Dolce & Desastre
23 Dolce & Boato
Fiquei de olhos abertos no escuro, sem me mexer, a ouvir o ar condicionado a insistir numa regularidade que só existe em máquinas. O quarto estava quieto de um jeito demasiado limpo, como se alguém tivesse apagado o mundo lá fora. Tentei convencer o meu corpo de que ainda era noite. Não adiantou. A cabeça acordou inteira e trouxe tudo ao mesmo tempo, sem ordem, sem cuidado.
Milão.
Valentina.
Semana da moda.
O jantar.
Mathew a abrir a porta com aquela calma que me deixa sempre a meio caminho entre vontade de rir e vontade de lhe arrancar a gravata.
Fechei os olhos outra vez, como se isso fosse um botão. Não era. Só me deu mais espaço para ouvir a frase dele a repetir-se com a certeza de quem não faz pedidos, faz escolhas.
Respirei devagar, a tentar pôr-me de volta no sítio. A irritação ajudava, por estranho que pareça. A irritação é uma coisa sólida. O resto é que me baralhava.
Do outro lado do quarto, a Adisson mexeu-se um pouco, o mínimo necessário para provar que estava acordada, e falou com aquela voz de sono que torna qualquer comentário mais descarado.
— Se essa cara ficar assim o dia todo, vais assustar italianos às nove da manhã.
Virei o rosto para ela. Estava enroscada no lençol, cabelo desalinhado, um olho meio aberto, expressão satisfeita como se a minha ansiedade fosse entretenimento.
— Tu estavas a dormir.
— Estava. — confirmou, sem culpa nenhuma. — E acordei com o teu silêncio dramático.
Sentei-me na cama, devagar, porque o corpo ainda queria ficar, mas a minha cabeça já estava a correr. Passei uma mão pela cara, mais por hábito do que por necessidade.
— Silêncio dramático não existe.
A Adisson abriu o outro olho e olhou para mim com uma atenção irritantemente exacta, como se me estivesse a ver por dentro antes do café.
— Existe em ti. É quase um talento.
Deixei sair um riso curto pelo nariz, contra vontade, e levantei-me logo a seguir. Se eu ficasse ali, ela ia desmontar-me peça por peça e ainda ia chamar aquilo de amizade.
— Vai lá. — murmurou ela, já a virar-se para o outro lado. — Toma banho, veste uma camisa e finge que és estável. Eu junto-me depois.
— Eu sou estável.
A resposta veio abafada na almofada, sem esforço.
— Disseste isso tão depressa que até eu fiquei preocupada.
Fui para a casa de banho sem responder, porque responder era dar-lhe mais material.
A água ajudou a acordar o corpo e a calar a cabeça por uns segundos. Não porque resolvesse alguma coisa, mas porque pelo menos era uma sensação simples. Escovei os dentes com a mesma seriedade com que preparo um briefing, como se eu pudesse limpar a noite de dentro da boca. Vesti-me com escolhas seguras, sem espaço para dramatismos: camisa, calças, relógio. O tipo de roupa que me mantém alinhado quando eu por dentro estou a discutir comigo próprio.
Quando voltei ao quarto, já composto, a Adisson estava sentada na cama dela com um café na mão e aquele olhar avaliador que ela usa quando decide ser insuportável com precisão.
Os olhos dela fizeram o percurso todo, dos sapatos ao meu rosto, com calma.
— Hm.
Ajustei o relógio como se não a tivesse ouvido.
— Não.
— Nem disse nada.
— Disseste “hm”. Em ti isso é um capítulo inteiro.
Ela sorriu, satisfeita.
— Hoje é elogio. Pareces menos “homem prestes a desabar” e mais “profissional cansado com segredos”.
Parei a meio do gesto e olhei para ela, porque há limites.
— Isso continua a ser um elogio estranho.
— É o tipo certo para esta cidade. — respondeu ela, levantando-se e pegando no blazer. — Anda. Se chegarmos atrasados, o Leslie vai sorrir e fazer um comentário passivo-agressivo tão bem construído que eu não quero perder.
Ri, apesar de mim, e odeiei-me um bocado por isso.
— Tu gostas mesmo de sofrer.
— Eu gosto de bons diálogos. O sofrimento vem incluído. — disse ela, já a endireitar a roupa com uma dedicação quase religiosa.
No elevador, o silêncio aguentou-se um instante. Eu estava a contar os segundos sem dar por isso, porque contar dá-me uma sensação falsa de controlo.
A Adisson inclinou a cabeça na minha direcção sem olhar para mim, como se a pergunta fosse casual e não uma faca limpa.
— Ele foi querido no fim?
Fiquei a olhar para a porta do elevador, para o meu reflexo distorcido no metal, para qualquer coisa que não fosse a cara dela.
— Foi.
Ela assentiu, pequena.
— Ainda bem.
Esperei a piada. Não veio. Isso deixou-me mais exposto do que qualquer provocação.
Virei-me um pouco.
— Só isso?
Ela encolheu os ombros.
— O resto eu guardo para depois. Isto era curiosidade a sério.
As portas abriram. Eu agradeci em silêncio, porque não tinha resposta que não me denunciasse logo de manhã.
O lobby já estava acordado em modo semana da moda.
Gente a entrar e sair com credenciais ao pescoço, malas pequenas que pareciam leves mas nunca eram, cafés em copos de papel, staff a circular com tablets como se fossem extensões da mão, o bar a trabalhar cedo demais, e aquele ruído baixo de hotel em que toda a gente tenta falar a meia voz enquanto corre por dentro.
O relógio sobre a recepção marcava 08:13.
Leslie estava junto à entrada, tablet numa mão, café na outra, impecável como sempre, mas com cara de pessoa real. Não parecia uma estátua, parecia alguém que tinha dormido pouco e decidiu que isso não era problema dele. Quando nos viu, ergueu os olhos e sorriu de lado antes de falar.
— Uau. Duas pessoas pontuais e aparentemente vivas. Vou começar a acreditar em milagres.
A Adisson levou a mão ao peito, ofendida por princípio.
— Eu esforço-me tanto por esta equipa.
Aproximei-me com o meu café e dei-lhe o mínimo de cordialidade que eu tinha disponível àquela hora.
— Bom dia, Leslie.
Ele olhou para mim de alto a baixo num segundo, e o sorriso dele ficou com aquele sarcasmo que ele usa como gravata.
— Bom dia. Vejo que dormiste… algures.
A Adisson mordeu o lábio para não rir.
Eu mantive a cara neutra por pura disciplina. O truque é não reagir. Se eu reagisse, ele ganhava e eu ainda lhe dava material.
