Dois Verões
14 Modo automático
Notas iniciais
Cascão estava na cozinha, procurando alguma coisa para comer na geladeira. Fazia muito tempo que não tinha um dia tão ruim. Culpado, ele tentara de qualquer jeito animar Maria Cascuda, mas ela não parecia muito interessada na presença dele, o tempo todo arrumando desculpas para falar com alguma das amigas ou outra pessoa do grupo.
— Cas? – ouviu a voz feminina inconfundível às suas costas. Sabia que mais cedo ou mais tarde Magali tentaria falar com ele, mas esperava que tivesse demorado um pouco mais.
— O que você quer? – questionou, rispidamente, antes que pudesse se controlar.
— O Xaveco disse que tem um parque legal na cidade, você quer ir? – ela tentou, abrindo um sorriso esperançoso.
— Não. – respondeu simplesmente – Olha Magali, você não precisa ficar tentando ser legal comigo por causa do que aconteceu. – despejou, antes que tivesse tempo de processar de fato o que havia dito. Entendia o fato de ela não querer nada com ele, mas não queria que ela ficasse vindo atrás dele por pena.
— O que? – ela perguntou, confusa por um momento. – Eu não... – começou – Só achei que você ia querer ir. – mordeu o lábio inferior, visivelmente chateada. Imediatamente ele se arrependeu de ter sido tão grosso, porém não havia mais volta.
— É só que... – começou. Por mais que quisesse dizer algo para ela que fizesse as coisas voltarem a ser como eram, não conseguia. Estava com a cabeça quente demais para raciocinar direito. – Eu não quero. Me esquece, tá. – suspirou pesadamente, antes de sair da cozinha faminto e ainda mais chateado.
Por que ele continuava estragando tudo?
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Mônica encontrou a amiga estática em frente a geladeira, visivelmente magoada. Por um minuto ela até pensou em fazer alguma piada sobre comida, mas logo notou que esse não era nem de longe o motivo para aquele olhar triste.
— Aconteceu alguma coisa, amiga? – arqueou as sobrancelhas.
— Eu não sei... – confessou – Qual o problema do Cascão? Estava tudo bem, mas de repente ele... – suspirou pesadamente, tentando conter as lágrimas. – Eu fiz alguma coisa errada pra ele, Mô?
— Claro que não! – respondeu, a voz soando mais irritada do que gostaria. – Olha Magá, o Cascão... – se interrompeu – Você não fez nada de errado, ok? Nada.
— To me sentindo uma idiota! – Magali continuou, a voz saindo um pouco esganiçada. – Eu só queria ajudar, mas ele me tratou de um jeito horrível e eu nem entendi a razão!
Mônica a encarou por alguns instantes, sem saber o que dizer. Em parte queria contar tudo o que sabia, mas por outro lado não podia aceitar que ele fizesse as coisas daquela forma. Magali merecia mais do que isso.
— Nada de sofrer hoje. – sorriu por fim – Vamos sair e nos divertir, ok? – completou, abraçando a comilona, que sorriu e concordou, mesmo que ainda triste.
Quando ela saiu, a outra foi direto para o quarto masculino, onde tinha visto o amigo entrar. Bateu na porta com mais força do que o necessário e quase perdeu a pose quando Cebola surgiu com uma expressão assustada. Ainda assim, seguiu firme em seu objetivo.
— O Cascão tá aí, né? – perguntou, sem se preocupar em não soar ameaçadora.
— Uhum. – o menino respondeu, com os olhos um pouco arregalados. Por um segundo ela se perguntou se ele achou que a conversa séria seria entre eles dois. – Ele deve ter dado muitos nós no Sansão pra você estar com essa cara. – brincou, arqueando as sobrancelhas.
— Foi um pouco pior do que isso. – girou os olhos, tentando sem sucesso conter o sorrisinho que aparecera em seu rosto por conta daquela brincadeira.
— Então eu vou cair fora antes que sobre pra mim. – continuou, dando de ombros. Já ia saindo e deixando o caminho livre quando de repente se virou novamente pra ela e abriu a boca, como se fosse dizer algo e tivesse desistido no caminho. Depois abriu um sorriso que não chegou exatamente aos olhos e saiu.
Mônica ignorou a vontade de ir atrás dele e entrou no quarto, encontrando Cascão deitado em um dos colchões com um gibi aleatório nas mãos, embora não parecesse estar lendo.
