Dolce & Desastre

8 Dolce & Château


A luz fria da manhã atravessava as cortinas do apartamento como pequenas lâminas, cortando o quarto em faixas de branco e cinza. Era uma claridade de hospital, nítida demais para o cansaço, impiedosa no modo como revelava o pó a flutuar no ar e as marcas amassadas nos lençóis. O som constante da chuva tinha cessado na madrugada, e o que ficara era um silêncio comprimido, como se o mundo retivesse a respiração, hesitando antes de girar novamente. A sensação era de um intervalo em que o tempo parecia pensar antes de continuar a existir.

Allan ainda dormia, o corpo meio encolhido sob o lençol, um braço estendido em direcção ao espaço vazio ao lado da cama. O rosto voltado para longe mantinha uma serenidade alheia, o peito a subir e a descer num ritmo indiferente ao mundo. Fiquei a observá-lo por um instante, havia uma ternura silenciosa naquela vulnerabilidade, mas também um deslocamento subtil. Sentei-me na borda da cama com o corpo curvado, as mãos unidas entre os joelhos, os cotovelos a reflectirem a tensão do resto. Fiquei imóvel por um tempo que não soube medir, a observar o chão como se alguma resposta pudesse ser encontrada ali, entre as pilhas de meias de Allan e os meus sapatos recém-comprados.

Levantei-me devagar, tentando não acordá-lo, e fui até à cadeira onde, desde a noite anterior, a camisa preta permanecia pendurada, como se me esperasse. O toque frio do tecido fez-me despertar de vez. O espelho do corredor devolveu uma imagem que parecia ligeiramente distorcida, como se o reflexo também sentisse a exaustão. O ecrã do telemóvel acendeu sobre a bancada da cozinha. Primeiro, uma notificação curta de Leslie:

“Apresentação às 9h. Valentina já está no prédio.”

Logo abaixo, outra mensagem, mais antiga e menos prática, acendeu no histórico:

Mathew:

“Boa sorte, Adrian Kane”

“Espero que tenhas dormido bem... e sozinho.”

Suspirei. Revirei os olhos, mas não pude conter o sorriso breve que se desenhou, quase involuntário, no canto da boca. Algo na forma como Mathew falava carregava esse paradoxo irritante, o de ser simultaneamente uma provocação e um conforto, uma lembrança de que o mundo fora da Velvet ainda tinha voz, mas que essa voz também podia ferir. Havia nele uma constância perigosa, previsível na irregularidade. E, ao mesmo tempo, um tipo de humor que me alcançava mesmo quando eu tentava blindar-me. Ainda assim, por trás do riso, senti um traço de alerta: aquela linha fina, quase imperceptível, mas carregada de importância: Allan.

O relógio indicava 7h42. Peguei no guarda-chuva, no casaco e desliguei as luzes. O som do elevador velho ecoou com um chiado metálico, e o cheiro do corredor, uma mistura de limpeza e humidade antiga, foi a última lembrança de casa antes de o ar frio da rua me acertar no rosto. Lá fora, a cidade parecia lavada, mas exausta. Os carros riscavam o asfalto húmido como pincéis de luzes difusas, e o céu, ainda coberto por nuvens pesadas, filtrava a claridade do sol num cinzento eléctrico. O cheiro da chuva seca, misturado ao asfalto quente, produzia uma espécie de nostalgia estranha.

A Velvet recebeu-me diferente naquele dia. A entrada, sempre silenciosa, estava tomada por passos apressados, o tinido ritmado de saltos no piso de mármore, vozes contidas que pareciam vibrar num volume cuidadoso demais. Era como entrar num templo prestes a celebrar alguma cerimónia desconhecida. A iluminação estava mais fria, as paredes mais limpas, as plantas trocadas de lugar, pequenos sinais de que algo importante iria acontecer. Até o ar parecia polido.

Caminhei até ao corredor principal. A distância entre o meu passo e o de qualquer outro corpo ali dentro parecia calculada. Cada um sabia o seu papel, e todos esperavam o mesmo sinal para respirar colectivamente.

Leslie estava à porta da sala de apresentações, encostado casualmente à parede, o tablet na mão e o casaco aberto. A aparência dele, impecável ainda assim, carregava um ar de ironia contida.

— Dormiu? — perguntou, sem levantar os olhos do ecrã.

— Não exactamente.

Ele sorriu sem mostrar os dentes, um gesto pequeno, mas genuíno. — Pensei que não. Posso saber por que razão recebi um ficheiro seu ontem pelas duas da manhã?

