Dolce & Desastre

4 Dolce & Discussão


Acordei com o peso suave de um cobertor sobre os ombros e o eco distante de vozes que já não estavam ali. A sala ainda guardava vestígios da noite anterior, garrafas vazias alinhadas como soldados derrotados, migalhas esquecidas sobre a mesa, o cheiro morno de pão e cerveja misturado ao perfume leve de Allan. A televisão estava desligada, mas o ecrã reflectia a penumbra azulada da madrugada.

Levantei-me devagar. A cabeça latejava numa cadência discreta. Não suficiente para ser dramática, mas presente o bastante para me lembrar que a noite fora longa. Allan estava na cozinha, de costas para mim, camisa branca ligeiramente amarrotada e mangas arregaçadas até aos antebraços. O café já estava pronto, como sempre.

— Dormiste aí— afirmou sem se virar.

— Pelos vistos — respondi, passando a mão pelo cabelo.

Ele virou-se então, segurando duas canecas. Havia algo no olhar dele que não era exactamente preocupação, mas também não era leveza, muito menos calma.

— Ainda dá tempo de mudares de ideias — disse, pousando a caneca à minha frente.

— Allan… — suspirei, já cansado. Estava demasiado ressacado para ter esta conversa novamente. Estava a tornar-se frequente demais para o meu gosto.

— Estou a falar a sério. O meu pai comentou ontem à noite que ainda precisa de alguém na filial. Gestão estratégica. Um salário bom, um horário previsível. Sem… — fez um gesto vago com a mão — …Valentinas.

Sorri de canto.

— Sobrevivi ao primeiro dia.

— Sobreviveste — repetiu ele, como se a palavra não fosse exatamente reconfortante.

O silêncio entre nós não era hostil, mas tinha textura, e era denso demais para a minha dor de cabeça matinal. Eu sabia o que ele queria dizer sem dizer nada. Que tudo seria mais fácil se eu optasse por um emprego estável, sem grandes exigências, e que oque eu estava a escolher não era nada disso.

— Eu preciso de tentar — disse, finalmente. — Nem que seja para provar que consigo.

Allan assentiu, mas os olhos dele não concordaram totalmente.

Saí de casa mais cedo do que o necessário. Adison tinha sido clara. Nove horas significava oito e cinquenta e cinco. O elevador da Velvet reflectiu a minha imagem de um modo quase cruel. Ajustei o casaco. Endireitei os ombros e respirei fundo.

Quando as portas se abriram no meu andar, o ambiente já pulsava. Saltos ecoavam no corredor, telefones tocavam, alguém discutia cores em francês. O departamento de design parecia ter acordado antes do sol.

Adison já estava na mesa, impecável, café ao lado direito, ecrã aberto em três janelas simultâneas.

— O milagre aconteceu — murmurou, sem me olhar. —Afinal sabes ler o relógio.

— Bom dia para ti também.

Ela arqueou uma sobrancelha mínima, quase invisível.

Leslie surgiu do nada, como se tivesse sido convocado pelo simples facto de eu ter respirado. — Adrien, meu doce experimento social — disse, analisando o meu visual dos pés à cabeça. — Pelo menos hoje pareces alguém que trabalha aqui e não um figurante perdido num casting errado.

— Obrigado… acho.

— Estava a ser sarcástico, meu doce. — Ele sorriu — precisamos seriamente de conversar sobre o guarda-roupa — virou-se já a caminhar. — Venha. Temos uma pequena crise. E eu adoro crises antes das dez da manhã, mantêm a pele jovem.

Segui-o até ao estúdio de fotografia. O espaço era amplo, luz branca a inundar cada canto, reflectores posicionados com precisão quase cirúrgica e, no centro, um cenário parcialmente montado: fundo creme, poltronas vintage, flores espalhadas de forma que pretendia parecer casual.

Octavia estava ali, braços cruzados, fita métrica pendurada ao pescoço como uma insígnia de autoridade.

— O vestido chegou errado — disse ela, sem preâmbulos, colocando as mãos sobre a cana do nariz. — Era para ser marfim quente. Mandaram branco frio. — pelo tom dela, parecia quase um crime ou um pecado capital que nem Deus podia aprovar — Sob esta luz, parece uma bata de uma clínica dentária.

A modelo já estava posicionada, com uma expressão impaciente. O fotógrafo ajustava a lente com irritação contida.

Leslie virou-se para mim com um sorriso que não prometia nada de bom.

