Doh Kyungsoo e o Alto Rei Elfo
2 Capítulo I
Notas iniciais
Com os olhos semicerrados, Kyungsoo observava a água escorrer entre seus dedos, perdido entre o torpor e o cansaço. O toque da alvorada ecoava ao longe, um lembrete incômodo de que mais uma noite havia se passado sem que ele conseguisse descansar.
Eram trinta horas sem dormir. Sempre que fechava os olhos, acordava sobressaltado, como se tivesse caído de um lugar alto, sem nunca lembrar o que o fez despertar. O desconforto ia além do cansaço físico; era uma inquietação inexplicável que o acompanhava desde a infância, um vazio que ele nunca soube nomear.
Dessa vez, nem mesmo o remédio ajudou. Ele passou a noite inteira alternando entre o desespero de não conseguir adormecer e o desconforto dos breves cochilos interrompidos.
Não havia escolha: precisava continuar. Mesmo que seu corpo implorasse por descanso, o mundo não pararia por sua exaustão.
[...]
O som firme das botas contra o piso ecoou na sala de espera, anunciando a entrada apressada do Capitão Kang.
— Primeiro-Tenente Doh, mudança de planos. Recebi ordens para levar o General até Seul — comunicou de maneira direta.
Kyungsoo interrompeu a conferência dos itens em sua bolsa e prontamente assumiu a posição de sentido.
— Sim, senhor!
Kang seguiu até a cafeteira, servindo-se de café enquanto continuava:
— Isso significa que você assumirá outra missão. O Primeiro-Tenente Kim cuidará do transporte de materiais, enquanto você levará os novatos de Incheon até a base em Bangkok. Na volta, fará o traslado de um grupo de oficiais em Gwangju. Nada demais.
O calor da cafeína não o incomodou enquanto tomava um gole, mas do outro lado da sala, Kyungsoo precisou de um segundo a mais para absorver a informação.
Bangkok. Gwangju.
O plano inicial havia sido alterado sem aviso, e ele sentiu sua respiração falhar por um instante. O voo que deveria durar menos de duas horas agora se transformava em uma jornada de oito ou mais. Ele tinha tudo planejado: voltaria logo e, assim que pousasse, iria direto para a enfermaria em busca de algo que finalmente o fizesse dormir.
Mas agora...
Engoliu seco, piscando rápido para afastar o cansaço que insistia em nublar sua visão.
— Sim, senhor! — respondeu com firmeza, a voz sem hesitação.
Mas Kang não era tolo. Seus olhos percorreram o rosto do subordinado com um olhar avaliativo.
— Primeiro-Tenente Doh, está tudo bem?
Kyungsoo se manteve rígido. Não havia espaço para falhas.
— Sim, senhor. Tudo em ordem, senhor!
O capitão tomou mais um gole de café, sem tirar os olhos dele.
— Nos vemos em dois dias.
Jogou o copo vazio no lixo e saiu sem pressa, deixando Kyungsoo sozinho.
Assim que a porta se fechou, ele liberou um longo suspiro, sentindo os músculos do ombro se tensionarem.
Calculando rapidamente, percebeu que passaria um pouco mais de oito horas voando até voltar para casa. O tempo que ele não tinha para descansar.
Seu olhar foi direto para a bolsa de remédios. Sem tempo para hesitar, retirou dois comprimidos para se manter alerta e o engoliu seco.
Ele só precisava passar por mais um dia.
[...]
Um ano depois
Havia um vazio dentro de Doh Kyungsoo. Ele sempre esteve ali, silencioso, constante, como uma ausência que ele não conseguia nomear.
Na infância, confundia essa sensação com fome. Carregava sempre algo para comer, mas por mais que se alimentasse, a inquietação permanecia. Os outros garotos zombavam de seu apetite insaciável, e os adultos faziam comentários sobre como ele "precisava aprender a se controlar". Ninguém entendia. Nem mesmo ele.
Aos quinze anos, percebeu que não era fome. O que ele sentia era um buraco no peito, um eco de algo que deveria estar ali, mas nunca esteve. Começou a achar que o problema era falta de felicidade. Talvez, se tentasse ser como os outros adolescentes, se enturmar e rir mais, isso desaparecesse. Mas não funcionou.
A falta de pertencimento sempre esteve lá, crescendo silenciosamente dentro dele.
Ou talvez fosse por causa de sua adoção.