— Dormi o suficiente para trabalhar.
Leslie fez uma careta simpática, como quem aceita a resposta mas recusa a versão completa.
— Excelente. Não preciso de detalhes, só de competência. Se trouxeste as duas, melhor ainda.
A Adisson soltou uma gargalhada curta.
— Ele está fofinho hoje.
— Não me estraguem a reputação logo de manhã. — disse Leslie, já a baixar os olhos para o tablet. — Temos uma agenda para sobreviver.
Aproximei-me mais e a Adisson veio comigo. Ele começou a rever os pontos da manhã num tom prático e rápido, sem o gelo do dia anterior. Era o Leslie no modo mais perigoso, quase simpático, suficientemente humano para baixar guardas, suficientemente afiado para ninguém se atrever a falhar.
— Primeiro acesso de imprensa às nove e cinco. A organização mudou uma passagem lateral porque alguém decidiu que cinquenta pessoas cabem num corredor feito para vinte, e eu adorava conhecer essa mente brilhante.
A Adisson inclinou-se para ver o tablet, curiosa como quem escolhe a melhor forma de causar estragos sem deixar impressões digitais.
— Queres que eu fale com a PR do lado deles, ou queres preservar relações diplomáticas?
Leslie olhou para ela com um meio sorriso.
— Tu só vais falar com ela se eu precisar de um incêndio controlado.
Ela sorriu, satisfeita.
— Então estou de prevenção.
Ele continuou, como se a nossa vida fosse uma sequência de caixas para marcar.
— Adrian, preciso de ti comigo na confirmação do novo percurso e no filtro da primeira janela. Ontem fizeste um bom trabalho a cortar perguntas sem transformar ninguém em mártir da imprensa.
Eu nem consegui evitar o comentário. Saiu-me baixo, mas saiu.
— “Bom trabalho” às oito da manhã? Está grave.
Leslie arqueou uma sobrancelha.
— Não te habitues. Foi circunstancial.
A Adisson fez um som de escândalo fingido.
— Meu Deus. Ele elogiou dois membros da equipa em menos de um minuto. Isto vai chover.
Leslie apontou-lhe o café, calmo demais para quem vive de controlar caos.
— Se chover, pelo menos tu paras de dramatizar em zonas públicas.
— Nunca. — respondeu ela, com convicção religiosa.
O meu telemóvel vibrou no bolso.
Uma vez.
Fingi que não senti.
A Adisson, sem olhar para mim, murmurou como quem fala com um animal que não deve ser assustado.
— Não toques na lapela.
Lancei-lhe um olhar de lado.
— Eu não faço isso.
Leslie ergueu os olhos do tablet, divertido.
— Fa-lo mesmo?
A Adisson assentiu, muito séria.
— Como reflexo condicionado. É quase científico.
Fechei os olhos por um segundo, porque às vezes a minha equipa parece uma comissão dedicada a humilhar-me de forma criativa.
— Posso despedir-vos aos dois?
— Não. — disseram os dois ao mesmo tempo.
Leslie riu pelo nariz e voltou ao tablet.
— Vá, resolve isso antes de entrarmos no carro. Prefiro-te irritado a distraído, mas o ideal era uma versão funcional intermédia.
A frase veio leve, quase a brincar, mas era recado na mesma. Ele sabia sempre exactamente onde pôr a lâmina para não cortar a pele, só a atenção.
Assenti.
— Trinta segundos.
— Tira quarenta. — disse ele, com um gesto vago. — Ainda temos margem. Vês? Sou um patrão generoso sem sequer ser teu patrão.
A Adisson encostou-se ao balcão do bar, a beber café e a observar-me como quem está a ver uma série que prometeu drama.
— Vai lá, romântico cansado. Eu e o Leslie fingimos que somos discretos.
— Vocês são o oposto de discretos.
— Correcto. — disse Leslie, sem levantar os olhos. — Mas somos úteis. Anda.
Afastei-me dois passos, para o lado do pilar junto à entrada, e tirei o telemóvel do bolso.
Mensagem do Mathew.
Bom dia. Diz-me que sobreviveste ao teu quarto e ao teu colega de equipa sarcástico.
Fiquei a olhar para o ecrã e deixei escapar um riso curto, traidor. Claro que ele tinha acertado no Leslie. Era quase irritante como ele tinha a capacidade de me ler sem estar presente.
Escrevi.
Sobrevivi aos dois.
E o sarcástico continua funcionalmente ofensivo.
Percebo. Vamos puxar isso para um sítio mais seco, mais teu Adrian: contido, orgulhoso, irritado com a própria reacção, e o Mathew a provocar com elegância, sem virar poema.
A resposta veio pouco depois, no timing exacto de quem não está colado ao telemóvel mas também não faz de conta que não leu.
Ótimo.
Então vai trabalhar, Adrian.
E tenta não assustar ninguém com esse ar de quem dormiu pouco e pensa demais.
Fiquei a olhar para aquilo uns segundos, a fazer o inventário do meu próprio orgulho.
“Assustar ninguém.” Como se eu fosse uma lenda urbana a circular por lobbies. E “pensa demais” dito com aquela facilidade irritante, como quem comenta que eu tenho o hábito de apertar o relógio ou de alinhar as chaves no bolso. Ele dizia aquilo como se já tivesse decidido que é uma característica, não um defeito. E depois ainda tinha a lata de me mandar trabalhar, como se estivesse a pôr-me no lugar com um sorriso que eu não via mas imaginava.
O pior é que funcionava.
A minha primeira vontade foi responder qualquer coisa afiada, só para não lhe dar o gosto. A segunda foi responder logo, porque eu sou bom a negar coisas em voz alta e péssimo a negar coisas em silêncio. Fiquei ali a meio, com o polegar suspenso, irritado com a hesitação, irritado com ele, irritado com a parte de mim que achava aquilo… exactamente do tamanho certo.
Acabei por escrever, e apaguei. Escrevi outra coisa, e apaguei também. Nada soava natural. Tudo soava ou defensivo demais, ou entregue demais. E eu não ia oferecer nenhuma das duas versões às oito da manhã, encostado a um pilar, com o Leslie a existir a três metros de mim.
Guardei o telemóvel sem responder, mais por teimosia do estratégia.
E mesmo assim, quando voltei para junto deles, já vinha com aquele resto de bom humor que me apanhava sempre desprevenido, como se a mensagem me tivesse dado um empurrão mínimo nas costas e eu tivesse fingido que não senti.
A Adisson viu logo. Ela via sempre.
— Hm. Sorriso pequeno. Não foi provocação pesada.
Peguei no café outra vez, como se isso resolvesse a minha cara.
