Dolce & Desastre
3 Dolce & Paleta
Entrei na sala com o coração a bater um pouco mais depressa do que eu queria admitir.
O departamento de design era maior do que eu esperava, mas não havia ali um centímetro que parecesse acidental. Mesas com amostras de tecido, moodboards nas paredes, ecrãs com ficheiros abertos, cadernos de esboço empilhados como se a criatividade também tivesse de obedecer a um sistema de arquivo. O cheiro a café recém-tirado misturava-se com o aroma de tecido novo — um conforto estranho, quase doméstico, a coexistir com a tensão que me apertava o estômago.
Senti alguns olhares a pousarem em mim, rápidos e avaliadores, mas obriguei-me a olhar em frente. Acompanhei os passos exactos do Leslie como quem segue uma linha pintada no chão: se me desviasse, caía.
— Vamos, Adrián. — disse ele, baixo, quase conspiratório. — Antes de tocar em seja o que for, preciso que entenda como isto funciona.
Começou a andar com uma calma estudada, guiando-me pelos corredores internos, passando por secretárias e designers concentrados sem nunca olhar para trás — como se eu tivesse de provar que era capaz de o seguir sem me perder.
— Aqui é o sector de ilustração conceptual. — apontou para uma fileira de mesas com tablets, folhas cheias de traço e cafés esquecidos. — É onde as ideias viram imagem. Cada colecção tem de existir primeiro no papel antes de merecer um clique de câmara. E, a partir de hoje, é o senhor que vai transformar notas vagas em cenários completos. Capturar a intenção antes de o mundo a ver.
Eu pisquei, apanhado entre “isto é uma oportunidade” e “isto é um acidente”.
— Espere… eu vou?
— Docinho… — ele suspirou, parando pela primeira vez para me oferecer a totalidade do olhar. — Vou ter de lhe explicar tudo lentamente?
A minha boca abriu, mas ele continuou, seco:
— Se for de compreensão lenta, avise-me já, para eu pedir transferência. Não colecciono inúteis no meu departamento.
— Desculpe. É só… muita informação. Eu nunca trabalhei num sítio assim.
— Claramente. — rodou sobre os calcanhares e fez-me sinal com a mão. — Vamos. Ande, meu caro. Vou ter imenso trabalho consigo.
Parou diante de uma zona com cabides, tecidos e peças cuidadosamente organizadas.
— Vestiário e coordenação de produção.
Fez-me sinal para o seguir, e assim que entrei senti como se tivesse atravessado a porta de uma loja de alto padrão… mas com a energia pulsante de um armazém disciplinado. Araras alinhadas em filas perfeitas, etiquetas escritas à mão com uma caligrafia que parecia uma ameaça elegante, caixas abertas com acessórios, protótipos pendurados como se fossem relíquias. Havia potencial para caos em todo o lado — e, no entanto, nada estava fora do sítio. O espaço cheirava a tecido caro e a pressa bem controlada.
— Octavia? — chamou o Leslie, num tom que não era pedido nem ordem. Era uma constatação de que ela existia.
Ao fundo, uma mulher nos quarenta, traços asiáticos marcados, olhos profundos com sombra escura e batom vermelho impecável, levantou a cabeça. O cabelo era negro como petróleo, com mechas cor de vinho, espetadas com intenção.
— Deixa-me adivinhar… — suspirou, tirando a fita métrica do pescoço. — A Valentina quer outro casaco da colecção de Outono de 2016.
— 2018. — corrigiu ele, como quem corrige um erro ortográfico num título de capa. — E, Octavia… esta criatura deslumbrante — fez um gesto vago para mim, com uma crueldade quase carinhosa — ainda que sem qualquer refinamento de guarda-roupa, é o Adrián. Vai trabalhar no meu sector.
Ela mediu-me com um olhar rápido, clínico. Depois sorriu — divertido, não simpático.
— O substituto do Rick?
— As notícias correm depressa.
— Na Velvet correm sempre. — ela voltou à sua peça como se eu já tivesse sido arquivado. — Já toda a gente sabe. Ele foi escoltado para fora depois do RH. Drama para dar e vender.
— Não confudemos humilhação com dramatismo — Leslie suspirou, performativo, e voltou-se para mim. — É ela que garante que cada peça esteja pronta, apresentada e alinhada com a estética que queremos vender. A Octavia mantém ordem onde há caos. Se quiser aprender organização e estilo ao mesmo tempo, observe-a.
