Dois idiotas,um diário e o apocalipse.
3 A Piada Mortal
Notas iniciais
Thomas
Quando acabamos de inspecionar as bolsas, decidimos que não exploraríamos a cidade, ficaríamos descansando na casa abandonada. Nós tínhamos suprimentos agora. Por que arriscar? Cada um escolheu uma arma. Peguei uma Colt Python e a Chloe uma Glock 18, na bolsa ainda restava uma FN Scar, uma AK 47, e uma Cobb .50. Mesmo com essas armas por perto, ainda seria mais confiável utilizar as nossas de corpo a corpo.
Chloe deitou-se no velho sofá que havia na sala e começou a dormir. Sentei-me ao seu lado, ela estava tão cansada que nem sequer percebeu minha presença. Levantei e me aproximei da janela, era minha vez de vigiar. A porta estava trancada e a casa encontrava-se mais silenciosa que um corpo morto. Estava gelado. O perfeito cenário de um filme de terror. Se não fosse pela minha respiração e a da Chloe, teria como escutar o vento passando por debaixo da porta. Esse clima assombroso me deixou desconfortável, podia sentir o perigo iminente, mas estava tudo vazio, nem mesmo um zumbi na rua, um maníaco sequer, somente eu e o silêncio...
Cerca de meia hora depois, algo interrompeu o silêncio. Um grito agudo que continuou por alguns segundos e depois se cessou. Preparei minhas armas e levantei a guarda. Acordei Chloe. Ela estava confusa e sonolenta. Meio zonza, se armou e disse:
— O som não parece vir de muito longe. Você sabe algum lugar nessa região onde poderia haver sobreviventes?
— Os maníacos aniquilaram o Centro. Os zumbis aparecem em todo lugar, qualquer local pode haver um sobrevivente. Vamos procurar – Afirmei, sem encará-la.
Saímos à procura da origem do grito levando apenas a mochila de suprimentos e remédios. Não percorremos nem meio quarteirão quando avistei sangue num beco. Corremos até lá e vimos uma pessoa segurando um corpo com vários cortes ao redor do tórax e um na garganta. Havia mais três corpos espalhados pelo beco, todos desfigurados, como se algo os acertasse várias vezes. O homem que restara nos olhou. Ele era alto e tinha a pele escura, lágrimas escorriam de seus olhos, sangue manchava suas mãos, sua expressão era de puro horror. Nesse momento eu só pude perceber uma coisa: Naquele beco houve um ataque dos maníacos e aquele cara foi o único sobrevivente.
Ele levantou-se e pegou sua arma, um taco de beisebol com pregos na ponta. Boa escolha, pena que nós éramos os alvos. Ele ergueu o braço em posição de ataque e antes que nos acertasse, consegui dizer:
— Calma aí amigo! Não somos rivais, somos apenas sobreviventes. Não nos ataque, por favor.
— Por que eu confiaria em duas pessoas suspeitas? – ele respondeu, fechando o punho com força.
— Nós também já enfrentamos os maníacos, eles matam todo sobrevivente que encontram. O inimigo do inimigo é meu amigo, certo? – Eu claramente estava em pânico, mas aquele cara não era um maníaco. Os maníacos não chorariam por suas vítimas ou por eles mesmos, eles apenas continuariam matando com ferocidade e sem remorso.
— Ainda não confio em vocês, porém concordo com sua linha de raciocínio. Vocês definitivamente não parecem maníacos. Meu nome é Jorge, eu sou um sobrevivente igual a vocês, no entanto, eu estou com falta de suprimentos. Aquele ali no chão era... – Ele definitivamente estava muito triste, mas mesmo assim falou – meu namorado.
Suas palavras me atingiram como uma facada na jugular, tudo o que eu queria era poder dividir essa dor com ele, porém, não sabia o que falar. Olhei de relance para Chloe. Ela não parecia diferente, estávamos chocados. Mas de qualquer forma, ela disse:
— Meu nome é Chloe e esse é Thomas. Nos encontramos por aí e agora somos uma dupla de sobreviventes, nos abrigamos em uma casa aqui por perto, deveríamos voltar pra lá antes que algo pior aconteça.