— Não. Foi pior.
Porque era exactamente o tipo de provocação que eu não conseguia desmontar sem admitir que tinha sido atingido. E ele sabia disso. Claro que sabia.
A Adisson estreitou os olhos, como se me estivesse a medir a temperatura.
— Hm. Sorriso pequeno. Não foi provocação pesada.
Voltei ao café, mais para ter qualquer coisa para fazer com as mãos do que por sede.
— Não. Foi pior.
Leslie ajustou o tablet debaixo do braço e começou a andar, já em modo “não temos tempo para conversas”.
— Perfeito. Guardem a novela para o carro e mexam-se. Milão já acordou e não espera por ninguém.
A Adisson apanhou o ritmo ao lado dele.
— “Novela” é escolha de palavras tua, não minha.
Leslie lançou-lhe um olhar curto.
— Eu reparo nas coisas. Faz parte do meu charme.
Saímos para o frio da manhã e o carro estava mesmo ali, motor ligado, porta aberta no momento certo. Tudo eficiente. Tudo a empurrar-nos para a frente, como se parar fosse um erro de etiqueta.
Sentei-me no banco de trás com eles, café na mão, e senti a agenda a acender-se na cabeça sem eu pedir. O trabalho tem esse talento. Põe-me no sítio quando eu estou a desalinhar.
O telemóvel ficou quieto no bolso. E, por algum motivo, isso não ajudou. Deixou-me demasiado consciente do facto de eu estar a pensar nele sem haver nada novo a justificar.
Ótimo.
O segundo dia começou pior e correu melhor.
Pior porque a cidade parecia ter decidido acordar antes de toda a gente só para provar um ponto. Melhor porque, depois da primeira hora, o meu corpo entrou no ritmo e a minha cabeça ficou sem espaço para inventar dramas. Ficou só o básico: o que fazer, quem travar, quando cortar.
A manhã foi uma sucessão de ajustes em cima do minuto, credenciais, percursos que mudavam sem aviso, PRs a fingirem que não estavam ofendidas e jornalistas a tentarem fazer da expressão “só uma pergunta rápida” um passe livre. Leslie estava no seu melhor. Educado, simpático até, mas com aquela ironia limpa que fazia as pessoas sorrirem enquanto ele lhes fechava portas com delicadeza.
A certa altura, um responsável da organização insistiu que “a passagem alternativa era mais dinâmica”.
Leslie sorriu, perfeito.
— Acredito. Hoje precisamos de uma passagem que funcione.
O homem assentiu como se tivesse ouvido “brilhante”.
Não tinha.
Ao meu lado, a Adisson murmurou, sem mexer os lábios.
— Eu quero esse tom para discutir com operadoras.
— Tu usavas esse tom para começar guerras.
— E ganhava-as.
Valentina, por sua vez, estava impossível no melhor sentido. Mais contida, mais afiada, sem desperdício. Quanto mais gente tentava puxá-la para ruído, mais ela se tornava exacta. Eu já estava a reconhecer o padrão. Aquilo não era frieza. Era foco.
Valentina ia à frente no ritmo dela, que não era lento nem rápido. Era o suficiente para obrigar toda a gente a acertar o passo sem parecer que estava a tentar acompanhar. Já estava vestida para o próximo ponto de imprensa e fazia um corredor banal parecer uma passadeira, mesmo quando havia araras, cabos e pessoas a atravessar.
Leslie ia meio passo adiantado à esquerda, a abrir caminho e a falar com uma PR com aquele sorriso que diz “estou a ouvir-te” e, ao mesmo tempo, “não”.
— Compreendo. — dizia ele. — E por isso mesmo mantemos o percurso.
A Adisson ia ao meu lado a rever nomes no telemóvel, mas com os olhos sempre a varrer o espaço. Ela pode fingir que está no mundo dela. Não está.
Eu estava a fazer o que faço sempre. A tentar manter-me no modo trabalho, a pôr a cabeça no sítio, a olhar para o que é concreto. Entradas. Saídas. Janela curta. Quem é que vai tentar furar. Quem é que vai fingir urgência.
Foi aí que o vi.
Mathew vinha no sentido contrário com duas pessoas da equipa dele. Credencial ao pescoço, telemóvel na mão, cara de quem está mesmo ocupado. E isso nele era irritantemente atractivo, porque ele consegue parecer no controlo sem se esforçar para parecer.
Vi-o ao mesmo tempo que ele me viu.
Não houve aquelas cenas óbvias, não houve parar, não houve sorriso grande. Houve só aquele segundo em que o olhar prende e o resto do mundo continua, o suficiente para me lembrar que ele existe no mesmo espaço que eu.
Continuei a andar. Não era opção. A Valentina estava a três passos, o Leslie estava a segurar o corredor, e eu não tenho o luxo de me desorganizar ali.
Quando as trajectórias se cruzaram, ele ajustou ligeiramente o caminho para contornar uma assistente com uma arara. Movimento limpo. Natural. E, ao passar por mim, a mão dele roçou no meu antebraço.
Foi rápido. Podia passar por acidente.
Só que eu senti exactamente onde ele quis que eu sentisse.
Ele nem olhou de frente. Baixou a voz só o suficiente para ser só meu, no segundo exacto em que ficou ao meu lado.
— Hoje pareces mais perigoso quando finges que não me viste.
E seguiu.
No segundo seguinte já estava a falar com alguém da equipa dele, como se não tivesse acabado de me largar uma frase no ouvido no meio de um corredor cheio.
O meu passo falhou meio segundo. Meio. Eu recuperei logo, mas senti o meu corpo fazer aquela coisa ridícula de reagir antes de eu decidir reagir.
À frente, Valentina parou de repente. Uma PR tentou aproximar-se pelo lado errado com um “Valentina, só trinta segundos—”.
A Valentina nem elevou o tom.
— Se precisa de me parar num corredor, então já começou mal.
A PR recuou, instantâneo.
Leslie apareceu ao lado dela no mesmo segundo, sorriso impecável.
— Podemos retomar? Obrigado.
A máquina voltou a andar.
A Adisson murmurou ao meu lado, sem olhar para mim.
— Não olhes agora, mas acabaste de levar uma frase ao ouvido e ficaste com cara de quem quer escrever um e-mail muito agressivo.
Mantive os olhos na frente.
— Foca-te na lista.
— Estou focada. Em várias coisas. — disse ela, satisfeita, como se isso fosse um serviço público.
Eu alinhei o passo, endireitei os ombros e voltei ao modo trabalho antes de chegarmos à próxima zona. Por fora, eu estava intacto. Por dentro, eu estava a tentar não repetir a frase dele como um idiota.