— Primeira lição prática. — ele sorriu, colocando as mãos em forma de moldura — Conceito versus realidade. O que é se faz quando a estética te trai?

Olhei novamente para o vestido. Para a luz. Para o fundo. Branco sobre creme criava um contraste duro demais. Frio demais quase a beirar o hospitalar.

Por um segundo, a minha mente correu pelas memórias da faculdade.

Lembrei-me da sala ampla da Faculdade de Belas-Artes, paredes manchadas de tinta, cheiro a óleo e aguarrás impregnando o ar. O professor Jhon caminhava entre os cavaletes com as mãos cruzadas atrás das costas, repetindo sempre a mesma frase: a cor nunca existe sozinha. Eu tinha dezanove anos e achava aquilo pretensioso. Até ao dia em que pintei um retrato inteiro em tons de azul e ele apenas colocou, ao lado, um pedaço de tecido laranja queimado, e o rosto ganhou vida sem que eu tivesse tocado no pincel.

Não era a cor. Era o diálogo que ela propunha no ambiente, e isso tornou-se claro nas aulas de luz e sombra, nas naturezas-mortas montadas sob um foco lateral. A professora Merly apagava metade das lâmpadas da sala e dizia que a profundidade nasce da ausência e não do excesso; porque quanto mais luz frontal eu colocava, mais plano tudo ficava.

Ali, diante do vestido errado, não era diferente.

Não se corrige a temperatura a lutar contra ela, mas sim a equilibrá-la no ambiente.

Caminhei até ao cenário, ignorando o leve desconforto de todos os olhares sobre mim.

— Se não podemos aquecer o vestido, aquecemos o resto — murmurei, mas agora com convicção. — Troquem o fundo para um tom mais fechado, algo próximo do champanhe. E diminuam a intensidade da luz frontal. Apostem nas laterais. Sombra suave. Vai dar profundidade e quebrar este tom de hospital.

O fotógrafo encarou-me por um segundo longo demais.

— E tu és…?

— A ponte — Leslie respondeu por mim, divertido, pousando as mãos nos meus ombros.

Houve um instante de hesitação. No entanto, Valentina estava quase a chegar e a ausência de movimento não era uma opção. Assistentes correram, tecidos foram trocados, luzes ajustadas. O ambiente ganhou outra temperatura. O branco deixou de ser agressivo e passou a parecer deliberado. Diria até elegante.

Octavia inclinou a cabeça, a avaliar.

— Bem... funciona — admitiu.

Leslie aproximou-se, quase a sussurrar ao meu lado.

— Cuidado, Adrien. Resolver problemas cria expectativas.

Antes que eu pudesse responder, o som de saltos firmes cortou o estúdio.

Valentina.

Ela entrou como se o espaço tivesse sido desenhado apenas para acomodar a presença dela. Casaco estruturado, olhar afiado, silêncio imediato ao redor.

Observou o cenário. A modelo. A luz.

— Houve alteração — afirmou; não perguntou.

Ninguém respondeu.

— Quem foi? — perguntou, retirando os óculos de sol, à espera de uma resposta, fosse de quem fosse. O silêncio manteve-se; porém, todos os olhos voltaram-se para mim, entregando a minha denúncia.

— Foi você Adrian?

O ar pareceu encolher.

— Sim.

Ela sustentou o meu olhar tempo suficiente para eu reconsiderar todas as minhas escolhas de vida. Depois, muito levemente, respondeu apenas:

— Continuem. — Virou-se e saiu, deixando toda a equipa do estúdio permitir-se respirar.

Leslie deu uma pequena palma única, mas nada discreta.

— Veja só. Duas manhãs e tu ainda não foste despedido. — o sorriso dele era divertido — Estou a começar a perder apostas internas.

Adison apareceu à porta, a segurar um tablet.

— A propósito — disse, olhando directamente para mim — a Valentina quer-te na sala dela às onze.

O meu estômago afundou.

— Para quê?

Ela sorriu. Não era exactamente cruel. Mas também não era gentil.

— Ela não especificou. E quando ela não especifica… — aquele sorriso cínico do meu primeiro dia voltou a tocar-lhe os lábios — geralmente é interessante.

Às dez e cinquenta e oito eu já estava diante da porta dela.

Não bati imediatamente. A madeira escura, polida até reflectir uma versão ligeiramente distorcida de mim, parecia medir a minha respiração. Ajustei o punho do casaco. Endireitei a postura e bati duas vezes.

— Entre.

A voz não precisou de volume para impor autoridade.

