Dolce & Desastre
6 Dolce & Flerte
Quando nos afastámos, senti o peso do encontro não como uma ameaça contida, mas sim como uma advertência elegante. Duval era simpático demais para ser ingénuo e crítico demais para ser apenas cordial. Ao meu lado, Leslie caminhava com a mesma postura impecável de sempre, como se nada tivesse sido dito além do necessário. Apenas seguiu em linha recta, como se a conversa com Duval tivesse sido protocolar e nada mais. A mão livre repousava atrás das costas, postura impecável, expressão neutra o suficiente para não denunciar opinião alguma.
Esperei até o som das risadas próximas diluir qualquer hipótese de sermos ouvidos.
— Ele não gosta dela — murmurei, mantendo o olhar fixo numa escultura abstracta perto da janela. Leslie ajustou discretamente o punho do blazer num gesto mínimo, quase automático.
— Alexander gosta de ser indispensável. Valentina aprecia independência. – os olhos dele entregaram um cansaço dramático, como se tivesse presenciado o drama vezes demais — É uma tensão antiga.
O tom dele era leve, quase entediado, mas eu já sabia que leveza em Leslie nunca significava desatenção. Ele registava tudo de uma forma divertida, mas sempre com um toque de um desprezo comovente.
Passámos por um grupo próximo das janelas panorâmicas. A cidade lá fora parecia um quadro de luzes disciplinadas. Dentro, o ar estava morno demais, perfumado com fragrâncias caras que competiam silenciosamente entre si. Um homem alto demais para o próprio smoking ria alto, inclinando-se para a frente enquanto falava, como se a própria opinião fosse espectáculo.
Leslie inclinou ligeiramente o queixo na direcção dele.
— Matteo Rinaldi. Fotógrafo brilhante com um ego proporcional ao ISO que usa. – ele soltou uma risadinha baixa — Está na terceira separação amigável em dois anos.
Observei Matteo a gesticular, dedos abertos, sorriso largo demais.
— Ele parece feliz.
Leslie soltou um pequeno sopro pelo nariz, quase um riso.
— Ele é excelente em parecer que está.
Uma mulher de vestido verde-escuro estava perto do bar secundário. Coluna erecta demais, sorriso estático, mão pousada no braço que Leslie dissera ser um editor americano. Era quase como se marcasse território.
— Camille Duret — Leslie comentou, sem eu precisar de perguntar. — Relações públicas de metade das maisons francesas. Sabe todos os segredos e arquiva todos com juros.
Ela ria, mas os olhos mantinham-se frios.
— Ela parece perigosa.
— Ela é educada — Leslie respondeu. — O que a torna pior ainda.
Um empregado passou por nós com uma bandeja prateada. Peguei numa taça. O vidro estava frio demais contra os meus dedos. O líquido, quase incolor sob a luz, parecia inofensivo. Não era. Eu tinha de ter cuidado com o meu índice de álcool esta noite.
— E aquele? — perguntei discretamente, apontando com o olhar para um homem mais velho, impecável, parado como se estivesse acima do fluxo da festa.
Leslie nem virou completamente o rosto.
— Bernard Lefèvre. Investidor que grita ser um adepto de criatividade e amor à arte — a voz dele denunciou uma pontada de nojo — Tudo o que ele apoia são margens de lucro.
Bernard não sorria. Apenas observava.
— Ele parece estar a avaliar tudo.
— Ele sempre está.
Leslie tomou um gole pequeno, controlado.
— Inclusive você. Não olhe agora.
O meu instinto foi exactamente o oposto. Contive.
A música mudou para algo ligeiramente mais animado. Um saxofone atravessou o salão como comentário sofisticado demais para ser casual. Algumas pessoas aproximaram-se do centro, outras recuaram estrategicamente.
— Regra básica — Leslie disse, entregando-me outra taça quando percebeu que eu tinha esvaziado metade da primeira depressa demais. — Nunca beba com pressa. Nunca esteja sem copo. E nunca pareça impressionado.
Observei um grupo a rir perto de Duval. Ele tocava no braço de um convidado enquanto falava, íntimo demais para ser coincidência.
— Mesmo quando estiver? — perguntei.
Leslie arqueou levemente a sobrancelha.
— Especialmente quando estiver.
Silêncio breve. Eu começava a perceber que aquela festa funcionava em camadas. O que era dito importava menos do que quem estava a ouvir.
— E quem aqui odeia quem? — arrisquei.
Leslie girou a taça, observando as bolhas subirem.
— Pergunta mais produtiva.