Chegámos à zona de imprensa e eu deixei o corredor para trás à força. O espaço estava montado com marcas no chão, painéis, luzes frias e cadeiras que existem só para fingir ordem. Fotógrafos a reposicionarem-se, jornalistas a combinarem perguntas em voz baixa, PRs a fazerem aquele ballet de auriculares e sorrisos tensos.
Valentina parou na marca sem pressa. Ela não se prepara em público. Ela chega pronta.
Uma PR aproximou-se com um tablet. Outra ajustou um detalhe de luz. Outra confirmou sequência. Tudo a acontecer à volta dela como se ela fosse o centro e o resto fosse órbita.
Leslie entrou no circuito a aparar excessos sem levantar a voz. A Adisson afastou-se meio passo para ver tudo. Eu aproximei-me para confirmar a shortlist e o percurso de saída, agarrado ao objectivo como quem agarra um corrimão.
Valentina não olhou para mim logo.
Ajustou uma pulseira com calma. Ouviu metade de uma explicação. Deixou o silêncio cair em cima da equipa, aquele silêncio dela que obriga toda a gente a reorganizar a própria postura.
Depois virou o rosto só o suficiente.
— Adrian. Preciso de um favor.
— Diz.
Ela estendeu-me o telemóvel, ecrã apagado.
— Segura.
Peguei nele e percebi logo que aquilo era menos sobre o objecto e mais sobre me colocar ao lado dela por um segundo, sem anunciar nada a ninguém.
Ela deixou passar uns segundos, a ouvir a PR como se eu não existisse. Depois perguntou, ainda a olhar em frente:
— Quem está em terceiro na janela curta?
— L’Officiel, edição francesa.
— E quem é que eu não quero a menos de dois metros hoje?
— Bellucci Digital. Tentaram desviar percurso duas vezes ontem.
Valentina estendeu a mão. Eu devolvi-lhe o telemóvel.
Quando ela me olhou, o olhar dela estava calmo, exacto, como se estivesse a confirmar se eu estava presente ou só a fingir.
— Ótimo.
Pausa curta.
— Se a jornalista de ontem tentar repetir a pergunta com outras palavras, quem responde primeiro?
— Eu corto antes dela acabar. Se insistir, o Leslie fecha a janela.
Ouvi a voz do Leslie a dois passos, sem nos dar palco.
— Finalmente alguém que sabe trabalhar em equipa.
A Adisson fez um som baixo que podia ter sido riso, mas ficou engolido.
Valentina ficou mais um segundo em silêncio e depois disse, baixo, como se fosse só um ajuste.
— Já não estás no corredor.
Assenti uma vez.
— Não.
O canto da boca dela mexeu-se quase nada.
— Eu sei.
A assistente sinalizou o arranque da janela. Valentina avançou para a marca e, num instante, era a Valentina de imprensa: postura certa, voz calibrada, olhar que manda.
Eu fiquei parado meio segundo a mais do que devia e depois entrei no circuito outra vez, porque era isso que eu fazia.
A Adisson aproximou-se pelo meu lado, sem me olhar.
— Então? Isso foi um sermão elegante ou elogio venenoso?
— Nenhum.
Ela inclinou a cabeça.
— Ou seja, os dois.
Leslie passou por nós com o tablet na mão, já a puxar o espaço para o sítio.
— Se acabaram de ter uma epifania emocional em zona de trabalho, precisamos de foco.
A Adisson levantou a mão num gesto curto.
— Sim, chefe que não é chefe.
Eu respirei fundo, deixei o ar assentar e foquei no que estava à minha frente.
A implosão começou num sítio onde, no papel, não devia haver implosão nenhuma.
Era uma janela curta. Controlada. Nomes validados, temas alinhados, tempo contado ao segundo. Daquelas coisas que só funcionam porque toda a gente finge espontaneidade dentro de regras invisíveis.
E quase funcionava.
Minutos antes, a organização tinha rebentado com um fluxo noutro ponto. Um redireccionamento mal feito, gente a empurrar para a entrada errada, uma captação comercial a tentar entrar onde não devia e, para melhorar, uma moderadora substituída à última hora.
O Leslie foi apagar o incêndio que toda a gente via, porque se ele não ia ficar sem corredor, sem entrada, sem janela, sem nada. E eu percebia isso. A diferença é que o incêndio visível dá sempre uma sensação falsa de controlo, porque enquanto estamos a olhar para ele, tudo o resto começa a mexer-se noutra direcção.
E foi aí que entraram pelo lado “arrumado”.
Valentina posicionou-se na marca como se aquele ponto no chão tivesse sido inventado para a postura dela. Impecável, sem pressa, sem aquele nervosismo que o resto das pessoas têm quando há câmaras e tempo contado. Com ela, o lugar nunca parece negociável, muito meno ocupa espaço a pedir licença. Ela simplesmente o ocupa porque é dela.
Eu estava na lateral direita, onde conseguia ver tudo o que interessa e quase nada do que fica bonito em fotografia. Microfones, alinhamento da linha, o movimento dos fotógrafos, quem está a tentar ganhar ângulo, quem está a tentar furar. O meu trabalho não era só parecer bem. Era ver primeiro.
A Adisson tinha a shortlist na mão e os olhos a fazerem scan ao ambiente como se estivesse a ler uma lista que não existe.
O Leslie ficou junto da moderadora, a alinhar tempos em andamento, a reacertar a cadência sem parecer que estava a fazê-lo. Aquela coisa dele de organizar tudo com um sorriso e, ao mesmo tempo, deixar claro que ninguém está a mandar ali.
Durante uns segundos, pareceu que o espaço tinha voltado a ser seguro.
Luz certa. Distância certa. Arco de câmaras. Fila de jornalistas com credenciais validadas. Aquele silêncio nervoso antes da primeira pergunta, quando toda a gente está à espera de quem falha primeiro.
Primeira pergunta. Limpa.
Campanha, processo criativo, território normal. A Valentina respondeu como se estivesse a ler uma versão final de um texto que ainda nem tinha saído. Nem longa demais, nem curta demais. Exacta. Ela não falava para se explicar. Falava para fechar.
Houve mais uma transição.
Segunda jornalista. Credencial válida. Nome na lista. Publicação aprovada.
Nada a acender alarmes. Nada a cheirar a armadilha. A moderadora fez o gesto, a jornalista sorriu, levantou o microfone, e eu ainda pensei, por meio segundo, que isto ia correr como devia.
E depois ela perguntou.
Clara. Demasiado clara. No tom de quem não está a perguntar para obter resposta, está a perguntar para ver o que rebenta.
