Dolce & Desastre

18 Dolce & Gabbana


Horas depois, o meu relógio marcava 22h30, e o quarto tinha aquele silêncio caro de hotel de cinco estrelas. Não era pela ausência de som; era tudo abafado: o ar condicionado num sussurro constante, o corredor a engolir passos, a cidade lá fora a existir como luz distante através da janela.

Valentina tinha jantado no quarto dela. Naturalmente. Não por conforto, mas porque a capacidade social dela já estava agendada para o dia seguinte. A notícia tinha chegado por Leslie mais cedo, como quem passa um dado logístico: ela não desce.

Eu estava encostado à janela, a olhar para Milão como se a cidade me pudesse dar uma explicação para o meu próprio cansaço. Adison ocupava a poltrona perto da cama, postura impecável, pernas cruzadas, o blazer pendurado com cuidado numa cadeira. O corpo dela parecia organizado, mas os olhos tinham aquele brilho irritado de quem passou o dia inteiro a segurar a própria personalidade para não virar ruído.

— Então… deixa-me ver se percebi. — a voz dela veio baixa, mas com uma ironia controlada. — O Leslie tem um quarto só para ele. E eu e tu…

Deixou a frase em aberto, como se o resto fosse indecente.

Eu não olhei logo. Só respirei, como quem escolhe a resposta sem piorar o mundo.

— Tu e eu somos… experimentais — eu disse, a tentar que soasse casual. — O Leslie já é figura habitual.

Adison soltou um riso curto, quase sem humor.

— “Experimentais” parece que estou num laboratório… e alguém se esqueceu de me dar uma bata.

Virei o rosto devagar, apoiando o ombro na parede. O quarto parecia impecável demais para comportar aquele tipo de queixa, o que deixava a queixa ainda mais legítima.

— Ainda estamos a ser testados — continuei. — Em Milão, então… mais ainda.

Adison olhou para o tecto como se estivesse a pedir paciência a algum deus da moda.

— Eu trabalho para ela há três anos… não me confundas contigo.

— Eu sei — eu disse, baixinho. — Só me estava a lembrar que, para ela, ninguém deixa de ser teste. Só muda o nível.

Ela encarou-me, e a expressão suavizou por meio segundo — aquele instante em que a ironia vira cumplicidade.

— Amanhã é o primeiro dia a sério — disse, agora mais séria. — E eu não quero estar “experimental” em lado nenhum.

Eu ia responder quando bateram à porta.

Três toques. Firmes, mas profissionais. O tipo de batida que não pede permissão; só anuncia um serviço.

Adison ficou imóvel, alerta. Eu atravessei o quarto e abri a porta o suficiente para ver sem transformar aquilo numa cena.

Um funcionário do serviço de quartos estava ali com um carrinho discreto e uma bandeja. Sobre ela, uma cloche de prata redonda reluzia sob a luz do corredor, polida demais, como se guardasse um segredo.

— Serviço de quartos, senhor — disse num tom impecável.

Franzi a testa.

— Eu não pedi nada.

O funcionário não se abalou. O sorriso dele era treinado para não carregar opinião.

— Foi enviado para o senhor. Pediram para entregar neste quarto.

Entrou só o necessário, pousou a bandeja sobre a mesa perto da janela e saiu com a mesma leveza com que tinha chegado, como se a presença dele fosse uma linha de rodapé.

A porta fechou.

Adison já se tinha levantado e aproximou-se devagar, como quem se aproxima de uma prova: curiosa e implacável.

— Isto é… interessante — disse, num tom neutro demais para ser neutro.

Segurei a pega da tampa e levantei devagar.

Não havia comida.

Havia um cartão dobrado, pousado sobre um guardanapo impecável. A tampa de prata tinha servido só para encenação — e eu reconheci aquele tipo de encenação, o tipo que não tenta convencer ninguém… só provoca.

Abri o cartão.

A letra era familiar, mas firme, como se o autor do outro lado soubesse que eu ia obedecer antes mesmo de decidir.

“Encontra-me no bar em 20 minutos.”

— M

Por um segundo, eu só olhei.

Adison inclinou a cabeça, a ler sem invadir, como se respeitasse o limite só para o poder quebrar depois.

— “M”… — murmurou, e a ironia apareceu como um sorriso pequeno. — Ele está empenhado.

Dobrei o cartão com cuidado e senti o estômago apertar num sítio que não tinha nada a ver com o fuso.

— Mathew — eu disse, baixo.

Adison cruzou os braços, postura impecável, e disse em voz alta — deliberadamente alta, como se estivesse a provocar o corredor inteiro:

— Cuidado, Leslie. Parece que ganhaste concorrência em Milão.

Eu não respondi. O quarto parecia ainda mais silencioso, como se estivesse à espera da minha decisão.

E o relógio, na mesa de cabeceira, continuava impiedoso: 22h38.

Vinte minutos não era nada. E era exactamente assim que os problemas começavam. Problemas que eu estava tentado a cometer.

O cartão continuava entre os meus dedos como uma provocação elegante demais para ser ignorada e simples demais para ser segura. Eu lia, dobrava, abria de novo. Adison observava tudo da poltrona — pernas cruzadas, postura impecável, expressão cada vez mais lisa. Não era ansiedade. Era falta de paciência, já a roçar a irritação.

— Vai — disse ela, sem levantar a voz.

Hesitei.

— Eu não sei se—

— Adrian. — cortou-me a meio com o meu nome, seco, como um ponto final. — Tu já sabes. Só gostas de transformar decisões em novela.

Abri a boca, tentei organizar um argumento que parecesse racional.

— Amanhã preciso de estar aqui cedo. A agenda… a Valentina…

Adison levantou uma sobrancelha — um gesto mínimo que já dizia “e então?”.

— A Valentina vai continuar a existir amanhã, quer tu vás quer não vás ao bar. — inclinou o corpo para a frente, como se isto fosse uma reunião e eu estivesse a desperdiçar o tempo de toda a gente. — O que muda é se vais passar a noite acordado a pensar no que não fizeste.

Fiquei em silêncio um segundo, porque era exactamente isso.

— Eu não quero fazer uma estupidez — tentei.

Adison soltou um suspiro curto, mais irritado do que dramático.

— Tu estás solteiro. — disse a palavra como se eu a esquecesse por conveniência. — E o Mathew é uma das raras coisas nesta cidade que não é trabalho. Portanto… decide.

Encostei o cartão à mesa, olhei para o relógio, olhei para a porta, e senti a vergonha discreta de perceber que eu estava mesmo a enrolar.

— Está bem — disse, finalmente. — Eu vou.

Adison nem comemorou. Só assentiu, como quem finalmente leva alguém ao óbvio.

— Óptimo. Agora veste-te.

Fui ao armário e puxei a primeira coisa “segura”: camisa escura, calças pretas simples, aquele casaco neutro que eu uso em Nova Iorque quando quero desaparecer no meio da cidade.

Voltei com a roupa na mão.

Adison olhou. E a expressão dela mudou tão pouco que ficou pior. Um silêncio curto, seguido de um “não” dito com elegância cruel.

— Não.

Pisquei, confuso.

— Não o quê?

Ela levantou-se, pegou na camisa da minha mão com dois dedos como se fosse um objecto contaminado e devolveu-ma sem delicadeza.