Seus pais adotivos eram um casal europeu bem-sucedido, mais preocupados com negócios do que com afeto. Adotar uma criança asiática havia sido, na melhor das hipóteses, um capricho — uma forma de calar parentes insistentes que perguntavam sobre filhos. Kyungsoo não foi acolhido como um filho de verdade, mas como um peão num jogo de aparências.
Nos primeiros anos, esforçou-se para ser digno do amor deles. Queria ser perfeito, atender às expectativas. Mas logo percebeu que nada mudaria. Ele era um estrangeiro até dentro de sua própria casa.
Aos dezoito anos, fez sua escolha. Deixou para trás tudo o que conhecia e voltou para a Coreia do Sul.
Não tinha um plano. Não buscava sua família biológica, pois nunca teve esperança de que fossem melhores do que aqueles que o adotaram. Tudo o que queria era estar em um lugar onde ao menos fisicamente se parecesse com os outros ao seu redor.
E então, quando viu um cartaz de alistamento militar, sentiu algo despertar dentro de si.
Disciplina. Regras. Ordem.
Talvez, ao preencher sua vida com responsabilidades e obrigações, finalmente silenciasse o vazio.
Os dez anos que se seguiram foram previsíveis. E Kyungsoo gostava disso.
Acordava cedo, treinava duro e fazia exatamente o que se esperava dele. Não queria cargos altos, não queria destaque. Preferia o trabalho duro e repetitivo, pois ele não lhe dava espaço para pensar.
Nunca mais teve contato com sua família adotiva, se permitiu conhecer e se relacionar com outras pessoas — mas não tanto —, teve suas primeiras experiências e continuou tentando… tentando tirar, ou pelo menos diminuir, essa horrível agonia de não saber o que estava faltando.
E, apesar de suas intenções, sua habilidade era inegável. Destacou-se como piloto e subiu na hierarquia da Força Aérea da República da Coreia. Não porque queria, mas porque era bom no que fazia.
Ele havia construído sua vida em torno da aviação. Era tudo o que ele tinha.
Então, tudo desmoronou.
O voo deveria ter sido simples. Ele decolaria de Bangkok sozinho, retornando à Coreia em um caça monoposto que havia passado por manutenção. As condições climáticas eram favoráveis, sem turbulências ou qualquer indicativo de problema técnico. Tudo estava sob controle.
Ou, pelo menos, deveria estar.
Kyungsoo piscou algumas vezes, tentando afastar a névoa em sua mente. O silêncio na cabine, antes um conforto bem-vindo, parecia opressor. O painel de controle estava à sua frente, mas, por um momento, seus olhos não conseguiam focar nos instrumentos. As luzes das indicações de voo tremulavam diante dele, distorcidas como se estivessem fora de alcance.
Um peso estranho tomou conta de seu corpo. Suas mãos estavam firmes no manche, mas os reflexos pareciam retardados, como se houvesse uma distância entre seu pensamento e sua ação.
"É o cansaço."
Ele inspirou fundo e apertou os controles, buscando se concentrar. Precisava se manter alerta até pousar em Gwanju. Mais algumas horas e poderia finalmente desligar sua mente por completo.
Foi quando o painel piscou em vermelho e o alarme de falha mecânica ecoou pela cabine.
Kyungsoo piscou, confuso.
"Falha? Não pode ser."
Seu peito apertou quando percebeu que o motor estava falhando. Um ruído estranho ecoou pelo cockpit, e uma leve oscilação tomou conta da aeronave. Ele ajustou os controles rapidamente, tentando estabilizar o voo, mas seus dedos demoraram um segundo a mais para responder.
Aquele segundo foi o bastante para o caça inclinar levemente para a esquerda.
Os alertas sonoros ficaram mais altos. Uma sequência de comandos se acendeu no painel. Kyungsoo prendeu a respiração ao tentar processar as informações. Ele sabia o que fazer. Anos de treinamento estavam gravados em sua mente, e ainda assim, naquele instante, algo estava diferente.
O rádio chiou.
— Tenente Doh…?
A voz da torre de controle desapareceu quando um ruído agudo invadiu seus ouvidos.
O som do motor falhando se misturou com os alertas da cabine. Kyungsoo piscou novamente, o suor escorrendo pela nuca. Seus braços ficaram pesados, como se estivesse tentando mover algo muito além de sua força.
Por um instante, o mundo desacelerou.
O vazio que sempre o acompanhou foi substituído por algo novo. Algo inesperado.
Pânico.
O painel piscava incessantemente, e o caça inclinava-se para o lado. Kyungsoo sabia que precisava corrigir a trajetória, que precisava reagir rápido… mas os comandos pareciam distantes. As vozes no rádio eram apenas ruídos irreconhecíveis.