— A Valentina Moreau veio sem o marido. É por causa dos rumores de traição? E ele vai continuar a manter-se como um dos accionistas da Velvet?
O ar não parou.
Mas mudou.
Foi quase físico. Um micro-gelo no espaço. Aquele instante em que até as pessoas mais treinadas ficam com a respiração suspensa porque o corpo percebeu primeiro.
As câmaras dispararam logo, como se tivessem ouvido um sino. Clique atrás de clique, rápido e agressivo. Alguém da organização deixou escapar um som. A moderadora ficou com o microfone a meio caminho da boca, como se o corpo dela tivesse tentado engolir a pergunta e já fosse tarde.
A Adisson ficou imóvel ao meu lado por meio segundo.
E eu senti esse meio segundo como um aviso.
Porque aquilo não era só vida pessoal.
Aquilo era vida pessoal colada a governação. A accionistas. À Velvet. Ao tipo de palavra que, se fica mal colocada, vira título e não volta atrás.
Eu vi o Leslie mexer-se logo, mas ele estava fora de ângulo e com a moderadora entre ele e a linha. A pergunta já estava no ar. Já tinha sido ouvida. Já existia. Não dava para apagar.
Só dava para limitar danos.
Dei um passo em frente., só o suficiente para me colocar na linha de corte. Falei para a moderadora e para a linha, não para a jornalista. A minha voz saiu firme porque eu precisava que saísse firme. Naquele instante eu não tinha tempo para hesitar, nem para ficar preocupado com o quão “simpático” eu ia parecer no vídeo.
— Pergunta fora do alinhamento. Sem temas pessoais nem especulação societária nesta janela. Próxima.
A jornalista virou-se para mim de imediato, rápida, afiada, como quem quer puxar a cena para um duelo, porque um duelo dá-lhe um clip melhor.
— É uma pergunta legítima de negócio, se ele é accionista—
— Não nesta janela. — cortei, no mesmo tom. — Próxima.
Ela subiu a voz um grau, só o suficiente para ficar filmável sem parecer histérica.
— Então ela recusa responder?
A armadilha estava ali, simples e perfeita.
Se eu respondia, prolongava e virava debate. Se ninguém respondia, o silêncio ficava com etiqueta de culpa.
Valentina resolveu antes de eu escolher.
Virou o rosto para a jornalista com uma lentidão controlada, sem alterar a postura ou subir o tom. Nela, até o virar da cabeça parece uma decisão tomada com antecedência.
— Eu não respondo a especulação mascarada de jornalismo. — fez uma pausa curta. — E assuntos de governação não se discutem em corredores para alimentar manchetes fáceis.
As câmaras dispararam ainda mais.
Frase excelente.
Frase perigosíssima.
Perfeita para ser cortada, isolada, mastigada.
Eu entrei por cima da reverberação no segundo a seguir, antes que a jornalista conseguisse pôr um “só para clarificar” no ar, antes que o ambiente percebesse que podia respirar e transformar aquilo numa conversa.
— Pergunta encerrada. Próxima da lista, agora. — disse, olhando directamente para a moderadora.
A Adisson entrou no mesmo instante, seca, sem dar espaço para teatro.
— Próxima aprovada. Agora. — e apontou logo para a jornalista seguinte, dizendo o nome em voz clara, como quem puxa uma corda e fecha a porta.
A jornalista do boato ainda tentou, porque claro que tentou.
— Só para clarificar—
O Leslie chegou à linha nesse exacto segundo e cortou com aquele tom afável dele que parece educação e funciona como guilhotina.
— Clarifica com comunicação corporativa, não emboscando a figura principal a meio de um ponto de imprensa. Obrigado.
E foi uma escolha de palavras inteligente, porque mudou o eixo.
Não era “mulher apanhada num escândalo”, mas sobre a “figura principal” numa janela com regras.
A jornalista fechou a boca por cálculo, não por respeito.
A terceira pergunta entrou. Moda. Campanha. Processo criativo.
A janela retomou. A moderadora recuperou o ritmo. As respostas voltaram ao território seguro. Por fora, parecia que tínhamos controlado.
Só que o dano já existia.
Assim que a transição acabou, o caos mudou de forma.
Já não era caos de corredor. Era caos de contenção.
A moderadora estava branca, a piscar depressa demais, enquanto a PR principal a pedir desculpa sem conseguir respirar direito. Alguém da organização a jurar que “isso não estava sinalizado”, como se dizer isso apagasse a pergunta que já estava em vídeo. A Adisson já no telemóvel, a ver se o corte tinha começado a circular. O Leslie a pedir nomes, validações e a origem exacta da substituição da moderadora com uma calma que, nele, só aparece quando está a ficar perigoso.
E a Valentina a andar.
No mesmo ritmo de sempre.
Sem pressa. Sem olhar para trás. Como se a pergunta tivesse sido só um mosquito que ela tinha esmagado sem mexer o batom.
Eu segui ao lado dela pelo corredor lateral. O meu corpo estava em modo trabalho e a minha cabeça já estava a calcular quantas versões daquela pergunta estavam a ser escritas em tempo real. Senti o telemóvel vibrar no bolso como se o mundo inteiro estivesse a tentar entrar ali. Tive vontade de olhar. Não olhei.
Ela não falou.
Eu também não.
Só quando virámos para uma zona de bastidor mais fechada, longe de câmaras, com menos gente e mais silêncio, é que ela parou.
Não fez cena, nem levantou a voz apenas só se virou. Primeiro para mim, depois para a Adisson, que chegou logo a seguir e, por fim para o Leslie, que vinha com a PR principal atrás e já com a cara de quem sabia exactamente o tamanho do estrago.
Valentina olhou para a PR da organização como se ela fosse ruído visual.
— Preciso de cinco minutos. Sem ninguém.
A mulher desapareceu quase imediatamente, com aquela obediência rápida que não é respeito, é instinto.
Ficámos os quatro.
O silêncio ali não era desconfortável. Era profissional. Arrumado. Um silêncio que existe porque toda a gente ali já viu coisas piores e sabe que o primeiro a falar sem pensar perde.
Valentina olhou para o Leslie.
— Como é que essa pergunta entra? — perguntou, baixa.
O Leslie não se escondeu.
Nem tentou fazer daquilo uma história bonita.
— Mudaram a moderadora à última hora. Eu fui puxado para o colapso de fluxo na outra zona e não consegui fazer a confirmação final das perguntas sinalizadas antes da janela abrir. Quando voltei, já estávamos a retomar a linha.
Valentina ficou a olhar para ele como se ele tivesse acabado de lhe mostrar um relatório com uma linha a vermelho.
— Ou seja, entrou porque não foi confirmada.