— Isso és tu a ires comprar pasta de dentes ao fim da rua. — apontou com o queixo para o cartão na mesa. — Adrian, ele mandou um prato com tampa de prata. — gesticulou para o carrinho no meio do quarto. — Ele está a pôr-te num filme e tu vais assim?

— Eu só não quero exagerar.

Adison riu uma vez, curto e sem humor.

— Estás em Milão, querido. Exagero é o mínimo.

Virou-se para o armário, abriu-o com força controlada e começou a afastar cabides como quem procura uma arma específica. Em segundos, tirou um fato de corte impecável, tecido pesado, a etiqueta interna praticamente a gritar luxo.

— Dolce & Gabbana. — segurou-o à minha frente como se fosse a solução mais óbvia do mundo.

Franzi a testa.

— Isto é para trabalho. A Velvet deu isto para—

— Adrian, pára. — Adison cortou, já irritada outra vez, mas sem levantar a voz. — Metade do que está aqui não vai ser usado. A agenda não deixa. E tu ainda queres poupar roupa como se fosse racionamento de guerra?

Abri a boca.

Ela não me deu tempo.

— E antes que digas “não é apropriado”… vais a um bar de hotel em Milão. É literalmente o habitat desse fato.

Peguei no cabide devagar, ainda a tentar manter alguma lógica.

— Mas e se alguém vir?

Adison inclinou a cabeça, com um sorriso fino.

— Que veja. Tu trabalhas numa revista. Ser visto faz parte do pacote. — apontou para mim com o queixo. — Só não sejas visto a parecer que pediste desculpa por existir.

Fiquei a encarar o fato como se ele me estivesse a desafiar.

Adison cruzou os braços outra vez, e a impaciência voltou inteira — limpa, sem drama.

— Veste. Vai. E faz o favor de parar de agir como se estar solteiro fosse um detalhe que tu precisas de justificar.

Soltei o ar, rendido, e comecei a trocar de roupa.

Enquanto abotoava a camisa certa, Adison encostou-se ao armário e falou com a naturalidade de quem já decidiu como usar o mundo a seu favor:

— Aliás, eu já sei onde vou usar três vestidos quando voltarmos para Nova Iorque.

Olhei para ela.

— Já?

— Claro. — disse, como se fosse óbvio, com um sorriso agora completamente satisfeito. — Um Versace para um evento que eu vou aceitar por conveniência. Um Saint Laurent para um jantar que eu vou fingir que não me importa. E um Balmain só para entrar na Velvet e lembrar toda a gente que eu vim… e eles não.

Ri, baixo, e foi a primeira vez que a noite pareceu menos pesada.

Adison olhou para mim pelo espelho, a avaliar o caimento do Dolce como se estivesse a corrigir um layout.

— Pronto. Agora sim. — deu um passo atrás, satisfeita. — Já podes ir encontrar o teu “M” sem parecer que fugiste do próprio convite.

Peguei no cartão, enfiei-o no bolso interior do fato e caminhei para a porta com o coração a bater alto. Já tinha a mão no puxador quando senti o corredor “chegar” antes do som — aquele silêncio de alcatifa cara que engole passos e, ainda assim, deixa presença no ar. Abri a porta primeiro.

Leslie estava ali, a meio gesto, a mão levantada como se fosse bater. Parou no ar sem o menor embaraço, como se eu ter aberto antes fosse apenas… conveniente.

O olhar dele percorreu-me com a precisão de sempre: o rosto, o fato, o nó da gravata, o bolso interior do casaco. Depois voltou à minha cara com uma calma que já vinha com um comentário preparado.

— Boa noite — disse, suave.

— Boa noite — respondi, e odiei a nota de nervosismo que escapou.

Leslie baixou a mão devagar, desistindo da formalidade como quem se cansa de um ritual.

— Que eficiência. — inclinou a cabeça. — Eu ia bater… mas claramente já recebeste um convite.

Atrás de mim, Adison apareceu no batente, braços cruzados, postura impecável, expressão neutra de quem já não tinha paciência para enrolação — mas não ia admitir esse prazer em voz alta.

Tentei a desculpa mais neutra possível.

— Eu ia só descer um bocado… — a mão foi-me ao pescoço, a denunciar um nervosismo que não me cabia no corpo — apanhar ar… é isso.

Leslie olhou para o meu fato com uma calma quase apreciativa, como se estivesse a avaliar um look antes de o desmontar.

— Apanhar ar — repetiu. — Com um Dolce & Gabbana?

Adison deixou escapar um som mínimo pelo nariz. Não chegou a ser riso, mas foi o reconhecimento exacto de que eu me sentia um adolescente apanhado pelo pai numa fuga nocturna.

Tentei salvar a dignidade.

— Eu só… não queria parecer desleixado.

Leslie sorriu de leve — refinado, certeiro.

— Docinho, poupa-me. — cuspiu as palavras como se estivesse ofendido. — Estás com ar de Christian Grey a caminho de um “compromisso inocente”.

A referência caiu com elegância cruel. Senti o rosto aquecer, mas mantive a postura, como se isso ajudasse. Adison, atrás de mim, murmurou com ironia subtil:

— Eu avisei que o Dolce ia chamar atenção.

Leslie nem precisou de se virar para ela.

— Não é o Dolce que chama atenção. É o pânico mal disfarçado.

Deu um passo pequeno para o lado, ainda a ocupar o corredor como quem decide se te deixa passar ou não.

— Deixa-me adivinhar — continuou, num tom deliciosamente polido. — Vais ao bar “só por um minuto”, vais beber “só uma coisa”, e amanhã vais aparecer às 9h30 com cara de quem foi atropelado por um conceito.

Adison ergueu as sobrancelhas, satisfeita com a precisão.

— Isso foi específico.

Leslie olhou para ela o suficiente para a incluir sem lhe dar palco.

— Eu sou pago para ser específico.

Voltou para mim.

— Bar do hotel?

Hesitei um segundo. O suficiente.

— Sim.

Leslie assentiu, lento, como se aprovasse a honestidade tardia.

— Óptimo. — fez uma pausa curta. — E com quem vais “apanhar ar”, Adrian?

Abri a boca, fechei. O nome parecia alto demais para o corredor.

Adison entrou antes de eu tropeçar, num tom profissional e neutro, com aquela clareza fria de quem já não tem paciência para rodeios:

— Leslie, ele vai ficar no bar. É seguro, é discreto e volta rápido.

Leslie respondeu com delicadeza venenosa:

— Discreto não é o lugar, Adison. É o comportamento.

Adison sustentou-lhe o olhar, sem pestanejar.

— Ele sabe comportar-se.

Leslie voltou para mim, a voz macia.

— Sabe mesmo?

Endireitei os ombros, a tentar parecer mais convicto do que me sentia.

— Eu volto cedo.

Leslie sorriu outra vez — aquele sorriso fino.

— “Cedo” é a palavra que as pessoas usam quando já estão a negociar o pecado. — disse, suave. — Eu prefiro inteiro.

— Eu volto inteiro — respondi, rápido.

Leslie assentiu, satisfeito.

— Óptimo. — e arrematou com elegância afiada: — Porque se tu voltares fragmentado, eu vou ter de montar o puzzle antes de a Valentina notar que falta uma peça.

