Doh Kyungsoo e o Alto Rei Elfo
3 Capítulo II
Notas iniciais
GLOSSÁRIO DO CAPÍTULO:
Floresta das Trevas: No norte, a Floresta das Trevas era habitada por Elfos da Floresta de Reino da Floresta, liderados por Oropher e então Thranduil. Legolas também era de lá. (Fonte: https://terramedia.fandom.com/wiki/Trevamata). Sehun nessa fanfic é de lá, ele é o filhinho do Thranduil e irmão mais novo do Legolas.
Lothlórien: É um reino e floresta dos Elfos restantes na Terra-média durante a Terceira Era. Galadriel era a senhora desse reino e nessa fanfic, que se passa na quarta era, Baekhyun é o herdeiro desse reino já que ele um dos filhos de Elrond (genro da Galadriel). Como seus irmãos não quiseram, sobrou pra ele cuidar e preservar Lothlórien, mas ele não acha isso ruim pois ama mais do que tudo o lugar que sua avó deixou.
Flecha Morgul: São flechas envenenadas usadas por quem servia Sauron, como os orcs e homens do leste e do sul.
Matriz de Comunicação: Esse termo não veio do Tolkien, hehe. Ele aparece, principalmente, na novel chinesa Heaven Official's Blessing (Tiān Guān Cì Fú) escrita pela Mo Xiang Tong Xiu. Na novel é como se fosse um whatsapp entre os deuses e eu coloquei aqui pra ser o do Conselho Branco. Nessa versão seria tipo uma versão menos elaborada do que seria a Matriz de Comunicação da MXTX.
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Um suspiro carregado de contentamento escapou dos lábios de Baekhyun quando abriu os olhos e encontrou Sehun dormindo à sua frente. O segundo príncipe da Floresta das Trevas, irmão de Legolas Verdefolha e filho do rei Thranduil, agora carregava um novo título: noivo do príncipe herdeiro de Lothlórien.
Após séculos de uma espera quase interminável, e outros empecilhos, os dois elfos finalmente decidiram que selariam sua união na próxima lua cheia.
Baekhyun observou por um instante a respiração tranquila de Sehun, sentindo um calor no peito. Eles passaram por tanto para chegar até ali. Agora, com o casamento confirmado, ele queria dividir sua felicidade com a única pessoa que sempre os apoiou.
Seu melhor amigo precisava saber.
Com cuidado, Baekhyun levantou-se da cama, deixando um beijo leve na testa do elfo que permanecia dormindo — e sabia que ele continuaria assim até alguém obrigá-lo a levantar. Em poucos minutos, já estava pronto e saindo do hotel onde estavam hospedados em Lindon.
A cidade ainda despertava, as primeiras luzes do sol refletindo sobre os rios cristalinos e a arquitetura esplendorosa dos elfos. Pouco depois, Baekhyun chegou aos portões do castelo real.
— Bom dia, Olwë! Onde está o seu rei? — indagou assim que avistou um dos servos de Chanyeol.
— Falei com ele alguns minutos atrás sobre a comitiva, mas ele ainda não desceu.
— Que comitiva?
— A que ele preparou para comemorar o noivado de vossa alteza.
Baekhyun arqueou uma sobrancelha, um sorriso travesso brincando em seus lábios.
— Então ele já sabia? — perguntou, um brilho divertido nos olhos. — Por isso me evitou a semana toda!
Rindo para si mesmo com a atitude previsível de seu amigo, Baekhyun continuou em direção aos aposentos do rei. Chanyeol sempre foi péssimo em esconder segredos de seus amigos, uma característica que Baekhyun há muito aprendera a usar em seu favor.
Por um momento, Baekhyun continuou seu caminho com o mesmo entusiasmo, mas algo parecia... estranho.
— Park Chanyeol! Não posso acreditar que… — As palavras de Baekhyun morreram em sua boca ao perceber manchas de sangue no chão, onde Chanyeol costumava fazer suas procuras noturnas. Seu coração apertou-se de angústia diante da cena, enquanto seus pensamentos corriam para encontrar respostas para o que poderia ter acontecido.
Seus olhos se voltaram automaticamente para o rio que fluía sob a sacada. Ativando sua visão élfica, ele escaneou meticulosamente a paisagem, buscando qualquer sinal de seu amigo. Mas tudo que encontrou foram os guardas nos portões.
Ele estreitou os olhos, sua atenção focada em algo minúsculo reluzindo entre as pedras. Deu um passo à frente e seu estômago revirou.
O fragmento de uma flecha negra.
— Não... — murmurou.
Seu sangue gelou ao reconhecer o brilho maligno daquela arma. Apenas um tipo de flecha possuía aquele tom enegrecido e letal: flechas de Morgul.