Ele apontou discretamente.
— Matteo acha que Duval o subestima. Duval acha que Matteo dramatiza. Camille já vazou algo que envolvia Bernard. Bernard fingiu esquecer. E todos aqui comentam que Valentina é fria demais.
— E ela é…
Leslie inclinou ligeiramente a cabeça, a avaliar a minha expressão antes de responder.
— Ela é consistente.
O uso da palavra foi deliberado, totalmente ausente de qualquer defesa ou crítica. Observei Duval novamente. Ele ria, mas os olhos procuravam algo além do grupo imediato.
— Ele quer a aprovação dela — comentei.
Leslie assentiu uma vez.
— Todos querem.
Fez uma pausa, longa o suficiente para pesar.
— A diferença está em como reagem quando não a recebem.
A música subiu um pouco. Um brinde começou a ser organizado perto do centro. Empregados alinharam-se quase coreografados.
Leslie inclinou-se levemente para mim, voz baixa.
— Observe mais do que fala. Se lhe perguntarem a sua opinião, entregue metade. O suficiente para parecer relevante. Nunca o bastante para ser vulnerável.
O conselho veio acompanhado de um olhar directo, mas firme.
— Alguma fofoca a mais que queira contar, Leslie?
Leslie sorriu para mim, divertido – Estou a ver que não sou o único apaixonado pelos gossips do mundo da alta-costura — a sua mão moveu-se para a esquerda obrigando-me a seguir o gesto -Está a ver aquele casal perto do piano?
Um homem grisalho, impecável, e uma mulher muito mais jovem, postura rígida e um sorriso calculado.
— Donatien Morel, editor europeu. Publicamente defensor da diversidade. Privadamente, despediu metade da equipa quando um assistente expôs comentários racistas num jantar fechado.
Senti um leve desconforto.
— E ainda está aqui?
— Está a financiar a próxima edição sustentável de três revistas. — Leslie deu de ombros. — Redenção patrocinada.
O piano começou a tocar uma melodia lenta. Algumas conversas diminuíram de volume, mas os olhares continuavam atentos.
— E escândalos mais… explícitos? — arrisquei de novo.
Leslie soltou uma risada baixa e elegante.
— Matteo sabotou um ensaio inteiro de um colega apagando ficheiros “acidentalmente”. Camille já destruiu uma candidatura a directora criativa vazando fotografias antigas estrategicamente recortadas. E Bernard financia discretamente uma marca concorrente da própria Duval.
Parei por um segundo.
— Duval sabe?
— Suspeita. — Leslie girou a taça. — É por isso que hoje ele está particularmente generoso.
— Está a ver aquela mulher ali cujo penteado parece saído de um catálogo de tintas? – os meus olhos correram o espaço, não foi difícil encontrar quem se tratava. Leslie continuou quando viu que os meus olhos se pousaram nela – Margie Dovan, dona de uma das marcas mais influentes da Europa e casa com aquele homem ali — a sua mão desviou para um senhor alto, cabelo grisalho, já com algumas rugas — Perdeu metade dos patrocínios quando foi apanhada num momento íntimo com um funcionário vinte anos mais novo num hotel de luxo no Havai.
— A sério?
— Mais tarde descobriu-se que ela e o marido, afinal, brincavam juntos com o jovem – ele sorriu – Hoje ele é um famosíssimo designer de interiores depois de ter vendido a sua história traumática a sete revistas diferentes.
Olhei para o bar. Duval ria novamente, inclinando-se sobre alguém, teatral, carismático.
— E Valentina? — perguntei, mais baixo.
Leslie lançou-me um olhar de lado.
— O maior escândalo dela é nunca ter tido um. — Fez uma pausa. — O que, para muitos aqui, é quase imperdoável. Duval nunca expôs a traição, o que, para alguns, foi misericórdia.
— Não foi?
Leslie revirou os olhos – Ele precisa muito mais dela do que ela dele.
O comentário ficou suspenso entre nós.
— Terei de procurar a casa de banho antes que este champanhe decida vingar-se da minha bexiga em público. — anunciou com naturalidade impecável ao fim de meia hora de conversas sobre investidores que tudo o que faziam era amar o dinheiro.
O comentário saiu com um sorriso quase inocente, mas havia ali um brilho nos olhos que denunciava o quanto ele estava satisfeito com o próprio timing. Eu arqueei uma sobrancelha.
O modo como ele ajustou o casaco, alisando a lapela como se fosse atravessar um corredor editorial e não apenas um salão até à casa de banho, revelava que talvez o champanhe tivesse feito mais do que ameaçar a bexiga. Os movimentos estavam ligeiramente mais amplos, o sorriso um grau mais solto.
