Dolce & Desastre
5 Dolce & Estilo
O carro moveu-se suavemente, o motor a ronronar baixo, quase como se obedecesse a uma cadência própria. A cidade nocturna passava lateralmente pelo vidro, luzes amarelas, vermelhas, néon azul, tudo esbatido pelo movimento. Respirei fundo, sentindo a tensão nos ombros, mas mantendo o queixo erguido. Leslie não precisava de me lembrar de nada — o simples facto de ele estar à frente, invisível, já me lembrava de cada expectativa que eu carregava.
O veículo estacionou em frente à Velvet. As portas abriram-se com um clique seco. O ar da noite entrou, misturando-se ao perfume do asfalto aquecido e à lembrança de luzes de estúdio. Leslie estava encostado à parede, braços cruzados, postura que conseguia ser simultaneamente relaxada e controladora, porém ele estava deslumbrante, parecia quase um daqueles famosos nas passarelas do Met Gala.
— Chegou — disse, quase como se tivesse escrito a frase antes mesmo de eu a pronunciar. Aproximei-me, ajustando o casaco e tentando ignorar a pontada de nervosismo que subiu ao perceber que ele estava a olhar-me de cima a baixo.
— Docinho… pedi para se arranjar — comentou com aquela ironia afiada que só ele sabia usar. — Pensei que tivesse entendido a frase.
— Mas… eu arranjei-me – mexi no meu casaco com nervosismo, tinha dado o meu melhor na escolha de roupa.
— A sua sorte, meu caro – ele abanou a cabeça em reprovação – É que eu já previ exactamente que isto ia acontecer.
— Mas – eu estava confuso – Porque me chamou? Vamos a alguma festa?
— Há uma festa privada do nosso cliente francês, Alexander Duval. — A pronúncia era medida, quase musical, mas carregada de uma autoridade que não admitia réplica. — Ele é específico, clássico e… cruel com qualquer deslize de estilo. Por isso o menino está aqui. Valentina quer-te a ti e a mim lá, dentro de uma hora.
— E trouxe-me aqui para…
Eu não estava a entender nada.
— Adrian — disse finalmente, com aquela cadência precisa que não admitia distracções — Hoje vai a uma festa privada. Alexander Duval é um estilista que adora ver o caos mascarado de ordem. — Ele fez uma pausa, o que só aumentou a minha ansiedade —. Não é sobre ser social, é sobre ser performático e a única performance que você está a tentar dar neste momento é um dos órfãos pobretanas, mas incrivelmente adoráveis, do musical de “Annie”:
Mantive o meu silêncio, a sua urgência transcreveu-se num aceno rápido com a mão para que eu o seguisse. – Vamos ter pouco mais de uma hora e Octavia está à nossa espera.
— Não me diga que vai fazer-me uma intervenção – eu gemi.
— Dê-se por sortudo, meu doce, no final gritará luxo igual a Mia Thermopolis, a princesa de Genóvia.
— Você e as suas referências, Leslie – eu sorri. Ele sorriu de volta antes de responder.
— A arte de ser um bom cinéfilo, meu caro. Vamos, temos pouco tempo.
O aroma familiar de tecido, papel e café ainda pairava, mas agora parecia diluído, quase tímido, substituído por uma calma espectral. Os corredores, que de dia pulsavam com passos apressados, telefonemas, discussões em francês e risadas cortantes, agora estavam silenciosos, quase reverentes. Cada eco parecia amplificado pelo vazio, transformando o habitual caos numa espécie de coreografia fantasmagórica.
As luzes estavam mais baixas, filtradas por luminárias cuidadosamente posicionadas, espalhando manchas suaves sobre paredes de vidro e madeira polida. O chão reflectia sutilmente cada passo, criando a impressão de que eu caminhava sobre água, cada passo ondulando no silêncio. Até mesmo os computadores, que durante o dia zumbiam com notificações e cliques incessantes, agora piscavam suavemente como lanternas.
Passámos pelo estúdio de fotografia. As poltronas vintage e os fundos trocados da tarde pareciam adormecidos, mergulhados em sombras longas e diagonais. A única coisa que denunciava dia naquele prédio era Octavia, que esperava por nós, impaciente em frente à porta do Departamento de Vestuário e Coordenação
— Ficas a dever-me, Leslie – ela disse, abrindo a porta, visivelmente acelerada.
