Dolce & Desastre
9 Dolce & Mentiras
O jantar avançou de forma tão fluida que, em determinado momento, perdi completamente a noção de quando deixámos de falar sobre trabalho, conceitos visuais e as exigências quase tirânicas da Velvet para mergulharmos em territórios muito mais íntimos, daqueles que não podem ser organizados em moodboards nem traduzidos em paletas cromáticas. Talvez tenha sido o vinho, talvez o cansaço acumulado do dia, ou talvez o acordo silencioso que fizemos ao decidir sermos apenas Adrien e Mathew por algumas horas, mas as palavras começaram a surgir sem o habitual cuidado editorial que sempre aplico às minhas próprias emoções.
Foi numa pausa entre o prato principal e a sobremesa que senti as palavras começarem a subir, sem o filtro habitual.
— Eu cresci numa casa onde o silêncio era uma forma de luto — disse, surpreendendo-me com a própria frase.
Mathew não interrompeu. Apenas encostou ligeiramente o corpo à cadeira, os olhos atentos, mas sem aquele brilho provocador que normalmente o acompanhava. Havia algo mais limpo no modo como me escutava agora. Quase respeitoso.
Passei o dedo pelo guardanapo dobrado sobre o colo, organizando a memória antes de deixá-la existir em voz alta.
— O meu pai morreu quando eu era pequeno. Não tenho lembranças muito claras dele… só fragmentos. O cheiro do aftershave. Um relógio que ele tirava sempre antes de dormir. O som dele a rir enquanto falava ao telefone na cozinha.
Engoli em seco, sentindo a garganta apertar-se de leve, mas continuei.
— A minha mãe nunca falou muito sobre isso. Ela… simplesmente continuou. Trabalhou mais, sorriu quando precisava, e transformou a casa num lugar funcional. Seguro. Mas silencioso.
Observei o reflexo da luz no talher, acompanhando o brilho como se ele me ajudasse a não perder o fio da memória.
— Acho que aprendi cedo demais a não dar trabalho. A ser… fácil de manter. Bom aluno. Filho compreensivo. O tipo de pessoa que ocupa pouco espaço emocional.
Soltei um riso curto, sem humor.
— O problema é que isso funciona na infância. Mas quando cresces… percebes que ninguém sabe realmente quem tu és. Nem tu.
O silêncio entre nós não era pesado. Era sólido. Como algo que sustentava, em vez de sufocar.
Mathew girava lentamente a taça, mas os olhos não se desviavam de mim.
— A minha mãe é tudo o que me resta da família — continuei, mais baixo agora. — E eu amo-a profundamente. Mas… às vezes sinto que ela ama uma versão minha que foi construída para não a preocupar.
Levantei os olhos para ele.
— Acho que, de certa forma, passei a vida inteira a tentar ser alguém que não desse medo às pessoas que amo.
Mathew inspirou devagar, como se estivesse a medir o peso do que eu tinha acabado de dizer.
— Isso explica muita coisa — murmurou ele, mas sem julgamento, apenas constatação.
Por um momento, pensei que ele fosse deixar a conversa ali. Mas, pela primeira vez desde que o conhecia, ele pareceu hesitar antes de falar, como se estivesse a decidir se valia a pena baixar a própria guarda.
Ele pousou a taça com cuidado.
— Engraçado… porque a minha história é quase o oposto da tua.
Arqueei ligeiramente a sobrancelha, curioso.
Mathew apoiou os braços na mesa, entrelaçando os dedos.
— Eu venho de um lar absurdamente feliz — disse, e havia um traço de ironia leve na frase, como se ele próprio tivesse dificuldade em admitir aquilo. — Pais casados até hoje. Jantares de domingo obrigatórios. Discussões sobre quem lava a loiça e reconciliações no meio da cozinha. O pacote completo.
Sorri, genuinamente surpreendido.
— Não era o que eu imaginava.
— Ninguém imagina — respondeu ele, com um meio sorriso. — Acho que passo a vida inteira a parecer alguém emocionalmente… autossuficiente demais para isso.
Ele desviou o olhar por um instante, observando o salão antes de continuar.
— Estudei design gráfico porque sempre gostei da ideia de organizar o caos visual. Transformar informação em algo que faça sentido. Era… confortável. Previsível. Criativo, mas com estrutura.
Assenti lentamente, conseguindo visualizar aquilo nele.
— E a tua família apoiou?