Sem hesitar, ele correu em direção à Passagem das Chamas. O atalho disfarçado pela lareira no quarto principal, levava diretamente ao Salão dos Tesouros do Rei.
Ao atravessar a passagem, Baekhyun se deparou com as chamas protetoras que envolviam a entrada do salão. Mas algo estava errado.
As labaredas que deveriam estar intensas e vibrantes titubeavam.
Baekhyun estendeu a mão em direção ao fogo. O calor ainda estava ali, mas menos vigoroso.
A chama que protegia Lindon estava enfraquecendo.
Um arrepio de preocupação percorreu sua espinha. Isso só podia significar uma coisa: Chanyeol estava ferido. E se a Silmaril que ele protegia também estivesse em risco?
Fechou os olhos para se concentrar e assobiou. O som ecoou pelo salão e, em resposta, uma majestosa fênix deslizou pelo ar, pousando graciosamente em seu ombro. Baekhyun sussurrou uma mensagem para ela e, em seguida, a ave alçou voo.
Sem perder mais tempo, dirigiu-se até o centro do salão. Lá, retirou sua espada e enfiou a lâmina em uma pedra cravada no chão. Quando metade da lâmina estava dentro do suporte, a matriz de comunicação foi ativada.
A pedra no centro do salão começou a pulsar com um brilho prateado quando a lâmina tocou sua superfície. As runas ao redor brilharam e então, uma explosão silenciosa de luz preencheu o salão, revelando os hologramas cintilantes dos membros do Conselho Branco.
Respirando fundo, Baekhyun olhou para cada um deles e declarou:
— O rei está desaparecido. Encontrei sangue e fragmentos de uma flecha Morgul em seus aposentos.
Por um instante, ninguém se moveu. O silêncio que se seguiu foi carregado de um peso sufocante.
A matriz de comunicação do Conselho Branco nunca havia sido usada em uma emergência real antes.
[...]
A primeira coisa que Chanyeol sentiu ao despertar foi o calor. Diferente da fria umidade da noite anterior, a casa agora estava aquecida, e ele percebeu que o cobertor grosso sobre si tinha o cheiro sutil de Kyungsoo.
Kyungsoo…
O nome ecoou em sua mente com um peso doce e quase irreal.
Quando seus olhos focaram no ambiente ao redor, encontrou Kyungsoo adormecido, encostado no sofá ao seu lado. As sobrancelhas franzidas, a respiração profunda e relaxada.
Então, Chanyeol viu.
No pescoço de Kyungsoo, repousava um colar já conhecido por ele.
O coração do rei acelerou. Ele inclinou-se instintivamente, os dedos tremendo de leve enquanto absorvia aquela visão. Não havia mais dúvidas. Nenhuma ilusão. Nenhum erro.
Kyungsoo era real. E ele estava ali.
Kyungsoo se mexeu levemente, como se sentisse sua presença, e um murmúrio indecifrável escapou de seus lábios.
Chanyeol sorriu.
A voz dele era a mesma.
— Bom dia… — disse, sua voz carregada de um calor involuntário, incapaz de esconder o encantamento no olhar.
Kyungsoo franziu levemente a testa, ainda imerso no torpor do sono. O timbre grave reverberou dentro dele antes mesmo que pudesse compreender as palavras. Era estranho… quase confortável demais.
Então, abriu os olhos.
Por um momento, apenas encarou Chanyeol, sua mente ainda confusa, até que a ficha caiu.
— Porra! — Um grito involuntário escapou de seus lábios, surpreendendo tanto a ele quanto a Chanyeol, que também se assustou.
Com a reação, Chanyeol levou as mãos ao peito, e envolveu-se ainda mais no cobertor que estava sobre si. Sentiu o calor nas suas bochechas só de pensar que talvez Kyungsoo o tivesse visto despido daquela forma.
Kyungsoo piscou várias vezes, tentando processar o que via. Seu cérebro gritava para que ele exigisse explicações, mas a confusão o impedia de formular frases coerentes.
— Você! — Apontou um dedo acusador, sua voz carregada de indignação. — Quem diabos é você e o que estava fazendo em minha propriedade?! Como chegou aqui?
O elfo sentiu uma pontada de tristeza ao ver a expressão perplexa no rosto de Kyungsoo. Ele abaixou levemente os ombros, como se sua própria alma tivesse sido atingida.
— Então você realmente não se lembra de mim… — murmurou Chanyeol, sua voz carregada de algo melancólico. Seus olhos o analisavam, buscando qualquer traço de reconhecimento. Mas não havia nada.
Kyungsoo franziu ainda mais o cenho.
