Dolce & Desastre
7 Dolce & Ajuda
Sexta-feira começou antes mesmo de eu abrir os olhos.
O despertador tocou às seis, mas o som pareceu mais uma formalidade do que um alerta real. Eu já estava acordado, preso naquela zona suspensa entre o sono e a ansiedade produtiva. Parecia estático num estado em que o corpo ainda pede repouso, mas a mente já organiza possíveis catástrofes.
Ao meu lado, Allan dormia profundamente.
A respiração dele era lenta, ritmada, quase tranquilizadora, se eu não estivesse ocupado demais a calcular todas as formas possíveis de falhar naquele dia. A luz pálida da manhã atravessava parcialmente as cortinas, desenhando sombras suaves sobre o rosto dele, acentuando a serenidade que eu invejava com uma intensidade silenciosa. Havia algo injustamente pacífico na maneira como ele dormia, como se o mundo raramente lhe cobrasse respostas imediatas.
Levantei-me com cuidado, controlando o peso do corpo para que o colchão não denunciasse a minha fuga antecipada do conforto.
O chão frio sob os meus pés trouxe-me para a realidade com uma eficiência quase cruel. Cada passo até à porta do quarto parecia um gesto simbólico — como atravessar a fronteira entre o espaço onde eu ainda podia ser apenas humano e o território onde eu precisava de ser uma versão editada de mim mesmo.
Passei pela sala, onde a luz da madrugada se espalhava pelo sofá em linhas suaves, criando uma estética involuntariamente cinematográfica. A casa ainda guardava o silêncio íntimo de quem dorme, e por um segundo considerei voltar para a cama, esconder-me sob o calor do corpo de Allan e fingir que aquele dia não existia.
Mas o pensamento evaporou assim que entrei na cozinha.
Preparei o café como quem preparava a própria morte. O som da máquina a funcionar preencheu o espaço com uma constância reconfortante, enquanto eu alinhava mentalmente cada proposta como um advogado a rever argumentos antes de um julgamento inevitável.
Pele Nova.
Herança Editada.
Ruído.
Os nomes ecoavam dentro da minha cabeça com pesos diferentes, cada um a carregar uma versão alternativa do meu futuro dentro da revista. Nenhuma proposta parecia suficientemente segura. Nenhuma parecia suficientemente ousada. Todas carregavam aquele tipo específico de honestidade que costuma ser confundida com imprudência em ambientes onde reputações viram moeda. Tomei o café ainda demasiado quente, deixando o amargor espalhar-se pela língua como um lembrete físico de que eu estava acordado demais para recuar.
Saí de casa antes que Allan despertasse.
Parte de mim sabia que aquilo era cobardia emocional, mas outra classificava como sobrevivência estratégica. As coisas estavam demasiado frágeis ainda.
A Velvet estava mais silenciosa do que o habitual quando cheguei.
O edifício parecia acordar lentamente, como um organismo biológico a ajustar-se ao próprio ritmo interno de quem ali trabalhava. Os corredores ainda guardavam aquele eco limpo das primeiras horas, e o cheiro discreto de tecidos novos misturava-se com perfume caro e café recém-tirado da pequena máquina de cápsulas que se dispunha num dos cantos.
O departamento de design, no entanto, já respirava alerta.
Alison estava na mesa dela, como sempre, impecavelmente alinhada com o ambiente à volta, os dedos a moverem-se sobre o teclado com uma precisão que me fazia invejar a produtividade matinal dela.
—Chegas-te cedo — disse ela – E estas diferente…
A voz saiu neutra, sem necessidade de levantar o olhar imediatamente, como se o reconhecimento da minha presença fosse apenas mais um dado inserido na rotina perfeitamente calibrada dela. Os ombros mantinham uma postura direita demais para ser casual, e o reflexo do ecrã iluminava parcialmente o rosto, acentuando a concentração quase matemática com que ela parecia racionalizar.
— Esse casaco é da Dolce?
— Sim — respondi.
A palavra soou mais frágil do que eu pretendia, escapando com um leve desgaste emocional que eu não consegui mascarar completamente. Ajustei a pasta contra o peito num gesto inconsciente de auto-protecção, enquanto observava o perfil dela, à espera do tipo de resposta que Alison costumava entregar. Nada emocional, mas inevitavelmente preciso.
Ela parou de digitar por meio segundo.
