Dolce & Desastre
2 Dolce & Avaliação
Acordei antes do despertador tocar o que, por si só, já dizia muito.
O quarto ainda estava mergulhado numa penumbra azulada, cortada apenas pela luz tímida que entrava pela frincha da persiana mal fechada. O Allan dormia de lado, de costas para mim, com a respiração pesada e regular de quem não tinha uma entrevista capaz de decidir o rumo imediato da própria vida.
Observei-o por alguns segundos. O cabelo dele tinha mudado desde os tempos da faculdade — mais curto, e com alguns fios brancos que, se já existiam antes, eu nunca tinha reparado. A barba, que costumava ser sempre um pouco deixada ao acaso, agora tinha um corte decente desde que ele começara a ir ao barbeiro da rua de baixo.
Levantei-me devagar, com cuidado para não o acordar. O chão estava gelado sob os meus pés descalços e isso ajudou-me a aterrar no corpo, a lembrar-me que eu estava ali. Que aquilo estava mesmo a acontecer.
Fui até à casa de banho e encarei o meu reflexo no espelho. Parecia o mesmo de sempre: olheiras discretas, cabelo claro ligeiramente despenteado, uma expressão neutra demais para alguém que, por dentro, sentia o estômago apertado como se tivesse engolido um nó.
Lavei o rosto com água fria. Funcionou durante uns três segundos.
Na cozinha, a máquina do café fazia aquele barulho reconfortante que eu sempre associei a começos forçados. Peguei na minha caneca favorita — a lascada na lateral — e sentei-me à mesa pequena, com o telemóvel ao lado como se, a qualquer momento, pudesse vibrar e anular tudo com um “pedimos desculpa pelo engano”.
Não vibrou. Claro que não vibrou.
Revisei mentalmente o percurso até ao prédio da Velvet: metro, duas paragens, caminhar quatro quarteirões. Chegar cedo. Não cedo demais. Não atrasado. Não tropeçar. Não gaguejar. Não parecer desesperado — mesmo estando.
— Já estás acordado? — a voz do Allan surgiu atrás de mim, rouca de sono.
— Não consegui dormir mais. — respondi sem olhar para ele.
Ele aproximou-se, beijou-me o topo da cabeça e foi buscar outra caneca.
— Vai correr bem. — disse, naquele tom prático que ele tinha quando não sabia o que fazer com emoções que não eram dele. — E, seja como for, há sempre a vaga do meu pai.
— Claro. — engoli o assunto de sempre com um gole de café. Estava amargo demais.
Vesti-me em silêncio. Camisa simples, casaco escuro. Nada que gritasse “olhem para mim”, mas também nada que denunciasse o caos interno.
Antes de sair, o Allan segurou-me pelo pulso.
— Liga-me depois, sim?
— Ligo. — prometi.
A rua estava barulhenta como sempre: carros, buzinas, pessoas apressadas com vidas que pareciam saber exactamente para onde iam. No metro, sentei-me num canto e observei os anúncios por cima das janelas: empregos, cursos, perfumes, maquilhagem… e, logo a seguir, aparelhos auditivos e produtos para idosos. Ri-me sozinho, com a ironia.
O prédio da Velvet era ainda mais imponente à luz do dia. Vidro espelhado, linhas limpas, e segurança à porta. Disse o meu nome na recepção, sentindo a voz soar estranha nos meus próprios ouvidos.
— Pode aguardar. — disse a mulher, apontando para as cadeiras.
Sentei-me. Havia um silêncio tenso, quebrado apenas pelo som distante de teclados e passos apressados. Uma mulher folheava uma revista com uma confiança quase ofensiva. Um homem mexia no telemóvel como se aquilo fosse uma extensão do corpo. Eu limitei-me a respirar.
A porta abriu-se.
— Adrián Kane?
Levantei-me de imediato.
— Sou eu.
Ela avaliou-me de cima a baixo em segundos calculados.
— Valentina Moreau. — disse, sem sorrir, olhando para a prancheta que segurava. — Está no horário. Bom sinal.