— Olha Cas, eu vou ter que ser direta, ok? – a garota praticamente cuspiu as palavras – Eu não vou deixar você tratar a Magali desse jeito. – ele arregalou os olhos, surpreso com aquelas palavras.
— Eu não quero... – começou, mas foi interrompido novamente pela voz dela.
— Não terminei! – respondeu, em tom de ordem – Eu sei que você gosta dela e acredito que é de verdade, mas ela não merece isso.
— Eu sei que não! – rebateu, igualmente assustado e irritado – Pera, como assim você sabe?
— Eu sei porque... – parou. Como ia dizer isso? – Foi pra mim que você se declarou. Pronto, falei! – botou as mãos na cintura, assistindo o rosto do garoto assumir um tom absurdamente vermelho.
— Eu... Err... – enrolou, absurdamente constrangido com aquela situação.
— Olha, eu não vou dizer que nunca suspeitei porque seria mentira. – ela recomeçou, um tanto mais calma. – Cas, você é um dos meus melhores amigos, mas eu não vou te deixar magoar as minhas amigas, ok? A Magali não sabe de nada e eu acho que não deveria saber até você ter tido coragem de terminar com a Cascuda e resolver o que tem dentro dessa sua cabeça doida.
Naquele instante diversos sentimentos passaram pela cabeça dele. Vergonha, medo, constrangimento e até mesmo um pouco de alívio, por saber que teria uma segunda chance para fazer tudo de um jeito melhor.
— Ah, sua declaração foi linda, mas vê se da próxima vez diz aquilo tudo estando sóbrio. – e sorriu, antes de deixa-lo sozinho para pensar em tudo o que acabara de ouvir.
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Denise riu, tentando de qualquer jeito parecer tão animada quanto os amigos estavam. A turma toda, com exceção de Cascão e Cascuda, seguira para o parque na van alugada. Por mais que o clima ainda estivesse pesado, aos poucos foram conseguindo se descontrair, cantando as canções que tocavam na rádio durante o caminho e mergulhando em assuntos sem importância.
Ela sabia que devia estar se divertindo. Eram suas merecidas férias, o parque era pequeno, mas tinha aquela atmosfera nostálgica causada pelas luzes coloridas nos brinquedos que ela secretamente tanto amava. Seus amigos estavam ali, fazendo farra. Nimbus fazia de tudo para convencer Do Contra a ir no tiro ao alvo com ele, só porque queria mostrar que era melhor no jogo que o irmão. Magali ria da discussão deles e Mônica girava os olhos, embora estivesse com um sorrisinho no rosto. Cebola se intrometeu dizendo que provavelmente era melhor que os dois juntos e Bia logo sugeriu que fizessem um torneio com todo mundo pra acabar com aquele impasse (afirmando logo que ela seria vitoriosa, o que fez Xaveco soltar uma gargalhada que os outros não entenderam).
Havia, além das atrações do parque, uma pequena feira de artesanatos e um palco onde uma dupla local tocava covers acústicos de músicas bastante conhecidas. A brisa noturna característica do verão deixava a temperatura agradável e vários turistas bonitos lhe distribuíam sorrisos e olhares, que ela correspondia, mas sem sentir real entusiasmo.
Por que não conseguia simplesmente se soltar? O tempo todo só conseguia pensar nas palavras que Mônica lhe dissera mais cedo. E se Xaveco já estivesse cansado de esperar?
Aproveitou que ninguém prestava atenção em si e deixou os olhos viajarem até o loiro. Era incrível como ali na praia ele se tornava uma pessoa mais solta e confiante. Apresentava os amigos que conhecia de outros verões à turma sem cerimônia nenhuma, cumprimentando também as pessoas que os acompanhavam, arrancando inclusive olhares cobiçosos de algumas garotas.
Ele não era mais aquele nerd esquisito com o qual ela crescera junto. Quer dizer, por dentro continuava o mesmo, mas os anos de surf e futebol lhe fizeram mais diferença do que ela gostaria de admitir. Lógico que ele continuava não notando a atenção que recebia, por pura falta de costume, mas a ruiva conseguia ver muito bem.
Uma loira que estavam com os amigos dele lhe abriu um sorriso sedutor, antes de dizer que não fazia ideia de como acertar os alvos. Ele piscou algumas vezes, obviamente confuso e Cebola fez uma cara de impaciência, meneando com a cabeça na direção da barraca, fazendo-o entender que aquele era um convite indireto para que a ensinasse. A ruiva assistiu quando ele a abraçou por trás para ajudá-la a segurar a arma de brinquedo, parecendo muito concentrado em sua tarefa, dando instruções em seu ouvido.
