eu deixei escapar um riso pequeno.
— Estás a falar da Valentina.
Ele não negou.
— Estou a falar do que é estar preso.
Eu inclinei-me um pouco para a frente.
— Então qual é a diferença real entre a Lorraine e a Velvet?
Mathew pensou um segundo, como se fosse escolher uma resposta que não fosse discurso.
— A Velvet tem uma energia mais… militar. Tudo é urgente. Tudo é definitivo. E há uma pessoa no centro. A Valentina decide, o resto adapta-se.
— E a Lorraine?
— A Lorraine é mais… editorial a sério — disse ele. — Mais discussão, mais argumento. Menos teatro. Ainda há ego, claro. Mas não há aquela sensação de que a sala inteira está a respirar ao ritmo de uma pessoa.
Eu arqueei uma sobrancelha.
— E tu tens poder real?
Mathew sorriu, de canto.
— Eu tenho espaço. Que é a coisa mais rara. Tenho voz. Tenho margem para dizer “isto não” sem isso virar uma questão pessoal.
Eu fiquei a olhar para ele e a pergunta saiu antes de eu a travar.
— E sentes falta?
— Da Velvet?
Eu dei de ombros, como se não fosse curiosidade.
— Do ambiente. Da… velocidade. Da loucura.
Mathew riu baixo.
— Às vezes. Quando está tudo demasiado controlado, eu sinto falta da adrenalina. Mas depois lembro-me do preço.
Ele pegou no copo, olhou para mim por cima da borda.
— E tu? Gostas do preço?
Eu revirei os olhos.
— Eu não tenho escolha.
Ele pousou o copo com cuidado.
— Tens. Só ainda não decidiste qual.
Eu engoli em seco, irritado com o sítio onde aquilo tocou.
— Não transformes isto num sermão.
O sorriso dele voltou, pequeno, quente.
— Não é sermão. É curiosidade profissional. Eu sou director criativo, lembra-te.
— Isso é a tua desculpa para me analisares?
— É a minha desculpa para te fazer perguntas e tu ficares aqui a responder — disse ele, calmo. — Funciona.
Eu apontei-lhe o garfo.
— Não comesses.
Ele riu, e aqueles olhos irritantemente verdes prenderam-se em mim novamente.
- Eu não estou começar nada.
Mathew recostou-se na cadeira com aquele conforto que ele tem quando já está a dois passos à frente e não precisa de correr. Não parecia um gesto pensado, mas eu conhecia o Mathew o suficiente para saber que nada nele era completamente por acaso. Ele ficou um segundo a olhar para mim, como se estivesse a decidir se valia a pena abrir a conversa ou se eu ainda estava frágil demais para lidar com ela sem virar teimoso.
Eu estava teimoso na mesma. A diferença é que eu estava a comer, e isso tirava-me um bocadinho da agressividade. Só um bocadinho.
— Às vezes imagino uma coisa — disse ele.
Eu nem levantei o olhar de imediato. Era a minha maneira de não lhe dar palco logo à primeira.
— Se começa com “imagino”, eu já sei que vou odiar.
Ele sorriu, pequeno.
— Tu a largares a Velvet.
Foi aí que eu levantei os olhos. Não por choque, por reflexo. A palavra “Velvet” tem esse efeito. Parece que te toca numa zona do corpo que não é pele.
— Não.
Ele nem pestanejou.
— Eu ainda não terminei a frase.
— Não preciso.
Mathew mexeu no copo, como se aquilo não fosse nada.
— Tu a largares a Velvet e ires para a Lorraine.
Eu soltei um riso curto, mais ar do que humor. A ideia, no papel, até parecia limpa. O problema é que nada em mim é limpo quando envolve escolhas grandes.
— Não vou trabalhar contigo.
Mathew fez aquela pausa mínima, a mesma pausa que ele usa quando vai pegar numa palavra e pô-la no sítio exacto.
— Comigo? — repetiu ele, inocente. — Eu disse Lorraine.
Eu senti o canto da boca querer mexer e tratei logo de o segurar.
— É a mesma coisa — respondi. — A tua Lorraine vem com tu incluído.
O sorriso dele demorou, divertido.
— Isso foi um elogio ou uma acusação?
— Foi um aviso — disse eu, seco. — Eu não quero trabalhar contigo.
Mathew inclinou a cabeça, a voz a ficar mais macia e mais perigosa.
— Não queres… ou não consegues?