Segui-a por um corredor branco demais, tentando ignorar o som do meu próprio coração. As paredes eram lisas, impessoais; havia pósteres — deduzi que capas produzidas ao longo do ano — e cada passo ecoava como se eu invadisse um espaço onde não pertencia.
Ela parou diante de uma porta de vidro fosco, bateu uma única vez, mais por formalidade do que por necessidade, e empurrou-a.
— Entre. — disse, afastando-se de imediato.
Não me acompanhou.
Esse devia ter sido o primeiro sinal.
A sala era menor do que eu imaginava. Menos imponente. Menos teatral. Uma mesa larga ocupava o centro, coberta por pranchetas, amostras de tecido e lápis organizados com uma obsessão quase cirúrgica.
Atrás dela, um rapaz da minha idade estava inclinado sobre a mesa, impecavelmente vestido, a analisar algo com uma atenção exagerada, como se o mundo exterior fosse um incómodo. Cabelo castanho perfeitamente cortado, óculos de armação fina, expressão permanente de desagrado.
— Sente-se. — disse, sem levantar os olhos.
Obedeci.
Ele continuou a escrever por alguns segundos — longos o suficiente para eu começar a suspeitar que aquilo era parte de um jogo psicológico barato. Por fim, pousou a caneta, cruzou as mãos e encarou-me.
— Rick Herman. Departamento de Design.
Esperei. Nada mais veio.
— Hum… — pigarreei, desconfortável. — Desculpe, eu… pensei que seria entrevistado pela Valentina Moreau.
Um canto da boca dele ergueu-se num sorriso que não tinha nada de simpático.
— A Valentina tem demasiado trabalho para entrevistar novatos. — respondeu, avaliando-me sem pudor. — Ela delega. Sobretudo quando o currículo… — fez um gesto vago com a mão, como se tivesse nojo do papel — é o que é.
Engoli em seco.
— Certo.
Rick puxou a minha pasta e começou a folhear os papéis com uma rapidez quase agressiva.
— Belas Artes. NYU. Sempre NYU. — limpou os óculos com um lenço tirado do bolso da lapela. — Vocês saem de lá com esta mesma expressão… — ergueu os olhos. — Como se o mundo vos devesse alguma coisa.
— Não acho que o mundo me deva nada. — respondi, sentindo o calor subir-me pelo pescoço.
— Não? — inclinou-se para a frente. — Então vou ser claro, querido. A Velvet não é um ateliê estudantil onde tudo é “processo” e “expressão pessoal”. Aqui vendemos imagem. Desejo. E, principalmente, tendência.
Empurrou uma prancheta na minha direcção.
— O que vê aqui?
Observei os esboços. Linhas duras, cortes ousados, uma estética agressiva, quase provocadora.
— Vejo intenção. — respondi com cuidado. — Vejo uma narrativa visual forte, mas talvez…
Rick soltou uma risada curta e seca.
— “Talvez”. — recostou-se na cadeira. — Isso não é uma resposta. Isso é uma fuga. — fez uma pausa, estratégica. — Você não tem o vocabulário visual da Velvet. Não tem postura. Nem estilo. E, francamente… não tem cara de quem sobreviva aqui uma semana.
As palavras caíram pesadas. Senti o estômago afundar, mas mantive o rosto neutro.
— Com todo o respeito… — comecei, e a minha voz saiu mais firme do que eu esperava — ninguém nasce pronto para um ambiente como este.
— Alguns nascem, sim. — interrompeu. — Outros insistem. E, aqui, insistência costuma ser patética.
O silêncio que se seguiu era espesso, quase cruel. Eu já ensaiava mentalmente a humilhação completa, o fim inevitável da tentativa, quando a porta se abriu sem aviso.
Ela entrou.
Valentina Moreau atravessou a sala com a naturalidade de quem não precisava anunciar-se. Não havia pressa nos passos nem teatralidade — apenas uma segurança ensurdecedora, aquela que incomoda só por existir. Os saltos batiam no chão num ritmo firme, elegante, limpo.