— Bom o look raramente impressiona a Valentina. — O olhar dela finalmente encontrou o meu, directo e limpo, mas sem agressividade. Os dedos permaneceram suspensos sobre o teclado, como se a frase tivesse sido cuidadosamente retirada de um manual interno sobre sobrevivência corporativa. A luz fria do monitor reflectia-se nos olhos dela, tornando a expressão ainda mais analítica.
— Óptimo — murmurei baixo, quase irónico, mas senti o peso da realidade instalar-se no meu estômago com a mesma precisão com que ela entregava informações técnicas.
Passei a mão pelo cabelo num gesto rápido, tentando reorganizar pensamentos que começavam a dispersar-se antes mesmo de o dia realmente começar.
Ela inclinou ligeiramente a cabeça.
— Mas ajuda na análise.
A frase veio com uma suavidade quase pedagógica, mas o olhar manteve-se firme, como se ela estivesse a oferecer uma equação que eu precisava de resolver sozinho. O canto da boca moveu-se impercetivelmente, não o suficiente para formar um sorriso, apenas o suficiente para indicar que aquela era a forma dela demonstrar alguma empatia profissional.
Leslie apareceu minutos depois, atravessando o espaço com a confiança silenciosa de quem transforma presença em assinatura estética. Carregava uma pasta fina numa mão e duas chávenas de café na outra, movendo-se com aquela elegância que parecia ensaiada, mas nunca artificial.
Ele pousou uma das chávenas na minha mesa sem cerimónia.
O perfume dele chegou antes das palavras, notas amadeiradas com um fundo fresco que sempre me lembrava editoriais caros e decisões irreversíveis.
— Hoje já parece alguém que vai apresentar um funeral conceptual — comentou.
O olhar dele percorreu-me dos pés à cabeça com uma lentidão quase artística, analisando postura, expressão e até o modo como eu segurava a pasta. A luz da manhã atravessava as janelas laterais, iluminando parcialmente o rosto dele e acentuando aquele sorriso que nunca era totalmente inocente, mas também nunca completamente cruel.
— É reconfortante saber que tem tanta fé em mim — respondi.
Cruzei os braços numa tentativa discreta de recuperar algum controlo emocional, sustentando o olhar dele com uma firmeza que exigiu mais esforço do que eu gostaria de admitir. O calor do café subia pela chávena, aquecendo os meus dedos, a funcionar como um despertador naquele momento.
Ele inclinou a cabeça, a avaliar.
— Eu tenho fé no espectáculo. – ele sorriu — O desfecho é apenas entretenimento.
O tom manteve-se leve, mas os olhos carregavam uma inteligência afiada demais para que a frase fosse interpretada como simples humor. Ele abriu a pasta com um gesto elegante e deslizou alguns papéis na minha direcção, organizados com uma precisão quase coreográfica.
— Organizei a sua apresentação. Sequência lógica. – novamente, a imagem dos meus professores veio-me à mente — Valentina odeia quando ideias parecem improvisadas, mesmo quando o são.
Observei os papéis, reconhecendo imediatamente a estrutura fria e eficiente que eu próprio tinha evitado montar. A organização ali transformava emoção criativa em estratégia facilmente comercializável. Exactamente o tipo de tradução que separava talento de sobrevivência naquele ambiente.
— Obrigado — disse.
Levantei os olhos para ele, sentindo uma mistura desconfortável de gratidão e vulnerabilidade. Aceitar ajuda dentro daquela revista sempre parecia um gesto que criava dívidas invisíveis, difíceis de medir, mas impossíveis de ignorar.
Ele deu de ombros com uma elegância despreocupada.
— Não agradeça ainda – avisou — Eu só facilito quedas esteticamente agradáveis.
O sorriso abriu-se ligeiramente, mas o olhar permaneceu atento, quase a estudar como a frase me impactava emocionalmente por dentro. Ele apoiou uma das mãos na mesa, inclinando o corpo alguns centímetros para a frente.
Às dez e cinquenta e sete, Alison apareceu ao lado da minha mesa.
— Ela está pronta.
A voz não carregava urgência, apenas uma ordem absoluta a que eu já me tinha habituado. O tablet permanecia firme contra o corpo, e o olhar encontrou o meu com aquela neutralidade profissional que, naquele contexto, funcionava como um aviso formal de que o espectáculo estava prestes a começar.
Levantei-me, segurando a pasta com força suficiente para denunciar o nervosismo que tentava esconder. O corredor até ao gabinete de Valentina pareceu mais longo do que em qualquer outro dia. Cada passo ecoava no piso polido com uma precisão desconfortável, como se o próprio edifício registasse a minha aproximação ao julgamento inevitável; senti-me na pele de Alicia.