— The Macallan, 72 anos – ele respondeu, ultrapassando-a — está no meu carro.
— Considera feito – ela sorriu na hora, dando pequenos pulinhos e segurando o meu braço — Caramba, — apertou-o de novo — Certezas que não estás solteiro?
— Ele joga na minha equipa Octavia — Leslie gritou já dentro de um dos armários.
Leslie abriu a porta do provador com um gesto seco, indicando para que eu entrasse. A sala era pequena, mas eficiente, repleta de cabides com roupas penduradas numa ordem que parecia caótica à primeira vista, mas que, olhando mais de perto, era pura lógica.
Engoli em seco, sentindo o peso imediato da responsabilidade.
— Eu não sei se… — comecei, mas ele cortou com um gesto de mão.
— Não sabe. É exatamente por isso que pedi par vir — disse Leslie, aproximando-se, o olhar a medir cada hesitação. — Não sabe arranjar-se, e nós vamos garantir que não vá parecer… perdido.
Octavia entrou, já com os braços cruzados, fita métrica ainda ao pescoço. — Vamos fazer uma intervenção. Rápida, precisa, sem espaço para erros de interpretação.
Ela começou a tirar roupas dos cabides, apresentando uma selecção que mais parecia um desfile em miniatura: um fato de corte impecável da Saint Laurent, uma camisa branca de algodão egípcio da Dior Homme, um blazer azul-marinho da Balmain com lapelas que se destacavam de forma quase arquitectónica, e sapatos de couro preto da Church’s, polidos até reflectirem o tecto do provador.
— Experimente isto primeiro — disse Octavia, entregando o fato. — E não se atreva a discutir tecido ou corte, apenas vista. Leslie quer ver postura. — o seu sorriso voltou a transparecer no seu tom vermelho clássico — Sabes, eu já converti muito gays e-
— Octavia – resmungou Leslie enquanto segurava uma pilha de sapatos. Octavia apenas suspirou em desilusão, no entanto piscou o olho, fazendo-me rir da sua própria personalidade.
Segurei o fato e levei-o para o provador, sentindo o toque do tecido frio e firme contra a pele. Cada botão que fechei parecia sincronizado com o bater do meu coração. Leslie não disse nada, apenas observava pelo vidro, braços cruzados, cabeça inclinada como se estivesse a ler cada reacção minha.
Quando saí, ele avaliou de cima a baixo. — Bom — disse, com um leve aceno de aprovação. — Mas vamos elevar.
Octavia trouxe então uma gravata de seda preta da Tom Ford, fina e elegante, exigindo que eu ajustasse o nó sozinho sob o olhar crítico dela. Cada ajuste errado era imediatamente corrigido, sem paciência, mas sem pressa, como se cada gesto fosse uma lição silenciosa de disciplina.
— Sapatos — disse Leslie, apontando para os Church’s. — Não apenas calce, caminhe.. como se estivesse a entrar na sala de jantar de Duval agora.
Caminhei alguns passos, sentindo a rigidez do couro, o peso do corte perfeito sobre os meus ombros. Ele inclinou-se ligeiramente, a avaliar cada movimento.
— Ainda hesita — murmurou, quase como um comentário para si mesmo, com o dedo encostado aos lábios — Preciso que essa hesitação desapareça antes de cruzar a porta dele.
Octavia trouxe um cinto da Hermès, simples, mas impecável, ajustando-o ao meu corpo com precisão. Ela mandou-me olhar no espelho central, girar, inclinar a cabeça — cada movimento calculado para treinar percepção e controlo.
— Agora a camisa da Dior — disse Octavia — porque mesmo Alexander Duval não aceita qualquer sombra de amadorismo no tecido. O algodão precisa de caimento perfeito, sem vincos, nem sinais de esforço.
— O menino vai passar por isto várias vezes, Adrian — Leslie acrescentou, como se estivesse a ler os meus pensamentos — Até que cada movimento, cada dobra de tecido, cada linha do corpo, seja interpretada como natural. Até parecer inevitável.
As camisas, gravatas, fatos e sapatos começaram a acumular-se ao meu redor, cada peça um teste de paciência, postura e percepção. Leslie e Octavia alternavam observação silenciosa e instruções curtas, directas, quase cortantes.