O gabinete de Valentina era diferente do resto da redacção. Não havia caos organizado, nem pilhas visíveis de tecido ou revistas abertas. Era amplo, silencioso, com janelas que ocupavam quase toda a parede ao fundo. A cidade lá fora parecia menor vista dali, ótimo para o suicídio que eu estava a querer impor a mim mesmo no momento. Por minutos, questionei se fora aquela a ideia de Alicia quando saiu.

Ela estava sentada atrás da mesa, óculos pousados na ponta do nariz, a folhear um dossiê. Não levantou os olhos quando entrei.

— Feche a porta.

Obedeci.

O clique da maçaneta soou alto demais.

Valentina retirou os óculos com calma cirúrgica e finalmente olhou para mim.

— Sente-se, Adrián.

Sentei-me.

Ela empurrou o dossiê na minha direcção. Reconheci imediatamente as imagens do editorial da manhã.

— Explique.

Não havia acusação no tom. Apenas expectativa.

— O vestido era branco frio, houve um erro na entrega — tentei justificar-me, precisava que ela entendesse que a minha ideia era apenas salvar o ensaio e não contrariar as ordens dela. Porém, decidi manter um tom explicativo, sem grandes lamúrias ou pedidos de desculpa, visto que Valentina não parecia ser o tipo de pessoa que aceitasse e perdoasse facilmente. — Sob a luz frontal e o fundo creme, criava um contraste rígido. Ajustei o cenário para aquecer a composição e preservar a intenção original do conceito.

Ela inclinou ligeiramente a cabeça.

— E qual era a intenção original?

A pergunta não era sobre cores.

Respirei.

— Eu não sei — disse, simplesmente — Mas eu só achei que… eu não sei.

O silêncio que se seguiu não era vazio. Era uma avaliação nua e crua da minha expressão.

Valentina levantou-se. Caminhou até à janela, onde a luz natural desenhava o contorno do perfil dela com precisão quase cruel.

— Estudou moda? — perguntou, mas desta vez com um tom mais calmo.

— Não.

— Fotografia?

— Não formalmente.

Ela virou-se.

— Então de onde vem essa… leitura?

Pensei na minha mãe a folhear revistas antigas nas tardes de Verão. Em como eu observava a luz a atravessar cortinas. Em como sempre prestei atenção ao que não era dito. Foram esses detalhes que me levaram a seguir Belas-Artes.

— De observar — respondi, simplesmente.

Ela encarou-me por alguns segundos que pareceram ensaiados para quebrar alguém menos estável.

— Observação é inútil sem coragem — disse, voltando para a mesa. — Hoje teve um lampejo dela. Não confunda isso com talento consolidado.

Demorei a responder.

— Não confundirei.

Um movimento quase imperceptível no canto da boca dela. Não era um sorriso… ou seria?

Ela abriu outra pasta num gesto rápido, trazendo-me de volta à realidade.

— A Velvet lançará uma edição especial no próximo trimestre — informou. — O tema: “Reinvenção”.

O meu estômago contraiu.

— Quero três propostas conceptuais até sexta-feira. Não moodboards escolares. Conceitos. Narrativa visual. Direcção estética completa.

— Sexta-feira? — escapou-me antes que eu conseguisse filtrar.

— Problema com o calendário? — os olhos dela avaliaram-me quase por instinto.

— Não — assegurei, o mais confiante que consegui ser; porém, tudo parecia falhar miseravelmente.

— Óptimo. — Ela fechou a pasta. — Leslie supervisionará. Mas a responsabilidade será sua. Se falhar, a culpa não será partilhada.

A clareza dela era quase elegante.

Levantei-me quando ela fez um gesto subtil de dispensa.

— Adrián.

Parei antes de abrir a porta.

— A maioria entra aqui a tentar provar que pertence. — Os olhos dela eram lâminas bem polidas. — Pessoas interessantes provam que não precisam.

Saí com a sensação de que o ar do corredor era fino demais. Leslie estava encostado à parede oposta, como se tivesse sabido exactamente quanto tempo eu ficaria lá dentro.

— Então? — perguntou, cruzando os braços.

— Edição especial. — eu estava a respirar com tanta força que parecia que tinha voltado da guerra — Três propostas até sexta.

Ele fechou os olhos por um segundo.

— Reinvenção?

— Sim.

— Claro que é. — Abriu os olhos e sorriu de forma perigosamente satisfeita. — Ela não testa competência, testa resistência.

— Tusabia? — encarei-o, ainda atordoado.

