Dois Verões
12 A alternativa mais segura
Notas iniciais
A garota encarou a trilha de pegadas que deixara na areia, vendo-as serem praticamente apagadas pelo mar. Andara pela orla por um bom tempo, desde antes mesmo de clarear o dia, e depois se sentara ali, se perdendo em pensamentos e deixando as ondas quebrarem em seus pés.
Na noite anterior ouvira uma confissão que não era para ela, mas a deixara em claro a noite inteira. Não era necessariamente surpreendente saber que Cascão estava com Magali, não depois de todos aqueles anos em que pessoas desconhecidas confundiam os dois como um casal. Ainda assim, a notícia a pegara desprevenida.
Na confusão do escuro, por não achar suas coisas na bagunça que se tornara sua mochila, ela acabou pegando um pijama da amiga emprestado. E aí o amigo, obviamente movido pela sinceridade repentina causada pela bebida, acabou fazendo uma das declarações mais lindas que ela já ouvira na vida.
De repente Mônica se sentiu como se a realidade tivesse caído em suas costas feito uma bigorna. Dali pra frente ela seria uma adulta. Todos eles seriam, na verdade. Cresceram, estavam diferentes. Tão diferentes que era difícil reconhecer neles as crianças bobas e divertidas que um dia foram.
Sentia saudades de quando sabia exatamente tudo o que acontecia na vida dos três. Lógico que ela e Magali continuaram feito unha e carne, mas com Cebola e Cascão não fora bem assim. Logo que ela começara a namorar, as noites da turma clássica foram se tornando eventos cada vez mais raros e foi apenas uma questão de tempo até segredos como aquele deixarem de ser compartilhados e abismos começarem a ser criados entre eles.
Suspirou pesadamente, tentando decidir o que fazer. Alguma coisa dentro dela a fazia acreditar há um bom tempo que em algum momento aquilo aconteceria. Adorava Gabriela, eram amigas há um bom tempo, e não achava certo o que o amigo estava fazendo com ela. Mas ainda assim, sentia que Magali tinha algum sentimento por ele, mesmo que enterrado e escondido a sete chaves.
Não achava certo contar para ela o que ele lhe dissera, entretanto. Fora uma confissão inconsequente, bêbada, que ele provavelmente não pensara antes de fazer. Os dois mereciam abrir essa história (se é que haveria uma história) de um jeito melhor, embora igualmente honesto.
Era estranho como de uma hora pra outra todo mundo entrara naquela espiral de sentimentos mal resolvidos. Mônica já esperava que aquilo fosse acontecer com ela, já que com Do Contra e Cebola as coisas nunca aconteciam de um jeito simples. Mas não prevera que Xaveco e Denise também acabariam se metendo em uma confusão daquelas e muito menos que Cascão explodiria daquela maneira.
Se lembrou do início do ensino médio, quando ainda eram um grupo de amigos tranquilo e sem desentendimentos. Haviam muitas memórias, como o acampamento que foram com a escola, a festa de quinze anos de Marina e tantos outros momentos que viveram juntos. Relembrou aquele fatídico documentário que foram fazer em Sococó da Ema, deu risadas lembrando de Cascão fugindo dos pernilongos, mas logo o sorriso sumiu, assim que o medo que sentira naquela época lhe retornou à memória.
Sentira tanto medo de perder Cebola, mais do que nunca. Um medo de perde-lo para sempre, de nunca mais vê-lo sorrir, de não ser mais irritada pelos planos falhos dele. Afinal, o amava não só como uma garota ama um garoto, ou como uma amiga ama um amigo, mas como alguém que encontra uma pessoa tão incrível que fica impossível não amá-la com todas as forças, mesmo que ela pise na bola um milhão de vezes.
Mas no final não o perdera. Quer dizer, não completamente. Mas se afastaram tanto que foi como se houvesse de fato o perdido.
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Cebola enfiou as mãos nos bolsos, aproveitando para trocar a música que tocava no iPod. Quando uma nova melodia começou, ele se permitiu pensar sobre tudo o que acontecera nos últimos meses, enquanto andava meio sem rumo pela praia, deixando a casa para trás.
Ainda eram bem cedo e o sol nascera há pouco. Encontrara Cascão dormindo pesadamente no sofá da sala, o colchão abandonado com os lençóis numa bagunça tremenda, como se ele tivesse ficado a noite inteira em claro rolando de um lado pro outro. Os quartos estavam silenciosos, indicando que não havia ninguém desperto.