— Apoiaram tudo — respondeu ele, simples. — Talvez até demais. Nunca tive de lutar por aprovação. Nunca tive de provar que valia alguma coisa. E isso… parece óptimo. Mas também cria outro tipo de pressão.
Inclinei-me ligeiramente para a frente, interessado.
— Qual?
Mathew soltou um suspiro leve.
— A pressão de não decepcionar um lugar onde tu sempre foste feliz.
A frase pairou entre nós, inesperadamente familiar.
— Então por que pareces alguém que vive à beira de decisões perigosas? — perguntei, antes que pudesse filtrar completamente a pergunta.
Ele riu baixo, passando a mão pelo queixo.
— Porque crescer num ambiente estável não impede que queiras descobrir quem és fora dele. Às vezes… até incentiva.
Os olhos dele encontraram os meus novamente.
— Acho que passei muito tempo a tentar provar a mim mesmo que as escolhas que faço são minhas… e não apenas o reflexo de uma vida confortável.
Ficámos em silêncio por alguns segundos, deixando as palavras assentarem.
Era estranho. Reconfortante e inquietante ao mesmo tempo. As nossas histórias eram diferentes, mas as fissuras pareciam estranhamente compatíveis.
— Engraçado — murmurei — tu cresceste rodeado de gente e queres provar independência. Eu cresci a tentar não perder quem eu tinha… e agora não sei quem sou sem essa função.
Mathew observou-me com uma atenção calma.
— Talvez seja por isso que conversar contigo seja tão fácil — disse ele. — Tu entendes o peso das escolhas. Só que pelo lado oposto do meu.
A sobremesa chegou sem que nenhum de nós tivesse pedido. Provavelmente sugestão dele antes, num gesto que confirmava que Mathew raramente deixava coisas ao acaso. O prato pousou entre nós como um intervalo doce numa conversa que tinha atravessado territórios inesperadamente íntimos.
Peguei no garfo, mas não comi imediatamente.
— Tu pareces alguém muito seguro de ti — comentei, distraído.
Ele soltou um riso curto.
— Eu pareço. São coisas diferentes.
Observei-o por um instante, tentando decifrar o que havia por trás daquela confissão simples demais para ser superficial.
O restaurante começava a esvaziar-se. As vozes tornavam-se mais espaçadas, o som dos talheres menos frequente, e a iluminação parecia mais quente agora, como se o lugar estivesse lentamente a recolher a própria energia.
Percebi, com uma clareza súbita, que o jantar estava a chegar ao fim.
E, com ele, o espaço seguro que tínhamos criado ali dentro.
Mathew fez sinal para a conta antes mesmo de eu pensar nisso. O gesto foi natural, sem ostentação, apenas eficiente.
Quando nos levantámos, senti o peso da noite instalar-se nos ombros — não como cansaço, mas como consciência.
Vestimos os casacos em silêncio, lado a lado. O empregado agradeceu. A porta de vidro abriu-se, e o ar frio da rua atingiu-nos como um lembrete abrupto de realidade.
Ficámos parados por um segundo na calçada iluminada pelo brilho difuso dos postes e pelo reflexo húmido do asfalto.
— Gostei do nosso acordo — disse Mathew, ajustando o colarinho.
Olhei para ele, sentindo a honestidade da noite ainda vibrar dentro de mim.
— Eu também.
O silêncio que se seguiu não era constrangedor. Era cheio. Como se ambos soubéssemos que qualquer palavra extra poderia alterar o equilíbrio delicado que tínhamos mantido. E foi ali que consegui admitir, apenas para mim, que o admirava profundamente, não apenas pela inteligência ou pela forma como ele domina qualquer ambiente com uma segurança aparentemente natural, mas pela complexidade emocional que se revelava à medida que as camadas de ironia e controlo se desfaziam diante de mim. Havia nele uma coragem que me inquietava, a capacidade de encarar as próprias contradições sem as suavizar com justificações, e essa honestidade exercia sobre mim uma atracção que eu não sabia como gerir, porque não era apenas física, embora também existisse, mas uma atracção construída pela sensação rara e perigosa de ser visto sem precisar de me explicar continuamente. Percebi, com uma lucidez desconfortável, que estar ali, sentado diante dele, era demasiado fácil, que as conversas fluíam com uma naturalidade que contrastava com o esforço meticuloso que sempre apliquei para manter relações estáveis e seguras, e que essa facilidade, em vez de me tranquilizar, despertava em mim um alerta silencioso, como se o conforto emocional pudesse ser tão arriscado quanto o desejo, talvez até mais, porque não deixa marcas visíveis que possam ser evitadas ou justificadas.