Parámos diante da porta.
Leslie aproximou-se e ajustou o meu colarinho com um gesto automático, quase íntimo demais para ser apenas profissional.
— Lembre-se — murmurou. A voz dele baixou alguns tons, transformando-se numa confidência estratégica. Os dedos demoraram um segundo a mais do que o necessário no tecido do meu casaco — Ela não quer ver o que você criou – avisou — Ela quer ver quem você é quando alguém tenta destruir o que você criou.
Senti a garganta secar imediatamente, enquanto as palavras se instalavam dentro do meu peito com uma clareza desconfortável. Engoli em seco. Alison bateu duas vezes na porta.
— Entre.
A voz de Valentina atravessou a madeira com uma autoridade que dispensava elevação de tom. Respirei fundo e empurrei a porta.
O ar ali dentro parecia regulamentado.
A luz natural atravessava as janelas amplas, reflectindo suavemente nas superfícies polidas da mesa e nas paredes de tom neutro, tornando cada respiração audível, cada movimento carregado de intenção.
— Adrián — disse Valentina, sem levantar os olhos. O timbre da voz era firme, mas sem elevação, carregando autoridade e paciência cruel. Sentei-me apenas quando ela fez um gesto mínimo com os dedos, sentindo o banco frio sob as minhas coxas e o coração a bater descompassado. — Está pronto, presumo.
— Sim.
Ela não respondeu logo, primeiro olhou-me de novo, agora com mais atenção, como se estivesse a verificar se era eu mesmo na sua frente.
“O look ajuda na analise”. A voz de Adison soou na minha mente como um tambor. Só depois, fez um gesto minino com os dedos autorizando para que começasse.
O som do meu próprio coração parecia alto demais dentro do silêncio. Abri a pasta.
O papel era fresco, o cheiro de tinta ainda presente, e cada slide projectado na tela parecia vibrar com a minha ansiedade e a certeza de que tudo podia ser julgado em segundos.
— A edição especial parte do conceito de reinvenção como processo interno antes de manifestação externa — comecei, relembrando todas as notas que ensaiei com Leslie; porém, a minha voz saiu mais firme do que eu esperava, mas o ar carregado à volta fazia-me sentir que qualquer hesitação seria imediatamente captada. Ela levantou o olhar lentamente.
Os olhos dela pareciam armas prontas a disparar. Observavam-me não apenas como indivíduo, mas como um livro prestes a receber uma crítica literária. Cada linha do meu rosto, cada pausa, cada escolha de palavra parecia ser medida contra padrões invisíveis que só ela possuía.
Projectei o primeiro slide.
A luz do projector iluminou a sala com tons suaves de creme e cinzento, revelando referências arquitectónicas precisas, texturas de couro leve e cortes de alfaiataria desconstruída com uma subtileza que só se revelava ao olhar prolongado. Agradeci a Leslie por me ter ajudado antes de iniciar qualquer discurso:
— R1. Pele Nova – comecei. — A proposta trabalha transformação silenciosa. Mudanças que acontecem sob superfícies aparentemente estáveis, onde a narrativa visual foca o contraste entre rigidez estrutural e fluidez inesperada.
Valentina cruzou as mãos sobre a mesa.
O gesto era preciso, medido, e o olhar permaneceu fixo nos slides, cortando qualquer tentativa de distracção. Parecia absorver cada detalhe com a paciência de alguém que sabe exactamente o que procura.
— Comercial — disse apenas. A palavra saiu como um diagnóstico clínico.
Octavia inclinou ligeiramente a cabeça, analisando as imagens com interesse técnico, os olhos a medir ângulos e proporções, enquanto Noah rabiscava algo no bloco. Avancei.
Senti o peito apertado, o pulso a latejar levemente; os dedos tremeram antes de clicar para o próximo slide.
— R2. Herança Editada.
As imagens mudaram. Agora, localizações clássicas surgiam em contraste com cortes contemporâneos, referências históricas reorganizadas com cuidado quase obsessivo, mantendo respeitosamente o passado.
— A reinvenção aqui não elimina a origem — novamente as notas de Leslie soaram na minha mente — Ela reprograma a tradição dentro de um contexto actual.
Valentina apoiou o queixo nos dedos.
O gesto revelou uma pausa de análise silenciosa e os olhos mantiveram-se fixos nas imagens como se cada pixel carregasse a minha certidão de óbito.
