Dois Lados

36 Capítulo 35


Eu levantei primeiro, e voltei para meu lugar onde dormia toda noite. Emma respirou fundo, demorou alguns segundos e seguiu atrás de mim. Fiz um sinal com a cabeça.

– Eu não vou falar agora, Vic! – sussurrou ela, tentando passar distante.

– Falar o que? – interrompeu Walt olhando pra ela.

Emma pigarreou, nervosa.

– Nada! Não é da sua conta! Agora vá vigiar! – falou ela jogando uma faca de uns 40cm, pra ele. Walt a pegou meio sem jeito, e a olhou estranho.

– O que eu fiz dessa vez? – perguntou ele olhando pra mim. Eu dei de ombros e me sentei. Walt andou com Michael e sentaram-se pra vigiar.

– Emma, o que eu disse sobre foras? – falei preparando o cobertor.

– Ahr, é que... Eu não estou pronta, tá? Amanhã, eu falo com ele! – ela deitou-se rapidamente do meu lado e adormeceu.

Eu demorei pra dormir, virei do outro lado e Charlotte dormia angelicalmente, nem parecia a garota assustada e agitada de algumas horas atrás.

Comecei a pensar em Josh, se alguém havia o encontrado, se ele havia saído daquele mesmo lugar, se ele encontrara uma saída e agora estava procurando por nós, se ele ainda tinha comida e água suficiente para sobreviver. Tantos pensamentos rápidos e angustiantes. Minha mãe, minha irmã. Mary.

Lembrei do que Mary havia me dito. Eu deveria ter saído com eles. Eu nem ao menos os contei sobre toda a história.

Pouco tempo depois adormeci.

Eu estava naquele lugar de novo. A cidade antiga. Agora tinha mais gente. Mas ninguém parecia me perceber. Tudo era tão translucido e embaçado, não conseguia ver rostos nítidos, mas as pessoas pareciam sérias, amargas, andavam de um lado para o outro carregando armas antigas, como arco e flecha, facas, lanças e coisas assim, uns ou outros levavam armas de fogo.

Eu estava na mesma rua, em frente à mesma casa. Haviam duas garotas na janela, mais ou menos da minha idade.

Corri para mais perto e me escondi em uma escadaria da casa vizinha. Uma garota era a que eu tinha visto antes, e a outra, eu não conseguia ver, o rosto dela parecia menos nítido. Ela era loira, o cabelo era preso em um rabo de cavalo, como a que estava do seu lado. Vestiam-se do mesmo jeito, e pareciam estar discutindo.

Estava perdida, porém curiosa. Queria bater na porta, queria saber quem eram, queria saber do que estavam falando. Mas me conti.

Sai das escadas e andei pela rua procurando por alguém ou algo.

De repente, alguém que corria pela rua, um garoto de uns 12 anos, me parou. Quando ele tocou no meu braço eu me dissipei, era como se eu virasse um deles, como se eu me tornasse parte daquilo.

– O que pensa que está fazendo andando desarmada por aqui? – ele falou me puxando para baixo, mais próximo dele. – Sorte sua que fui eu quem te encontrei, garota! Deve ser nova... Meu nome é Charlie. Tome. – ele me entregou uma faca que estava embainhada em sua cintura. Ele se vestia como um dos garotos do Brooklyn, da década de 40. Ele era negro e tinha grandes olhos dourados, que se moviam rapidamente pelo local.

Charlie tirou o chapéu que usava e me entregou.

– Escuta, se você usar roupas antigas, eles te deixam em paz, é só andar como pessoas da minha época, e agir também. É melhor se equipar mais. – ele falou sorrindo. — Vamos, minha mãe está me esperando, vamos comer!

– Não, espere... Hm, onde eu estou? – eu tinha tantas perguntas, que não sabia como começar, sabia que rapidamente seria tirada daquele sonho, por algum motivo estranho ou assustador, e logo estaria naquela caverna novamente.