— Me lembrar de quê? Eu nunca vi você na vida!
O silêncio que seguiu era quase opressor. Chanyeol desviou o olhar por um instante, sua mente voltando para as lembranças distantes de séculos atrás. Ele respirou fundo, tentando se recompor.
— Eu também não sei como cheguei aqui — começou, sua voz soando mais baixa. — Só lembro de… de me despedir de você e depois ser atacado.
— Me despedir de mim? — Kyungsoo repetiu, cada vez mais confuso. — Isso é impossível, eu nunca te vi antes, tenho certeza disso.
Chanyeol soltou um riso baixo e sem humor. Havia tanto o que dizer, tanto o que explicar, mas por onde começaria? Ele já esteve perdido antes, já enfrentou incertezas, mas nada se comparava àquela sensação — a de estar diante da pessoa que mais amava e, ao mesmo tempo, ser um completo estranho para ela.
— Certo — Kyungsoo respirou fundo, tentando clarear sua mente e ignorar a crescente atração que sentia sempre que os olhos de Chanyeol pousavam sobre ele. — Qual é o seu nome?
— Chanyeol.
— Só isso? Não tem sobrenome?
Chanyeol deu de ombros, um sorriso brincando em seus lábios
— Tenho muitos nomes, mas esse é o meu favorito.
Kyungsoo franziu o cenho, olhando-o desconfiado.
— Porque você está enrolado no cobertor desse jeito? — perguntou após perceber que o estranho tinha tentado cobrir todo espaço de pele possível.
Chanyeol hesitou por um momento, ponderando como explicar sua situação.
— Eu... — Ele começou a responder baixinho, mas foi interrompido por Kyungsoo.
— Não consigo te ouvir.
— Estou praticamente sem roupas na sua frente. Não é apropriado.
O elfo desviou o olhar, ainda segurando firmemente as cobertas.
— Na última vez que nos encontramos, eu nem havia iniciado o cortejo da forma adequada…
Aquilo foi o suficiente para que Kyungsoo apertasse o espaço entre seus olhos, massageando a testa.
— Tá bom, chega. Eu preciso de café.
Chanyeol sorriu.
— Eu também.
— Primeiro, vou pegar algumas roupas para você — Kyungsoo apontou para ele com um olhar firme. — Vão ficar pequenas, mas é o que tem. Depois, tomamos café e aí você me explica que história maluca é essa.
— Combinado.
Chanyeol ainda não sabia como faria Kyungsoo se lembrar, mas, por ora, só o fato de estar ali, dividindo um café da manhã com ele, já era suficiente.
[...]
Kyungsoo nunca gostou de receber visitas. Ele não era do tipo que abria as portas para vizinhos curiosos ou que convidava conhecidos para jantar. Sua casa, afastada da cidade e cercada por natureza, era seu refúgio. Um espaço sem interferências, onde não precisava se explicar, onde podia existir sem que ninguém exigisse nada dele. Mas agora, sentado à mesa com uma xícara de café quente entre as mãos, sentia-se invadido.
O ex-piloto estava estupefato com o que acabara de ouvir. Sentados à mesa, desfrutavam de uma simples refeição composta por pães, frutas e muito café, enquanto as palavras de Chanyeol ecoavam em sua mente.
— Então, deixe-me ver se entendi... — começou, tentando processar a enxurrada de informações. — Você está me dizendo que é um rei elfo, com mais de um milênio de idade, que nós dois já nos conhecíamos e eu simplesmente desapareci? E agora você também sumiu porque foi atacado em seu próprio reino?
Chanyeol assentiu com seriedade.
— Exato.
Kyungsoo não pôde evitar uma pitada de sarcasmo diante da situação surreal.
— De que sanatório você escapou? — indagou, com um tom irônico.
Chanyeol inclinou a cabeça, confuso, seus longos e escuros cabelos caindo sobre o ombro enquanto tentava compreender a referência.
— Sim, sua orelha é grande e um pouco pontuda, mas não quer dizer que você é um elfo. Digo, o mundo é vasto e as pessoas são diferentes umas das outras — tentou explicar, percebendo que estava falando mais do que o necessário. Ele se interrompeu por um instante, franzindo o cenho. Por que estava gastando tanta energia tentando argumentar com um desconhecido? Isso o irritou.
Desde a chegada do excêntrico orelhudo, Kyungsoo parecia ter encontrado uma fonte inesgotável de palavras, e isso, de certa forma, o incomodava profundamente. Ele nunca foi de falar tanto. Nunca.