O silêncio que se seguiu parecia uma sala de cirurgia à espera de incisão. Senti o peso da atenção de todos os presentes. O ar tinha uma textura quase espessa, quase palpável, como se cada respiração pudesse desestabilizar a cena inteira.
Respirei fundo antes de mudar para o último slide.
O gesto foi deliberado, marcando a preparação para a proposta que me fazia mais vulnerável.
— R3. Ruído.
A tela revelou sobreposições, movimento, silhuetas fragmentadas, fotografia com desfocagem calculada. Cada imagem parecia pulsar com instabilidade controlada, mostrando transformação como uma colisão iminente.
— Esta proposta aborda reinvenção como consequência do impacto. Identidade construída em colisão com circunstâncias externas. Esteticamente menos confortável. Narrativamente mais honesta.
O silêncio tornou-se absoluto.
Até o vento que entrava pela janela parecia suspenso, respeitoso, como se também ele aguardasse a reacção final da crítica máxima.
Valentina levantou-se.
O som da cadeira a deslizar ecoou com elegância ameaçadora pelo gabinete, cada rangido metálico a marcar a gravidade do momento.
Ela caminhou até ao ecrã, observando cada imagem com atenção metódica. A luz da janela delineava a silhueta dela como uma escultura quase precisa e inatingível.
— Pele Nova é segura — disse, ainda de costas para mim. Caminhou alguns passos para o lado. Os saltos ecoavam contra o chão de madeira polida, transformando cada movimento em sentença silenciosa. — Herança Editada é inteligente.
Parou diante do último painel.
O corpo erguido, os ombros direitos, a expressão calma, mas penetrante.
— Ruído é perigosa.
O meu pulso acelerou. Exactamente as palavras de Leslie. Senti o peso de cada olhar na sala, a tensão a vibrar nas paredes como cordas tensas prestes a romper.
Ela virou-se lentamente.
O movimento foi calculado, cada detalhe parecia medido para me impactar.
— Qual delas quer defender?
O ar pareceu rarear. Cada batida do coração ecoava nos meus ouvidos. As três propostas atrás dela eram agora mais do que ideias; eram versões de mim que eu estava disposto a expor à crítica de alguém que podia destruir tudo com um gesto ou uma única palavra.
— Ruído — respondi.
Octavia ergueu as sobrancelhas. Noah parou de escrever, os olhos fixos na minha escolha, a avaliar a coragem ou a imprudência que eu acabara de declarar. Leslie apenas sorriu.
Valentina caminhou até mim com passos lentos, calculados.
O perfume frio e preciso dela chegava primeiro, anunciando cada passo antes de os saltos marcarem o chão.
— Porquê? — A pergunta não era sobre moda. Era sobre a minha convicção e a minha capacidade de sustentar uma escolha que podia ser desastrosa.
Sustentei o olhar dela. Senti a pressão de cada segundo, o peso do julgamento silencioso, o ar pesado de expectativas invisíveis.
— Porque reinvenção real raramente é elegante.
O silêncio instalou-se novamente, mais pesado, mais atento. Cada músculo do meu corpo estava consciente, cada respiração medida, cada gesto potencialmente interpretado como coragem ou fraqueza. O espaço entre nós pareceu diminuir, comprimindo a tensão em cada centímetro, cada movimento calculado.
— Entende que esta escolha pode destruir a sua credibilidade se for executada com mediocridade?
A voz era baixa. Controlada e assustadoramente precisa quando saía da boca dela. Cada sílaba perfurava o ar como uma navalha invisível, cortando qualquer hipótese de hesitação.
— Entendo.
Ela manteve o olhar preso ao meu por longos segundos, como se testasse a resistência de um material antes de o aprovar para produção. O tempo parecia ter desacelerado, e cada fracção de segundo vinha acompanhada de uma atenção absoluta.
Então, muito lentamente, ela assentiu.
— Óptimo.
Caminhou de volta para a mesa. O som dos saltos sobre o piso parecia uma sentença a ser redigida — Prepare a apresentação executiva completa até à próxima segunda-feira. Casting preliminar, direcção fotográfica, orçamento estimado e cronograma de produção.
O meu estômago contraiu-se. Sentimento de pressão imediata, mistura de excitação e medo, como se cada célula do meu corpo entendesse que não havia margem para falha.
— Segunda?
Ela ergueu os olhos. O olhar perfurava-me de forma tão precisa que qualquer tentativa de desculpa parecia inútil. O tom ficou ainda mais nu — Uma semana.