– No Outro Lado. Bem, você morreu. É complicado de explicar, e tudo mais, mas você se acostuma, no início você não se lembra de nada, mas, daqui a pouco você vai se lembrar de como morreu, e isso é crucial por aqui! Vamos! Antes que a Hora Dragmoon chegue! – ele me puxou para um dos sobrados dali.

– Espere, não... Você não entende! Eu não morri, eu estou aqui... Digo, não estou aqui, na verdade é um sonho, eu dormi e vim parar aqui... E do que você está falando? Me equipar? Hora Dragmoon? – dei uma risada irônica.

Dragmoon era o lugar onde Anis e Zyah esconderam a Pedra do Poder, no meio de uma floresta em Atlanta. Era ridículo ser o nome de alguma coisa por aqui.

– Sim e... Sim! Não posso explicar agora, vamos entrar que depois eu te explico!

Eu cedi, e entrei com o garoto em um dos sobrados. Ele deu duas batidas fortes e uma mais fraca, na porta. Pouco tempo depois um mulher de feições parecidas com o garoto apareceu na porta. Ela usava uma roupa dos anos 40 também, vestido comprido, cabelo bem preso, e segurava uma faca de cozinha na mão.

Quando ela me viu, ela me analisou em silêncio, e virou-se para Charlie.

– Char, quem é esta? – ela voltou o olhar para mim, novamente.

– Eu... Eu me chamo Victoria. – falei.

A mulher arregalou os olhos, mas depois voltou ao normal.

– Seu nome é... incomum por aqui. – ela falou mais séria.

– Ah, mãe, se fosse ela, ela não estaria aqui com certeza! – o garoto riu. – Vamos ajuda-la hoje!

– Garoto, não é porque seu pai foi do Conselho que nós vamos abusar né? Já é a terceira só esse mês, desse jeito nosso estoque acaba! – ela falou, o observando correr para dentro de casa. — Ah, me desculpe se ele foi importuno com você... – ela olhou para trás, vendo que ele já estava distante. – Ele quer seguir os passos do pai... Ele é um bom garoto. Então, bem, vamos ajuda-la.

– Uh, senhora, me desculpe mas, é um engano... Um total engano! Digo, eu não morri, estou aqui de “visita” e... Não estou entendendo nada do que está acontecendo. É tudo um sonho, e provavelmente eu vou acordar em alguns minutos, e... – tentei não ficar nervosa. Aquilo estava demorando demais, onde estava o momento em que subitamente eu era arrancada daquele lugar?

Ela lançou um olhar solidário e sorriu.

– Ah, querida. O que é um engano, são essas suas memórias. É normal as pessoas morrerem dormindo, digo pra alguém jovem como você, não, mas bem, logo você irá se lembrar de como aconteceu, acredite. Todo mundo passa por isso no começo. Venha vou lhe servir uma sopa e irei lhe explicar. – ela se dirigiu pra mesa.

– Não! – gritei. – Não vou comer sopa nenhuma, eu nem estou com fome, o que é este lugar? Você acha que estou louca? Eu tenho minhas memórias bem aqui, — apontei pra minha cabeça. – eu não esqueci de nada! Eu não estou morta! – gritei mais alto.

– Querida...

– Não, não, eu me recuso a isso tudo. – percebi que ainda estava com a faca na mão, então a joguei no sofá empoeirado que havia ali. – Não vou usar armas ou me vestir como vocês, isso aqui é uma mentira! Não é real! Eu não faço ideia do que é isso! – subitamente como uma onda de realidade eu parei, e me dei conta de que não acordara até agora, parecia mais real do que das outras vezes. Minha visão de acostumara àquilo. Agora eu os via nitidamente, como se realmente estivesse lá.

Joguei meu corpo num cadeira próxima, e chorei.

Senti tudo, as lágrimas, a cadeira, o chão, o ar, e a mão dela.