Os alarmes continuaram soando.
Então, tudo ficou branco.
Quando abriu os olhos, o hospital o recebeu com luzes ofuscantes e um zumbido baixo.
Levou um tempo para perceber que não conseguia mover as pernas. Um frio percorreu sua espinha. Tentou se sentar, mas a dor explodiu por seu corpo.
Médicos entravam e saíam do quarto, conversando em tons baixos. Uma enfermeira sussurrava palavras reconfortantes, mas ele já sabia.
Ele nunca mais voaria.
Seis meses se passaram. Terapia, fisioterapia, exames, tentativas frustradas. Nada mudava. Seu corpo ainda doía, sua perna esquerda ainda não respondia, e os relatórios eram sempre os mesmos.
Ele já sabia a verdade. Só não queria encará-la.
E então, um dia, recebeu a convocação de seu superior imediato.
O aperto de mãos foi breve, o tom da conversa profissional. "Estamos orgulhosos do seu serviço", "Você sempre será um de nós", "É uma pena que tenha chegado a esse ponto".
Kyungsoo escutou tudo, assentiu mecanicamente. Sentia-se patético, irritado e profundamente triste.
Saiu daquela sala sentindo como se tivesse deixado sua própria identidade para trás.
Do mesmo modo como fez aos dezoito anos, ele tomou outra decisão e resolveu desaparecer.
Sem rumo, sem propósito, comprou uma passagem de volta para a Europa. Se era para se sentir deslocado, que fosse em um lugar onde ninguém esperava nada dele.
Não voltou para Dublin, onde havia passado parte da infância. Em vez disso, encontrou um refúgio no interior do Condado de Kerry, também na Irlanda. O lugar era isolado, cercado por colinas verdejantes e florestas densas. Perfeito para alguém que queria desaparecer.
A casa era antiga, construída com pedras envelhecidas pelo tempo, de um aconchego rústico e silencioso. Antes mesmo de se instalar, precisou adaptá-la para suas novas necessidades. Derrubou degraus, alargou portas, certificou-se de que poderia se mover com facilidade. Tudo foi feito por ele mesmo, aos poucos, como se ocupar as mãos ajudasse a evitar que sua mente se perdesse.
E então, construiu uma nova rotina.
Acordava com o primeiro som do rádio, o único ruído constante na casa além do vento que sibilava pelas árvores. Permanecia alguns minutos encarando o teto, sentindo a dormência na perna esquerda antes de, com esforço, se sentar à beira da cama. A bengala estava sempre ali, ao alcance da mão. Ele se apoiava nela, ajustando o peso do corpo antes de caminhar até a cozinha para preparar um café rápido.
Os remédios para dor eram tomados sem entusiasmo. Sabia que não faziam milagre, mas garantiam algumas horas sem o latejar incômodo na perna. Depois de se vestir, ia até o galinheiro, caminhando devagar pela trilha de terra batida, sentindo cada irregularidade do solo sob os pés. Alimentava as galinhas com calma e conversava com elas, e sem pressa cuidava da sua pequena horta.
Então, subia a colina.
Era a única parte da rotina que ainda parecia sua. Aquele pequeno pedaço de mundo onde o vento era mais forte, onde o cheiro vindo da floresta tomava conta do ar e onde ele se permitia sentar sob a grande árvore solitária, olhando para o céu.
Havia algo reconfortante naquele ritual. As raízes da árvore pareciam moldadas para encaixar seu corpo, como se tivessem sido esculpidas para ele. Ali, por alguns instantes, o peso do mundo diminuía.
Voltar para a Irlanda não era exatamente o que ele planejou quando decidiu sair do país, muito menos ir morar em uma casa quase que no meio da floresta de Killarney e criar galinhas. Mas, apesar de tudo, às vezes ria sozinho de si mesmo.
Pelo menos isso ele ainda conseguia fazer.
Naquele dia, enquanto batia levemente na coxa esquerda para dissipar o formigamento, sentiu algo diferente. Um leve incômodo no peito.
Durou poucos segundos, mas o suficiente para fazê-lo franzir o cenho.
Provavelmente cansaço. Ou o esforço da subida.
Ignorou a sensação e, ao ouvir o alarme de seu relógio marcar nove horas, se levantou, bateu a poeira da calça e começou a caminhada de volta.
Amanhã, tudo se repetiria.
Porque era assim que funcionava.
