Dois Lados

38 Capítulo 37


– Agora vão. – falou Megan, ríspida.

Sem pensar duas vezes começamos a correr. Corremos por um quilômetro, mais ou menos, para termos certeza de que o tal, Kendrick não iria vir atrás de nós.

Ainda pensava no que Megan havia me dito. “Vocês vão morrer de qualquer jeito.” Será que esse era mesmo nosso destino?

Quando paramos, embaixo de uma árvore solitária no meio do descampado, desejamos que Emma estivesse conosco para conjurar uma água ou comida para nós. Mas tínhamos que nos manter assim mesmo.

Descansamos por uns vinte minutos. E então resolvi quebrar o silêncio.

– Está tudo bem, Charlotte?

– Bem, desconsiderando nossa situação... Sim. – falou ela séria.

– Você ficou estranha... Digo, sei que tem coisas totalmente sem sentido acontecendo com você, mas... Bem, só queria saber mesmo. – Não sabia realmente o que falar.

– É só que... eu sinto falta da minha vida. Não da minha antiga vida, com minha avó, a pensão... Quer dizer, claro que eu sinto falta, mas não tanto como na Cidade, onde eu vivia com o Sr. Kepner. Tudo era diferente, tudo me fazia esquecer de que a qualquer momento aqueles monstros poderiam voltar para me pegar. É só isso. Estou cansada. – falou ela sem olhar nenhuma vez para mim.

– Eu também sinto falta da minha vida. Da minha mãe, da minha irmã. Quando meus problemas eram só escola. – parei por um momento e respirei fundo ao lembrar do estado da minha mãe, e da ligação da minha tia, pedindo que eu voltasse para Garwood.

– E seu pai? – perguntou ela. Naquele momento senti uma facada em meu peito. Meu pai. Há quanto tempo fiquei sem pensar nele, senti uma ponta de culpa por isso.

– Ele morreu. Há um ano e três meses.

– Ah, sinto muito. – falou ela.

Nós paramos em silêncio. Aquela conversa nos levou a devaneios e lembranças que com certeza não nos fazia bem. Principalmente agora.

– Charlie, vamos andando, não podemos ficar aqui. – decidi, me levantando.

– “Charlie”? – ela riu.

– É... Seu nome é grande demais. – ri de volta.

A ajudei a levantar e seguimos caminhando. Sem rumo e sem direção. Apenas na esperança de encontrar alguém.

P.O.V — Emma

Fechei os olhos esperando alguma coisa me puxar, ou seja lá o que aquilo fosse fazer, mas a porta simplesmente se abriu. Eu a puxei e entrei, ela levava a um túnel do tamanho da porta, tive que me abaixar para passar por ele. No final uma luz incandescente brilhava.

Quando cheguei ao final finalmente pude ver a Cidade. O céu era de um cinza escuro, as nuvens carregadas passeavam pelo céu, trazendo um ar sombrio. Graças ao nublado, as cores da Cidade ficavam meio acinzentadas, sem vida. As árvores não tinham tantas folhas, galhos secos pendiam das copas. Parecia um quadro macabro.

Havia ruas e casas, exatamente como no mapa de Michael. Lembrei-me de algumas delas e segui. A Cidade Subterrânea estava mais para Cidade Morta. Ninguém andava por ali, as ruas estavam incrivelmente vazias. Era totalmente diferente do que vimos antes.

Eu tinha que achar a Cripta, com certeza os feiticeiros já estavam perto. Lembrei-me da Varinha que eu e Walt pegamos daquela guardiã-zumbi, provavelmente iríamos usá-la em breve. Mas primeiro tinha que achar meus amigos.

Andei por algumas ruas, por horas, procurando alguma pista ou, ao menos, alguém que pudesse tê-los visto. Mas nada.

As casas eram comuns, como uma Cidade pequena e aconchegante, exceto pelos fatos arrepiantes. Era como Garwood.