— Próximo — disse Leslie, pegando num blazer da Givenchy, mais ousado, corte assimétrico, ombros definidos. — Alexander Duval não gosta de conformidade, mas também não tolera erro. Capiche?
Assenti, sentindo a tensão nos ombros aumentar, mas a adrenalina também a crescer, transformando cada nervo em atenção concentrada.
— Uma última coisa — disse Octavia, aproximando-se com um lenço de bolso da Hermès, dobrado com precisão geométrica. — Pequenos detalhes definem o resto. Uma dobra errada, uma cor fora do tom, e o resto não importa.
Leslie deu um passo atrás, cruzou os braços, e finalmente falou, quase relaxando pela primeira vez:
— Quando Alexander Duval olhar para si, ele não vai ver o Adrian. Vai ver isto — apontou para a roupa impecável, postura, cada detalhe meticulosamente calculado. — E se fizermos o nosso trabalho bem, ele nem vai perceber que teve ajuda.
Respirei fundo, ajustei a gravata, endireitei os ombros, e pela primeira vez senti que o ensaio improvisado tinha realmente transformado algo em mim. Não apenas a aparência, mas a postura, o ritmo, a presença.
— Está pronto para a próxima prova? — Leslie perguntou, sem esperar resposta. — Ou prefere ensaiar mais alguns passos no corredor?
Olhei para Octavia, depois para Leslie. A tensão ainda existia, mas algo mudou. — Estou pronto.
Leslie sorriu, curto, quase irónico. — Ótimo. Porque a festa não espera, e Alexander Duval menos ainda.
Descemos até ao departamento de Beleza e Cosmética, dois pisos abaixo do Departamento de Design, as suas mãos abriram a porta do camarim com um gesto quase teatral, e Octavia entrou logo atrás, carregando uma pequena maleta de pincéis e produtos cuidadosamente organizados.
— Cabelo e maquilhagem — anunciou Leslie, a voz cortante, mas com aquele toque irónico que sempre fazia o ambiente tremer, ainda que eu notasse algum divertimento — Adrian, vamos transformar essa preparação improvisada em perfeição absoluta.
— Ou pelo menos em algo que não desmorone quando Alexander Duval olhar para ti — completou Octavia, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha com aquela expressão peculiar que fazia cada frase parecer ao mesmo tempo crítica e uma brincadeira enigmática.
Suspirei, sentando-me na cadeira giratória, tentando convencer-me de que estava pronto para aquilo. Octavia aproximou-se, pegando nos produtos com uma precisão quase obsessiva.
— Vamos começar pelo cabelo — disse ela, examinando cada fio como se eu fosse uma escultura em potencial. — E não resmungues.
Ela puxou algumas mechas com firmeza, ajustando, torcendo e penteando. Suspirei alto quando o couro cabeludo reclamou, e Octavia franziu o sobrolho, o que apenas aumentou a minha sensação de culpa por me queixar.
— Ah, os gays e a sua sensibilidade — resmungou, quase divertida, quase séria. — Mas força, não vamos desmaiar antes da festa.
Leslie, encostado à parede com os braços cruzados, observava cada gesto, a avaliar a minha reacção e postura com precisão cirúrgica.
— A beleza é dolorosa, Adrian — comentou, sarcasmo elegante na voz. — E tu meu doce, estás a sair-te admiravelmente bem.
O cabelo começou a ganhar forma, ondas suaves moldadas de maneira a parecer natural, mas perfeitamente calculadas. Octavia aplicava produtos com cuidado obsessivo, cada toque estudado para criar movimento sem perder o controlo.
— Maquilhagem agora — anunciou, retirando pincéis menores e estojos de sombras, os olhos a cintilar com a intensidade que sempre denunciava a concentração absoluta dela. — Nada de exagero.
Começou pelas sobrancelhas, puxando os fios de forma precisa. Cada movimento do pincel era um pequeno choque, e senti o desconforto a espalhar-se.
— Ai… — murmurei, franzindo o rosto.
— Se reclamares por cada pelinho que vou tirar, não saímos daqui antes do fim da festa — Octavia resmungou de novo, abanando a cabeça com aquela mistura de impaciência e fascínio peculiar. — Compõe-te homem, vamos!