Tentei soar o mais credível possível – Estava com medo que algo acontecesse, então enviei.

— O seu palpite estava certo – a sua voz tinha uma incerteza guardada – Quando cheguei, a Alison informou que alguns computadores do departamento sofreram com uma descarga eléctrica.

—A sério? – tentei fingir surpresa.

— A sério – cada palavra parecia analisar os meus movimentos – Parece que o seu pressentimento estava correcto.

Ficámos alguns segundos em silêncio. O som distante do elevador a subir quebrou o ar, e logo depois veio o zumbido curto da luz fluorescente. O estalar do salto de alguém no piso polido aproximava-se, preciso e deliberado.

Valentina.

Apenas a silhueta dela, antes mesmo de pronunciar palavra, fez todos endireitarem a postura. O som dos passos dela tinha um tipo de ritmo que fazia o espaço rearranjar-se em torno. Segurava o tablet junto ao corpo, o tailleur cinzento a moldar o movimento em linhas exactas, o coque impecável, os olhos afiados.

— Bom dia. — disse apenas, e a voz dela soou sem esforço, como uma lâmina fina a atravessar o ar. Ninguém respondeu. Ela continuou:

— Vamos começar.

As luzes diminuíram. O projector acendeu com um estalo seco e frio. A parede branca ganhou vida, e o primeiro slide surgiu — o resultado de noites sem dormir.

A minha voz, quando saiu, pareceu surpreendentemente firme:

— Este é o conceito central. Destruição selectiva.

As palavras ecoaram dentro de mim, talvez mais do que na sala.

Slide após slide, descrevi paleta, conceito, textura, casting, composições. Falei do equilíbrio entre o caos e o controlo, da estética de algo que só é belo porque quase se desfaz. Leslie controlava o ritmo, completando as lacunas com a sua fluidez precisa. A presença dele ao meu lado era o contrapeso da tensão.

Valentina permaneceu imóvel durante todo o tempo. O rosto indecifrável, o olhar cravado em cada imagem projectada, a avaliar, a medir e a calcular cada palavra minha. Nem uma piscadela, nem um movimento em falso. Quando as luzes se acenderam, o silêncio estendeu-se como uma barreira invisível.

Ela pousou o tablet, cruzou as mãos sobre a mesa e, após um intervalo que pareceu milimétrico, disse apenas:

— Está… convincente. — O peso da palavra, “mas” já estava no ar antes mesmo de ela a pronunciar. — Mas convincente não é suficiente – finalizou.

O ar rarefez-se. Valentina levantou-se devagar. O som do salto contra o chão era medido, rítmico, como a contagem decrescente de algo inevitável.

A minha morte, pensei.

Foi até à tela e passou os dedos brevemente sobre a imagem projectada, um gesto de quem toca, mas sem se sujar. — Este editorial fala sobre reinvenção — disse. — E você entrega-me estética. E estética sem risco é publicidade… não arte.

Os olhos dela pousaram em mim. — Quero mais vísceras. Mais arrogância no enquadramento.

Depois de um segundo que pareceu expandir-se dentro de um minuto inteiro, ela virou-se para Leslie:

— Ajuste o ensaio para amanhã, às sete.

Então, voltando o olhar para mim, disse num tom diferente — baixo, quase íntimo, porém impessoal:

— Prove que entendeu o conceito da destruição selectiva, Adrián. Não o descreva.

Saiu da sala. E o perfume dela, frio, mineral e preciso, ficou, diluindo lentamente no ar como a lembrança da sua magnânima experiência. Leslie soltou o ar num riso pequeno, entre exausto e divertido. — Sobrevivemos.

Eu apenas balancei a cabeça. “Mais vísceras”… ainda tentava traduzir aquilo em linguagem visual. Horas depois, já no estúdio, o clima era outro. As costureiras moviam-se em silêncio estudado, as mãos a deslizar pelos tecidos como se lidassem com segredos. Técnicos ajustavam focos, recuavam cabos, testavam luzes. Tudo tinha a urgência concentrada que antecede um colapso bonito.

O telemóvel vibrou no bolso.

Mathew:

“Soube que a Velvet amanheceu em guerra. Sopram ventos frios? Ou preciso levar vinho ao jantar?”


Sorri, um sorriso curto, sem testemunhas, quase um espasmo.