Adison soltou um “hum” discreto, como quem concorda sem gostar do quadro mental.

Leslie finalmente desviou-se, abrindo caminho como se ele fosse a própria porta.

— Vai — murmurou, com um quase-sorriso. E, quando eu já ia a meio do corredor, ouvi a voz dele outra vez: — E meu doce… em Milão, a diferença entre um copo e um desastre costuma ser onde deixaste a roupa interior.

Corei tanto que não tive coragem de olhar para ele.

Atrás, ouvi Adison soltar uma gargalhada mal contida.

— Vai lá e tenta manter a dignidade… pelo menos até ao elevador.

Levantei a mão num gesto rápido de “eu ouvi” e continuei. Não me virei. Se me virasse, o Leslie ia ver o efeito exacto que tinha causado. E ele não merecia esse presente.

O elevador estava no fim do corredor, com as portas metálicas a reflectirem uma versão polida de mim: fato impecável, postura ensaiada, e uma tensão no maxilar que eu tentava passar por seriedade. Carreguei no botão e esperei como se o tempo tivesse decidido provocar-me também.

Quando as portas abriram, entrei sozinho.

O espelho devolveu-me o reflexo com uma crueldade silenciosa. Eu parecia pronto para um editorial. Não parecia pronto para… nada do que o meu corpo estava a insinuar. Ajustei a lapela sem necessidade — um gesto de quem precisa de fazer qualquer coisa para não parecer que está a tremer por dentro.

O elevador desceu com uma suavidade indecente.

No lobby, o hotel tinha mudado de pele. De dia, era vidro e eficiência. Àquela hora, era luz baixa, perfume no ar, vozes contidas e gente bem vestida demais para estar “só de passagem”. Havia casais e pequenos grupos com a calma de quem não tem hora marcada para acordar cedo. Havia também aquela solidão elegante de quem bebe sozinho sem parecer triste.

Caminhei sem pressa. Em Milão, até a pressa tinha de ser educada.

O bar ficava ao fundo, separado por uma parede de madeira escura e uma iluminação morna que deixava tudo mais bonito e, por isso, mais perigoso. A música era discreta, jazz, talvez, o suficiente para preencher o silêncio sem atrapalhar conversas que não queriam ser ouvidas.

Parei um instante antes de entrar e respirei fundo.

Não era medo. Era… perigo.

A frase no cartão voltou-me à cabeça: encontra-me no bar em 20 minutos. Como se eu tivesse sido convocado por alguém que já conhecia o meu ponto fraco: o impulso de dizer “sim” quando o mundo oferece uma coisa que não é trabalho.

Entrei.

Os meus olhos demoraram um segundo a ajustar à luz. Depois encontraram-no.

Mathew estava numa mesa lateral, num canto estratégico, não chegava a ser propriamente escondido, mas inteligente. A postura dele era tranquila demais para alguém que tinha armado um pequeno teatro com serviço de quartos. Um copo à frente, gelo intacto, mãos relaxadas como se ele não estivesse a mexer comigo desde o corredor.

Ele não acenou. Não precisou. Só levantou o olhar.

E o olhar dele foi aquele tipo de convite que não pede nada, mas assume tudo.

Fui até ele a sentir o chão mais macio do que devia, como se o bar inteiro tivesse sido desenhado para te fazer esquecer que amanhã existe.

Mathew sorriu. Pequeno e contido, mas com intenção suficiente para me desarmar.

— Vieste.

Puxei a cadeira com cuidado, sentei-me, e tentei parecer normal.

— Estou aqui.

O olhar dele desceu por um segundo para o meu fato. Avaliou. Aprovou. E isso, absurdamente, deixou-me mais nervoso.

— Dolce & Gabbana — murmurou, como se dissesse o meu nome. — A Velvet cuida bem do que é dela.

A frase era simples, mas tinha aquele veneno doce que o Mathew sabia usar: insinuar posse sem precisar de afirmar nada.

Engoli em seco.

— Foi… recomendação interna.

Mathew arqueou uma sobrancelha, divertido.

— Uma recomendação com gosto.

Empurrou um copo extra na minha direcção num gesto suave, natural. Como se já o tivesse pedido antes mesmo de eu chegar.

— Bebe.

Olhei para o copo.

— Tenho de estar inteiro amanhã — disse, e a palavra “inteiro” saiu com a voz do Leslie na minha cabeça. O que, naquela mesa, pareceu uma ironia do universo.

Mathew sorriu lentamente.

— Eu não te estou a pedir para te perderes. — inclinou-se um pouco, só o suficiente para reduzir o mundo ao tamanho daquela mesa. — Só te estou a pedir que pares de te comportar como se prazer fosse crime.

Dei um gole pequeno. O álcool veio quente, limpo, e fez o meu corpo lembrar-se de que ele existia fora de folhas de cálculo e sequências editoriais. Mathew observou esse segundo como se coleccionasse detalhes.

— Melhor — disse baixo.

Pousei o copo na mesa e tentei recuperar o controlo.

— Porquê o teatro? — perguntei. — A tampa… o bilhete… isso tudo.

Mathew deu de ombros com uma elegância preguiçosa.

— Porque tu só vinhas se eu transformasse isto em cena. — inclinou a cabeça, com um sorriso que parecia saber demais. — E porque, em Milão, se tu não fazes teatro… alguém faz por ti.

Eu devia ter respondido algo afiado. Devia ter dito que não era assim. Mas a verdade é que eu estava ali. E a minha presença era a confirmação.

Mathew ficou em silêncio por um instante, depois apontou com o olhar para o bar, para o murmúrio, para o brilho discreto.

— Pareces menos tenso aqui.

— Estou a tentar — respondi, honesto demais.

Mathew sorriu de novo.

— Óptimo. Então tenta mais um bocadinho.

E, como se a cidade tivesse ouvido, a frase do Leslie voltou como uma sombra divertida a pairar perto do meu ouvido: a diferença entre um copo e um desastre…

Olhei para o copo, depois para o Mathew, e senti a noite inteira de Milão a inclinar-se na minha direcção, à espera de ver se eu ia ser prudente… ou se eu ia, finalmente, deixar alguma coisa acontecer.

— Então… — eu disse, a voz mais baixa do que antes. — O que é que tu queres de mim esta noite?

Mathew não respondeu de imediato. Só manteve aquele sorriso contido, como se a resposta fosse óbvia… e como se ele tivesse todo o tempo do mundo para me fazer descobrir sozinho.

Mathew ficou a olhar para mim como se a minha pergunta fosse uma porta entreaberta — e ele estivesse só a decidir se empurrava… ou se me deixava fazer o trabalho sozinho.

— O que é que eu quero? — repetiu, devagar, como se saboreasse as palavras. — Queria ver se eras mesmo tão disciplinado quanto finges.

Senti o calor subir pelo pescoço, mas não desviei o olhar. A naturalidade dele era quase indecente. Como se não existisse risco nenhum em dizer aquilo ali, num bar de hotel, numa cidade onde tudo vira história.

— E qual é o veredicto? — perguntei, tentando manter a voz estável.

Mathew inclinou-se ligeiramente para a frente, só o suficiente para eu sentir que a conversa tinha diminuído de tamanho — agora era só a mesa, o copo e o espaço entre nós.