Leslie inclinou-se ligeiramente, o canto da boca curvado num sorriso divertido.
— Perfeito — disse, não havia uma ponta de ironia desta vez. — Agora, Adrian, estás exactamente como um funcionário da Velvet.
O cabelo e a maquilhagem concluídos, Octavia deu um passo para trás, avaliando o resultado como se estivesse a observar uma escultura finalizada. Leslie cruzou os braços, satisfeito, o olhar dele sem qualquer indício de crítica, mas sim admirado, ainda com o reflexo a pairar sobre mim.
— Cinco minutos — disse Leslie, finalmente afastando-se do espelho. — Nem a Valentina está preparada para te ver– Ele segurou o meu rosto – Magnífico, o meu melhor trabalho.
— Não te esqueças do whisky. – Octavia balbuciou, arrumando todos os seus pincéis e blushes na maleta que trouxera.
Levantei-me, ajustei a gravata pela última vez, olhando-me. Nem eu me reconhecia no espelho. A figura à minha frente era totalmente desprovida de qualquer erro. As feições estavam perfeitamente delineadas, o cabelo digno de modelo de revista e a roupa parecia saída de um desfile. Eu estava… incrível.
O carro já aguardava do lado de fora. A cidade à noite espalhava-se em luzes difusas, silenciosa e indiferente. A festa estava prestes a começar, e eu estava pronto, com Leslie ao meu lado.
O carro cortava a noite silenciosa da cidade. Luzes difusas passavam pelas janelas, reflectindo nos vidros escuros como pinceladas lentas sobre tela. Eu olhei para o telefone, ainda a mostrar a mensagem de Allan. Uma pontada de tristeza apertou-me o peito. Leslie percebeu o movimento no canto do meu olho.
— Está triste — disse ele, com aquela calma cortante que parecia atravessar o vidro do carro. — Quer contar-me o que aconteceu?
Suspirei, desviando o olhar da cidade lá fora.
— Tive uma discussão com Allan — admiti, a voz baixa. — Ele acha que estou a mudar depressa demais, que estou a expor-me demais... não sei. E agora com isto pergunto-me se ele me reconheceria.
Leslie manteve o olhar à minha frente, as mãos cruzadas sobre o colo, expressão medida, quase teatral.
—Acha que está assim tão diferente? — perguntou, sem pressa, como se cada palavra fosse pesada.
— Não sei... — murmurei. —
Ele inclinou-se ligeiramente, um sorriso subtil nos lábios, metade provocação, metade análise.
— Adrian, mudanças nem sempre são más — disse, num tom calmo, quase filosófico. — Às vezes precisamos de mudar um pouco para nos encontrarmos. Se Allan não reconhece isso — a mão dele descansou sobre a minha perna num tom quase paternal — Talvez essa mudança simplesmente não o inclua.
Apertei o volante imaginário na minha mente, a garganta ficou seca.
— Não. Nós estamos juntos há tempo demais para... para terminar — insisti, quase como se me convencesse.
Leslie apoiou o queixo na mão, olhando para mim com aquela precisão de quem avalia peças antes de as mover.
— Há dois tipos de relacionamentos — disse, devagar — os que crescem juntos e os que crescem para lados diferentes. Crescem, não quebram, mas seguem ritmos distintos. O menino pode amar alguém e, ainda assim, afastar-se sem que isso seja falha, Adrian. É simplesmente isso... crescer.
Silêncio entre nós, apenas o ronco baixo do motor e o som distante da cidade.
— Então... acha que estamos nesse caso? — perguntei, a voz carregada de dúvida.
Ele deixou escapar um pequeno riso, leve, irónico.
— Não estou a dizer que sim ou não — respondeu. — Só que, às vezes, perceber isso cedo é a diferença entre dor e clareza. Cabe a si decidir qual prefere.
Eu olhei pela janela, as luzes a passarem depressa demais. E pela primeira vez, percebi que talvez a mudança que sentia não fosse apenas minha e que reconhecer isso não era fraqueza, mas inevitabilidade. Porém não queria deixar Allan, estávamos juntos há quase seis anos, faríamos aniversário em semanas.
As coisas não podiam terminar assim.