— Eu sempre sei quando alguém está prestes a ser atirado aos tubarões. — Começou a andar. — Venha. Precisamos de pensar antes que entres em pânico existencial.

Enquanto caminhávamos de volta ao departamento, senti o telemóvel vibrar no bolso.

Allan.

— Desculpe, Leslie, posso atender?

Leslie encarou-me e revirou os olhos, mas fez um sinal com a mão para que eu avançasse.

Parei por um segundo e atendi, encostando-me à parede do corredor.

— Ei — disse ele.

— Oi.

— O meu pai confirmou a vaga. Se tuquiser, ainda dá tempo.

Olhei em volta. O corredor vibrava com tecido, luz, vozes decididas. Uma parte de mim questionou-se se podia estar ao telefone ali. A diferença entre a Velvet e o exército estava a parecer quase nula.

— Não vou querer.

Houve uma pausa do outro lado.

— Tens a certeza?

Lembrei-me do olhar de Valentina. Do cenário ajustado. Do peso daquela responsabilidade recém-entregue.

— Tenho.

Silêncio.

— Está bem. — A voz dele estava controlada demais. — Depois conversamos.

A chamada terminou sem despedida.

Fiquei alguns segundos parado, o telemóvel ainda na mão.

— Problemas domésticos? — Leslie perguntou quando me aproximei. Estava com algumas revistas na mão e tinha pegado numa fita métrica semelhante à de Octavia.

— Nada que eu não consiga administrar.

Ele lançou-me um olhar de lado.

— Cuidado, Adrien. Reinvenção profissional costuma exigir sacrifícios pessoais. E vice-versa.

Chegámos de novo ao meu sector. Adison ergueu os olhos do monitor.

— Sobreviveste à audiência?

— Por enquanto.

Ela avaliou o meu rosto por um instante mais demorado do que o habitual.

— Sexta-feira vai ser interessante — murmurou.

Sentei-me diante da minha mesa. A foto de Allan no canto do monitor parecia agora deslocada, como um objecto de outro cenário.

Reinvenção.

Eu estava tramado.

Todo o meu dia fora ocupado pelo teclar rápido e ritmado, quase ansioso, o ar a entrar e a sair dos pulmões em cadência controlada e o leve ranger da cadeira giratória cada vez que eu me inclinava para a frente, como se quisesse atravessar o ecrã. A luz fria do monitor iluminava os meus dedos, deixava as minhas olheiras mais evidentes, transformando o branco vazio diante de mim em algo menos ameaçador.

Reinvenção. Concentrei-me no significado: o acto ou efeito de reinventar, ou seja, recriar ou reformular algo que já existe, dando-lhe uma nova forma, aplicação ou significado, muitas vezes através de uma nova abordagem ou perspectiva, como reelaborar um problema antigo ou mudar fundamentalmente a vida pessoal… agora, na moda, como é que eu podia integrar tudo isso?

Criei uma pasta. O cursor piscava como se aguardasse uma decisão definitiva. Escrevi: R1.

A primeira proposta surgiu quase antes de eu a conseguir organizar em palavras.

Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo, deixando a ideia assentar.

R1: Pele Nova.

Não literal. Nada de metáforas óbvias ou simbologias forçadas. Pensei em algo mais contido. Tive a ideia de trabalhar com superfícies que, à primeira vista, parecem rígidas, mas que de perto mostram leveza. Texturas que enganam o olhar. Couro ultrafino em cortes mais fluidos. Alfaiataria desconstruída, mas sem exagero, apenas o suficiente para revelar um forro inesperado, talvez uma cor mais vibrante escondida sob tons neutros.

“A transformação não como espectáculo, mas como detalhe. Algo que muda por dentro antes de mudar por fora”, escrevi abaixo no documento.

Anotei algumas referências arquitectónicas ao lado do texto. Fachadas clássicas com interiores mais modernos. Pensei em luz a entrar por frestas estratégicas, criando contraste, onde a sombra seria usada de forma intencional, não acidental.

Abri outra pasta.

R2: Herança Editada.

Talvez reinventar não seja apagar a origem, mas reorganizá-la. Pensei em tweed aplicado em silhuetas mais urbanas. Ou então em estátuas de figuras humanas bem realistas. Bordados tradicionais inseridos em cortes minimalistas, quase austeros, mas nada caricato.

Na fotografia, tive a leve ideia de usar localizações históricas, mas com enquadramentos assimétricos, menos previsíveis. Uma forma de deslocar o olhar sem desrespeitar a referência.