— Entendido.
Octavia já se afastava.
— E, Leslie, diga ao Noah para me devolver o casaco da Dior até amanhã. Se não devolver, fica banido do meu sector.
— Entendido, minha querida.
Leslie estalou os dedos para mim.
— Vamos. Ainda não é meio-dia e eu quero despachar esta visita guiada antes do almoço.
Seguimos para uma área com computadores, ecrãs enormes e pastas abertas como se o departamento respirasse em janelas e tabs.
— Aqui estão os designers gráficos e editores. Aquele é o Noah.- O seu dedo apontou para um rapaz alto, franzino e absurdamente bem vestido.
Leslie chamou-o pelo nome. Noah levantou os olhos do portátil e avaliou-me com frieza. Aquela frieza de quem não desperdiça atenção com coisas temporárias.
— Eles pegam nas ideias e nos esboços e transformam em algo publicável. Vai trabalhar perto deles. Não espere amizade imediata. Competição e colaboração andam de mãos dadas aqui. Se eles errarem, nós pagamos. E eu não quero a Valentina a ameaçar-me com despedimento.
— Alguma vez aconteceu?
Leslie olhou-me como se eu tivesse acabado de perguntar se alguém alguma vez sangrou num hospital.
— Não. — disse. — Portanto, docinho, não seja a estreia.
Fez uma pausa, cruzou os braços, e falou com aquela paciência de quem já me tinha gasto demasiado tempo.
— E, finalmente: coordenação de fotografia e cenários. É onde tudo o que foi pensado se transforma em imagem. A sua função é observar, esboçar, sugerir ângulos, luz, proporção. — Ele rodou nos póprios três -Antes de qualquer peça ser tocada por uma câmara, darás forma ao conceito.
Virou-se de lado, a medir-me como um artista a testar a resistência de uma tinta.
— Entendeu, Adrián? Cenários. Ilustração conceptual. Produção. Gráfico. Fotografia. Vai ser a ponte entre todos. Não desenha roupa — faz as ideias respirarem antes de existirem. Se fizer bem… torna-se indispensável antes de dar por isso. Se fizer mal… acaba como o Rick, a empacotar a vida antes da semana começar.
Fiquei em silêncio, a absorver. Ele não estava só a explicar funções. Estava a mostrar o ritmo. A lógica. A tensão. Como se cada palavra fosse um teste.
Depois, finalmente, sorriu — leve.
— Agora, vamos à cafetaria. Preciso de café.
— Mas…
— De novo? — ele suspirou. — Não me obrigue a repetir tudo. Estou ocupadíssimo com a edição de Primavera.
Fez um gesto engraçado com os dedos, como se meditasse por meio segundo.
— Força — resmungou — Qual é a dúvida?
— Onde é que eu vou trabalhar?
O olhar dele suavizou-se um pouco, uma coisa que notei ser rara.
— Ah. Falha minha. Culpe a falta de cafeína.
Conduziu-me de volta ao sector de ilustração e parou junto a uma secretária branca, completamente vazia. Abriu gavetas, revirou os olhos.
— Sinceramente… nem para levar os pertences todos serviu.
Fez sinal a uma rapariga na secretária em frente. Rabo-de-cavalo impecável, postura de quem nasceu sentada direita. Ela levantou-se com elegância.
— Leslie?
— Minha querida, posso saber porque é que o Rick não limpou isto antes de ir?
Ela mascava pastilha. Riu-se com ironia.
— Pergunte ao segurança que o pôs na rua antes de ele subir ao andar.
— Verdade. — Leslie sorriu para si mesmo. — Brindou-nos com um monólogo ao som de All About Eve. Trágico, não é?
Depois, como se eu não estivesse ali a existir com os meus nervos apenas acenou novamente:
— Enfim. Peça à Michelle para mandar isto para o lixo.
Eu abri a boca, quase por instinto:
— Mas não devia ir para ele?
Leslie olhou-me com uma paciência cruel.
— Meu caro tenho cara de transportadora?
E, sem me dar tempo para recuperar:
— Zap-zap. Cafetaria. Assim conta-me os dramas da sua vida enquanto eu finjo, com delicadeza, que quero ouvir.
