Dolce & Desastre

1 Dolce & Desempregado


A luz do computador mantinha-se acesa na minha secretária, teimosa, como se estivesse a fazer turnos comigo. À esquerda, uma chávena de café já quase frio, feito por Allan, e ao lado, um livro antigo de páginas amareladas que eu tinha encontrado algures numa das gavetas, como se a minha vida estivesse a coleccionar provas físicas de cansaço.

Tinha acabado de responder ao décimo sexto e-mail do dia e tudo o que eu queria era uma cama king size daquelas dos anúncios da manhã e uns cobertores quentinhos onde pudesse desaparecer durante dezoito horas seguidas.

Mas primeiro vinha o ritual: trabalhar mais um pouco, insistir mais um pouco, fingir que o corpo não estava a implorar por descanso. Só depois eu podia encostar a cabeça à almofada sem sentir culpa.

Eu estava quase a ponderar deitar-me no nosso sofá pequeno quando o Allan entrou pela porta, vindo da padaria por baixo do apartamento que tínhamos alugado juntos quando nos formámos.

— Ainda nada? — perguntou, pousando o saco com cheiro a pão quente em cima da mesa.

— Nop — resmunguei, levando o café frio à boca. — Não pensei que fosse tão difícil arranjar emprego. Não estamos em Nova Iorque? Pensei que isto fosse a cidade das oportunidades.

Estava irritado. Tinha-me formado há dois meses em Belas Artes na Universidade de Nova Iorque e já tinha corrido museus, ateliês e até algumas agências de publicidade que estivessem a contratar. Quarenta e três currículos enviados (sim, eu contei), mais de vinte e dois e-mails que mal tiveram resposta — e, quando vinham, era sempre a mesma frase polida: lamentavam informar que as vagas disponíveis exigiam experiência.

A vida de recém-formado era uma merda.

— Já pensaste num estágio? — o Allan atirou, enquanto se deixava cair no sofá com uma facilidade que me deu uma inveja infantil. — Eles sempre precisam.

— Precisamos de pagar renda, Allan. — suspirei.

Ele já estava com os olhos pregados na televisão e, como se fosse automático, colocou os pés em cima da mesa de centro. Eu inspirei fundo, com aquela paciência que já vinha gasta.

— Allan… — ele olhou para mim. — Podes tirar os pés de cima da mesa, por favor?

Ele suspirou e revirou os olhos, como se eu fosse o chato da relação, e puxou uma lata de cerveja do frigorífico.

— Eu sei que o dinheiro está apertado… mas se não consegues trabalho, tenta ao menos ganhar experiência.

— Não vamos pedir dinheiro aos teus pais outra vez. E tu sabes que o teu ordenado mal está a segurar as contas. — levantei-me e fui à cozinha, irritado demais para ficar quieto.

Tirei os pãezinhos quentes do saco e fiz uma sandes em poucos minutos, o tipo de comida feita mais por necessidade do que por vontade.

— Eu sei que não gostas de pedir, mas não temos outra alternativa… — ele bebeu mais um gole, alheio à própria passivo-agressividade. — Principalmente depois de recusares trabalhar na empresa do meu pai.

Aquele comentário acertou-me como sempre acertava: não pela força, mas pela repetição. Irritava-me. Eu não tinha estudado quatro anos, nem esvaziado as poupanças da minha mãe numa faculdade com nome, para acabar como secretário do pai dele. Para além de humilhante, era ceder a uma dependência que eu detestava.

— Já falámos sobre isso, Allan. — sentei-me ao lado dele, escondendo a frustração numa dentada seca na sandes.

Tínhamos discutido esse assunto há semanas e acabávamos sempre no mesmo ponto: fingir uma passividade confortável até a tensão se dissolver em silêncio. O problema era que o Allan não esquecia. E os comentários dele voltavam sempre, como se tivessem vida própria.

— Eu quero trabalhar na minha área. E não quero que a minha mãe ache que deitei dinheiro fora nos estudos.

— Foste tu que escolheste essa área, baby. — disse ele, sem sequer tirar os olhos da televisão, recostando-se ainda mais no sofá.

Era sábado. Ele estava de folga. O trabalho com o pai dava-lhe fins-de-semana garantidos e um plano de saúde impecável. Eu via aquilo e sentia um desconforto que fingia que não existia — talvez porque a minha vida sempre tivesse sido construída sem rede.

Conheci o Allan numa das festas da faculdade. Ele tirava Gestão, com o futuro praticamente assinado no stand de carros do pai. Eu meti-me em Belas Artes, a coleccionar tintas, sonhos e uma estabilidade financeira absolutamente inexistente.

