Dois Verões
13 Jogando a toalha
Notas iniciais
Ao entrar na casa, Mônica encontrou uma bagunça diferente da que esperava. Magali estava sentada no sofá da sala, obviamente preocupada. Xaveco falava ao telefone na cozinha, e embora ela não tenha conseguido entender o que ele dizia, o assunto parecia sério.
— O que aconteceu? – ela perguntou, arqueando as sobrancelhas.
— Os meninos tiveram que levar a Cascuda para o hospital. – a amiga explicou, chateada.
— Ah. – foi tudo o que ela conseguiu dizer, a voz num misto de surpresa e desapontamento.
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Cascão deixou a cabeça pender levemente para trás, encarando o teto branco do hospital. Cascuda estava há alguns minutos dentro do consultório e Franja saíra para comprar um café na cantina, deixando-o finalmente sozinho com seus pensamentos.
Aquela manhã fora agitada. Apenas ele, Franja, Marina e DC estavam acordados quando Cascuda resolveu sair para tomar um ar na praia. Foi tudo muito rápido, ele estava decidido a ir atrás da namorada e ter uma conversa séria com ela, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, ela pisou em falso em uma das pedras na areia e caiu no chão com um grito agoniado.
Com isso, os outros acordaram. Xaveco fez uma bolsa de gelo para que ela colocasse no tornozelo torcido, mas não pareceu adiantar muita coisa. Por fim Franja sugeriu que a levassem para o hospital na cidade.
Além da ressaca terrível e do nervosismo do momento, Magali o tratou da mesma maneira de sempre, como se nada tivesse acontecido. Ele se esquecera de poucas coisas da noite anterior e a memória da declaração que fizera a ela permanecia vívida em sua mente. Era estranho ela estar agindo tão casualmente depois de tudo o que ele lhe dissera e o garoto sabia que ela não havia bebido a ponto de se esquecer. Então só restava para ele acreditar que ela escolhera ignorá-lo.
Era lógico que não estava pensando direito quando tomara aquela atitude. Logo que ela fugira ele se deu conta disso. Mas o que podia fazer agora? Pensara em várias maneiras de pedir para que ela esquecesse tudo o que ouvira, mas ao vê-la acordando sonolenta naquela manhã, não tivera forças para falar nada.
Por mais que se negasse a admitir, estava magoado. Esperava que Magali tivesse ficado um pouco balançada. Sabia que não podia força-la a nada e queria ao menos continuar tendo-a como amiga, porém não podia simplesmente fingir que nada havia sido dito.
O moreno suspirou pesadamente, tentando achar uma maneira de sair daquela enrascada quando de repente a porta do consultório se abriu e a loira surgiu de lá de dentro, parecendo bem mais aliviada.
Ela tinha uma faixa bem colocada no pé direito e não conseguia pisar direito no chão. Cascão correu para ampará-la e ela sorriu agradecida. Franja chegou logo depois, perguntando se estavam prontos para ir.
Os três seguiram para o carro e deixaram o hospital. Minutos depois o motorista parou o carro novamente para comprar um analgésico que o médico havia receitado para a garota e um remédio para cólicas que Marina lhe pedira, deixando o casal à sós.
Cascão encarou o perfil dela, o sol da manhã lhe banhando os cabelos loiros e os olhos castanhos. Parecia triste, daquele jeito que é difícil de disfarçar, os ombros um pouco caídos. Ela lhe encarou de volta e sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos.
— Obrigada, Cas. – disse, e ele ficou sem saber exatamente pelo que ela estava agradecida.
O garoto esticou a mão para alcançar a dela, e ficou olhando os dedos dos dois entrelaçados. Durante todo o caminho de volta, ela não o olhou mais nenhuma vez, se limitando a fitar a paisagem fora da janela. O garoto subitamente. Ela sempre tentava, mesmo quando ele não fazia o menor esforço, manter o relacionamento deles de pé. Como um médico disposto a curar um paciente que já não tem mais jeito, ela continuava relevando os deslizes, ignorando os indícios de que eles já não eram mais tão bons um para o outro como costumavam ser.
Dessa vez, no entanto, ela parecia estar jogando a toalha.
E Cascão percebeu que não querendo machucá-la, havia acabado tornando tudo bem mais difícil.
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— Então você ficou mesmo com o Xaveco naquela noite do luau? – Magali perguntou, esticando as pernas na cama. As garotas decidiram se refugiar no quarto feminino para esperar Cascuda chegar e ficaram conversando banalidades, até que a comilona não conseguiu mais segurar a curiosidade.
— Er... – começou Denise, pensando no que dizer. – É, foi. – suspirou pesadamente.
— E depois? – continuou Marina – Ficaram de novo?
— Claro que não gente! – a ruiva respondeu, aborrecida por ter que falar naquele assunto. – A gente não tem nada a ver! Eu só estava curiosa por causa do Xavecão e...