Mathew enfiou as mãos nos bolsos do casaco.
— Vou chamar um carro para ti.
— Não é preciso — respondi, rápido demais. — Eu posso…
— Eu sei que podes — interrompeu ele, com suavidade. — Mas quero.
Assenti, sem discutir.
Enquanto ele tirava o telemóvel do bolso, observei o perfil dele sob a luz da rua. Pela primeira vez, parecia menos calculado. Mais… humano.. mais próximo. O que, estranhamente, tornava tudo ainda mais perigoso.
O carro chegou poucos minutos depois. A porta abriu-se com um clique seco.
Virei-me para ele, sentindo que havia algo que devia dizer, mas sem saber exactamente o quê.
— Obrigado pelo jantar — acabei por dizer, simples.
Mathew sorriu, aquele sorriso contido que parecia guardar mais do que revelava.
— Obrigado pela honestidade.
Assenti, entrando no carro antes que o silêncio ganhasse outra forma.
Quando a porta se fechou e o veículo começou a afastar-se, olhei para trás por instinto. Mathew ainda estava ali, parado na calçada, as mãos nos bolsos, a observar o carro desaparecer com uma expressão impossível de traduzir à distância.
Encostei a cabeça ao banco, fechando os olhos por um instante.
Sabia que nada tinha acontecido.
E, ainda assim, sentia com uma clareza inquietante que algo tinha mudado irreversivelmente. O carro deixou-me à porta do prédio pouco depois das onze. A rua estava silenciosa, húmida ainda da chuva da madrugada, a reflectir os postes de luz como pequenos fragmentos dourados espalhados pelo asfalto. Fiquei alguns segundos parado antes de entrar, observando o meu próprio reflexo difuso na porta de vidro, como se precisasse de confirmar que ainda era a mesma pessoa que tinha saído dali naquela manhã.
O elevador subiu devagar, a ranger como sempre, cada andar anunciado por um estalo metálico que parecia mais alto naquela noite. Quando a porta finalmente se abriu, o corredor estava mergulhado naquele cheiro familiar de limpeza antiga e madeira húmida. Tirei as chaves do bolso, hesitando apenas o tempo suficiente para que a culpa encontrasse espaço para respirar.
Abri a porta.
A luz da sala estava acesa, suave, amarelada. Allan estava sentado no sofá, uma manta jogada sobre as pernas, a televisão ligada num volume baixo, mais como companhia do que entretenimento. Ele virou o rosto assim que ouviu a porta fechar.
— Ei — disse ele, a voz neutra, mas carregando aquela curiosidade inevitável.
— Ei — respondi, pousando as chaves sobre a mesa da entrada, tentando manter o tom casual.
Tirei o casaco devagar, pendurando-o na cadeira, sentindo o olhar dele acompanhar cada gesto.
— Onde estiveste? — perguntou Allan, simples, sem acusação, o que tornava a pergunta ainda mais difícil.
O silêncio durou meio segundo a mais do que devia. Nesse intervalo, pensei em dizer a verdade. Pensei em mencionar Mathew, o jantar, a conversa, a promessa silenciosa que fiz a Alison de ser honesto comigo mesmo.
Mas a imagem do rosto de Allan naquela manhã atravessou-me como um reflexo involuntário.
— Jantei com o Leslie — respondi, por fim, tirando os sapatos como se a naturalidade do gesto pudesse reforçar a mentira.
Allan assentiu quase imediatamente.
— Faz sentido. Vocês devem estar atolados com o ensaio novo.
A facilidade com que ele acreditou caiu sobre mim com um peso inesperado. Algo no peito apertou-se, silencioso, quase físico.
— Estamos, sim — confirmei, desviando o olhar para a televisão, fingindo interesse em algo que não registava.
Allan abriu um pequeno sorriso, puxando a manta para o lado.
— Queres ver um filme comigo? Achei que hoje podíamos só… desligar um pouco.
Observei-o por um instante. O convite era simples. Familiar. Seguro.
— Claro — respondi, aproximando-me do sofá.
Sentei-me ao lado dele, sentindo o calor do corpo dele atravessar o tecido da roupa com uma familiaridade que costumava ser reconfortante. Allan pegou no comando, a navegar distraidamente pelas opções até parar num título.