Revirei os olhos de imediato. Foi automático, como uma defesa que já sabe o caminho.
— Lá estás tu.
Ele abriu as mãos, calmo demais para alguém que está a provocar.
— O quê? — perguntou ele, como se fosse a pergunta mais legítima do mundo. — Eu só fiz uma pergunta.
— Fizeste uma pergunta a ver se eu me engasgava.
Mathew riu baixo.
— Resultou?
Eu apontei-lhe o garfo. Não como ameaça séria, mais como forma de voltar a ter controlo de alguma coisa.
— Come.
— Estás a mandar-me comer agora?
— Estou a mandar-te calar — corrigi. — E a comer. Por ordem.
Ele obedeceu um segundo, só para me irritar com a obediência. Foi uma coisa pequena, mas eu senti logo o prazer irritante de ser ouvido e a raiva imediata de gostar disso. Depois ele pousou o garfo e voltou a mim com aqueles olhos verdes quietos, como se eu fosse a parte interessante do jantar, não a comida.
— A sério, Adrian. Imagina. Tu chegavas à Lorraine e não tinhas de passar metade do dia a apagar incêndios de outra pessoa.
— Eu apago incêndios muito bem.
— Eu sei — disse ele. — Mas tu não tens de viver disso.
Eu fiz um gesto vago com a mão, como se ele estivesse a falar de outra pessoa. Como se fosse mais fácil fingir que eu não estava cansado da minha vida.
— E tu querias-me lá porquê? Por talento? Ou só para me teres à mão?
A frase saiu e eu senti logo que tinha ido longe demais. Era esse o meu problema com ele: quando eu entro, eu entro com tudo, e depois finjo que foi sem querer. Mathew não pareceu ofendido. Pareceu satisfeito por eu ter dito “à mão”.
— Eu queria-te lá porque tu és bom — respondeu, simples. — E porque ias ficar ainda melhor com espaço.
Eu arqueei uma sobrancelha, a tentar recuperar o terreno.
— Espaço dado por ti.
— Espaço defendido por mim — corrigiu ele, com calma. — São coisas diferentes.
Eu inclinei-me um pouco para a frente, a entrar no jogo sem querer. A cadeira rangeu um bocadinho e eu detestei que até isso me denunciasse.
— Como é que tu “defendes” espaço?
Mathew apontou o garfo ao ar, como se estivesse a desenhar.
— Tu tinhas briefing e margem. Eu tratava do barulho à volta. Gente a pedir coisas a meio, alterações só porque sim, caprichos. Eu filtrava.
Eu soltei um som baixo, quase um riso, porque a imagem era demasiado plausível. E porque a parte de mim que odeia admitir coisas também sabe reconhecer quando alguém te quer facilitar a vida.
— Tu estás literalmente a descrever o que tu fazias na Velvet.
— Não — disse ele, e o olhar dele ficou mais sério. — Na Velvet eu filtrava para a Valentina. Na Lorraine eu filtrava para o trabalho. É diferente.
Eu fiz uma careta. Havia uma verdade ali que eu não queria mastigar.
— E eu entrava a fazer o quê, exactamente? Assistente de director criativo?
Mathew sorriu de lado.
— Não. Tu ias entrar para dar cabo de metade das pessoas com eficiência e cara fechada.
Revirei os olhos, mas sorri. Foi meio segundo. Ele viu na mesma.
— Eu não tenho cara fechada.
— Tens — disse ele, sem hesitar. — Especialmente quando estás concentrado. É uma das tuas melhores.
— A minha melhor cara é a de ir embora.
— A tua melhor cara — respondeu ele, muito calmo — é quando achas que estás no controlo e ainda assim me estás a ouvir.
Eu fiquei com a língua presa um instante. Odeio quando ele acerta e ainda por cima faz isso com calma. A fome ajudava-me a não explodir, mas não me salvava do resto.
— Ok. Suponhamos. Eu ia para a Lorraine. Como é que isso funcionava sem tu tornares tudo… pessoal?
Mathew levantou as sobrancelhas como se a palavra lhe tivesse feito graça.
— Tu achas que eu tornava?
— Acho que tu ias tentar — respondi. — Tu és incapaz de não tentar.
Ele aceitou isso com um sorriso pequeno.
— Então íamos negociar regras.
— Regras?