O cabelo loiro platinado caía num corte preciso à altura do queixo, tão recto que parecia medido. Não era um loiro suave. Era um loiro decidido. O rosto tinha traços definidos, maçãs do rosto altas, pele impecável — a confiança madura de quem já passou dos quarenta e fez as pazes com o espelho. Os lábios, num tom profundo e sóbrio, mantinham-se neutros: nem sorriso, nem reprovação.
Vestia alfaiataria perfeita: corte estruturado, cintura marcada, ombros rectos. Tudo nela parecia pensado, mas nada forçado. Movia-se com economia; um simples inclinar de cabeça bastava para interromper o mundo.
— Valentina! — a mudança no corpo do Rick foi instantânea, de predador a cordeiro. — A sua assistente disse-me que não viria hoje, e eu estava justamente a entrev—
— Porque é que ainda está na minha cadeira? — o tom era cortante, quase majestoso; duas palavras bastavam para abanar o prédio inteiro.
— Eu… peço desculpa, eu… — ele levantou-se apressado, limpando o assento com pânico visível em cada gesto.
Valentina largou o casaco sem cerimónia nas mãos dele e sentou-se.
— Rick?
— Sim, Valentina? — postou-se ao lado dela, rígido.
O ambiente pareceu encolher.
— Onde está o meu café?
Rick engoliu em seco.
— Perdoe-me, eu não sabia que viria e—
— Eu não quero desculpas, Rick. Os detalhes da sua inutilidade não me interessam.
Fez um gesto mínimo, retirou os óculos escuros com precisão e voltou-se para mim. O olhar dela era uma lâmina: não cortava por raiva, cortava por hábito.
— E você é?
— Adrián Kane, minha senhora. — respondi, tentando não engasgar. — Estou aqui para a entrevista.
— Não se preocupe, Valentina, eu já—
— Rick. — interrompeu, sem sequer olhar para ele. — Eu pedi um café. Porque é que ainda está aqui?
O corpo dele enrijeceu. Saiu porta fora com passos partidos.
Valentina abriu o meu dossiê e alinhou o canto da folha com uma precisão quase absurda, como se aquele detalhe tivesse o mesmo valor que um destino.
— Adrián Kane. — disse, sem pressa. — Não há experiência profissional. Nem estágio. Correcto?
— Correcto.
— Nunca trabalhou num estúdio. Nunca participou numa produção. — a caneta pairou no ar por um segundo. — Então porquê estar aqui?
— Porque é onde eu quero estar. — respondi devagar.
Ela recostou-se na cadeira. Elegante. Medida. Perigosa na forma como parecia não precisar de elevar a voz para dominar uma sala.
— O departamento de Design… — disse, cruzando as pernas — não existe para desenhar. Existe para dar corpo ao conceito. Pegamos na ideia — levantou a mão, leve — e transformamo-la em imagem. Em barulho.
Os olhos cruzaram-se com os meus, secos de empatia.
— Está preparado para isso, Sr. Kane? Para lidar com o que ainda não entende?
— Posso aprender.
O silêncio que se seguiu teve peso. O espaço ficou suspenso entre nós como uma página em branco que ninguém queria tocar primeiro.
A maçaneta rodou. Rick voltou com uma bandeja.
— O seu café, senhora.
— Finalmente.
Valentina bebeu um gole e pousou a chávena como se tivesse acabado de confirmar uma suspeita.
— Dois anos connosco, não é, Rick?
— Sim, senhora.
— No departamento de Design.
— Exacto.
— Dois anos a aprender a entregar café frio. Admirável.
Rick engoliu em seco, e eu senti, pela primeira vez, que aquilo não era apenas uma entrevista. Era um tribunal com regras próprias — e ela era a lei.
Valentina folheou o meu portefólio com dedos calmos.
— Diga-me… — disse, sem tirar os olhos das páginas — o que acha do trabalho do Sr. Kane.
Rick inclinou-se, professoral demais.
— A execução é amadora. Falta visão estética e prática. É… empírico.