Escrevi abaixo: “Não é nostalgia. É reprogramação.”

Soava melhor assim. Mais direto.

A terceira ideia demorou um pouco mais.

Fiquei alguns segundos parado, a olhar para o ecrã, os dedos suspensos sobre o teclado. No canto do monitor, a foto de Allan parecia estável demais para o turbilhão que eu estava a tentar organizar. Vi o meu próprio reflexo no ecrã, concentrado, talvez um pouco cansado.

Então pensei em algo menos confortável.

R3: Ruído.

Reinvenção quando ela não é escolha, mas consequência. Quando o mundo te empurra antes de tuestar pronto. Imaginei silhuetas fragmentadas, sobreposições inesperadas. Tecidos que, em teoria, não combinam, mas que funcionam no enquadramento certo.

Talvez uma fotografia com um leve desfoque de movimento, nada exagerado, só o suficiente para sugerir transição. A ideia de que a identidade também se constrói no impacto, não apenas no controlo de si mesmo.

Quando as abri, havia uma sombra projectada sobre a minha mesa.

Leslie estava ao meu lado, braços cruzados, expressão indecifrável, o perfume subtil a anunciar a presença dele antes mesmo das palavras.

— Tu tens um talento preocupante para não perceber quando alguém te está a observar — disse, inclinando-se levemente para olhar para o ecrã, num tom casual demais para ser inocente.

Endireitei-me na cadeira, tentando neutralizar o pequeno sobressalto.

— Isso é elogio ou ameaça? — perguntei, mantendo a voz estável enquanto minimizava as janelas abertas por reflexo.

Ele arqueou uma sobrancelha, os lábios a formarem um quase sorriso calculado.

— Ainda estou a decidir — respondeu, puxando uma cadeira com elegância medida e sentando-se ao meu lado, cruzando as pernas como se estivesse prestes a assistir a um espectáculo particular.

Estendeu a mão em direcção ao monitor, gesto breve mas imperativo.

— Mostra-me.

Girei o ecrã na direcção dele, sentindo o coração acelerar num descompasso leve demais para ser confortável. Leslie leu em silêncio. O tipo de silêncio que não é ausência de som, mas concentração pura. Os olhos dele percorriam cada linha com precisão clínica.

Depois de alguns segundos que pareceram excessivos, falou.

— Pele Nova é segura — disse, apoiando o queixo nos dedos, ainda a olhar para o ecrã. — Inteligente e até comercialmente viável. Valentina apreciará a moderação.

O meu pulso acelerou contra a madeira da mesa.

Ele passou para a pasta seguinte.

— Herança Editada é ambiciosa — continuou, inclinando levemente a cabeça. — Pode soar pretensiosa se for mal executada. — as palavras lembravam-me as avaliações dos meus professores — Exige um equilíbrio extremo entre a reverência e a ousadia.

Os olhos dele pousaram finalmente sobre o título da terceira.

— E Ruído… — Ergueu o olhar para mim, sustentando-o tempo suficiente para eu perceber que a avaliação não era apenas sobre o projecto. — Ruído é perigosa — concluiu, os dedos a baterem levemente no braço da cadeira.

Inclinei-me para a frente, mantendo o contacto visual.

— Em mau sentido? — perguntei, consciente de que a resposta podia redefinir a minha própria escolha.

Um sorriso pequeno surgiu, quase genuíno.

— No melhor sentido possível — disse. — Mas perigosa exige convicção absoluta. Se tu hesitares, ela desmonta-te.

Cruzei os braços, a sustentar o meu próprio eixo.

— E achas que eu hesito? — questionei, deixando a pergunta pairar entre nós como um desafio contido.

Leslie inclinou a cabeça, a avaliar-me mais do que avaliava a proposta.

— Ainda não sei se queres vencer ou apenas provar que consegues sobreviver — respondeu, levantando-se com uma fluidez quase coreografada.

Antes que eu pudesse reagir, o intercomunicador do departamento soou, cortando o ar com precisão metálica. A voz de Adison atravessou o espaço, firme e neutra.

— Leslie, a Valentina quer uma actualização sobre o casting da edição especial — anunciou, cada palavra articulada com eficiência cirúrgica.

Leslie ajustou o blazer com um gesto automático.

— Continua — disse, já a afastar-se, sem olhar para trás. — Ideias bonitas são descartáveis, mas ideias necessárias? Essas, meu doce, são promovidas.

Ele desapareceu pelo corredor.