— Regras — repetiu ele, e apoiou os antebraços na mesa. — Não te ponho em campanhas que eu esteja a liderar directamente no início. Para não haver conversa. Damos-te projectos teus. Eu avalio o resultado. Tu ganhas respeito por mérito, não por proximidade.
Eu estreitei os olhos.
— Isto já parece um plano demasiado sério para uma “imaginação”.
Mathew encolheu um ombro.
— Eu imagino bem.
Eu ri pelo nariz, contrariado.
— E onde é que entra a parte em que nós nos odiamos no escritório?
O sorriso dele abriu mais.
— Ah, isso entra logo no primeiro dia.
— Claro que entra.
— Tu ias corrigir uma coisa minha num tom insuportável — disse ele. — Eu ia fingir que não me afectava. Depois ia-te agradecer com uma educação irritante.
Eu inclinei a cabeça, a alinhar com o jogo, porque era impossível não alinhar. A conversa tinha aquele tipo de energia que te faz esquecer a hora por uns segundos, mesmo quando estás cansado.
— Eu ia detestar.
— E eu ia gostar.
— E depois? — perguntei, já a flertar sem dizer a palavra.
Mathew olhou para mim um segundo a mais. Eu senti isso no estômago, como se o corpo percebesse antes de mim que aquilo já não era só conversa.
— Depois havia reuniões.
— Eu odeio reuniões.
— Eu sei. Ias sentar-te ao meu lado por teimosia, só para eu sentir que estás ali.
Eu soltei um riso baixo.
— Estás a inventar.
— Estou a ser realista — corrigiu ele. — Tu não ias querer ficar “de fora”. Não comigo.
Eu revirei os olhos, mas não neguei. Ele apanhou isso, claro.
— E tu? — perguntei, a apontar-lhe o copo. — Tu ias fazer o quê além de me olhares como se eu fosse um projecto?
Mathew sorriu, lento.
— Eu ia provocar-te em público só o suficiente para tu não poderes reagir.
— Isso é cruel.
— Isso é trabalho — disse ele, com calma. — E depois, em privado, eu ia dar-te razão. Só para te estragar o humor.
Eu ri, agora mais real, e senti a tensão nos ombros a ceder um bocado. Muito pouco, mas ceder.
— Tu és mesmo insuportável.
— E tu ias começar a aparecer na minha porta para discutir coisas que não precisavam de discussão — continuou ele, sem pressa.
— Tipo?
— Tipo “isto está bem?” — disse ele, e a voz dele baixou um pouco. — Quando tu já sabes que está.
Eu senti o calor subir, irritante. Não era vergonha. Era aquela sensação de estar a ser visto numa versão de mim que eu ainda não tinha decidido mostrar.
— E tu ias responder o quê?
Mathew não desviou o olhar.
— “Está.” E depois ia dizer “senta-te” como se fosse casual.
Eu abri a boca para o cortar, mas ele já estava a sorrir, satisfeito por me ver sem resposta.
Eu recostei-me na cadeira, a recuperar terreno, a fingir que a minha barriga não tinha feito aquele aperto.
— Isso tudo só para eu trabalhar na Lorraine.
— Isso tudo — disse ele. — E ainda nem falei do que ia acontecer quando alguém te tentasse roubar para outra equipa.
Eu levantei uma sobrancelha.
— Ah, claro. Ciúmes corporativos.
— Ciúmes profissionais — corrigiu ele, com um ar muito sério que era obviamente teatro. — Eu só fico possessivo com talento.
Eu ri, sem conseguir evitar.
— Essa foi péssima.
— Funcionou — respondeu ele, e os olhos verdes prenderam-se nos meus. — Estás a rir.
Eu apontei-lhe o garfo outra vez, mas agora já era meio brincadeira, meio defesa. Eu precisava de uma linha qualquer para não ficar só entregue.
— Come e cala-te, director criativo.
Mathew pegou no garfo, obediente de propósito.
— Sim, senhor.
Eu revirei os olhos, mas já estava a sorrir.
— Se nós trabalhássemos juntos, eu acabava preso.
Mathew mastigou com calma, como se estivesse a decidir a resposta certa.
— Não queres… ou não consegues?
Eu fechei os olhos um segundo, exausto e divertido ao mesmo tempo. E foi nesse segundo que eu percebi que já não estava a contar minutos há algum tempo.
— Tu não sabes parar.
— Eu sei — disse ele, tranquilo. — Eu só não quero.