Endireitei a postura. Cada fibra do meu corpo lembrava-me da disciplina que precisava de ter para sobreviver naquele ambiente. Ela fechou o tablet.
— Leslie supervisionará — acrescentou. — Se falhar, a falha será exclusivamente dividida pelos dois. – Os olhos foram agora para ele – Entendido, Leslie?
— Obviamente – ele sorriu apenas, cordial. Ao contrário de mim, ele parecia calmo.
Levantei-me quando ela fez um gesto de dispensa.
O movimento era elegante e absoluto.
— Adrián.
Parei antes da porta. O corredor parecia ter encolhido, a luz a reflectir sobre a madeira polida com intensidade aumentada, cada sombra a alongar-se como um aviso.
— Reinvenção exige destruição selectiva — disse ela, com aquele tom neutro que carregava ameaças e elogios simultaneamente. — Certifique-se de saber o que está disposto a perder.
Saí do gabinete com a sensação de que o corredor tinha encolhido.
O eco dos meus próprios passos parecia estranhamente alto, cada batida a lembrar-me do peso do que acabara de aceitar.
Leslie estava encostado à parede, exactamente como da última vez.
O sorriso dele não era só de aprovação; era uma observação curiosa, como quem assiste a um teste crucial a ser desempenhado.
— Então? — perguntou.
Respirei fundo. O ar parecia mais leve, carregado do queixo à cabeça, enquanto cada célula procurava equilíbrio entre medo e adrenalina.
— Eu sobrevivi.
Ele sorriu devagar. O gesto era lento, quase felino, carregado de uma avaliação silenciosa que podia ser tanto elogio quanto advertência.
— Não, meu doce… — disse, empurrando-se da parede com elegância quase felina. — Agora o menino começou a jogar.
O dia virou semana sem que eu percebesse exactamente como. Leslie e eu tornámo-nos uma espécie de dupla coreografada. Cada passo do editorial, cada enquadramento, cada folha de orçamento ou casting era estudado, revisto e reconstruído com uma precisão quase obsessiva. As manhãs começaram cedo, o café da cozinha partilhado entre olhares calculados e risadas contidas. Leslie tinha um jeito de transformar tarefas tediosas numa espécie de ritual performativo. Íamos aos armazéns de tecidos antes que qualquer loja abrisse, cheirávamos couros e lãs como se cada fibra pudesse decidir o sucesso do conceito. Montávamos moodboards no estúdio da Velvet, iluminados por janelas altas que filtravam a luz cinzenta de Inverno e transformavam o pó em partículas dançantes, como pequenas estrelas a cair sobre cada croqui.
Entre uma prova de iluminação e uma amostra de tecido, Leslie fazia comentários que me irritavam e encantavam na mesma medida.
— Se a cor não brilhar sob o fluorescente, nem pense em usá-la — dizia ele, inclinando a cabeça e examinando cada tom.
— Está bem, mas e se… — começava eu, e ele interrompia com um sorriso quase cruel. — Não há “e se” aqui, Adrián. Só há o que funciona.
No meio de tudo, a vida com Allan estabilizou-se, de forma surpreendente. As manhãs de preguiça, os cafés lentos e silenciosos, os passeios que antes pareciam planos frágeis, começaram a tornar-se menos desconfortáveis, ainda que raros, já que eu passava os meus dias dentro da Velvet. Ele ria com algumas coisas que eu contava, que eu próprio mal percebera como engraçadas. Na maioria das noites, eu ficava apenas a observá-lo dormir e, pela primeira vez em meses, senti que a casa era um lugar seguro, e não um campo minado.
Mas, no meio dessa aparente harmonia, notei algo diferente. Um espaço que antes não existia entre nós. Parecia uma distância subtil, como se uma parte dele tivesse passado a observar o que eu era agora, o ritmo que a Velvet me impunha e o olhar exigente de Valentina que ainda queimava na memória. Allan estava ali, mas eu percebia que ele hesitava antes de se aproximar. Que media cada gesto, cada comentário, talvez com medo de me quebrar ou de se perder no que eu estava a construir para mim mesmo.
Os finais de tarde foram preenchidos por longas revisões. Leslie e eu testávamos luzes em ângulos improváveis, fotografávamos manequins em poses instáveis, reavaliávamos tecidos que, sob a lente da câmara, contavam histórias diferentes das que esperávamos. Cada ensaio parecia um jogo silencioso de paciência, de resistência e de audácia.