O Allan nunca escondeu que partilhava a opinião do pai sobre mim. Para eles, Belas Artes era um curso bonito no papel, mas inútil na vida real — o tipo de escolha que só funcionava para quem já nascia com contactos, sobrenomes influentes ou uma sorte quase mitológica.

Segundo eles, talento sozinho não pagava contas. Não garantia estabilidade. E, muito provavelmente, deixava-te com uma colecção elegante de frustrações e desemprego ocasional. O Allan dizia isso sem crueldade — quase como quem repete uma verdade prática aprendida cedo demais — mas, cada vez que ele falava, eu sentia os meus planos a serem reduzidos a um capricho juvenil do qual ele esperava, silenciosamente, que eu me curasse.

Depois de um silêncio longo, eu mudei de assunto como quem desvia um carro de um buraco que já conhece bem.

— Vamos ao jantar da Megan?

O Allan animou-se. Esticou o braço à volta dos meus ombros e eu deixei-me encostar ao ombro dele, porque era mais fácil do que continuar a ter razão.

— Óbvio. — sorriu, e deu-me um beijo.

A mão dele subiu para a minha coxa com uma naturalidade íntima, quase como se o mundo inteiro pudesse esperar enquanto ele decidia o que queria de mim. E a boca dele encontrou o meu pescoço, lenta, insistente, a puxar-me para fora da cabeça e para dentro do corpo.

— A gente podia aproveitar… — murmurou num tom meio sensual, meio preguiçoso, e eu virei-me para o beijar, porque o desejo era a única coisa que não me pedia currículo.

— Eu adorava… — balbuciei, passando os dedos pelo cabelo dele, pelo caos bonito dos caracóis, roçando a barba firme na minha pele. — Mas tenho de enviar mais uns e-mails.

A ideia de o despir agradava-me, claro. Mas a ansiedade de estar desempregado era um peso que não me largava. Levantei-me, fingindo ignorar o resmungo abafado e a respiração frustrada.

— Prometo que compenso. — deixei-lhe um beijo rápido na bochecha antes de regressar aos currículos, como um condenado voluntário, crucificado numa esperança silenciosa que talvez nunca respondesse.

O humor dele melhorou horas depois.

Quando estávamos no carro, a caminho do Ollyn’s , um restaurante pequeno, estilo dive, algures pelo Lower East Side, conseguimos estacionar numa rua entre prédios, por sorte ou por milagre.

Saímos do carro, fechando as portas com cuidado para não acordar a rua silenciosa. À nossa frente, o Ollyn’s erguia-se com toda a sua autenticidade imperfeita: fachada descascada, letreiro meio torto com letras gastas e uma placa de néon a piscar “Open” de forma hesitante, como se o lugar estivesse sempre indeciso sobre existir.

As janelas, um pouco embaciadas, deixavam escapar sombras e risos indistintos de quem já estava lá dentro.

Empurrei a porta e fui imediatamente atingido pela mistura familiar: cheiro a fritos, aroma a café velho e mesas tortas que rangiam como se estivessem a reclamar há décadas.

Sorri, por baixo, a lembrar-me de como tínhamos descoberto aquele sítio nos tempos de faculdade — quando comer bem e barato era quase um luxo e nós éramos especialistas em transformar qualquer hambúrguer suculento num banquete de cinco estrelas.

Atrás do balcão, o Arthur, o barman que parecia existir desde antes de eu nascer, tinha a barba grisalha e o cabelo bem alinhado com cera. Lançou-nos aquele olhar típico assim que entrámos. Eu quase conseguia ouvir um “vocês ainda voltam aqui?” enquanto mexia um milkshake com a paciência de quem já tinha visto todos os nossos dramas passarem por ali.

A jukebox tocava qualquer coisa, ligeiramente desafinada, a competir com risos e conversas. Tudo um pouco caótico. Tudo perfeitamente familiar.

Apontei para a placa torta com “Ollyn’s — Comida, Bebida e Sobrevivência” escrito à mão e murmurei, com ironia carinhosa:

— O nosso tasco favorito de sempre.

O Allan sorriu e entrelaçou os dedos nos meus. E, lá do fundo, ouvi gritos: a Megan, o Oliver e a Tracy acenavam como se nos estivessem a chamar para um palco.

— Finalmente! Que demora! — a Megan abraçou-me, enquanto o Allan pendurava o casaco na cadeira livre para se sentar.

— O trânsito estava uma desgraça. — ele reclamou, sentando-se com pressa para abrir a ementa que já sabia de cor, porque em anos o menu nunca tinha mudado — a não ser o aumento ligeiramente obsceno dos preços, graças à inflação.

Eu resmunguei qualquer coisa sobre americanos e eleições presidenciais, mas ficou meio perdido no barulho.

E, por um instante, entre o cheiro das batatas fritas e o tilintar dos copos, voltei a ser aquele estudante sem um tostão no bolso.