[...]
— Louise! Não mexa nas prateleiras ou eu juro que não aliviarei seu lado para o pai! — A voz irritada de Maeve Collins ecoou pelo mercado enquanto uma garotinha de cachos ruivos passava correndo por Kyungsoo, quase esbarrando nele.
Ele segurou a bengala com mais firmeza e desviou o peso do corpo para o outro lado, impedindo que perdesse o equilíbrio.
— Desculpe, Sr. Doh! Volto em um minutinho para lhe atender! — gritou Maeve antes de desaparecer pelos corredores, perseguindo a irmã mais nova.
Kyungsoo apenas acenou com a cabeça, mas ela já estava longe demais para notar.
Ir ao mercado nunca tinha sido uma atividade particularmente agradável, mas agora se tornava uma tarefa cansativa. A dificuldade para carregar as compras, combinada com a caminhada até o carro e a inevitável subida até sua casa, transformava o simples ato de reabastecer a despensa em uma saga.
A paciência para interações sociais também não era grande. A pequena cidade de Killarney tinha a típica atmosfera de um lugar onde todos se conheciam — e, como ele era o único forasteiro nos últimos anos, a curiosidade sobre sua vida nunca cessava. Não eram hostis, apenas... observadores demais.
Ele esperou no balcão, observando sem muito interesse o jornal local sendo transmitido pela televisão pendurada na parede.
"A prefeitura de Killarney informa: atenção redobrada para o fim de semana. Alerta vermelho para temporal intenso e ventos com velocidade superior a 100 km/h. Sua segurança é a nossa prioridade. Evite sair de casa e desligue aparelhos elétricos."
— Sr. Doh! Me desculpe pela demora, — Maeve retornou, segurando Louise pelo pulso enquanto a garotinha lhe mostrava a língua. — Desde que saiu o primeiro alerta de chuva, meu pai dispensou os empregados e foi buscar minha mãe. Estou sozinha e essa pestinha resolveu bagunçar todo o mercado.
— Tudo bem. — Kyungsoo colocou as compras no balcão e olhou ao redor. O local estava praticamente vazio. — Por que não fecharam?
— Eu ia fechar, mas os Byrne chegaram com algumas mercadorias e, quando fui ver, alguns clientes se instalaram na seção de promoções. Tudo virou uma bola de neve. — Ela suspirou, mas passou rapidamente os produtos pelo leitor de código de barras, eficiente apesar do cansaço evidente.
Os Collins eram donos do maior mercado da cidade. Pequeno demais para ser considerado um supermercado, mas grande o suficiente para abastecer a população sem necessidade de viagens longas até os centros urbanos. O Sr. Collins e Maeve eram os rostos mais frequentes por trás do balcão, sempre sorridentes e prestativos.
Desde que se mudou para a antiga casa dos Fey, Kyungsoo percebeu que os moradores tinham certo receio com ele. No começo, achou que era por ser estrangeiro, mas logo percebeu que o problema não era esse. Eles simplesmente não sabiam o que pensar sobre ele. Sua postura séria, o tom monossilábico com que respondia e sua constante recusa em prolongar conversas reforçavam a imagem de alguém distante.
E era exatamente assim que preferia.
— Total de cinquenta e cinco euros, Sr. Doh. Mais alguma coisa? — Maeve perguntou, empurrando os óculos para cima do nariz.
— Somente.
Ele passou o cartão no leitor e começou a organizar as compras em duas bolsas adaptadas, com alças resistentes para distribuir o peso igualmente.
— Boa tarde, Sr. Doh! Quer ajuda com as sacolas até o carro? — A voz do Sr. Collins surgiu atrás de si, anunciando seu retorno.
Kyungsoo se virou, já negando com um pequeno aceno.
— Boa tarde, Sr. Collins. Agradeço, mas está tudo bem.
Ele viu o olhar rápido que o homem lançou para sua perna esquerda e para a bengala ao seu lado, mas o dono do mercado apenas assentiu educadamente e voltou para os fundos.
Kyungsoo apertou o cabo da bengala e saiu em direção ao carro com passos firmes, ignorando o leve desconforto no joelho ao descer o meio-fio.
Odiava sentir-se minimamente dependente de alguém. Sabia que toda ajuda seria bem-vinda, sabia que o esforço extra cobrava um preço alto no fim do dia, mas o ego ainda sussurrava que ele parecia frágil.
Ligou o motor e manobrou para fora do estacionamento.