Fiquei novamente sozinho com as três pastas abertas, a luz do monitor a reflectir-se nos meus olhos como se testasse a minha própria convicção. O telemóvel vibrou sobre a mesa, deslocando ligeiramente um dos post-its.

Mensagem de Allan.

“Jantamos juntos hoje? Precisamos de conversar.”

As três palavras finais carregavam um peso específico. Algo me dizia que isto não era um convite amigável, muito menos romântico.

Respirei fundo antes de escrever.

“Claro. Saio às sete.”

Guardei o telemóvel, tentando ignorar o aperto discreto no estômago.

Os minutos seguintes passaram depressa demais. Alternava entre referências visuais, anotações estratégicas e pesquisas rápidas. Ajustava palavras como se fossem tecidos, cortando excessos, alinhando conceitos.

Até que uma sombra interrompeu a luz do monitor novamente.

Adison estava ao lado da minha mesa, postura impecável, cabelo preso sem um fio fora do lugar, olhar atento demais para ser casual.

— Tu pareces… concentrado — disse, inclinando-se o suficiente para ler os títulos no ecrã, mas sem invadir totalmente o espaço.

Ergui o olhar para ela.

— Isso é proibido aqui? — perguntei, mantendo o tom leve, embora os meus dedos ainda repousassem tensos sobre o teclado.

Ela arqueou uma sobrancelha mínima.

— Só é invulgar — respondeu, voltando os olhos para o ecrã.

Leu os nomes das pastas em silêncio.

— Reinvenção? — perguntou, agora cruzando os braços.

— Sim — confirmei, girando ligeiramente a cadeira na direcção dela.

Os olhos dela demoraram-se um segundo a mais em “Ruído”.

— Interessante — murmurou. — Às vezes, a Velvet não destrói, só remove o que é inconveniente.

A frase foi dita com neutralidade quase científica.

Inclinei a cabeça.

— Isso devia tranquilizar-me? — questionei, à procura de qualquer alteração no rosto dela.

— Não — respondeu, simplesmente, voltando para a mesa sem acrescentar nada.

O resto do dia dissolveu-se em camadas. Ajustes no estúdio. Uma observação seca de Octavia sobre prazos. Um olhar avaliativo de Noah que parecia medir a minha permanência ali em semanas.

Às seis e cinquenta e oito desliguei o computador, o clique final a soar mais decisivo do que o habitual.

Desta vez, ninguém comentou o meu horário.

Lá fora, o céu estava tingido de laranja intenso, quase teatral. A cidade parecia menos intimidante do que no primeiro dia. Ou talvez eu estivesse a começar a ocupar espaço nela.

A luz da cozinha estava mais baixa do que o habitual quando cheguei. As sombras alongavam-se pelas paredes, desenhando contornos suaves nos armários brancos e reflectindo-se no vidro da janela, onde a cidade pulsava num silêncio distante. Allan estava sentado à mesa, postura erecta demais para quem fingia estar relaxado. A camisa clara ainda impecável, os botões fechados acima do necessário, o cabelo cuidadosamente alinhado como se a disciplina externa pudesse conter inquietações internas. Dois copos de vinho repousavam entre nós, o líquido rubro a captar os reflexos dourados do candeeiro suspenso.

Sentei-me devagar, tirando o casaco e pousando-o na cadeira ao lado. O tecido roçou na madeira com um som discreto, quase cerimonial. Senti o cansaço do dia nos ombros, mas havia algo mais pesado do que isso a pairar na divisão.

— Então — comecei, os dedos a deslizarem pela base do copo antes de finalmente o segurar, evitando encará-lo de imediato.

Allan girou o vinho com movimentos lentos e calculados, observando o líquido formar um remoinho controlado contra o cristal, como se procurasse ali a ordem que lhe escapava na vida real.

— O meu pai ficou surpreendido quando eu disse que recusas-te — disse ele, mantendo o olhar fixo no copo, a voz firme mas sem calor.

A frase pousou sobre a mesa como um objecto frágil. Levei o vinho aos lábios, sentindo o sabor seco espalhar-se pela língua antes de responder.

— Imagino — murmurei, apoiando o cotovelo na mesa e inclinando levemente o corpo para a frente, numa tentativa quase inconsciente de diminuir a distância entre nós.

Ele finalmente ergueu os olhos. Havia ali algo que não era reprovação directa, mas também não era aceitação plena; estava mais para um medo revestido de racionalidade.

— Ele acha que tu estás… a expor-se demais — continuou, os dedos agora imóveis ao redor do copo, como se a frase exigisse estabilidade física.