Eu adorava isto. Gostava do caos controlado, do poder que vinha de criar algo que podia ser perfeito, ou perigosamente imperfeito, mas sempre meu. E, no entanto, em cada conquista, em cada slide aprovado, eu sentia a sombra daquela distância crescente entre mim e Allan.
Não havia palavras sobre isso. Apenas gestos medidos, olhares que demoravam mais do que deviam, abraços que pareciam calculados e risos que não chegavam aos olhos. Era estranho. Doloroso, mesmo que subtil. E, no fundo, eu sabia que essa distância não era dele; era o reflexo do que eu me tornara, das escolhas que fazia, das batalhas que lutava fora de casa e que, inevitavelmente, me transformavam dentro dela.
Leslie, sempre atento, notava as minhas pausas mais longas, os suspiros silenciosos enquanto eu arrumava tecidos ou revia listas de modelos. Mas ele não comentava. Ele apenas continuava a coreografia, uma mão no meu ombro de forma quase paternal, quase provocadora. Um lembrete constante de que o jogo tinha começado e de que eu não podia permitir-me fraqueza, nem mesmo no que sentia por Allan.
No final de cada dia, quando o estúdio finalmente se aquietava, eu sentava-me sozinho, observava as luzes da cidade a cintilar através das janelas e pensava que, talvez, amar alguém fosse também aceitar essa distância silenciosa, essa tensão invisível entre o que somos e o que o mundo espera que sejamos.
Domingo começou preguiçoso, arrastando-se como um gato molhado pela cidade. Allan nem levantou o olhar quando eu disse que ia à Velvet rever os últimos detalhes do editorial. Ele estava encolhido no sofá, os ombros curvados, os olhos fixos no telemóvel, e o silêncio dele pesava mais do que qualquer protesto verbal. Eu queria discutir, argumentar que precisava de tempo e foco, mas o peso do desalento dele era suficiente para me calar.
— Não te esqueças que temos reserva no restaurante – avisou – É o aniversário do meu pai.
— Obviamente estarei lá. – respondi, dando-lhe um beijo na testa.
Quando cheguei à Velvet, o ar tinha aquele cheiro familiar de tinta, papel e café frio. O estúdio estava vazio, silencioso, iluminado apenas por luzes artificiais que cortavam a chuva lá fora. Peguei na pasta de referências e respirei fundo, sentindo o peso de tudo o que ainda tinha de fazer. Já tinham passado duas horas desde que entrei, e eu estava quase a terminar de rever tudo, quando um trovão rugiu do lado de fora.
Foi então que ouvi o estoiro.
Uma faísca saltou da tomada, seguida de um cheiro metálico e queimado que se espalhou no ar. O computador desligou-se de repente, sem dar sinais de vida. Um frio percorreu-me a espinha. Tudo o que eu tinha preparado, cada slide, cada detalhe… tinha ido.
— Não — repeti, tentando ligar o computador várias vezes, como se esperasse que Deus me ouvisse. — Não, não, não.
Peguei no telemóvel. Alison não atenderia, quase meia-noite, e ela provavelmente dormia profundamente. Octavia tinha desligado o telemóvel, um hábito quase meditativo. E Leslie já me tinha avisado que o único número autorizado a fazê-lo atender era o de Valentina; caso contrário, estaria ocupado com uma taça de vinho tinto na mão a ver Sex and the City.
O pânico começou a subir, lento e sufocante.
Peguei no telemóvel e liguei para o primeiro número em que pensei.
— Alô? — a voz de Allan chegou abafada, distante, quase sonolenta, como se estivesse a ser arrancado de um sonho.
O som fez-me apertar o estômago.
— Allan… preciso de ti. O computador… não liga. Todo o trabalho da apresentação… eu não sei o que fazer.
Silêncio do outro lado. Apenas a respiração dele, lenta e contida.
— Adrián… não sei — disse finalmente, a voz baixa. — Se o computador morrer, não posso fazer nada. É só contares o que aconteceu.
A pressão no meu peito aumentou.
— Não! — explodi, sentindo cada músculo tenso — Isto não pode acontecer agora! Não posso simplesmente explicar, Allan! Não é uma opção!
Ele respirou fundo, com aquela calma irritante que sempre me fazia sentir pequeno.
— Se Leslie e Valentina forem razoáveis, vão entender. E se não… há sempre outro trabalho à sua espera. Não te esqueças da vaga do meu pai.
Segurei o telemóvel com as mãos frias, apertando os dedos como se pudesse sufocar o desespero.