Por algum motivo, a ideia de o ver no fim da noite parecia menos perigosa do que algumas horas antes. Talvez fosse o cansaço. Ou talvez fosse o primeiro sintoma dos problemas que insistia que poderiam aparecer.

— O que foi? — perguntou Leslie, observando de onde estava, os braços cruzados, o olhar rápido. — Está a sorrir de um jeito suspeito.

Guardei o telemóvel no bolso, fingindo desinteresse. — Nada. Só… um jantar.

— Jantar? — ele ergueu uma sobrancelha, com aquele meio sorriso que sempre vinha temperado de ironia. — Com Allan, imagino. As coisas estão melhores entre vocês?

Desviei o olhar para um dos focos que piscava no fundo do estúdio, fingindo concentrar-me em algum detalhe técnico. — Estão, sim. — respondi depressa, talvez rápido demais.

Leslie assentiu, como quem aceita sem acreditar.

O nome de Allan, dito em voz alta, trouxe de volta uma inquietação suave. A imagem dele a dormir naquela manhã, o peito a subir e a descer num ritmo alheio, voltou nítida demais, o mesmo silêncio, o mesmo espaço entre nós. Tentei afastar o pensamento, mas ele ficou ali, a sussurrar entre a pressa e a culpa. Eu sabia que tínhamos de falar depois de ontem, mas algo em mim sabia que isso traria mais uma discussão.

— Sabe, Adrian – as suas palavras vieram sem os olhos desviarem uma única vez — às vezes, antes de se colocar em coisas novas, é preciso resolver as antigas. — Fez uma breve pausa, o canto da boca a mover-se num sorriso enigmático. — Senão, o que vem depois acaba por herdar o que ficou por terminar.

Devolveu o olhar ao ecrã, como se nada tivesse dito, mas o silêncio entre nós ganhou um peso novo, denso, quase respeitoso

O relógio marcava quase cinco da tarde quando o Departamento começou a esvaziar-se lentamente, restos de café frio, papéis espalhados e a luz fria dos monitores a desenhar sombras rectangulares sobre o piso. Leslie acabara de sair para resolver um problema com o fornecedor de impressão, um contratempo qualquer com as provas finais da próxima edição, que exigira a sua diplomacia habitual.

Sentei-me à minha secretária, o corpo pesado e o pensamento ainda mais ruidoso. O ecrã à minha frente reflectia o meu próprio rosto, a expressão cansada e a indecisão nas linhas da testa. O jantar com Mathew insistia em colocar-se entre um ficheiro e outro, como um separador oculto que a minha mente teimava em manter aberto. Eu sabia que não faria nada que pudesse desrespeitar Allan. Mas, ainda assim, havia algo irresistivelmente atraente na ideia de encontrar Mathew. A curiosidade misturada à atracção, a sensação de estar à beira de algo incerto… e perigoso.

Suspirei, longo demais para passar despercebido.

— Se continuares com isso, vou acabar a achar que o sistema de ventilação está com defeito — resmungou Alison, sem desviar os olhos do ecrã.

Sorri num tom cansado. — Desculpa.

Dez segundos depois, outro suspiro escapou, involuntário, quase como um reflexo.

Alison bateu no teclado com mais força do que o necessário e virou na cadeira, encarando-me com o cenho franzido. Pronto. Não dá. Se eu ouvir mais um suspiro, vou começar a cobrar por sessão de terapia.

Ergui as mãos em rendição. — Ok, ok. Vou tentar travar os pulmões.

Ela meneou a cabeça, levantou-se e veio até à minha mesa. Sem pedir permissão, sentou-se sobre a borda da secretária, cruzando os braços. O cheiro do perfume dela, doce e leve, misturava-se ao aroma metálico dos computadores.

— Anda lá, desabafa. — disse, num tom sério, mas com aquele brilho divertido nos olhos.

— E desde quando somos amigos? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.

— Desde que tu passaste as últimas duas horas a parecer uma personagem de drama francês — respondeu, erguendo o queixo com ironia. — E, sinceramente, eu não consigo trabalhar com uma nuvem de angústia do meu lado. Então, se te ajudar significa que eu ganho paz e silêncio... estou disposta.

Olhei para ela, o riso preso na garganta. — Sempre tão empática, Alison.

— Eu tento — respondeu, secamente, mas por baixo da ironia havia uma gentileza disfarçada. — Vá, fala. O que é que te deixou nesse modo de respiração trágica?