E eu odiei o quanto isso me agradou. Depois do jantar, nenhum de nós se levantou logo. Ficámos ali a trocar farpas, a conversar como se o tempo fosse elástico e como se eu não tivesse entrado naquele quarto a repetir “quarenta minutos” como uma oração.
Mathew comentava pequenos detalhes como se fossem nada, mas eu conhecia o truque. Ele dizia uma coisa simples e deixava-me tropeçar nela.
Eu olhei para o relógio e senti logo a culpa estúpida a morder.
Os “quarenta minutos” já tinham morrido há algum tempo.
Fiquei a olhar para os números como se eles fossem uma prova em tribunal.
— Tenho de ir — disse eu, e tentei pôr firmeza na voz.
Mathew não discutiu. Levantou-se com calma, como se eu tivesse dito “vou buscar água” e não “vou fugir agora”. Não houve pressa nele. Houve aquela certeza tranquila que ele usa quando decide que o momento é dele.
Aproximou-se devagar, sem invadir. O que me irrita no Mathew é que ele sabe exactamente onde parar. Sabe a distância que me deixa sem desculpa para recuar e, ao mesmo tempo, sem motivo para dizer que fui encurralado. É sempre uma aproximação limpa, controlada, como se ele estivesse só a atravessar o quarto e eu é que estivesse no caminho.
— Tens? — perguntou, baixo.
— Tenho. A brecha acabou.
O sorriso dele apareceu, lento, quase satisfeito.
— A brecha…
— Sim — cortei, já a levantar-me. — Aquela coisa que eu te dei e tu esticaste.
Ele riu baixo, como se aquilo fosse um elogio.
— Eu não estiquei nada. Eu fui exemplar.
Eu peguei no casaco para ter qualquer coisa nas mãos. Um objecto, uma tarefa, uma âncora. Eu estava a tentar lembrar-me que isto era só sair de um quarto.
— Mathew.
Ele chegou mais perto e, desta vez, não foi uma mão a parar-me. Foi o corpo dele a entrar no meu caminho com a naturalidade indecente de quem já conhece o teu espaço pessoal por dentro. Um passo só, mas bem colocado. O suficiente para eu ter de escolher entre parar ou roçar nele. E eu parei, porque eu tenho orgulho e porque eu sei exactamente o que acontece quando eu roço nele.
Mathew olhou para a minha camisa, depois para a minha cara. O olhar dele tinha aquela calma galante que parece educação, mas vem com memória. Ele já tinha visto o meu corpo em todas as versões que eu finjo que não existem durante o dia. Já tinha visto onde eu tremo, onde eu cedo, onde eu tento manter controlo e falho. E ele sabe usar isso sem ser bruto. É isso que me lixava.
O toque veio como se fosse distraído, mas não era. Dois dedos a endireitar a gola, devagar. Um roçar lento no meu pescoço, como se ele estivesse a confirmar se eu estava seco, como se estivesse a cuidar. Só que aquele gesto, naquele sítio, naquele ritmo, não era cuidado inocente. Era ele a lembrar-me do que as mãos dele já fizeram ali, e do quanto eu gostei.
— Azul — murmurou ele, perto demais. — Boa escolha.
Eu revirei os olhos por reflexo, mas a minha garganta apertou na mesma. O meu corpo sempre me denuncia primeiro.
— Não fui eu.
O sorriso dele cresceu um pouco.
— Claro. Eu esqueço-me que tu tens uma equipa de consultoria.
Eu tentei passar por ele. Não deixou. Não com força. Com timing. Ele inclinou-se só o suficiente para a voz cair junto ao meu ouvido, e eu senti aquela coisa irritante que é a pele a ficar demasiado acordada.
— Fica mais cinco minutos.
— Não.
— Não queres… ou não consegues? — disse ele, e a frase veio como um golpe pequeno e perfeito, porque ele já sabia que eu ia reagir.
Eu olhei para ele, ofendido.
— Tu não sabes parar.
— Eu sei — respondeu, calmo. — Eu só não quero.
E depois fez pior. A mão dele desceu devagar pela minha manga e prendeu-me na dobra do cotovelo, como se fosse casual, como se fosse só uma forma de me virar de volta para ele. A outra mão ficou na minha cintura, leve, a marcar presença sem apertar, mas firme o suficiente para eu sentir que ele estava ali e eu estava a deixar.
