Dois Lados
35 Capítulo 34
P.O.V – Victoria
Emma permaneceu naquele lugar por longos minutos, olhando para o nada. Suas mãos ainda tremiam. Seus olhos estavam injetados de sangue.
– Emma. – falei com cuidado. – Você está bem?
– Claro... – sussurrou ela. – Não sei porquê me senti assim. Sempre fui acostumada a essa rejeição, desde que comecei a lutar contra meus pais. Mas dessa vez, me senti tão vazia. Queria que as coisas fossem diferentes... – falou ela distante.
Eu não encontrei maneiras de consolá-la desta vez. Ela realmente me dera medo no início, não pude discordar. Queria que houvesse outra forma de fazê-la se sentir melhor. Mas resolvi ficar calada.
Pouco tempo depois Walt chegou com a garota ruiva do seu lado. Eles ficaram em silêncio, até que Michael resolveu quebrá-lo.
– E então? Está melhor? – perguntou querendo ser solidário.
A garota balançou a cabeça assentindo.
– O nome dela é Charlotte Murray. – falou Walt. Ele fez uma pausa provavelmente esperando que alguém a reconhecesse. – Ela irá ficar conosco.
– Ótimo. – falei tentando animá-los um pouco, mas não deu certo, porque nem eu estava feliz. — Bem, você pode comer um pouco, beber água e descansar, assim você pode nos contar o que houve com você.
Charlotte sentou-se onde eu havia dormido e comeu disfarçadamente um dos sanduíches de Emma. Ela tentou esconder, mas dava pra ver que estava faminta. Aos poucos ela foi se acalmando e começou:
– Eu estava na loja do Sr. Kepner, o homem que vem me ajudado todos esses anos. – ela parou e deu mais uma mordida no sanduíche. – Ele e eu estamos presos aqui desde... – ela olhou para as mãos como se fizesse as contas. – Bem, não sei exatamente há quanto ele está aqui, mas eu estou desde 1993, talvez há uns dois anos atrás, não é? – ela nos olhou.
Todos estávamos atentos a história, mas quando ela citou o ano em que fora parar naquela Cidade maluca, nós ficamos sem reação. 1993. Ela estava ali desde antes do meu nascimento. Como isso era possível? Ela aparentava ter a nossa idade.
– Charlotte, quantos anos você tem? – perguntei devagar.
– Se eu vim para cá com 17 anos, e fazem uns dois anos que estou aqui... Acho que 19, provavelmente. Parei de contar. Aqui nada faz sentido, nem mesmo o tempo. Então, não faria diferença contar. – ela bebeu água tranquilamente.
– Não deveria ter parado de contar. – disse Emma com uma voz embargada.
– O que? – ela perguntou. – Tenho certeza que se fosse você, iria parar.
– Pelo menos eu perceberia que havia se passado 21 anos. – ela disse de maneira nada delicada.
Charlotte parou. Seu olhos se encheram de lágrimas.
– Você só pode estar mentindo... Eu teria envelhecido, ou algo assim... Digo, era pra eu estar com 38 anos, com certeza não teria esta aparência. – ela olhou nos olhos de Emma. – Então, que ano é este? – perguntou certa de que Emma estava realmente brincando.
– 2014. – respondeu.
O clima ficou tenso. Emma estava agindo estranho. Ela nunca faria isto. Ela sempre fora a mais focada de todos nós, a mais cautelosa, sempre fazia de tudo para que todos se sentissem melhor, – exceto por ela mesma – e agora estava jogando assim tudo em cima daquela pobre garota.
– Não pode ser... Tessa... – sussurrou Charlotte.
– O que você disse? — perguntou Walt. Com certeza escutamos aquele nome. Tessa.
– Minha avó. Tessa Jenkins. Ela prometeu que viria... – sua voz falhou, e as lágrimas começaram a cair.
– Calma, Charlotte, você pode nos explicar tudo com calma. – falei tentando soar o mais normal possível, mas tudo ao meu redor parecia rodar.
Demorou um pouco para que ela parasse de chorar. Enxugou as lágrimas que estavam em seu rosto, e reuniu forças para falar.