Valentina manteve-se imóvel. Impassível. Mas os olhos dela não estavam a ouvir o Rick — estavam a ouvi-lo a si próprio.
— Interessante. — murmurou, apoiando o queixo na mão. — Fala com tanta precisão sobre ausência de sofisticação… é quase comovente.
Fez uma pausa e apontou para a porta com um gesto minúsculo.
— Rick, traga-me a revista da semana passada.
Ele obedeceu num instante, como se correr fosse a única forma de continuar a existir. Voltou com o exemplar e pousou-o na mesa.
Valentina abriu numa sessão de fotos, devagar, como se cada página fosse um diagnóstico.
— Comente, Sr. Kane.
— Eu?
Ela levantou ligeiramente a caneta e pousou a ponta na página, sem tocar no papel.
— Não consegue seguir instruções?
O meu coração bateu uma vez mais forte.
— As cores são fortes. Há equilíbrio entre o figurino e o cenário. O ritmo visual é bom… ainda que, em algumas peças, o foco disperse a harmonia. — respirei fundo. — Há ruído desnecessário no segundo enquadramento.
Ela não reagiu. Não aprovou. Não censurou. Apenas deixou o silêncio fazer o que sabia fazer.
— Rick. O que acha?
— É perfeito. — respondeu rápido demais. — Os looks, a luz, a direcção… tudo alinhado. Foi uma das nossas melhores produções. E a sessão foi dirigida pela senhora, claro.
Valentina repetiu, quase doce:
— Perfeição.
A palavra caiu como uma coisa frágil.
— É uma palavra curiosa, Rick. — disse ela, calma. — Costuma ser usada por quem nunca a alcançou.
O som da caneta dela a riscar o papel foi delicado. Ritualístico.
Depois, sem levantar a voz:
— Está despedido.
O sorriso dele travou no mesmo segundo.
— Desculpe?
Valentina tirou os óculos e encarou-o como quem olha para um erro tipográfico.
— Rick, eu sei que não é dotado de inteligência, mas acho que fui clara. Está despedido.
— Senhora, eu trabalhei tanto… — a voz dele quase implorou. — Fiz horas, fiquei até de madrugada. Fiz tudo!
Ela olhou-o com a paciência de alguém que não se emociona com esforço, apenas com resultado.
— Rick, incompetência não deixa de ser incompetência só porque perdeu noites a demonstrá-la.
Silêncio.
— Passe no RH antes do almoço. E leve o café. — apontou com graça para a chávena. — Está frio.
Ele moveu-se como se o corpo não fosse bem dele. Gestos partidos, mecânicos. A vergonha tinha som no chão.
Quando já estava à porta, Valentina chamou, sem olhar:
— Rick.
Ele virou-se, esperançoso, olhos húmidos de súplica.
— Chame o Leslie antes de empacotar os seus pertences.
O trinco fez um clique metálico. E o silêncio voltou ao lugar, perfeito.
Valentina virou novamente uma página.
— Onde estávamos, Sr. Kane?
A voz dela era tão tranquila que dava medo.
— Ah, sim. Harmonia. — folheou mais uma vez. — Apontar falhas exige duas coisas raras: atenção e coragem. A primeira é útil. A segunda costuma ser fatal para carreiras promissoras.
Quando finalmente ergueu os olhos, fê-lo devagar, deixando a frase assentar como um peso no ar. O olhar percorreu-me com precisão meticulosa, como se medisse a resistência de um material novo.
Não era aprovação. Mas também não era censura.
Era interesse.
— Vamos descobrir qual delas o define.
Dei por mim a sorrir — o alívio a abrir caminho no meu rosto antes de eu o conseguir impedir.
— Obrigado, Sr.ª Moreau. Prometo que vou dar o meu melhor e—
— Poupe-me às promessas. — disse apenas.
Não levantou a voz. Nem houve brusquidão. As palavras saíram com a precisão de quem corta uma frase desnecessária.
— Promessas são confortáveis. E o conforto raramente produz algo que valha a pena publicar.