Enquanto isso, Chanyeol ignorava a leve dor de seus ferimentos. Ao contrário do esperado, a cicatrização parecia estar progredindo de forma mais lenta do que o normal, como se seu corpo estivesse se comportando de maneira diferente naquele lugar. Ainda assim, o elfo não conseguia deixar de observar cada detalhe ao redor com um olhar intenso e atento. Tocava sutilmente na textura do móvel de madeira, passava os dedos pela borda do prato, inclinava levemente a cabeça ao ouvir o rádio tocar uma música distante. Era como se tudo ao redor fosse fascinante para ele. E aquilo também atingia Kyungsoo.
— Você nunca viu uma mesa antes? — murmurou, seco.
Chanyeol desviou o olhar para ele, parecendo surpreso com o tom rude. Então, esboçou um pequeno sorriso, como se estivesse acostumado a lidar com humor azedo. Sentiu-se nostálgico, voltando alguns séculos quando os flertes irritavam Kyungsoo.
— Já vi muitas mesas — respondeu, deslizando os dedos pela superfície. — Mas não uma como essa.
Kyungsoo revirou os olhos e se levantou, carregando sua xícara até a pia.
Ele já havia lidado com gente inconveniente antes. Já precisou tolerar superiores arrogantes na Força Aérea e outras pessoas insuportáveis pelo caminho. Mas havia algo em Chanyeol que lhe dava nos nervos — algo na maneira como ele o olhava, como se esperasse que Kyungsoo fosse alguém que ele claramente não era. Como se o conhecesse.
— Você tem algum tipo de mapa dessas terras? — perguntou Chanyeol, percebendo que precisava conectar alguns pontos em sua mente.
Kyungsoo demorou um segundo para responder. Se virou devagar, observando Chanyeol com um olhar crítico. Ele se inclinava levemente para frente, estudando cada reação sua.
— Acho que um dos livros deve ter um mapa-múndi — respondeu, tentando ignorar o formigamento que se alojava em seu peito.
— Você pode me mostrar?
Kyungsoo suspirou e passou a mão no rosto antes de responder:
— Posso, mas só se você concordar em me acompanhar até a polícia do Condado para eu relatar seu desaparecimento e explicar que você não se lembra de algumas coisas. Sua família deve estar preocupada.
— Condado? Você conhece os pequeninos? — Chanyeol se animou com a ideia de encontrar seus amigos hobbits, talvez não estivessem tão longe de seu reino.
Kyungsoo abriu a boca para contestar, mas desistiu. Levar aquele homem à delegacia era tudo o que ele precisava para voltar à sua impecável rotina.
Ele se virou, pegando as chaves do carro na bancada. Um segundo de hesitação.
“Estou realmente levando esse maluco comigo?”
Não tinha escolha.
— Vamos — disse, olhando para Chanyeol. — Vou te levar até a polícia.
Chanyeol franziu a testa, levantando-se com alguma dificuldade. Ele tentou disfarçar o movimento lento, mas Kyungsoo percebeu quando ele apertou discretamente a lateral do corpo, bem onde a flecha o atingiu na noite anterior.
— Você parece estar piorando — disse sem pensar.
— Eu estou bem. — Chanyeol tentou sorrir, mas sua respiração estava um pouco irregular.
— É mesmo? — Kyungsoo cruzou os braços. — Claro. Todo mundo anda por aí pálido e suando frio.
O elfo limpou a garganta, tentando se recompor.
— Eu só preciso de um pouco de ar.
— Ótimo. Você vai respirar bastante no caminho.
Chanyeol não discutiu. Apenas o seguiu até o tal carro.
A estrada que levava até a cidade estava tomada por uma névoa fina, resquício da tempestade da noite anterior. O silêncio dentro do carro era denso, quebrado apenas pelo som do motor e da música baixa no rádio.
Kyungsoo manteve os olhos fixos na estrada, fingindo que a presença do elfo ao seu lado não era nada demais. Mas era. Principalmente porque, de alguma forma, ele sentia a presença de Chanyeol de maneira intensa. Era como se houvesse uma vibração no ar sempre que o elfo se movia, um calor que se espalhava pelo espaço, tornando impossível ignorá-lo.
E o pior de tudo: o vazio que sempre o acompanhou não parecia tão esmagador.
Chanyeol inclinou um pouco a cabeça, hesitando por um instante antes de falar:
— Você sente isso, não sente?
Kyungsoo piscou, percebendo que estava encarando-o de relance há alguns segundos.
— Isso o quê?
— Essa… conexão. Eu sei que parece absurdo, mas eu posso sentir você. Como se houvesse um fio entre nós.
— Escuta, eu não sei de que droga você tá falando, mas nós definitivamente não temos nada.
Chanyeol sorriu.
— Teimoso como sempre.
— Vou te deixar na delegacia e esquecer que você existiu.
Foi o que disse, mas não o que sentiu.
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