— Allan… não entendes! Eu gosto deste trabalho! Gosto de estar aqui!
— Adrian, eu tenho trabalho amanhã, o meu pai quer que eu faça uns recados antes de ir para a empresa – suspirou – Não há ninguém aí? Não tens tem contactos de algum funcionário?
— Nenhum dos contactos que tenho vai atender e – uma ideia pairou-me na cabeça – Espere, já te ligo.
— Por favor não, eu preciso de trabalhar amanhã – as palavras vieram acompanhadas de um suspiro – Amanhã conta-me se conseguiste.
E desligou. Fiquei ali, a olhar para o telemóvel na minha mão, sentindo um peso estranho no peito. A reacção de Allan, ou melhor, a falta dela, deu-me aquela sensação de estar completamente sozinho, mesmo sabendo que ele sempre foi o meu porto seguro. Um misto de frustração e irritação borbulhava por dentro, misturado com aquele frio na barriga de quem sabe que amanhã tudo depende só de si. Respirei fundo e resolvi arriscar na minha ideia.
Respirei fundo e liguei para o número de Mathew, sentindo que cada toque arrastava a minha ansiedade. Quando ele atendeu, aquela voz calma e ligeiramente provocadora atravessou o telefone:
— Ora, ora… Se não é o Adrian Kane. É hábito seu escolher os horários mais dramáticos, devo estar preocupado?
A tensão acumulada fez o meu peito subir e descer depressa, mas, de repente, a familiaridade da voz trouxe-me um suspiro involuntário de alívio. Por alguns segundos, consegui esquecer a chuva, o computador desligado, a apresentação… só existia aquela segurança absurda de alguém que sabia do que falava.
— Mathew, preciso de ajuda — comecei, tentando controlar o tom nervoso. — O meu computador não liga, e… amanhã é a minha apresentação final na Velvet.
Ele riu, baixo e galanteador, quase como se me provocasse de propósito.
— Ah, então é isso… O caos bate à porta, e você corre para o telefone, adorável como sempre. Respira fundo – pediu — Primeiro, mantenha a calma ok?
— Eu… — engasguei-me com um riso nervoso — acho que sim.
— Óptimo. Aqui está o plano: o seu trabalho pode estar no servidor partilhado da Velvet. Mas, claro, quem tem a chave do castelo é Valentina — fez uma pausa dramática — e eu duvido que ela lhe empreste a palavra-passe.
— Então… — a minha voz quase falhou — o que é que eu faço?
—Vai seguir-me direitinho, e vai respirar de novo quando eu lhe contar os detalhes. Primeiro, a chave do escritório dela está na terceira gaveta de Leslie. Isso é o seu passe inicial. Sim, a terceira, não se esqueça — a voz dele tinha aquele toque provocador que fazia o meu coração acelerar, mas também um leve sorriso formar-se nos meus lábios. Levantei-me e fui até ao escritório de Leslie.
— Certo… terceira gaveta — repeti. Como prometido, ali estava a chave. – Já tenho.
— Boa – eu quase conseguia ouvi-lo sorrir – Anos passam e o Leslie ainda continua previsível – pausou por uns segundos – Consegue ir ao escritório de Valentina?
— Sim – assenti. Caminhando mais depressa do que gostaria. A chave rodou na fechadura, deixando-me ainda mais aliviado.
Sem Valentina, o escritório parecia quase irreconhecível. As linhas perfeitas da mesa e das prateleiras continuavam impecáveis, mas a sensação de comando absoluto tinha desaparecido. O tablet no centro da mesa repousava imóvel, a cadeira de couro vazia não impunha respeito, e até o perfume frio que costumava obrigar-me a endireitar a postura era apenas uma lembrança subtil no ar. Caminhei até ao computador posicionado sobre a mesa.
– Ok, estou com o computador ligado – disse, ainda a segurar o telemóvel – Você sabe a palavra-passe?
— Acredite ou não, ela é até sentimental – riu – coloque 04-05-1996.
— É suposto eu saber que data é essa? – perguntei, a digitar o mais depressa que pude. Mathew deu uma gargalhada do outro lado, continuando num tom casual – Aniversário da Donatella – informou – Ela obrigou-me a ir a todas as boutiques um dia antes para encontrar um modelo descontinuado e extremamente raro de uma mala da Louis Vuitton.
— E conseguiu? – o ambiente de trabalho abriu. Soltei um suspiro, sentindo o pânico diminuir.