A imagem inicial surgiu no ecrã — música tensa, fotografia escura, um corredor mal iluminado.
Franzi o cenho.
— Terror? — perguntei.
Allan virou o rosto, confuso por um segundo, e depois arregalou ligeiramente os olhos.
— Espera… tu odeias terror, não odeias?
Soltei um riso baixo. — Detesto. Sempre detestei.
Ele passou a mão pelo cabelo, claramente constrangido.
— Desculpa… eu… esqueci-me
A palavra ficou suspensa entre nós.
Esqueci.
Assenti, tentando sorrir com leveza.
— Não faz mal. Escolhemos outro.
Allan começou a mexer rapidamente no catálogo, mas eu já não estava realmente a olhar para o ecrã. Porque, naquele instante, uma ideia instalou-se em mim com uma clareza desconfortável: talvez nós realmente já não nos conhecêssemos tão bem quanto acreditávamos.
Observei o perfil dele, a forma concentrada como procurava outro filme, o modo como mordia levemente o lábio inferior quando estava indeciso. E ali, naquele gesto pequeno, reconheci o rapaz por quem me tinha apaixonado na faculdade. O mesmo cuidado distraído. A mesma gentileza silenciosa.
Senti o peito amolecer.
Talvez conhecer alguém não fosse uma coisa fixa. Talvez fosse um esforço contínuo. Um exercício de reaprender. Afastei o pensamento antes que ele crescesse demais.
— Este parece bom — disse Allan, escolhendo um drama leve qualquer, quase ao acaso.
— Perfeito — respondi, acomodando-me melhor no sofá.
Ele puxou a manta para nos cobrir parcialmente, e, por reflexo, inclinei-me ligeiramente contra ele. O braço de Allan envolveu-me com naturalidade, como se o gesto tivesse sido ensaiado por anos. E talvez tivesse.
Ficámos em silêncio por alguns minutos, a ver o filme sem grande atenção, apenas deixando o som preencher o espaço entre nós.
— Ah — disse Allan de repente, como quem se lembra de algo importante. — Quinta-feira é o jantar de aniversário do meu pai. Eles convidaram-nos.
Olhei para ele.
— Quinta?
— Uhum. A minha mãe ligou hoje. Disse que queria muito que tu fosses.
Assenti devagar.
— Eu vou. Prometo que não me esqueço.
Allan sorriu, satisfeito, e apertou-me levemente contra ele.
— Ele vai gostar. Ele pergunta sempre por ti.
Encostei a cabeça no ombro dele, respirando o cheiro familiar do detergente da roupa e do perfume discreto que ele usava. Havia uma paz ali. Simples. Tangível.
O filme continuava a passar, as vozes das personagens a misturarem-se ao som distante do trânsito lá fora. Aos poucos, senti o corpo de Allan relaxar ainda mais contra o meu. A respiração dele tornou-se mais lenta, mais profunda.
Inclinei ligeiramente o rosto e percebi que ele tinha adormecido.
Fiquei imóvel, com medo de o acordar, observando o movimento calmo do peito dele a subir e a descer. Havia algo profundamente íntimo em ser o apoio inconsciente do sono de alguém.
O telemóvel vibrou suavemente no bolso.
Hesitei antes de pegar, como se já soubesse quem era.
Mathew. Deslizei o ecrã com cuidado, mantendo o corpo parado para não mexer Allan.
“Espero que durmas bem. Gostei do jantar… amigo”
Fiquei a olhar para a mensagem tempo demais, o brilho do ecrã a reflectir fracamente na sala escura.
O peso da manta, o calor de Allan adormecido contra mim, o eco da conversa com Mathew ainda vivo na memória, tudo coexistia dentro de mim como realidades que não sabiam dialogar. Bloqueei o telemóvel devagar, pousando-o sobre a mesa de centro.
Passei os dedos com cuidado pelo braço de Allan, num gesto quase automático e, ainda assim, protector. E, enquanto a televisão continuava a murmurar histórias que eu não acompanhava, fiquei ali, imóvel entre duas versões possíveis da minha vida, a tentar convencer-me de que permanecer quieto ainda era o mesmo que permanecer inteiro.
Alguns dias se passaram. O sucesso do meu projecto com Leslie chegou como uma maré silenciosa, daquelas que não fazem alarido, mas que, quando damos por isso, já nos rodearam completamente.