O carro parou diante da Penthouse como se a noite se tivesse curvado para esperar a nossa chegada. As luzes do prédio piscavam como estrelas artificiais, reflectindo no vidro escuro do carro, e o silêncio dentro do veículo parecia quase sagrado. Leslie ajustou o colarinho do casaco, como se aquela postura fosse uma armadura invisível.
— Pronto para a guerra social? — perguntou, quase irónico.
Balancei a cabeça, sentindo o peso da noite nos ombros. Ainda conseguia sentir o eco das palavras de Allan a martelar na mente, uma sombra subtil de dúvida e saudade.
Quando subimos, a entrada da Penthouse já fervilhava com convidados, risos altos e o tilintar de taças. Mas ao atravessar o corredor largo, percebi o contraste entre a elegância da decoração e o caos das conversas. Cada passo que dava reverberava no chão polido como um metrónomo silencioso, cada olhar que cruzava com os convidados parecia filtrado por uma lente própria.
— Olhe para eles — murmurou Leslie, quase como se falasse consigo mesmo. — Todos apressados, a querer ser notados.
E era verdade. No meio da multidão barulhenta, eu sentia-me estranho, deslocado, mas ainda mais presente. A minha postura, o cabelo, a roupa impecável, cada detalhe que Leslie e Octavia tinham esculpido em mim, fazia com que os olhares passassem por mim sem me tocar. Eu era mais do que eu, mas também era menos. Era um reflexo controlado, uma presença silenciosa no meio da desordem.
— Alexander Duval ainda não chegou — Leslie comentou, sem tirar os olhos da multidão. — Mas quando ele aparecer, vai notar como ele vê tudo diferente de nós. Ele não olha para detalhes, apenas para as intenções.
Respirei fundo, sentindo o ritmo da festa invadir lentamente os meus sentidos. O som do piano, o murmúrio das conversas, o perfume caro a flutuar no ar — tudo isso parecia distante, como se eu observasse de dentro de uma bolha de vidro.
— Estou a sentir-me estranho — admiti, baixinho. — Parece que todos estão vivos, e eu estou parado.
Leslie inclinou-se para mim, o olhar firme mas o sorriso mais radiante que alguma vez me dera.
— Isso, Adrian, é poder — disse. — Silêncio no meio do caos. Não é sobre ausência, é sobre controlo. E, acredite, é muito mais difícil de conquistar do que parece.
Segurei o ar, absorvendo cada palavra e cada detalhe. Ao longe, uma risada estourou, e por um instante, senti-me separado de tudo. Mas Leslie tinha razão, no meio do barulho, no meio da luz e do caos, eu era a linha recta que não se quebrava, o centro imóvel que todos olhavam sem perceber.
— Afinal, porque viemos? – eu questionei para Leslie, que pegara duas taças de um empregado que as transportava numa bandeja – Onde está a Valentina?
— Ela já deve ter saído – ele entregou-me uma – Champanhe?
— Mas – eu segurei na pequena taça – Ela não ia estar aqui?
— Valentina entra meticulosamente às 22h30 em todas as festas e sai obrigatoriamente às 23h15.
— Mas esta festa não é de um cliente dela?
— Meu caro, a Valentina não gosta de festas, aliás ela não gosta sequer de encontros sociais, as noites dela são passadas com o Sr. Moreau ou com a filha, Donatella.
— Ela é casada? — O meu espanto foi aparente. Leslie sorriu, dando um pequeno gole.
— Ele já é o terceiro marido dela. Primeiro divórcio em 98, o segundo em 2006. – ele revelou, nada surpreendido com as palavras dele – Eric Klamer, o agora Eric Moreau, era executivo da revista, apaixonaram-se depois de uma noite tórrida em Dezembro de 2005.
— Mas disseme que o segundo divórcio foi em 2006.
— É como o Titanic — os olhos dele iluminaram-se com uma diversão maliciosa — O impacto veio antes do afundamento oficial.
Ele segurou a risada quando me viu em choque. Pegou na taça, agora vazia, numa das mesinhas redondas.
— Aliás, o menino está na festa do seu ex-marido.
— Espere – a minha mente demorou a processar tal informação — O Alexander Duvall é o ex-marido dela?
— E pai de Donatella – ele confirmou, divertido – Nunca viu Gossip Girl?
Confirmei com um leve aceno.
— Então deve saber que árvores genealógicas editam-se com a mesma facilidade que comunicados de imprensa.