O silêncio que se seguiu não foi abrupto. Foi denso, denso demais para nós os dois. Cruzei as mãos sobre a mesa, observando o reflexo das nossas figuras distorcidas no vidro da janela atrás dele.

— E tu? — perguntei, sustentando o olhar, consciente de cada segundo que se alongava entre nós.

Allan respirou fundo, os ombros a subirem de forma quase imperceptível antes de relaxarem. Passou a mão pelo cabelo, desalinhando-o ligeiramente, gesto raro que, em anos, eu já sabia que denunciava desconforto.

— Eu acho que tu estás a querer mudar depressa demais — disse, por fim, a voz mais baixa, menos ensaiada.

A luz incidia sobre o rosto dele de forma desigual, metade iluminada, metade envolta em sombra. A imagem era quase simbólica demais para ser ignorada.

Inclinei a cabeça, a absorver o peso da frase antes de reagir. O apartamento parecia menor, como se as paredes se tivessem aproximado alguns centímetros.

— Isso é mau? — perguntei, a voz controlada mas firme, os dedos agora entrelaçados para impedir qualquer tremor involuntário.

Ele desviou o olhar por um segundo, encarando a superfície da mesa, onde pequenas marcas quase invisíveis contavam histórias de jantares anteriores, discussões menores, risos fáceis.

— Não sei — respondeu, sincero demais para suavizar. — Só tenho medo de acordar um dia e não reconhecer quem está ao meu lado.

A confissão não foi dramática. Foi precisa. E talvez por isso tenha doído mais.

Inclinei-me para trás na cadeira, deixando o ar preencher os pulmões com mais força do que o necessário. Pensei no estúdio, nas luzes ajustadas, no vestido que precisou de outro fundo para existir correctamente. Pensei nas três pastas abertas no meu computador.

— Talvez eu também esteja com medo — admiti, descruzando as mãos e tocando a borda do copo novamente. — Mas ficar parado já não me parece uma opção.

Ele observou-me longamente. Não como quem discorda, mas como quem tenta recalibrar expectativas. O tic-tac distante do relógio da sala tornou-se subitamente audível, a marcar cada segundo como se sublinhasse a urgência invisível daquela conversa.

— Eu só não quero perder-te para esse mundo — disse Allan, endireitando-se na cadeira, a mandíbula levemente tensa.

A frase pairou entre nós com um peso diferente das anteriores. Não era sobre carreira. Era sobre território. E isso incomodou-me. Eu não queria que ele achasse que eu precisava do pai dele para ser alguém, mas uma parte de mim sabia que ele estava mais inseguro do que aparentava.

Inclinei-me para a frente outra vez, diminuindo a distância que ainda restava entre as nossas mãos sobre a mesa.

— Tu não vais perder-me — respondi, com mais convicção do que certeza.

O silêncio que se seguiu não foi hostil, mas frágil como vidro fino sob pressão face a uma tempestade de Inverno.

Allan estendeu a mão lentamente, os dedos a tocarem nos meus com cuidado medido, como se estivesse a testar a solidez do gesto. — Então promete que, se começar a sentir-se esmagado, dizes-me? — pediu, os olhos finalmente desarmados.

Apertei a mão dele, sentindo o calor familiar, o contraste entre estabilidade e vertigem.

— Prometo — respondi, sustentando o toque por um segundo a mais. — Eu amo-te ok?

— Eu também amor.

Lá fora, um carro passou depressa demais, o som a cortar a noite como uma linha mal alinhada. Dentro da cozinha, o vinho permaneceu intocado por alguns instantes.

Horas depois, o telemóvel vibrou sobre a mesa de centro, cortando o silêncio que ainda pairava pesado entre nós.

Olhei para o ecrã.

Leslie.

O relógio marcava 22:51.

Atendi.

— Adrien — a voz dele soava contida, mas carregava aquela urgência fria que sempre me fazia tremer só de ouvir quando era despida de qualquer simpatia. Leslie conseguia ser extremamente autoritário às vezes, quase como Valentina — Vista-se.

— Como assim? — a minha voz soou estranha no quarto silencioso, ecoando contra as paredes brancas e nuas.

— Arranje-se. O melhor que puder. Cabelo, sapatos, postura. Não me faça repetir.

Houve uma pausa mínima, suficiente para que o silêncio se tornasse pesado, quase palpável.

— Para quê? — insisti, tentando mascarar a tensão na garganta.