Valentina não elogiou. Ela nunca elogiava.
Mas também não destruiu.
E, no universo da Velvet, aquilo equivalia a um desfile de vitória com direito a confettis invisíveis e aplausos mudos. Ela folheara o layout com aquele olhar clínico, as unhas perfeitamente polidas a tamborilar no tampo da mesa enquanto cada página deslizava sob o seu escrutínio. O silêncio prolongara-se tanto que comecei a contar as batidas do meu próprio coração, convencido de que conseguiria ouvir o momento exacto em que ela encontrasse algo para massacrar.
Não encontrou.
— Está… aceitável — dissera por fim, fechando a pasta com uma precisão quase cirúrgica. — Adicione à colecção a publicar.
Aceitável.
A palavra ecoara em mim como uma medalha de ouro.
Saí do gabinete dela com as pernas ligeiramente bambas, tentando manter a compostura profissional enquanto Leslie me lançava um sorriso cúmplice, daqueles que só surgem quando sobrevivemos a uma execução pública.
Só quando cheguei à minha secretária é que permiti que o ar saísse dos meus pulmões como se o tivesse prendido durante dias.
O meu telemóvel vibrou nesse exacto momento.
Grupo: Caos Organizado.
Oliver:
“ESTÁS VIVO?”
Megan:
“Eu juro que se tu não apareces esta semana vou invadir a Velvet.”
Tracy:
“Já considerámos que o Allan pode estar a esconder-te numa cave.”
Sorri sozinho, encostando-me à cadeira.
Oliver:
“Falando a sério… sentimos a tua falta.”
Aquela frase pousou-me no peito com um peso inesperado.
Eles não exageravam. Desde que começara na Velvet, o tempo tinha-se transformado numa entidade tirânica. Os meus dias eram consumidos por prazos, crises de última hora e a constante sensação de estar a tentar nadar num oceano onde toda a gente já nascera com barbatanas. As minhas notícias chegavam-lhes quase sempre por Allan.
E perceber isso trouxe-me uma pontada de culpa tão aguda quanto a que sentira naquela noite do jantar com Mathew.
Respirei fundo e respondi:
“Jantar hoje e o local. Eu apareço.”
As respostas surgiram em avalanche de emojis, gifs dramáticos e ameaças afectuosas.
Antes que pudesse racionalizar demasiado, enviei outra mensagem:
“Eu trato das sobremesas.”
— Estás a usar compras emocionais como desculpa para me arrastar para uma loja de presentes, não estás? — Alison comentou, sem sequer levantar os olhos do cabide que analisava com uma atenção quase científica quando lhe pedira ajuda. Estava a receber bem, e achei que gastar algum dinheiro com presentes poderia até ser satisfatório.
— Estou a precisar de ajuda feminina. – eu sorri, por cima do seu ecrã. Ela estava bonita hoje, tinha umas calças de ganga fina e uma camisa preta perfeitamente ajustada pelo seu cinto de marca. Eu estava sentado na minha mesa, com o catálogo aberto no meu telemóvel, a tentar decidir o que poderia dar de presente aos meus amigos. Algo que fosse ao mesmo tempo elegante, útil e que tivesse aquele detalhe inesperado que mostrasse que eu realmente tinha pensado naquilo. Segurei o olhar numa bolsa de couro castanha com fecho dourado discreto, clássica, mas com personalidade, levantei-me e segurei o telemóvel à frente dela. Ela lançou-me um olhar avaliador, aquela mistura de cepticismo e ironia que sempre me deixava um pouco inseguro, mas de algum modo confortável, como se me forçasse a ser melhor do que estava.
— E esta? — perguntei, apontando para a bolsa no ecrã — Não é formal demais?
Alison franziu o cenho, inclinou a cabeça e analisou a imagem com atenção exagerada, os olhos verdes fixos em mim, a calcular cada nuance da minha escolha.
— Formal? Talvez. Mas também não é nada original — disse, com aquele tom seco e ligeiramente ácido que me lembrava porque é que a maioria das pessoas não lhe resistia. Voltou os olhos para o ecrã do computador — Estás a tentar impressionar ou só queres dar qualquer coisa?
Senti um calor subir pela garganta. Tentei explicar, mas as palavras saíram tortas, enroladas na minha própria hesitação:
— Bem… trabalho… quero dizer, tem a ver com o meu trabalho — gaguejei, percebendo imediatamente o quão sem sentido aquilo soou. Alison soltou um suspiro longo, quase teatral, e deixou escapar aquele olhar de reprovação que misturava paciência e irritação.