Desviei os olhos para a janela. Lá fora, o céu estava de um cinzento metálico que reflectia o fim de tarde, e as janelas da cidade acendiam-se uma a uma como pequenas promessas. A ideia de conversar ali, com o eco dos teclados e o zumbido constante da iluminação fria, parecia impossível.

Levantei-me, puxando a cadeira com um gesto lento. — Vamos à cafetaria.

— Ah, então a coisa é mesmo séria — disse ela, pegando no casaco com uma expressão divertida. — Café e confidências: o clássico pré-desastre.

Revirei os olhos, mas sorri. — Só café. O desastre ainda está por decidir.

A cafetaria estava quase vazia, excepto por dois colegas da redacção que falavam baixo perto da janela, e o som descontínuo da máquina de café ao fundo, cuspindo vapor em intervalos espaçados. O fim da tarde dissolvia-se devagar lá fora, o vidro embaciado separava a luz fria da rua e o calor tímido do interior.

Eu e Alison estávamos na mesa mais afastada, as chávenas entre nós servindo como um breve capricho.

Ela observava-me com aquele olhar calculado, quase céptico, enquanto eu mexia o café sem real intenção de o beber.

— Então? — ela perguntou, mexendo o café sem pressa. — O que tira o sono do nosso artista favorito?

Tentei fazer graça, mas a voz saiu mais baixa do que eu pretendia. — Fala como se eu fosse complicado.

— Ah, não — ela respondeu, divertindo-se, colocando a colher de espuma na boca — “Complicado” é quando uma pessoa pensa demais em alguém e chama isso de cansaço. O que tu tens é um diagnóstico de “não vai falar, então vou ter de arrancar”.

Suspirei… de novo. — Aparentemente, vou jantar com alguém.

— “Alguém.” — repetiu ela, apoiando o queixo na mão, fingindo interesse. — Esse nome novo é bom... soa misterioso.

— Não é o que estás a pensar. — sorri, cansado. Estava a tornar-se um hábito — É só um amigo… de outro departamento.

Ela riu, aquele riso curto de quem já decidiu que não acredita. — Amigo, claro. Essa pausa dramática antes de dizer “amigo” foi convincente, devo admitir. — Tomou um gole do café e acrescentou: — E o Allan?

O nome dele caiu sobre a mesa com o peso de um objecto frágil. Senti o estômago apertar antes mesmo de responder. — O Allan está bem. — disse, rápido demais. — As coisas estão estáveis.

— “Estáveis” — repetiu ela, desta vez sem ironia. — Isso é bom… ou é o tipo de “estável, nós realmente não falamos sobre isso”?

— Então? — perguntou de novo. — Qual é o verdadeiro problema? Porque ninguém suspira desse jeito só por um jantar.

Soltei o ar devagar, sustentando o olhar dela.

— É o Allan. — disse, simples. — E eu.

Fiquei um instante a olhar o reflexo da colher a brilhar no líquido escuro, a procurar uma forma de organizar a desordem.

— Ele está sempre a dizer que parece que não me conhece, que precisa de se habituar ao novo eu — continuei, baixo. — E talvez eu também já não saiba como continuar a ser a pessoa que ele conheceu.

Alison ajeitou o corpo na cadeira, inclinando-se levemente para a frente. O modo como ela escutava, sem interromper e sem qualquer pressa, fazia as palavras saírem mais fáceis.

—Moramos juntos, ainda temos os mesmos hábitos, as mesmas conversas, mas… parece que agora tudo acontece em paralelo. — sorri sem humor. — Dois desconhecidos com um histórico em comum. E esse histórico serve só para justificar porque ainda estamos lá.

Um silêncio estendeu-se entre nós. Podia ouvir o zumbido fraco do ar condicionado e, ao longe, o som do elevador a subir.

— Às vezes ele olha para mim — continuei, apertando a chávena entre as mãos — e tenho a sensação de que está a tentar encontrar algo em mim que desapareceu. Como se procurasse um detalhe que justifique ainda estar comigo.

Fiz uma pausa curta e olhei para Alison. — E o pior é que eu entendo. Porque eu também tenho feito o mesmo.

Ela encostou-se à cadeira, deixando o corpo relaxar, e o olhar dela abrandou. Depois de um tempo, perguntou, com a voz mais calma que antes:

— E tu?

— Eu… o quê?

— Tu conhece-lo? — disse, sem alterar o tom, mas a pergunta entrou com um leve golpe. — O Allan que ele é agora, tu ainda o conheces?