— Vocês viram que a Amy da faculdade está grávida? — a Tracy quase despejou metade da caneca depois de um gole.

Ela era arquitecta júnior numa das empresas onde tinha estagiado no Verão antes da formatura. Tinham gostado tanto dela que lhe ofereceram trabalho a tempo inteiro mal acabasse o curso. Uma parte de mim arrependia-se de não ter feito estágios, mas na altura a minha mãe precisava de ajuda na loja, e eu não tinha escolha.

— A Amy Hosman? — o Oliver abriu a boca, espantado.

Ele estava impecável num fato escuro e gravata azul polida, denunciando que tinha saído do escritório de advogados directamente para ali. No meio de t-shirts, jeans e vestidos descontraídos, ele parecia deslocado — e, ao mesmo tempo, impossível de ignorar.

— Ela não era aquela rapariga que dizia que nunca ia fazer sexo antes do casamento? — a Megan largou o telemóvel na mesa. — Lembro-me de ela bêbeda, dar-me um sermão sobre preservar a virgindade.

— Isso não foi na festa dos irmãos Kenen?

— Foi! — a Megan fez sinal ao Arthur para trazer mais uma rodada. — Juro, parecia a Amanda Bynes naquele filme com a Emma Stone!

— Eu adoro A Mentira. — gargalhei. — Ícone.

— Mas está grávida de quem? — o Allan perguntou, sob o olhar atento da Tracy.

— Pelo que ouvi, foi do Mark Davis. — uma mecha loira caiu-lhe para o lado do rosto. — Aquele zé-ninguém de Estudos Clássicos.

— Estás a gozar! — a Megan sorriu de lado, as unhas perfeitas a tocarem no lábio inferior, enquanto a outra mão me batia no braço. — Não foi aquele tipo que te vendeu erva, Adrian?

— Esse mesmo. — suspirei. — Foi a erva mais rasca que alguma vez fumei.

— Horrível. — o Allan confirmou, olhando para mim com um brilho nada inocente. — Mas ao menos divertimo-nos imenso.

— Ai, conversa de gays aqui não. — a Megan riu.

O Arthur chegou com cinco canecas cheias e pousou-as com aquele ar de quem já nos aturava há uma vida.

— A tua homofobia é sempre bem-vinda. — respondi, com um sorriso, e bebi um gole da cerveja fria.

— Eu não acredito que sou o único hetero desta mesa. — o Oliver suspirou, desapertando a gravata. — Onde é que eu errei?

— Alô? — a Tracy deu-lhe um toque na testa. — Eu também sou hetero, sabes?

— Eu não acredito que o Oliver achava que o Adrian era hetero… — a Megan desatou a rir e começou a retocar o batom. A cor vinho assentava-lhe bem na pele morena, a denunciar as raízes latinas.

— Como é que eu havia de saber? Ele nunca levou ninguém ao dormitório! E andava sempre contigo!

— Exactamente, Oliver. — a Megan respondeu, satisfeita, como se aquilo fosse uma vitória pessoal.

O Oliver passou a mão pelo cabelo, a tentar afastar o cansaço que lhe ficava colado aos olhos.

— Vai devagar… — disse, num meio suspiro, meio riso, olhando para mim. — Entre entrevistas que parecem interrogatórios e anúncios que pedem experiência que ninguém tem… começo a achar que a minha melhor competência vai ser fingir confiança.

A Tracy riu, a abanar a cabeça.

— Olha só, o mestre do drama já está a treinar para o mundo corporativo.

Eu sorri, sem jeito.

— Se eu conseguir um emprego que não me faça arrancar os cabelos, prometo que te conto. — acrescentei, com um misto de ironia e esperança.

O Allan apertou a mão na minha perna, e eu encostei-me mais a ele, como se aquilo pudesse segurar o mundo no sítio.

— Não que não te amemos, Megan… — disse ele — mas qual é a razão deste jantar?

A Megan suspirou, ajustando o cabelo com o dramatismo habitual.

— Então… — fez um sorrisinho e encolheu os ombros. — Eu sei que vocês são as pessoas mais importantes para mim depois dos meus pais, do chato do meu irmão, dos meus tios e das minhas centenas de primos… e claro o m—

— Sim, estamos no teu top cem, já percebemos. — a Tracy revirou os olhos.

A Megan mostrou a língua, endireitou-se na cadeira e voltou a vestir a expressão de actriz de novela.

— Como eu estava a dizer antes de ser brutalmente interrompida: vocês são muito especiais para mim, mas agora… — bateu as mãos na mesa. — Eu estou… a namorar.

— Oi?

— Quê?

— Quem?

Ela mordeu o lábio, divertida com o caos que tinha provocado.