— Vá antes que precise de uma manchete para justificar o acidente. — murmurei.
Ele riu baixo, aproximando-se um pouco mais, o perfume refinado a misturar-se com o cheiro doce do álcool no ar.
— Divirta-se, Adrian. — disse, agora num tom mais sério, embora os olhos mantivessem ironia elegante. — Converse e observe. Não pareça disponível demais, mas também não pareça aborrecido. – ele rodou nos próprios sapatos — E, pelo amor da estética, mantenha os ombros direitos, você não passou uma hora a preparar-se para parecer inseguro.
A mão dele subiu ao meu colarinho por um segundo, ajustando algo que não precisava de ser ajustado, num gesto mínimo.
— E não aceite reuniões depois das duas, raramente são sobre trabalho.
Antes que eu pudesse responder, ele já se afastava, atravessando o salão com aquela postura naturalmente erecta, cumprimentando duas pessoas no caminho como se estivesse ali por dever diplomático e não por capricho de Valentina.
Fiquei sozinho.
O barulho da festa parecia maior sem o comentário constante de Leslie ao meu lado. Risadas altas demais ecoavam sob o tecto da penthouse, música electrónica elegante preenchia os espaços entre conversas, taças tilintavam em intervalos regulares. A varanda chamava pelo contraste, menos luz, menos ruído, mas com um ar ligeiramente mais respirável.
Caminhei até lá.
A noite recebeu-me com um frio contido, suficiente para arrepiar ligeiramente a pele do pescoço. A cidade estendia-se abaixo como um tapete de luzes indiferentes, onde arranha-céus piscavam em padrões quase hipnóticos, e o reflexo do vidro atrás de mim devolvia a minha imagem em duplicidade, o Adrian perfeitamente composto e o outro, aquele que verificava o telefone pela terceira vez em menos de dois minutos.
Nenhuma mensagem.
O nome de Allan permanecia estático no ecrã. O silêncio mantinha-se, sem qualquer resposta. Engoli em seco e bloqueei o telemóvel, guardando-o no bolso interior do casaco como se pudesse guardar também a sensação incómoda que se acumulava no peito.
— Investidor ou curador?
A voz surgiu ao meu lado com segurança suficiente para não parecer invasiva. Virei o rosto devagar.
Ele era… preciso.
O cabelo negro tinha um volume natural, ligeiramente desalinhado pelo vento, mas de uma forma que parecia intencional. Os olhos, verdes, de um tom puro e quase luminoso sob a luz indirecta da varanda, observavam-me com curiosidade aberta, mas não agressiva. O maxilar bem marcado sustentava um sorriso fácil, mas não displicente. Havia nele uma confiança que não gritava, simplesmente ocupava espaço de uma forma deslumbrante.
O fato azul profundo ajustava-se aos ombros largos com perfeição. A postura era relaxada, mas não frouxa, pois ele mantinha o peso distribuído com equilíbrio, como alguém habituado a ser observado e a observar de volta. As mãos descansavam no bolso das calças por um segundo, antes de uma delas surgir para segurar a própria taça, num gesto contido, mas elegante.
— Nenhum dos dois. — respondi, sustentando o olhar. — Departamento de Design da Velvet.
Vi a surpresa atravessar o rosto dele num movimento breve, sobrancelhas que se elevaram milímetros e os lábios que se comprimiram num cálculo rápido.
Ele avaliou-me outra vez, agora com outro tipo de interesse. Não era social, mas sim profissional… ou talvez algo além disso.
— Interessante. — disse, aproximando-se um passo mínimo, suficiente para eu perceber o perfume amadeirado, limpo e equilibrado. — Eu imaginaria outra coisa.
O modo como inclinou ligeiramente a cabeça revelava que estava a recalibrar a própria leitura. Ele não parecia o tipo de homem que errava categorizações com frequência.
— Isso é elogio ou subestimação? — perguntei.
Um sorriso lento surgiu, desenhando linhas subtis nos cantos dos olhos verdes.
— Curiosidade. — corrigiu. — Mathew Blake — anunciou, estendendo-me a mão — Director de arte da Lorain.
O nome encaixou imediatamente. Eu já tinha ouvido o nome da revista em reuniões, sempre associado a campanhas ousadas e capas discutidas com entusiasmo irritante.
Apertei a mão dele. O aperto era firme, mas não esmagador.
— Adrian Kane.