— Ela está certa – falei, tentando passar algum tipo de confiança – nunca estaríamos seguros aqui fora, vamos volt... – um estrondo cortou minha fala. Uma explosão, bem próximo da nossa localização, fumaça começou a subir na direção da...
— Não pode ser... – Chloe estava com uma cara de desespero – nessa direção, a casa! Nosso refúgio!
Algo de ruim acontecera, perdemos nosso abrigo, os inimigos estavam perto, precisávamos sair:
— Vamos embora antes que seja tarde demais – disse, mas no fundo eu queria voltar lá, poderíamos não encontrar água em outra casa, por algum motivo naquela havia, mas não era hora de questionar detalhes.
Assim que me virei algo me chamou a atenção. Alguma coisa que refletia a luz mas não parecia ser um espelho. Quando me aproximei consegui enxergar, era uma adaga, com uma bainha, seu cabo era a cabeça de um dragão. A bainha era composta pela cauda do dragão, seus pés facilitavam apoiar a adaga à uma superfície. Enquanto investigava, decidi ver se estava afiada, acabei esfaqueando um cadáver desfigurado, embainhei ela e segui até a Chloe, com um sorriso no rosto disse:
— É sua.
Ela ficou surpresa, quem não ficaria? Uma adaga tão bonita, por que alguém não ficaria com ela? Por que entregar a alguém? Nem mesmo eu sabia o porque, mas eu a entreguei mesmo assim. Virando-se ela disse:
— Se isso for só para você parecer atraente, eu jogo esta adaga fora, mas se não, obrigada – ela tentou disfarçar a felicidade, mas deu para perceber um leve sorriso no seu rosto. Jorge quebrou o clima lembrando-nos que temos que fugir.
Continuamos descendo a rua por muito tempo, estava começando a escurecer então precisávamos achar um bom lugar pra ficar, porém, estávamos perto do Centro. Muitas casas e apartamentos estavam queimados, destruídas, carros tombados, sangue nas paredes, no chão, nenhum parecia muito recente. Seguimos mais ainda e encontramos um bom lugar, era uma escola de dois andares, possuía apenas uma entrada e muros altos a cercavam, grama alta e rachaduras indicavam que a construção era velha, sangue estava espalhado pelos corredores mas não aparentava haver maníacos nem zumbis lá. Entramos numa sala e cobrimos as janelas como qualquer ser em plena consciência faria. Achamos um dormitório no segundo andar. Tinham três beliches espalhados. O pano de cama estava bagunçado, como se alguém tivesse saído dali recentemente, mas pelo menos não estava sujo. Encontramos um diário em uma escrivaninha que estava mal colocada no canto vazio do quarto. Estava em branco e havia uma caneta ao lado, na parede havia uma palavra ilegível. Escrita em sangue? Ou era só caneta vermelha? Esse detalhe me incomodou, mas ignorei, estava tarde e precisávamos descansar. Jorge ficou na parte de cima da terceira beliche, eu e Chloe na primeira. Como um bom cavalheiro, deixe-a escolher onde dormiria. Sentamos por um tempo e apenas ficamos lá, parados, o silêncio tomou conta do lugar, de novo. Eu me senti desconfortável com isso, então me lembrei de perguntar:
— Quem vai ficar de vigia?
E sem hesitar por um segundo, Jorge disse:
— Eu! Não confio em vocês o suficiente.
— Obrigada – disse Chloe – Eu só cochilei hoje, depois de passar dias acordada.
— Mocinha, um adulto serve pra essas coisas – Jorge disse como se fosse pai dela lhe dando um aviso.
— Adulto? Quantos anos você tem? – Perguntei, curioso
— Fiz vinte e três no começo do ano.
Nesse momento o vento ecoou pelos corredores vazios. Aquele lugar era sinistro, me lembrou da casa que estávamos. Perdemos três armas muito úteis, um abrigo, chuveiro e roupas, mas em compensação ganhamos um amigo que não confiava em nós, mas um amigo. Quando Chloe foi se deitar, o beliche quebrou, sobrando apenas os outros dois. Ela não queria deitar perto do Jorge e ele não deixaria também, não queríamos arriscar quebrar mais nada então arrastou a parte que sobrou do primeiro beliche e juntou com a minha cama, formando uma cama de casal. Ela, exausta, caiu na cama e dormiu na mesma posição que ficou, como um bebê. Me deitei ao lado dela, aconchegando-me. Não estava muito cansado mas mesmo assim, joguei-me na cama. Jorge que estava observando na sua beliche, que por sorte não despedaçou-se como a primeira, deu uma risadinha maliciosa e falou:
— Vocês parecem um casal de passarinhos azuis em um belo ninho de amor.