– Victoria. – ela pôs a mão no meu ombro devagar. – Eu... Sinto muito. Eu sei o quanto é difícil, se despedir sem mais nem menos da sua família, dos seus amigos. Sem ao menos lembrar de como aconteceu, mas é a verdade. – ela se ajoelhou do meu lado e enxugou minhas lágrimas. O rosto de uns 30 e poucos anos parecia tão solidário, que me dera vontade de abraçá-la, mas me conti, e levantei a cabeça.

– Eu tinha que... – eu pus a mão na cabeça tentando organizar todos os pensamentos que corriam tão rápido que não me dava conta.

– Meu nome é Lacey Richardson, você pode ficar aqui uns dias, pode comer, se agasalhar, temos muitas armas. Mas preciso de duas coisas de você. Um: não conte a ninguém que nós lhe ajudamos, se alguém perguntar, você mora comigo, pois é minha prima. Dois: arranje uma casa logo. É suspeito ficar rondando por aí. – ela falou com um peso na voz como se algo horrível pudesse acontecer.

E a cada vez meu medo aumentava mais.

P.O.V – Emma

Eu acordei como se estivesse de ressaca, como se algo houvesse me atingido em cheio, e acabasse de acordar de um longo sono.

Pus a mão na cabeça, e percebi que eu realmente havia sido atingida. Minha cabeça sangrava, ou pelo menos havia sangrado, pois o sangue estava quase seco.

Me sentei. Ninguém estava lá. Victoria. Walt. Michael. Charlotte. Ninguém.

As coisas estavam espalhadas pelo chão, sanduíches, garrafas, cobertores, pedaços de madeira. E uma chave.

Eu estava mais que assustada, meus limites de controle haviam acabado, desde que eu saí de Atlanta, e agora essa. Todo mundo sumido, e eu sem a mínima ideia de o que poderia ter acontecido. Eu sou uma bruxa, o mínimo que poderia ter feito era ter defendido eles, mas não fui fraca e desmaiei. E nem ao menos, me lembro do que houve.

Respirei fundo. Curei meu ferimento, e recolhi as coisas. Tudo pesava mais, como se estivesse carregando todos aqueles objetos nas costas, mas apenas as mandei pra um universo paralelo, mais uma vez. Não queria deixar nada ali, caso alguém passasse por ali.

Senti uma vibração estranha, meu Sentido havia sido conectado, mas não consegui encontrar ninguém.

Juntei minhas forças para não desabar. Não gritei para não dar sinal. Então conjurei uma lanterna grande e segui pelo corredor.

Havia guardado a chave no meu bolso, sabia que a saída estava perto, mas precisava do sangue de uma Descendente pra abrir, mas tinha que dar um jeito. Era o único lugar pra onde poderiam ter ido... Ou sido levados.

P.O.V – Victoria

– Obrigada. – falei mais calma. Eu havia comido toda a sopa que Lacey havia me dado, estava melhor, mas ainda sim, minha cabeça não parava um segundo, queria saber como havia parado ali. Não parava de pensar em Emma, Walt, Michael, Charlotte, minha mãe. Josh.

– Por nada, querida. Tem um quarto no fim do corredor, é pequeno, mas arrumadinho, e logo em frente tem um banheiro que você pode tomar banho. – ela pegou em uma estante ali perto uma toalha de banho.

Charlie deu boa noite a todos e foi dormir.

– Eu não entendo... – balancei a cabeça olhando todo o lugar. – Por que vocês... Nós, precisamos disso tudo pra viver se estamos... Mortos? – ainda era difícil falar tudo aquilo, mas tinha que entender o propósito.

– Existem feiticeiros de verdade, Victoria, eles controlam o lado dos mortos, onde nós estamos. Eles não nos permitem a paz. Todos nós quando morremos, somos levados pra cá. É como um purgatório eterno. – ela abaixou a cabeça com tristeza. – Há coisas muito diferente do mundo real. Não costumamos dizer que estamos mortos, aqui, é apenas um novo mundo. O Outro Lado. Ainda morremos mais depois daqui.

– O que quer dizer?