Ele repetiu o meu nome como se testasse a sonoridade, a voz um tom mais baixo, quase íntimo, embora a música ainda vibrasse atrás do vidro.
— Então é parte do cérebro da Velvet. — comentou, observando-me de cima a baixo sem pressa, mas sem vulgaridade. — Não parece alguém que fique apenas nos bastidores…
— Não?
— Se dependesse de mim? – um sorriso perigoso formou-se ali — Pode apostar que não.
O peso da frase não passou despercebido. Ele não piscava demais, não desviava os olhos, apenas mantinha contacto visual com uma naturalidade desarmante.
Senti o impulso quase automático de mencionar Allan antes que a conversa se inclinasse demais para territórios ambíguos.
— Tenho namorado. — disse, com calma deliberada.
A reacção dele foi… interessante.
O sorriso não desapareceu. Apenas mudou. Tornou-se mais contido, quase divertido. Ele apoiou um dos ombros na balaustrada, cruzando os braços com leveza, postura aberta, não defensiva.
— Claro que tem. — respondeu, como se aquilo confirmasse uma hipótese silenciosa.
Os olhos verdes brilharam sob a luz da cidade, e não havia ali frustração, apenas um reconhecimento elegante do limite traçado.
— Isso soa a estereótipo.
— Não — ele respondeu, apoiando os cotovelos na balaustrada. — Soa a alguém que já parece emocionalmente comprometido antes mesmo de falar.
Havia algo inteligente ali. Quase observador.
— E isso desencoraja-o? — perguntei.
Ele inclinou o corpo ligeiramente na minha direcção.
O vento passou entre nós, movimentando discretamente o tecido do meu casaco. Lá dentro, alguém riu alto demais.
O meu telemóvel continuava em silêncio no bolso.
.
Olhei-o de novo. O cabelo preto caía sobre a testa de forma casual, mas a simetria perfeita do maxilar e a postura erecta denunciavam disciplina e cuidado, e cada gesto nele era natural porém carregado de uma elegância difícil de ignorar.
— Então… trabalha nos bastidores da Velvet — disse, a voz baixa, quase a sussurrar, mas cheia de um peso subtil, como se cada palavra fosse polida antes de sair, mas não menos divertida — deve ser… interessante observar tudo sem realmente estar no centro do furacão.
Inclinei ligeiramente a cabeça, a estudar a expressão dele. Aquele sorriso, discreto, mas matematicamente bonito, mostrava que ele sabia exactamente o efeito que causava, e que estava atento a cada nuance da minha reacção.
— Interessante, sim — respondi, tentando soar firme, consciente do calor que subia pelo pescoço. — Mas também é preciso saber onde colocar os limites.
Ele soltou um riso suave, quase musical, os dentes brancos a contrastar com o tom bronzeado da pele, e recostou-se ligeiramente, os olhos verdes fixos nos meus, a avaliar cada sílaba.
— Limites são importantes — concordou — mas também são… maleáveis.
— Às vezes, eles esticam-se mais do que imaginamos.
O modo como ele dizia aquilo não era agressivo nem sugestivo demais. Havia uma habilidade refinada em provocar curiosidade sem ser invasivo, um flerte que se insinuava pelo olhar, pelo tom e pela postura impecável. O vento da noite fazia o cabelo dele mover-se ligeiramente, e cada detalhe, da curva do ombro ao jeito como encostava a mão no parapeito, parecia coreografado para manter a minha atenção.
— Maleáveis, huh? — murmurei, deixando a voz baixa e medida, como quem testa até onde a conversa podia ir. — Cuidado, posso não gostar de surpresas.
Ele arqueou uma sobrancelha, os olhos a brilharem com malícia contida, mas o sorriso manteve-se educado, elegante, sem nunca se transformar em algo vulgar. Ele de um passo, ficando mais próximo.
— Eu diria que surpresas, quando bem calculadas, podem ser… instrutivas. — A ênfase na última palavra era quase imperceptível, mas carregava intenção, uma provocação subtil que fez a minha respiração ficar ligeiramente mais rápida.
Havia algo na postura dele, o modo como inclinava o corpo, os ombros relaxados, a expressão suave, mas intensa, que fazia cada frase parecer mais profunda e mais envolvente do que realmente era. E, mesmo sabendo que eu tinha namorado, mesmo sabendo que aquela interacção devia ser apenas superficial, era impossível não me deixar absorver pelo magnetismo dele. Por um instante, quase me permiti entrar no jogo: inclinei-me ligeiramente para a frente, soltando um sorriso mais largo, o tipo que podia ser confundido com flerte, mas era só o mei uso barato e mal usado de charme. A luz da varanda batia em Mathew, ressaltando cada ângulo do rosto, desde do brilho dos olhos verdes, a à linha firme do maxilar, ao gesto quase imperceptível de um músculo do braço a contrair-se quando eu me aproximei e, por um segundo, o mundo pareceu reduzir-se àquela tensão elegante e silenciosa entre nós.