Depois de muito tempo, avistei um descampado cortado pela estrada principal. A Cidade havia acabado. Andei por outras direções e encontrei uma colina, pra falar a verdade, a Cidade ficava em uma colina alta e separada por árvores assustadoras, de algo que poderia estar embaixo. O que a tornava mais estranha ainda, por ser uma Cidade “Subterrânea”.

O dia estava chegando ao fim, não sabia mais o que fazer. Parei em uma esquina onde tinha uma lanchonete, parecida com a que fomos antes de Atlanta. Lembrei de Kate.

– Olá, minha jovem! – uma voz veio de dentro da lanchonete.

Resolvi entrar na loja, onde alguém, finalmente, havia me visto.

– Hm, oi. – falei sem jeito.

O homem tinha uns 50 e poucos anos, cabelos quase todos brancos, barba grisalha e usava um avental sujo na frente da roupa.

– O que deseja? Parece abatida... Com fome. – sorriu ele. – Vamos, sente-se, irei lhe servir algo para comer! – falou ele ainda sorrindo.

– Uh, não precisa, eu estou atrás dos meus amigos. Você viu alguém passar por aqui? Um garoto loiro, alto; duas garotas mais ou menos da minha idade; e um homem com idade pra ser meu pai, com uma aparência meio de... louco. Por acaso você os viu? – falei ansiosa.

Ele balançou a cabeça em negação.

– Me desculpe, mas não vi ninguém assim por aqui. – falou ele colocando uma toalha de prato no ombro. Ele franziu a testa, como se forçasse a memória. – Pra falar a verdade... Não, não...

– Diga! Qualquer coisa! Eu preciso achá-los! – falei desesperada.

– Escute, os únicos clientes que vieram aqui, foram os irmãos MacRae. Eles sempre vem aqui. Fora isso... Ninguém. – explicou o homem.

– Irmãos MacRae? Quem são esses? Por acaso eles não tinham ninguém com eles? – perguntei.

– Isso eu não sei. Eles estacionaram o carro no beco, e vieram andando para cá. – disse.

– Mas quem são eles? Para onde eles foram?

– Megan e Kendrick. São seus nomes. Eles provavelmente foram para casa, depois do descampado, mas disso não tenho certeza... – respondeu.

Eles poderiam ter pego meus amigos, eu tinha que ir lá.

– Muito obrigada, senhor...

– Phillip! – ele sorriu.

– Obrigada, senhor Phillip. Estou indo agora! – falei.

– Por nada, querida! Você não quer nada para comer?

Eu realmente queria, estava faminta, mas não tive tempo. Então, neguei.

Corri para o descampado, andei por horas. Já estava de noite, a estrada mais escura que o túnel que estava antes de vir pra cá. Conjurei uma lanterna grande, e me sustentei até avistar uma casa há alguns metros dali.

Andei mais um pouco, e quando estava próxima a casa, desliguei a lanterna, para que não me vissem.

As luzes do térreo da casa estavam acesas. A casa parecia abandonada, a pintura descascava, havia fissuras na madeira dos pequenos degraus da entrada da frente e em algumas paredes.

Ao chegar mais perto, escutei gritos. Um homem e uma mulher. Kendrick e Megan.

– Ah, claro que foi culpa sua! Você estava na vigia! – falou Kendrick.

– Eu vigio a porta e não a janela, seu idiota! Você não percebe que nos livramos da morte! Aquelas duas vão morrer logo, se é que já não morreram! – retrucou Megan, com raiva.

– Perdemos a chance de ganhar o Poder, você sabe o que podemos ser com aquilo, Megan!

– Sei. Podemos nos libertar da maldição, mas e daí? Haverão outras oportunidades. Eu não me importo.

– Fácil pra você falar, que ficou com os melhores da família. – disse Kendrick com um tom de desprezo.

Na hora eu estremeci. “Aquelas duas”. Charlotte e Victoria. Elas estiveram aqui, mas fugiram. Não podiam estar muito longe. Então voltei à estrada.