– Quero dizer que quando somos tirados do mundo real, digo de onde você acabou de vir, somos mandados pra cá, e aqui temos que sobreviver, para não sermos mandados pro Inferno.

– Não estou entendo... Então aqui é como um teste, onde todos passam, e se formos “mortos”, iremos pra o Inferno? – perguntei.

– Sim.

– E o Céu? A paz? Tudo o que dizem ter, como conseguimos isso? Digo, uma criança, ainda mais como o Charlie deveria ter passado direto, não acha?

– Ah, queria, há muitos mundos por ai a fora. Você não tem ideia! Nunca estamos totalmente livres. – ela pegou minha mão. – A menos... que matemos eles. – ela sussurrou.

– O que? Quem?

Ela não falou. Apenas se levantou da cadeira, pegou um guardanapo e uma caneta, e escreveu no papel. “Os feiticeiros”.

– Co... Como vocês sabem sobre eles? – perguntei assustada.

– Você fala como se já soubesse! – ela riu.

– Mas eu sei...

Ela parou, ficou séria, e me olhou.

– Como você sabe da existência deles? Diga! – falou ela em um tom rígido.

– Eu... É uma longa história... É melhor eu ir descansar, amanhã nos falamos. – gaguejei.

Trêmula, fui até o banheiro e tranquei a porta. Não podia ter dito aquilo, eles podem saber de tudo, podem mandar me matar... Se eu não estiver morta. Eu não posso estar morta. Isso não pode ser real.

– Eu tenho que acordar. Eu tenho que acordar! – bati na cabeça com força. Nada. Bati mais uma vez. Nada.

Resolvi tomar um banho que por incrível que pareça estava morno. Ajudou a relaxar.

Vesti uma roupa que Lacey havia deixado no meu quarto na ponta da cama, e deitei na cama.

– Posso entrar? – perguntou Lacey batendo na porta.

– Sim.

– Me desculpe, querida. – falou ela entrando.

Eu me sentei e a observei atentamente esperando que ela falasse mais, que explicasse, ou que me desse alguma luz sobre aquilo tudo.

– Eu fui grossa com você. Quer dizer, tem muitas coisas que você não sabe, provavelmente, mas é tanto que devo deixar que você aprenda por si só. É rápido quando você está aqui. – ela sentou da beira da cama. – Você vai ficar bem. Amanhã lhe darei armas, e lhe ensinarei o básico, quero que saia e vá procurar um lugar onde se estabelecer. Aqui a vida é bem mais difícil! – ela sorriu, como se aquilo fosse me animar.

– Hm, ok. Tudo bem, eu devo dormir agora. – falei tentando dissipar tudo aquilo de novo. – Ou tentar... – sussurrei.

– Tudo bem! Tenha bons sonhos! – ela sorriu de novo. E fechou a porta atrás dela.

Eu me virei várias vezes, tentei pensar em outras coisas, mas precisava de mais respostas. Precisava encontrar meus amigos, precisava salvar Josh. Mas não podia, não agora, não aqui. Tudo já estava confuso demais antes de eu vir pra cá, e agora, as coisas só pioraram.

Demorei prováveis quatro ou cinco horas pra dormir, mas então adormeci.

Aparentemente, aquilo não parecia uma noite de sono, ou um estranho sonho maluco de sempre, era como se eu estivesse acordando. Eu estava acordando de verdade.

Quando meus olhos finalmente se acostumaram pude ver a minha frente Charlotte com cortes na testa e nos braços amarrada em uma cadeira. A sala onde estávamos, era escura, apenas uma luz iluminava o centro, onde eu e ela estávamos.

Olhei ao redor. Ninguém. Nenhum sinal de pessoas estranhas do século passado, ou até mesmo dos meus amigos. Nada.

Então comecei a sentir o ambiente. Era quente, sombrio, o ar era pesado. Eu estava sentada, estava amarrada. Nos braços e nas pernas. Entrei em pânico e tentei me soltar, mas os nós eram forte demais. Senti arder em alguns pontos do meu corpo. Eu havia sido machucada também.