Dois Lados

37 Capítulo 36


Notas iniciais
Desculpa a demora, mas tá aí mais um capítulo :3

P.O.V – Emma

Eu andei por algumas horas, estava exausta, mas não podia desistir, meus amigos estavam desaparecidos. E então ouvi um barulho atrás de mim. Passos.

Nunca eu iria perguntar quem estava lá, não seria tão estúpida. Desliguei a lanterna, e conti a respiração. Esperei pra que seja lá o que estava vindo, chegasse, mas os passos pareciam não sair do lugar.

Então, resolvi andar para onde estávamos, talvez quem estivesse pego eles, teria voltado para me pegar.

Devagar, conjurei uma espada fina, uma que meu pai havia me dado quando era pequena, ela era feita de metal branco, com um cabo prateado, incrustado com as três pedras da magia: quartz, ametista e garnet.

A espada iluminava um pouco, mas as únicas coisas que conseguia ver eram as paredes molhadas pela umidade, e o chão lodoso. Nenhum sinal de ninguém.

– Usando o truque da espada, maninha? – eu ouvi uma voz vindo. Scott.

– O que você está fazendo aqui, seu idiota? O que fez com eles? – falei com toda a minha raiva.

– Nossa, eu poupo a vida dos seus amiguinhos otários, e eu sou recebido assim? O que é isso? – ele deu um sorriso sarcástico. – Quanto tempo faz desde o nosso ultimo encontro? Um mês? Dois? – ele sorriu. – Como foi o funeral? – ele gargalhou.

– Seu estúpido! O que faz você querer ser assim? Qual o seu prazer em ver os outros sofrerem? Em matar outras pessoas?! – disse.

– Bem, maninha... Minha natureza! – ele fez um gesto no ar.

– Não tem nada a ver com natureza! Nossa natureza é fazer feitiços para sobreviver e não tirar a vida de mortais.

– Feitiços para sobreviver? Ah, convenhamos! Eu consigo passar por cima desses mortais insignificantes com um dedo! Nem é preciso magia pra isso! – disse ele andando de um lado para o outro.

– Então, por que se importa tanto com a Pedra? Por que quer tanto que os feiticeiros ganhem, se não faz diferença?

– Emma, você sempre jogou vídeo games comigo, quando éramos pequenos. – falou ele fixando-se em mim. – Às vezes, quando passamos de fase, eles nos mostram armas novas e mais potentes, não é? Mas nem sempre precisamos delas, às vezes, conseguimos sobreviver aos ataques com nossas armas antigas, mas sempre queremos as maiores e as melhores, certo? – ele abriu os braços. – Isso é o mundo!

– Seu idiota! – revirei os olhos – Isso não é um jogo! Isso é de verdade! Você sabe mais que eu sobre o que os feiticeiros fazem com os mortais, e você concorda com isso! Essa é a coisa mais ridícula!

– Quem disse que eu concordo? Você sempre atacando com suas palavras, não é, Emma? – ele sorriu.

– O que?!

– Emma, é questão de princípios! – ele piscou pra mim. – E, bem, você não deixou eu explicar o que estou fazendo aqui.

– Vá em frente!

– Nosso aniversário está chegando... 19 anos... E você sabe que se você não voltar pra casa, você não vai conseguir os treinamentos certos pra virar uma feiticeira completa...

– Isso não tem nada a ver, eu posso treinar sozinha. Agora me diga onde botou meus amigos! – coloquei a espada em seu pescoço.

– Ah, qual é! Eu não fiz nada!

– Eu não acredito em você. – falei fazendo mais pressão com a espada.

– E por que você acha que eu faria isso? – perguntou ele.

– Bem, você é um feiticeiro! E você está atrás da Victoria que é a última descendente... – não mencionei Charlotte, ninguém poderia saber dela.

– E daí? Você também é! – ele afastou a espada com um dedo. – Emma, estou falando sério, não peguei seus amigos. E nem aquela ruivinha sem sal.

– O que? Como sabe sobre ela? – perguntei desconfiada.