— Tu és disciplinado… até alguém te olhar como deve ser.

Soltei um riso curto, incrédulo.

— “Como deve ser” é uma frase perigosa.

— Milão é uma cidade perigosa — respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Dei outro gole. Pequeno. Contido. Como se eu ainda estivesse a negociar comigo mesmo.

Mathew viu e não disse nada. Só deixou o silêncio funcionar por ele. Um silêncio confortável, íntimo, como se nos conhecessemos há meses e não estivesse a improvisar coragem numa mesa de bar.

— Pareces… diferente aqui — disse por fim, num tom baixo. — Menos “Velvet”.

— Isso era suposto ser um elogio? — devolvi, provocando sem ter certeza se eu tinha permissão para provocar.

Ele sorriu, um pouco mais aberto.

— Isso é um alívio.

A frase caiu tão natural que eu demorei meio segundo a perceber que estava a ser flerte. E, quando percebi, já era tarde. Eu já estava a sorrir também.

— Eu devia estar a dormir — murmurei, mais para mim.

— E, no entanto, estás aqui — Mathew disse, e o jeito como ele disse “aqui” fez parecer que não era só o bar.

Encostei o copo na mesa com cuidado, como se o gesto pudesse devolver-me o controlo.

— Mandas bilhetes como se isso fosse… normal.

Mathew deu de ombros.

— E não é — inclinou a cabeça. — Tu é que tens um péssimo hábito de me fazer querer ser insistente

Pensei no Leslie. Pensei no “inteiro”. Pensei em 9h30. E ainda assim, ali, com Mathew a olhar para mim daquele jeito calmo, eu sentia que a cidade inteira tinha baixado o volume para deixar aquela conversa acontecer.

— Eu não sou inconsequente — disse.

— Eu não te pedi para seres — respondeu, sem pressa. — Eu pedi-te para apareceres.

Ri de leve, porque era irritante o quanto aquilo funcionava.

— Falas como se eu fosse fácil.

Mathew levantou o copo dele, devagar, como quem brinda sem fazer barulho.

— Tu não és fácil. — Um segundo de pausa. — Tu só és… óbvio quando queres alguma coisa.

Ergui uma sobrancelha, fingindo ofensa.

— E tu? És sempre assim? Tão… confortável?

Mathew olhou para o gelo no copo, rodou-o uma vez, e voltou para mim com o mesmo sorriso contido.

— Eu fico confortável quando sei que a pessoa do outro lado também quer.

O ar pareceu mudar. Não dramaticamente. Só ganhou textura, como se eu conseguisse sentir a distância exacta entre as nossas mãos na mesa.

Segurei o olhar dele, sem recuar.

— E tu achas que eu quero o quê?

Mathew inclinou-se um pouco mais. Não invadiu. Só aproximou o suficiente para a pergunta virar íntima.

— Tu queres alguém que não te peça para seres menor. — falou como se estivesse a descrever uma cor. — E queres, por uma noite, parar de te comportares como se prazer fosse um erro de carácter.

Não respondi de imediato. Porque a verdade acertou num lugar específico demais.

Em vez disso, deixei sair o que eu estava mesmo a pensar com a naturalidade desmedida que ele parecia puxar de mim sem esforço:

— Sempre a agir como se me conhecesses.

Mathew sorriu, e o sorriso dele teve um toque quase… terno, por baixo da provocação.

— Estou a conhecer-te agora. — olhou para o meu fato outra vez, como se o tecido também dissesse coisas. — E tu estás a facilitar.

Soltei um riso baixo.

— Isso foi culpa da Adison.

— A Adison tem bom gosto — disse, simples. — Mas a coragem é tua.

Respirei fundo. Senti o coração bater mais calmo do que devia para uma situação que podia virar problema. E, ao mesmo tempo, senti-me estranhamente… leve. Como se o “modo sobrevivência” tivesse, por fim, dado uma folga.

Mathew estendeu a mão não para me tocar, não ainda, apenas para deslizar o cartão do bar com dois dedos, chamando o empregado com um gesto discreto.

— Mais um? — perguntou, olhos nos meus, como se a pergunta fosse sobre muito mais do que bebida.

Hesitei. Não por moral. Por hábito.

E, do nada, lembrei-me da voz de Leslie no corredor, maliciosa e elegante, e quase sorri sozinho.

— Um — disse. — Só um.

Mathew assentiu, satisfeito, como se tivesse acabado de ganhar uma aposta silenciosa.

— Claro. — inclinou a cabeça. — “Só um” é a mentira favorita de pessoas bonitas.

Ri, e a minha risada saiu fácil demais, como se eu tivesse esquecido por um instante que amanhã existia. A provocação ficou ali, pendurada, e eu aproveitei, meio a brincar, meio a sério:

— Ah… — sorri ainda mais fenético, como se gostasse daquela informação — então eu sou bonito.

Mathew nem fingiu surpresa. Só me olhou como quem já estava cansado de eu fingir que não sabia certas coisas.

— És. — disse, simples, como se fosse um facto.

Pisquei, tentando parecer leve.

— Assim… tão directo?

— Pediste confirmação — respondeu, dando de ombros. — Eu não tenho paciência para suspense quando a resposta é óbvia.

Dei outro riso curto, meio sem graça.

— E qual é o problema de eu ser bonito?

Mathew girou o copo dele devagar, o gelo festalando no vidro, e falou como se estivesse a comentar algo trivial como o tempo, o bar ou a música:

— O problema é que tu sabes ser bonito sem tentares. — levantou os olhos para mim. — E depois ficas com essa cara de quem não entende porque é que as pessoas reparam.

Quis ripostar, mas a minha voz falhou no caminho.

— Tu reparas?

Mathew sorriu de canto.

— Adrian… eu reparei no minuto em que entraste. — fez uma pausa curta, como se estivesse a escolher palavras com cuidado. — E reparei ainda mais quando te riste agora.

Engoli em seco.

— Porquê?

Ele inclinou a cabeça, tranquilo.

— Porque ficas… fácil de ler quando te esqueces de te vigiar. — E completou, quase como um comentário casual: — Dá vontade de chegar mais perto.

O meu estômago deu aquele salto idiota. Tentei manter a postura, mas o corpo traiu primeiro — um calor lento a subir pelo pescoço.

— Isso é… — comecei.

— Ias dizer “indecente”? — interrompeu, com um sorriso pequeno.

Soltei o ar, rendido.

— Talvez.

Mathew deu de ombros como se fosse a coisa mais normal do mundo.

— Indecente seria eu fingir que não estou a pensar em ti de um jeito específico. — olhou para mim por um segundo mais longo. — Eu estou.

A frase saiu tão simples que me deixou sem defesa. Sem teatro. Só verdade, dita como quem pede mais um drink.

Baixei o olhar para o meu copo, a tentar não sorrir.

— Não facilitas.

Mathew encostou o copo dele no meu, um toque leve, quase sem som.

— Eu facilito, sim. — sorriu. — Tu é que complicas.

E eu ri de novo, baixinho, porque era ridículo o quanto aquilo parecia natural… e o quanto eu queria que continuasse.