Fez uma pausa breve e alinhou um canto invisível do dossiê.
— Prefiro resultados. Costumam falar por si. — os seus olhos azuis contornaram a minha expressão — E, ao contrário das promessas, resultados não precisam de testemunhas.
Fechou o dossiê com um gesto seco, definitivo.
— Leslie.
O nome saiu baixo e a porta abriu-se quase de imediato, como se o som tivesse autorização própria para atravessar paredes.
Ele entrou com a naturalidade de quem já pertencia àquele espaço antes mesmo de ser chamado.
— Mandou chamar, Valentina? — o tom era educado, quase performativo.
Leslie era alto, magro de uma forma elegante, postura impecável de quem aprendeu a ocupar salas sem pedir licença. O fato assentava-lhe como se tivesse sido feito à volta do corpo. Linhas limpas, corte irrepreensível, um lenço discreto a quebrar a monotonia cromática com uma ousadia cuidadosamente calculada.
Mas eram os olhos que prendiam: vivos, atentos, perigosamente perspicazes. Percorreram-me num relance rápido, profissional… e imediatamente avaliador.
— Apresente o Sr. Kane ao departamento. Tudo. — disse Valentina, já de volta aos papéis.
Leslie arqueou uma sobrancelha, o mínimo necessário para registar surpresa sem virar insolência.
— Tudo?
— Considero a palavra suficientemente clara.
— Naturalmente.
Ele virou-se para mim com um sorriso que parecia cordial, mas carregava um brilho cúmplice, como se eu estivesse prestes a entrar num espectáculo para o qual não tinha ensaiado.
— Sr. Kane. — estendeu a mão. — Venha comigo, antes que ela decida que “tudo” também inclui as partes que ninguém sobrevive a aprender no primeiro dia.
Apertei-lhe a mão. Firmeza controlada. Ele largou-me rápido, já em movimento.
Ao sair, senti — sem precisar confirmar — que Valentina levantara o olhar por um breve segundo. Não era curiosidade. Era medição. Acompanhamento.
A porta fechou-se atrás de nós com um clique discreto.
Leslie soltou um suspiro longo assim que entrámos no corredor, como quem regressa à gravidade normal depois de sair de uma atmosfera mais densa.
— Bem… — ajeitou subtilmente o punho da camisa. — Sobreviveu ao primeiro encontro. Isso coloca-o estatisticamente à frente de metade das pessoas que entram naquele escritório.
Olhou-me de lado, a ler a minha expressão.
— E ainda está a sorrir. Fascinante.
— Peço desculpa?
Ele suspirou perante a minha confusão.
— Vou ser honesto consigo, porque prefiro poupar tempo a ambos. Se ela pediu para eu lhe mostrar tudo, ou está genuinamente interessada… ou está a prepará-lo para ser destruído com maior eficiência. Às vezes é difícil distinguir.
Virou à esquerda sem abrandar.
— Não leve isto como pessimismo. Aqui chamamos-lhe realismo editorial.
Passámos por uma sequência de secretárias. Teclados pararam por microssegundos à nossa passagem. Leslie cumprimentava alguns com acenos mínimos; outros, apenas com um levantar de sobrancelha que parecia carregar páginas inteiras de comunicação silenciosa.
— Regra número um: nunca corra. Quem corre demonstra que não controla o próprio tempo. E, aqui, controlar o tempo é a única moeda que realmente importa.
A seguir, sem pedir licença, ajustou ligeiramente a lapela do meu casaco — como quem corrige um erro de tipografia.
— Regra número dois: a aparência aqui não é vaidade. É linguagem. E a revista é extremamente exigente com gramática visual.
— Eu… tento manter as coisas simples. — hesitei. — Nunca achei que—
Leslie inclinou a cabeça, interrompendo-me com um sorriso simultaneamente encantador e perigosamente honesto.
— Oh, não me interprete mal, Adrián. A simplicidade, quando é deliberada, é devastadoramente elegante.
Afastou-se meio passo, cruzando os braços, e analisou-me como se eu fosse um conceito ainda por fechar.