— Parece que realmente sabe manter a postura — murmurei, deixando o sarcasmo escorrer por entre as palavras, mas o tom carregava uma ponta de desafio, quase convidativa.
Ele sorriu, um sorriso que não escondia o entusiasmo, mas que também não ultrapassava a linha da cortesia.
— E você sabe provocar — respondeu, baixo, medido, onde cada palavra sabia o suficiente para sugerir interesse, mas sem jamais invadir o espaço.
Porém, antes que a situação pudesse estender-se, o meu pensamento voltou-se para Allan, para a segurança e a confiança que tínhamos construído, para o facto de que flertar mais não seria apenas arriscado, seria desleal. Senti o ar da varanda tornar-se pesado, quase sólido, e percebi que precisava de encerrar o jogo com elegância.
Endireitei-me, dei um passo atrás, mantendo o sorriso, mas tornando-o mais curto, educado e controlado, deixando que a postura dissesse mais do que palavras podiam. — Mathew, foi… interessante conversar consigo, mas preciso de ser honesto — continuei, a voz firme, o olhar directo e sem qualquer resto de crueldade. — Tenho alguém especial, e esta conversa não devia ir além de gentileza e tom profissional.
Ele franziu levemente a testa, mas, em seguida, um sorriso divertido formou-se nos lábios, daquele tipo que dizia: “Ah, então é mesmo fiel, interessante”, e mesmo assim não havia ressentimento, apenas curiosidade e admiração silenciosa. — Respeitável — disse, inclinando a cabeça ligeiramente, o cabelo escuro a balançar suavemente, — e ainda assim, intrigante.
Pela primeira vez desde que ele surgira ao meu lado, senti que conseguia respirar sem medir cada centímetro do espaço entre nós.
— O seu namorado deve ser interessante — acrescentou ele, sem ironia, apenas constatação.
A palavra namorado ecoou com um peso estranho no peito. Assenti, tentando manter firmeza na voz.
— Ele é.
Mathew estudou a minha expressão por meio segundo a mais do que seria socialmente necessário. Depois levantou a taça num gesto leve.
— Então espero que ele saiba que tem alguém que entende perfeitamente onde colocar os limites… e como defendê-los.
— Estou a interromper? – a figura de Leslie surgiu ao meu lado. Mathew inclinou-se ligeiramente, num gesto que misturava simpatia e reconhecimento, e com uma leve reverência dramática, mas totalmente mergulhada em diversão, disse apenas:
— Leslie. Que surpresa agradável — a voz era calorosa, quase íntima, mas ainda assim refinada, um timbre que não se esquecia facilmente.
Fiquei em silêncio, franzindo ligeiramente a testa. O tom de familiaridade dele com Leslie era natural, mas algo em mim não encaixava. Conheciam-se? De onde?
Leslie apenas sorriu, curto e breve, com aquele ar de quem conhece o mundo e os seus segredos, e acenou com a cabeça, sem pressa de explicar nada. Mathew, por sua vez, deu um passo lateral, como quem respeita limites, e com um gesto elegante disse, quase baixinho:
— Devo dizer, Leslie, o seu protegido aqui é extraordinariamente bem apresentado — a forma como pronunciou “protegido” parecia brincadeira e elogio ao mesmo tempo, um toque subtil, refinado, que me fez corar ligeiramente.
Antes que eu pudesse reagir, Mathew inclinou-se levemente, piscando-me o olho com aquele ar de segredo partilhado, e afastou-se com a mesma elegância com que tinha chegado, desaparecendo entre a multidão da festa, deixando um rasto de curiosidade e uma leve tensão no ar.
Leslie virou-se para mim, arqueando uma sobrancelha, quase divertida, percebendo o meu olhar perdido no ponto por onde Mathew desaparecera.
— Quem era? — perguntei, ainda a sentir o peso do olhar dele nos meus ombros, a energia subtil que deixava qualquer conversa mais carregada.