O Leslie assentiu.
— Sim.
A Adisson mudou o peso de uma perna para a outra. Eu fiquei quieto. Não por calma, por contenção. Às vezes o corpo quer mexer-se só para provar que está vivo e eu não queria dar esse espectáculo ali.
Valentina deu meio passo na direcção do Leslie. Foi pequeno, mas eu senti a sala inteira ajustar-se a esse movimento.
— Não te trouxe para seres incompetente.
A frase saiu baixa e limpa. Sem intenção de ferir por entretenimento. Só para deixar claro que o erro tinha nome, e que ela não ia fingir que não.
O Leslie engoliu aquilo sem pestanejar. A cara ficou igual, mas a mandíbula apertou um milímetro.
— Eu sei.
Valentina continuou, na mesma calma.
— Eu não preciso que controles o impossível. Preciso que protejas o essencial quando o resto falha. Hoje, o essencial foi exposto numa janela que devia estar fechada.
O Leslie respirou uma vez, curto, e respondeu sem se esconder atrás de desculpas.
— Tens razão. Eu fui atrás do incêndio visível e deixei vulnerável o ponto errado.
Silêncio.
Valentina ficou mais um segundo a olhar para ele, como se estivesse a escolher se aquilo era suficiente para seguir em frente. Depois virou-se para mim e para a Adisson.
— E vocês limitaram danos.
Olhou para a Adisson.
— Quero monitorização do corte, origem da publicação e velocidade de replicação. Agora.
— Já estou nisso. — disse a Adisson, já a mexer no telemóvel.
Valentina olhou para mim.
— A partir do próximo ponto, nenhuma pergunta entra sem dupla confirmação tua e do Leslie. Se ele sair da linha, assumes tu.
— Sim.
Ela voltou ao Leslie.
— Compõe isto. E não me obrigues a voltar a ter esta conversa.
Virou-se e foi-se embora.
Os saltos dela ficaram a bater no corredor por uns segundos e depois nada, como se alguém tivesse fechado uma porta que não fazia barulho, mas mudava o ar.
A Adisson foi a primeira a mexer-se a sério.
— Vou atrás do clip e das contas que pegaram primeiro.
Passou por nós e, antes de seguir, tocou de leve no braço do Leslie, só um segundo.
— Não foi contigo. Foi em ti. Há diferença.
E foi-se.
Ficámos eu e o Leslie.
Ele soltou o ar pelo nariz e passou a mão pela nuca, um gesto raro nele, quase como se tivesse esquecido que estava a ser observado.
— Bem. — murmurou. — Manhã óptima para a minha autoestima.
Olhei para ele de lado.
— Tu não foste incompetente.
Ele sorriu sem humor.
— A pergunta entrou.
— Eu sei. — disse. — Mas se ficares agarrado à palavra dela, vais tentar compensar e vais abrir outra falha.
Ele olhou para mim, finalmente.
— Isso foi um sermão?
— Foi eu a impedir-te de te desorganizares. — respondi.
O canto da boca dele mexeu-se.
— Obrigado, então.
Ele endireitou o casaco, devagar, e voltou a pôr a cara no sítio.
— Vamos compor isto.
— Vamos.
O ponto seguinte era numa zona mais aberta, mais bonita, mais gente. O tipo de lugar onde uma coisa pequena ganha velocidade sem pedir licença.
A Adisson encostou-se a mim por um instante, telemóvel na mão.
— Já está a circular em três contas. Ainda pequeno, mas a subir. Cliparam a pergunta e a resposta dela. Comentários a puxar para escândalo e negócio ao mesmo tempo.
Assenti.
O Leslie estava ao telemóvel com comunicação corporativa, a passar frases curtas, quase sem respirar. Ao mesmo tempo, falava com a nova moderadora e repetia a ordem de perguntas com aquele tom educado dele que não deixa espaço para invenções.
Valentina chegou à marca e esperou.
Não pediu para ver nada. Não perguntou nada. Só ficou ali.
E eu vi logo que ela estava diferente. Mais fechada. Não de má disposição. Fechada como alguém que decide não dar um milímetro extra.
Primeira pergunta, segura. Ela respondeu curta, limpa.
Segunda, ainda mais segura. Resposta ainda mais curta.
A terceira jornalista tentou uma coisa ampla, daquelas que parecem inocentes mas deixam a porta aberta.
— A sua presença esta semana tem sido muito observada. Como lida com a pressão pública quando há tanto ruído à volta?
Vi telemóveis a subirem. Vi a moderadora prender o ar. Vi o Leslie pronto para cortar.
Valentina não precisou.
— Eu não trabalho para gerir ruído. Trabalho para entregar resultado. O resto é entretenimento para quem tem tempo.
As câmaras dispararam. Não com fome de escândalo. Com fome de citação.
A jornalista abriu a boca para seguir.
Valentina continuou antes disso virar conversa.
— Se alguém confunde especulação com relevância, isso diz mais sobre o mercado da atenção do que sobre mim.
Dois segundos de silêncio e depois flashes outra vez.
A linha mudou ali. Deixou de tentar puxar sangue. Passou a tentar apanhar frases.
Ao meu lado, a Adisson murmurou:
— Pronto. Já está.
— Continua a monitorizar. — respondi, sem a olhar.
— Estou a monitorizar enquanto tento não gostar disto.
A janela seguiu sem mais desvios. Ninguém arriscou outra.
Na transição, Valentina passou por nós no mesmo ritmo de sempre.
Ao cruzar-se com o Leslie, disse baixo:
— Melhor.
Ele assentiu.
— A linha está fechada.
Ela passou por mim e deixou uma palavra.
— Mantém.
— Sim.
A Adisson juntou-se a nós a seguir e soltou o ar.
— Eu juro que por um segundo achei que ela ia responder com um nome, uma data e um funeral.
O Leslie, já a escrever uma mensagem, deixou sair o sarcasmo dele.
— Isso é no terceiro dia. Hoje ela está só pedagógica.
Eu olhei para ele.
— Já voltaste?
Ele nem olhou para mim.
— Não. Mas finjo melhor do que a maioria.
E seguimos, porque era isso que havia para fazer.
Quando entrei no quarto, já era aquela hora em que o corpo parece emprestado, sim. Mas não era só cansaço. Era aquela sensação de ter passado o dia a segurar coisas com a cara e agora, finalmente, estar num sítio onde ninguém me estava a filmar.