– Emma, eu estava no ataque àquele lugarzinho que ela estava. Vi ela fugir pra cá, então deduzi que ela tivesse encontrado vocês. – respondeu ele calmo. Por incrível que pareça, sem um pingo de sarcasmo.

– E porque você não veio atrás dela? Por que não avisou aos nossos pais?

– Como eu disse... Princípios. – ele piscou novamente. – Bem, vim lhe chamar de volta pra casa. Decida e faça contato.

Eu não acreditei naquilo. Scott sempre fora arrogante e sempre concordou com as decisões dos meus pais, inclusive naquelas que me puniam e que me expulsaram de casa. Mas ele finalmente fez alguma coisa que não prejudicou ninguém. E ele se importou comigo, o que ele não faz há anos. Senti falta disso. Mas não podia ceder. Ele com certeza tinha alguma coisa que não queria me contar.

Respirei fundo e continuei a andar. Scott não podia contar aos meus pais sobre a Charlotte e a Victoria, se não tudo estava perdido. Se é que elas já foram pegas por feiticeiros.

Logo, achei a porta. Era uma pequena porta de pedra, com desenhos rústicos. Botei a chave na fechadura e a girei.

P.O.V – Victoria

– Charlotte? – sussurrei. – Charlotte!

– Hã...? – ela acordou devagar. O suor escorria pela sua testa, assim como o sangue. – Victoria? O que é isso? O que aconteceu? Onde estamos? – falou ela se desesperando.

– Calma. E-eu não sei onde estamos, eu não faço ideia de quem nos botou aqui... – eu olhei ao redor tentando fazer com que meus olhos se acostumassem à sala.

Minha cabeça ainda rodava por causa do sonho. Parecia que tudo fora real, tudo teria acontecido. Mas não foi apenas um sonho, ou um pesadelo.

De repente, ouvimos um barulho vindo de fora da sala.

– Temos que levá-las, não podemos deixar elas aqui! – era a voz de um homem.

– O que? A estrada está insegura! Os outros já rastrearam elas, não tem jeito. Devolva elas duas, e eles nos deixarão viver. – agora uma mulher falava.

– Você é mesmo sangue frio, não é? Temos que tentar, se levarmos elas para a Torre hoje à noite, elas ficarão seguras. É melhor prepararmos as armas.

– Ah, quer saber? Tanto faz. – ela falou.

Depois os dois se afastaram da porta.

– Quem era? – perguntou Charlotte, baixinho.

– Eu não sei, provavelmente nossos sequestradores.

– Ela quer nos matar. – disse ela, olhando para mim assustada.

– Aparentemente ele não vai deixar... Temos que sair daqui, achar os outros.

– Você acha que eles pegaram os outros também?

– Eu não sei. Por um lado eu espero que sim, por outro, não. – falei apreensiva. Não fazia ideia de onde Walt, Emma e Michael estavam, eles poderiam estar mortos, ou presos, ou perdidos. E Josh. Eu tinha que salvá-lo.

Tentei mais algumas vezes me desprender das cordas que me amarravam à cadeira, mas estava totalmente imobilizada. Então, tentei outra coisa. Me joguei para trás na esperança de que a cadeira se quebrasse e... Bingo!

Machuquei um pouco as costas e ganhei lascas de madeira no meu braço, mas não importava, precisava sair dali.

Me desprendi de todos os nós e me levantei rapidamente, para soltar Charlotte.

– E agora? Para onde vamos? – perguntou Charlotte em voz baixa, tão apavorada quanto eu.

– Fugir. – respondi rapidamente.

Já estava amanhecendo. Descobri isso porque a sala que antes fora escura e sombria, exceto pela lâmpada central, estava começando a mostrar seus detalhes. Havia uma minúscula janela na parede atrás da cadeira onde Charlotte estava, e a pouca luz do Sol entrava.

Charlotte não pensou duas vezes, pegou a cadeira, a colocou abaixo da janela e subiu para tentar ver onde estávamos.

– E aí? – perguntei ansiosa.