A proximidade dele não era só “perto”. Era específica. Era o peito dele a um palmo do meu, o calor que passa através do tecido, a sensação ridícula de que o meu corpo já sabe o caminho antes de eu decidir. Eu senti o meu próprio fôlego falhar meio segundo. Senti o impulso de baixar os olhos, porque eu sei que, se eu fico demasiado tempo a encarar aqueles olhos verdes, eu perco o argumento e ganho vontade.
Mathew olhou para a minha boca um segundo, sem vergonha nenhuma. Não foi um olhar agressivo. Foi um olhar confiante, como quem já esteve lá e sabe que eu também sei. Depois voltou aos meus olhos como se tivesse todo o tempo do mundo.
— Vais embora porque a hora acabou… ou porque estás com medo de ficar?
Eu engoli em seco.
— Vou embora porque eu disse quarenta minutos.
Mathew inclinou a cabeça, divertido.
— E cumpriste?
Eu levantei o relógio, quase a enfiar-lho na cara. Era o meu último escudo. Números, moral, responsabilidade. Qualquer coisa que não fosse admitir que eu estava a gostar demasiado daquele minuto.
— Passei. Passei muito. Isto já foi uma brecha premium e agora já é abuso de horário.
O sorriso dele aqueceu, e havia ali um prazer evidente em ver-me a tentar ser sério.
— Eu gosto quando tu tentas ser moral.
— Eu estou a ser moral — respondi, seco. — Estou a ser responsável.
Mathew aproximou-se mais um milímetro. A mão na minha cintura fez um círculo pequeno, irritantemente íntimo, como se ele estivesse a desenhar calma em cima de mim. O gesto foi lento e seguro, o tipo de gesto que não pede permissão porque sabe que o teu corpo já deu.
Eu detestei o som baixo que eu fiz ao inspirar. Detestei que ele tivesse ouvido.
— Responsável é uma palavra bonita para “eu quero mas não vou admitir”.
Eu revirei os olhos, mas o sorriso escapou-me. Pequeno. Traidor. E eu senti o meu próprio corpo relaxar meio centímetro na direcção dele, como se eu tivesse esquecido por um instante que a minha cabeça tinha uma agenda.
— Tu és impossível.
— Eu sei — disse ele, e a voz dele baixou. — E tu estás aqui, a um passo. A fingir que isso não te afecta.
Eu tentei libertar-me devagar, porque eu também sei jogar quando quero. Deslizei o braço, fiz o movimento como quem não está a fugir, só a reposicionar. Só que ele acompanhou, a mão dele a passar do meu cotovelo para a lapela, como se fosse corrigir um detalhe outra vez. E eu odiei como isso me fez lembrar a madrugada, a maneira como ele me tirou a roupa sem pressa, como se fosse uma decisão e não um impulso.
— Tu não vais sair com isso torto — murmurou.
— Mathew…
Ele sorriu de canto, olhos verdes a prenderem-me.
— Diz.
Eu respirei fundo, a tentar puxar o controlo de volta para o sítio.
— Abre a porta.
Mathew ficou ali um segundo, a decidir se me deixava ganhar. E isso, nele, era sempre uma provocação. Depois afastou-se um passo, como se estivesse a fazer uma concessão elegante, como se eu tivesse dito a coisa mais sensata do mundo.
— Vai — disse ele, calmo. — Antes que eu decida que a brecha afinal ainda tem mais dez.
Eu passei por ele, e no exacto segundo em que cruzei a porta senti o toque dele outra vez, desta vez na minha nuca. Breve. Quente. Um gesto galante, quase terno, mas carregado daquela memória inteira que nós fingimos que não está a pairar entre um jantar e uma despedida.
— Boa noite, Adrian — disse ele, baixo.
Eu parei um segundo no corredor, só para recuperar ar e dignidade. O meu coração estava a bater rápido demais para uma simples saída. Eu odiava isso. E odiava ainda mais que, mesmo cansado, eu me sentisse mais vivo ali do que em qualquer sala de imprensa.
— Boa noite, Mathew.
Ele ficou à porta, com aquele sorriso pequeno e perigoso, como se estivesse a ver-me ir embora e a decidir que eu ia voltar.
— Da próxima vez, eu não aceito quarenta minutos.
Eu levantei o queixo, a minha última defesa em forma de piada.
— Da próxima vez eu venho com cronómetro.
O riso dele seguiu-me enquanto eu me obrigava a andar. E eu detestei, com uma sinceridade quase cómica, o quanto eu já estava a contar com a próxima vez.
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