Leslie soltou uma risada baixa, elegante, abanando ligeiramente a cabeça. — Mathew Blake. Trabalha na Lorain agora, mas já foi do Departamento de Design na Velvet. — fez uma pausa, a estudar o meu rosto, — Um dos mais… perspicaz, eu diria. E ainda parece achar você interessante… — Leslie parou por um instante, ajustando ligeiramente a gravata do meu fato com o olhar afiado, inclinando a cabeça como quem pesa cada palavra antes de sequer comentar. A luz do lustre reflectia-se nos olhos dele, deixando transparecer uma mistura de diversão e alerta. — Adrian, meu caro — começou, a voz baixa e firme, mas com aquele traço de ironia que sempre me fazia prestar atenção redobrada — Cuidado. Esye homem é bonito e charmoso e sabe usar cada gesto e cada palavra a seu favor. Não me surpreenderia se conseguisse arrancar suspiros até de uma estátua.
A pausa foi propositada, o tempo para que a advertência ecoasse, mas Leslie continuou antes que eu pudesse responder, os dedos leves sobre o corrimão da varanda, a postura sempre impecável:
— E se Valentina descobrir que estava a flertar com um rival… bem, meu docinho, prepare-se para o belo destrato que só ela sabe oferecer. — A forma como disse “meu docinho” fez-me contrair o lábio num sorriso involuntário, misto de reprovação e divertimento.
— Não estava a flertar — respondi, controlando o tom, tentando soar firme, mas a voz traía uma pontinha de diversão, já consciente do efeito do olhar crítico e divertido de Leslie.
— Ah, Adrian — disse, o sarcasmo elegante a escorrer em cada sílaba, os olhos a arquearem-se ligeiramente, um quase imperceptível revirar de olhos que denunciava o quanto eu não tinha hipótese de enganá-lo — Reconheço um flerte quando o vejo. Não tente enganar alguém que observa o mundo há tanto tempo quanto eu. — A voz era leve, quase divertida, mas cada palavra carregava aquela certeza tranquila de quem já viu tudo.
Segurei a respiração, tentando não mostrar que a minha fachada já tinha sido completamente lida, sentindo o ritmo do meu coração acelerar, não por medo, mas pela mistura de alerta e respeito que Leslie sempre impunha. Ele deu um passo atrás, a luz a incidir no rosto dele de forma a iluminar cada gesto calculado e cada microexpressão que se deixava escapar.
— Então, se pretende continuar a fazê-lo — acrescentou, agora inclinando a cabeça, os cantos da boca a curvarem-se num sorriso que misturava ironia e indulgência — faça-o com cuidado meu doce. Nem todos os encantos são inofensivos, e nem todos os elogios vêm sem intenção.
Observei o perfil dele, a forma como a luz da cidade recortava o maxilar perfeitamente alinhado.
— Está a insinuar alguma coisa?
Ele virou o rosto lentamente, os olhos a analisarem a minha expressão com precisão cirúrgica.
— Estou a perguntar se está bem.
A pergunta apanhou-me desprevenido. Leslie raramente perguntava algo sem múltiplas camadas estratégicas, mas ali havia uma curiosidade genuína, mesmo que escondida sob o habitual sarcasmo elegante dele.
— Eu… — hesitei, apoiando os cotovelos no parapeito. — Não sei.
Ele assentiu uma vez, como se aquilo fosse resposta suficiente.
— Allan? — perguntou, sem me olhar.
Assenti.
O silêncio entre nós não foi desconfortável. Era o tipo de silêncio que Leslie usava para permitir que as pessoas se ouvissem.
— Seis anos é tempo suficiente para duas pessoas crescerem juntas… ou para se esquecerem de como fazê-lo — disse ele, finalmente.
— Eu não quero perdê-lo.
Leslie girou a taça devagar, observando as bolhas subirem como se lesse algo nelas.
— Querer não é o mesmo que conseguir — respondeu, suave. — Mas também não é o mesmo que desistir.
Passei a mão pelo cabelo, sentindo o trabalho meticuloso de Octavia ainda intacto.
— Eu flertei… um pouco — admiti, mais baixo.
Leslie soltou um pequeno sopro pelo nariz, quase um riso contido.
— Adrian, o menino está numa penthouse cheia de egos inflados, álcool caro e pessoas treinadas para transformar conversa em sedução. Flertar aqui é praticamente etiqueta social.
— Isso não faz parecer menos errado.
Ele lançou-me um olhar de lado.
— Errado seria se quisesse que continuasse.
Engoli em seco. Não respondi.
Leslie estudou o meu silêncio e depois pousou a mão brevemente no meu ombro num gesto rápido, quase invisível.
— O facto de estar preocupado já diz mais sobre você do que qualquer conversa naquela varanda.