— Onde trabalhas, afinal? — perguntou, sem disfarçar a impaciência, mas também sem parar de me encarar.
— Na Velvet — respondi, numa tentativa de parecer firme, embora sentisse que a minha voz soava pequena diante do julgamento implícito naquele olhar penetrante.
Ela levantou as mãos, fez um gesto de resignação e soltou outro suspiro, desta vez mais curto e cheio de sarcasmo.
— Ok… chega de sugestões de bolsas — disse, inclinando-se ligeiramente para a frente, os olhos semicerrados e a boca curva num quase sorriso, mas sem humor. — Vem comigo. Vou ensinar-te uma coisa.
— Ensinar? — perguntei, a surpresa a transparecer na minha voz, porque não fazia ideia do que poderia estar prestes a acontecer.
— Sim. — disse ela, levantando-se com aquelas pernas longas e passos decididos que faziam o meu corpo mover-se automaticamente atrás dela, quase como se eu fosse arrastado pela energia dela. — Sobreviveste quase um mês e, contra todas as minhas expectativas, então já deixaste de ser novato – ela fez sinal para que a seguisse — Agora vou mostrar-te algo que é exclusivo… e que vais adorar. Segue-me.
Segui-a pelos corredores, cada passo a ecoar no piso polido, e senti uma curiosidade ligeira. O mundo da Velvet parecia nunca me deixar de surpreender. Quando chegámos ao Departamento de Vestuário, encontrámos Octavia encostada à porta, braços cruzados, expressão de quem esperava explicações que justificassem a nossa presença ali. Ela lançou-nos um olhar desconfiado, franzindo o cenho de maneira calculada, como quem pesa cada palavra antes de a pronunciar:
— E vocês dois… por que estão aqui? — perguntou, a desconfiança evidente na voz firme. – Se o Leslie voltou a alterar a escolha do figurino da sessão da tarde eu juro que o último casaco que ele verá será da pele dele.
Alison inclinou-se para a frente, um sorriso malandro e quase conspirativo nos lábios, e disse num tom baixo e quase teatral: — Código 51.
O rosto de Octavia abriu-se num sorriso cúmplice, os olhos a brilharem com aquela mistura de malícia e entendimento silencioso.
— Estamos a ir — disse ela, fazendo um gesto com a mão para que a seguíssemos.
— Código 51? — perguntei, sentindo a curiosidade subir em ondas.
Alison lançou-me um olhar rápido, carregado de ironia e um toque de diversão, como se estivesse a preparar-me para entrar num mundo que poucos conheciam.
— Todos os artigos que chegam para a Valentina aprovar passam por aqui primeiro — explicou ela, enquanto caminhávamos. Entrámos por uma porta que reconhecera antes quando Leslie me havia feito a sua intervenção. Era um armazém silencioso, porém bastante espaçoso — A maioria nunca é escolhida de primeira. Acaba tudo aqui, no armazém do Vestuário.
— E o código 51? — insisti, tentando não parecer completamente ingénuo.
Alison soltou uma risada curta, seca, aquela que tinha o poder de cortar qualquer dúvida.
— É um código secreto dos funcionários. — A voz dela tinha aquele tom antipático, seco, mas carregado de cumplicidade. — Permite pegar algumas coisas, peças que a Valentina recusou, mas que nunca volta atrás na decisão de pedir. Coisas que seriam impossíveis de conseguir de outra forma. É um luxo – ela encolheu os ombros — Um daqueles privilégios de trabalhar na Velvet que ninguém te conta.
Olhei ao redor, maravilhado. Caixas empilhadas com cuidado, tecidos pendurados, cores e padrões por todos os lados, algumas etiquetas ainda com o cheiro do fornecedor. Havia algo quase mágico naquele espaço, uma mistura de exclusividade e segredo.
—Toda a gente sabe?
— Óbvio que não – ela respondeu quase como se a minha pergunta fosse um insulto – A Octavia e o Leslie são bastante exclusivos sobre quem usa o código.
— E tu… já usaste isso antes? — perguntei, ainda a absorver cada detalhe, o cheiro do tecido, o brilho das cores, a sensação de poder discreto que aquele lugar emanava.