A cafetaria ficava no décimo andar. Moderna, minimalista, quase fria na aparência, mas com uma energia constante que fazia cada movimento parecer parte de uma coreografia invisível. Luz natural a entrar por janelas enormes, mesas pequenas ocupadas por assistentes com portáteis abertos, gente a falar em sussurros como se a produtividade também tivesse regras de etiqueta.
O cheiro a café misturava-se com notas de chocolate e pão fresco. Reconfortante, sim mas também era um lembrete insistente: aqui, até o conforto era funcional.
Eu olhei à volta e senti-me deslocado. Toda a gente parecia ter saído de uma revista. Cortes de cabelo, postura, roupa, tudo calculado, tudo coerente. E eu, ali, a parecer um acidente simpático num cenário meticulosamente composto.
Leslie pegou na chávena que lhe serviram e, com um gole, tornou-se uma pessoa três por cento mais tolerável.
— Então… — disse, pousando a chávena. — Conte-me sobre esse seu relacionamento fascinante.
— A sério? — eu estranhei. — Pensei que não queria ouvir.
— Adrián, como membro activo da comunidade queer, adoro romances que contradigam o cenário político em que vivemos. — limpou as mãos num guardanapo. — Há quanto tempo estão juntos?
— Cinco anos. Fazemos seis daqui daqui a uns meses.
— Que romântico. — disse, concentrando-se no café, como se a frase tivesse saído por obrigação. — E ele é de Gestão, correcto?
— Sim.
— Bem, ao menos não será o parceiro que o vai sustentar. — tirou um caderninho da lapela e escreveu qualquer coisa, sem me dizer o quê. — O que é que ele achou deste novo emprego?
— Ainda nem lhe contei que fiquei com a vaga. Ele deve estar roído para saber como foi a entrevista. — levei o café aos lábios. Este, pelo menos, era decente. — Mas… ele não estava muito contente.
— Porquê?
— O Allan acha que eu não encaixo aqui. E queria que eu fosse trabalhar para o pai dele.
Leslie soltou um suspiro teatral.
— Meninos do papá. A sociedade tem uma insistência triste em repetir-se.
— É confortável. Ele tem regalias…
— Regalias são comuns no nepotismo, Adrián. — olhou-me de lado. — Pelo menos você tentou por conta própria.
Eu ia começar a falar da insegurança, mas ele ergueu ligeiramente a mão.
— Poupe-me ao discurso de falta de confiança. Se continuar por aí, só está a provar aquilo que a Valentina e toda a gente espera.
— Que eu falhe?
— Exactamente. — deu de ombros. — Nesta revista há duas opções: falhanço ou sucesso. Você escolhe o que quer.
— E você acha que eu consigo?
— De maneira nenhuma. — sorriu, luminoso, cruel. — Não leve a mal: você é um falhanço à espera de acontecer. Tudo em si grita “erro”.
Senti o golpe, mas ele estalou os dedos diante de mim, como se me quisesse acordar.
— O que foi? Estava à espera de ternura? — inclinou-se ligeiramente. — Acorda, docinho. Tu nãos estás aqui porque acreditam em ti. Está aqui para contrariar a expectativa.
— A expectativa de eu falhar.
— Correcto. — levantou-se, bateu palmas uma vez. — Óptimo. Primeira tarefa. Vamos.
— Mas… eu ainda nem acabei—
— Fosse mais rápido. Zap-zap.
De volta à minha secretária, Leslie largou vários dossiês e algumas revistas.
— Quero que analise capas, editoriais e campanhas recentes de revistas rivais. Cores, tipografias, layout, estilos. Perceba padrões.
— Ok. Isso eu consigo.
— Eu não terminei. — disse ele, e pousou o dedo no topo da pilha como se fosse um selo de sentença. — Depois quero moodboards, digitais ou físicos, tanto me faz, com referências de tendências de moda e design gráfico.
— De tudo isto?
— Até às quatro. Por favor. — sorriu. — A Valentina vai avaliar cada um.
O meu estômago afundou. Não era trabalho. Era um teste.
— Zap-zap. — bateu palmas e desapareceu pelo corredor.
— Porra… — resmunguei.
Ouvi uma risadinha. A rapariga da secretária em frente olhou-me por cima do ecrã.
— Isso é um teste, não é?
— O que achas? — respondeu, sem tirar os olhos do computador.
— Eu sou o Adrián.
Ela olhou-me como se eu tivesse pedido o número de telefone.