— Eles são amigos?
— Para alguns, sim – ele admitiu, encolhendo os ombros – Para outros, eles são apenas parceiros de negócios, mas bem – a mão dele estalou os dedos– vamos, Alexander Duvall espera-nos, ele tem os designs que a Valentina me pediu para pegar.
— Mas, se Valentina pediu para você pegá-los, então… porque me trouxe?
O rosto dele virou-se com um sorriso galanteador – Digamos que você precisava de um cheirinho do que a sua nova vida será… e talvez eu tenha usado isto como uma desculpa para intervir no seu guarda-roupa, estava a matar-me todos aquelas camisolas e camisas horríveis que trazia todos os dias.
— Você é uma caixinha de surpresas, Leslie.
— Je sui – ele sorriu, puxando-me cordialmente pelo cotovelo – Vamos, o Alexander deve estar neste momento a rechear-se com as suas histórias da semana da moda em Paris e champanhe caro demais que nem você e eu, em dois anos de salários, poderíamos pagar.
Vi Alexander Duval antes que Leslie pudesse dizer de quem se tratava. Ele estava encostado ao bar como se fizesse parte da decoração desde o início da noite, algo que suspeitei ser da autoria dele. Um blazer marfim impecável, camisa aberta no colarinho na medida exacta entre formal e calculadamente relaxado. A taça de champanhe repousava entre os dedos longos como extensão natural da mão. Parecia elegante demais comparado ao bom-humor que carregava enquanto falava com alguns dos convidados.
Mantinha-se excêntrico numa frequência controlada. quase como Octavia, pensei, se ela sorrisse com uma facilidade que exibisse dentes brancos demais para serem totalmente confiáveis. Havia nele um ar curioso, de quem pisaria sobre a água se alguém sugerisse que era possível, porém era certo que ainda reclamaria da temperatura.
— Adrian — Leslie disse ao meu lado, voz baixa, perfeitamente estável, ainda com humor divertido a dançar em cada palavra — vamos cumprimentar o anfitrião.
O tom dele não carregava ansiedade, apenas o habitual tom de decisão. Leslie nunca parecia atravessar um espaço, ele dominava-o sem alterar o ritmo da própria respiração. Ele poderia ter sido modelo, ou alguém muito mais influente do que a pessoa que mostrava ser.
Caminhámos até ao bar. A música era um jazz suave, discreto, quase educado demais. O chão reflectia luzes quentes que faziam tudo parecer ligeiramente mais caro do que realmente era. Ajustei os ombros sem perceber, denunciando ainda a minha insegurança.
Duval notou-nos apenas quando já estávamos próximos o suficiente para sermos impossíveis de ignorar.
O sorriso surgiu primeiro ao reconhecer Leslie.
— Leslie Beaumont — disse, abrindo os braços com uma teatralidade que flertava com exagero, mas nunca ultrapassava a linha. — Sempre pontual, começo a suspeitar que programa o mundo à sua volta.
A voz era agradável, envolvente, com um leve sotaque francês que parecia cuidadosamente preservado. Leslie apertou a mão dele com uma firmeza controlada.
— Prefiro dizer que me adapto a ele, Alexander. Parabéns pela recepção, está divertidamente elegante.
Não foi só um elogio, foi uma constatação óbvia. Em poucos dias pude notar que Leslie nunca entregava adjectivos à toa, todas as palavras dele eram perfeitamente medidas, como se soubesse exactamente qual tom, postura e cordialidade agradaria ao alvo das suas conversas.
Duval levou a mão ao peito, fingindo ofensa, ainda com um sorriso divertido nos olhos.
— Elegante? Só isso? Valentina teria usado uma palavra mais cirúrgica.
O nome dela surgiu leve, mas senti algo por baixo. Não desprezo, mas também não era admiração plena. Era algo no meio, talvez um incómodo antigo revestido de educação.
Leslie inclinou ligeiramente a cabeça.
— Valentina raramente desperdiça palavras.
— Sim — Duval respondeu, girando a taça. — Ela usa-as como bisturi.
Ele então passou a olhar para mim pela primeira vez.