— Cala a boca, Jorge. Eu não iria deixá-la dormir no chão. À noite faz muito frio, ela poderia pegar um resfriado ou coisa pior — rebati, ficando vermelho como um pimentão maduro — E eu faria a mesma coisa por você.
Nesse momento, percebi que sua expressão brincalhona sumiu, e deu espaço para um olhar triste e nostálgico. Me peguei pensando em como ele estava se sentindo sobre tudo o que aconteceu hoje. Odeio ver alguém precisando de ajuda e não poder fazer nada.
Algum tempo depois...
O sol bateu em meu rosto e acordei. Abri os olhos lentamente e me deparei com Chloe. Ela dormia feito um anjo, sem se mover, parecia que nem respirava. Jorge estava no canto dele, comendo uma barra de cereal. Quando percebeu que acordei, ele relatou como foi a vigia dele:
— Tudo aqui está silencioso demais, há sangue por todo lado mas não vejo sequer um corpo, nem mesmo sinal de vida, somente nós, e também não ocorreu nada de especial a noite. Vocês dois desmaiaram e nem se mexeram.
Me levantei e fui comer, pois minha barriga parecia um carro tentando ligar depois de várias tentativas falhas de tanto roncar. Chloe despertou dez minutos depois, parecendo mais descansada. Todos comemos e o silêncio impregnou o quarto. Estava muito pacifico, algo estava errado, mas por enquanto estava bom assim, me daria tempo para pensar, me lembrar da minha vida antes do apocalipse, de meus pais… Minha cabeça estava lotada de pensamentos, memórias, saudades. O único porém é que meus pais viviam no laboratório e só cuidaram de mim até eu aprender a me virar sozinho em casa, desde então eles apareciam em eventos escolares ou no meu aniversário. Sempre chegando tarde em casa, não tinha nem a oportunidade de dar um beijo antes de dormir. Mas os poucos momentos que eu tinha com eles eram os mais felizes. Minha mãe era muito bondosa, meu pai não tanto. Ele não ficava muito comigo, era rabugento, mas ainda assim gostava dele.
Desde o começo da catástrofe eu não os vejo. Quando o vírus se espalhou, eles provavelmente se lacraram no laboratório e estão vivendo de comida enlatada. Enquanto pensava nos meus pais, o tempo passara, já era à tarde. Eu não havia almoçado. Jorge estava lendo um livro velho que ele possuía e Chloe estava desenhando no caderno que estava na escrivaninha.
Então algo bateu na porta e continuou forçando até a porta ceder. Do lado de fora havia um homem musculoso usando uma máscara de palhaço ensanguentada. Em suas mãos cobertas com luvas de couro, encontrava-se uma motosserra pronta para partir alguém ao meio.
— Vamos brincar, crianças? — Disse o maníaco, puxando a corda de seu instrumento mortal e soltando uma risada ensurdecedora.
Ele levantou a motosserra e deu um passo. Chloe, desesperada, puxou a arma e atirou. O tiro raspou no ombro esquerdo do palhaço assassino, ele baixou a motosserra e eu avancei, obrigando-o a pular para trás e largar a arma. Jorge veio logo em seguida, com o taco em mãos, mas o palhaço desviou de novo. Chloe tentou novamente. Dessa vez, fez um corte superficial no abdômen do psicopata, porém, isso não o parou. Ele continuou recuando e nós avançando inutilmente contra ele. Mas de repente, ele pegou uma mesa que não estava ali ontem, e bloqueou nossos ataques. Sem escolha, paramos de atacar, ele sorriu e pela primeira vez ouvimos sua voz:
— Um palhaço incomoda muita gente, dois palhaços incomodam muito mais, três palhaços incomodam incomodam muito mais e… quatro palhaços… MATAM TODO MUNDO! – Nesse momento, três palhaços apareceram. Dois atrás de nós e um na frente. Agora tínhamos que enfrentar quatro palhaços assassinos, sendo que não conseguimos, em três, matar um.
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