— Loirinho… eu não quero saber o teu nome. Provavelmente estás fora daqui no fim da semana. Portanto, não me distraias.
— Que simpatia. — murmurei.
Leslie tinha razão: estavam todos à espera que eu falhasse. Eu respirei fundo e comecei.
Analisei revistas e dossiês com o ritmo de quem está a correr por dentro, mas por fora tem de parecer calmo. Usei post-its esquecidos numa gaveta — o Rick não parecia o tipo de pessoa que anotava, parecia o tipo de pessoa que opinava. Em pouco mais de uma hora, tinha tudo marcado, por secções, por padrões, por tendências.
Depois passei aos moodboards.
Axiom, masculina: azul e cinza, arquitectura fria, estrutura. Lã, flanela, couro matte. Silhuetas sólidas, discretas, casacos rectos, camadas limpas. Homens que não precisavam de exagero para serem notados.
DanDelion, feminina: tons quentes e luminosos — creme, dourado pálido, amarelo suave, apontamentos de verde seco e rosa desbotado. Luz natural. Tecidos orgânicos, seda, algodão leve, rendas discretas. Movimento, frescura, uma elegância que parecia espontânea, mas não era.
Velour, sofisticada: preto, marfim e dourado. Glamour clássico, referências francesas: Bardot, Deneuve, Jeanne Moreau. Tweed, cetim, renda delicada. Acessórios como pontuação: salto fino, boina, cinto estreito, jóias discretas. Cada detalhe a contar uma história sem precisar de esforço.
Eu estava a acabar de alinhar a última composição quando senti uma presença atrás de mim, uma mudança subtil no ar, como se a sala se lembrasse de que devia ficar mais quieta.
Valentina tinha chegado quinze minutos antes. Leslie estava atrás dela, imóvel.
— Bem. Pelo menos é pontual. — disse ela, e pousou o casaco de pêlo com naturalidade em cima da minha secretária, como se aquele espaço já lhe pertencesse também.
Levantei-me e fiquei ao lado do trabalho, calado, a esperar o julgamento.
Ela parou diante dos moodboards, inclinou ligeiramente a cabeça.
— Axiom… — começou, os olhos a percorrerem o azul e o cinza. — Simples. Directo. Mas… isto comunica força ou apenas monotonia?
O dedo dela apontou para uma linha sem tocar, como se até o ar tivesse regras.
Moveu-se para a DanDelion.
— Movimento. Luz. — disse, devagar. — Mas sensibilidade sem controlo é só distração.
E, quando chegou à Velour, demorou-se um pouco mais. Os olhos pousaram nas referências, nos tecidos, nos acessórios.
— Glamour subtil. Interessante. — murmurou. — Mas os acessórios… se cada sapato, cada boina, cada cinto não conta uma história, então o resto é irrelevante.
O silêncio seguinte comprimiu o ar à minha volta.
Ela respirou fundo, inclinou a cabeça e disse, por fim:
— Recortes funcionais: adequados. Cores: aceitáveis. Composição: mediana. — os olhos fixaram-se em mim, frios, precisos. — Talvez… apenas talvez… o senhor ompreenda onde a visão e a execução se encontram.
Fez uma pausa curta.
— Parabéns, Sr. Kane. — o tom era seco, sem sorriso. — Sobreviveu.
Valentina virou-se e saiu como se aquela frase fosse tudo o que eu merecia do tempo dela.
Eu fiquei parado a respirar, com adrenalina e alívio a misturarem-se como duas coisas que não deviam coexistir.
Leslie aproximou-se.
— Parece que afinal ainda não é a sua hora.
— Acha que ela gostou?
— O último elogio que vi sair da boca dela para um novato foi em 2015. — respondeu, como se recitasse um dado histórico irrelevante. — Portanto, não se habitue.
— E… a pessoa ainda está cá?
Leslie abanou a mão, como quem afasta um assunto.
- E onde está ela?
- Ah ela= – ele sorriu fazendo um aceno com a mão como se fosse um assunto nada importante – Teve um bernout, quase cometeu suicídio, e agora está numa clinica no Alabama, coitada... era uma funcionária prestável.
Os meus olhos o encararm entre a dúvida e o choque, Ele deu-me um toque no ombro, leve.
— Chega por hoje. Amanhã, às nove.
— Sim, senhor.
Fechei o computador, peguei na carteira e ia a sair quando ouvi a voz da rapariga da secretária.