Fiquei em silêncio, o olhar a desviar-se temporariamente para o chão, como quem tenta medir a verdade antes de a dizer. Ela continuou, suave, mas firme:

— Todo este tempo tu falas-me sobre como ele pergunta se tu ainda és o mesmo. Como se a mudança fosse uma carga só tua. Mas, Adrian… — ela pousou os cotovelos sobre a mesa, sustentando o rosto com as mãos — eu nunca te ouvi perguntar se ele ainda é o mesmo Allan que conheceste na faculdade.

A frase ficou a pairar no ar.

Senti o corpo reagir antes da mente, o estômago a contrair, o peito a apertar-se num reconhecimento silencioso.

Ela tinha razão, e o desconforto de saber era quase físico.

— Talvez eu não queira descobrir a resposta. — confessei, num tom que mal reconheci como meu. — Porque se ele tiver mudado tanto quanto eu... não sei se ainda nos restaria algo para juntar.

Alison observou-me, quieta. Depois sorriu, mas um sorriso pequeno, sem ironia.

— Todos mudam, Adrian. A diferença é quem aceita olhar e quem finge que ainda está tudo igual. — Endireitou a postura e tomou um gole do café já frio. — E tu… tu pareces estar entre os dois.

Fiquei a olhar para ela, o peso das palavras a descer com o mesmo ritmo do vapor que já se dissipava sobre a mesa.

— E se for tarde demais para olhar? — perguntei.

Ela encolheu os ombros, num gesto sereno. — Não existe “tarde” para a verdade. Só para o conforto.

Por alguns segundos, o silêncio voltou a ocupar tudo.

Aquela era a marca de Alison, quando falava, as suas palavras tinham o peso exacto para se tornarem incontornáveis.

Olhei o relógio. Faltavam poucos minutos para o fim do expediente.

Levantei-me, ajeitando a camisa com um gesto automático. — Preciso de decidir se vou.

— Tu já decidiste — respondeu ela, mexendo distraidamente na chávena. — Só estás a tentar encontrar uma razão bonita para justificar.

Fiquei parado por um instante, a olhá-la. — E mesmo assim, dás-me conselhos.

Ela deu um meio sorriso cansado, erguendo o olhar. — Porque tu, com toda essa confusão sensata, ainda vales o esforço.

Depois voltou a olhar para o café. — Mas se fores, promete só uma coisa: que vais ser honesto contigo mesmo. Não sobre o que queres, mas sobre o que vais sentir depois.

Assenti em silêncio.

A verdade é que o jantar já não era sobre Mathew, nem sobre Allan.

Era sobre mim, e a coragem ou a cobardia de encarar o reflexo real no lugar do que eu dizia ser. Decidi então ir.

O restaurante era um refúgio escuro encaixado entre duas fachadas luminosas do SoHo, quase invisível para quem passasse apressado pela calçada. Ao empurrar a porta de vidro fosco, fui envolvido por uma penumbra quente, feita de luzes douradas filtradas por abajures antigos e pelo brilho líquido dos copos sobre as mesas. O som era baixo — um murmúrio civilizado de vozes e o tinir breve de talheres que pareciam parte de uma coreografia discreta.

O ar estava carregado do cheiro de vinho, madeira encerada e especiarias; e havia algo nesse conjunto — talvez a temperatura, talvez o silêncio controlado — que me fez reduzir o passo, como se o espaço exigisse respeito. Tirei o casaco devagar, tentando disfarçar o leve tremor das mãos. Era frio lá fora, e o calor de dentro pareceu exagerado, quase íntimo demais.

Passei os olhos pelo salão. Mesas redondas, toalhas brancas, copos altos a reflectirem a luz como pequenos espelhos, e, ao fundo, uma vitrine de garrafas que se estendia até ao tecto. No canto, junto à parede de tijolos expostos, estava Mathew.

Ele já me esperava, sentado de lado, uma taça na mão, a camisa escura aberta um botão além do aceitável, o cabelo penteado com um desleixo deliberado. Havia qualquer coisa de ensaiado na maneira como se reclinava na cadeira, um equilíbrio entre charme e vigilância.

Quando me viu, sorriu.

Não o sorriso superficial que se dá a um conhecido, mas um movimento mais contido, lento, que começava no canto esquerdo da boca e terminava nos olhos, um sorriso que parecia saber mais do que mostrava.

— Adrián Kane em pessoa — disse ele, erguendo a taça num brinde silencioso. — Achei que fosses deixar-me a falar sozinho em espírito hoje.