Quando saiu da cidade, percebeu que o céu antes azul agora estava carregado de nuvens cinzentas e pesadas. O sol havia desaparecido completamente, e o vento começava a ganhar força, chicoteando as árvores ao longo da estrada.
Manteve as mãos firmes no volante enquanto dirigia pelas ruas vazias. Tudo estava quieto demais.
Por algum motivo, sentiu outro aperto estranho no peito. Lembrou-se do olhar discreto que recebeu do Sr.Collins.
Só de pensar em tudo que teve que ajustar em sua vida, ficava irritado. Seus sentimentos sempre vinham, mas nunca ficavam.
Raiva. Arrependimento. Tristeza. Alegria. Saudade.
Eles passavam por ele como ondas suaves, deixando apenas um resquício antes de voltarem para o oceano.
A única coisa que restava era o vazio.
Seu eterno companheiro
[...]
O vento soprava forte, assobiando entre as árvores e fazendo as folhas secas dançarem pelo quintal. Kyungsoo olhou para o céu carregado enquanto se encaminhava para o galinheiro. O ar parecia pesado, e a floresta, embora não completamente silenciosa, estava estranhamente contida... como se aguardasse algo.
Quase seis da tarde e a chuva ainda não tinha chegado. Mas viria.
Reforçou a tranca da porta do galinheiro e ajeitou a lona que cobria parte do cercado, certificando-se de que tudo estava seguro. As galinhas pareciam agitadas, movendo-se de um lado para o outro e bicando o chão com mais frequência do que o normal. Ele passou a mão pelo rosto, respirando fundo antes de voltar para casa.
Assim que entrou, fechou a porta e passou a tranca, afastando o calafrio que subiu por sua espinha. Jogou a jaqueta no encosto da cadeira e esfregou as mãos diante da lareira, sentindo o calor aliviar o frio úmido que começava a se espalhar pelo ambiente.
A sopa ainda não tinha começado a ferver, o cheiro dos temperos se espalhava lentamente pela cozinha. Se tivesse sorte, teria tempo para um banho quente antes de se aconchegar na poltrona e ouvir o noticiário.
Então o vento mudou.
Um estrondo ecoou pela casa quando a janela da cozinha cedeu, batendo violentamente contra a parede. O ar frio invadiu o ambiente, e o fogo da lareira vacilou antes de se apagar.
Kyungsoo se virou rapidamente, o coração disparado pelo susto. A tempestade tinha chegado com força.
Foi quando ouviu.
Um som vindo de fora. Um ruído abafado no galinheiro.
Ele pegou sua lanterna e sua espingarda, vestiu o casaco e puxou o capuz sobre a cabeça. Se havia algo lá fora, não iria pegar suas galinhas.
Saindo pela porta dos fundos, a ventania açoitou seu rosto. A grama molhada chiava sob seus passos enquanto se aproximava do galinheiro, onde a porta de madeira balançava no vento.
Com um nó rápido, amarrou a tranca improvisada que tinha feito mais cedo. Inconscientemente olhou para além do cercado e o viu. Mais ao fundo, no caminho que levava à colina, uma silhueta.
A casa ficava no final de um trecho isolado de terra, com uma pequena floresta à esquerda e um campo à direita, repleto de colinas. Não havia outras casas habitadas por perto. Nenhuma razão para alguém estar ali.
A silhueta oscilou, como se fosse parte da neblina.
Kyungsoo ergueu a espingarda.
Outro relâmpago cortou o céu. Dessa vez, a luz revelou um homem.
Um homem alto. Alto demais. Os cabelos longos caíam pesados, úmidos pela chuva. Suas vestes eram estranhas, pareciam feitas de um tecido prateado que brilhava sob os relâmpagos.
E ele olhava direto para Kyungsoo.
O instinto de sobrevivência gritou em seu peito. Com as mãos firmes, mirou a espingarda.
— Quem é você?! O que está fazendo na minha propriedade? — Sua voz saiu forte, apesar da adrenalina disparando em suas veias.
O vento deslizou o capuz de Kyungsoo para trás, o estranho arregalou os olhos e tentou chegar mais perto.
Sua boca se abriu levemente, mas nenhum som saiu.
Kyungsoo notou que ele segurava algo nas costelas, como se estivesse ferido.
Mas ainda assim, não baixou a arma.
— Estou avisando, não se aproxime! — ameaçou, dando um passo para trás.
A chuva engrossou. O vento uivava ao redor deles, e a sensação de que tudo estava errado só aumentava.