— Desculpa?
Virei-me.
— Adison. — repetiu, desta vez mais alto. — O meu nome é Adison.
Sorri.
— Prazer, Adison.
Ela não respondeu. Nem levantou a cabeça. Continuou a teclar como se eu já tivesse voltado a ser irrelevante.
Quando eu estava quase na porta, voltou a falar:
— Se chegares às nove… estás atrasado.
Sorri outra vez, mais para mim do que para ela.
— Obrigado.
Eu queria tanto chegar a casa e contar ao Allan.
O caminho pareceu uma eternidade. Passei na padaria e comprei pãezinhos quentes. Quando cheguei ao apartamento, ouvi vozes, as vozes de sempre, antes mesmo de abrir a porta.
Entrei com o cheiro do pão a invadir a cozinha.
O Allan estava encostado ao balcão, a mexer numa frigideira. A Megan no sofá com a Tracy. O Oliver a observar tudo com aquela curiosidade contida de quem está a tentar parecer indiferente e falha.
— Vocês não vão acreditar. — comecei, já a tirar os sapatos com pressa, os pães ainda quentes na mão.
Todos se viraram para mim como se o mundo lá fora tivesse parado.
O Allan levantou uma sobrancelha, frigideira na mão.
— Começa do início. — disse, com aquela calma dele que me punha nervoso e, ao mesmo tempo, me segurava. — Queres cerveja?
— Quero. Preciso de um pack inteiro.
E eu contei tudo: o Rick, a Octavia, o Noah, a Alison, a cafetaria minimalista, o “zap-zap” constante, a pilha de trabalho absurda, o teste, a Valentina a olhar para os meus moodboards como se estivesse a decidir o destino de uma peça defeituosa.
O Oliver estava perplexo.
— Então ela é o diabo mesmo. Não é só conversa de revista.
— Ela testa… e destrói, se for preciso. — disse eu, mordendo um pão sem conseguir parar de falar. — E despediu o tipo à minha frente. À minha frente.
A Megan tocou-me no braço, fascinada.
— Isso é… intenso.
— Intenso é pouco. — ri, nervoso. — Mas eu sobrevivi.
O Allan pousou a frigideira e aproximou-se, pegando num pires com pão. Olhou para mim com um misto de avaliação e cuidado.
— Parece que conseguiste. — disse simplesmente.
A luz da tarde atravessava a janela e espalhava dourado pelas superfícies limpas da cozinha. A Tracy, animada, desfiava o pão com energia.
— Vocês não entendem a dimensão disto. O Adrian está na Velvet!
A Megan cutucou o braço do Allan, entusiasmada.
— Estamos felizes por ti, Adrian!
O Allan deu de ombros, desviando o olhar para o pão como se fosse um sítio mais seguro para colocar o que sentia.
— Eu estou feliz, claro… só que… moda. Esse mundo. — olhou-me finalmente. — Não sei se é o teu perfil, Adrian.
Senti um aperto pequeno no peito, mas mantive a voz calma.
— Allan, eu sei o que estou a fazer. Eu consigo lidar com isto. Confia em mim.
Ele suspirou, e por um instante pareceu procurar qualquer coisa na cozinha — uma certeza que não estava ali.
— Está bem… talvez eu esteja a exagerar. Desculpa. É só… estranho habituar-me à ideia de ti naquele ambiente.
Sorri, mais suave.
— Eu entendo. Só quero que fiques feliz comigo… mesmo que te custe imaginar.
O canto da boca dele subiu num sorriso lento, genuíno.
— Estou feliz por ti, amor. A sério. Só fico nervoso a pensar que te podem esmagar com o ritmo deles.
Apertei-lhe a mão por cima da mesa, sentindo o calor do toque como se fosse uma promessa silenciosa.
— Não me vou deixar esmagar. Tenho-te do meu lado.
A Tracy riu-se, aliviada. A Megan fez o seu espectáculo habitual.
— Vês? Um bocadinho de sinceridade, um pedido de desculpa, e pronto: tudo resolvido.
O Allan revirou os olhos, mas o sorriso ficou, tímido, mas verdadeiro.
Ficámos horas a conversar. E, no fim da noite, eu adormeci no sofá, meio embriagado de álcool e de drama, com a sensação estranha de que, pela primeira vez em muito tempo, o futuro tinha deixado uma porta entreaberta.
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