O empregado chegou como se já soubesse o papel que desempenhava naquela cena: discreto, rápido, quase invisível. Mathew pediu sem olhar para a carta, como quem frequenta o lugar e, ao mesmo tempo, como quem quer que eu perceba isso sem precisar dizer.

— Um para ele — disse Mathew, e depois olhou para mim de novo. — E água também.

Ergui uma sobrancelha.

— Água?

— Tu disseste que tinhas de estar inteiro amanhã — respondeu, com um sorriso contido. — Não disseste que não ias beber.

A forma como ele usou a palavra “inteiro” fez a frase de Leslie atravessar-me a cabeça com uma ironia quase cruel. Eu devia ficar mais preocupado. Em vez disso, senti vontade de rir.

— Estás a ser… responsável — provoquei.

Mathew inclinou a cabeça.

— Não espalhes. Eu tenho uma reputação a manter.

O empregado colocou os copos com cuidado e sumiu de novo. Fiquei a olhar o brilho do gelo por um segundo, como se aquele detalhe fosse a única coisa sólida no meio da sensação crescente de que eu estava… a permitir-me.

Mathew apoiou o antebraço na mesa, relaxado demais para não ser calculado, e observou-me como se eu fosse uma leitura interessante.

— Estás diferente quando não estás a tentar agradar a ninguém — disse.

Encostei o copo aos lábios, tomei um gole pequeno e respondi com uma sinceridade que me assustou pela naturalidade com que saiu:

— Eu não sei como é que se faz isso.

Mathew sorriu, quase terno.

— Eu posso ensinar-te.

A frase podia soar arrogante na boca de qualquer outro. Nele, saiu como uma promessa divertida, a mesma leveza com que alguém te convida a atravessar a rua, como se não existisse risco.

Fixei-o.

— Falas como se fosse simples.

— Para mim, é. — deu de ombros. — Tu é que complicas porque achas que tens de merecer.

Senti o estômago apertar num lugar que não era ansiedade. Era reconhecimento. E isso era perigoso.

— Gostas de me ler — disse, a tentar devolver a provocação.

Mathew não negou.

— Eu gosto de te ler quando tu me deixas.

O silêncio que veio depois não foi constrangedor. Foi carregado. O tipo de silêncio que não pede conversa — pede coragem.

Desviei o olhar só para fingir que precisava de um segundo. Quando voltei para ele, Mathew ainda estava ali, imóvel, confortável, como se tivesse todo o tempo do mundo e nenhum receio de esperar.

— Fazes sempre isso? — perguntei. — Apareces… e mudas o ar.

Mathew abriu um sorriso pequeno, quase preguiçoso.

— Eu só apareço. — inclinou-se um pouco, só um pouco. — Tu é que mudas.

Ri baixo, mais por nervosismo do que por achar graça.

— És insuportável.

— Eu sou eficiente — corrigiu, o olhar a brilhar. — Tu próprio disseste que gostas de eficiência.

Pensei em negar. Em fazer piada. Em trazer a conversa para algum terreno seguro. Mas a naturalidade com que ele me puxava para o lugar certo deixou-me sem vontade de fingir.

— Estou a tentar não estragar isto — admiti.

Mathew olhou para mim como se eu fosse adorável no pior sentido.

— Tu ainda achas que tudo se estraga com facilidade.

— Não se estraga?

Ficou sério por meio segundo, o suficiente para parecer honesto.

— Estraga quando tu foges a meio.

Senti um arrepio leve, quase imperceptível, como se o corpo tivesse entendido antes da cabeça.

— Eu não estou a fugir — disse.

Mathew olhou para o meu copo, depois para mim de novo.

— Ainda não.

Respirei fundo e tomei outro gole. O whisky desceu quente, e percebi que não era a bebida que me estava a soltar. Era ele.

Mathew encostou as costas na cadeira, mas o olhar dele não se afastou.

— Queres que eu seja gentil hoje? — perguntou, como se estivesse a oferecer um tipo específico de atmosfera.

Pisquei.

— Consegues?

Ele riu baixinho.

— Consigo. Mas tu vais achar chato.

Apoiei o cotovelo na mesa, inclinando-me um pouco, copiando sem querer a linguagem do corpo dele. A atracção estava a virar um jogo de espelhos.

— E se eu quiser que seja chato?

Mathew arqueou uma sobrancelha, divertido.

— Tu não vieste até aqui para ser chato.

A verdade veio tão limpa que eu senti o rosto aquecer outra vez. Não de vergonha. De… vontade.

Olhei em volta, rápido. Ninguém parecia prestar atenção. Ainda assim, eu tinha a sensação de que Milão sempre presta atenção — só escolhe quando comentar.

— Tu chamaste-me e eu vim — disse, baixinho. — Isso já é… bastante.

Mathew inclinou a cabeça, e o sorriso dele suavizou, mas sem perder a malícia.

— Eu sei. — fez uma pausa curta. — E eu gosto de saber que vieste.

Mathew ficou a observar-me em silêncio por alguns segundos, não um silêncio pesado, mas o silêncio de quem está a ler uma coisa que eu não estava a dizer em voz alta.

O meu olhar ia e voltava: porta do bar, reflexos no vidro, quem entrava, quem saía, quem passava perto demais. Era automático. O corpo ainda no modo “Velvet em público”, como se eu precisasse estar pronto para ser chamado de volta a qualquer segundo.

Mathew percebeu. Claro que percebeu.

— Tu não desligaste — disse, baixo.

Tentei rir, fingindo leveza.

— Estou bem.

Mathew inclinou a cabeça, como se aceitasse… só para depois negar com elegância.

— Estás. Mas estás alerta. — apontou com o queixo para os meus ombros, para a forma como eu ocupava o sofá como se estivesse de passagem. — Tu sentas-te como quem vai levantar-se a qualquer momento.

Abri a boca para justificar, mas ele não parecia querer explicação. Parecia querer solução.

Mathew bebeu um gole, pousou o copo e, com a naturalidade indecente de quem decide sem fazer drama, disse:

— Vamos lá fora.

Pisquei.

— Lá fora?

— Ar de verdade — respondeu, simples. — Sem música, sem pessoas a ouvir metade das palavras. Só a rua.

Senti o estômago apertar. Do lado de fora havia cidade, desconhecido, risco, câmaras, gente. Eu estava em Milão com Valentina no mesmo hotel — isso por si só já era uma frase perigosa.

— Mathew… — comecei, tentando manter o tom calmo. — Eu não sei se—

— Tu sabes — interrompeu, suave. — Tu só estás a calcular consequências.

Soltei o ar, frustrado comigo mesmo.

— Eu tenho trabalho amanhã.

Mathew sorriu de canto, como se eu tivesse dito “o céu é azul”.

— Eu sei. — inclinou-se um pouco. — E eu conheço a Valentina o suficiente para saber uma coisa: ela não veio para te deixar fazer turismo. Ela veio para te usar.

A forma como ele disse “usar” não tinha maldade. Tinha realismo. E isso fez a minha resistência ficar… menor.

Mathew continuou, leve, quase como quem comenta o menu do bar:

— Se tu queres ver Milão, não vai ser com ela. Nem com o Leslie. — pausa curta — Vai ser agora, enquanto ela finge que precisa descansar.

Engoli em seco.

— E se alguém vir?