De repente seu olhar se cruzou com o de Marina e ela se sentiu uma grande idiota por ter sido pega em flagrante daquela maneira. Constrangida, tratou de fingir que estava participando com entusiasmo da conversa que Nimbus tinha com um garoto aleatório da praia, mas sabia que não ia conseguir disfarçar com muito tempo.
— Queridos, eu vou dar uma volta pra ver o que tem por aí. – deu de ombros displicentemente, como se fizesse pouco caso. – Encontro vocês mais tarde. – e saiu.
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Xaveco
A garota, que se chamava Juliana, me olhou com um olhar questionador, provavelmente percebendo que eu não estava prestando muita atenção no que ela dizia. Depois de algumas jogadas no tiro ao alvo, nós fomos conversar um pouco longe do pessoal. Ela não era nem de longe tão ruim naquele jogo como dissera, o que me fez acreditar que tinha sido apenas um truque para falar comigo.
— Tá tudo bem? – perguntou, arqueando as sobrancelhas.
— Sim, tudo ótimo. – sorri sem graça, tentando disfarçar. Ela comprou minha mentira, já que voltou a conversar animadamente.
Tentei acompanhar, mas não conseguia sair do modo automático. Qual era o meu problema? Era uma garota linda, com curvas sensacionais e um papo bom, que nunca me dera moral, mesmo a gente frequentando os mesmos lugares há uns cinco verões. Agora ela estava lá, totalmente interessada em ouvir tudo o que eu tinha a dizer e eu só conseguia pensar na Denise.
— Eu quero muito virar surfista profissional, ainda mais agora que me formei. – ela contou, continuando a dar detalhes sobre como gostava do mar e se sentia bem em cima de uma prancha. Porém na minha cabeça uma voz era mais alta que todas os outros sons ao meu redor. Será que ela estava bem? Por que tinha saído daquele jeito? E se ela se perdesse, ou fizesse uma besteira? E se alguém mal-intencionado fosse atrás dela? Ela não conhece ninguém aqui além da turma!
— Ju... – comecei, sabendo que não adiantava nada ficar ali se eu não conseguia tirar aquela ruiva da cabeça. – Tem uma coisa que eu preciso resolver... – suspirei pesadamente.
— Ah. – murmurou, com uma cara decepcionada. Naquele momento eu soube que tinha perdido minha chance, tudo por causa de uma garota que provavelmente me daria um outro fora para aumentar a coleção que eu já tinha.
Mesmo assim me despedi rapidamente e saí à procura, olhando para todos os lados em busca do coque bagunçado que ela fizera nos cabelos porque estava com preguiça demais para prender do jeito que gostava.
A encontrei no estacionamento, escorada na van em que viemos, abraçando os próprios braços para se esquentar. Ela me olhou e eu pude ver de cara seus olhos marejados, embora ela tenha tentado disfarçar olhando para o lado rapidamente.
— O que você quer? – perguntou, com a voz levemente embargada pelo choro. Me aproximei o suficiente para que ela me tocasse se quisesse, mas nenhum de nós fez mais nada.
Não respondi, porque aquela não era o tipo de pergunta que tem uma resposta só. Eu queria um monte de coisas. Queria que ela parasse de se tão cabeça dura e que a gente finalmente se acertasse. Queria ter coragem de dizer isso na cara dela. Queria que ela ouvisse, me beijasse e depois tudo ficasse bem.
— Eu to com frio. – continuou, com o mesmo tom mandão de sempre. E então puxou a minha camisa, como se ordenasse que eu a abraçasse. Não importava a situação, ou o que acontecesse entre nós, ela nunca perderia aquela pose e eu não podia nem dizer que não gostava disso, porque seria uma mentira deslavada.
Ficou lá nos meus braços, as duas mãos que estavam espalmadas no meu peito subindo para o meu pescoço. Aquela proximidade toda mandou meu autocontrole para o espaço, ainda mais com aquele par de olhos castanhos esverdeados me olhando como se soubessem exatamente o que eu queria fazer.
Esse beijo foi ainda mais desesperado do que todos os outros. Ela me apertou, tentando me trazer ainda mais pra perto embora isso fosse impossível. Eu sabia que aquilo provavelmente só confundiria ainda mais as coisas, mas não tive tempo de me importar, porque a garota mais incrível do mundo estava tomando toda minha atenção e o resto do mundo parecia nem existir mais.
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