P.O.V – Victoria

Depois de andarmos por quilômetros, parando umas duas ou três vezes. Chegamos à estrada. Tínhamos dado a volta para ganhar tempo, e agora, estávamos na estrada, correndo o risco de novo de sermos encontradas, mas tínhamos que seguir para encontrar os outros.

Ao longe, avistamos uma sombra correndo. E então uma luz de uma lanterna nos cegou.

– Victoria! Charlotte! – era Emma.

Nunca fiquei tão feliz ao encontrar Emma. Me senti tão melhor ao vê-la. Nos abraçamos forte, depois fomos andando para a Cidade, que Emma havia nos contado.

– Tem uma lanchonete bem legal por lá. Está bem no final da Cidade, vamos chegar logo. – falou Emma.

– Você não poderia fazer um daqueles sanduíches esquisitos não? – sorriu Charlotte.

– Engraçadinha. – Emma riu. – A energia da Cidade e o meu cansaço está consumindo demais meus poderes. Eu poderia até fazê-los, mas ficariam piores que os anteriores.

– Uh, vamos comer na lanchonete mesmo. – nós rimos.

P.O.V – Walt

Me preparei para mais um soco. Mas não veio.

– Michael, por favor... – tentei falar, mas já estava fraco demais. – Sei que você está aí dentro, sei que pode me ouvir. Livre-se desse espírito.

– Não adianta tentar, seu idiota, Michael está morto. – disse ele com uma voz modificada e um sotaque russo de doer os ouvidos. — Quem está aqui é Yerik. Já lhe disse. Ele está morto! – gritou o homem.

– Não está. Ele... – tentei falar, mas Yerik desferiu outro golpe em meu estômago me fazendo vomitar sangue. Não tinha mais forças para continuar de pé, as únicas coisas que me seguravam, eram as cordas que me prendiam pelos braços. – Pare...

Yerik andou até a mesa de madeira que estava coberta com um pano empoeirado.

– Já tentei de tudo com você, mudak, agora vamos tentar outras coisas. – ele sorriu maliciosamente. – Irei perguntar mais uma vez. Onde estão as Descendentes?

– Eu não sei. Juro. Deixe-me contar a história. – falei, reunindo forças para tentar persuadi-lo.

Yerik parou por alguns segundos e sentou-se na cadeira a minha frente.

– Tudo bem, há um tempo que não escuto histórias. Ah, dê ênfase e drama àquela parte da morte da Katherine. – ele deu um sorriso doentio.

– Seu estúpido... – sussurrei.

– O que disse? – perguntou ele fazendo biquinho.

– Nada. – o olhei com raiva.

– O bebê-grandão está com raiva de novo? Será que vou quer que castigá-lo, antes de ouvir a historinha? – falou ele sarcástico.

Ignorei as bobagens que o cara falava, respirei fundo e contei tudo desde o começo.

– E então, estávamos dormindo ano túnel quando você chegou magicamente e levou a mim e ao Michael. E fim.

Yerik bateu palmas exageradamente altas e se levantou da cadeira como se estivesse vendo a melhor apresentação da vida dele.

– Bravo, mudak! Bravo! Você contou uma ótima história, mas... esqueceu de me dizer onde aquelas duas estão! – gritou ele.

– Quando você chegou, se não percebeu, estávamos desmaiados, o que significa que não vimos o que aconteceu! – gritei de volta.

– Garoto insolente. – falou ele desprezando.

No momento, o telefone de Michael tocou. Ele pegou o celular no bolso e o atendeu.

– Ei, isso não é seu! – reclamei.

– Da, da, tudo bem... – ele parou uns segundos e depois começou a falar coisas em russo, que provavelmente eram xingamentos. – Do svidaniya. — despediu-se.

Ele desligou o telefone e o jogou na mesa, que ainda estava coberta.

– Temos que ir agora, mudak, irei finalmente sair desse corpo nojento e sem forma! – ele deu uma gargalhada e olhou para o corpo de Michael com repulsa.