Mathew levantou uma sobrancelha.

— Ver o quê? Duas pessoas a andar na rua? — sorriu. — Relaxa, Adrian. Milão não é moralista. Milão é curiosa.

Ainda hesitei, e ele viu. Não pressionou com urgência. Só mudou o tom para algo mais íntimo, mais baixo.

— Queres continuar aqui dentro, a vigiar-te… ou queres sentir a cidade por dez minutos?

O jeito como ele disse “sentir” apanhou-me. Porque era isso: eu estava ali, mas ainda não tinha tocado Milão de verdade. Eu só tinha atravessado corredores.

Respirei fundo, rendido.

— Dez minutos.

Mathew sorriu, satisfeito.

— Quinze — corrigiu, como se estivesse a negociar com carinho.

Levantei-me, e ele levantou-se comigo, natural. Pagou a conta sem espectáculo, um gesto discreto, e só então me olhou de novo, como se confirmasse que eu ainda estava ali.

— Vem.

Saímos do bar e atravessámos o lobby. O hotel à noite parecia ainda mais irreal — mármore a brilhar, gente em silêncio elegante, funcionários que se moviam como sombras. Eu sentia que qualquer passo errado podia ecoar como manchete.

Mathew percebeu a tensão e inclinou-se perto do meu ouvido enquanto caminhávamos, como se a frase fosse só minha:

— Estás a pensar no Leslie.

Eu não neguei.

— Ele vai saber.

Mathew sorriu, divertido.

— O Leslie já sabe de tudo. Ele só escolhe o que comenta. Além disso… — a mão dele roçou na minha num gesto íntimo — estou a ficar com ciúmes.

A mão dele roçou na minha e eu congelei num segundo ridículo. Não pelo frio, mas porque a palavra “ciúmes” não combinava com a calma dele e, ainda assim, saiu com uma naturalidade indecente.

Tentei rir, mas o som não saiu limpo; saiu curto, preso, como se o meu corpo tivesse entendido antes da minha cabeça.

Olhei para ele com a sobrancelha meio levantada, à procura da piada para me salvar — e não encontrei. Em vez disso, senti o rosto aquecer e desviei o olhar para a rua por um instante, fingindo interesse nas luzes, nas vitrines fechadas, em qualquer coisa que não fosse a sensação de que ele me tinha acabado de puxar para mais perto sem me tocar de verdade. Quando voltei a encará-lo, a única coisa que consegui dizer, numa voz mais baixa do que eu queria, foi:

— Ciúmes de quem, Mathew?

Ele não respondeu logo. Caminhou meio passo mais perto — não o suficiente para ser invasão, só o suficiente para transformar a pergunta em coisa privada. O sorriso dele apareceu de lado, preguiçoso, como se eu tivesse feito exactamente o que ele queria: ficar.

— De qualquer um que consiga fazer-te esquecer essa cara de “estou a cumprir uma regra” — disse, calmo. — Incluindo o Leslie.

Soltei um riso baixo, sem acreditar.

— Tens ciúmes do Leslie?

Mathew inclinou a cabeça, como se aquilo fosse óbvio e, ao mesmo tempo, divertido demais para negar.

— Tenho ciúmes de quem te conhece melhor do que eu gostaria. — a mão dele voltou a roçar na minha, desta vez com menos “acidente” e mais intenção. — E ele conhece-te.

Senti o estômago apertar. A rua continuava normal à nossa volta: gente a passar, carros ao longe, luzes a reflectirem no chão. Mas, entre nós, tudo parecia ficar mais silencioso.

— Ele só… trabalha comigo — disse, e a frase saiu defensiva sem eu querer.

Mathew olhou para mim como se eu estivesse a tentar convencer a pessoa errada.

— Eu sei. — sorriu, quase gentil. — É isso que torna pior. Ele nem precisa tentar.

Engoli em seco, e a minha cabeça procurou a saída mais segura: ironia.

— Então és do tipo possessivo?

Mathew riu baixinho.

— Não. — parou por um instante, obrigando-me a parar também. — Sou do tipo que repara.

Levantou a mão e, com um gesto pequeno, ajustou qualquer coisa invisível na minha lapela — um pretexto perfeito para encurtar distância. Os dedos dele não ficaram mais do que um segundo, mas foi o suficiente para me deixar consciente da minha respiração.

— Tu mudas quando alguém te observa com atenção — murmurou. — E eu não gosto da ideia de perder esse privilégio.

Fiquei sem resposta por um momento, com a garganta fechada num lugar que não era medo — era vontade de acreditar.

— Isso é… perigoso — consegui dizer.

Mathew deu de ombros, como se perigo fosse apenas outra palavra para honestidade.

— Milão não é para coisas seguras, Adrian.

Olhei para ele, e a cidade pareceu virar pano de fundo. O meu corpo inteiro estava acordado, alerta de um jeito diferente — não para fugir, mas para ficar.

— E o que é que fazes com esse ciúme? — perguntei, a voz mais baixa, quase um desafio.

Mathew sorriu, e desta vez o sorriso foi puro flerte — quente, malicioso, controlado.

— Levo-te para fora. — entrelaçou os dedos nos meus por um segundo, rápido, como se fosse só para testar a minha coragem. — E faço-te lembrar quem te tirou do hotel esta noite.

A pele arrepiou-se-me toda, e a resposta saiu antes do juízo:

— Então… prova.

A porta giratória do hotel devolveu-nos o ar frio da noite. Milão lá fora era outra coisa: luz dourada nos prédios antigos, ruído distante de carros, gente a caminhar com calma, como se a cidade nunca tivesse pressa. Havia um perfume no ar que parecia mistura de pedra fria, cigarro distante e algo floral que eu não soube nomear.

Mathew caminhava ao meu lado como se conhecesse o mapa do mundo. E eu, ao lado dele, sentia-me simultaneamente protegido e exposto.

— Para onde? — perguntei.

Mathew olhou para mim como se a resposta fosse óbvia e, ao mesmo tempo, como se ele quisesse que eu guardasse aquela imagem.

— Duomo di Milano — disse. — À noite é ridiculamente bonito. E tu precisas de ver pelo menos uma coisa que não tenha a ver com trabalho.

Eu nunca tinha ido. Só conhecia de fotos. Mas a forma como ele disse “ridiculamente bonito” fez parecer… íntimo, como se fosse um segredo.

Caminhámos por ruas elegantes, vitrines fechadas de marcas que eu reconhecia só de ouvir falar, luzes a reflectirem no chão, e um tipo de calma que Nova Iorque não tem. A cada esquina, Mathew diminuía o passo, não por cansaço, talvez por intenção de deixar o tempo segurar-se um pouco. Como se ele quisesse que eu acompanhasse o ritmo da cidade, não o meu.

— Estás melhor aqui — disse, depois de alguns minutos.

— Estou? — perguntei, desconfiado.

Mathew olhou para a minha mão, para o jeito como eu já não estava a segurar o casaco como escudo.

— Hmhm. Paraste de olhar por cima do ombro a cada três segundos.

Tentei negar, mas era verdade. A rua fazia um tipo de silêncio que não exigia vigilância. Exigia presença.

Quando virámos uma esquina, vi ao longe uma massa branca iluminada — como se um pedaço de lua tivesse caído no meio da cidade.