A música lá dentro mudou novamente, agora mais animada. Risadas atravessaram o vidro.
— Você devia ir para casa depois disto — acrescentou ele, como quem comenta o tempo.
Olhei para ele, surpreendido.
— Acha que devo falar com ele hoje?
Leslie inclinou a cabeça, avaliando.
— Acho que devia falar com ele antes que comece a falar consigo mesmo com a voz dele.
Soltei uma pequena risada cansada.
— Isso foi estranhamente específico.
— Experiência editorial — respondeu, com um meio sorriso.
Ficámos em silêncio por alguns segundos, observando a cidade a respirar abaixo de nós.
— Vamos? — ele disse finalmente, endireitando o blazer. — Já recolhemos o que Valentina queria. E, honestamente, já absorveu drama social suficiente para uma noite.
Assenti.
Enquanto atravessávamos novamente o salão, senti os olhares voltarem a deslizar por mim. Mas agora pareciam mais distantes, menos intimidadores. Talvez porque a minha mente já não estivesse ali.
O elevador desceu num silêncio elegante. Leslie mantinha a postura impecável, mas tamborilava discretamente o dedo indicador contra a taça vazia, sinal mínimo de cansaço.
Quando as portas se abriram para o átrio silencioso, o ar frio da madrugada atingiu-me como um choque suave.
O carro já nos esperava.
Durante o trajecto, a cidade parecia mais lenta, quase adormecida. Leslie não disse nada. Apenas observava a rua, respeitando o tipo de silêncio que não precisava de ser preenchido.
Quando o carro parou em frente ao meu prédio, reparei que as luzes da sala estavam acesas.
O meu coração acelerou num reflexo imediato.
— Boa sorte, Adrian — disse Leslie, sem teatralidade desta vez. Porém estalou os dedos e tirou algo do bolso.
— Aqui — entregou-me um cartão preto — Cortesia minha.
— E isso é?
Ele olhou para mim como se a minha pergunta fosse a coisa mais idiota de se fazer — Amanhã você e eu, oito da manhã, não se atrase.
Demorei a entender.
— Vai comprar-me roupa?
— Não — ele apenas anuiu — Vou ensinar você a comprar roupa.
Assenti, sentindo a garganta seca.
Saí do carro, o frio da madrugada a atravessar o tecido impecável do casaco. Cada passo até à porta do prédio pareceu mais alto do que devia. O elevador demorou tempo demais a chegar. Ou talvez fosse só a ansiedade a distorcer segundos em minutos.
Quando finalmente abri a porta do apartamento, encontrei Allan sentado no sofá.
Ele estava acordado.
A televisão ligada sem som iluminava o rosto dele em tons azulados. O cabelo estava ligeiramente desalinhado, e havia uma caneca esquecida na mesa de centro, já fria. Ele levantou o olhar quando entrei… e ficou em silêncio por um instante mais longo do que qualquer discussão que já tivemos.
Os olhos dele percorreram o meu fato, a gravata, o cabelo perfeitamente alinhado.
— Uau… — disse finalmente.
A palavra saiu baixa, quase engolida.
Ele passou a mão pelo próprio rosto, soltando um pequeno sorriso que não chegou aos olhos.
— Estás… bonito.
O elogio pairou no ar com um peso estranho. Havia orgulho ali. Mas também distância. Como se ele estivesse a observar alguém que reconhecia… e ao mesmo tempo não.
Fechei a porta devagar, sentindo o clique ecoar pelo apartamento.
— Allan… — comecei, aproximando-me alguns passos. — Podemos conversar?
Ele assentiu, pousando a caneca na mesa com cuidado excessivo, como se precisasse de ocupar as mãos para manter a calma.
— Acho que precisamos — respondeu.
Sentei-me na poltrona à frente dele. A distância entre nós parecia maior do que a sala permitia.
O silêncio voltou, mas agora carregado de tudo o que evitámos dizer.
— Desculpa — falámos ao mesmo tempo.
Parámos.
Allan soltou um riso curto, nervoso, e passou a mão pelo cabelo.
— Podes começar — disse ele.
Respirei fundo, sentindo o peso do casaco nos ombros como se ainda estivesse na festa.
— Eu não queria fazer-te sentir deixado para trás — disse. — Eu sei que estou a mergulhar nisto tudo muito depressa… e talvez eu me tenha esquecido de te trazer comigo.
Ele observava-me com atenção, os olhos a suavizarem aos poucos.
— Eu também errei — disse Allan, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Eu tive medo… e transformei esse medo em crítica. Não foi justo contigo.