A luz estava baixa. A televisão ligada sem som, a passar imagens que ninguém estava a ver. Do outro lado da janela, Milão brilhava como se fosse um postal que não sabe o que é um dia mau. As luzes, os carros, as vitrinas, tudo no seu ritmo bonito e indiferente. Isso irrita-me sempre. Não porque a cidade tenha culpa, mas porque o meu cérebro é assim: se eu estou em guerra por dentro, quero que o mundo, pelo menos, tenha a decência de parecer cansado.
A Adisson estava sentada na cama dela, ainda vestida, com os sapatos já no chão. Cabelo preso de qualquer maneira, portátil aberto, telemóvel numa mão. Ela não estava no modo normal dela. Não havia aquela energia de “eu gozo contigo e seguimos”. Havia foco. E havia uma coisa que eu via pouco nela, o tipo de preocupação que não se disfarça com piadas.
Ela levantou os olhos quando me ouviu entrar.
— Já falaste com o Leslie?
Tirei o crachá e larguei-o em cima da mesa como se aquilo pesasse mais do que plástico. O casaco veio a seguir, devagar. Não por estilo. Porque o corpo já não obedecia com rapidez.
— Não. Depois daquele último ponto ele ficou com comunicação e com a equipa da Valentina.
A Adisson assentiu, mas não relaxou. Nem um centímetro. Voltou os olhos para o portátil e mordeu o interior da bochecha, um gesto raro nela, porque a Adisson normalmente mastiga o mundo com humor, não com nervos.
Fechei a porta e fiquei encostado um segundo, só a vê-la. Às vezes eu preciso de observar antes de falar, como se isso me desse o tom certo.
— O que foi?
Ela soltou um ar curto pelo nariz, quase um riso falhado.
— Eu odeio quando ele fica assim.
Aquilo apanhou-me. Não pela frase, mas pelo jeito como saiu. Sem graça, sem armadura.
Aproximei-me e parei a meio do quarto, a distância exacta em que não parecia que eu estava a invadir a cama dela, mas também não parecia que eu estava a fugir.
— Assim como?
A Adisson fechou o portátil sem o fechar totalmente, só a baixar a tampa como se precisasse de um intervalo entre ela e o ecrã para conseguir falar.
— Quieto. Mais polido do que o normal. Mais eficiente do que o normal. Aquela versão dele em que parece que está tudo controlado e, precisamente por isso, dá para perceber que ele está a levar pancada por dentro.
Sentei-me na beira da minha cama ainda com os sapatos. Nem me ocorreu tirá-los. O colchão cedeu e o som do tecido no silêncio pareceu exagerado, como se o quarto estivesse a amplificar tudo só para gozar comigo.
Fiquei a olhar para o chão um segundo.
— A Valentina foi dura.
A Adisson soltou uma risada sem humor.
— Dura é uma palavra simpática.
Houve um silêncio curto, daqueles em que ninguém sabe bem onde pousar as mãos.
Depois ela olhou para mim de lado, voz mais baixa, como se estivesse a dizer uma coisa que não queria admitir nem para ela.
— E o pior é que eu nem acho que ela estivesse errada no resultado.
Assenti.
— Mas também não foi incompetência.
— Eu sei. — respondeu logo, quase irritada por eu ter sequer posto a frase no ar. — Foi sobrecarga. Foi organização a falhar. Foi timing. Foi um buraco aberto em três sítios ao mesmo tempo.
Fez uma pausa, engoliu qualquer coisa, e depois veio a frase que estraga sempre a conversa porque é impossível discutir.
— Só que a pergunta entrou na mesma.
Aquilo ficou ali, pesado e factual, como um objecto em cima de uma mesa. Não se empurra para o lado. Só se contorna.
Passei a mão pela cara.
— Entrou.
A Adisson desbloqueou o telemóvel, mas não me mostrou logo. Ficou só a rodá-lo na mão, como se o gesto a ajudasse a alinhar pensamento.
— E nós contivemos. A sério. Contivemos mesmo. Tu foste rápido, o Leslie entrou bem, ela virou a narrativa no ponto seguinte, isso tudo é verdade.
Olhou finalmente para mim, e eu vi ali aquela parte dela que não dramatiza, só diz.
— Mas as manchetes vão sair na mesma, Adrian.
A forma como ela disse manchetes não foi teatral. Foi cansada. Experiente. Como quem já viu a máquina a arrancar vezes suficientes para não se iludir com “mas nós fizemos tudo certo”.
— Eu sei. — murmurei.
Ela abanou a cabeça, frustrada, e eu percebi que não era frustração comigo. Era com a sensação de impotência.
— Não, tu sabes racionalmente. Eu também. Mas uma coisa é saber. Outra é ver a máquina a mexer e perceber que já não estamos a disputar o que aconteceu. Estamos a disputar o título que alguém vai escolher.
Abriu o telemóvel e estendeu-mo.
No ecrã já havia três publicações. Ainda pequenas, ainda no início, mas vivas. Cortes de vídeo, frames da Valentina, a pergunta transcrita fora de contexto em duas, e a resposta em destaque na terceira como se fossem eventos diferentes. Era sempre assim. O mesmo minuto vira três versões, e cada uma chama-se “a verdade”.
Senti o estômago apertar, aquele aperto irritante que vem antes de eu ficar frio.
A Adisson tirou o telemóvel da minha mão.
— Amanhã vai haver uma versão escândalo. Vai haver uma versão crise na Velvet. E vai haver uma versão Valentina arrasa jornalista.
Fez uma careta.
— E todas vão circular ao mesmo tempo, como se fossem compatíveis.
Deixei escapar um riso curto, sem humor.
— Isso é deprimente.
— É trabalho. — corrigiu ela por reflexo. Depois revirou os olhos. — Não, hoje é deprimente mesmo.
Ficámos em silêncio um bocado. A televisão sem som a fazer de fundo, ainda mais irónica do que útil.
Ela foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Eu estou preocupada com o Leslie.
Olhei para ela. Desta vez ela não se escondeu atrás de piadas.
— Porque ele vai fazer aquilo que faz sempre. Vai tentar compensar amanhã e depois e no dia seguinte. Vai ficar ainda mais atento, ainda mais rápido, ainda mais em cima de tudo até alguém lhe dizer para dormir ou até o corpo decidir por ele.
Eu vi-o, de repente, como se estivesse outra vez no corredor. A mão na nuca. O sarcasmo cansado. O gesto de endireitar o casaco como se o tecido pudesse segurar a dignidade.
— Ele aguenta muito. — disse eu.
Saiu-me como defesa automática, mas soou vazio no fim.
A Adisson deu-me um olhar cansado.
— Exactamente. Esse é o problema.
Pousei os cotovelos nos joelhos e fiquei a olhar para as mãos. Os dedos ainda tinham aquela tensão de dia inteiro, como se eu não tivesse desligado.