Mathew não disse nada. Só me deixou ver.

E então, quando nos aproximámos, o Duomo apareceu inteiro, imenso, esculpido em detalhes que pareciam impossíveis, luz branca a bater na fachada como se fosse cenário. Pessoas espalhadas pela praça, algumas sentadas no chão, outras a tirar fotos, casais a andar devagar. A cidade parecia respirar ali.

Parei sem perceber que tinha parado.

— Meu Deus… — escapou-me, baixinho.

Mathew olhou para mim, satisfeito com a reacção, como se ele me tivesse acabado de dar um presente.

— Eu disse.

A praça tinha um frio leve, mas não desagradável. O vento mexia a roupa, e eu senti o fato caro como uma segunda pele — pela primeira vez sem parecer fantasia. Era só… eu, numa cidade linda, com alguém perigosamente perto.

Mathew aproximou-se um pouco, sem invadir.

— Agora diz-me — falou baixo. — Isto parece trabalho?

Soltei um riso curto, finalmente verdadeiro.

— Não.

— Óptimo. — inclinou a cabeça, o olhar preso no meu. — Então fica aqui comigo por um minuto. Sem esconder nada.

Ficámos ali, juntos, a contemplar a vista. Observei cada detalhe da estrutura, desde o branco hipnótico do mármore aos vitrais que sustentavam as redomas. Pessoas passavam ao nosso lado. Algumas tiravam fotos, outras apenas conversavam como se fosse um dia normal de semana. Mas não era. Não para mim.

Mathew começou a caminhar ao fim de uns minutos e eu, sem dizer nada, apenas o segui.

A rua estava fria, mas não era o frio que eu sentia. Era outra coisa, aquela tensão limpa que começa banal e, sem ninguém anunciar, vira o único assunto possível.

Mathew caminhava ao meu lado como se Milão fosse dele. Eu tentava acompanhar o ritmo sem parecer que estava a aprender a respirar de novo.

— Ficas sempre tão calado quando estás… fora do trabalho? — perguntou, como se fosse só curiosidade.

Dei de ombros.

— Eu não estou calado. Estou a tentar não parecer um turista.

Mathew soltou um riso curto.

— A Valentina ia odiar isso.

— A Valentina odeia quase tudo. — disse, e a frase saiu mais leve do que eu esperava. — Inclusive a ideia de eu estar feliz.

Mathew virou o rosto para mim, andando, e lançou-me aquele olhar de lado que parecia casual mas não era.

— Estás feliz agora?

Eu ia responder “não sei”, mas soaria fraco. Eu já estava cansado de ser fraco.

— Estou… menos tenso — corrigi.

Mathew assentiu, como se eu tivesse passado num teste.

— Bom. Porque tu és bonito quando relaxas.

Ri, automático, tentando fazer disso uma piada para não sentir. Mas ele não deixou.

— Não foi piada — disse, simples.

Engoli em seco e olhei para a frente, fingindo interesse na rua, nas vitrines fechadas, nas luzes a reflectirem na pedra.

— Falas como se elogiar fosse um hábito — provoquei, mas a minha voz traiu um pouco.

— Não é hábito. — respondeu. — É só que, contigo… dá vontade.

Senti a pele da nuca arrepiar, e a raiva pequena de saber que ele percebia tudo.

— Dá vontade de quê? — perguntei, tentando soar casual, como se eu não estivesse a pedir.

Mathew não acelerou. Não fez teatro. Só caminhou mais perto por um segundo, como se a rua tivesse ficado estreita de propósito.

— De encostar. — disse, baixo, como se estivesse a comentar o tempo.

Parei de andar por meio segundo. Ele também, naturalmente, como se o corpo dele já estivesse sincronizado ao meu.

— Dizes isso assim? — perguntei, e agora eu já não tinha muito onde esconder a tensão na voz.

Mathew inclinou a cabeça, tranquilo.

— Assim como?

— Como se eu não fosse entrar em pânico.

Ele sorriu de canto.

— Estás a entrar?

Respirei fundo. O ar saiu quente demais para uma noite fria.

— Talvez um pouco.

Mathew fez um “hum” baixo, quase satisfeito, e continuou a andar. Eu fui ao lado dele, mas a distância entre nós tinha mudado. Ou talvez eu é que tinha mudado: eu estava consciente demais do espaço onde o braço dele podia tocar no meu a qualquer instante.

A conversa voltou a ficar banal… por segundos.

— Já tinhas vindo aqui antes? — perguntei, apontando para uma rua que descia, cheia de luzes.

— Já. — respondeu.

Disse aquilo com uma calma quase preguiçosa, como se Milão não fosse uma cidade, mas um hábito. O rosto dele nem precisou mudar muito. apenas os olhos, que continuavam atentos ao meu jeito de olhar tudo como se eu estivesse a memorizar o caminho de volta.

— Mas não assim.

A frase veio logo depois, mais baixa, mais íntima, como se ele tivesse decidido que certas coisas não precisavam de volume para ser verdade. Franzi a testa, ainda a caminhar ao lado dele, a sentir o ar frio bater-me no rosto e o brilho das luzes a reflectirem no chão molhado.

— Assim como?

Tentei soar casual, mas a minha voz saiu com aquela curiosidade que já era meio confissão. Mathew virou o rosto para mim. Não foi um giro dramático; foi só o suficiente para me encaixar no campo de visão dele. E o olhar dele ficou um pouco mais sério — não pesado, só mais honesto.

— Contigo a prestar atenção.

Aquilo atingiu-me num lugar perigoso, porque não era um elogio óbvio. Era um elogio que parecia saber demais sobre mim. Sorri, mas foi um sorriso nervoso, quase automático, como se eu tentasse disfarçar que tinha sentido.

— Eu presto atenção demais.

Disse isso num tom de brincadeira, mas, por dentro, eu já estava a sentir a minha própria vigilância — esse jeito de estar sempre acordado, sempre pronto, sempre com a sensação de que algo pode correr mal a qualquer momento.

Mathew soltou um “hum” baixinho, como quem concorda sem precisar insistir. A boca dele curvou num sorriso mínimo, mais divertido do que doce.

— Eu sei. — disse. — Tu prestas atenção até quando estás a tentar fingir que não estás.

Disse isso sem acusação. Só constatação. E isso foi o que me desarmou. Eu ia ripostar, dizer alguma coisa espirituosa para recuperar controlo, mas a rua pareceu mudar de tom naquele exacto instante.

Ficou mais vazia.

Não deserta, só… com menos gente. Menos barulho. Como se a cidade tivesse recuado um passo, abrindo espaço para eu ouvir a minha própria respiração. O som dos nossos passos no chão de pedra ficou mais nítido. O ar pareceu mais frio. E eu senti, de um jeito irritante, que Mathew tinha percebido tudo isso antes de mim.

Ele diminuiu o passo.

Foi um gesto simples, quase nada, mas obrigou-me a diminuir também. Fomos desacelerando juntos, como se ele tivesse puxado o travão sem me tocar. E, quando percebi, ele tinha parado junto a uma vitrine apagada.

O vidro escuro reflectia as nossas silhuetas: dois homens bem vestidos demais para ser “casual”, próximos demais para ser “só conversa”. A luz dos candeeiros desenhava contornos nos nossos rostos e deixava a rua atrás de nós parecer um cenário.