— Com a chefe. — o Oliver tossiu, tapando a boca.

— O quê?! — quatro rostos viraram-se para ela ao mesmo tempo.

A Megan fez uma cara malandra, como se estivesse a contar uma história perfeitamente normal.

— Ela é gerente do meu departamento de marketing.

— Como é que isso aconteceu? — a Tracy perguntou, a beber mais um gole sem tirar os olhos dela.

— Sei lá. Uma hora eu estava numa reunião com ela e na outra ela estava com a cabeça enfiada nas minhas pern—

— Chega! — o Allan levantou-se, horrorizado, e tapou-lhe a boca com a mão. — Não queremos detalhes.

— Ai, eu quero sim. — resmunguei, já a rir.

Mas antes de a Megan conseguir libertar-se para continuar, o meu telemóvel vibrou no bolso.

Franzi o sobrolho. Não reconhecia o número.

— A esta hora? — o Allan levantou uma sobrancelha, apontando para o ecrã. — Quem é?

— Já venho. — levantei-me, pegando no casaco.

Fui até um canto mais quieto, a desviar-me por entre gente e copos. Os Yankees jogavam hoje; não admirava que o Arthur estivesse de pior humor do que o habitual — se é que havia “melhor humor” nele.

O frio de Nova Iorque já tinha aquele sabor de fim de Outono. Em breve vinha a neve e as chuvas a encher o rio.

Atendi.

— Sim?

— Estou a falar com Adrian Keane? É o próprio?

O meu peito apertou.

— Sim. Sou eu.

— Foi seleccionado para entrevista na revista VELVET. Terça-feira, às dez. Basta indicar o seu nome na recepção do prédio principal.

Eu congelei.

— O quê? — o coração acelerou, como se finalmente alguém tivesse ligado a luz no fundo do túnel. — Está a falar a sério?

— Dez horas. Não se atrase. Vai ser entrevistado pela Valentina Moreau. Ela não tolera atrasos.

— Meu Deus… — soltei, a sorrir para o ar, como se o céu estivesse ali a confirmar-me uma coisa. — Muito obrigado, a sério, eu realmen—

A chamada caiu.

Fiquei parado uns segundos, a olhar para o telemóvel, com o cérebro a correr mais depressa do que eu. Finalmente. Finalmente uma resposta. Finalmente uma hipótese.

Quando voltei para a mesa, toda a gente me encarava como se eu estivesse prestes a anunciar uma sentença.

— Quem era, amor? — o Allan esticou o braço, tentando puxar-me de volta para o ombro dele.

— Bem… — engoli em seco, ainda a tentar acreditar. — Acho que tenho uma entrevista.

As canecas subiram numa celebração imediata.

— É isso aí!

— Para onde? — o Oliver perguntou, limpando uma pinga de cerveja que lhe tinha caído na gravata imaculada.

— Para uma revista… — a minha cabeça ainda estava a processar. — Velvet.

— O quê?

— Oh. Meu. Deus. — a Megan inclinou-se sobre a mesa, de olhos arregalados.

— O que foi?

— Tu és gay e não sabes o que é a Velvet?!

— Eu devia?

— Duh. — a Tracy puxou do telemóvel e encostou-o quase à minha cara. — Uma das revistas de moda mais aclamadas do país!

— Do mundo! — a Megan corrigiu, dramática.

— Na verdade, na Ásia ela não é permitida. — a Tracy emendou, já no modo “fact-check”. Depois virou-se para mim. — Mas como assim… porquê que te candidataste?

— Eu nem sei. — respondi, a rir, meio atordoado. — Deve ter sido um daqueles anúncios que me sugeriram no site quando meti o meu curso nas categorias.

O Allan tentou não rir.

— Vais desenhar roupa? O que é que tu sabes disso, amor?

— Bem… é isso ou ficarmos sem apartamento. — resmunguei, mas já com um sorriso que não me cabia no rosto. Abri o telemóvel e, em segundos, percebi que a Megan tinha razão: a Velvet era enorme. — Não deve ser assim tão difícil. E se me chamaram é porque querem alguém da minha área, não?

— Então vamos festejar! — a Megan levantou-se de um salto. — Arthur! Mais duas rodadas — eu pago!

— Tu dizes isso sempre, depois desmaias ali num canto e eu nunca vejo um tostão! — o Arthur reclamou, já a encher as canecas.

— Vá lá, não sejas um cabrão. — ela sorriu. — Bebe uma também!

— A tua sorte é que tu já vens com casa. Senão, já estavas na rua. — ele resmungou, mas a boca dele quase sorria.

Eu olhei para as canecas, para os meus amigos, para o Allan, e senti qualquer coisa rara a abrir espaço por dentro.

Sorri.

Finalmente… finalmente começava a dar certo.