A maneira como ele agora tratava-me tão informalmente deixou-me sem ar.

Aproximei-me da mesa, ajustando o colarinho da camisa, tentando conter a rigidez do corpo. — Pensei em não vir.

— Eu sei. — Ele fez sinal ao empregado, pousando a taça com cuidado. — É o tipo de coisa que fazes – ele não me deixou questionar e continuou — lutar contra a própria curiosidade até ao último minuto.

Sorri, forçando leveza. — E perdi.

— Felizmente, para mim. — respondeu, com aquele tom de provocação que raramente passava a linha do respeito, mas sempre dançava na beira dela.

O empregado aproximou-se, e Mathew fez o pedido sem consultar a ementa, a naturalidade de quem raramente precisa de escolher. Pediu vinho tinto, francês, o mesmo de sempre, e uma entrada “leve”, como quem falava de um ritual revisitado. Eu apenas assenti, deixando-me conduzir pela cadência dele.

Enquanto o empregado se afastava, Mathew inclinou levemente o corpo para a frente, os cotovelos quase a tocar na mesa. As luzes reflectiam-se nas bordas do copo, projectando fragmentos dourados no rosto dele.

—Pareces exausto — disse, sem disfarçar o olhar que percorria o meu rosto. — Ou talvez só tenha passado o dia inteiro a ser observado.

Ri baixinho. — Na Velvet, é a mesma coisa.

— Hm. — O som que ele fez foi mais um murmúrio do que uma palavra, um rasto de ironia satisfeita. — A diferença é que aqui tu podes escolher se quer ser observado.

Fiquei um instante em silêncio, sentindo o peso da frase a pairar entre nós. O jantar ainda nem tinha começado, e já havia um tipo de intimidade construída apenas no espaço das entrelinhas. O tipo perigoso, o que não precisa de toque para existir.

— Bela escolha de restaurante — comentei, para desfazer o nó no ar. — Discreto o suficiente para parecer acidental.

— Nada no que eu faço é acidental — replicou, olhando fixamente. Depois de uma pausa, acrescentou, baixo: — Mas obrigado por vires, mesmo assim.

A taça dele tocou na minha; o som do cristal pareceu mais alto do que devia.

E, por um instante, entre o calor contido do lugar, a brisa fria que ainda trazia do lado de fora e o brilho paciente do olhar de Mathew, tive a impressão de que o jantar não era sobre comida, nem sobre dívida alguma.

Era sobre o tipo de perigo que ninguém nomeia, mas ao qual o corpo, curiosamente, não sabe dizer que não.

Pousei a taça na mesa com mais cuidado do que o necessário, como se o som do cristal pudesse denunciar o ritmo irregular do meu próprio pulso. O vinho ainda não me tocara verdadeiramente os sentidos, mas o ambiente, o olhar de Mathew e o peso do dia acumulavam-se em mim como uma maré lenta.

— Então — disse ele, girando levemente o vinho dentro do copo, observando o movimento como quem lê um presságio — conta-me como foi o grande dia. Ou devo assumir que o silêncio dramático já é a resposta?

Soltei um riso curto e encostei-me na cadeira.

— Valentina disse que o meu trabalho é convincente… e insuficiente. Quer mais vísceras… ainda que não sabia propriamente o que isso significa.

Mathew arqueou uma sobrancelha, genuinamente interessado.

— Isso soa menos como crítica e mais como um convite perigoso.

Passei os dedos pela borda da taça, distraído.

— É exactamente isso. Ela quer que eu prove o conceito, não que o explique. O que, vindo dela, soa muito próximo de um ultimato artístico.

Ele inclinou ligeiramente a cabeça, a estudar-me com aquele olhar que parecia desmontar as minhas frases antes mesmo de eu as terminar.

— E gostas disso?

Demorei um segundo a responder. Observei o reflexo das luzes douradas a dançar no vinho, como se pudesse encontrar ali uma versão mais honesta da resposta.

— Gosto do desafio… — admiti, por fim. — Mas não sei se gosto do que ele exige de mim.

Mathew sorriu de lado, aquele sorriso lento que sempre parecia conter uma segunda intenção, mesmo quando não havia nenhuma declarada.

— Normalmente, quando algo exige demais, é porque está a pedir a versão mais verdadeira de nós. E essa costuma ser a mais desconfortável.

Ergui os olhos para ele, sentindo a frase pousar entre nós com uma familiaridade perigosa.

—Falas como se me conhecesse há anos.