— Achas que ela vai voltar a falar com ele sobre isto?
— Vai. — respondeu logo. — Nem que não seja com palavras. A Valentina não precisa de repetir uma frase para ela continuar na sala.
Fez uma pausa.
— E ele sabe.
O quarto ficou muito quieto depois disso. Lá fora a cidade continuava a brilhar, e aqui dentro o dia finalmente começava a cair em cima do corpo com o peso real.
A Adisson puxou o elástico do cabelo e deixou-o cair sobre o portátil, como se estivesse a desistir de ser apresentável para alguém que já não existia ali.
— Eu sei que ele escolheu isto. Sei mesmo. Ele é excelente precisamente porque aguenta este ambiente. Mas às vezes esqueço-me de que excelente também é uma maneira elegante de dizer constantemente no limite.
Levantei os olhos para ela.
— Devias dizer-lhe isso.
Ela soltou uma gargalhada curta.
— E ouvir o quê? “Obrigado, Adisson, agora volta para a shortlist e não dramatizes”?
Apesar de tudo, sorri. Não foi grande. Foi só um reflexo.
— Soa a ele.
— Pois soa. — murmurou. E o sorriso dela caiu depressa. — Mas eu acho que hoje ele ouviu aquilo da Valentina e guardou numa gaveta errada.
Endireitei-me um pouco.
— Que gaveta?
A Adisson olhou para mim como quem decide se me dá a versão leve ou a versão real. Escolheu a real.
— A gaveta onde ele transforma resultado em identidade. Não foi “falhou um ponto”. Foi “eu falhei”. E isso, nele, é perigoso.
Fiquei quieto, porque era exactamente o que eu tinha sentido quando ele disse que não interessava como se chamava. A forma como ele disse aquilo tinha aquele sabor de sentença.
Expirei devagar.
— Sim.
Ela observou-me um segundo e estreitou os olhos.
— Tu percebeste isso.
— Percebi.
— Falaste com ele?
Assenti.
— Um bocado. Nada profundo. Só o suficiente para ele não ficar a mastigar a palavra incompetente como se fosse diagnóstico final.
Ela ficou a olhar para mim e, pela primeira vez naquela conversa, sorriu de verdade. Pequeno. Cansado. Mas verdadeiro.
— Boa. Isso ajuda.
Desviei o olhar, desconfortável, porque elogio à noite parece sempre mais íntimo do que devia.
— Vamos ver.
A Adisson encostou-se à cabeceira e puxou o portátil para o colo outra vez.
— Vou continuar a monitorizar mais um bocado antes de dormir. Só para perceber o tom das primeiras contas e mandar ao Leslie um resumo para ele não ter de pedir.
— Ele vai dizer-te para dormires.
— Eu sei. E eu vou ignorá-lo com carinho.
Sorri sem querer e depois fiquei sério outra vez.
— Achas que amanhã vai estar pior?
A Adisson fez aquela expressão honesta que eu gosto e odeio, porque não me poupa.
— Em volume, sim. Em controlo, depende de como entrarmos. Se a Valentina fizer o que fez hoje no último ponto, há hipótese de a narrativa dividir.
Pausa.
— Mas o primeiro título da manhã vai doer, seja qual for.
Ela voltou ao portátil, dedos prontos, já outra vez em modo trabalho, como se o cansaço fosse só uma pausa técnica.
Eu fiquei preso noutra palavra:
Rumores.
Fiquei a observá-la um segundo, a forma como ela mergulhava de volta no ecrã, e senti aquela hesitação ridícula, porque a pergunta era intrusiva e eu sabia disso. Mesmo assim, saiu.
— Adisson.
— Hm? — respondeu sem olhar.
Engoli em seco.
— Tu achas que… o rumor é verdade?
Ela parou. Não dramaticamente. Só aquele micro-silêncio de quem percebe exactamente o que está a ser pedido e escolhe como responder.
Levantou os olhos devagar.
— O da traição?
Assenti.
Ela encostou-se à cabeceira e soltou o ar pelo nariz.
— O Leslie já sabia dessa história.
Franzi a testa.
— Como assim?
— Como estou a dizer, isto não nasceu hoje por causa daquela jornalista. — ela suspirou frustada — Isto já andava a circular em certos círculos há algum tempo.
Fiquei a olhar para ela, apanhado.
— Eu nunca ouvi nada disso.
A sobrancelha dela subiu, e o canto da boca mexeu-se sem humor.
— Exactamente.
Inclinei-me um pouco para a frente.
— Exatamente oquê?
Ela fechou o portátil de vez, desta vez mesmo, como quem percebeu que a conversa já não dá para ser em paralelo.
— Quero dizer que, se tu nunca ouviste, foi porque alguém fez um bom trabalho a manter isso fora do teu alcance. E quando digo alguém, digo principalmente o Leslie.
Aquilo ez sentido depressa demais.
— O que é que se dizia? — perguntei, mais baixo.
A Adisson fez uma cara de quem detesta repetir lixo, mas já abriu a porta e agora é tarde.
— Supostamente o marido dela esteve envolvido com uma accionista. Dormiu com uma accionista, para ser directa, que é a versão que anda a circular.
Senti o estômago apertar num reflexo quase físico.
— E isso é verdade?
A Adisson encolheu os ombros, cansada.
— Se é verdade ou não, só os Moreau sabem. O resto é rumores e gente a fazer dinheiro com proximidade à desgraça.
Fiquei quieto e ela continuou, mais baixa.
— Mas uma coisa é o rumor existir. Outra é alguém se sentir confortável para o atirar numa janela pública com a Velvet ao barulho. Isso não acontece do nada.
Olhei para ela.
— E tu achas que há material.
Ela sustentou o meu olhar um segundo.
Demorou a responder, o que nela já era resposta.
— Pela reação da Valentina com o Leslie… acho que sim.
A frase caiu pesada.
Olhei para a janela, para as luzes, e tentei encaixar tudo sem deixar a cabeça fugir para teorias.
— Ela não negou. — murmurei.
A Adisson assentiu devagar.
— Reenquadrou. Pode ser estratégia. Pode ser o máximo que ela se permite dizer sem abrir uma fissura em público.
Fiquei em silêncio.
Ela estudou-me um instante e acrescentou, com cuidado:
— Não uses isto como verdade, mas também não uses como mentira. Não feches a história aqui. Só não a abras no corredor.
Assenti.
— Eu sei.
Ela fitou-me dois segundos, como quem confirma se eu sei mesmo.
Depois abriu o portátil outra vez.
— Ótimo. Então agora vai tomar banho antes que eu te ponha também em monitorização de crise.
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