— Duh, sempre. — disse, com aquele tom que era metade cínico, metade divertimento, como se eu devesse saber disso sem perguntar. — Sou a amiga preferida de todos os aniversários — disse, com aquele meio sorriso que não era exactamente amigável, mas carregava charme. — Desde que comecei a trabalhar aqui, nunca mais precisei de gastar dinheiro com presente nenhum. O código 51 resolve tudo. Sempre há algo perfeito, sempre a tempo, e sempre sem que ninguém precise de saber de onde veio.
Sorri involuntariamente. Aquele tom dela, seco e pragmático, tinha um efeito quase hipnótico. Era impossível não me impressionar com a confiança que emanava, ainda que misturada a uma antipatia natural.
— Então… isto é uma espécie de vantagem secreta para os veteranos? — perguntei, a absorver a ideia de que o código 51 não era apenas uma facilidade, mas quase uma arma de charme discreta.
— Exactamente — respondeu Alison, com a sobrancelha arqueada e os olhos a brilharem de malícia contida. — Mas só para quem sobreviveu tempo suficiente para saber usar sem se queimar.
O armazém da Velvet parecia outro mundo naquele fim de tarde. Entre pilhas de tecidos impecavelmente dobrados, caixas com amostras de colecções e araras que exalavam luxo silencioso, Alison começou a vasculhar roupas como se estivesse numa missão secreta.
— Ok, vou levar algo para mim também — disse ela, soltando aquele riso curto e seco que só a Alison consegue. As mãos dela agarraram numa bolsa escura e os olhos arregalaram-se por um momento a encarar Octavia – Octavia isso é?
— Oui Oui – ela sorriu, encolhendo os ombros — Louis Vuitton Monogram Empreinte Montaigne, colecção de 2023, 2 mil dólares.
Eu encarei – Dois mil dólares? —
— Se procurares bem encontras mais caras – ela estalou os dedos e virou-se.
Sorri involuntariamente. Ela parecia divertir-se consigo mesma, e ver esse lado dela era raro o suficiente para me contagiar.
Então Octavia decidiu entrar na brincadeira. Pegou num vestido de seda azul profundo e começou a andar pelo armazém, mas desta vez a imitação era clara: ela encarnava Valentina. Esticava o pescoço, arqueava as sobrancelhas e falava com aquela voz firme e fria, exagerando cada sílaba:
— Adrián, esse vestido… não é ousado o suficiente. — E fez uma pausa dramática, olhando para mim como se eu estivesse a ser avaliado numa passerelle de alta-costura. — Quero mais… “viscera”. — A palavra saiu com um exagero tão cómico que não consegui segurar e já comecei a rir.
Alison riu junto, curta e seca, aquela risada que dizia “eu sabia que isto ia acontecer”.
— Ai, meu Deus — disse ela, cruzando os braços e a abanar a cabeça, mas o canto da boca denunciava diversão — tu és ridícula. Mas ok, vais divertir-me hoje.
Octavia então virou-se para Alison, ainda na personagem, erguendo o queixo como se estivesse a inspeccionar a peça:
— Alison, essa escolha é… aceitável. Mas poderia ser mais impactante. — E fez um gesto dramático com as mãos, a girar pelo armazém como se cada passo fosse medido para uma revista de moda.
Alison pegou noutro casaco, colocando-o sobre os ombros de Octavia como se fosse uma capa de super-heroína, e comentou, mordaz:
— Acho que finalmente encontraste alguém que entende a tua necessidade de drama, Octavia. — E lançou-me um olhar rápido, cheio daquele sarcasmo delicioso.
Octavia então fez uma pirueta exagerada, ainda a imitar Valentina, parando à minha frente com uma mão na cintura, outra a apontar para o tecto:
— Adrián, quero decisões ousadas! Não descreva, prove! — disse com aquele tom autoritário, pausado, como se cada palavra fosse uma sentença de moda, e terminou com um giro desengonçado que quase derrubou uma pilha de tecidos.
Eu e Alison rebentámos a rir. A cena era tão absurda, tão exagerada e tão perfeitamente parva que não dava para conter. Até eu, que normalmente ficava mais na minha, senti o ar mais leve a envolver tudo, como se por alguns minutos a pressão da Velvet tivesse desaparecido completamente.
— Está bem, acho que vou levar esta— disse Alison, ajustando o lenço no pescoço e fazendo uma careta dramática de aprovação — afinal, hoje é o meu dia de gastar zero e parecer fabulosa sem esforço nenhum.