— O problema é que a sua não é deliberada.
Pisquei, apanhado desprevenido.
— Eu… não sabia que estava assim tão… mal.
— Não está mal. — corrigiu de imediato. — Está neutro. E, nesta casa, neutralidade é uma forma muito bem vestida de invisibilidade.
Os olhos dele desceram então para a minha mão. O metal discreto da aliança apanhou a luz do corredor.
— Interessante.
Olhei também, quase por reflexo. Sorri.
— É uma aliança. Eu e o meu namorado usamos as duas. Foi ideia dele, na verdade, porque nós—
— Docinho, eu não perguntei.
A frase caiu suave, sem agressividade. Dita com a mesma delicadeza com que alguém recusa sobremesa depois de um jantar perfeito.
Leslie já voltava a andar.
Fiquei um segundo parado, com o sorriso preso no sítio errado, sem saber onde o pousar. Apressei-me a segui-lo, sentindo o calor subir-me ao pescoço — metade embaraço, metade uma vontade estranha de me defender… e falhar com elegância nisso.
— Não leve a mal. — continuou ele, com um gesto displicente. — A sua vida amorosa deve ser fascinante e, provavelmente, recheada de mensagens longas e brunches emocionalmente produtivos. Mas, aqui dentro, só nos interessam duas coisas: prazos e relevância cultural. A ordem é variável.
Virou ligeiramente a cabeça, ainda a andar, como se estivesse perfeitamente habituado a orientar pessoas enquanto as avaliava.
— Ainda assim… — acrescentou, com um brilho subtil de humor — fico genuinamente aliviado. Homens comprometidos costumam ter menos colapsos nervosos nas primeiras semanas. Têm mais tarde, mas com melhor guarda-roupa.
Deixei escapar uma gargalhada nervosa.
— Ele… por acaso ajuda-me bastante com roupa.
Leslie parou.
Virou-se devagar, como se eu tivesse acabado de dizer algo estatisticamente improvável.
— Ajuda… como?
— Escolhe algumas coisas. Diz que eu tenho bom gosto, só não tenho… confiança suficiente para arriscar.
Leslie estreitou os olhos e aproximou-se um passo.
— Fascinante. Então temos um diamante bruto com consultoria externa não certificada.
O olhar dele percorreu-me outra vez, desta vez com curiosidade estratégica.
— Diga-me uma coisa, Adrián… ele trabalha em moda?
— Não. Ele é… mais corporativo. Gestão.
Leslie soltou um “hm” como quem arquiva um detalhe para usar depois.
— Naturalmente.
Retomou o caminho com um leve abanar de cabeça, impossível de interpretar.
— Muito bem. Vamos tratar de duas coisas simultaneamente: garantir que sobrevive à Valentina… e impedir que essa beleza continue a ser sabotada por boas intenções românticas.
Senti-me sorrir, apesar do ataque elegante.
— Eu não sabia que precisava de… intervenção.
— Toda a gente aqui precisa. — respondeu sem hesitar. — A diferença é que alguns têm a sorte de ser intervencionados antes de cometerem crimes visuais irreversíveis.
Parámos diante do elevador. Leslie carregou no botão com a ponta do dedo, impecavelmente controlado.
— Além disso… — acrescentou, olhando o reflexo de nós os dois nas portas metálicas — a Valentina não investe tempo em pessoas que não pretende testar até ao limite. Portanto, considere isto menos uma apresentação… e mais um processo de sobrevivência assistida.
As portas abriram-se com um som suave.
Ele entrou primeiro e voltou-se para mim com um sorriso leve, quase cúmplice.
— Bem-vindo ao início do seu ligeiro colapso profissional, Adrián. Prometo torná-lo esteticamente irrepreensível.
Entrei atrás dele e, enquanto as portas se fechavam, dei por mim a apertar distraidamente a aliança no dedo — como se aquele pequeno círculo de metal fosse a única coisa em mim que ainda pertencia completamente ao mundo que eu tinha deixado lá fora.
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