Leslie apenas respirou, o silêncio do outro lado da linha mais contundente do que qualquer explicação.

— Se eu quisesse explicar, teria explicado — resmungou — Esteja pronto em vinte minutos. Um carro vai buscá-lo.

A chamada terminou. Fiquei com o telemóvel ainda encostado ao ouvido, como se o silêncio pudesse oferecer algum contexto que ele se recusava a dar.

Allan estava na cozinha, a luz baixa do candeeiro a reflectir-se na pia, as mãos molhadas no pano.

— Quem era? — perguntou, a voz firme, mas curiosa.

— Leslie — respondi, a mão ainda a segurar o telemóvel, sentindo o frio metálico do ecrã.

Ele soltou um suspiro longo, quase resignado.

— E?

— Disse para eu me arranjar. O melhor que puder. Um carro vem buscar-me.

O som da água a correr parou por um segundo, como se ele tivesse segurado a respiração.

— Para quê? — Allan repetiu, a sobrancelha arqueada, o silêncio da cozinha a tornar cada palavra mais pesada.

— Não disse. — O meu tom soou mais seco do que pretendia.

Ele soltou uma risada curta, sem qualquer indício de humor.

— Claro que não disse. — Passou a mão pelo cabelo, gesto nervoso que eu conhecia bem. — E tu vais? Porquê?

— Preciso de ir.

— Agora? — O peso da pergunta fez o meu peito doer; o ar parecia escasso.

— Sim. — respondi, já a procurar as chaves e a carteira para não deixar nada necessário antes de sair.

Allan aproximou-se, as mãos nos bolsos, a postura rígida. O ar da cozinha parecia condensar à nossa volta.

— Adrien, são quase onze da noite.

— Eu sei. — Mantive a voz controlada, mas a mente girava a mil.

— Então aje como se soubesses. — a frustração agora clara em cada palavra dele.

Fui até ao quarto, mas ele seguiu-me. Cada passo no corredor de madeira ecoava, pesado e pontual.

— Adrián, isto já está a ultrapassar qualquer limite razoável.

— É o meu trabalho.

— Trabalho tem horário. Isto é outra coisa.

Abri o armário e fui passando os dedos pelas camisas, pelos casacos que ainda carregavam o cheiro do escritório. A luz do quarto era fraca; os reflexos nos cabides criavam sombras longas e inclinadas pelo chão, lembrando-me de cada escolha que teria de fazer naquela noite.

— Não achas estranho? — Allan insistiu, a voz cortante agora, quase uma acusação. — Alguém ligar quase à meia-noite e exigir que tuse apresente impecável, sem sequer dizer o motivo?

— Acho — murmurei, sem me atrever a dizer mais.

Escolhi uma camisa branca, tecido firme sob os dedos, e um casaco cinzento-escuro. Ajustei a gola ao espelho. O reflexo devolvia-me alguém polido, pronto, mas a sombra nos olhos denunciava o nervosismo.

— Allan… — tentei, mas ele abanou a cabeça.

— Estou a ver-te dobrar para caber num mundo que nem sabes se te quer lá.

Fiquei parado por um segundo, sentindo o peso exacto de cada palavra. O quarto estava mais frio, o silêncio a amplificar a urgência invisível que Leslie impunha.

— Eu sobrevivi. — A frase saiu mais como um mantra do que como defesa de mim mesmo. Isso não pareceu tranquilizar Allan, já que ele agora não escondia nenhuma da frustração dele.

— Tu és ambicioso. — Corrigiu, a palavra carregada de julgamento. Porém, antes que eu pudesse protestar, ele já tinha pegado nas coisas dele e saído.

Fechei o armário e respirei fundo. Cada movimento estava cronometrado na minha cabeça; cada escolha de roupa vinha acompanhada da necessidade de provar alguma coisa. O quarto cheirava a tecido novo, a perfume antigo de Allan, a café frio. Um misto impossível de separar.

O telemóvel vibrou novamente.

Motorista a caminho. Dois minutos.


Olhei para a foto de Allan sobre a cómoda. Quase liguei, quase pedi para ele voltar. Mas não.

Peguei no casaco, apaguei as luzes.

Ao fechar a porta do quarto, o corredor pareceu mais longo, mais silencioso e mais frio. Cada passo no elevador refletia uma versão de mim que eu ainda não sabia se queria encontrar.

O reflexo na porta de vidro do carro devolveu-me alguém polido, impecável, preparado para o mundo.

Só ainda não sabia que palco me esperava.