– Bem... 21 anos atrás, — ela falou com um peso em casa sílaba que pronunciava. – eu morava com minha avó, Tessa, em uma pensão que a mãe dela havia fundado com sua família. Quando eu fiz 17 anos, eu a encontrei no quarto chorando, e dizendo que estava arrependida. Eu insisti para que ela me dissesse o porquê e ela não quis dizer. Mas então no final do dia uma mulher e um homem foram à pensão, no meio da madrugada, quase amanhecendo o dia. E me levaram. Tessa correu para tentar impedir, mas ela não conseguiu chegar a tempo. A única coisa que ela conseguiu dizer foi que iria me encontrar um dia, e me traria de volta a nossa antiga vida. – ela deu uma longa pausa como se reunisse as lembranças mais dolorosas. – No caminho para cá, os feiticeiros, os que foram me buscar, me explicaram tudo. A mãe de Tessa, fez um pacto forçado, para que não levassem sua filha, mas levasse a sua neta como “recompensa”, não me perguntem para que, mas enfim, minha mãe, seria a levada pelos feiticeiros quando ela fizesse 17 anos, mas minha mãe, estava grávida de mim quando foram ao encontro dela, e ela fez um segundo pacto, para que não levasse ela, e sim a mim, nos meus 17 anos. E assim, um ano depois de eu ter nascido, minha mãe me abandonou na pensão, deixando para minha avó o fardo de ter que me criar sozinha. E até hoje ela não voltou. – uma expressão de raiva tomou conta do rosto pálido de Charlotte.
Um silêncio intenso pairava no ar como as nossas respirações ofegantes e pesadas.
– Wow... – falou Michael. – Mas por que queriam trazer sua mãe, e depois você para cá? Qual o objetivo disto?
– Não sei. Eles nunca me disseram.
– E enquanto ao Sr. Kepner? – perguntei.
– Ele estivera aqui antes de mim, ele disse que viera há 3 anos, ou seja, muito mais tempo do que eu poderia estar. Não faço ideia agora... – ela suspirou olhando para o chão.
– E a parte da perseguição? – indagou Walt com cuidado. Emma desviou pela primeira vez em toda a conversa o seu olhar para ele. Mas parecia não ter sido muito amigável, pois ele baixou a cabeça parecendo envergonhado.
– Estávamos em mais uma manhã comum, — ela fez aspas no ar. – quando ouvimos barulhos nas lojas do lado. Ele correu para ver, e umas sombras tomaram conta do céu que sempre era azul e cheio de nuvem de formatos estranhos. – ela fez uma pausa como se imaginasse, e depois piscou. – A mesma feiticeira que me trouxe, estava entre os tantos que desciam do portal. Eles mataram muita gente. Mas quem eles queriam era eu. Eles... o mataram. – ela voltou a chorar com a lembrança que lhe trouxera.
Sabia que tudo aquilo era muito doloroso para ela. Era como se me pedissem para contar minha história até ali. Eu sempre tentava me agarrar a algo como a vontade de achar Josh e de voltar para minha mãe. Mas se todas essas lembranças tivessem sido trazidas a tona assim tão de repente, estaria na mesma situação dela.
Me aproximei dela pondo a mão em seu ombro.
– Vai ficar tudo bem com você. Eu prometo. – falei um pouco segura. Mas não podia prometer algo tão sensível como a vida. – Eles são apenas idiotas e gananciosos. Também perdi pessoas que amo, e sei que irei perder mais se não fizer nada. Por isso estamos nesta missão. Vamos fazer o que for preciso para que tudo isso não aconteça novamente. Ok?
Ela assentiu com a cabeça e se encostou no meu braço.
O resto dia foi isso, tentamos nos revezar no descanso, pois qualquer coisa poderia aparecer e nos atacar.
Preferi ser a primeira com Emma para vigiar. Ninguém concordou muito no começo que eu ficasse de vigia, mas insisti.
Nos sentamos mais na frente possível de todos.
– Ok, Emma. Sei que você não é de conversar, nem sei se você já teve alguém pra isso, mas sei que há algo de errado com você e tenho quase certeza de que isso envolve Walt. – continuei olhando para ela pra ver se ela expressava alguma coisa, mas nada. Como sempre. Então ficamos em silencio por um extenso tempo.
– Você está certa. – ela continuou olhando para o nada.
– O que? – falei perplexa.
– Eu o amo. – falou quase sussurrando.
– Você... o que?
– Você está surda? Falei que está certa, que o amo, e... – ela parou. – nos beijamos na floresta naquele dia. E desde ai não consegui esquecê-lo. – Emma baixou os olhos.
– Emma... Não precisava ter escondido isso de mim. Sou sua amiga, você pode confiar em mim pra tudo! – falei tentando conter minha alegria de finalmente ter arrancado alguma coisa dela.