Mathew olhou-me de novo, como se aquela vitrine fosse um espelho que ele estava a usar para me mostrar o que eu fingia não ver.

— Em que é que estás a pensar? — perguntou.

O tom foi quase casual, quase inocente. Mas eu vi o jeito como ele segurava o olhar, paciente, como se ele já soubesse que eu estava a correr por dentro. Olhei para o reflexo no vidro, depois para ele, e senti uma vontade absurda de ser honesto… e uma vontade ainda maior de fugir para o seguro.

— Em como eu não devia—

Nem terminei.

Mathew cortou a meio, sem dureza, elevando uma das mão para que parasse.

— Não acabes essa frase.

Não veio como um sermão. Veio como um limite. E limite, nele, parecia cuidado.

Inclinou a cabeça, o corpo relaxado, como se estivesse confortável exactamente na tensão, como se aquilo fosse o ambiente natural dele e continuou:

— Passas o dia inteiro com “eu não devia” na boca. — fez uma pausa curta, o suficiente para eu sentir o peso do que ia dizer. — Eu trouxe-te para fora para tu parares.

Engoli em seco.

O meu peito apertou num lugar que não era medo, era necessidade. E o pior: ele estava tão perto que eu conseguia sentir o cheiro dele — limpo, quente, caro, uma mistura de perfume discreto e pele. E ele não parecia apressado. Não parecia ansioso. Parecia… certo. Como se a tensão fosse exactamente onde ele queria estar. Como se ele soubesse que eu ia ceder, e tivesse paciência para me deixar chegar lá.

Dei um passo mínimo mais perto.

Quase sem querer. Ou querendo e fingindo que não. Senti o meu próprio corpo tomar a frente da cabeça, como se a lógica tivesse cansado de mandar.

Mathew não recuou.

Só levantou a mão e ajustou a minha lapela de novo. Um gesto banal, perfeito. O tipo de gesto que qualquer pessoa podia fazer por educação. Só que os dedos dele demoraram um segundo a mais do que precisava, e eu senti esse segundo como se fosse uma frase inteira.

A minha respiração falhou. O ar entrou curto. O coração bateu mais alto.

Murmurei, tentando manter o tom leve, tentando fingir que eu ainda tinha controlo:

— Estás a fazer isto de propósito.

Mathew sorriu.

E desta vez foi um sorriso mais quente, menos disfarçado. Um sorriso que dizia “sim” sem pressa nenhuma.

— Estou.

A palavra caiu entre nós como um toque.

Ficámos frente a frente, perto demais para continuar a chamar aquilo de “passeio”. A rua, atrás, parecia longe. A vitrine reflectia a cena como se fosse um filme mudo. E eu senti o meu corpo inteiro acordado, alerta de um jeito novo, não para fugir, mas para ficar.

Tentei brincar, porque brincar era a minha última defesa. Precisava de uma frase para não admitir que eu estava a desejar aquilo como se fosse sede.

— Isto é uma distância segura? — perguntei.

Enquanto falava, o meu olhar traiu: passou pela boca dele por um instante. Rápido demais para parecer coragem… e lento demais para parecer acidente.

Mathew baixou a voz, elegante e indecente ao mesmo tempo, como se me estivesse a dar uma saída que não era saída. O rosto dele ficou a centímetros do meu. Senti a respiração dele tocar de leve a minha.

— É segura… se estiveres a mentir a ti próprio.

E ficou ali, parado, como se a distância entre nós fosse um jogo… e ele tivesse tempo infinito para ganhar.

No início, aquilo ainda tinha o formato de brincadeira: duas pessoas a fingir que estavam no controlo, só para ver quem perdia primeiro.

Mathew não se mexeu. O sorriso dele era pequeno, contido, como se ele estivesse a guardar a vitória no bolso. Senti a minha própria respiração denunciar-me, e tentei disfarçar com ironia.

— Falas como se já tivesses a certeza — murmurei, o olhar preso no dele.

Mathew inclinou a cabeça, o tom leve, quase provocador.

— Eu só estou a observar… e tu estás a fazer esforço demais para parecer indiferente.

Soltei um riso curto, daqueles que servem mais para me salvar do que para achar graça.

— Então observa isto.

Dei um passo mínimo, reduzindo o espaço entre nós só o suficiente para a tensão virar física. Mathew não se mexeu. Só ergueu a sobrancelha, como quem diz vai. E eu odiei o quanto eu gostei disso.

— Não vais fazer nada? — provoquei, a voz já mais baixa.

— Vou — respondeu, suave. — Eu só quero ver-te admitir que queres primeiro.

A frase foi dita com uma naturalidade indecente, como se desejar fosse só um detalhe do passeio. Senti o sangue subir, quente, e o meu corpo reagiu antes de a minha cabeça encontrar um argumento. Aquele jogo de “quem cede” deixou de ser jogo. Porque Mathew tinha esse jeito de falar que não empurrava… mas puxava — puxava a parte de mim que estava cansada de se vigiar.

Sustentei o olhar dele por um segundo, tentando resistir só para não lhe dar o gosto.

— És insuportável — sussurrei.

Mathew sorriu, e foi um sorriso quase terno.

— E tu estás a tremer.

Não neguei. Nem consegui.

Foi aí que a brincadeira acabou.

A minha mão subiu sem pedir permissão, passou pela lateral do rosto dele até agarrar a nuca, os dedos a fecharem-se no cabelo curto com uma firmeza que me assustou pela honestidade. Não foi delicadeza, mas uma necessidade descontrolada. Foi o meu corpo a dizer chega, sem filtro.

Mathew soltou um ar baixo. Um som mínimo, mas eu ouvi. E, naquele segundo, eu soube: ele queria tanto quanto eu.

Eu puxei.

E beijei-o.

Um beijo quente, quase fogoso, como se eu tivesse estado a aguentar aquilo tempo demais e, finalmente, o meu corpo pudesse parar de se comportar. Foi como se a vontade tivesse encontrado lugar. Como se a minha pele, a minha respiração, a minha boca tivessem decidido falar por mim.

E Mathew correspondeu no mesmo instante. A mão dele veio à minha cintura com firmeza, aproximando-me como se ele tivesse passado a noite inteira a segurar a mesma fome com elegância, à espera do momento em que eu deixasse cair a última defesa. A reciprocidade dele não era só um “sim”. Era um “sim” cheio, inteiro, que me atravessou com um alívio quase cruel.

Por um segundo, o mundo desapareceu: a rua, a vitrine, o frio, Milão. Só existia o choque bom de estar tão perto, e a certeza de que eu não era o único a perder o controlo.

Quando afastei a boca só para respirar, a minha testa ficou quase encostada na dele. A minha mão ainda na nuca, como se eu tivesse medo de soltar e voltar a ser racional. Mathew abriu um sorriso curto, sem fôlego, os olhos escuros e vivos.

— Finalmente — murmurou, como se aquilo tivesse sido inevitável desde o primeiro bilhete.

E eu percebi, com uma clareza perigosa, que não era só desejo. Era a sensação de ser desejado de volta. De um a maneira tão natural que parecia que o meu corpo tinha estado à espera daquilo à demasiado tempo.