Senti a avaliação antes mesmo de racionalizá-la. Os olhos dele percorreram o meu fato, a linha da gravata, o corte do cabelo, tudo até aos sapatos. Não havia julgamento, mas sim uma leitura da minha própria pessoa. Recordei as palavras de Leslie: “ele olha para todos os detalhes”.
Leslie fez a ponte com naturalidade.
— Alexander, permita-me apresentar Adrian Kane. – a mão dele descansou sob o meu ombro — Ele integra a equipa editorial da Velvet.
— Prazer, Alexander. – eu fiz um aceno educado – a sua festa está divina.
Ele apertou a minha mão com calor genuíno, mas demorou meio segundo a mais do que o necessário, como se testasse a minha firmeza.
— Valentina envia representantes interessantes ultimamente — comentou, ainda a segurar o meu olhar. — Está a promover a juventude ou a testar resistência?
Sorriu ao dizer isso, aberto e simpático. Mas havia uma ponta ali, era quase uma pequena lâmina escondida sob seda.
Ele não critica directamente, ele provoca, pensei eu comigo
Leslie respondeu com suavidade exemplar.
— Valentina aprecia precisão. O Adrian tem sido preciso.
O elogio atingiu-me de forma estranha. Leslie raramente afirmava algo com essa clareza e este fora o primeiro elogio dele sobre mim.
Duval ergueu uma sobrancelha.
— Precisão – a palavra dançou-lhe na boca com um gosto agridoce — Ela sempre preferiu isso ao entusiasmo. — Tomou um gole lento do champanhe. — Embora entusiasmo venda melhores manchetes.
Percebi que ele falava de moda, mas talvez não só.
— Talvez o equilíbrio seja mais interessante — respondi.
A minha voz saiu estável; internamente, eu media cada palavra. Não queria soar defensivo, nem ambicioso demais. Duval inclinou a cabeça, a estudar-me.
— Gosto disso. — O sorriso agora era menos performático. — Você fala pouco, mas não se esconde. Isso é raro perto dela.
Perto dela. Não “na Velvet”. Perto dela. A minha curiosidade fez-me pensar em questionar Leslie sobre a real relação entre Valentina e ele. Algo me dizia que não era tão amigável como ambos faziam parecer.
Ele então caminhou até uma mesa lateral onde uma pasta de couro repousava sob iluminação direccionada. Os movimentos, fluidos demais para serem casuais, pareciam mais ensaiados, mas não chegavam a denunciar qualquer indício de artificialidade.
— Trabalhei nos ombros como ela pediu — disse, abrindo a pasta e revelando os seus rascunhos. — Mais estrutura e menos concessões dramáticas… enfim, um aborrecimento.
Observei os desenhos. Silhuetas mais firmes, linhas que impunham presença. Pensei que Valentina aprovaria. Não com entusiasmo. Com aquele silêncio que significa “continue”.
— Ela vai notar o ajuste — comentei.
Duval olhou-me de lado.
— Você já entende o que ela nota? — perguntou, divertido. — Impressionante. Levei anos a traduzir aquele silêncio. – ele encheu-se agora de pura malícia – Obviamente fui tarde demais, o divórcio foi iminente.
Havia humor ali. Mas também algo como cansaço.
— Estou a aprender — respondi.
— Cuidado — ele disse, fechando a pasta com delicadeza. — Aprender depressa demais sob a tutela de Valentina costuma gerar expectativas irreversíveis.
Leslie recebeu a pasta das mãos dele.
— Expectativas fazem parte do processo quando o padrão é elevado.
Esse era Leslie, sempre educado e sempre estável. Ele funcionava como amortecedor de qualquer tensão.
Duval soltou uma risada breve.
— Você continua diplomaticamente impecável. – os olhos dele agora corriam-no com um divertimento genuíno — É quase irritante.
Ele voltou-se para mim uma última vez.
— Adrian, foi um prazer inesperado. Continue preciso. Mas não deixe que transformem a sua ambição em silêncio absoluto. – ele pegou em mais uma taça de champanhe que fizera sinal para que trouxessem — A moda já tem pessoas contidas demais.
Ele tinha usado “ambição” e não “entusiasmo”. Algo me sussurrava que ele havia escolhido a palavra com cuidado. Fiquei a pensar se aquilo era um conselho sincero ou uma tentativa subtil de plantar dúvida.
Assenti.
— Vou ter isso em mente.
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