O peito apertou.
— Eu não quero que aches que precisas de escolher entre mim e este trabalho — continuou ele. — Só… eu não quero confusões por causa disso.
Levantei o olhar.
— Não vai haver.
Ele hesitou.
— Mas eu preciso de aprender quem é este Adrian também — acrescentou, olhando novamente para o meu fato, para a minha postura. — Porque ele é… diferente. E isso assusta-me um pouco.
Engoli em seco, sentindo algo a desmoronar e a reconstruir-se ao mesmo tempo.
— Ele também me assusta — admiti, quase num sussurro.
Allan soltou um suspiro longo, encostando-se ao sofá.
— Então talvez estejamos assustado juntos.
Um silêncio mais leve caiu entre nós. Familiar.
Levantei-me devagar e sentei-me ao lado dele. Os nossos ombros tocaram-se, hesitantes ao início, como se reaprendêssemos uma coreografia antiga.
— Eu ainda sou eu — disse, baixo.
Allan apoiou a cabeça de leve no meu ombro.
— Eu sei — respondeu. — Só preciso de acompanhar o ritmo.
Fechei os olhos por um instante, deixando o peso da noite finalmente dissolver-se naquele gesto simples. Allan ficou em silêncio por alguns segundos depois de tudo o que dissemos. Eu conseguia quase ouvir o peso dos pensamentos dele a assentar no ar entre nós.
Ele passou a mão pelo cabelo, num gesto cansado que eu conhecia bem demais.
— Acho que… — suspirou. — Acho que vou dormir.
Assenti, mesmo sentindo que ainda havia tanto por dizer que nenhuma noite conseguiria guardar.
— Sim… claro.
Ele levantou-se do sofá lentamente. Quando passou por mim, os olhos dele pousaram outra vez no meu visual. Não em tom de julgamento… mas com uma tristeza que me atravessou como vidro fino.
— Boa noite, Adrian. – o modo como ele disse o meu nome fez-me achar que talvez as coisas ainda não estivessem completamente resolvidas.
— Boa noite.
Observei-o desaparecer pelo corredor. O som suave da porta do quarto a fechar pareceu alto demais, como se a casa inteira tivesse decidido escutar aquele pequeno gesto.
Fiquei sozinho na sala.
Deixei-me cair no sofá, finalmente soltando o ar que parecia preso no meu peito desde que entrei em casa. Passei as mãos pelo rosto, sentindo ainda a textura da maquilhagem, o contorno que me moldava numa versão de mim que eu ainda estava a aprender a reconhecer.
O apartamento tinha o cheiro habitual, café, roupa lavada e o perfume discreto de Allan espalhado pelos móveis, pelas mantas, pelas memórias.
O meu telemóvel vibrou na mesa de centro, arrancando-me dos pensamentos.
Peguei nele, franzindo o sobrolho ao ver um número desconhecido. Abri a mensagem.
“Espero voltar a vê-lo”
O meu coração acelerou sem autorização.
Fiquei alguns segundos a olhar para o ecrã antes de responder.
“Quem é?”
A resposta chegou quase imediatamente, como se estivesse à minha espera.
“Mathew Blake”
“O que sabe manter a postura”
O nome caiu dentro de mim como o flash de uma câmara. Engoli em seco antes de escrever outra vez.
“Como conseguiu o meu número?”
Os três pontos apareceram. Desapareceram. Voltaram a surgir, numa provocação silenciosa que me fez revirar os olhos… e sorrir sem querer.
Depois, a resposta apareceu:
“Um mágico nunca revela os seus segredos.”
Soltei uma expiração pelo nariz, dividido entre incredulidade e uma curiosidade que eu sabia que podia ser perigosa. O ecrã escuro devolveu-me o meu reflexo, maquilhagem impecável, roupa que ainda cheirava a bastidores, e uma expressão que eu não sabia bem nomear. Ao longe, ouvi Allan a remexer-se no quarto. O ranger suave do colchão fez-me apertar o estômago. Não sabia se ele ainda estava acordado… nem se queria saber.
Engoli em seco, olhando novamente para a conversa aberta. De repente, senti que existiam versões demais de mim dentro do mesmo corpo.
O homem que queria consertar o que quase tinha perdido.
O que atravessou uma festa de ricos sob brindes de desconhecidos.
E agora… alguém que trocava mensagens com Mathew Blake no silêncio da madrugada.
Decidi ignorar e caminhei para junto de Allan, à espera de que talvez amanhã parte dos meus problemas desaparecessem.
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