Octavia terminou a última pose, mãos nos quadris, olhos semicerrados, ainda a manter a expressão fria de Valentina, e fez uma reverência exagerada. Eu não conseguia parar de rir, e mesmo Alison, com o seu jeito antipático habitual, parecia genuinamente divertida. No final acabei por escolher uma Chloé Small Paddington para Megan e uma Hermès Atlas 35 Togo Clemence para Tracy. Para Oliver escolhi algo mais simples, Louis Vuitton Damier Classic, que eu sabia que ele adoraria esfregar na cara dos seus colegas de trabalho. Saímos do armazém ainda a rir, o eco das nossas gargalhadas misturado com o tilintar discreto de cabides e tecidos. Octavia ainda fazia questão de imitar Valentina a cada passo, a encolher os ombros e a passar a mão no cabelo como se estivesse numa passerelle imaginária, e Alison, com aquele olhar crítico que tentava disfarçar, ainda sorria ao ver as poses de Octavia.
Então, do nada, o riso interrompeu-se. Leslie estava ali, parado na saída, o pé a bater no chão de maneira quase musical, o olhar fixo em nós com aquela mistura de paciência exasperada e elegância natural que ele sempre carregava. O meu coração deu um pequeno salto.
— Gostaram da pausa? — a voz dele cortou o ar, sarcástica, mas tão controlada que não deixou espaço para brincadeiras. O sorriso que acompanhava a pergunta era quase cruel, mas impecavelmente elegante, aquele tipo de expressão que te faz sentir divertido e culpado ao mesmo tempo.
Olhei para Alison e Octavia, que já começavam a recompor-se, e senti o peso da autoridade de Leslie a empurrar-nos de volta para a realidade do trabalho. Ele cruzou os braços, ainda a bater o pé levemente, e acrescentou:
— Hora de voltar ao trabalho, meninas. E tu, Adrian, não achas que já gastas-te energia demais com diversão hoje?
Engoli a risada que queria escapar, e todos nós nos alinhámos, conscientes de que aquela pequena aventura tinha acabado. Octavia lançou-me um olhar cúmplice e Alison suspirou, a disfarçar o sorriso. Eu apenas balancei a cabeça, resignado, enquanto Leslie se afastava com a mesma elegância com que havia chegado, e o armazém voltou a encher-se do som metódico de cabides, tecidos e passos concentrados, mas, por dentro, ainda sentia o calor da nossa pequena rebelião. O expediente finalmente chegava ao fim. O zumbido constante dos monitores ia diminuindo aos poucos, e o departamento, que estivera cheio de movimento e pequenas tensões o dia inteiro, começava a esvaziar. Alison estava à minha frente, a desligar o monitor com gestos lentos, como se se despedisse de cada hora de trabalho que tínhamos partilhado. Eu observei-a por um momento, sentindo aquela mistura de cansaço e alívio que só vem depois de um dia intenso.
— Bom trabalho hoje — disse eu, com um sorriso cansado, enquanto me inclinava sobre a borda da mesa.
Ela virou-se, dando aquele meio sorriso que escondia crítica e amizade ao mesmo tempo. — Sempre que se sobrevive a um dia destess, merecesse-se pelo menos um brinde.
Ri baixo, abanando a cabeça. — Imagino que o monitor não vá brindar comigo.
Ela riu discretamente e ajeitou os papéis à sua frente. — Então vai antes que eu me arrependa de te deixar sair com tanto atraso.
Enquanto guardava o meu casaco e ajustava a mochila, senti o telemóvel vibrar no bolso. Abri e vi várias mensagens do grupo de amigos — Oliver, Megan e Tracy — todos a implorar para me encontrar, a marcar que já estavam no Ollyn’s, o nosso tasco de sempre. Um sorriso verdadeiro escapou, desta vez sem cansaço, apenas expectativa.
Sem perder tempo, abri a aplicação de táxi e pedi uma corrida. O dia tinha sido longo, mas a ideia de encontrar os amigos dava-me uma nova energia, aquela que só chegava depois de sentires que finalmente podias relaxar, rir e ser tu mesmo fora da rotina impiedosa da Velvet. Enquanto esperava, olhei uma última vez para Alison, que já se tinha virado para desligar a luz do escritório, e acenei, prometendo a mim mesmo que em breve estaríamos todos juntos, com uma merecida cerveja e o hambúrguer incrivelmente gorduroso.
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