– Eu me senti insegura porque bem, vocês são amiguinhos desde pequenos, ele te ama, e eu não conseguiria quebrar isso por nada. – sua voz falhou.
– Qual é, Emma! Você sabe que eu – tentei falar mais baixo. – não o amo... desse jeito. Ele é meu melhor amigo, sim, nos conhecemos desde pequenos, mas não significa nada. Além do mais, eu amo o Josh com toda a minha vida. Eu namoro o Josh. Então pode ficar tranquila em relação a isso. – suspirei. – Mas não é só isso, não é?
– Nossa, você é boa mesmo. — falou ela. O que nos fez rir. Fazia muito tempo que não fazíamos isso. – Não, não é só isso. Depois que nos beijamos, eu passei a gostar mais dele do que o normal, e isso vinha me assombrando o tempo inteiro, e quando ele chegava perto de mim eu sentia uma coisa estranha... – ela apontou para o estômago.
– Bem, isso se chama estar apaixonada. – falei sorrindo.
– Pare! – ela deu um empurrãozinho de leve no meu braço. – Não estou “apaixonada”. – ela imitou meu tom.
– Está sim, admita! Não seja durona demais para isso! Todo mundo se apaixona uma hora! – falei.
– Enfim. – ela me lançou um olhar. – O fato é que, não quero me sentir assim, é como se fosse uma droga que eu precisasse todas as vezes... Não sei explicar.
– Own! Você está mesmo gostando dele! – falei empolgada.
– Victoria! – ela suspirou. – Tudo bem, posso estar, mas não tem como dar uma folga disso? Não posso fazer nada e ele sempre está lá na minha cabeça. Provavelmente nem nos meus feitiços estou me concentrando direito.
– Verdade... Os sanduíches estavam horríveis... – falei e nós rimos. – Ah, Emma, é normal, ok? Você tem que se acostumar.
– Mas nunca teria uma mínima chance! – retrucou ela.
– Beijar ele é não ter nenhuma chance? Bem, você pode começar a rever seus conceitos.
– Sim, mas... – ela abaixou a cabeça e sua voz ficou mais densa. – Eu ouvi quando ele se declarou pra você... Na cabana.
Eu parei alguns segundos tentando recapitular o momento, e então me lembrei do flagra que Emma e Josh deram em Walt quando ele quase gritou que me amava.
– Emma. Vou se sincera. Ninguém passa o resto da vida amando alguém. Sei que ele passou anos gostando de mim. Mas ele teve outras namoradas, ele teve outros momentos. Tudo bem, não foram suficientes, mas sei que ele precisa de alguém intenso o suficiente para tirá-lo desta. Ele não me ama Emma, ele acha que ama. Digo, ele pode gostar bastante ainda, mas sei que não é a mesma coisa. É só um sentimento antigo que voltou depois da morte de Mary para reconfortar ele. – segurei a mão dela. – Eu tenho isso de vez em quando. Quando passamos por algo traumático, nos ligamos a sentimentos os momentos antigos, que nos permite continuar vivendo. Mas aposto que se você chegar da maneira certa, ele vai ficar com você.
– Nossa... Mas Vic, eu tenho medo. Nunca fiz isso. Eu... – ela tentou falar, mas vi que começara a chorar.
– Você precisa ter um pouco de paciência. Ele gosta de você. Eu sei, eu vejo o jeito que ele te olha, quando ele fala de você os olhos dele brilham. Ele só não percebeu ainda. Seja mais simpática também... – sorri.
– O que quer dizer? – ela parecia estar perdida nas minhas palavras.
– Quero dizer que você tem que ser um pouco mais calma, e não sair atropelando ele e os outros, que não tem nada a ver com isso. Nada de dar foras constantes nele. Sei que às vezes ele é um pouco lento, – pisquei. – mas precisa se controlar um pouquinho. Você tem muitas emoções guardadas ai. – toquei na cabeça dela. – Precisa conversar de vez em quando.
– É, acho que sim. – ela enxugou as lágrimas do rosto.
– Muito bem, já é um passo. – Segurei a mão dela com mais força sobrepondo a minha outra mão sobre a dela. – Me prometa que quando ele acordar, irá falar com ele e pedir desculpas. E que daí pra frente será diferente!
– Ahr... – ela suspirou. – Tudo bem, vou tentar.
Alguns segundos depois vimos ele e Michael acordarem. Hora de revezar a vigia.
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