— Talvez conheça a versão que tu mostras quando está prestes a fazer algo que vai mudar tudo — respondeu ele, simples, sem dramatizar, como se fosse uma constatação banal.

O empregado chegou com o vinho e a entrada, interrompendo o momento. O tilintar dos talheres e o deslizar do prato sobre a mesa trouxeram uma pausa quase necessária. Agradeci com um aceno breve, aproveitando o intervalo para recuperar algum tipo de equilíbrio interno.

Quando ficámos novamente a sós, Mathew apoiou os cotovelos na mesa, aproximando-se apenas o suficiente para reduzir a distância sem a tornar íntima demais.

— E fora a Velvet? — perguntou. — Como está o resto da tua vida?

A pergunta pareceu simples demais para a tensão que carregava. Cortei um pedaço do pão, ganhando tempo.

— Allan e eu estamos… estáveis.

Ele não reagiu de imediato, apenas me observou a mastigar como se avaliasse não a resposta, mas o silêncio que vinha depois dela.

— “Estáveis” é uma palavra curiosa — disse ele, por fim. — Costuma significar que ninguém está feliz o suficiente para celebrar… nem infeliz o suficiente para ir embora.

Soltei o ar pelo nariz, num riso sem humor.

—És sempre assim direto

— Só quando sinto que alguém está a tentar proteger uma verdade com vocabulário diplomático.

Balancei a cabeça, olhando para o prato sem realmente o ver.

— Não é sobre querer outra pessoa — murmurei, mais para mim do que para ele. — É sobre já não saber quem eu sou dentro da vida que construí com ele.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Pelo contrário, tinha a densidade calma de algo que podia ser dito sem pressa.

— Isso assusta -te? — perguntou Mathew, mais baixo agora.

— Assusta-me não saber se estou a mudar… ou se só estou finalmente a ser quem sempre fui.

Ele girou a taça lentamente, o reflexo da luz a atravessar o rosto dele.

— Talvez as duas coisas sejam iguais.

Levantei o olhar, sentindo o peso da frase entrar em mim com uma precisão quase cirúrgica.

Por um instante, nenhum de nós falou. O restaurante continuava vivo à nossa volta — o murmúrio das conversas, o som distante de uma rolha a ser retirada, o perfume do vinho e da madeira quente — mas a mesa parecia isolada num espaço próprio, suspenso.

Mathew pousou a taça.

— Quero que saibas uma coisa — disse ele, e o tom perdeu parte da provocação habitual, tornando-se estranhamente sério. — Eu não o convidei para o jantar para complicar a tua vida.

Inclinei ligeiramente a cabeça.

— Não?

Ele sorriu, pequeno, quase cansado.

— Convidei porque gosto de conversar contigo O resto… é território que decides se queres pisar.

Senti algo apertar no peito, não exactamente culpa, nem exactamente desejo. Algo no intermédio, mais difícil de nomear. Passei a mão pelo copo, sentindo o frio do cristal contra a pele.

— E se eu disser que já estou a pisar sem perceber?

Mathew sustentou o meu olhar por alguns segundos, sem pressa e sem recuar.

— Então talvez o importante não seja parar… — disse ele, suave — mas perceber para onde estás a ir.

As palavras ficaram suspensas entre nós, a vibrar com uma honestidade que me deixou momentaneamente sem defesa.

Afastei o olhar, observando o salão, as luzes, os desconhecidos que riam e conversavam como se o mundo fosse um lugar simples. Quando voltei a encará-lo, senti uma clareza desconfortável instalar-se dentro de mim.

Porque, naquele momento, percebi que o perigo não era Mathew, mas sim a facilidade com que eu me sentia visto sentado diante dele.

— Vamos fazer um acordo – o seu sorriso irritantemente bonito agora palpitava de um jeito incomum.

Observei o sorriso dele, aquele equilíbrio irritante entre charme e sinceridade, e senti algo em mim oscilar — como uma porta que não sabia se devia fechar ou abrir mais.

— Estou com medo — sussurrei, deixando a ironia suavizar o peso real da frase.

Mathew inclinou-se um pouco mais para a frente, o cotovelo apoiado na mesa, a luz dourada a recortar o contorno do rosto dele.

— Hoje vamos ser só o Adrien e o Mathew, dois amigos — disse ele, num tom quase conspiratório. — Pode ser?

Fiquei a olhar para ele por um instante mais longo do que devia. Havia qualquer coisa perigosamente confortável naquela proposta. Amizade parecia uma palavra segura… limpa… mas dita por ele, naquele contexto, carregava uma complexidade silenciosa.