O homem cambaleou um pouco, como se tivesse dificuldade para se manter em pé. Seus olhos escuros estavam arregalados, presos no rosto de Kyungsoo, como se não acreditasse no que via.
E então ele sussurrou.
— Kyungsoo-ya…
Kyungsoo sentiu um calafrio na espinha.
— O quê? — sua voz falhou por um segundo.
O homem riu, um riso trêmulo e quase desesperado.
— Não pode ser… — Ele cambaleou um passo à frente. — É você… finalmente…
Os trovões ribombaram no céu.
Kyungsoo engoliu seco.
— Como… como você sabe o meu nome? – disse, desta vez em coreano.
— Eu… — O homem levou a mão ao peito, sua respiração irregular. — Eu procurei por tanto tempo…
Havia algo estranho nele. O tom de sua voz, a forma como seus olhos brilhavam em meio à chuva.
Kyungsoo não teve tempo para questionar. De repente, o homem perdeu o equilíbrio.
O mundo pareceu desacelerar quando ele caiu de joelhos na lama. Sua expressão mostrava um alívio absoluto… e então ele desmaiou.
Por um segundo, ficou paralisado.
O que diabos estava acontecendo?
Mas então algo dentro dele se agitou.
Sem pensar muito, abaixou-se ao lado do desconhecido.
Ele respirava, mas estava fraco. O sangue nas costelas misturava-se à lama confirmando que ele estava ferido.
Kyungsoo praguejou baixinho e jogou a espingarda no chão. Não havia como carregá-lo sozinho, e se demorasse mais, ele poderia morrer ali.
Seu instinto gritava que ele precisava fazer alguma coisa.
Com esforço, passou um braço do homem por cima de seu ombro e o segurou pela cintura. Sua perna esquerda doeu quando tentou se erguer, mas ignorou.
O peso do estranho era absurdo, mas Kyungsoo encontrou força onde normalmente não teria.
Com dificuldade, começou a arrastá-lo de volta para a casa.
A cada passo que dava, a chuva caía mais forte.
A cada passo que dava, o estranho parecia ficar mais quente.
[...]
A porta se fechou com um estrondo atrás dele. O barulho da tempestade ainda rugia lá fora, mas agora Kyungsoo só conseguia ouvir sua própria respiração acelerada e o som das gotas d’água pingando das roupas encharcadas do homem desacordado em seu sofá.
Ele deu um passo para trás, passando a mão pela testa. Estava exausto.
— Que merda eu acabei de fazer?
O homem não era pequeno. Longe disso. Carregá-lo até ali foi um esforço quase impossível, e sua perna protestava intensamente.
Mas agora que estava dentro de casa, tremendo e molhado, percebeu que não havia pensado em nada além de tirá-lo da chuva.
Ainda arfando, Kyungsoo pegou o kit de primeiros socorros na cozinha e se ajoelhou ao lado do sofá.
Aproximou-se com cautela. Com dedos firmes, abriu o casaco molhado e afastou o tecido das vestes estranhas que ele usava por baixo. Suas mãos pararam quando viu os ferimentos.
O sangue seco manchava o lado esquerdo de sua costela e o ombro direito. Os cortes não eram superficiais, mas algo nos ferimentos parecia... errado. A pele ao redor estava pálida demais, como se algo tivesse drenado sua vitalidade.
Kyungsoo mordeu o lábio.
Com um pano limpo e água morna, começou a limpar os cortes com cuidado.
— Quem diabos é você? — murmurou, mais para si mesmo.
Quando passou a pomada cicatrizante no ferimento, sentiu um arrepio ao notar que a pele do estranho era quente. Não o tipo de calor febril, mas algo mais profundo, como se emanasse dele.
Por um instante, hesitou.
Havia algo naquele homem que o inquietava. Algo que fazia seu peito formigar.
Mas a exaustão bateu antes que pudesse pensar mais sobre isso.
Depois de enfaixar os ferimentos e ajeitar o travesseiro sob a cabeça do desconhecido, Kyungsoo se sentou no chão, encostando-se na beirada do sofá.
Observou o rosto dele por alguns segundos. Mesmo inconsciente, ele parecia estranhamente... aliviado.
Uma onda de cansaço pesou sobre seus ombros.
Talvez fosse o esforço de carregá-lo. Ou talvez fosse o fato de que, pela primeira vez em muito tempo, seu peito não parecia tão vazio.
Kyungsoo fechou os olhos.
E antes que pudesse perceber, adormeceu. Pela primeira vez em anos, sem remédios. Sem pesadelos.
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