— Claro, o meu charme masculino consegue tudo – riu — Certo, Adrián — a voz dele ainda carregava aquele tom galanteador, quase provocativo. — Agora que entrou, vamos localizar o servidor. Ele não é visível na rede normal, está todo escondido.
Inclinei-me sobre o computador, sentindo o ecrã frio sob os dedos.
— Como faço isso? — perguntei, tentando não tremer.
— Primeiro, abra o Finder — continuou, com aquela paciência leve que só ele conseguia ter. — Vá a “Ir” no menu e seleccione “Ligar ao servidor…”
— Certo… já estou lá.
— Óptimo. Agora escreva velvet_shared.local — disse ele, e eu repeti as palavras como um mantra, quase aliviado por finalmente ter algo concreto para fazer.
— Pronto, pediu utilizador e palavra-passe. — murmurei.
— Claro, senão não era divertido — riu do outro lado. — O utilizador é o seu nome de rede, mas use 25-11-1998 como palavra-passe.
— Espera… essa é a data de quê? — perguntei, a digitar devagar, franzindo a testa.
— O divórcio do primeiro marido — respondeu, a gargalhar, e eu tive de segurar um riso nervoso. — Dia de Ação de Graças, se não me engano. Uma das datas favoritas dela; conseguiu tirar-lhe tudo.
— Ela divorciou-se no Dia de Ação de Graças? — murmurei, ainda atónito. — Ela comemora divórcios agora?
— Claro que comemora — disse ele, rindo baixo, quase provocador. — Para ela foi uma vingança bem planeada, quando ele a traiu com a assistente.
E estava ali, os meus ficheiros, tudo. Fiz a transferência para o computador de Leslie. Eu explicaria que, como estava trovejando, algo em mim teria tido um pressentimento divino de que era necessário. Desliguei o computador, e Mathew pediu-me para verificar qualquer alteração na secretária antes de sair, para que Valentina não desconfiasse de nada.
A tempestade ainda rugia lá fora, mas dentro do departamento, o silêncio soava quase generoso. Encostei as mãos à beira da mesa, respirando fundo.
— Mathew… — a voz saiu trémula, entre o cansaço e o alívio. — Obrigado. A sério.
— Ora, ora — respondeu ele, e eu ouvi o sorriso nítido na voz. — Palavras bonitas, Adrian Kane. Mas você sabe o que dizem sobre favores, não sabe?
Fiquei quieto por um segundo. O barulho da chuva parecia preencher o espaço entre nós.
— Favores? — repeti, confuso. — Achei que tinha feito isso porque… sei lá, porque quis ajudar.
Mathew riu baixo, aquele riso preguiçoso e perigoso que sempre vinha antes de alguma provocação.
— Ah, eu quis ajudar, sim. Só que nada vem de graça, meu caro. Nem mesmo boa vontade às duas da manhã. — fez uma pausa, como se saboreasse o silêncio antes da sentença. — Mas não precisa de ficar assim. Eu não cobro caro.
— Mathew… — engoli em seco. — O que é que quer?
— Nada que lhe vá custar o emprego, prometo. — disse, com aquela calma felina. — Só um jantar. Amanhã, talvez. Ou quando conseguir respirar de novo depois da sua apresentação triunfal.
Por um momento, achei que tinha ouvido mal.
— Um jantar? — perguntei, incrédulo — Eu já disse que tenho namorado.
— Exacto. Amigos podem jantar — repetiu, arrastando a palavra como se fosse uma aposta. — Você e eu, um lugar decente, comida melhor do que café frio e luzes fluorescentes. Pode até escolher o restaurante, se quiser sentir que tem algum controlo da situação.
Fiquei em silêncio. Ele não parecia gozar; apenas ditava o ritmo de um jogo que eu ainda não sabia se queria jogar.
— Está bem — murmurei. — Um jantar.
— Óptimo — a voz dele soou satisfeita, suave, como um sorriso que se ouve, não se vê. — Prometo não cobrar juros… por enquanto. Boa noite, Adria e trata-me por tu — E antes que eu pudesse responder, desligou.
Fiquei ali, parado, o telemóvel ainda na mão. Do lado de fora, o trovão diminuiu, e o som da chuva tornou-se um sussurro constante. Dentro do estúdio, o reflexo das luzes recortava a minha sombra contra o vidro, uma versão de mim que parecia cansada. O pior passara. Mas a sensação incómoda de que alguma coisa nova tinha começado… essa, essa continuava. E, com certeza, vinha acompanhada de problemas.
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