Passei o polegar pela borda da taça, acompanhando o frio do vidro enquanto pensava. A ideia de baixar as defesas por uma noite tinha um sabor tentador, quase medicinal. Mas também conhecia bem o tipo de linhas que começam como limites claros e acabam dissolvidas em gestos pequenos demais para serem interrompidos.

— Dois amigos… — repeti, mais para testar o som daquilo na minha própria boca do que para responder.

Mathew assentiu devagar, sustentando o meu olhar, mas sem pressionar. Era uma habilidade dele, aquela paciência estratégica que parecia oferecer espaço enquanto, paradoxalmente, o preenchia por completo.

Soltei o ar e encostei-me na cadeira, deixando os ombros relaxarem pela primeira vez desde que chegara.

— Está bem — disse, por fim. — Só o Adrien e o Mathew.

O sorriso dele não se alargou; pelo contrário, tornou-se mais subtil, quase satisfeito demais para precisar de exibição.

— Óptimo — murmurou, erguendo ligeiramente a taça. — Então começo com uma pergunta segura.

Arqueei uma sobrancelha.

— Isso existe vindo de ti?

— Raramente — admitiu, com um brilho divertido nos olhos. — Mas hoje estou disposto a tentar.

Aproximei a taça da dele, o cristal a tilintar num som breve e limpo.

— Qual é a pergunta?

Ele apoiou as costas na cadeira, observando-me com uma curiosidade menos afiada, mais genuína.

— Quem era o Adrien antes da Velvet?

A pergunta apanhou-me desprevenido. Senti o corpo reagir num reflexo silencioso, como se uma memória tivesse sido puxada sem aviso. Afastei o olhar por um segundo, observando o movimento lento dos empregados entre as mesas, o brilho quente das luzes reflectido nos copos, o conforto superficial daquele cenário cuidadosamente construído.

— Ele… — comecei, hesitando, procurando as palavras certas. — Ele era mais barulhento.

Mathew inclinou ligeiramente a cabeça, interessado.

— Barulhento como?

Sorri de lado, surpreendido pela memória que surgia com uma clareza quase dolorosa.

— Ria alto demais. Falava sem pensar tanto nas consequências. Achava que talento e esforço eram suficientes para manter tudo no lugar… inclusive as pessoas.

— E agora?

Passei a mão pela nuca, sentindo o calor acumulado ali.

— Agora eu penso demais antes de tudo. Inclusive antes de sentir.

O silêncio que se seguiu não foi pesado. Tinha a textura de algo que precisava existir para que a conversa continuasse honesta.

Mathew girou lentamente a taça entre os dedos.

— Parece que não te perdeste quem eras — disse ele, com calma. — Só aprendeste a escondê-lo melhor.

Olhei para ele, sentindo a frase encontrar algum ponto sensível dentro de mim.

— Talvez — respondi, baixo. — Ou talvez eu tenha medo de descobrir que ele já não existe.

Ele sustentou o meu olhar por alguns segundos, e, dessa vez, não havia provocação ali. Só atenção.

— Pessoas não desaparecem assim — disse ele, quase num tom casual, mas com uma firmeza inesperada. — Elas adaptam-se… ou ficam à espera de um momento seguro para voltar.

Engoli em seco, desviando o olhar para o vinho, tentando reorganizar o que aquela conversa começava a mexer dentro de mim.

— E… tu? — perguntei, levantando os olhos novamente. — Quem era o Mathew antes de… seja lá o que és agora?

Ele soltou um riso baixo, genuíno.

— Eu ainda estou a tentar descobrir o que sou agora — respondeu. — Mas antes… eu era alguém que acreditava que podia controlar perfeitamente o rumo da própria vida.

— E deixas-te de acreditar?

Mathew observou o líquido escuro na taça antes de responder.

— Aprendi que as coisas mais importantes raramente são controláveis.

Os nossos olhares cruzaram-se outra vez, e senti aquela mesma sensação voltar. Não era exactamente tensão, nem exactamente conforto, era algo suspenso e instável, perigosamente fácil de permanecer.

Por um instante, esqueci-me completamente da promessa implícita naquele jantar.

Esqueci o Allan.

Esqueci a Velvet.

Esqueci até o motivo pelo qual deveria manter distância.

E foi exactamente essa facilidade que me fez perceber o quão frágil aquele acordo realmente era.