– Hm... Estamos basicamente no meio do nada. – respondeu ela entristecida.

– O que? Mas estávamos em uns túneis esquisitos e de repente estamos no meio do nada?

– Uh, acho melhor você olhar, já que fiquei mais de 20 anos em uma “Cidade Paralela”. Não saberia dizer como o mundo está hoje. – disse ela descendo da cadeira e fazendo um gesto indicando para a janela.

Subi, e sem hesitação, olhei para a paisagem. Era realmente o meio do nada. Mais parecia com um dos descampados que estivemos antes, perto da pensão de Tessa.

– Não faço ideia... – falei. – Mas não importa.

Tirei meu casaco, enrolei uma de suas mangas na mão direita e soquei o vidro velho e empoeirado da pequena janela.

– Você quer que a gente passe por ai? – sussurrou Charlotte.

– Que barulho foi esse?! – gritou o homem, que antes falava perto de nós. – Veio do quarto...

– Você passou a noite inteira com essa paranoia... Relaxa um pouco, por favor? – disse a mulher com um tom de cansada.

– Vamos temos que ir logo, eles já estão desconfiados. – falei mais baixo ainda.

Charlotte subiu na cadeira e deu impulso para fora, fazendo-a sair pelo outro lado da janela. Em seguida, eu sai.

Mesmo sendo pouca a intensidade da luz do Sol naquele momento, eu ainda me incomodava com a luz, havia alguns dias desde que não via o sol.

Eu e Charlotte seguimos abaixadas ao redor da casa, para procurar alguma estrada, ou algo que pudesse nos tirar mais rápido dali. Ao redor da casa, não havia nada, nem um posto, hotel, outras casas, absolutamente nada. Estávamos perdidas.

Então resolvemos ir pela parte de trás da casa, onde havia apenas uma porta estreita que dava para a cozinha da casa, mas sem nenhuma janela. Assim ficaria, no mínimo, mais difícil de sermos vistas.

Assim que nos preparamos para correr, ouvimos um barulho vindo da porta de trás da casa. Não tínhamos para onde ir. Apenas paramos e esperamos.

– Espera aí... Eu pensei que... – era a mulher.

Viramos lentamente para ela.

Ela era bonita, alta e imponente. Sua pele era morena, seus olhos eram de um tom âmbar brilhante, e seus cabelos tinham cachos chocolate bem definidos, e estavam presos em um rabo de cavalo alto.

A mulher vestia uma camiseta preta, calça jeans e botas até o tornozelo, e trazia consigo uma adaga embainhada na cintura.

Ao vê-la engoli seco. Sentia que coisas piores viriam, ela iria nos arrastar para aquele calabouço de novo, mas dois é melhor que um...

A mulher desceu os pequenos degraus de madeira rachada e pôs-se em uma posição tranquila no gramado queimado dali.

– Está tudo bem. Tenho um carro ali, poderia emprestar a vocês, mas assim, ficaria sem meio de transporte. Mas vão, antes que o Kendrick veja vocês. – ela falou abaixando o tom de voz.

– O que?! – falei pasma.

Ela franziu o cenho com uma expressão de interrogação.

– Você nos sequestrou e agora está deixando a gente ir? – falou Charlotte com uma voz rouca de nervosismo.

– Olha, eu nunca concordei com isto, por mim... Tanto faz. – ela tirou a adaga da cintura e ficou a observando. – Vocês vão morrer de qualquer forma, e se eu estiver por perto, irei morrer também, então, quanto mais distante, melhor. – ela deu uma piscadela.

– Uh... Eu tenho dúvidas se você está sendo boa ou não... – falou Charlotte.

– Não questione muitas coisas, ruivinha, aprenda isso desde agora. Quanto menos você souber, melhor. – ela olhou para mim, como se soubesse toda a minha história.

Eu pigarreei.

– Hm, obrigada... Agora, vamos indo. – toquei Charlotte para ela me seguir. Mas ela continuava com os olhos fixos na mulher.

– Qu-qual o seu nome? – perguntou Charlotte.

– Megan.