— Conta outra, Denise. – Mônica girou os olhos. Não estava participando muito da conversa, mas achou que aquele era um bom momento para interferir. – Tá na cara o climão entre vocês. Não sei por que você não admite isso logo.
— Porque não tem nada entre a gente! – rebateu, a voz saindo quase num grito. – Nem vai ter. – “já que ele me odeia” completou mentalmente, arrependida.
— Mas você não sente nada por ele? – questionou Magali, curiosa.
— Eu... Eu não sei. – mordeu o lábio inferior nervosamente. – Eu não quero um compromisso. Ele é desses que se amarra e... Ah gente, nada a ver! – desconversou, sem querer confessar que sentia muitas coisas por ele. Coisas que nenhuma outra pessoa no mundo seria capaz de despertar.
— Fica aí negando – Mônica começou – Quando você ver, ele vai ter cansado de te esperar. – concluiu.
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O restante do dia passou sem grandes emoções. Cebola voltou para casa um pouco antes de Franja, Cascuda e Cascão. Era notável que o clima entre o casal estava estranho, mas os outros acharam melhor não interferir.
Mônica pensou em ter com ele a conversa que planejara mais cedo, mas não encontrara oportunidade, já que ele ficara o dia inteiro junto com a namorada (embora ela não parecesse muito empolgada com isso). Pensou também em contar para Magali, mas não se achou no direito. Tinha que saber se o amigo queria mesmo começar as coisas direito antes de falar qualquer coisa com ela.
Magali, por outro lado, estranhou a frieza com que o amigo a tratara em todas as vezes que tentara falar com ele. Normalmente Cascão era caloroso e afetuoso com ela, sempre fazendo-a rir e alegrando seu dia. Naquela tarde sua frieza era evidente. Ela se convenceu de que ele estava apenas estressado com o que acontecera com sua namorada e deixara passar, mesmo sem conseguir evitar o incômodo.
Não podia fingir que aquilo que ele dissera no jogo não mexera com ela. Uma pequena parte dela se perguntou se era nela que ele pensara quando dissera que já tivera com vontade de ficar com alguém do grupo. E se fosse? Há anos as pessoas os confundiam com um casal, os amigos faziam piadas sobre eles e até ela mesma as vezes se pegava imaginando a possibilidade. Mas preferia enfiar aqueles pensamentos no fundo de sua mente em nome de sua amizade com ele e Cascuda. Além do mais, já haviam tantas confusões sentimentais acontecendo com os amigos e ela preferia não se juntar a eles.
A atmosfera da casa estava bem ruim, na verdade. Depois do jogo os ânimos ficaram exaltados e não havia clima para muita coisa.
A comilona seguiu até a varanda e se sentou em uma das cadeiras de balanço. Xaveco e Do Contra também estavam ali, os dois entretidos com uma partida de xadrez. Era um passatempo estranho para se fazer numa praia daquelas, mas ambos pareciam estar se divertindo, hora ou outra fazendo comentários engraçados sobre assuntos aleatórios.
Assistiu à partida deles sem muito interesse por alguns minutos, logo se perdendo em pensamentos. O loiro franzia a testa em concentração o tempo todo e de onde estava ela não conseguia ver a expressão do moreno, mas sabia que ele devia estar igualmente atento apenas pela tensão em seus ombros. Estava insuportavelmente calor o que fizera o rapaz passar a tarde sem camisa. Magali não se lembrava de alguma outra ocasião em que houvesse o visto daquele jeito, já que mesmo ali na praia ele não desistia de suas costumeiras camisetas pretas. Ele tinha ombros largos e várias pintinhas que se espalhavam por suas costas como se fossem constelações, a pele muito pouco bronzeada contrastando com seus cabelos pretos.
A menina só percebeu que estava encarando demais quando ele murmurou um palavrão. Constrangida (e com um pouco de medo de ter sido flagrada) ela se sobressaltou, mas se acalmou ao notar que ele havia dito aquilo apenas porque Xaveco anunciara um xeque-mate. Ela riu baixinho ao ver o loiro estendendo a mão, na qual o outro depositou um par de notas que tirara do bolso da bermuda.
— A gente podia aproveitar esse dinheiro e ir fazer alguma coisa na cidade, né? – ela sugeriu em tom de brincadeira, atraindo a atenção dos dois para si. Na verdade, o que ela queria era apenas que todo mundo saísse e se divertisse até que aquele clima chato fosse embora.
— Tem um parque que abre toda noite. – Xaveco respondeu, entrando na onda. – Acho que a galera ia gostar.
— Ótimo. – ela sorriu, contente. – Vou avisar todo mundo! – se levantou, não sem antes reparar que DC a olhava com uma expressão engraçada.
Eles precisavam, mais do que nunca, de uma boa noite de diversão descompromissada.
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