Ele mesmo não sabia dizer porque se levantara tão cedo. Na manhã anterior ouvira Magali dizer que o nascer do sol ali era inacreditável e quando despertou ainda no escuro, decidiu que queria assistir.
Viu bem de longe a silhueta de uma pessoa sentada na areia. Conforme foi se aproximando a imagem foi ficando mais nítida, até ficar claro que era Mônica, tão perdida em pensamentos que nem notou a presença do garoto.
— Ei. – chamou, fazendo-a levar um pequeno susto. Ele sorriu ao vê-la abrir um pequeno sorriso e apontou o lugar ao lado dela, como quem pergunta que se sentar. Quando ela fez que sim com a cabeça se aproximou, o mar logo vindo lhe molhar os pés assim como fazia com os dela.
— Oi. – Mônica cumprimentou, encarando-o por longos segundos, como se não acreditasse que ele estava realmente ali. – Não sabia que agora você acordava cedo.
— Não acordo. Hoje foi uma exceção. – deu de ombros. – Por que você veio parar tão longe da casa?
— Ah... Não sei. – ela confessou – Fui andando e quando vi estava aqui. E você?
— Ah... Não sei. Fui andando e quando vi estava aqui. – repetiu, se esforçando para fazer a mesma expressão dela.
— Besta! – riu baixinho, batendo o próprio ombro no dele sem força. – Então, como está a sua vida?
— Tudo na paz. Tô passando as férias numa praia maneira, mas a galera que tá lá é bem chata, sabe? – brincou, fingindo desprezo.
— Entendo... Nossa, tá acontecendo a mesma coisa comigo. Tem um garoto muito chato lá. Um tal de Cenoura, Aipo, Alface... Não sei bem o nome dele. – arqueou as sobrancelhas.
— Sério? Na minha turma tem uma tal de Monique que é um desastre. Foi surfar e tomou uns tombos bizarros... – provocou, fazendo-a fazer cara feia.
— Ouvi dizer que ela surfa muito bem, ok? – girou os olhos exageradamente, mas sorriu.
— Fiquei sabendo que você decidiu ser paramédica. Parabéns, Mô. É uma carreira que tem tudo a ver com você. – ele mudou de assunto, subitamente ficando um pouco mais sério.
— Você acha? – ele confirmou com a cabeça e Mônica sorriu animadamente. – Também acho engenharia de software a sua cara.
— Eu achei que você não sabia o que eu tinha escolhido! – comentou, arregalando um pouco os olhos. Ele não tinha contado para muitas pessoas sobre sua decisão e saber que ela ainda se preocupava fez um calorzinho surgir em seu peito.
— Fala sério Cebola. – ela rebateu, descrente. – Como se a gente não soubesse tudo o que acontece na vida um do outro.
— Sei lá, eu pensei que... – se interrompeu, pois não queria estragar aquele raro momento de trégua. – Deixa pra lá.
— Por que a gente deixou a turma se distanciar tanto, hein? – perguntou, mais para o ar do que para ele. Os dois sabiam que essa pergunta tinha dezenas de respostas, todas verdadeiras a seu modo. – Sinto medo de a gente nunca mais ser como antes.
Os dois encararam o mar, pensativos. Realmente, no vão de tudo o que acontecera, não havia mais espaço para serem como antes. Nem eles dois, nem a turma. O garoto deixou sua visão correr até ela, aquela garota que era tão parte de sua vida que ele não sabia dizer o que seria dele se nunca tivessem se conhecido. Ela o olhou de volta, por um instante os olhos castanhos grudados no mel do olhar dele, muitas coisas passando em ambas as mentes.
Saudades, alívio por estarem ali juntos, uma familiaridade construída dentro de tantos anos, muitos planos futuros que se juntavam e até se confundiam.
— Talvez a gente possa ser melhor do que era. – ele pontuou, sem conseguir parar de fita-la. – Ainda dá tempo de consertar os nossos erros.
Mônica mordeu o lábio inferior. Por mais que quisesse ignorar o resto do mundo e se deixar queimar em tudo o que ainda sentia por ele, sabia que não era tão simples assim. Haviam coisas a resolver primeiro, confusões sentimentais das quais não conseguira se livrar. Então ela olhou para o mar novamente, porque era a alternativa mais segura.
E então lembrou-se do que a fizera perder o sono em primeiro lugar. Cascão e Magali.
— Cebola... – começou, um tanto sem graça. – Eu preciso ir. – completou, agora certa do que precisava fazer para ajudar o amigo.
Levantou-se rapidamente e saiu correndo, prometendo a si mesma que não deixaria seus outros dois melhores amigos se meterem num rolo tão complicado quanto o dela.
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